Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de janeiro de 2026

Grupo Um - Marcha Sobre a Cidade (1979)

 

A segunda metade dos anos 1970 a música instrumental estava passando por uma série de mudanças mercadológicas e estéticas, principalmente diante de um cenário em que o punk, a música “disco” e a new wave começava a ganhar tendência entre os jovens e que logo se revelaria em uma onda modista que ganharia o cerne das atenções.

Mas no Brasil estava começando uma abertura por intermédio de lançamentos independentes. Na Europa existia um movimento em torno da gravadora ECM Records, que lançava álbuns de jazz com uma estética própria. Nos Estados Unidos existiam várias tendências, desde o radicalismo tradicionalista até o experimentalismo eletrônico que se desdobrava em vários novos “formatos” sonoros. E nesse contexto que, apesar do sucesso comercial do punk, da “disco” e da “new wave”, que a música instrumental estava ganhando novas roupagens.

E a banda brasileira chamada GRUPO UM surgiria exatamente nessa efervescência. A banda nasceria, embrionariamente, em 1976, período em que Zé Eduardo Nazário, bateria e percussão, Lelo Nazário, pianos e teclados e Zeca Assumpção formava a banda “Cozinha Paulista”, de Hermeto Pascoal. Durante os períodos em que Hermeto se ausentava para algum trabalho fora do Brasil ou quando não tinha shows agendados, o trio se reunia na casa de Zé Nazário, na Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, para ensaiar, para tocar.

Grupo Um com Hermeto Pascoal no MAM (1976)

Em julho de 1976, ao lado de Luiz Roberto Oliveira, dos irmãos Nazário (Zé e Lelo), o Grupo Um realizou o seu primeiro show e com um sintetizador eletrônico, um ARP 2600), um dos primeiros que se tinha notícia no Brasil à época. A instrumentação contava com piano acústico e elétrico, fita pré-gravada (lançada a partir de um gravador), bateria e percussão, o que incluía, entre outras coisas, objetos diversos que eram quebrados dentro de uma enorme bacia, constatando uma incrível capacidade de improvisação, experimentalismo e minimalismo musical. No show teve até a pausa para o café!

Grupo Um

Nesse período o grupo Um gravou trilhas sonoras para filmes (longas-metragens e científicos) e até mesmo música para balé, como o “Transformations”, do coreógrafo japonês Takao Kusuno. Em 1977, quando a banda deixou efetivamente de seguir com os shows com Hermeto Pascoal, o Grupo Um fez a sua primeira sessão de estúdio, no “Vice-Versa B”, que pertencia ao maestro Rogério Duprat, já contando com a participação de Roberto Sion, no sax soprano e Carlinhos Gonçalves, na percussão.

A gravação era feita em poucas tomadas, com todos tocando juntos e em um espaço bastante limitado, simultaneamente, sem “play back”, como manda a tradição. A banda gostou muito do resultado e o próximo passo era levar o material gravado para às gravadoras. Os músicos perderam meses, recebendo sempre respostas negativas. Mas seguiram com seus ensaios e realizando algumas apresentações.

O trabalho com Egberto Gismonti, que se iniciou em 1977, obrigou o Zé Eduardo Nazário a abandonar o projeto do Grupo Um por algum tempo, muito em função das viagens, ensaios e gravações. Ao retornar da turnê “Tropical Jazz Rock”, em maio de 1979, se desligou finalmente do “Academia de Danças” e voltou a trabalhar com Lelo e Zeca no Grupo Um, organizando nova sessão de gravação no mesmo estúdio “Vice-Versa B”, pequeno e sem a estrutura adequada, afinal era tudo que o dinheiro dos músicos podia pagar.

Gismonti com Grupo Um 

Mauro Senise, saxofonista, foi convidado, Carlinhos Gonçalves, percussionista, foi mantido e dessa sessão, entre 26 e 27 de setembro de 1979, registrada quase que efetivamente “ao vivo”. Assim surgia o primeiro álbum, lançado oficialmente, naquele mesmo ano “Marcha Sobre a Cidade”, conhecido como o primeiro trabalho de música instrumental independente no Brasil que se tenha notícia, em uma tiragem de 1.000 cópias. Vale como registro histórico que o lado “A” inteiro foi gravado em uma única tomada, afinal, não tinha estrutura e dinheiro para longas e longas sessões.

Mauro, Zeca, Felix, Lelo e Zé

A estreia do novo trabalho foi no Teatro Lira Paulistana, a “meca” das bandas independentes, fazendo história no Brasil durante os anos 1980. “Marcha Sobre a Cidade” recebeu ótimas críticas, vide os recortes de jornais e revistas que foram publicadas à época e foi apresentado ao público em várias regiões brasileiras, nas suas principais capitais.

