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sábado, 18 de abril de 2026

Mount Rushmore - High On (1968)

 

São Francisco, na Califórnia, definitivamente foi o epicentro da contracultura norte americana e, arrisco dizer, mundial, na segunda metade dos anos 1960. O movimento hippie e sua proposta de paz e amor ecoava em cada canto daquelas ruas e tinha, como principal difusor, a música e as suas inúmeras bandas que ganharam o mundo com os seus hinos beat e dançantes. E aqui podemos destacar, de imediato, bandas do naipe de Big Brother and The Holding Company, Janis Joplin, The Grateful Dead, The Doors, e tantas outras.

A sonoridade lisérgica, por vezes experimental, dançante e até mesmo minimalista, era o cerne da cena que pulsava em shows e personificava em protestos anti-guerra e contra um conservadorismo imposto pelo status-quo. Mas a música lisérgica, psicodélica, com um viés criativo calcado na revolução jovem, também tinha nas drogas a possibilidade da expansão da mente e da liberdade tão ardentemente propagada.

Mas as revoluções não eram apenas ditadas no comportamento, mas se revelava também na sonoridade das músicas ouvidas àquela época, e não tão apenas naquela que a cena entregou para o mundo com as suas bandas famosas, com o beat dançante, experimental, e sim às músicas ditas “garageiras”, comumente consideradas como mais pesadas, distorcidas, eletrificadas, com um proto hard rock que destoava do que se fazia em profusão naquela terra.

E não podemos negligenciar o blues eletrificado do grande Blue Cheer, que foi o grande representante de “peso”, literalmente falando, daquela época, na terra do Tio Sam. E, ouvir o seu debut “Vincebus Eruptum”, de 1968, ápice da psicodelia paz e amor, é como ouvir uma bomba poderosa e devastadora de blues elétrico que definitivamente não se adequava ao som massivamente propagado em sua época. Não foi à toa que o Blue Cheer, com seu trabalho, não só inaugural, mas discográfico, não viu a luz do sucesso e trafegou pelo underground.

Blue Cheer - "Vincebus Eruptum" (1968)

Essa “revolução” sonora me agrada imensamente e tem me colocado em uma posição de garimpo incessante e eis que descubro uma pérola que lamentavelmente não ganhou a luz do glamour e o sucesso de pertencimento de uma cena tão proeminente como a de São Francisco nos idos dos anos 1960. Falo do MOUNT RUSHMORE.

O blues rock pesado é a espinha dorsal de sua sonoridade, claro, que a atmosfera psicodélica teria de ser inerente, afinal, inserida em um contexto sonoro tão forte e latente como esse, torna-se inevitável, mas o hard rock, ainda um tubo de ensaio no rock, estava definitivamente delineado, desenhado e vivo em sua sonoridade. Um som cru, direto, sem firulas, se via, ou melhor, ouvia no som do Mount Rushmore.

Mas acalmem-se, estimados leitores, não falemos ainda de sua música e de seu debut, de 1968, centro do texto de hoje, chamado “High On’, mas tentarei contar um pouco dos primórdios da banda que talvez possa corroborar ou ainda incrementar o status de banda cult e, diria, sem medo, revolucionária que estava totalmente dissociada de seu tempo. Dizem por aí que o tempo é relativo, o que dizer da música daquela época, capitaneada por bandas esquecidas e obscuras como o Mount Rushmore?

A banda se formou no final de 1966, na 1915 Oak Street, uma grande pensão vitoriana no distrito de Haight-Ashbury. Em junho e julho de 1967, eles apareceram em cartazes de shows, no Avalon Ballroom, com outras, incluindo o Quicksilver Messenger Service e Big Brother and The Holding Company. Não precisa dizer que a banda ganhou certa atenção devido a sua sonoridade sendo potencializada em performances ao vivo. Assim ganhou certa reputação ou no mínimo atenção entre os ouvintes e conhecida, naquela época, como uma banda ao vivo.

E no período entre a sua fundação e a gravação do seu debut, em 1968, a banda teve muita movimentação em sua formação, até se constituir nos seguintes músicos que gravariam “High On”: Mike Bolan (“Bull”) nas guitarras, Glenn Smith “Smitty” nos vocais e guitarras, Travis Fullerton na bateria e percussão e Tery Kimball no baixo.

