quinta-feira, 11 de junho de 2020

Pythagoras - Journey To The Vast Unknown (1980)


Não sou apreciador da música eletrônica, sobretudo com essa proposta dos dias atuais. Sou adepto da música “orgânica”, com os músicos em palco mostrando todo o seu esforço em elaborar a sua musicalidade com os seus instrumentos, extraindo deles o seu melhor. 

Talvez seja um argumento um tanto quanto ortodoxo ou convencional, mas essa é a minha concepção sobre música. Essa banda que abordarei é conhecida por executar um progressivo eletrônico com o pilar sonoro baseado em sintetizadores, teclados e bateria. 

Não sou o mais adequado para tecer comentários técnicos sobre música, sou movido por emoções que a música me provoca, e dessa forma falo sobre elas, mas não consigo ouvir na música da banda holandesa PYTHAGORAS em seu primeiro álbum, chamado “Journey To The Vast Unknown”, de 1980, como progressivo eletrônico. 


Vejo e ouço um trabalho arrojado e desafiador que entrega uma verdadeira sinergia sonora, capitaneada pelas teclas dos sintetizadores, que é basilar do mais puro e genuíno rock progressivo. Não podemos confundir música eletrônica com recursos eletrônicos extraídos de instrumentos, como é o caso do PYTHAGORAS.

É evidente que bandas como Tangerine Dream e Kraftwerk, por exemplo, trouxe o pioneirismo do uso dos sintetizadores à música, mas o Pythagoras trouxe mais sensibilidade a proposta, mais complexidade, mais dramaticidade. 

“Journey To The Vast Unknown” traz o protagonismo dos teclados e dos sintetizadores, mas também enaltece, com qualidade, o rock progressivo e o space rock, em todas as suas concepções. Assim se prossegue o álbum. É belo, é viajante, mostrando que, apesar de ter sido lançado no primeiro ano da década de 1980, considerada, mercadologicamente falando, um período sombrio para o rock progressivo. 

A formação do Pythagoras se inicia em uma loja de discos na Holanda, na cidade de Haia, chamada Moonlight Records, no final dos anos 1970. O proprietário era o baterista Bob de Jong que havia tocado em bandas locais como Key, Pine-Apple e também era baterista de estúdio da gravadora holandesa Phongram. 

Um dos visitantes assíduos da loja era o tecladista René de Haan, que sempre comentava de ambiciosos projetos de fazer música com base nos sintetizadores. Seu quarto, na casa de seus pais, era o seu QG (Quartel General) e estava repleto de instrumentos musicais como o Korg MS 20 e o sintetizador “trilogy”, um piano digital Roland, um conjunto de cordas Solina e um sequenciador digital Firstman 1024. 

Rene de Haan e Bob de Jong

Bob ficou animado e se deixou levar pelo sonho do jovem René, de apenas 19 anos, levando ao lançamento do álbum “Journey To The Vast Unknown”, de 1980, alvo da resenha de hoje. Teve, à época, uma prensagem privada de  apenas 500 cópias. Bob enviou alguns LPs promocionais para alguns DJs conhecidos como Wim Van Putten, Skip Voogd e Frits Spits. 

Em pouco tempo, a novidade: Sua caixa de correio estava cheia de cartas de todo o país de interessados e fãs pela sua música de sintetizador. “Journey To The Vast Unknown” começa com a faixa título, uma suíte, dividida em quatro fragmentos, totalizando pouco mais de 18 minutos: uma música complexa, introspectiva, melódica, convincente, hipnotizante, viajante com suaves e lentos conjuntos de sintetizadores, com a vivacidade da bateria, a simbiose entre sintetizadores, mellotron e bateria é algo maravilhoso nesta faixa, um prog rock com space rock elevado à potência cósmica e de muita qualidade. 

"Journey to the Vast Unknown Part I and II"

"The Journey to the Vast Unknown Part III and IV"

Na sequência tem “In To The In” traz uma introdução mais soturna e contemplativa, claro, dos sintetizadores, entrando o teclado em uma espécie de prog sinfônico mais introspectivo, com a bateria trazendo uma base mais densa. 

E finalmente fecha com a excelente “When It Comes” que parece fazer com sua alma se desprenda do corpo e se põe a vagar, a voar sem destino. Um coro se faz ouvir, o único e breve momento em que se ouve vocais, com teclados delicados e poderosos, ao mesmo tempo, que te estimula a assobiar instintivamente seguindo o ritmo. 