 

Grupo Um em ação no Lira Paulistana (1981)

O reconhecimento foi considerável a ponto de ganhar terras europeias e em 1983 o álbum foi lançado na França, pelo selo Syracuse, com uma capa bem diferente do original. O Grupo Um realizou uma turnê naquele país e visitando também a Suíça, tendo participado do Festival de Jazz de Grenoble e nas cidades de Toulose, Montpellier e Pari, onde gravou um show no “Studio 106”, da Raio France e se apresentou na conhecida casa de jazz “New Morning”, além de ter gravado com o cantor e compositor francês Frederic Pagés o álbum “Chansons Mètisses”, finalizando a turnê em Genebra. A banda estava no seu auge!

“Marcha Sobre a Cidade” é calcado primordialmente no jazz, no jazz fusion, com experimentações e improvisações rítmicas e melódicas incríveis, estimulantes e até mesmo intrigantes, com construções que trazem referências do rock n’ roll, a música brasileira e música africana, graças ao seu trabalho ousado na percussão. O debut do Grupo Um definitivamente é para quem aprecia um som ousado e pouco usual, que entrega um minimalismo ao extremo, que lembra o krautrock germânico, com texturas experimentais e variações e desafios sonoros.

O primeiro álbum do Grupo Um estava longe de ser maçante, por conta das inúmeras improvisações e experimentalismos. Ele dispunha de uma estimulante pulsação, porque trazia o conceito regional muito acentuado, texturas tipicamente brasileiras e africanas, um genuíno “beat” brasileiro, um legítimo e solar free jazz brasileiro.

O álbum é inaugurado com a faixa “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]” que já começa com o excelente trabalho de percussão ao estilo música brasileira, a brasilidade mesclada a jazz rock, com um trabalho, igualmente excelente, do sax, melódico e dançante. Assim é a faixa: dançante, cheia de energia, animada. Entre solos rápidos de bateria e de sax, a música vai ficando mais encorpada, um jazz fusion com a cara do Brasil, o balanço do baixo, o frenesi dos teclados. Uma música incendiária para abrir o álbum.

 “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]”

Segue com “Sangue De Negro” que traz um caráter, uma textura mais experimental, com solos de bateria, trazendo um jazz mais “root”, mas por outro lado percebe-se algo mais minimalista, que me remete a um krautrock, com pitadas psicodélicas. Porém, ao longo da música, vai ganhando mais corpo com a bateria mais pesada, um fusion novamente, mas logo retoma o experimentalismo kraut.

"Sangue de Negro"

A faixa título, “Marcha Sobre A Cidade”, se revela mais a cara do álbum, um jazz contemporâneo, com a pegada fusion, a pitada mais pesada. Por vezes contemplativa e viajante, graças a linda execução do sax. É progressiva, cheia de viradas rítmicas, é psicodélica, é lisérgica, é experimental, é viva, é latente. Se mostra complexa, versátil. Aqui a banda está em nível criativo e de improvisação únicos. Sem dúvida uma das melhores faixas do álbum.

"Marcha Sobre a Cidade" - Ao vivo (1980)

“A Porta do ”Sem Nexo” mescla o free jazz, com a sonoridade experimental bem evidente, trazendo uma versão mais kraut, experimental, com ruídos, sons mais introspectivos, diria algo soturno, sombrio. Flautas, percussão, teclados, tudo trazendo texturas minimalistas e ousadas para a sua época. Definitivamente “Marcha Sobre a Cidade” é um álbum à frente do seu tempo.

"A Porta do Sem Nexo" - Ao vivo (1980)

“54754-P(4)-D(3)-0” segue com um jazz fusion mais puro e genuíno. Aqui é a música mais nervosa, um sax mais frenético e cheio de energia e até mesmo desconcertante, poderoso. A bateria segue batendo forte também, em um “duelo” mais do salutar com o sax. As teclas não ficam atrás, cheio de energia!

“54754-P(4)-D(3)-0”

E fecha com “Dala” que linda, viajante e contemplativa, segue, reinando absoluta durante toda a música, com um piano ao fundo que, em uma textura acústica, estica o tapete vermelho para o protagonismo do sax.

"Dala"

“Marcha Sobre a Cidade”, mesmo sendo um dos primeiros ou o primeiro álbum de música instrumental concebido de forma independente no Brasil, atingiu, de forma inacreditável, um sucesso que parecia, diante desse cenário, inimaginável. Era como se tivesse passado pelo buraco de uma agulha, trazia luz a um caminho escuro e completamente tortuoso que era do jazz fusion, da música experimental e instrumental em um país, em um mundo onde reinava o punk, a “disco music” e a new wave.

Era a possibilidade de abrir um caminho, com a sua luz, sendo um farol para tantas outras bandas que quisessem seguir a trilha, uma nova estrada para lograr um objetivo maior. Este lugar, ainda não explorado, situava-se além da fronteira do permitido, que era fortemente guardada pelos “baluartes” e “arautos” do colonialismo provinciano, que só abriam as portas para os que chegassem do exterior, mesmo que tivessem saído daqui, voltando depois com o selo de “importado”, para que pudessem ser “legalizados” e aceitos no meio artístico e no show business, principalmente em se tratando de música instrumental.