Esse certo destaque na cena local graças ao seu som um tanto quanto deslocado que se fazia na segunda metade dos anos 1960, lhe rendeu um contrato com a Dot Records, de onde saiu o já mencionado debut, “High On”, de 1968. E esse som garageiro, tão evidente na sonoridade blues eletrificado deste álbum, traz a sensação de que o seu acabamento está mais adequado para uma demo do que para um álbum convencionalmente finalizado.

Porém, como não estou muito preocupado com sonoridades convencionais e ortodoxas, muito me fascina, ou pelo menos tem me fascinado nos últimos anos, e sim, me pautará pelos próximos mil anos (risos)! Mas creio que essa deliciosa sensação se explique pelo fato da sua produção, afinal, uma banda pouco conhecida, com uma sonoridade pouco, digamos, arrojada, não se espera que tenha um financiamento alto para a produção de seu álbum. Essa produção dá o charme ao som do Mount Rushmore, definitivamente harmoniza e catapulta o seu som metálico, com habilidades mais simples, diretas e orgânicas, com riffs de guitarras carregados e pesados, com uma “cozinha” igualmente pesada e cheia de groove.

O álbum é inaugurado pela faixa “Stone Free”, clássico do Jimi Hendrix, que aqui soa mais animada, mais comercial, diria, com uma pegada mais hard e menos bluesy, mas, ainda assim, se percebe que a banda estava estabelecendo o território que queria explorar, sonoramente falando, haja vista que Hendrix, com suas músicas, também ajudou a pavimentar o blues rock pesado nos Estados Unidos e no mundo! Sim foi ousado pela parte do Mount Rushmore, mas mostrou personalidade ao “descaracterizar”, o clássico de Hendrix. Os riffs pegajosos e pesados de guitarra ornamentam o conceito fundido de hard rock, a bateria pesada e marcada, o baixo dançante e galopante. O vocal alto, por vezes é gritado. É inegável perceber que é uma versão solar e extremamente dançante.

"Stone Free"

Segue com “Without No Smog” que já traz, sem sua sonoridade, a pegada blues rock mais vívida. A guitarra “chora” em solos curtos, a seção rítmica acompanha, dando um tempero mais hard rock, à faixa. O vocal segue os dedilhados da guitarra e se revela mais melódico e dramático. Na metade da música a lisergia devolve a banda ao seu tempo, a guitarra, ácida, destila peso indulgentemente. Experimentalismo mostra uma banda mais sombria na segunda metade da música.

"Without No Smog"

“Ocean” continua na mesma pegada que a faixa anterior, mas aqui o hard rock puro e genuíno se mostra mais vivo, com requintes de detalhes no vocal rasgado, nos riffs sujos de guitarra e na bateria com batida forte e pesada. E tudo fica mais perigoso e dançante com a percussão, algo tribal invade o rock n’ roll direto da música.

"Ocean"

“I Don’t Believe in Statues” tem uma pegada mais beat, psicodélica, mas com o sabor do peso, com riffs de guitarra carregados e gordurosos, é aquela aspereza típica do álbum, sem nenhum refinamento, ainda bem. Aqui torna-se mais perceptível uma camada, embora sútil, mas bem significativo, do teclado, do órgão, dando-lhe um direcionamento para o psicodélico, para a acidez e lisergia.

"I Don't Believe in Statues"

“Looking Back” chega, no auge dos seus quase dez minutos de duração como uma louca e deliciosa epopeia calcada em um colapso de jam bruta, áspera, pautada na lisergia de riffs encarnados de guitarra, com uma bateria mais cadenciada e um baixo que, apesar do caos sonoro desorientado, se mostra fiel a batida da percussão. Momentos de experimentalismo e viagem sonora são percebidas dentro desse contexto, tornando tudo ainda mais caótico e estranho. Uma batida surge mais dançante que, loucamente, me remeteu a uma bossa nova, se não estou insano em perceber isso! Mas a música é insana e pouco rotulável ou nada estereotipada. Uma música espetacular!

