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sábado, 6 de junho de 2026

P₂O₅ - Vivat Progressio - Pereat Mundus (1978)

 

Muito se fala em bandas “cult”, atribuindo tal termo, principalmente às bandas que tiveram um impacto significativo na história de seu gênero, de seu estilo, de sua sonoridade, de sua cena. Geralmente decretam bandas cult aquelas mais famosas, que atingiram uma faraônica credibilidade no rock n’ roll.

Não quero, prezados e estimados leitores, com isso demonizar tais bandas que trafegam no mainstream, pois merecem sua condição de cultuadas, a sua importância para catapultar tais cenas e tudo mais, porém gostaria de trazer à tona a importância também de algumas bandas que foram ou se colocaram em uma condição de marginalização da cena e discutir se podem ou não serem consideradas “cult”.

O que acham, nobres leitores? É possível atribuir-lhes tal título, mesmo que que tenham sido relegadas ao ostracismo? É difícil ou inconsistente coloca-las, por exemplo, em uma condição de pioneirismo dentro de seu estilo? O que realmente isso, efetivamente, importa para tais bandas?

Talvez seja um assunto deveras desnecessário, mas tendo em vista a razão de ser deste reles e humilde blog que visa, majoritariamente, difundir as bandas raras e obscuras, uma faísca desse assunto pode ganhar uma explosão de linhas, evidenciando um surto passional deste que vos fala ou melhor, escreve.

Em alguns textos meus, caso vocês, leitores, acompanhem, sempre venho com esse assunto e geralmente, dada, provavelmente as suas variáveis tão complexas, não consigo chegar a uma conclusão, mas tento efetivá-las trazendo o que sempre faço neste blog: histórias de bandas e seus álbuns. Creio que as suas histórias dizem mais do que mil argumentos e hipóteses acerca do tema espinhoso da representatividade dessas bandas no universo das cenas rock.

Então para não perder o costume vou trazer mais um aporte, ou pelo menos tentar, às minhas difusões da importância de trazer essas bandas a um patamar de importância para as cenas rock: E quando digo que vou tentar é porque, mais uma vez e, por razões óbvias, essa banda que falarei hoje, não goza de tantas informações para encorpar tais hipóteses e fundamentações. Que se dane, ao falar dela, já será um ponto preponderante para disseminar a sua história. Falo do P2O5.

Essa banda, de curioso e inusitado nome, alemã foi fundada em 1970, em Wendelstein, perto de Nuremberg e trazia, na sua base sonora, o que muitas bandas traziam naquela época, principalmente de transição entre as décadas de 1960 e 1970: rock progressivo, hard rock e também um belo e poderoso rock n’ roll. E muitos desses estilos, convém ressaltar, ainda eram embrionários, ainda estavam crescendo, ganhando contornos, o que pode se atribuir em importância, sobretudo na Alemanha, para o P2O5, apesar de ter uma profusão de bandas, naquele país, que tocavam tais vertentes. Era o tempo do auge do krautrock germânico.

Os membros da banda, que a fundou e traziam Wolfgang Burkhard nos teclados, Rainer Häuser na guitarra, Helmut Hiebel, no baixo e vocais e Edwin Lotter, na bateria, foram colegas de escola lá por Wendelstein e Nuremberg e foi nos bancos escolares que a inspiração, para o nome da banda, surgiu: “P2O5”, mais precisamente nas aulas de Química.

P2O5

Para aqueles que fugiram das aulas de Química no passado, “P2O5” é a nomenclatura do pentaóxido de difsforo ou óxido de fósforo ou ainda como se dizia, em tempos mais remotos, anidrido fosfórico, que vem a ser um componente fundamental na fotossíntese vegetal. Rezava a lenda, a boca miúda, de que tal fórmula era para explosivo, o que não confere. Acalmem-se, estimados leitores, não darei aula de Química, até porque, se o fizesse, seria um completo desastre. Vamos à música que já está de bom tamanho!

E por falar em explosivos, o que se pode afirmar era que seus shows eram explosivos e chamativos, apelando para algo cênico, teatral, caraterizados por apresentações pirotécnicas, além de figurinos e rostos pintados, tochas acesas, cruz de mármore entre outros apetrechos. E contar que começaram a ensaiar em vestiários, quartos, porão e alguns pontos dentro das escolas onde estudavam.

