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domingo, 12 de abril de 2026

Triade - 1998: La Storia di Sabazio (1973)

 

A influência do britânico Emerson, Lake & Palmer para o rock progressivo italiano é notório! Não falo de plágio ou que a Itália progressiva se deita na fama sonora do ELP para construir o seu som. É perceptível! Mas ainda assim a Itália, mesmo com a forte influência, e assim devemos chamar, soube edificar a sua sonoridade com qualidade e originalidade.

Os teclados, as texturas sinfônicas baseadas na música clássica serviram e ainda servem de sustentáculo para o prog italiano. A maioria das bandas clássicas da Itália traz essas nuances de forma latente, viva. As bandas progressivas italianas, principalmente aquelas que atingiram o status de pioneirismo, foram movidas pelo teclado, pelas notas sinfônicas, com um forte toque de dramaticidade tipicamente italiano.

E a banda que falarei hoje indica a forte influência do Emerson, Lake & Palmer, mas, claro, assume também uma história calcada no mistério e na escassez de informações. Assim deve ser, afinal, essa é a razão de ser deste humilde e reles blog que você, estimado leitor, lê. A banda se chama TRIADE.

O Triade era é uma banda que foi concebida na cidade de Florença, na Itália, no início dos anos 1970 e, como o ELP, era um trio que, por décadas, não se sabia seus nomes. Sim, já começa por aqui! No seu único álbum, lançado em 1973, de nome “1998: La Storia di Sabazio”, o selo de Milão, Derby, não creditou seus nomes no vinil. Na realidade apenas seus sobrenomes apareciam como créditos na arte gráfica do álbum. E isso fomentou a aura sombria que pairava na história da banda.

Mas de certa forma isso era comum entre os jovens músicos italianos de rock progressivo na década de 1970 onde se usava nomes “fantasmas” ou pseudônimos para evitar problemas legais, pois a maioria não eram membros da Siae, a italiana Riaa.

Somente anos mais tarde, por intermédio de um árduo trabalho, o historiador de Rock Progressivo Italiano, Augusto Croce e o músico Enrico Rosa descobriram o mistério e a história foi revelada. O tecladista Vincenzo Coccimiglio (que tinha apenas 18 anos na época) conheceu o baixista Agostino "Tino" Nobile em um clube de Rock. Os dois se deram bem e cada um escreveu um lado do material no álbum. Demorou algum tempo, mas eles finalmente encontraram um baterista bom o suficiente para lidar com o que eles escreveram: Giorgio Sorano.

As origens do Triade, no início dos anos 1970, surgiram a partir da banda “Noi Ter”, onde Agostino tocou com Franco Falsini, do Sensations Fix e Paolo Tofani, do I Califfi e, posteriormente, do Area. Ele trabalhou então no Space Electronic, em Florença, onde conheceu Vicenzo. Começaram a tocar juntos e, como disse, compuseram cada um deles, um lado do álbum e com a adição de Sorano formaram finalmente o Triade.

A origem do nome "Triade", poderia ser usada em vários contextos. Talvez religioso, as três divindades, os três músicos ou ainda musicais, um acorde com três notas. O fato é que a nomenclatura tem origem, gira em torno do número "3". A tríade é um termo que se refere a um conjunto de três elementos, pessoas ou coisas. A palavra vem do grego, "trias" que significa "três". O fato é que a origem do nome, sem dúvida, gira em torno do número "3". E já que falei da arte gráfica, o belo trabalho da capa do álbum, foi de responsabilidade da namorada do baterista que era design gráfica.

Triade

Eles foram contratados pelo produtor Elio Gariboldi (um famoso produtor italiano, mais conhecido por ter feito parte da banda italiano “Squallor”) e também contratado, de forma imediata, pelo selo Derby. Em 1973 “1998: La Storia di Sabazio” foi gravado no Rossi Studio, em Milão, e teve a arte, bem interessante e enigmática, desenhada pela esposa de Sorano. Convém lembrar que o selo Derby já havia produzido muitos álbuns de Toquinho ou Gianni Bella, uma gravadora que nada tinha a ver com rock progressivo.

“1998: La Storia di Sabazio” apresentava uma obra conceitual, pequenas “peças” progressivas de no máximo dois ou três minutos cada, explorando diferentes progressões e arranjos instrumentais, tendo o teclado como ponto central de sua música. Tal construção me remete e muito o estilo “Tarkus”, clássico do Emerson, Lake & Palmer”, com os teclados em destaque, sobretudo na primeira faixa, “Sabazio”, que é dividida em quatro partes instrumentais.

O único álbum do Triade é, como disse, fortemente influenciado por Emerson, Lake & Palmer, isso é inevitável, mas não se pode afirmar plágio ou cópia, mas a forte influência britânica na música progressiva italiana. Assim como suas inspirações inglesas, a música do Triade focava em um jogo intenso entre teclados, claro, e seções rítmicas marcadas. E assim se percebia no primeiro lado do álbum, composto por Vincenzo Coccimiglio. Um som instrumental, curtas faixas, influências clássicas, prog com psych em várias partes, um som suave nada intrincado, mas com o toque requintado das teclas de Vincenzo, mostrando virtuosidade.

O segundo lado do álbum, continua no rock progressivo, mas com forte viés melódico e sinfônico, onde Agostino Nobile, compositor das faixas, surge com violão acústico, em vez do baixo, acompanhando os teclados. Aqui, neste lado, traz à memória o Le Orme, mas também traz toques evidentes do ELP, mesclando partes instrumentais, acústicas e vocais, intercaladas com teclados e sintetizadores, sempre dentro da linha progressiva um pouco mais melódica e sinfônica. E o violão lembra os sets de Greg Lake quando esteve à frente do Emerson, Lake & Palmer. Essas nuances, um tanto quanto distintas, entre os lados do álbum ganhou críticas não muito agradáveis, por conta dessas abordagens sonoras, mas penso ser exageradas, pois, apesar de contarem com compositores únicos e diferentes, percebe-se, apesar de tudo, uma base calcada no prog italiano que se praticava na primeira metade dos anos 1970.