"Looking Back"

“('Cause) She's So Good to Me” vem animada, com alguma velocidade, onde ouso dizer que me remete a um heavy metal, antes do heavy metal. Bateria arrogantemente pesada, os pratos parecem que vão explodir, os riffs de guitarra continuam a ser sujos, quase indecentes aos ouvidos e bom senso pretencioso dos ortodoxos do rock. Os gritos vocais abraçam ou corroboram o peso da música e anarquicamente encaram o status quo com desdém e arrogância. Espetacular!

"('Cause) She's So Good to Me"

A derradeira faixa é um “medley” das faixas “Fanny Mae” e “Dope Song” e tudo indica ter sido captada em uma dessas pequenas e fedorentas casas de shows, mas a vibração de um pequeno público pode ter sido colocada mecanicamente em estúdio, enfim...O fato é que nessas faixas o que impera é o blues rock. A essência da banda saí pelos poros dessa música. Peso cadenciado, animado, solar se faz presente em cada riff e melodia. Aqui o som me parece ser mais polido, a banda se “esforça” para ser mais técnica e prudente. Ainda assim são faixas especiais e que fecham brilhantemente esse belíssimo álbum.

"Fanny Mae / Dope Song"

Há breves notas do encarte do álbum “High On” que diz que a banda se autoproclama os “rapazes do interior” que adoram levar seu caminhão cinza e funky para a estrada, se encarando como “caipiras”, cheios de confiança e arrogância, mas com apenas habilidades mais simples. E não me parece nem um pouco arrogante essa percepção, muito pelo contrário. Assim é “High On”, assim é o Mount Rushmore. Perigoso, pesado, diferente em sua sonoridade em um universo do beat e do “flower power”.

"Mount Rushmore '69 (1969)

E essa linhagem sonora traria um custo muito adverso para o Mount Rushmore. Após o lançamento de “Mount Rushmore 69”, a banda não teve a adesão comercial de muito dos seus contemporâneos e, no mesmo ano de lançamento, do segundo álbum, 1969, a banda sucumbe e finaliza as suas atividades. É o preço que se paga por serem aventureiros, os “rapazes do interior, no ápice de sua ingênua arrogância, onde se renderam à criatividade.

Não consegui apurar, com devida precisão, se “High On” teve outros relançamentos. O que se sabe é que há um relançamento importante, talvez no formato CD, dos dois álbuns juntos pelo selo Lizard Records em tiragem bem limitada.

Pouco se sabe sobre o paradeiro dos músicos, o que lamentavelmente se torna mais do que normal, levando em consideração o que produziram com seus dois únicos álbuns, apenas se soube do “paradeiro” do baterista Travis Fullerton que alcançou um reativo sucesso posteriormente como membro do Sylvester And The Hot Band.




A banda:

Mike Bolan (“Bull”) nas guitarras

Glenn Smith “Smitty” nos vocais e guitarras

Travis Fullerton na bateria e percussão

Tery Kimball no baixo

 

Faixas:

1 - Stone Free

2 - Without No Smog

3 - Ocean

4 - I Don’t Believe In Statues

5 - Looking Back

6 - (‘Cause) - She’s So Good To Me

7 - Medley: Fanny Mae / Dope Song 




"High On" (1968)


























quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Dragonfly - Dragonfly (1968)

 

A principal honraria que este reles e humilde blog me proporciona, além, é claro, de meu ímpeto e interesse, é a busca incessante e passional pelas obscuridades que estão, lamentavelmente, relegados ao ostracismo e vilipêndio da indústria fonográfica e até mesmo dos fãs de rock n’ roll.

E não se enganem, estimados leitores, de que tais bandas foram relegadas ao ostracismo pelo fato de não entregarem nada de contundente sob o aspecto sonoro. Nunca! Muitas bandas obscuras trouxeram na sua época algo realmente cativante em termos de música, ou seja, se tornaram, mesmo trafegando nas sombras, referência no estilo.

Esse também é um dos fatores pelo qual me estimulo a continuar desbravando tais bandas, com a intenção de desmistificar certas “verdades” dentro das mais diversas cenas de rock ao longo das décadas. Não se enganem, bons amigos leitores, em algumas verdades absolutas por aí, principalmente quando se fala em pioneirismo na música.