Os anos 1980 entraram e foram frutíferos para o Grupo Um. Foram gratificantes porque os músicos mostraram suas caras com seus próprios nomes, sem a tutela de quem quer que fosse, sendo músico, empresário ou produtor. Eles estavam conseguindo mostrar a sua música “louca” para o máximo de pessoas possível, mesmo que trafegando na zona underground. Estavam ganhando visibilidade, tanto que Carlinhos Gonçalves recebeu um convite para tocar na Austrália, sendo sucesso por muitos anos. Zeca Assumpção optou por mudar-se para o rio de Janeiro, em vistas das boas propostas de trabalho que surgiram. Em seu lugar ficou seu melhor aluno, que acompanhava de perto as apresentações do Grupo Um, esse era Rodolfo Stroeter que permaneceu na banda até a sua dissolução, em 1984.

Outro que se juntaria ao Grupo Um era Felix Wagner, nascido na Alemanha e vivendo, desde adolescente no Brasil. Paralelamente ele integrou com Lelo e Rodolfo o “Symmetric Ensemble”, uma banda composta por dois pianos e um baixo!

Em 1981 o Symmetric Ensemble faria uma turnê importante para a Europa cabendo a Zé Eduardo Nazário continuar com o Grupo Um. Além de Mauro Senise, participaram o pianista Nelson Ayres e os baixistas Evaldo Guedes em algumas oportunidades e Paulinho Soveral em outras, mantendo a banda em atividade, fazendo alguns shows.

Quando o resto da banda retornou dessa viagem à Europa, decidiram se reunir para iniciar o trabalho do segundo álbum, com novas composições que que Lelo vinha desenvolvendo. Assim nasceria para o mundo “Reflexões sobre a Crise do Desejo”, lançado em 1981, nos estúdios JV, dos músicos Vicente Sálvia e Edgard Gianullo, em São Paulo, que tinha um bom equipamento e contava com um excelente técnico, Sérgio Kenji Okuda (Shao-Lin), jovem, mas com bastante experiência e atento às nossas necessidades para colher o melhor resultado possível. O álbum foi considerado pela revista Manchete um dos dez melhores de 1981, além de conquistar elogios em resenhas dos mais conceituados críticos de música da época, colocando a produção independente no mais destacado patamar até então atingido por qualquer músico ou banda instrumental no Brasil.

"Reflexões Sobre a Crise do Desejo" (1981)

Em 1982 iniciaria a fase mais “colorida” do trabalho da banda, a começar pela capa do terceiro álbum do Grupo Um, “A Flor de Plástico Incinerada”. Esse LP foi gravado em outubro, época que marcou o início de uma transição nas carreiras dos jovens e talentosos músicos, sendo a eles oferecido o custeio da gravação e da produção gráfica do novo disco pelo selo “Lira Instrumental”, criado por um acordo entre o Teatro Lira Paulistana em parceria com a gravadora Continental e artistas que vinham apresentando trabalhos com regularidade na programação do teatro localizado à Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, São Paulo.

"A Flor de Plástico Incinerada" (1983)

Isso se devia ao notável crescimento das bandas de música instrumental, que passaram a ser vistos como um “filão” comercialmente explorável. Nesse mesmo pacote foi oferecido a zé Eduardo Nazário também o custeio da gravação e produção gráfica de seu primeiro álbum solo, “Poema da Gota Serena”, que foi realizada no mesmo estúdio (J.V.) e no mesmo período em que foram feitas as gravações de “A Flor de Plástico Incinerada”. Além disso, foram oferecidas também as passagens para a turnê europeia do Grupo Um, onde seria lançada a versão francesa do LP “Marcha sobre a Cidade” pela gravadora parisiense “Syracuse”.

Grupo Um no aniversário de São Paulo (1983)

A banda faria uma pausa em 1984 e que se tornaria um hiato por mais de trinta anos quando decidem retornar em 2015, gravando um registro ao vivo chamado “Uma Lenda ao Vivo”, em 2016. O show, gravado no dia 20 de agosto de 2015, no Teatro Sec Pompeia, foi diante de uma plateia atenta e afetuosa e é um registro da noite memorável que marcou a volta do Grupo Um aos palcos e que assinalaria outro fato marcante: os 40 anos da fundação da banda.

Grupo Um - SESC Instrumental Brasil (Ao Vivo)

"Uma lenda Ao Vivo" (2015)

As incursões pelo free jazz; pelo primitivismo étnico; pelo abstracionismo da música impressionista; pela fragmentação da música minimalista; pelos ruídos pelas células harmônicas e melódicas da música contemporânea; bem como pelas harmonias complexas da música brasileira; além das inúmeras experiências atonais do jazz contemporâneo, projetam o Grupo Um para além do música plástica e careta e muito próximo do experimentalismo e das improvisações livres de qualquer coisa modista e sempre “escravo” da criatividade sem arestas. “Marcha Sobre a Cidade” lançado de forma independente em 1979, com segunda edição pelo selo Lira Paulistana. Lançado na França pelo selo Syracuse em 1983. Reeditado em CD pela Editio Princeps em 2002.