O álbum começa com a suíte “Sabazio” que é dividida por quatro partes, com pouco mais de três minutos cada, são elas: 1- “Nascita”, 2- “Il Viaggio”, 3- “Il Sogno” e 4- “Vita Nuova”. A parte 1 traz um som mais suave, mais pastoral e viajante, quase contemplativo, com um órgão flutuante. A parte 2 já traz um órgão mais pulsante, com a seção rítmica mais enérgica, o baixo e bateria em uma sinergia interessante. A parte 3 apresenta tambores, algo mais percussivo, órgão também pulsante e latente, com energia, além da inclusão de violoncelo. Ao longo da música vai ficando mais poderosa, um pouco mais pesado. A parte 4 traz a predominância de teclados duplos, a prog rock aqui é mais evidente. “Sabazio” é o sonho para qualquer amante de música clássica e progressiva, graças ao órgão, ao piano, violoncelo, com elementos de rock como o baixo e a bateria. Uma sonoridade, embora simples, se revela atraente e elegante o que é incrível para músicos tão jovens à época.

"Sabazio - Nascita" (Parte 1)

"Sabazio - Il Viaggio" (Parte 2)

"Sabazio - Il Sogno" (Parte 3)

"Sabazio - Vita Nuova" (Parte 4)

Segue para o outro lado do álbum com a faixa “Il Circo” que traz uma batida mais voltada para o rock, com uma pegada mais hard, pesada, com um órgão igualmente pesado e enérgico. Aqui as teclas se destaca, com a bateria, marcada e pesada, também protagoniza.

"Il Circo"

“Espressione” soa mais como um típico rock progressivo italiano com sintetizadores, acústico, com pianos doces e vocais calorosos e agradáveis. Aqui percebe-se, de forma nítida, o lado mais suave e romântico da Itália progressiva. Um ótimo trabalho de piano e acústico agradável. Traz um pouco de sinfônico com sintetizadores já para o final da música.

"Espressione"

“Caro Fratello” é parecido com Il Circo, por ser um rock mais acelerado com órgão, mas se expande por incluir mellotron, violão acústico e vocais mais suaves. O destaque fica logo no começo com órgão, bateria e baixo em uma ótima jam, extremamente animado, solar. Aqui também traz, claro, destaque para o órgão, que divide momentos mais animados e enérgicos, com momentos mais intimistas e dramáticos.

"Caro Fratello"

E fecha com “1998 (Millenovecentonovantotto)” começa com uma onda de dedilhados acústicos, com vocais suaves e melódicos, com um baixo bem tocado. A bateria surge dando “corpo” a faixa. Fica mais edificante com sintetizadores alegres e vibrantes, sobretudo em seus momentos finais. As seções acústicas, bem tocadas, se misturam com bons teclados. Se revela uma música com boas camadas e animada.

"1998 (Millenovecentonovantotto)"

Com a mudança do produtor Gariboldi para Munique, na Alemanha, o novo produtor, de nome Lombroso, assume a produção do Triade. A primeira exigência dele foi que a banda voltasse ao estúdio e gravar um álbum mais comercial. A banda imediatamente recusou a proposta. Aqui seria o começo do fim do Triade. Mas não foi apenas a discordância entre produtor e banda, com relação às novas tendências sonoras, que fez com que o Triade findasse, tão precocemente, a sua trajetória.

A crítica também não foi muito gentil com a banda. Os acusou de serem pouco originais, principalmente por não enfatizar tanto, segundo os críticos, a essência do rock progressivo italiano, absorvendo sonoridades britânicas, principalmente do Emerson, Lake & Palmer. Evidente que o único álbum do Triade não soa original e traz influências do ELP, afinal, penso que as raízes progressivas italianas vêm dos britânicos, principalmente do Emerson, Lake & Palmer e nota-se, de forma evidente, a meu ver, uma sonoridade simples, quase inocente, sim, mas muito talhado para o rock progressivo italiano.

“1998: La Storia di Sabazio” talvez não represente totalmente a pureza do rock progressivo italiano que foi se construindo ao longo dos anos 1970, mas é um resultado, como todas bandas que surgiriam no cenário italiano, das influências daquele país, absorvendo ainda as características marcantes da sua sonoridade, as suas peculiaridades.

Após a formação da Triade, quando o baterista Giorgio Sorano entrou por último na banda, surgiu a chance, e foi tudo muito rápido, de se reunir com o produtor Elio Gariboldi. E deve-se a ele por ajudar os jovens músicos à época, a lapidar seu som, produzindo resultados lucrativos, sob o aspecto sonoro, com “1998: La Storia di Sabazio”, que incluíam equipamentos, instrumentos de ponta, como mellotron e um gonue gigante, além de um tempo considerável em um estúdio com um engenheiro de som. E assim surgiu o único álbum do Triade.

“1998: La Storia di Sabazio” entrou na cena prog italiana com um grande destaque, devido às performances ao vivo enérgicas e até extravagantes da banda. Os garotos do Tríade estavam no auge da criatividade e físico e o mundo parecia ser o limite. Logo abriram shows para as grandes bandas da época, como Banco, Premiata Forneria Marconi e Franco Battiato e até conseguiram alguns shows como atração principal, mas apesar da exposição que a banda vinha conquistando, o álbum não emplacava, não correspondendo às expectativas de vendas.