Os primeiros shows foram realizados em 1971, a maioria, localmente, em Wendelstein e, claro, também em Nuremberg. E, graças as suas performances, a fama da banda cresceu, a ponto de tocarem, naquele mesmo ano, em um concerto para a UNICEF. E com isso ofertas de shows maiores vieram em Tischenreuth, Amberg, Schweinfurt, Aschaffenburg e repetidas vezes em Wendelstein. Um dos destaques foi participar de uma competição, entre bandas, ao vivo do SWR (Südwestfunk) uma conhecida rádio alemã, em Baden-Baden, onde a banda conquistou um incrível segundo lugar.

O nível de popularidade, claro, cresceu, a banda ganhou evidência e em 1978 o primeiro álbum do P2O5 ganhou vida, pelo selo Brutkasten, o “Vivat Progressio - Pereat Mundus”. O álbum foi gravado em novembro, com uma tiragem muito pequena, pasmem, de 300 cópias! Mesmo com a banda em evidência, com relativo sucesso, ainda não teve o apoio necessário na produção e disseminação e divulgação de seu álbum.

Convém, antes de falar do álbum e suas faixas, de forma dissecada, como de costume, que a banda, entre a sua formação e lançamento de seu álbum, entre 1970 e 1978, teve algumas mudanças de formações, a começar por Rainer Häuse, guitarrista, em 1972, voltando, paraum curto período, em 1975, sendo substituído por Konny Hempel que participou da gravação do álbum.

Entrou também, para a banda, o vocalista Werner Weiss, em 1977. Então o line up que participou da gravação de “Vivat Progressio - Pereat Mundus”, de 1978, foi: Helmut Hiebel, no baixo e vocal, Eddy Lotter, na bateria, Konny Hempel na guitarra, Wolfgang Burkhard, nos teclados e no vocais principais Werner Weiss.

“Vivat Progressio - Pereat Mundus” nos entrega de bandeja faixas puras de heavy psych com aquela tipicidade crua alemã, com o típico hard rock e viagens progressivas realizadas com muita qualidade sonora. Ouso dizer que suas faixas, suas músicas, podem adentrar, com relativa facilidade, em qualquer álbum de banda de heavy metal dos anos 1980 que a torna, sem dúvida, uma referência em um estilo que, lá pelo fim da década de 1970, estava ganhando relevância com a sua “New Wave of British Heavy Metal” lá na Inglaterra. E ouso dizer ainda, graças a também fama do punk rock, que o P2O5 também absorveu um pouco da simplicidade e crueza do estilo. Ou seja, um banquete sonoro para todos os gostos!

O que há de melhor neste álbum fica para a parte instrumental, mas o destaque centraliza-se no impecável trabalho de guitarra de Hempel com seus riffs pesados mesclados aos trabalhos progressivos mais viajantes que remete ao Pink Floyd e o trabalho do tecladista Burkhard que realmente é digno de aplausos. Um sopro sonoro que vai do sombrio ao solar em um estalar de dedos, mostrando o quão complexo e orgânico o P2O5 foi com este álbum.

O álbum é inaugurado com a faixa “Comin' Over Again” que, logo de início, com seus grudentos riffs de guitarra sugerem uma pega punk rock, mas as veias do hard rock estão lá, com vocais meio roucos e ásperos, bateria pesada em uma batida frenética, um baixo pulsante e enérgico, mostrando uma “cozinha rítmica” poderosa e solar. Traz uma sútil, mas interessante camada de teclados, trazendo lembranças de um progressivo mesclado ao hard rock. O solo de guitarra é tirar o fôlego e, nesse momento, o teclado não deixa de ser tão sútil, mostrando uma atmosfera sombria. A faixa é espetacular e fecha em uma velocidade nos remetendo a um heavy rock volumoso!

"Comin' Over Again"

“Morning of the Ants” foge, em sua introdução, da volúpia sonora da faixa inaugural, trazendo certa calmaria, uma balada que começa ao dedilhar de guitarra, mas que, ao longo do tempo, vai ganhando corpo, a música fica encorpada, devendo a isso a batida da bateria, marcada e pesada, mas logo retorna a balada rock. Um hard rock mais cadenciado e que me remeteu, em alguns momentos, a algo como new wave, um pouco antes da explosão da cena nos anos 1980 e isso, a meu ver, se revela perceptível, com o solo de guitarra e até mesmo no seu dedilhar nos momentos mais calmos.

"Morning of the Ants"

“I Didn't Care” também começa discreta, uma balada mais viajante, contemplativa, um solo de guitarra típica de bandas progressivas, com uma camada, ao estilo space rock, de teclados, dando textura mais intimista. Aqui a estrutura sonora é sombria e psicodélica, com temperos progressivos. Mais uma vez a bateria entrega o lado mais pesado, mais hard rock desta faixa. O vocal colabora para o “humor” da música, trazendo introspecção. O que dizer do solo de teclados? Mais uma faixa espetacular que mostra, até então, uma banda extremamente versátil em sua sonoridade.