Tudo conspirava a favor: piano, teclados, sintetizadores e a bateria, entrando em seguida, vagarosa, soft, lenta. Linda faixa para fechar um álbum fantástico, emocionante e que entrega ao público a corroboração de que música precisa de músicos inspirados e arrojados, a música orgânica com recursos eletrônicos que se complementam em uma convergência sonora. 

“Journey To The Vast Unknown” foi relançado  algumas vezes e, em alguns momentos, vendidos por cerca de 5.000 cópias, o que é incrível para uma proposta pouco ortodoxa, como o uso predominante de sintetizadores.




A banda:

Bob de Jong na bateria, percussão e sinos tibetanos.
René de Haan nos sintetizadores, strings, sequencer, mellotron e piano.


Faixas:

1 - Journey to the Vast Unknown parte I
2 - Journey to the Vast Unknown parte II
3 - Journey to the Vast Unknown parte III
4 - Journey to the Vast Unknown parte IV
5 - In to the In
6 - When it Comes 



"Journey to the Vast Unknown" (1980)


domingo, 7 de junho de 2020

Too Much - Too Much (1971)


Sabe quando você ouve uma banda pela primeira vez e é arrebatado por um sentimento de leveza, um estado puro de catarse? Sua alma levita, parece que sua alma sai do seu corpo e te contempla chegando a conclusão de que não somos apenas um pedaço de corpo orgânico, mas um sistema complexo de sentimentos intangíveis aos olhos, mas de emoções que te injeta adrenalinas, que te deixa em puro êxtase. 

A música tem essa capacidade: te dá o oxigênio, te dá a melhor fase de sua vida, te proporciona prazer, o psicotrópico de que precisamos para seguir em dias turbulentos de tantas incertezas. Por que digo tudo isso? Essa banda que falarei agora, que fará com que eu tenha a difícil, mas prazerosa missão, de textualizar traz uma ebulição de sentimentos e que conheci recentemente em uma busca aleatória ou talvez nem tanto, por bandas obscuras ou relegadas ao ostracismo.

Me arrebatou de tamanha maneira que no último minuto de duração do álbum, em ainda estado de pura letargia, despertei com a seguinte frase: Preciso fazer uma resenha sobre essa banda, sobre este álbum! Repetia incansavelmente: Maravilhoso, ótimo, excelente! 

E, já recuperado dessa avalanche sonora, cá estou aqui, protocolando as minhas emoções. A banda se chama TOO MUCH e vem do Japão, mais uma banda japonesa que me apaixonei perdidamente. De acordo com algumas fontes de pesquisa que reuni para a confecção do meu texto, li que o Too Much era frequentemente chamado de “Black Sabbath japonês”, o que parecia ser uma tendência graças ao que o Sabbath vinha fazendo à época, rompendo paradigmas no início dos anos 1970, mas que, nesse caso, não se parece nem um pouco com a banda inglesa. 

Too Much

O único álbum do Too Much, homônimo, lançado em 1971, tem peso, é um hard rock potente, com guitarras raivosas, cozinha poderosa, mas que para apenas por aí. “Too Much” traz algumas pitadas generosas de blues, progressivo e até instrumentos de sopro e orquestra, isso mesmo, violinos e tudo o mais. 

Um álbum extremamente versátil que absorveu tudo o que se fazia na época e que, claro, estava sendo edificado, como hard rock, prog rock etc. Mas antes de falar do álbum, darei uma pincelada na história do Too Much. 

A banda foi formada na cidade de Kobe, nos arredores do porto da cidade, de onde os membros da banda cresceram ouvindo tudo que o ocidente produzia naquela época sobretudo o psicodelismo que estava em alta como nos Estados Unidos e Inglaterra, por exemplo. 

O guitarrista Junio ​​Nakahara passou o fim dos anos 1960 tocando blues em uma banda chamada The Helpful Soul, uma banda de Quioto, formada em 1968 e que lançou dois álbuns. Mas a banda não estava fazendo muito sucesso, o público não estava se interessando muito então Nakahara decidiu seguir um novo caminho, saindo da banda, com a intenção de criar um projeto mais “rocker”. 