A banda:

Zé Eduardo Nazario na bateria e percussão

Zeca Assumpção no baixo (Piano na Faixa 6)

Lelo Nazário no piano

Carlinhos Gonçalves na percussão

Com:

Roberto Sion no sax soprano (Faixa 8 – Bônus track)

Mauro Senise na flauta, sax alto e soprano (Faixas de 1 a 7, esta última Bônus Track)

 

Faixas:

1 - [B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]   

2 - Sangue De Negro        

3 - Marcha Sobre A Cidade         

4 - A Porta Do ''Sem Nexo''          

5 - 54754-P(4)-D(3)-0        

6 – Dala

 

Bônus Tracks:         

7 - N'daê      

8.1 - Festa Dos Pássaros 

8.2 - C(2)/9-0.74-K.76



"Marcha Sobre a Cidade" (1979) - Audição aqui!






























































sábado, 25 de janeiro de 2025

Alma da Terra - Alma da Terra (1982)

 

Anos 1980, Brasil. A cena “Brock” começava a despontar. Bandas como Paralamas do Sucesso, Titãs e músicos como Lobão e Lulu Santos, ambos ex- Vimana, despontava com suas músicas ao estilo new wave e pós punk se tornando uma febre da música no Brasil e deve-se muito a rádios como a Fluminense, sediada no Rio de Janeiro, mais precisamente na minha cidade, Niterói, que, de forma abnegada, divulgava seus trabalhos inaugurais que ganhava repercussão, tendo o carinho e interesse de alguns críticos musicais, programas de TV como do apresentador Raul Gil, por exemplo.

O mercado, ávido por “novidades” absorvia, sugava ao máximo essas bandas que, com a notoriedade faziam shows e mais shows tendo, como palco emblemático, o Circo Voador, também no Rio de Janeiro. Mas o mercado segmenta, é perverso, colocando a música em último lugar, afinal o rock brasileiro não se resumia a essa cena, apenas.

Muitas bandas que seguiam propostas menos ortodoxas à época, ou seja, aquelas que não executavam a tão falada new wave e pós punk, seguiam vilipendiadas, esquecidas, marginalizadas, perecendo sem quaisquer apoios, vivendo apenas da sua criatividade e persistência, um amor à sua música.

O que dizer do rock progressivo dos anos 1970 no Brasil? O que dizer do hard rock, do psicodélico? Não gozaram de credibilidade, caíram no mais escuro ostracismo, vivendo, como disse, da sua verdade e criatividade. O rock Brasil dos anos 1980 atingiu o êxito de um pseudo pioneirismo, de uma falácia ufanista, esquecendo de um período que desbravou o rock na sua gênese, inclusive. E nada ganhou, não teve sequer um reconhecimento até hoje!

O discurso pode parecer de vitimismo, mas é histórico. Estruturas de gravação aquém do esperado, obscuridade era a tônica. Mas convenhamos a influência de uma indústria fonográfica perversa e manipuladora poderia envenenar essas bandas e a ausência de apoio, por pior e mais inusitado que seja, foi bom, sob o aspecto criativo, mas comercialmente foi alarmante.

E eu não posso deixar de citar, já que mencionei a minha cidade, de Niterói, de uma banda oriunda dessa cidade que duvido que muitos apreciadores de rock n’ roll dessa cidade, que tanto colaborou e ainda colabora para o estilo, conheçam. Falo do ALMA DA TERRA.

Alma da Terra

Em breve vou tecer comentários mais detalhados do seu único álbum, homônimo, lançado em 1982, mas a banda certamente esteve deslocada do seu tempo, pois, predominantemente seu trabalho é calcado no hard rock setentista, com pitadas psicodélicas e de um belo blues rock. Como que uma banda, em pleno ano de 1982, ápice da new wave no mundo inteiro, inclusive, claro, no Brasil, vingasse? Culpa da banda? Culpa da cena? Culpa da indústria fonográfica? Tudo isso? 

Cabe aqui uma contextualização do cenário do rock àquela época, mas não é de meu desejo falar disso, mas dedicar tempo e linhas a essa seminal e rara banda brasileira e niteroiense. Até porque, até aqui, expus, de forma pessoal, as minhas opiniões acerca da new wave brasileira e do comportamento da indústria fonográfica, haja vista que se fez sucesso é porque tinha um mercado que consumiu essa música.

Mas voltando ao Alma da Terra a banda, quando foi formada, também gozou de alguma repercussão, pasmem, quando a “Maldita FM”, como também era conhecida a Rádio Fluminense, sediada em Niterói, no Rio de Janeiro chegou a divulgar seu álbum. O ponto positivo da rádio, inteiramente independente, era que tocava, sem maiores preconceitos, muitos álbuns e demos que eram entregues à rádio e assim o foi com outras bandas que não executavam a new wave, como o seminal Bacamarte, por exemplo, que, ao lançar seu debut, “Depois do Fim”, de 1983, que foi gravado em 1977, ganhou repercussão graças a rádio.