Claro que assuntos como esse, sempre difíceis de se contextualizar, são deveras complexos, afinal são tantos fatores a se levarem em consideração, tantos quesitos e condicionantes que podem ou não derrubar certas teses e afirmações. Esses debates, além de gerarem discussões acaloradas, suscitam também, dependendo da forma como são conduzidas, podem ser extremamente enriquecedores.

Mas questionamentos, verdades e certezas à parte recentemente descobri uma banda que me surpreendeu positivamente e me fez chegar a uma conclusão de forte sustentação: de que há muito a se desbravar no rock n’ roll, de que a selva ainda tem pontos inexplorados.

Antes de falar do álbum e banda eu gostaria de dizer que os anos 1960 foram marcados, principalmente em meados daquela década, pela psicodelia, pela batida psicodélica, pela revolução do “Flower Power”, pelo experimentalismo lisérgico de suas principais bandas. Poucas foram as bandas que se aventuraram em uma abordagem sonora mais pesada e nesse rol podemos incluir bandas como Blue Cheer, The Who, Steppenwolf, Led Zeppelin que, mesmo antes dos anos 1970, período em que surgiram, em profusão, as bandas de hard rock, gravaram seus primeiros discos pesados.

Algumas bandas, as mencionadas acima, atingiram o êxito comercial, outras caíram no limbo do esquecimento, como o Blue Cheer que hoje goza de algum sucesso, graças ao advento das mídias sociais e o compartilhar de seu trabalho pelos aficionados pelo seu som e ostenta o status de banda “cult”.

Porém a banda que descobri gravou apenas um álbum, para variar, e está em uma condição de muito rara, pouquíssimo conhecida. Falo da banda DRAGONFLY, com seu trabalho, homônimo, de 1968. Mas o que o Dragonfly tem? O que o seu desconhecido único trabalho oferece? Peso! Muito peso! Um som poderoso e incomum para a época em que foi concebido! Não quero, tomado por um êxtase, me antecipar e falar do álbum, afinal, ainda tenho algo, embora pouco, a dizer da história da banda, mas preciso dizer que é um trabalho arrojado, arrebatador e revolucionário para a época!

Dragonfly

E falando em história, vamos tecer algumas linhas sobre o Dragonfly e seu único álbum. E já começa com algumas informações estranhas acerca da origem da banda. Muitos afirmam que o Dragonfly não era um nome de banda, mas sim de um álbum e que os músicos envolvidos jamais divulgaram e tão pouco fizeram shows com este nome. Trata-se meramente de um álbum de uma banda norte americana, mais precisamente do Colorado, chamada “The Legend”. Outras fontes já dão conta que sim, era uma banda formada com outro nome e que em um passado pouco distante se chamava The Legend e mais tarde, Dragonfly.

The Legend

The Legend, como disse, era de Colorado, nos Estados Unidos, mas que oscilava entre lá e Los Angeles para gravar e lançar seus materiais. A formação conta com Jack Duncan (baixo), Barry Davis (bateria, vocais de apoio), Gerry Jimerfield (guitarra, vocais principais), Randy Russ (guitarra, vocais de apoio) e Ernie McElwaine (teclados).

As origens do The Legend remontam até El Paso, onde em 1965 Duncan e Davis se conheceram e se tornaram amigos rapidamente enquanto tocavam em uma banda chamada “The Paws”. Jimerfield e McElwaine, animados com a ida do The Paws para um show no Novo México, fizeram uma viagem para conferir e ficaram impressionados com a performance da banda.

A cena rock de El Paso, à época, era proeminente, tinham muitas bandas e, claro, um público fiel e interessado na música que tais bandas executavam. The Paws era uma banda que gozava de algum sucesso, mesmo tendo tido muitas mudanças na formação. Eram bem-sucedidos, por isso que Jimerfield e McElwaine fizeram uma longa viagem de Colorado para o Novo México para vê-los.