Foi a partir daí que o Too Much nasceu. A inspiração veio quando o The Helpful Soul estava abrindo o show de outra seminal banda japonesa, a então recém-formada Blues Creation que, na turnê do seu primeiro álbum, cuja resenha está aqui para leitura (Blues Creation - The Blues Creation (1969)), tocava em Kyoto e quando Nakahara viu aquilo tudo ficou excitadíssimo decidindo criar a sua nova banda. 

A turnê do Blues Creation se chamava “Too Much”, daí veio a inspiração para o nome da banda de Junio Nakahara. Com a banda formada Nakahara convida o cantor Juni Lush, mudou seu nome para Tsomu Ogawa e trouxe consigo os colegas de escola Hideya Kobayashi, na bateria e Masayuki Aoki no baixo.


Com a banda pronta e afiada foi assinado um contrato com a Atlantic Records, em 1970, nascendo para o mundo o álbum “Too Much” um ano depois. Um verdadeiro hino proto metal com doses de blues e rock progressivo. 

O álbum é inaugurado com a monstruosa “Grease it Out” com um riff pesadão, denso, sujo, lembrando um doom metal arrastado e sombrio. A base da música se faz com riffs de guitarra, fazendo dela um heavy metal de vanguarda sem sombra de dúvida, com um vocal bem forte e limpo. 

"Grease It Out"

“Love That Binds Me” é uma maravilha ao estilo bluesy, a guitarra se comunica, canta, chora aos virtuosos dedilhados de guitarra de Nakahara e do vocal mais grave de Juni. Um som com personalidade e dramaticidade. 

"Love That blinds Me"

“Love is You” traz de volta aos eixos do hard rock com sustentabilidade dos riffs de guitarra e vocal abafado e que no meio da música ganha velocidade, mais agressividade nos remetendo aos tempos que viria com o heavy metal oitentista. “Reminiscence” traz um pouco de melancolia ao álbum, uma linda e sombria balada com um belíssimo e desconcertante solo de guitarra. Viagem garantida! 

"Reminiscence"

“I Shall Be Released” continua na proposta de balada, com uma pegada mais country com o destaque para o vocal bonito e limpo de Juni Lusch e a guitarra solando de Nakahara que quase fala de tão linda. “Gonna Take You” faz o hard rock voltar a cena com, mais uma vez, riffs capitaneando, trazendo protagonismo a faixa, com destaque para a bateria forte e marcada de Aoki. Faixa vibrante e avassaladora! 

"Gonna Take You"

E o fim e algo simplesmente apoteótico com “Song For My Lady (Now I Found)”. A faixa mais progressiva do álbum que começa com a flauta e o dedilhado delicado do violão com a orquestra e violino ao fundo e com o vocal de Juni por cima com tanta intensidade e drama, fazendo o ouvinte se arrepiar dos pés a cabeça. E tudo vai ficando mais encorpado, os instrumentos em uma simbiose perfeita com a orquestra, os violinos, tudo conspira a favor de emoções que vão ficando á tona. Espetacular! 

"Song For My Lady (Now I Found)"

O estilo afro e descolado de Juni Lusch chamou a atenção dos empresários da Atlantic Records que viu no vocalista uma fonte de ganhar dinheiro e com potencial de sucesso, fazendo com que, mesmo que indiretamente (ou não), dissociasse este da banda, sendo os demais uma sombra do cantor, sendo esse o começo do fim da banda que encerrou as suas atividades, logo após o lançamento desse magnífico álbum que certamente está entre os melhores eu ouvi nos últimos anos.


A banda:

Junio Nakahara (Tsomu Ogawa) na guitarra
Juni Lusch no vocal
Hideya Kobayashi na bateria
Masayuki Aoki no baixo

Com:

Mickie Yoshino no piano e teclados
Isao Tomita no arranjo orquestral e instrumentos de sopro (flauta)

Faixas:

1 - Grease It Out
2 - Love That Binds Me
3 - Love Is You
4 - Reminiscence
5 - I Shall Be Released (Bob Dylan)
6 - Gonna Take You
7 - Song For My Lady




"Too Mucho" (1971)




Bloody Mary - Bloody Mary (1974)


O conceito de obscuro, de banda obscura, nos tempos atuais, pode ser relativo. Com o advento das tecnologias que envolvem a informação algumas bandas tidas como raras, obscuras, desconhecidas podem ter seu material, seus álbuns em evidência, visualizados por um número maior de pessoas em todo o mundo. 