"I Didn't Care"

“Undumufu (All Right)” começa pesada, riffs de guitarra pesados e grudentos, vocais raivosos e, mais uma vez, a bateria ditando o ritmo desse hard rock com uma pegada punk. A sonoridade é descompromissada, despretensiosa, indo meio que contra maré da versatilidade das faixas anteriores. Aqui se percebe também a pegada new wave com sintetizadores bem animados e dançantes. Baixo pulsante, cheio de groove, entra em um salutar duelo com solos de guitarra. E segue assim, até o fim, com essa pegada pesada, meio new wave.

"Undumufu (All Right)"

“Smash” traz, logo de cara, o som denso do hard rock, com um riff inaugural de guitarra, denso, pesado, lembrando os primeiros trabalhos do Black Sabbath. Ouso dizer que nesta faixa temos algo arrastado, sujo que lembra o doom metal. Mas curiosamente o vocal aqui é límpido, transparente e de belíssimo alcance. Não podemos aqui negligenciar a “cozinha” rítmica dessa faixa: bateria marcada, igualmente cadenciada e, claro, pesada e um baixo pulsante e poderoso.

"Smash"

“Hangman” começa com aquela camada de teclados trazendo reminiscências de uma psicodelia perdida e esquecida na transição dos anos 1960 e 1970, mas que logo irrompe em uma hecatombe pesada, do hard rock, do hard psych típico do início dos anos 1970 que ainda sofria influências do movimento psicodélico. É deliciosamente pesado nos momentos mais “hard” e lisérgico nos momentos “psicodélicos”. Essas mudanças rítmicas, essa gangorra sonora é excelente para os amantes de psicodelia e hard rock dos anos 1970. Solos de guitarra competente, técnicos, orgânicos, contrastam com a estranheza dos teclados, que mostram o lado mais soturno da faixa.

"Hangman"

“Step On My Face” traz de volta o lado mais heavy rock com riffs de guitarra mais pesado, mais arrastado, em alguns momentos. Mas logo traz uma pegada de hard rock mais radiofônico, até mesmo comercial, uma sonoridade mais acessível. Teclados são ouvidos de uma forma mais animada e solar, corroborando uma sonoridade mais acessível, como disse. O encerramento da faixa é de tirar o fôlego com solos de guitarra técnicos, porém orgânicos e a bateria em uma pegada mais arrojada.

"Step On My Face"

E fecha com “Memories” e não poderia fechar melhor: animada, pesada, estrondosa! Aqui o hard rock se revela na sua essência, pesada, solar, riffs de guitarra pesados, bateria que levita de tão latente e altiva, baixo pulsante, vivo, intenso! A faixa é veloz, lembrando o heavy metal que estava engatinhando para o mundo. O vocal é alto, quase gritado, corroborando a sua condição sonora. E o fim é um transborde instrumental, teclados que lembra new prog, guitarras potentes, bateria e baixo em uma sintonia rítmica incrível. Que música!

"Memories"

Mesmo com as suas apresentações ao vivo explosivas e arrojadas, que lhe conferiu certa visibilidade e que culminou também com a gravação de seu único rebento, o P2O5 continuou a fazer suas apresentações ao vivo, mas, foi, aos poucos se desintegrando, enquanto banda.

Diante do entra e sai de tantos músicos pós lançamento de álbum, o que causou um grande impacto à banda foi definitivamente do tecladista Wolfgang Burkhard que deixou o P2O5 em 1980. O baque foi grande, mas a banda ainda conseguiu sobreviver por dois anos mais, decretando seu derradeiro fim em 1982.

É notório que o P2O5, com seu único álbum “Vivat Progressio - Pereat Mundus”, esteve muito à frente do seu tempo, sobretudo quando levamos em conta o que estava em evidência na música à época, comercialmente falando, com o punk, a disco music e até mesmo um prelúdio da new wave que, de alguma forma, engatinhava.

Sem contar com as suas apresentações teatrais, com seus cenários cheios de fantasia, com uma cruz de mármore gigante, tochas acesas, figurinos e um som místico, sem dúvida deixaria uma marca importante, uma pavimentação importante para as bandas de heavy metal fazerem sucesso nos anos 1980.