A corrida do ouro do progressivo italiano, nos anos 1970, para muitos virou simplesmente um latão desvalorizado e frustrante e com o Triade não foi diferente. As baixas vendas de seu álbum e o tímido apoio da gravadora fez com a banda cessasse as suas atividades precocemente, como tantas outras que seguiram sua trajetória na mais profunda obscuridade e ostracismo.

“1998: La Storia di Sabazio” teve alguns relançamentos. Em 1974, um ano após seu lançamento, o selo Derby o relançou na Itália, no formato LP e cassete. Em 1993 foi lançado no Japão pelos selos Nexus International e King Records no formato LP. Em 1987 novo relançamento no Japão no formato CD, pelo selo Nexus e outro relançamento, em 1993, também em CD, pelo selo CGD. Em 1993 foi a Coréia do Sul. Entre 1994 e 2020 foram vários relançamentos, em CD e LP, alternando entre a Itália e o Japão.





A banda:

Vincenzo Coccimiglio nos teclados

Agostino Nobile no baixo, violão e vocal

Giorgio Sorano na bateria

 

Faixas:

1 - Sabazio: Nascita

2 - Sabazio: Il Viaggio

3 - Sabazio: Il Sogno

4 - Sabazio: Vita Nuova

5 - Il Circo

6 - Espressione 



"1998: La Storia di Sabazio" (1973)



























 


sábado, 28 de março de 2026

Mutha Goose - I (1975)

 

Uma banda envolta em sombras! Um álbum produzido de forma artesanal, com um número incipiente de cópias! Assim se faz uma banda obscura! Ou melhor: aqui, neste reles e humilde blog, não se faz, mas dissemina, difunde! Bandas como a que eu tentarei contar a história, jamais ganharia, com exceção de um valoroso nicho de abnegados, as redes sociais ou os canais de comunicação e/ou a geração de conteúdos de quem quer que seja.

O rock n’ roll é desconhecido pelos seus ditos apreciadores. E nesse momento em que podemos dizer, com certo risco, que as bandas não são tão somente obscuras, mas as tornam obscuras. O mercado fonográfico tendência e é tendencioso, o modismo é a arma que segmenta, trazendo cenas e bandas, muitas vezes, manipuladas pelo marketing, por empresários, pseudo empreendedores da música, onde a música, a arte, é pincelada por melodias acessíveis, de fácil assimilação, com potencial de “venda”.

E assim simula e projeta as percepções de um mercado que, de joelhos, segue, como uma ovelha, o pastor fonográfico, que decide os nossos gostos musicais. Mas ainda há abnegados, persistentes que, em um nível de resistência, segue na contramão do status quo sonoro e trazem bandas como essa que, modéstia à parte, somente este e poucos blogs, podem trazer. Qual é a banda? MUTHA GOOSE.

O Mutha Goose foi uma raríssima e esquecida banda norte-americana, formada em Indiana que, dada a sua arrojada e pouco ortodoxa música, foi relegada ao ostracismo e, evidentemente, pouco se sabe dela e a grande web, tida como democrática, na difusão, em profusão, de tantas informações, reduz-se a poucas linhas para essa banda.

Foi uma banda que sequer atingiu sucesso em Indiana, mas, ainda assim conseguiu, de forma, como disse, artesanal e limitada, gravar apenas um álbum, em 1975, chamado de “I”, pelo selo Alpha Omega, gravadora de Indiana que atuou no mercado entre as décadas de 1960 e 1970. Claro que pouco se sabe quantas cópias foram lançadas, mas, diante de cenário de total obscuridade e ostracismo, reza a lenda que foi um lançamento privado, com cerca de 50 cópias, apenas, que provavelmente circulou apenas a amigos e pessoas próximas aos integrantes da banda.


A névoa densa da desinformação também circunda entre os seus integrantes que é sabido os seus nomes, mas pouco se sabe quais instrumentos tocavam. A pouco informação pode ser um entrave, mas, preciso admitir que, lá no íntimo do meu ser, a obscuridade, tema central deste reles blog, é um ponto deveras sedutor. A banda trazia Jeff Cefali que, pelo que pude apurar, em minhas pesquisas, era baixista, Dave Limeberry, bateria e Mark Hardy e Herb Hagenwald que desconheço quais instrumentos tocavam.

Em algumas fontes, apurei que Herb, além de ter sido bem ativo nas composições das cinco faixas do álbum, também foi responsável pela produção deste, ganhando certo protagonismo na sua concepção. Nessa mesma fonte pude observar que o “Copyright”, ou seja, que, por definição, é o direito exclusivo do autor de reproduzir sua obra, geralmente utilizado em obras literárias e científicas, traz o nome de “Mutha Goose Productions”, o que reforça a característica bem artesanal na produção desse álbum, único lançado pela banda.

A sonoridade de “I” traz riffs pesados e fuzz, seja de baixo, como principalmente de guitarra, com bordas duras, sujas e alucinantes de órgãos, incluindo ainda o uso de flautas e piano. Nele se percebe, se ouve um hard rock, com temperos psicodélicos que se entrelaçam com arestas de garage rock e floreios progressivos, com destaque para jams estendidos e vocais lisérgicos. A sonoridade do único álbum do Mutha Goose entrega uma energia crua underground de algumas bandas obscuras dos anos 1970, com a tipicidade do Meio Oeste estadunidense, de sua, claro, ala mais underground.

Aos apreciadores de música pesada e pouco estereotipada, bem como os bons “degustadores” do prog rock com teclados em profusão, irá se deleitar com o trabalho do Mutha Goose. É fato que muito se explica também pela condição desse álbum, pois mostra um resultado que não se rotula, trafegando por várias vertentes, tendo como espinha dorsal, o hard e o prog.