Redes sociais, canais de música, sites, plataformas de músicas e tantos outros formatos trazem hoje ao ouvinte a possibilidade, em tempo recorde, de ouvir e ter acesso a bandas que jamais ouvira falar. E não podemos esquecer as pessoas, os donos de veículos de comunicação, que são verdadeiros abnegados, que, com muito afinco, divulga, por intermédio de todas essas ferramentas de informações virtuais, essas bandas, sem contar que alguns selos undergrounds que resgatam materiais não lançados na época, trazendo a luz magistrais álbuns e ressuscitando, muitas das vezes, as próprias bandas. 

Claro que a proporção, em termos de fãs e reconhecimento não será daquela banda consagrada, gigante, que tem décadas de sucesso e altas vendas de álbuns, reforçando a condição das bandas obscuras nesse estágio ainda que tenha seu álbum divulgado por fãs e gravadoras em tempos de encurtamento das informações. 

Mas tem uma banda que, mesmo em tempos de informação em tempo real e ferramentas tecnológicas de comunicação em massa, ainda se coloca em uma posição obscura, diria rara a muitos ouvidos, mesmo aqueles ávidos por bandas obscuras: Falo do BLOODY MARY. 

A banda foi formada na cidade de Nova Iorque e pouco se tem de informação da mesma até os dias de hoje. É tudo escasso, envolta em uma sombra de boatos e evidências questionáveis. O Bloody Mary gravou apenas um álbum, no ano de 1974, autointitulado, com uma limitadíssima quantidade de 1.000 cópias pelo selo "Family Productions Inc." que teve vida curta, bem como a banda ou pelo menos é que as poucas informações conferem.


“Bloody Mary” foi gravado no  UltraSonic Studios, em Hempstead, Nova Iorque, pelo famoso produtor Vinny Testa, um figurão da indústria fonográfica, da Community Productions, e todas as faixas foram creditadas ao Bloody Mary. Mas o que faz dessa banda obscura e rara são as névoas, as sombras envoltas em sua breve vida: o mistério sobre os integrantes que a compuseram. 


Não se sabe quem tocou guitarra, bateria, baixo, teclado e vocal, daí se creditando as faixas no nome da banda. Uma banda sem rosto. E com esse mistério, surge outro. O Bloody Mary teria uma relação muito tênue com outra seminal banda, considerada um “clássico do obscuro”, o Sir Lord Baltimore. 

Havia rumores de que o baterista e vocalista do “Sirlordão”, John Garner teria tocado na banda, teria sido o vocalista do Bloody Mary e que até hoje não teria sido confirmado. Mas em maio de 2007 o próprio Garner negou qualquer conexão com a banda dizendo inclusive que nunca ouvira falar do Bloody Mary até, claro, ser questionado sobre o seu possível vínculo com a banda. Há outro boato também: de que "Bloody Mary" seria o terceiro álbum do Sir Lord Baltimore, o que o baterista/vocalista também não confirma.

John Garner

Para variar e como boato gera mais boato, há outra história de que o Sir Lord Baltimore estaria gravando o seu segundo álbum no mesmo estúdio e, ao mesmo tempo, no mesmo período que o Bloody Mary, em Hempstead, em Nova Iorque, quando Garner foi convidado para ser o vocalista, mas essa informação não tem sustentação, há um equívoco cronológico, haja vista que o segundo álbum do Sir Lord Baltimore, homônimo, fora lançado em 1971 e o álbum do Bloody Mary foi concebido 3 anos mais tarde, em 1974. 

Mas mistérios, obscuridades históricas e boatos à parte o álbum é um excelente e catártico hard rock típico, mas avassalador, vigoroso e poderoso com sustentação em riffs e solos bem estruturados de guitarra com uma boa camada de teclados e pitadinhas progressivas “temperando” o som, tendo influências de bandas como Uriah Heep, Deep Purple e algumas bandas alternativas norte americanas como Bull Angus e até o próprio Sir Lord Baltimore. 

O álbum abre com “Dragon Lady” que timidamente é introduzida por um solo de bateria que vai encorpando com riffs de guitarra, uma discreta camada de teclados e irrompe em uma hecatombe instrumental e um vocal agressivo e intimidador com um excepcional alcance, muito agudo e vai cadenciando entre a leveza e o peso explosivo. 

"Dragon Lady"

“Highway” é mais solar, dançante, energética, tendo nos teclados a sua estrutura sonora, mas com solos de guitarra simples, mas envolventes. “Riddle of the Sea” começa introspectiva, um violão acústico embalando um vocal soturno, misterioso, mas vai ganhando força, de forma gradativa, uma balada rock cheia de personalidade que ganha robustez com solos de guitarra mais agudos e altos e bateria seguindo o peso. 