Jack se juntou ao The Pawns em 1965 e quando o baterista Jimmy Wagnon, do Bobby Fuller Four, saiu, Barry Davis foi contratado. Os outros dois caras da banda eram casados, então Jack e Barry se tornaram bons amigos. Bobby Fuller era de El Paso e tinha um grande estúdio de gravação em sua casa. Jack conhecia Bobby e seu irmão Randall desde os 16 anos de idade e fez alguns trabalhos de rodie local para eles. Quando Jack se juntou ao The Pawns, ele estava aprendendo violão, mas o baixista queria sair. Ele vendeu seu baixo para Jack por US$ 50,00 e mostrou a ele o básico das músicas.

Por intermédio de Bobby Fuller, The Pawns se interessaram em tocar em Farmington, no Novo México, com um promotor local de lá. The Pawns iam lá uma vez a cada dois meses e tocavam. Eles eram muito populares, ganhavam muito dinheiro e a notícia se espalhou sobre eles. Uma noite de sábado, Jimerfield e McElaine, foram até Farmington para ouvir sobre o que The Pawns era. Como disse ficaram impressionados com o que viram e, depois do show, Gerry se apresentou a Jack, disse que tinha conexões na Costa Oeste e se ofereceu para montar algo se Jack e Barry quisessem. Aqui seria o embrião do The Legend/Dragonfly.


Dragonfly (primeira foto) e The Legend

Poucos meses depois, eles ligaram para Gerry. Ele os convidou para se mudarem para Durango e disse que eles poderiam ficar de graça no motel dos pais dele. Barry e Jack jogaram seus equipamentos na parte de trás do capô rígido de um Chevy Bel Air Canary Yellow 57 de Barry e partiram para Durango. A banda ensaiou lá por alguns meses como um quarteto e então decidiu que era hora de alugar outra guitarra. Jack e Barry sugeriram outro garoto chamado Randy Russ. Ele estava em uma banda competitiva de El Paso chamada “Instigators”, mas quando eles ligaram, ele agarrou a chance. Randy se mudou para Durango e tudo parecia que ia dar certo com essa formação.

A banda, que agora se chamada “Lords of London”, foi até a área de Denver e tocou em muitos clubes da época. Eles foram bem recebidos e começaram a tocar como banda de abertura no famoso “Family Dog”. Uma das bandas com quem eles pareciam acabar trocando sets era uma banda chamada American Standard com um ótimo guitarrista chamado Tommy Bolin, simplesmente. Passaram alguns apertos por lá, mas logo voltariam para Colorado para tocar no “verão do amor”, em 1967 e tiveram tempos de sucesso por lá.

Estavam todos prontos para lançar um álbum, quando voltaram para Los Angeles, juntamente com seus empresários, mas surgiu um “problema”. Os caras achavam que bandas de rock não deveriam escrever seu próprio material e tão pouco tocar em estúdio. Estavam procurando um novo nome quando um companheiro de viagem chamado Mark Clark sugeriu “The Jimerfield Legend”. Gerry era o cara mais velho e experiente da banda. Era líder da banda e o mais carismático. Muitos shows foram feitos com esse nome e uma das referências históricas a ele é de um dos pôsteres do Family Dog que pode ser visto na parede da escada da casa de Steve McQueen no filme “Bullit”.

Mas os empresários não queriam usar esse nome para a banda. E se Gerry saísse da banda, o que seria? Então o álbum saiu com o nome de “The Legend”, com um monte de músicas escolhidas pelos empresários e tocadas por músicos de estúdio, embora por alguns dos melhores da época, como Carol Kaye e Hal Blane. Os arranjos foram feitos por Gene Page, da Motown, além de Barry White.

Um dos empresários viu o The Legend tocar no “Family Dog”, em Denver e ficou surpreso com a apresentação da banda e o quanto o público correspondeu, além de toda a estrutura de palco. O mesmo perguntou a banda o por que eles não tinham dito a ele que eles podiam compor e tocar tão bem. A banda tentou explicar, mas simplesmente não entenderam. Diante desse “novo” cenário o empresário volta à Los Angeles e diz ao seu colega que eles precisam deixar a banda fazer um álbum autoral.