Em 1993 o selo Ohrwaschl Records lançou um álbum do P2O5 com faixas, digamos, “perdidas” e outras que entrariam no álbum oficial da banda, gravadas entre os anos de 1975 e 1976. Tais músicas foram concebidas antes do lançamento de “Vivat Progressio – Pereat Mundus”, que foi lançado oficialmente em 1978. Este último poderia, até 1993, ser considerado como o único trabalho, lançado oficialmente até então, mas, para a alegria de todos, “P2O5” veio ao mundo recuperando faixas que certamente estavam em algum baú empoeirado, em algum local inóspito, esperando ganhar a luz.

"P2O5 (1975/1976 - 1993)"

“Vivat Progressio – Pereat Mundus” não teve tantos relançamentos. O primeiro foi pelo selo Amber Soundroom, em 2004, no formato LP. Mais tarde, em 2007, foi relançado, no formato CD, pelo valoroso selo alemão, o Garden of Delights, , com duas faixas bônus inéditas. A mais recente, em 2018, foi relançada, em LP, pelo Golden Pavilion, La Pelote Records, em Portugal.




A banda:

Helmut Hiebel nos vocais e baixo

Eddy Lotter na bateria

Konny Hempel na guitarra

Wolfgang Burkhard nos teclados

Werner Weiss no vocal principal

 

Faixas:

1 - Comin' Over Again

2 - Morning Of The Ants

3 - I Didn't Care

4 - Undumufu (All Right)

5 - Smash

6 - Hangman

7 - Step On My Face

8 - Memories



"Vivat Progressio - Pereat Mundus" (1978)









 


















 



 


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Medusa - Calling You (1977)

 

Nessa minha saga desbravando os “escombros” empoeirados do rock n’ roll, por intermédio deste reles e humilde blog que você, caríssimo leitor, tem lido e que eu eternamente agradecerei pela audiência e credibilidade, tenho feito algumas loucas, estranhas e doces descobertas.

Porque a minha atual realidade, ou melhor, a minha realidade há anos nas minhas audições é exatamente trazer algo mais arrojado e pouco usual para a minha vida “sonora”. Não é tão somente a complexidade sonora que me cativa mais, mas a loucura despretensiosa e nitidamente suja. Sabe aquelas produções “artesanais” repletas de defeitos? É isso!

E mesmo diante disso tudo, ainda consigo ouvir e apresentar, em meu blog, as sonoridades de que sempre apreciei e “degustei”, como prog rock, hard rock, psych, stoner rock, entre tantos outros. É possível “harmonizar” todas essas vertentes ao que estou desbravando? Sim, caros leitores! E consegue com um prog rock, por exemplo, tido como uma sonoridade tão sofisticada? Sim, porém com nuances mais, digamos, underground, garageira mesmo.

E hoje eu gostaria de apresentar a todos os amigos leitores algo totalmente inusitado, louco e pouco, pouquíssimo normal para a realidade pasteurizada e previsível do rock, logo raro, muito rara, afinal, como que uma sonoridade como essa pode ser encarada como algo potencialmente “consumível” para um público ortodoxo do rock, de um mercado conservador. Falo da banda alemã MEDUSA.

Essa obscura banda germânica eu descobri recentemente e que, como disse, me trouxe uma doce loucura calcada na liberdade criativa e totalmente desprendida de uma projeção mercadológica. E é mais uma “Medusa”, diante de tantas outras que surgiram na mesma condição que esta banda: obscura e que, diante desse cenário, pereceram todas precocemente. Por aqui neste blog há algumas “Medusas”, como a norte americana e mexicana que valem a pena conferir.

E como tantas outras bandas raras e obscuras, o Medusa alemão percorreu um caminho no ostracismo, na escuridão e com uma caminhada efêmera e um fim esquecido e triste, mas são essas histórias fracassadas, comercialmente falando, que entregam os melhores e mais pitorescos episódios.

E como tal poucas são as informações disponíveis sobre as suas origens e sua história, mas tentarei arduamente trazer o máximo que posso sobre o Medusa. A banda, formada na segunda metade dos anos 1970, surgiu em Nordrhein-Westfalen; Parte dos músicos vieram de Wuppertal e de outras cidades mais próximas, como Velbert.

E falando nos músicos a sua formação original trazia Peter Bolling, no baixo, Detlev Orthey, na bateria e percussão, Nobert Labgensiepen, na guitarra, Ingo Klich nos teclados e Volker Kappelmann nos vocais e guitarra.