"Highway"

Ponto alto do álbum sem dúvida “Free and Easy” chega mais animada também, mas não menos pesada, um típico hard rock de “festa” com um duelo, mais do que salutar, entre guitarra e teclado aqui tocado de forma mais frenética. “You Only Got Yourself” te leva a uma viagem com dedilhados de guitarra inaugurais, mas que logo se revela o peso capitaneado pela bateria e o teclado trazendo uma camada mais progressiva a faixa cheio de viradas rítmicas. Excelente música! 

"Free Easy"

“Can You Feel It (Fire)” esmurra a porta com um riff sujo e pesado de guitarra, sendo sustentado por uma “cozinha” excelente e energética, o poderio bélico instrumental dessa música é incrível. E fecha com “I Hear the Music Playing” com um doce piano na introdução, uma balada, um momento mais “brando” do álbum, com um vocal mais limpo e bem executado, mas não se engane ele explode em um hard rock intenso e cadenciado. 

"Can You Feel It (Fire)"

Apesar de ser um grande álbum, um espécime típico do mais puro e genuíno hard rock praticado em sua intensidade, em meados dos anos 1970, quando fora lançado, as poucas informações que há sobre o futuro da banda após o lançamento é de que não houve o futuro, finalizando as suas atividades logo após o surgimento do álbum de 1974. 

Teve mais um relançamento pelo selo sul coreano chamado "Big Pink", um mini LP, em 2014, e infelizmente sem a relação dos integrantes da banda. Isso sim é obscuridade, mas o álbum sim, esse está evidente aos olhos e ouvidos de todos, provando o quanto é uma pérola bruta recomendadíssima.

A banda:

Sem créditos

Faixas:

1 - Dragon Lady
2 - Highway
3 - Riddle of the Sea
4 - Free And Easy
5 - You Only Got Yourself
6 - Can You Feel It (Fire)
7 - I Hear the Music Playing




"Bloody Mary" (1974)



quinta-feira, 4 de junho de 2020

Frumpy - 2 (1971)


Quando falamos das bandas completas de rock progressivo alemão, aquelas bandas que romperam com os paradigmas sonoros, que bateram com o pé na porta, que mudaram o curso da história, mas que não tiveram o devido reconhecimento e crédito da cena, da indústria, dos fãs, não podemos esquecer o grande e eclético FRUMPY.

A história do Frumpy começa na cidade de Hamburgo, em 1965, com uma banda local chamada Die City Preachers que é considerada a primeira banda de folk alemão daquela região, quiçá da Alemanha. Descontente com o vocalista Dagmar Krause, o baterista Carsten Bohn resolveu deixar a banda em 1969 e com ele foram outros integrantes da banda. O tecladista Jean-Jacques Kravetz, o baixista Karl-Heinz Schott e a vocalista Inga Rumpf se juntaram ao Carsten e formaram o The New Preachers. 

Die City Preachers 

Notando rapidamente a falta de criatividade no nome, mudaram para Frumpy. A banda participou de alguns festivais, principalmente do "Essen International Pop & Blues Festival". Foi lançada uma compilação com duas músicas ao vivo das bandas que participaram do festival e as faixas escolhidas do Frumpy foram "Duty" e "Floating".


A boa aceitação lhes rendeu alguns shows pela Alemanha, França e Holanda, além da participação no programa de TV "Kiel Progressive Pop Festival". Assim lançaram seu primeiro álbum chamado “All Will be Changed”, em 1970, um ótimo álbum de estreia que, por não possuir guitarra, exploraram o uso do hammond. 

"All Will be Changed" (1970)

O álbum teve um reconhecimento do público e da crítica e rendeu alguns shows com o Yes. Mas, ainda faltava algo, faltava peso. Então a decisão foi unânime: "Vamos colocar em nossa música um guitarrista!". Assim entrou Rainer Baumann. A notícia foi recebida com ceticismo pelos fãs e pela crítica, mas eles compraram a briga e para solidificar essa decisão, tornou-se necessário a produção de um álbum. 