O álbum é inaugurado pela faixa “You Said Goodbye” que introduz em dedilhados viajantes de piano e uma flauta doce, dando um clima pastoral à música, mas vai ganhando corpo, consistência sonora, os riffs mais pesados e pegajosos de guitarra capitaneiam essa transição do acústico ao peso do hard rock. O vocal não pode ser negligenciado, pois, nessa transição é participante de destaque, do melódico ao quase rasgado, ao grito. É a típica faixa progressiva, repleta de mudanças rítmicas, tendo o órgão catártico, energético e que desemboca em um solo frenético de guitarra, com a camada de teclados igualmente poderosos. Uma música organicamente caótica e complexa.

"You Said Goodbye"

“I Think It's You” chega dançante, uma pegada mais sinfônica e cristalina aos ouvidos. O vocal é extremamente limpo e melódico. A faixa é solar, o piano traz o balanço, mas não se engane, a música prega uma peça e se mostra dinâmica, com riffs pesados de guitarra que a coloca em um patamar pesado típico do hard rock e que logo se revela mais acústica, com as flautas trazendo de volta um clima de balada rock mais acessível aos ouvidos. A “cozinha rítmica” ganha destaque no final da faixa, baixo galopante, bateria pesada, guitarra estridente. Excelente!

"I Think It's You"

“Exodus” traz a introdução voltada mais para o psych prog, algo mais experimental, baixo potente, vívido, bateria marcada, pesada, o órgão te manda para mares progressivos e psicodélicos. A lisergia encontra a sofisticação do progressivo. Mas o hard rock, personificado pelo riffs pesado e sujo de guitarra, traz o inusitado, a sopa sonora. Solos ácidos, lisérgicos, garageiros são ouvidos. O complexo em um casamento com o despretensioso.

"Exodus"

“Freak – Hitchhicker” me remete ao minimalismo do krautrock germânico, uma simplicidade carregada de peso, de um hard psicodélico repleto de lisergia e um experimentalismo que beira a jams sections totalmente desprovida de bons modos. É sujo, é garageiro, é louco e pouco ortodoxo. Riffs de guitarra e solos deixam a música ainda mais pesada e é nesse momento que o hard rock, típico, domina. A simplicidade se revela dura e pesada.

"Freak-Hitchhiker"

E fecha com “Being Her Friend” que traz uma introdução mais soturna, diria sombria, com um vocal distante, abafado. Algo dramático, em tom de dramaticidade traz uma camada estranha para essa música. Flautas, suaves notas de teclados corroboram a sua condição soturna e reflexiva. Mas eis que surge a surpresa: A guitarra traz um riff mais dançante, o baixo segue com um groove animado e a bateria, em uma batida marcada e pesada entrega uma pegada distinta a música e assim termina, de forma mais animada e solar.

"Being Her Friend"

A qualidade dessa sonoridade é definitivamente sólida, do seu começo ao fim, um som estranho, por vezes, sombrio, mas muito inventivo e que não se prende a rótulos e estereótipos, fazendo dele uma obra excelente de hard prog, com uma pegada garageira e suja. E quando trazemos à tona essas nuances a um álbum que tem o progressivo, pode parecer, aos ouvidos mais conservadores, improvável, mas sim, é possível associar, claro, de forma arrojada o rock de garagem, por exemplo, ao prog rock.

A edição original, pelo que pude apurar também, por intermédios das escassas fontes disponíveis, é até agora a única deste álbum e, por ter tido uma baixa tiragem, é muito difícil de conseguir, não tendo, como disse, reedições disponíveis, o que faz do único álbum do Mutha Goose e, consequentemente da banda, obscura, rara. Não duvido que esse trabalho, se tem disponibilidade de venda, deve ter cifras estratosféricas, o que faz dessa banda e álbum sedutores dentro de seu universo obscuro. Mas não é apenas por isso, também pela sua sonoridade arrojada e de profunda personalidade criativa.


A banda:

Jeff Cefali no baixo

Dave Limebery na bateria

Mark Hardy ?

Herb Hagenwald ?

 

Faixas:

1 - You Said Goodbye

2 - I Think It's You

3 - Exodus

4. Freak - Hitchhicker

5. Being Her Friend




"I" (1975)

 


















sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Medusa - Calling You (1977)

 

Nessa minha saga desbravando os “escombros” empoeirados do rock n’ roll, por intermédio deste reles e humilde blog que você, caríssimo leitor, tem lido e que eu eternamente agradecerei pela audiência e credibilidade, tenho feito algumas loucas, estranhas e doces descobertas.

Porque a minha atual realidade, ou melhor, a minha realidade há anos nas minhas audições é exatamente trazer algo mais arrojado e pouco usual para a minha vida “sonora”. Não é tão somente a complexidade sonora que me cativa mais, mas a loucura despretensiosa e nitidamente suja. Sabe aquelas produções “artesanais” repletas de defeitos? É isso!

E mesmo diante disso tudo, ainda consigo ouvir e apresentar, em meu blog, as sonoridades de que sempre apreciei e “degustei”, como prog rock, hard rock, psych, stoner rock, entre tantos outros. É possível “harmonizar” todas essas vertentes ao que estou desbravando? Sim, caros leitores! E consegue com um prog rock, por exemplo, tido como uma sonoridade tão sofisticada? Sim, porém com nuances mais, digamos, underground, garageira mesmo.

E hoje eu gostaria de apresentar a todos os amigos leitores algo totalmente inusitado, louco e pouco, pouquíssimo normal para a realidade pasteurizada e previsível do rock, logo raro, muito rara, afinal, como que uma sonoridade como essa pode ser encarada como algo potencialmente “consumível” para um público ortodoxo do rock, de um mercado conservador. Falo da banda alemã MEDUSA.