Contudo por mais que tenha sido independente, a Rádio Fluminense FM, acabou, instintivamente, segmentando seu som de acordo com os anseios de consumo do seu público dando destaque às bandas dessa new wave que culminou, com a participação de algumas delas em um novo festival, cuja primeira edição aconteceu em 1985, chamado “Rock in Rio”, dando alguma projeção, primeiramente às bandas participantes e as demais que beberam do momento.

O álbum “Alma da Terra” foi gravado e mixado no Estúdio da Sono-Viso do Brasil, no Rio de Janeiro entre os meses de dezembro de 1981 e janeiro de 1982, lançado em 1982 pelo selo Vento de Raio Produção Artística Ltda, com a produção de Toninho Barbosa e da própria banda, tendo também a banda no comando da direção musical e arranjos, mostrando que os jovens músicos à época já mostravam talento e competência e isso pode ser confirmado no álbum, na sua sonoridade.

A prensagem do LP ficou à cargo de Ivan Lisnik, da Polygram e a arte da capa ficou sob responsabilidade de Raul Varady, tendo ainda Sônia Regina no projeto gráfico e fotos da banda que figuraram no encarte do álbum. A banda trazia na sua formação Fábio Mattos Agra (vocal, guitarra, violão), Paulo Fernandes Martins (vocal, baixo) e Antônio Augusto Ventura (bateria). Das dez faixas compostas para esse único trabalho do Alma da Terra trazia a predominância da composição o vocalista e guitarrista Agra e o baterista Ventura, com Paulo Fernandes tendo uma tímida apresentação no processo de criação deste álbum.

O álbum transita entre o hard rock, a psicodelia, bebendo da fonte dos anos 1970, mas trazendo uma roupagem mais básica, diria até “moderna”. Pode parecer um tanto quanto contraditório, mas sim, é um rock n’ roll básico, porém vigoroso, cujo instrumental é direto e bem executado, ao mesmo tempo, mostrando uma incrível versatilidade e mesmo que esteja descolado do seu tempo, a banda conseguiu produzir um álbum que, de alguma forma, poderia atingir um público mais jovem e que não se aproximasse do hard rock setentista ou da sofisticação do rock progressivo.

E já que falei do instrumental, não podemos negligenciar os riffs de guitarra de Agra, com solos marcantes, acompanhado pela bela “cozinha”, com alguns momentos acústicos que nos remete, inclusive, ao folk rock. As letras são todas em português e bem elaboradoras trazendo temas sociais e comportamentais da época, mas que podem ser conduzidas a uma atemporalidade assombrosa. Outro ponto determinante pelo Alma da Terra ter figurado pouco nas FMs brasileiras pode ter sido exatamente o teor de suas letras, trazendo à tona temas poucos confortáveis para uma sociedade conservadora e podre.

O álbum é inaugurado pela faixa “Solto no Ar” que traz a “cozinha” como destaque, baixo pulsante e bateria pesada e marcada, com riffs que, pasmem, lembra um pouco o pós punk e a new wave. Mas o contexto é pesado e tem no hard rock como sustentáculo. Na metade da faixa corrobora isso, pois é pesada, chegando a ser agressiva, capitaneada também pela pegada áspera e dura da bateria. Os solos de guitarra de Agra surgem, logo em seguida, irrompendo no típico “hardão”.

"Solto no Ar"

Segue com “Vivença” que começa como um trovão, com destaque para um duelo arrepiante de baixo, cheio de peso e groove, e a guitarra com riffs pegajosos e pesados. A bateria segue marcada, mas discreta. Mas ela, ao longo de sua execução, vai ficando mais pesada, mais arrastada. O hard rock é o rei nesta faixa. Solos de guitarra trazem mais sofisticação e complexidade à música.

"Vivença"

“Prá John” inicia meio intimista, soturna, a guitarra com dedilhados vagos e estranhos. Irrompem em uma pegada mais discreta, mais leve, uma balada melódica e dramática. A letra melancólica corrobora a condição, mas a bateria, pesada e agressiva, dá um tom mais pesado, fazendo com que a música tenha algumas mudanças de tempo e assim alterna entre momentos súbitos de peso e de uma linda e sombria balada.

"Prá John"

“Tente mais uma Vez” é mais animada, dançante e solar. Remete ao rockabilly dos anos 1950 e algo como The Rolling Stones nos seus primórdios. Os riffs de guitarra se afastam do peso do hard rock setentista e estimula a qualquer um afastar o sofá e dançar e dançar e dançar sem parar. Baixo e bateria trazem a textura rítmica dos anos 1950, mas os solos de guitarra de Agra revelam um lado pesadão e a bateria segue a proposta com uma batida mais aguda e pesada também.

"Tente Mais uma Vez"

“Natural” começa meio contemplativa e pastoral, mas por pouco tempo porque o peso da seção rítmica apavora com um baixo pesado, tocado com raiva, bateria igualmente pesada, mas o vocal nos remete ao rock psicodélico, algo como uma tropicália eletrificada, um psych rock ácido e lisérgico. Música cheia de momentos e que pode cativar a todos os gostos!