Rainer Baumann

E foi assim que nasceu “Frumpy 2”, de 1971, alvo da resenha de hoje. A formação da banda que trouxe ao mundo o “Frumpy 2” tinha em seu line-up: Inga Rumpf: vocal, Jean-Jacques Kravetz: órgão, Karl-Heinz Schott: baixo, Carsten Bohn: bateria e Rainer Baumann: guitarra. 

Frumpy

Agora falemos do álbum faixa a faixa. Começa com “Good Winds” com um lindo solo de guitarra mostrando a nova faceta sonora da banda, com muito mais substância e arrojo. Um misto de peso, hard rock, progressivo e música clássica faz dessa música a extensão de que é o álbum em sua totalidade.

"Good Wings"

“How the Gipsy Was Born” é a música de grande sucesso do álbum, foi a escolhida para ser o single e o que dizer desse som, com grandiosos solos de guitarra em uma salutar briga com o órgão com destaque excepcional do vocal rouco e poderoso de Inga que dá todo o tempero a música.

Frumpy - Hpw the Gipsy Born, live at Beat Club, Rádio Bremen, 1971

“Take Care of Illusion” tem viradas de bateria de tirar o fôlego e um órgão tocado de forma tresloucada e frenética que não tem como não deixar de bater cabeça com essa música.

Frumpy - take Care of Illusion, live at Beat Club, Rádio Bremen, 1971

“Duty” fecha o disco com muito hard progressivo de qualidade, mesclando com uma psicodelia, uma levada meio jazzística, um destaque para o hammond e longas viagens instrumentais. 

"Duty"
É inegável o poder de fogo do Frumpy em seus dois primeiros álbuns e que também sintetiza capacidade camaleônica do Frumpy em levar inovações em suas camadas sonoras. Inga certamente é uma das melhores vocalistas femininas da história do rock progressivo, do rock n’ roll em todas as suas vertentes. 


A rainha Annie Haslam tem seu posto de grande vocal, símbolo do rock progressivo, mas algo me diz que Inga é a melhor por trazer, juntamente com o Frumpy, uma mescla de estilos sendo difícil categorizar a banda e o seu estilo de vocal. O vocal de Inga sem sombra de dúvidas é o grande regente disso tudo.



A banda:

Inga Rumpf nos vocais
Jean-Jacques Kravetz nos teclados
Karl-Heinz Schott no baixo
Carsten Bohn na bateria
Rainer Baumann na guitarra

Faixas:

1 - Good Winds
2 - How the Gipsy Was Born
3 - Take Care of Illusion
4 - Duty






segunda-feira, 1 de junho de 2020

Cinderella - Danish Progressive Rock 1970 (1990)


O frio dos países nórdicos está, felizmente, restrito ao clima. O rock n’ roll pega fogo com as bandas que lá brotam, com o perdão da analogia infame e sem criatividade. A riqueza sonora é grande, que varia do virtuosismo, complexidade à rusticidade e aspereza. 

Há para todos os gostos! Essa que tomará algumas linhas desse texto é muito rara, pouquíssima conhecida e vem da Dinamarca, da cidade de Randers, e se chama CINDERELLA. Não se enganem essa não é aquela banda de glam metal ou vulgarmente conhecida como “heavy metal farofa” que proliferou na segunda metade da década de 1980 que os músicos vestidos de mulher e com a cara repleta de maquiagens, numa androgenia que invadiu a MTV. 

O Cinderella dinamarquês, além de ter sido o original, o primeiro, surgida em 1970, tinha um som cru, pesado, agressivo e direto. Um hard rock viril, intenso e vigoroso. Embora na capa esteja estampada que o Cinderella era uma banda dinamarquesa de rock progressivo, em nada tinha de prog rock e talvez tenha usado o título de banda progressiva para ter um pouco de publicidade, haja vista que o rock progressivo estava nascendo no início daquela década e ganhando alguma notoriedade e adeptos. 


O som é pesado, com guitarras distorcidas, riffs em abundância, envolto em uma atmosfera psicodélica, ácida e chapante capaz de deixar o ouvinte mesmerizado, louco e arrebatado por uma música poderosa.

É evidente as influências de Jimi Hendrix, Led Zeppelin entre outras bandas pesadas da transição dos anos 1960 e 1970. Era um power trio que tinha a seguinte formação: Allan Vokstrup (bateria), Henning Kragh Pedersen (guitarra, vocais) e Søren Hilligsøe (baixo, vocais). 