Em janeiro de 1977 o Medusa lançaria o seu primeiro e único trabalho chamado “Calling You” em uma prensagem privada e extremamente limitada, pelo selo Schnecke Records.

“Calling You” traz uma miscelânea sonora extremamente incomum e arrojada, com influências, pasmem, de punk rock e krautrock e rock progressivo, além de elementos claros de hard rock com discretas pitadas de blues rock. Um tecido psicodélico cobre toda essa sopa sonora com guitarras lisérgicas e batidas beat e pesadas.

Talvez estejam, bons e estimados leitores, se perguntando como pode ser provável ter o rock progressivo e punk rock juntos em um mesmo álbum? Bem não negarei a loucura disso, mas não nego também que é no mínimo atraente ter ouvido “Calling You”!

Claro, o ano de lançamento, 1977, era o período emergente do punk e, como toda banda alemã que se preze, tem de ter um “tempero” prog rock e krautrock e esses caras tiveram a audácia de fundir essas vertentes sonoras e fazer desse álbum estranho, louco e incomum. O prog rock não traz aquela complexidade e sofisticação, mas o que importa? É muito bom ter descoberto e feito a audição dessa sopa bem nutrida de sons arrojados e sem nenhum tipo de carimbo ou rótulo.

Então já que trouxe um pouco do que significa o álbum do Medusa, “Calling You”, vamos trazer um pouco do que cada música oferece? Vamos a elas! E começa com a faixa “Go Kids Go” que já começa com a louca mistura entre punk ou até diria um pré-punk, proto punk com um psych, bem veloz e sujo. O peso se entrelaça com o órgão, com a gaita, com a guitarra eletrificada e vocal meio gritado. O que dizer da gaita no meio do peso, do frenesi da música, dando uma cadência...?

"Go Kids Go"

Mas tudo muda um pouco, ou diria muito, com a faixa seguinte: “The Change”. A música mais longa do álbum, que conta com pouco mais de onze minutos de duração, traz um rock psicodélico, com discretas passagens de krautrock e que mostra algo mais bem elaborado, musicalmente falando, com uma introdução, embora breve, bem linda de guitarra com um solo bem viajante, mas que logo fica pesado com uma bateria marcada e agressiva com um órgão enérgico. Mas logo fica tudo mais introspectivo, trazendo também as variâncias rítmicas do rock progressivo. Há um toque épico nessa música e faz dela o destaque do álbum. É lírico, é vibrante, é viajante.

"The Change"

A sequência traz a faixa “Hey Rock 'n Roll”, já traz, até o fim do álbum, em um total de três músicas, uma pegada mais voltada para o hard rock e blues rock, além do inusitado punk rock também. E nessa música começa com o órgão dando uma camada mais sombria que logo fica mais sinfônico e depois surgem os riffs de guitarra e a bateria pesada e marcada e tudo se funde em uma psicodelia lisérgica e pesada, um hard psych cheio de voluptuosidade. E quando surge o vocal, este traz uma pegada mais proto punk. É espetacular essa faixa, porque mostra arrojo e a vocação dessa banda contra o estereótipo!

"Hey Rock and Roll"

“Medusa´s Calling You” começa com dedilhados de guitarra que me remete a uma balada de heavy metal, algo sombrio, soturno, mas, no decorrer da música, vai ganhando corpo e assumindo seu “lado hard rock”, com a bateria mais agressiva, o órgão mais energético, o baixo mais pulsante...Aqui o hard rock é mais heavy e punk, mas também progressivo, é também repleto de variâncias rítmicas, mostrando um Medusa mais encorpado, mais contundente, musicalmente falando. Mesmo com um álbum despretensioso e por vezes inocente em sua sonoridade, revelou-se complexo e arrojado. As teclas, de uma energia cativante, vão mostrando seu lado mais kraut, com alguma introspecção. O que dizer dessa faixa? Louca e vibrante!

"Medusa's Calling You"

E fecha com “QQ 10” que traz a introdução, cheia de ruídos, ao estilo hawkwind, meio psicodélico, meio space rock, que logo se mistura ao peso lisérgico, com bateria marcada e pesada, com riffs de guitarra mais sujos e viscerais e um baixo mais rasgados e potentes. Mas o peso dá lugar também a viagem progressiva do teclado mais pastoral e contemplativo, mas logo retorna ao peso que alia hard, punk e lisergia. Loucura sonora!

"QQ 10"

O Medusa, ainda em 1977, mais precisamente falando na segunda metade daquele ano lançaria um single, em maio, no Horst Burghardt – Tonstudio - Engelsmann & Burghardt em Castrop-Rauxel, com as faixas “Ocean Dream” e “Freedom”, pelo selo Life Records, da Alemanha, mas muito difícil de achar para audição.