Essa obscura banda germânica eu descobri recentemente e que, como disse, me trouxe uma doce loucura calcada na liberdade criativa e totalmente desprendida de uma projeção mercadológica. E é mais uma “Medusa”, diante de tantas outras que surgiram na mesma condição que esta banda: obscura e que, diante desse cenário, pereceram todas precocemente. Por aqui neste blog há algumas “Medusas”, como a norte americana e mexicana que valem a pena conferir.

E como tantas outras bandas raras e obscuras, o Medusa alemão percorreu um caminho no ostracismo, na escuridão e com uma caminhada efêmera e um fim esquecido e triste, mas são essas histórias fracassadas, comercialmente falando, que entregam os melhores e mais pitorescos episódios.

E como tal poucas são as informações disponíveis sobre as suas origens e sua história, mas tentarei arduamente trazer o máximo que posso sobre o Medusa. A banda, formada na segunda metade dos anos 1970, surgiu em Nordrhein-Westfalen; Parte dos músicos vieram de Wuppertal e de outras cidades mais próximas, como Velbert.

E falando nos músicos a sua formação original trazia Peter Bolling, no baixo, Detlev Orthey, na bateria e percussão, Nobert Labgensiepen, na guitarra, Ingo Klich nos teclados e Volker Kappelmann nos vocais e guitarra.

Em janeiro de 1977 o Medusa lançaria o seu primeiro e único trabalho chamado “Calling You” em uma prensagem privada e extremamente limitada, pelo selo Schnecke Records.

“Calling You” traz uma miscelânea sonora extremamente incomum e arrojada, com influências, pasmem, de punk rock e krautrock e rock progressivo, além de elementos claros de hard rock com discretas pitadas de blues rock. Um tecido psicodélico cobre toda essa sopa sonora com guitarras lisérgicas e batidas beat e pesadas.

Talvez estejam, bons e estimados leitores, se perguntando como pode ser provável ter o rock progressivo e punk rock juntos em um mesmo álbum? Bem não negarei a loucura disso, mas não nego também que é no mínimo atraente ter ouvido “Calling You”!

Claro, o ano de lançamento, 1977, era o período emergente do punk e, como toda banda alemã que se preze, tem de ter um “tempero” prog rock e krautrock e esses caras tiveram a audácia de fundir essas vertentes sonoras e fazer desse álbum estranho, louco e incomum. O prog rock não traz aquela complexidade e sofisticação, mas o que importa? É muito bom ter descoberto e feito a audição dessa sopa bem nutrida de sons arrojados e sem nenhum tipo de carimbo ou rótulo.

Então já que trouxe um pouco do que significa o álbum do Medusa, “Calling You”, vamos trazer um pouco do que cada música oferece? Vamos a elas! E começa com a faixa “Go Kids Go” que já começa com a louca mistura entre punk ou até diria um pré-punk, proto punk com um psych, bem veloz e sujo. O peso se entrelaça com o órgão, com a gaita, com a guitarra eletrificada e vocal meio gritado. O que dizer da gaita no meio do peso, do frenesi da música, dando uma cadência...?

"Go Kids Go"

Mas tudo muda um pouco, ou diria muito, com a faixa seguinte: “The Change”. A música mais longa do álbum, que conta com pouco mais de onze minutos de duração, traz um rock psicodélico, com discretas passagens de krautrock e que mostra algo mais bem elaborado, musicalmente falando, com uma introdução, embora breve, bem linda de guitarra com um solo bem viajante, mas que logo fica pesado com uma bateria marcada e agressiva com um órgão enérgico. Mas logo fica tudo mais introspectivo, trazendo também as variâncias rítmicas do rock progressivo. Há um toque épico nessa música e faz dela o destaque do álbum. É lírico, é vibrante, é viajante.

"The Change"

A sequência traz a faixa “Hey Rock 'n Roll”, já traz, até o fim do álbum, em um total de três músicas, uma pegada mais voltada para o hard rock e blues rock, além do inusitado punk rock também. E nessa música começa com o órgão dando uma camada mais sombria que logo fica mais sinfônico e depois surgem os riffs de guitarra e a bateria pesada e marcada e tudo se funde em uma psicodelia lisérgica e pesada, um hard psych cheio de voluptuosidade. E quando surge o vocal, este traz uma pegada mais proto punk. É espetacular essa faixa, porque mostra arrojo e a vocação dessa banda contra o estereótipo!

"Hey Rock and Roll"

“Medusa´s Calling You” começa com dedilhados de guitarra que me remete a uma balada de heavy metal, algo sombrio, soturno, mas, no decorrer da música, vai ganhando corpo e assumindo seu “lado hard rock”, com a bateria mais agressiva, o órgão mais energético, o baixo mais pulsante...Aqui o hard rock é mais heavy e punk, mas também progressivo, é também repleto de variâncias rítmicas, mostrando um Medusa mais encorpado, mais contundente, musicalmente falando. Mesmo com um álbum despretensioso e por vezes inocente em sua sonoridade, revelou-se complexo e arrojado. As teclas, de uma energia cativante, vão mostrando seu lado mais kraut, com alguma introspecção. O que dizer dessa faixa? Louca e vibrante!

"Medusa's Calling You"

E fecha com “QQ 10” que traz a introdução, cheia de ruídos, ao estilo hawkwind, meio psicodélico, meio space rock, que logo se mistura ao peso lisérgico, com bateria marcada e pesada, com riffs de guitarra mais sujos e viscerais e um baixo mais rasgados e potentes. Mas o peso dá lugar também a viagem progressiva do teclado mais pastoral e contemplativo, mas logo retorna ao peso que alia hard, punk e lisergia. Loucura sonora!

"QQ 10"

O Medusa, ainda em 1977, mais precisamente falando na segunda metade daquele ano lançaria um single, em maio, no Horst Burghardt – Tonstudio - Engelsmann & Burghardt em Castrop-Rauxel, com as faixas “Ocean Dream” e “Freedom”, pelo selo Life Records, da Alemanha, mas muito difícil de achar para audição.