"Natural"

“Cante Comigo” começa com a mesma proposta da faixa anterior, uma balada, com lindos dedilhados de guitarra em solos mais diretos, porém interessantes. E assim se mantém, linear durante grande parte da faixa, com a bateria em uma pegada mais leve, baixo acompanhando o ritmo. Mas o destaque ficaria guardado para o solo de guitarra de tirar o fôlego que fecha a música. Excelente!

"Cante Comigo"

“Cabeça Feita” traz de volta aquela pegada de rock dos anos 1960, lembrando The Rolling Stones, é dançante e animada. Uma faixa solar que tem um viés comercial e radiofônico bem evidente. Sem dúvida foi composta com a intenção de ser a música para divulgar o álbum. Os solos são igualmente animados que faz qualquer um dançar.

"Cabeça Feita"

Segue com “Anjos de Cristal” que volta com o peso e a agressividade do hard rock! Riffs pegajosos de guitarra, baixo pulsante e bateria marcada, mas com uma batida pesada. A “cozinha” ganha destaque nessa faixa. Vocal cheio de melodias, melancólico, sombrio, ancorados por um instrumental invejável. Eu costumo dizer que, músicas como essa, são de banda, porque todos participam e tem um protagonismo importante. Mas não podemos negligenciar, claro, o solo de guitarra. Uma das melhores faixas do álbum, sem dúvida!

"Anjos de Cristal"

A faixa título, “Alma da Terra”, vem com uma pegada bluesy, um blues rock volumoso, com uma pegada de rock psych, lisérgico, ácido que me remete a bandas da transição dos anos 1960 para o 1970, como Cream, Steppenwolf e o peso do Blue Cheer. O blues com o rock, com o hard rock. A bateria agressiva, o baixo com aquele groove, riffs de guitarra que pedem solos excelentes.

"Alma da Terra"

E fecha com a música “Não Morra de Susto” que entrega, logo de cara, um riff duro, áspero, sujo, de guitarra que irrompe em uma faixa veloz, pesada e agressiva que me fez lembrar de um belo heavy metal. A bateria, mais uma vez, ganha em destaque, pela batida pesada e agressiva. Baixo pulsante e guitarra com solos diretos, curtos e grossos. O heavy rock é a tônica dessa faixa. Intensa e arrastada, em alguns momentos, mostra o lado mais pesado do Alma da Terra nesse álbum.

"Não Morra de Susto"

Reza a lenda que o Alma da Terra já teria novas músicas compostas já para um segundo álbum e que, por algum motivo obscuro, o projeto do segundo trabalho não teria vingado. Mas a realidade nós sabemos o motivo pelo qual esse segundo álbum não teria sido lançado. O fato é que a banda produzia uma música totalmente marginal e que não seguia os interesses da demanda de mercado animada com a new wave oitentista.

Se de fato esse material novo existe claro que aos apreciadores do velho hard rock estariam ávidos por ouvir esse material. Mas infelizmente pouco se sabe também do paradeiro dos músicos e se eles ainda estão na ativa, trabalhando com música. Esse fator também seria determinante, além, claro, do interesse de alguma gravadora para registrar oficialmente esse novo e perdido trabalho. É preciso, também, saber onde estariam essas fitas para trazer à tona um novo trabalho do Alma da Terra.

Uma pérola perdida e que teria um potencial enorme para se ter uma longevidade na história do rock brasileiro. Um representante, mesmo que obscuro, fiel de uma cidade que sempre respirou o que sempre teve de melhor no período marginal do rock brasileiro, sobretudo dos anos 1970 e que até os dias de hoje, luta contra as “novidades” e modismos dos dias atuais. Alma da Terra, com seu álbum de 1982, mostra, com arrojo e personalidade, um tempo que foi vilipendiado com o que havia de verdadeiramente melhor da nossa música. Você pode fazer o download de "Alma da Terra" aqui. Ou se você quiser ouví-lo pelo YouTube clique aqui.


A banda:

Fabio Mattos Agra na guitarra, violão e vocal

Paulo Fernando Martins no baixo e vocal

Antônio Augusto Ventura na bateria

 

Faixas:

1 - Solto no Ar

2 - Vivença

3 - Pra John

4 - Tente Mais Uma Vez

5 - Natural

6 - Cante Comigo

7 - Cabeça Feita

8 - Anjos de Cristal

9 - Alma da Terra

10 - Não Morra de Susto






 



 










 





 











 




quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Caixão - Da Porta ao Sumiço (2020)

 

Nessa minha fantástica caminhada de desbravar as grandes bandas que trafegam nas sombras das obscuridades, me peguei em algumas boas e salutares discussões acerca das condições que a sua sonoridade se relaciona, digamos assim, com o público. Uma delas é: um projeto musical pode ser considerado uma banda?

Pode parecer uma pergunta um tanto quanto desproporcional e boba, sem contexto algum, mas quando me vi refletindo sobre, quando essa questão me veio por um bom amigo leitor, me coloquei a pensar. Será que um projeto que, em tese, tem início, desenvolvimento e fim, pode ser considerada como uma banda constituída, haja vista que, quando se tem uma banda, presume-se que os seus músicos queiram a sua longevidade.