E com essa nova gravação a banda traria também uma nova formação, trazendo a vocalista Njoschi Weber, o baterista Gerd Elsner, o guitarrista base e vocalista Peter Eckert, o baixista Pi Klein e o único membro da formação original Volker Kappelmann. A intenção era trazer novos tempos para o Medusa e gravar um novo álbum, mas não conseguiram seguir e pereceram de forma precoce.

Não se sabe se tiveram relançamentos, pouco consegui apurar a respeito dessa obscura banda, mas é informação de que a prensagem original de 1977 é disputado a tapas pelos colecionadores de vinis raros e que reza a lenda de que alguns foram colocados à venda na bagatela dos 600 euros, pasmem! O fato é que a sua sonoridade é arrojada, inusitada e louca, um doce e original loucura que é digna de audição.




A banda:

Peter Bölling no baixo

Detlev Orthey na bateria e percussão e sinos tubulares

Norbert Langensiepen na guitarra

Ingo Klich nos teclados

Volker Kappelmann na guitarra solo, vocais e gaita

 

Faixas:

1 - Go Kids Go

2 - The Change

3 - Hey Rock 'n Roll

4 – Medusa’ s Calling You

5 - QQ 10 



"Calling You" (1977)














 











sábado, 27 de setembro de 2025

Amos Key - First Key (1973)

 

É possível extrair boa música de um prog rock com peças descontraídas e repletas de improvisação e experimentação? Talvez essa pergunta não passe de um devaneio febril de minha parte, mas confesso que, a aventura pela qual estou submetido graças às histórias que tenho, a base de muita galhardia, contado neste reles blog, essa pergunta insiste em povoar os meus pensamentos.

Acredito que tais questionamentos surgem por conta de estereótipos que se constroem em certas vertentes do rock n’ roll e que, de alguma forma, nos aprisiona em determinadas questões que não tem, a meu ver, nenhuma ou mínima validade de aprofundamento: o rock é o rock e ponto final. Tudo é rock n’ roll. Evidente que nos deixamos seduzir em questionar ou abordar o que é hard rock, prog rock, blues rock, porque eles estão nas músicas das bandas, mas o fato é que tudo é rock.

Mas de um tempo para cá tenho feito essa pergunta: o prog, tido como uma música sofistica, e de fato é, pode ter uma intima ligação com uma sonoridade mais despretensiosa, improvisada, minimalista ou ainda suja? E, contando, como disse, certas histórias aqui neste simples e humilde blog, tenho desbravado alguns álbuns e bandas que, ao ouvir, me entrega um prog rock capaz de ser despretensioso, calcado em jam sessions ou até mesmo sujo.

E fazendo algumas incursões no universo da música rara e obscura eu lembrei de uma banda, claro, com essa proposta e que, de alguma forma me trouxe a resposta, ou pelo menos uma das respostas, a essa inquietante pergunta. Qual é? AMOS KEY.


Amos Key

A banda alemã Amos Key sintetiza, pelo menos em meus pensamentos, o conceito de uma banda progressiva, mas que traz uma espécie de escárnio sonoro, porque, intencionalmente, traz um som, em seu único álbum, lançado em 1973, de nome “First Key”, uma sonoridade despretensiosa, pouco arrojada, mas ao ouvi-los, percebe-se, por exemplo, referências de bandas icônicas como Emerson, Lake & Palmer e a outra alemã Triumvirat. E, convenhamos, bons amigos leitores, são bandas icônicas porque trazem sofisticação ao seu som. Porém, no caso do ELP, você percebe também, sobretudo ao vivo, uma sonoridade pesada com apresentações arrebatadoras.

Talvez você, um dos poucos certamente, que esteja lendo esse texto deverá me achar um herege, um leviano que está ousando em associar a música do Emerson, Lake & Palmer, a algo sujo, agressivo e até despojado, apesar da sofisticação e da qualidade de seus músicos, mas há também uma liberdade criativa sonora, que propicia uma sonoridade tão diversa e pouco rotulada.

O Amos Key, com seu primeiro trabalho, pode não ter oferecido nada de novo e arrojado, mas nos ensina que é possível aliar certas coisas que, dentro da música, tão dogmatizadas, torna-se possível, embora inusitados. Mas mesmo com todo o aparato pouco ortodoxo, digamos, os instrumentos são executados de forma virtuosa e com qualidade. Sem dúvida “First Key” é um trabalho que deve ser procurado e apreciado por puristas do prog rock sofisticado e até por aqueles que gostam também de algo mais sujo e agressivo. Todo o álbum é produzido de forma clara e poderosa, não podemos negligenciar isso!