Quando a banda viaja para Los Angeles eles começaram a gravar o que se tornaria o álbum “Dragonfly”, por isso que tem essa “lenda” de que não existe uma banda chamada Dragonfly, mas sim um álbum e que, com essa história, se reforça. Por outro lado, no referido álbum não há menção de “The Legend” também. Nesse meio tempo, o tecladista havia deixado a banda e Dragonfly foi feito basicamente como um álbum de duas guitarras, baixo e bateria. Os empresários também contrataram um produtor chamado Richard Russell (nome verdadeiro Richard Egizi) e a banda gravou o álbum no “Amigo no ID Studios”, em North Hollywood com a engenharia de Hank Cicalo. 

Eles fizeram o álbum, sem nomes de membros da banda listados e sem fotos, novamente com medo de que se alguém saísse ou mudasse, isso prejudicaria a credibilidade da banda ou ainda não queriam dissociar o nome “The Legend”, pelo fato de estar ligado ao lançamento que não agradou aos músicos, por não ter material autoral. Mas há outra versão.

O nome da banda era uma arapuca que os empresários queriam fazer com a banda. Eles queriam trazer outros músicos, fazê-los aprender as músicas e coloca-los na estrada. Essa versão, inclusive, foi dita pelos músicos em entrevista no portal “It’s Psychedelic Baby Mag que pode ser conferida, em detalhes, aqui. Por isso que não se vê os nomes dos músicos no álbum.

Por isso também que o nome teria sido alterado para “Dragonfly”, pois os empresários teriam encontrado um cara viciado em ácido que tinha feito essa arte, esse desenho, muito bonito, a meu ver, e compraram, sendo essa foto usada para a arte do segundo álbum do The Legend ou Dragonfly. As tiragens estavam guardadas no estúdio e trancadas a chave, evitando que qualquer um tivesse acesso às cópias, inclusive a banda. 


Segundo os músicos as fechaduras teriam sido trocadas! E sobre o número de cópias prensadas, teriam sido 5.000 álbuns que foram enviados para a Austrália. E diante de tantos reveses a banda não teve nenhum apoio financeiro para divulgar seu álbum e tão pouco foram feitos shows para tocar as músicas nesse álbum contidas.

Os empresários

O álbum começa com “Blue Monday” traz aquela introdução pesada, para a época, de riffs de guitarra, que logo depois desliza para um groove lisérgico capitaneado pelo baixo pulsante e vivo. Não podemos negligenciar a seção rítmica dessa faixa e o vocal rasgado e alto, trazendo à tona um proto metal intenso.

"Blue Monday"

“Enjoy Yourself” começa com alguns solos de bateria e riffs pesados e ácidos que nos remete a bandas como Grand Funk Railroad e até mesmo um MC5, com uma discreta levada de blues rock ao estilo Steppenwolf. Essa mistura improvável ganha ainda mais peso com solos de guitarra que trazem à tona o tempo em que foi concebido: uma pegada psicodélica.

"Enjoy Yourself"

"Hootchie Kootchie Man" traz uma versão bem arrojada e que foge integralmente da versão original, sem blues, mas com uma versão hard rock bem cadenciada e uma “cozinha” muito entrosada, com destaque para o baixo cheio de groove novamente. Um típico hard rock extremamente volumoso. Cabe aqui também um espaço ao vocal arrastado, gritado e rouco.

"Hootchie Kootchie Man"

“I Feel It” continua no hard rock, mas com uma levada mais radiofônica, mais acessível, com solos de guitarra pesados e dançantes, ao estilo cravo, muito interessante. Esses músicos definitivamente sabem como fazer bons e envolventes arranjos.

"I Feel it"

"Trombodo" é um breve interlúdio orquestral que lembra aqueles álbuns progressivos conceituais que logo desemboca na faixa “Portrait of Youth” que te remete ao The Who, sobretudo pela forma complexa e cheia de recursos da bateria. Riffs de guitarra que te coloca alguns anos à frente, com peso e lembrando aquele proto-metal. Excelente faixa! 

"Trombodo"

“She don’t Care” é fantástica! O peso, os riffs de guitarra lisérgicos, pesados, te coloca em uma máquina do tempo rumo ao futuro, afinal é uma sonoridade rasgada, seca que te lembra fielmente o stoner rock dos tempos de hoje. Um proto stoner de respeito.