Poucas são as informações sobre como a banda surgiu e foi formada, bem como o histórico de seus integrantes, mas o seu primeiro álbum, de 1970, não fora lançado na época, foi apenas produzido e gravado naquele ano. Chegaram a lançar um single de nome "The Sandbox Series", em 1970, mas o álbum empacou.

Em 1972 os master tapes foram perdidos quando a gravadora Spectator Records sofreu um incêndio embargando o lançamento. Mas as tais fitas ainda existiam e foi descoberta em 1990 quando alguns jovens estudantes de música faziam uma pesquisa sobre o rock dinamarquês e as encontrou! O “Danish Progressive Rock 1970”, como foi chamado foi lançado 20 anos depois de sua gravação. Com a redescoberta deste material a própria Spectator Records lançou o álbum do Cinderella.




Este álbum não goza de boa qualidade na gravação e tudo leva a crer que foi gravado ao estilo “alive in studio” e é inaugurado com a faixa “Break Song-Red House” com um solo de bateria e um baixo pulsante, a cozinha super afiada, seguido de uma guitarra meio bluesy, com passagens jazzísticas que se alternava no hard rock. Um espetáculo instrumental transborda! Parecia-me um momento de improvisação, de libertação criativa total, sem amarras. 

"Break Song - Red House"

“Carlt” traz uma envolvente percussão, meio tribal, psicodélica, uma música cheia de candências, o peso é deixado de lado, uma sonoridade ácida, lisérgica, resquícios dos áureos momentos do flower power, mas um tanto quanto indulgente e arrogante. 

"Carlt"

“Parchman Farm”, o clássico do blues, de Mose Allison, também está no line up e que foi gravado por muita gente do rock, como o Cactus, por exemplo. Na versão do Cinderella entrega um blues mesclado a um rockabilly, algo bem dançante e solar. Ótima versão! 

"Parchman Farm"

“Sexbombe” já entrega de cara solos de guitarra arrasadores com uma bateria carregada de jazz, soa um pouco comercial, mas de grande qualidade. “Fire”, o clássico eternizado na voz de Jimi Hendrix, e que faz jus ao nome, quente, sedutora e poderosa! O Cinderella não trouxe novos arranjos, novidades, sendo fiel a original, mas a executando com precisão e qualidade. 

"Fire"

“Ana-T-Nas” começa ao estilo Cream, um proto metal, um heavy metal de vanguarda, já esmurrando a porta com bateria pesada, baixo pulsante e alto, solos distorcidos de guitarra, um verdadeiro arrasa quarteirão. A cozinha arrasa nesta faixa! Baixo e bateria em uma sinergia incrível! 

"Ana-T-Nas"

“Mr. Wild” fecha o disco, curto, com pouco mais de trinta minutos, com um solo de guitarra ao estilo surf music inaugurando a faixa, a sensação é de ser levado gentilmente pelas ondas calmas, com o vocal finalmente revelando seu valor. Parece outra banda, dada a versatilidade personificada nessa faixa que finaliza, com chave de ouro, essa pérola sonora.

"Mr. Wild"

Um álbum excelente e que graças ao acaso ganhou a luz, nasceu para o mundo há 30 anos atrás. Em 1971 um segundo álbum fora gravado na cidade de Copenhague com Pete Quaife como produtor. 

"Udkoksning I Tre Satser" (2006)

Este material permaneceu inédito na época e finalmente também viu a luz, mas apenas em 2006, e que você pode fazer o download neste link. Isso se deve a gravadora Karma Music em uma espécie de compilação, com as faixas originais de 1970 com algumas versões de músicas ao vivo recebendo o nome de “Udkoksning I Tre Satser”.Outro registro essencial que vale a audição.

Bandas obscuras, esquecidas, relegadas a própria sorte... Deem o nome que quiserem, mas o que poderia se taxado de fracasso no passado, hoje, ao ouvirmos, nos arrepiamos e chegamos a acalentadora constatação de que bandas como o Cinderella deixaram uma marca indelével para a história da música pesada em todos os tempos. Uma referência! Uma pérola perdida e altamente recomendada!





A banda:

Henning Kragh Pedersen na guitarra e vocal
Søren Hilligsøe no baixo e vocal
Allan Vokstrup na bateria


Faixas:

1 - Break Song incl. Red House
2 - Carlt
3 - Parchman Farm
4 - Sexbombe
5 - Fire
6 - Ana-T-Nas
7 - Mr. Wild




Cinderella - "Danish Progressive Rock" (1970 - 1990)