Inclusive encontrei uma citação da própria banda falando da sua música e é emblemática a forma como a aborda, descontruindo, de forma categórica, e até engraçada a sua sonoridade, aderindo ao conceito de “progressividade zero”, onde tal vertente sonora estava em voga, principalmente no ano do lançamento de seu primeiro álbum, 1973. Leiam:

"Um verdadeiro tesouro de mutilações de música clássica, fragmentos anêmicos de jazz e clichês de rock desdentados. Há uma falta de substância musical para improvisações, então você conceitua. Mas simplório, muito simplório. Não há preocupação, nem fundo ideológico. Progressividade zero."

As informações recomendam que os potenciais compradores garantam que "adquiram protetores auriculares de bom tamanho em tempo hábil".

Mas falemos ou pelo menos tentemos falar um pouco do Amos Key, porque pouco se tem de referência dessa banda na grande rede. A banda foi formada na cidade de Emmering, na Baviera, no ano de 1970 e tinha na formação um power trio: Thomas Molin (também conhecido como Thomas Müller, teclados, vocais), Andreas Gross (baixo, guitarra, vocais) e Lutz Ludwig (bateria).

Os primórdios do Amos Key foram dedicados ao rock clássico, trazendo a música clássica e a “harmonizando” com o rock n’ roll. E isso refletiu-se no seu álbum onde é notório as influências de Bach, Beethoven e Schumann, trazendo também, como disse, os clássicos do rock progressivo como ELP, Ekseption e The Nice.

“First Key” traz sim uma música complexa, mas muito acessível. São três músicos talentosos, diria arrojados e ousados e a sua sonoridade tem o baixo, bateria e primordialmente o teclado como instrumentos centrais, com a guitarra aparecendo ocasionalmente, muito discretamente. Há momentos em que a som adquire uma atmosfera sombria, com tecidos soturnos, mas a nítida sensação é de que esses caras se recusam a se levar muito a sério. Definitivamente “First Key” é um álbum despretensioso e bem divertido de ouvir, embora tenha nuances bem definidas de complexidade, com o prog sinfônico em voga, com pitadas generosas de uma música pesada.

Como disse o teclado é o cerne da música e, embora óbvio, traz qualidade à música e a surpresa fica para a seção rítmica. Certamente ao ouvinte a bateria e o baixo trarão surpresa. É uma música que flui. Os vocais podem não ser apurados, o sotaque forte e evidente e a mixagem não é das melhores, mas a quem diga que tudo isso é o “charme” da coisa e eu confesso que isso me atrai de forma arrebatadora.

O álbum é inaugurado com a faixa “Shoebread” e já mostra a banda no seu auge, dando o seu cartão de entrada. Os teclados te introduzem ao prog rock, ao prog sinfônico, os interlúdios “prog” são extremamente cativantes, mas te remetem também ao psych dos anos 1960, com uma pegada lisérgica, ácida. É inegável a seção rítmica com seu talento e arrojo, entregando uma vibe jazzística pesada e animada. As variâncias de ritmo corroboram a pegada progressiva. O que eles são capazes de fazer com uma música de pouco mais de quatro minutos!

"Shoebread"

Segue com “Ensterknickstimmstamm” que traz, de imediato, as influências de ELP, com os teclados sendo tocado de forma enérgica, intensa e extremamente vibrante, tão vibrante e intensa que chega a ser pesado e agressivo. Mais uma vez a bateria e baixo tocados ao extremo. Baixo pulsante e pesado, bateria com uma batida forte. Na metade da faixa as teclas ficam mais sombrias, pesadas, mas logo voltam ao original, enérgica e cativante. O solo de teclas é arrebatador.

"Ensterknicktimmstamm"

"Knecht Ruprecht" já me remete a bandas como Triumvirat, fazendo tal referência por esta se tratar de uma banda, digamos, um pouco mais famosa da Alemanha. Segue basicamente a proposta da faixa anterior: peso, teclados em evidência corroborando o peso da música, juntamente com o baixo e a bateria dando todo o “corpo” à música. Diria que esta faixa tem até um pouco de velocidade.