Projetos vem e vão, bandas também vem e vão, fãs idem, cenas também, mas a música, quando é relevante para os seus ouvidos e alma, sem dúvida alguma prevalecerá, passará pelos tempos e modismos, incólume, viva e jovial. Independente de como ela, a música, é concebida, ela é música e precisa ser apreciada, “degustada” como tal.

E essa banda, ou melhor, projeto é digno de reverências, dada a sua originalidade e também a sua sonoridade que nos remete aos prolíficos anos 1970, mas sem soar datado ou algo pasteurizado com a intenção de atingir a determinados nichos ou cenas de cunho saudosistas. Falo da banda ou projeto brasileiro, oriundo do Ceará, chamado CAIXÃO.

Caixão

E que orgulho, ufanismos à parte, dizer que se trata de um trabalho brasileiro, de material original e de contundência sendo feito em um país que privilegia as músicas frívolas, sem sentido e oca em sua concepção, mas essas tocam nas rádios, nas emissoras de massa, em tudo quanto é lugar, chega a ser leviano fazer essas pífias comparações. A Caixão já começa a ser underground e pouco “ortodoxo” com o seu nome.

E foi com o seu nome que, quando o conheci, lá pelos anos caóticos da crise sanitária da COVID-19, que realmente me chamou a atenção (risos)! São as maravilhas do mundo do underground e também os meus apreços e predileções musicais. E diante de tanto lixo musical que nos chega sem sequer pedirmos, torna-se urgente filtrar, para não cair na asneira de ouvir porcarias.

O projeto começou, em 2018, com o baterista Ítalo Rodrigo, conhecido pela banda seminal de crossover Damn Youth e também no Echoes of Death. Ítalo trouxe à tona a Caixão com o intuito de ser um projeto, porque, além de ser a sua concepção, ele pincela os músicos que o acompanha na sua empreitada sonora. Ítalo é a Caixão, pelo menos por enquanto, porque tudo indica que o projeto poderá vir a ganhar contornos de banda. Pode parecer estranho essa condição, afinal, a Caixão é uma banda constituída, independentemente de sua essência.

Lançou, em abril de 2019, um single, de nome “Pássaro Holograma” e um EP, com 5 músicas, também no mesmo mês e ano, de nome “Caixão”. Em setembro do mesmo ano gravou um “Split”, ou seja, um álbum com outra banda, chamado “Candelabro”, com a banda Abismo. O ano de 2019 foi bem agitado para a Caixão! Porém somente em outubro de 2020, em pleno auge da pandemia do COVID-19, lançou seu primeiro álbum chamado “Da Porta ao Sumiço”, cujo selo é a Abraxas, conhecida por ter em seu cast bandas de stoner, doom e occult rock da atualidade. E o cenário do caos sanitário também trouxe um formato um tanto quanto atípico na concepção do álbum sob o aspecto da gravação e sem sombra de dúvida na composição das letras. E será esse álbum alvo do texto de hoje.

EP lançado em 2019

“Da Porta ao Sumiço” foi concebido pela seguinte formação: além de Ítalo Rodrigo, na guitarra, o “dono” do projeto, trouxe Mirelle Sampaio, também na guitarra, Renato Alves, no baixo, Jardel Reis na bateria, com a participação no vocal e na letra de Ângelo Sousa, na música “Vulto”. A arte da capa contou com Fernanda JFL.

O processo de criação do álbum se deu de uma forma bem usual, apesar dos tempos temerosos da pandemia, tendo as ideias vindo em momentos totalmente inusitados, tendo como ponto central as músicas surgirem a partir de um riff. O trabalho foi todo feito em casa, afinal, o caos pandêmico exigiu um distanciamento social, o que certamente deve ter impactado o talentoso Ítalo a conceber as faixas que compunham esse álbum. Usaram para fazer a captação, sendo gravado em caixinhas de guitarra, que inclusive o baixo também foi gravado na caixa de guitarra. A mixagem e masterização ficou por conta de Guilherme Mendonça, amigo de Ítalo.

“Da Porta ao Sumiço” é um álbum que remete às sonoridades setentistas, que vai do hard rock ao psych. Passa pelo progressivo também, nuances mais discretas dessa vertente, mas também com um pé em sonoridades mais contemporâneas, como o stoner rock, por exemplo. O som da Caixão não é, com isso, datado, talvez homenagens às bandas de occult rock dos anos 1970 relegadas ao ostracismo, mas que soa com muito frescor, pois evoca o contemporâneo e a capacidade de se mostrar muito diversificada e difícil de se rotular.

É, sem dúvida, um registro contemporâneo, com referências do passado. É tão diversificado e complexo o som da Caixão neste trabalho que eles conseguem ser solares e introspectivos em uma única música, repetindo-se, em outras faixas. É inegável que, ao ouvir “Da Porta ao Sumiço”, não se consiga cativar pelas melodias envolventes e cheia de personalidade, sem contar com os riffs poderosos de guitarra que traz a versão pesada às músicas, propiciando os diversos andamentos distintos nelas, causando ao ouvinte um arrebatamento sonoro.