"She don't Care"

"Time Has Slipped Away" muda o humor do álbum e te entrega algo mais sombrio, soturno e introspectivo, mas não menos pesado, mas com alternâncias de passagens mais psicodélicas. O solo de guitarra é dissonante, rasgado e ácido.

"Time Has Slipped Away"

“To be Free” destoa um pouco da proposta do álbum é mostra mais do momento do rock daquele ano do que qualquer outra coisa. Riffs de guitarra mais dançantes corrobora a condição da faixa. “Darlin” é mais uma peça de 30 segundos começando com alguns compassos de country antes de desabar em rajadas de risadas chapadas.

"To be Free"

Fecha com “Miles Away” é um saboroso “psicopop” com “tonalidades” country e de folkrock, uma pegada mais comercial, mais beat, com sons eletrônicos, com manipulações de vocais, com uma vibe mais experimental, mesclado a um conceito orquestral.

"Miles Away"

Depois do lançamento de “Dragonfly” a banda estava financeiramente quebrada. O conceito de Dragonfly criado pelos empresários alheios aos maus passos sob o aspecto da gestão da banda e da carreira dos músicos que praticamente foram jogados de lado em uma investida de boicote, além de escolhas erradas, fez com que o “projeto” do The Legend que foi construída pelos empresários foram determinantes para a sua queda vertiginosa.

Não tinha shows, promoções, afinal o que era “Dragonfly” sem nomes, sem créditos, sem nada? Mas ainda assim eles conseguiram uma pequena transmissão de rádio de Los Angeles, como Jack se lembra de ouvir e receber um cheque de valor baixo de royalties da BMI. Um dos empresários chegou a promoter conseguir um show para o Dragonfly/The Legend no The Filmore West, em São Francisco. Os músicos nunca souberam o quão sério isso poderia ser e com a situação cada vez mais complicada, as pretensões de shows não se concretizaram. Então o Dragonfly seguiu o caminho de tantas bandas, direto para as sombras do esquecimento.

Por volta de 1998 Jack recebeu uma ligação, no mínimo inusitada e surpreendente de um cara na Bélgica, dizendo que havia uma estação de rádio que tocava vinil de bandas antigas e obscuras e que uma das músicas do Dragonfly estava entre as dez mais pedidas pelos ouvintes! Coisas de banda cult!

Houve várias reedições deste álbum. A primeira foi em 1992 pelo selo “Eva”, que continua, para os fãs e colecionadores, sendo a melhor reedição digital disponível comercialmente. Foi originado de um “rip” de vinil com ruído leve, mas, de outra forma, um som muito bom. Outro relançamento veio em CD pela “Gear Fab” que é pesado em graves, muito mais barulhento e acelerado. A reedição de 2012, em CD, pela Sunbeam aparentemente pegou esta fita master defeituosa, mantendo a velocidade errada, aumentou o volume.

Independente da forma como foram concebidas as reedições, em que formato, recuperar essa obra de arte é urgente e necessário. Um trabalho calcado em revoluções sonoras que romperam com o status quo daqueles tempos de danças psicodélicas, de beat, de lisergia experimental. “Dragonfly” diante de tantos entraves, de obstáculos destrutivos e irreversíveis por empresários que vislumbraram tão somente a grande oportunidade de ganhar dinheiro em detrimento da música, ainda assim não destruiu a essência de uma música arrojada e singular. Isso sim, manteve, até os dias de hoje e para todo sempre, solar e poderoso.




A banda:

Gerry Jimmerfield nos vocais, guitarra base

Randy Russ na guitarra solo

Ernie McElwaine nos teclados

Jack Duncan no baixo

Barry Davis na bateria

 

Faixas:

1 - Blue Monday

2 - Enjoy Yourself

3 - Hootchie Kootchie Man

4 - I Feel It

5 - Trombodo

6 - Portrait of Youth

7 - Crazy Woman

8 - She Don't Care

9 - Time Has Slipped Away

10 - To Be Free

11 - Darlin'

12 - Miles Away



"Dragonfly" (1968)