"Knecht Ruprecht"

“Sometimes...” é sombria, é soturna e os teclados, embora mais contidos, é estranho e perigoso, com vocais mais discretos e quase anasalados. Segue com “Got the Feelin’” que retorna ao viés mais pesado e vibrante, a versão predominante da banda neste álbum. Já se percebem, finalmente, riffs de guitarra, com a seção rítmica assumindo protagonismo.

"Sometimes"

“Escape” começa com um choro de bebê e traz consigo, de volta, o prog rock em sua versão mais genuína com os teclados cheios de energia, intensos e vibrantes. As viradas rítmicas ganham força e arrebatam. Aqui, nesta faixa, é admirável o aparato instrumental. A sinergia é esplêndida entre baixo, bateria e teclado.

"Escape"

“Important Matter” começa com um solo de teclado mais austero, algo de órgão de igreja, com o baixo dando uma camada mais consensual e vai, a música, ganhando mais corpo, ficando, gradativamente mais pesada, a bateria com uma batida mais jazzy e pesada, um fusion bem interessante. O prog e o fusion se fundem em uma música solar e vívida.

"Important Matter"

“Dragon's Walk” segue com o mesmo curso musical da faixa anterior: o cerne sonoro que gira em torno dos teclados, a bateria aqui não é tão pesada e segue, em uma espécie de duelo, com os teclados, além de uma pegada jazzy com destaque para a bateria, mais uma vez. O prog se revela nas viradas de bateria, nas variâncias rítmicas muito bem executadas.

"Dragon's Walk"

E fecha com a faixa título, “First Key”, que traz, mais uma vez, aquele órgão sacro muito interessante e austero, com o destaque para o baixo, frenético e pesado, cheio de groove. A bateria é cadenciada, fazendo da faixa mais acessível e até mesmo solar.

"First Key"

Infelizmente a banda não teve uma vida e trajetória longeva, findou suas atividades em 1976. Passeou por grande parte dos anos 1970, mas sem produzir mais material e, talvez estigmatizado por comparações maldosas com o Emerson, Lake & Palmer etc. Evidente que as influências são nítidas, mas isso não desmerece o que o Amos Key produziu e nem por isso pode ser constatado como plágio ou algo do tipo.

“First Key” é divertido, pesado, despojado, despretensioso, mas profundo e complexo, por vezes e nem por isso pode e deve ser considerado como um trabalho banal. A contribuição dos músicos é espetacular e, mesmo trazendo uma sonoridade atípica, tem, muito bem definido, a sua estrutura sonora. Ludwig toca bateria de forma excelente e o baixo de Andreas Gross traz uma carga potente, vibrante e vívida ao som da banda, embora ele tenha declarado que se via um músico “inacabado” em comparação direta aos seus colegas de banda. O fato é que ele tocava de forma fresca e concisa. Mas são as teclas de Molin que molda o som da banda. É o cerne da sonoridade do Amos Key!

“First Key”, que foi lançado pelo selo Spiegelei, em 1974, teve poucos relançamentos ao longo dos anos. Ele foi lançado, pela gravadora Long Hair, em 2016, no formato LP, em 2016, na Alemanha. E naquele mesmo ano, também pelo selo Long Hair, foi relançado, no formato CD, o álbum do Amos Key.

E falando em relançamentos, em 2010, também lançado pelo selo Long Hair, foi veio ao mundo “Keynotes”, com uma apresentação do Amos Key no SWF, em Baden-Baden, sendo remasterizado por Jörg Scheuermann. Essa apresentação aconteceu antes do lançamento de seu álbum de estúdio, em 1973 e somente em 2010 ganhou luz.

"Keynotes" (1973 - 2010)

Convém lembrar que também que foi lançado um single, de forma oficial, que estava planejado para o ano de 1975. Provavelmente seria um segundo trabalho que não teve sequência. O Amos Key, quando gravou esse single, de nome “Fairy Witch”, era um quarteto e contava, além dos já músicos conhecidos que compuseram o álbum de 1974, tinha, no vocal e guitarra, Helmut Jungkunz. Em 2022 foi lançado “Third Key”: The 70 Studio Tapes” que, como o nome sugere, traziam gravações de faixas antigas da banda, dos seus primórdios. Uma banda altamente recomendada!






A banda:

Andreas Gross na guitarra, baixo e vocais

Thomas Molin nos teclados e vocais

Lutz Ludwig na bateria

 

Faixas:

1 - Shoebread

2 - Ensterknickstimmstamm

3 - Knecht Ruprecht

4 - Sometimes...

5 - Got The Feelin

6 - Escape

7 - Important Matter

8 - Dragon's Walk

9 - First Key 



"First Key" (1973)