E com essa nova gravação a banda traria também uma nova formação, trazendo a vocalista Njoschi Weber, o baterista Gerd Elsner, o guitarrista base e vocalista Peter Eckert, o baixista Pi Klein e o único membro da formação original Volker Kappelmann. A intenção era trazer novos tempos para o Medusa e gravar um novo álbum, mas não conseguiram seguir e pereceram de forma precoce.

Não se sabe se tiveram relançamentos, pouco consegui apurar a respeito dessa obscura banda, mas é informação de que a prensagem original de 1977 é disputado a tapas pelos colecionadores de vinis raros e que reza a lenda de que alguns foram colocados à venda na bagatela dos 600 euros, pasmem! O fato é que a sua sonoridade é arrojada, inusitada e louca, um doce e original loucura que é digna de audição.




A banda:

Peter Bölling no baixo

Detlev Orthey na bateria e percussão e sinos tubulares

Norbert Langensiepen na guitarra

Ingo Klich nos teclados

Volker Kappelmann na guitarra solo, vocais e gaita

 

Faixas:

1 - Go Kids Go

2 - The Change

3 - Hey Rock 'n Roll

4 – Medusa’ s Calling You

5 - QQ 10 



"Calling You" (1977)














 











sábado, 24 de janeiro de 2026

Grupo Um - Marcha Sobre a Cidade (1979)

 

A segunda metade dos anos 1970 a música instrumental estava passando por uma série de mudanças mercadológicas e estéticas, principalmente diante de um cenário em que o punk, a música “disco” e a new wave começava a ganhar tendência entre os jovens e que logo se revelaria em uma onda modista que ganharia o cerne das atenções.

Mas no Brasil estava começando uma abertura por intermédio de lançamentos independentes. Na Europa existia um movimento em torno da gravadora ECM Records, que lançava álbuns de jazz com uma estética própria. Nos Estados Unidos existiam várias tendências, desde o radicalismo tradicionalista até o experimentalismo eletrônico que se desdobrava em vários novos “formatos” sonoros. E nesse contexto que, apesar do sucesso comercial do punk, da “disco” e da “new wave”, que a música instrumental estava ganhando novas roupagens.

E a banda brasileira chamada GRUPO UM surgiria exatamente nessa efervescência. A banda nasceria, embrionariamente, em 1976, período em que Zé Eduardo Nazário, bateria e percussão, Lelo Nazário, pianos e teclados e Zeca Assumpção formava a banda “Cozinha Paulista”, de Hermeto Pascoal. Durante os períodos em que Hermeto se ausentava para algum trabalho fora do Brasil ou quando não tinha shows agendados, o trio se reunia na casa de Zé Nazário, na Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, para ensaiar, para tocar.

Grupo Um com Hermeto Pascoal no MAM (1976)

Em julho de 1976, ao lado de Luiz Roberto Oliveira, dos irmãos Nazário (Zé e Lelo), o Grupo Um realizou o seu primeiro show e com um sintetizador eletrônico, um ARP 2600), um dos primeiros que se tinha notícia no Brasil à época. A instrumentação contava com piano acústico e elétrico, fita pré-gravada (lançada a partir de um gravador), bateria e percussão, o que incluía, entre outras coisas, objetos diversos que eram quebrados dentro de uma enorme bacia, constatando uma incrível capacidade de improvisação, experimentalismo e minimalismo musical. No show teve até a pausa para o café!

Grupo Um

Nesse período o grupo Um gravou trilhas sonoras para filmes (longas-metragens e científicos) e até mesmo música para balé, como o “Transformations”, do coreógrafo japonês Takao Kusuno. Em 1977, quando a banda deixou efetivamente de seguir com os shows com Hermeto Pascoal, o Grupo Um fez a sua primeira sessão de estúdio, no “Vice-Versa B”, que pertencia ao maestro Rogério Duprat, já contando com a participação de Roberto Sion, no sax soprano e Carlinhos Gonçalves, na percussão.

A gravação era feita em poucas tomadas, com todos tocando juntos e em um espaço bastante limitado, simultaneamente, sem “play back”, como manda a tradição. A banda gostou muito do resultado e o próximo passo era levar o material gravado para às gravadoras. Os músicos perderam meses, recebendo sempre respostas negativas. Mas seguiram com seus ensaios e realizando algumas apresentações.

O trabalho com Egberto Gismonti, que se iniciou em 1977, obrigou o Zé Eduardo Nazário a abandonar o projeto do Grupo Um por algum tempo, muito em função das viagens, ensaios e gravações. Ao retornar da turnê “Tropical Jazz Rock”, em maio de 1979, se desligou finalmente do “Academia de Danças” e voltou a trabalhar com Lelo e Zeca no Grupo Um, organizando nova sessão de gravação no mesmo estúdio “Vice-Versa B”, pequeno e sem a estrutura adequada, afinal era tudo que o dinheiro dos músicos podia pagar.

Gismonti com Grupo Um 

Mauro Senise, saxofonista, foi convidado, Carlinhos Gonçalves, percussionista, foi mantido e dessa sessão, entre 26 e 27 de setembro de 1979, registrada quase que efetivamente “ao vivo”. Assim surgia o primeiro álbum, lançado oficialmente, naquele mesmo ano “Marcha Sobre a Cidade”, conhecido como o primeiro trabalho de música instrumental independente no Brasil que se tenha notícia, em uma tiragem de 1.000 cópias. Vale como registro histórico que o lado “A” inteiro foi gravado em uma única tomada, afinal, não tinha estrutura e dinheiro para longas e longas sessões.