Como o próprio nome sugere, bem como a sua sonoridade, a Caixão dignifica, por intermédio de seu debut, uma roupagem, como disse, diversificada e calcada nos anos 1970, com viés atualizado trazendo o peso do stoner rock, tudo isso envolto em uma textura bem interessante de occult rock que beira, inclusive, a uma trilha sonora de um filme de terror. Me trouxe à tona até bandas como a italiana Goblin, por exemplo, que sempre explorou o cinema fazendo trilhas para o icônico cineasta Dario Argento.

"Hora de Ir"

“Corrente” segue agora com uma veia mais hard rock com riffs mais pesados de guitarra que, em determinados momentos, fica mais cadenciado, mas nunca leve ou introspectiva. É pesada! A “cozinha” é eficiente. Bateria pesada e marcada, baixo galopante, teclados enérgicos, mas ainda assim, sombrios.

"Corrente"

“Die in the Flame they Created” traz à memória algo de Blue Oyster Cult mais dançante, aquela fase mais comercial da banda dos anos 1980, mas que não negligencia de forma alguma sua pegada occult rock. O stoner se faz presente, o peso e os riffs de guitarra entregam essa vertente na faixa. “And Now Look At the Size of the Damage” segue basicamente a mesma proposta da faixa anterior, dando um caráter mais pop e comercial ao occult rock que permeia na música.

"Die in the Flame they Created"

“Mariposa” traz de volta o peso do stoner rock, capitaneado pelos riffs pegajosos e pesados de guitarra. A seção rítmica segue o conceito da música, se mostrando engenhosa e igualmente pesada. A bateria bate forte sem piedade alguma, mas ainda assim, temos algumas mudanças rítmicas. Bela música!

"Mariposa"

Segue com “Vulto” e a proposta pesada ainda paira sob esse momento do álbum e o hard continua pleno, os riffs de guitarra continuam em destaque, a bateria é pesada, porém cheia de viradas emocionantes. Percebo uma pegada mais heavy metal nesta faixa. A energia e a fluidez nessa música são deveras perceptíveis.

"Vulto"

“Poeira na Luz do Sol” chega mais sombria, mais introspectiva, com uma pegada pesada, porém arrastada, cadenciada, um stoner mesclada a um discreto doom metal. O baixo ganha destaque nessa faixa. É vívido, tocado alto, de forma galopante. A bateria basicamente segue marcada e os riffs de guitarra torna a faixa mais pesada. “Passeio no Céu” traz, mais uma vez, uma textura mais sombria, como na faixa anterior, algo mais introspectiva e soturno. Junto a isso uma pegada mais lisérgica envolve toda a proposta da faixa. A fala ao final da música é um trecho do filme “Compasso de Espera”, de 1973, dirigido por Antunes Filho.

"Poeira na Luz do Sol"

E fecha com “Goodbye Sanity” que se mostra com uma roupagem mais comercial, mais pop e bem dançante. Um conceito em voga entre as bandas atuais de occult rock que mescla o comercial com o occult rock que não é nada original, mas que atualmente é bem difundido nas músicas das bandas que compõe a cena hoje.

"Goodbye Sanity"

 “Da Porta ao Sumiço” pode ser considerado um álbum conceitual, afinal, as músicas, antes de qualquer coisa, se conectam, sonoramente falando. E o significado do nome do álbum também “amarra” esse conceito, pois o sumiço pode ser tanto para dentro quanto para fora, a partir da porta. Significa sumir de si ou dos outros. As faixas trazem esse ambiente de dúvidas, de fraquezas, de medos.

A banda lançou, em março de 2024, o single “Luz Estranha em Quixadá” e recentemente, em julho do mesmo ano outro single de nome “Bloodstains”. Esta última serviu como prenúncio para o lançamento do seu segundo álbum chamado “Entre o Velho Tempo Futuro”, previsto para ganhar luz em setembro. Remessas, no formato vinil, serão disponibilizados a partir de outubro.

"Luz Estranha em Quixadá" (2024)

O que nos resta, enquanto apreciadores do bom e velho occult rock, é aguardar ansiosamente por este tão aguardando novo álbum para ter de volta a Caixão despontando nos palcos e destilando suas músicas carregadas em hard rock, stoner, psicodelia e progressivo. E que o projeto se torne uma banda oficial e longeva. Se a música for o peso determinante não tenha dúvida de que isso logo acontecerá.




A banda:

Ítalo Rodrigo na guitarra

Mirelle Sampaio na guitarra

Renato Alvez no baixo

Jardel Reis na bateria

 

Com

 

Ângelo Sousa no vocal e letra de “Vulto”

 

Faixas:

1 – Hora de Ir

2 – Corrente

3 – Die in the Flame they Created

4 - ...And now look at the Size of the Damage

5 – Mariposa

6 – Vulto

7 – Poeira na Luz de Sol

8 – Passeio no Céu

9 – Goodbye Sanity (Bônus)



"Da Porta ao Sumiço" (2020)


"Entre o Velho e o Tempo Futuro" (Novo álbum de 2024)