Mauro, Zeca, Felix, Lelo e Zé

A estreia do novo trabalho foi no Teatro Lira Paulistana, a “meca” das bandas independentes, fazendo história no Brasil durante os anos 1980. “Marcha Sobre a Cidade” recebeu ótimas críticas, vide os recortes de jornais e revistas que foram publicadas à época e foi apresentado ao público em várias regiões brasileiras, nas suas principais capitais.

 

Grupo Um em ação no Lira Paulistana (1981)

O reconhecimento foi considerável a ponto de ganhar terras europeias e em 1983 o álbum foi lançado na França, pelo selo Syracuse, com uma capa bem diferente do original. O Grupo Um realizou uma turnê naquele país e visitando também a Suíça, tendo participado do Festival de Jazz de Grenoble e nas cidades de Toulose, Montpellier e Pari, onde gravou um show no “Studio 106”, da Raio France e se apresentou na conhecida casa de jazz “New Morning”, além de ter gravado com o cantor e compositor francês Frederic Pagés o álbum “Chansons Mètisses”, finalizando a turnê em Genebra. A banda estava no seu auge!

“Marcha Sobre a Cidade” é calcado primordialmente no jazz, no jazz fusion, com experimentações e improvisações rítmicas e melódicas incríveis, estimulantes e até mesmo intrigantes, com construções que trazem referências do rock n’ roll, a música brasileira e música africana, graças ao seu trabalho ousado na percussão. O debut do Grupo Um definitivamente é para quem aprecia um som ousado e pouco usual, que entrega um minimalismo ao extremo, que lembra o krautrock germânico, com texturas experimentais e variações e desafios sonoros.

O primeiro álbum do Grupo Um estava longe de ser maçante, por conta das inúmeras improvisações e experimentalismos. Ele dispunha de uma estimulante pulsação, porque trazia o conceito regional muito acentuado, texturas tipicamente brasileiras e africanas, um genuíno “beat” brasileiro, um legítimo e solar free jazz brasileiro.

O álbum é inaugurado com a faixa “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]” que já começa com o excelente trabalho de percussão ao estilo música brasileira, a brasilidade mesclada a jazz rock, com um trabalho, igualmente excelente, do sax, melódico e dançante. Assim é a faixa: dançante, cheia de energia, animada. Entre solos rápidos de bateria e de sax, a música vai ficando mais encorpada, um jazz fusion com a cara do Brasil, o balanço do baixo, o frenesi dos teclados. Uma música incendiária para abrir o álbum.

 “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]”

Segue com “Sangue De Negro” que traz um caráter, uma textura mais experimental, com solos de bateria, trazendo um jazz mais “root”, mas por outro lado percebe-se algo mais minimalista, que me remete a um krautrock, com pitadas psicodélicas. Porém, ao longo da música, vai ganhando mais corpo com a bateria mais pesada, um fusion novamente, mas logo retoma o experimentalismo kraut.

"Sangue de Negro"

A faixa título, “Marcha Sobre A Cidade”, se revela mais a cara do álbum, um jazz contemporâneo, com a pegada fusion, a pitada mais pesada. Por vezes contemplativa e viajante, graças a linda execução do sax. É progressiva, cheia de viradas rítmicas, é psicodélica, é lisérgica, é experimental, é viva, é latente. Se mostra complexa, versátil. Aqui a banda está em nível criativo e de improvisação únicos. Sem dúvida uma das melhores faixas do álbum.

"Marcha Sobre a Cidade" - Ao vivo (1980)

“A Porta do ”Sem Nexo” mescla o free jazz, com a sonoridade experimental bem evidente, trazendo uma versão mais kraut, experimental, com ruídos, sons mais introspectivos, diria algo soturno, sombrio. Flautas, percussão, teclados, tudo trazendo texturas minimalistas e ousadas para a sua época. Definitivamente “Marcha Sobre a Cidade” é um álbum à frente do seu tempo.

"A Porta do Sem Nexo" - Ao vivo (1980)

“54754-P(4)-D(3)-0” segue com um jazz fusion mais puro e genuíno. Aqui é a música mais nervosa, um sax mais frenético e cheio de energia e até mesmo desconcertante, poderoso. A bateria segue batendo forte também, em um “duelo” mais do salutar com o sax. As teclas não ficam atrás, cheio de energia!

“54754-P(4)-D(3)-0”

E fecha com “Dala” que linda, viajante e contemplativa, segue, reinando absoluta durante toda a música, com um piano ao fundo que, em uma textura acústica, estica o tapete vermelho para o protagonismo do sax.

"Dala"

“Marcha Sobre a Cidade”, mesmo sendo um dos primeiros ou o primeiro álbum de música instrumental concebido de forma independente no Brasil, atingiu, de forma inacreditável, um sucesso que parecia, diante desse cenário, inimaginável. Era como se tivesse passado pelo buraco de uma agulha, trazia luz a um caminho escuro e completamente tortuoso que era do jazz fusion, da música experimental e instrumental em um país, em um mundo onde reinava o punk, a “disco music” e a new wave.

Era a possibilidade de abrir um caminho, com a sua luz, sendo um farol para tantas outras bandas que quisessem seguir a trilha, uma nova estrada para lograr um objetivo maior. Este lugar, ainda não explorado, situava-se além da fronteira do permitido, que era fortemente guardada pelos “baluartes” e “arautos” do colonialismo provinciano, que só abriam as portas para os que chegassem do exterior, mesmo que tivessem saído daqui, voltando depois com o selo de “importado”, para que pudessem ser “legalizados” e aceitos no meio artístico e no show business, principalmente em se tratando de música instrumental.

Os anos 1980 entraram e foram frutíferos para o Grupo Um. Foram gratificantes porque os músicos mostraram suas caras com seus próprios nomes, sem a tutela de quem quer que fosse, sendo músico, empresário ou produtor. Eles estavam conseguindo mostrar a sua música “louca” para o máximo de pessoas possível, mesmo que trafegando na zona underground. Estavam ganhando visibilidade, tanto que Carlinhos Gonçalves recebeu um convite para tocar na Austrália, sendo sucesso por muitos anos. Zeca Assumpção optou por mudar-se para o rio de Janeiro, em vistas das boas propostas de trabalho que surgiram. Em seu lugar ficou seu melhor aluno, que acompanhava de perto as apresentações do Grupo Um, esse era Rodolfo Stroeter que permaneceu na banda até a sua dissolução, em 1984.

Outro que se juntaria ao Grupo Um era Felix Wagner, nascido na Alemanha e vivendo, desde adolescente no Brasil. Paralelamente ele integrou com Lelo e Rodolfo o “Symmetric Ensemble”, uma banda composta por dois pianos e um baixo!

Em 1981 o Symmetric Ensemble faria uma turnê importante para a Europa cabendo a Zé Eduardo Nazário continuar com o Grupo Um. Além de Mauro Senise, participaram o pianista Nelson Ayres e os baixistas Evaldo Guedes em algumas oportunidades e Paulinho Soveral em outras, mantendo a banda em atividade, fazendo alguns shows.

Quando o resto da banda retornou dessa viagem à Europa, decidiram se reunir para iniciar o trabalho do segundo álbum, com novas composições que que Lelo vinha desenvolvendo. Assim nasceria para o mundo “Reflexões sobre a Crise do Desejo”, lançado em 1981, nos estúdios JV, dos músicos Vicente Sálvia e Edgard Gianullo, em São Paulo, que tinha um bom equipamento e contava com um excelente técnico, Sérgio Kenji Okuda (Shao-Lin), jovem, mas com bastante experiência e atento às nossas necessidades para colher o melhor resultado possível. O álbum foi considerado pela revista Manchete um dos dez melhores de 1981, além de conquistar elogios em resenhas dos mais conceituados críticos de música da época, colocando a produção independente no mais destacado patamar até então atingido por qualquer músico ou banda instrumental no Brasil.

"Reflexões Sobre a Crise do Desejo" (1981)

Em 1982 iniciaria a fase mais “colorida” do trabalho da banda, a começar pela capa do terceiro álbum do Grupo Um, “A Flor de Plástico Incinerada”. Esse LP foi gravado em outubro, época que marcou o início de uma transição nas carreiras dos jovens e talentosos músicos, sendo a eles oferecido o custeio da gravação e da produção gráfica do novo disco pelo selo “Lira Instrumental”, criado por um acordo entre o Teatro Lira Paulistana em parceria com a gravadora Continental e artistas que vinham apresentando trabalhos com regularidade na programação do teatro localizado à Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, São Paulo.

"A Flor de Plástico Incinerada" (1983)

Isso se devia ao notável crescimento das bandas de música instrumental, que passaram a ser vistos como um “filão” comercialmente explorável. Nesse mesmo pacote foi oferecido a zé Eduardo Nazário também o custeio da gravação e produção gráfica de seu primeiro álbum solo, “Poema da Gota Serena”, que foi realizada no mesmo estúdio (J.V.) e no mesmo período em que foram feitas as gravações de “A Flor de Plástico Incinerada”. Além disso, foram oferecidas também as passagens para a turnê europeia do Grupo Um, onde seria lançada a versão francesa do LP “Marcha sobre a Cidade” pela gravadora parisiense “Syracuse”.

Grupo Um no aniversário de São Paulo (1983)

A banda faria uma pausa em 1984 e que se tornaria um hiato por mais de trinta anos quando decidem retornar em 2015, gravando um registro ao vivo chamado “Uma Lenda ao Vivo”, em 2016. O show, gravado no dia 20 de agosto de 2015, no Teatro Sec Pompeia, foi diante de uma plateia atenta e afetuosa e é um registro da noite memorável que marcou a volta do Grupo Um aos palcos e que assinalaria outro fato marcante: os 40 anos da fundação da banda.

Grupo Um - SESC Instrumental Brasil (Ao Vivo)

"Uma lenda Ao Vivo" (2015)

As incursões pelo free jazz; pelo primitivismo étnico; pelo abstracionismo da música impressionista; pela fragmentação da música minimalista; pelos ruídos pelas células harmônicas e melódicas da música contemporânea; bem como pelas harmonias complexas da música brasileira; além das inúmeras experiências atonais do jazz contemporâneo, projetam o Grupo Um para além do música plástica e careta e muito próximo do experimentalismo e das improvisações livres de qualquer coisa modista e sempre “escravo” da criatividade sem arestas. “Marcha Sobre a Cidade” lançado de forma independente em 1979, com segunda edição pelo selo Lira Paulistana. Lançado na França pelo selo Syracuse em 1983. Reeditado em CD pela Editio Princeps em 2002.




A banda:

Zé Eduardo Nazario na bateria e percussão

Zeca Assumpção no baixo (Piano na Faixa 6)

Lelo Nazário no piano

Carlinhos Gonçalves na percussão

Com:

Roberto Sion no sax soprano (Faixa 8 – Bônus track)

Mauro Senise na flauta, sax alto e soprano (Faixas de 1 a 7, esta última Bônus Track)

 

Faixas:

1 - [B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]   

2 - Sangue De Negro        

3 - Marcha Sobre A Cidade         

4 - A Porta Do ''Sem Nexo''          

5 - 54754-P(4)-D(3)-0        

6 – Dala

 

Bônus Tracks:         

7 - N'daê      

8.1 - Festa Dos Pássaros 

8.2 - C(2)/9-0.74-K.76



"Marcha Sobre a Cidade" (1979) - Audição aqui!