Eu tenho uma percepção, ou
melhor, uma impressão, de que o rock regional, étnico, ou seja, que impõe
elementos da música local ao rock n’ roll, não é bem visto ou não é muito bem
compreendido. Talvez um intercâmbio cultural pudesse fazer com essa percepção,
se real for, cair por terra. E nada como, além de ouvir música, ouvir rock n’
roll, também ser impactado pela cultura que inunda a música da banda que faz
audição.
E eu trarei hoje uma banda que é considerada como uma verdadeira jóia do rock boliviano! Sim! Foi o que vocês, nobres leitores, leram, do rock boliviano que trazia em seu som o misticismo andino, além do teor das suas letras. Falo do WARA.
Bem aqui é difícil, se
tratando de uma banda latina, de uma banda da Bolívia, ser o Wara uma banda
conhecida, primeiro porque aqui, neste reles e humilde blog, traz bandas de
temáticas obscuras e, segundo, porque a Bolívia definitivamente não está no rol
dos pais “produtores” do que há melhor do rock n’ roll no planeta.
Mas isso não faz do Wara uma
banda simplória e tão pouco ruim, muito pelo contrário. Em sua sonoridade traz
uma versão, extremamente arrojada, do rock progressivo, com pegada hard rock,
ainda nascendo na América Latina, com o já mencionado impacto cultural daquele
país, o rock andino.
O seu primeiro álbum, lançado em 1973, de nome “El Inca” entrega, personifica a cultura do seu país, o rock étnico, regional ganha força nesse único trabalho, mostrando, claro, o rock progressivo britânico e o hard rock mais sofisticado. Apesar de uma curta discografia, o Wara escreveu, com maestria, a história do prog rock da Bolívia e, sem dúvida da América Latina. E falando de história, falemos um pouco dos primórdios da banda e de seu único álbum.
O Wara foi formado em La Paz, capital da Bolívia, em 1972. Dante Uzquiano conheceu Omar León no caminho de volta de Buenos Aires para La Paz. Eles voltavam do “BA Rock”, o primeiro festival de rock que aconteceu na Argentina, em 1971. Motivo da aproximação? Pelo tamanho do cabelo! Mas logo perceberam que nutriam outros gostos em comum e, diante disso, combinaram um encontro.
Em La Paz os dois se juntaram
a Jorge Comorí, guitarrista e a Pedro Sanjimes, tecladista, que, posteriormente
os apresentou a George Cronembold, na bateria. Pouco depois, Carlos Daza se
juntaria a banda, alías Daza, Cronembold, Comorí e Uzquiano já haviam tocado em
uma banda de música de bailes chamado “Conga”. De bandas como “Grupo Santana
Tabú” viria também a semente do Wara.
Convém falar que, apesar da
Bolívia não estar no centro do mundo do rock n’ roll, aquele país trazia uma
cena razoavelmente prolífica nos anos 1960 e 1970 principalmente, trazendo
algumas bandas como: Los Ovnis, Los Daltons, Los Lasers, Grupo 606, The
Blackbyrds, The Loving Darks, The Crickets, Grupo Conga ou o imenso Climax.
Esta última tem resenha que pode ser lida aqui.
Comorí resolveu deixar a
banda. Então a formação ficou: Omar León, no baixo, Pedro Sanjimes, nos
teclados, George Cronembold, na bateria e Carlos Daza nas guitarras, além de
Nataniel Gonzales nos vocais, que, vindo de Oruro, se juntaria a eles. Nataniel
era conhecido como o “Rouxinol de Ocura”, e veio da banda Steppen Stones. Dante Uzquiano permaneceu na banda, porém
absorvido pelos estudos.
O significado de “Wara” é
“estrela”, na língua Aymará, povo conhecido como Quollas e estabelecido desde a
era pré-colombiana no sul do Peru, Bolívia, Argentina e Chile. Foi Dante
Uzquiano, então estudante de antropologia/arqueologia, que escolheu este nome.
Uma palavra que não era da língua espanhola, nem inglesa, para identificar que
a banda era claramente boliviana e se tornaria exportador de música local e da
sua cultura também.
Era a década de 1970 e algumas
bandas de rock bolivianas prestavam tributos ao Lez Zepellin, Uriah Heep, Yes,
Alice Cooper etc. A contracultura desenvolvia-se sem que os poderes políticos
conseguissem detê-la (lembrando que a Bolívia viva sob forte e combatente
ditadura militar de Hugo Bánzer Suárez, com elevados níveis de repressão e
discriminação, sobretudo às bandas de rock, claro.
Ainda assim, com esse cenário,
totalmente desfavorável, conseguiram gravar, pelo selo Discos Heriba, seu primeiro
álbum, em 1973, de nome “El Inca (Música Progressiva Boliviana)”. Em sua capa,
além das imagens fazendo menção aos desenhos andinos, trazia estampado também o
termo Música Progressiva Boliviana”, como que querendo a banda confirmar e
mostrar para o seu público que praticaram o prog rock com influências
bolivianas, mas que também traziam coisas britânicas como Deep Purple, Uriah
Heep e Atomic Rooster.
É o prog rock, é o prog
sinfônico, são nuances pesadas do hard rock, com vocais em espanhol e que, já
que mencionei o Uriah Heep, lembra muito os vocias do saudoso David Byron,
guitarras incendiárias, aquela típica sonoridade dos anos 1970, riffs
blueseiros, além de participações de músicos tocando flauta, violoncelos,
violinos, oboé, fagote etc. Sem sombra de dúvida o rock boliviano ganhou
destaque e originalidade com o Wara. Eles fizeram bonito, sem dúvidas.
O álbum é inaugurado com a
faixa “El Inca (El Señor De La Tierra)” que exibe o prog sinfônico na sua mais
genuína concepção e, nesta faixa, o vocal de Nataniel lembra muito a de David
Byron, com inflexões operísticas e agudeza tonal evidente. Teclados ampliam
camadas progressivas, os violinos trazem uma atmosfera barroca. Os ritmos são
vívidos e expressivos que inspiram originalidade.
Segue com a faixa “Realidad”
que não perde a espiritualidade e já tende a se aproximar, um pouco mais, do
hard rock, talvez do hard prog sem reservas e é inevitável não deixar,
novamente, de falar do Uriah Heep em seus primórdios hard progressivo. Em “Canción
para una Niña Triste” há uma ornamentação instrumental polifônica e um
progressivo, disparadamente sensível, mas denso, delicado, uma verdadeira
beleza genuína do prog rock.
A faixa título, “Wara”, vem
com um traje psicodélico multicolorido e demasiadamente ácido e lisérgico.
Entrega um toque refinado, sútil, elegante, mas intenso, dramático, com algumas
mudanças de ritmo que trazem um arrebatamento aos ouvintes mais exigentes do
rock progressivo e do psych rock. E fecha com “Kenko” que basicamente segue a
mesma proposta da faixa anterior com a adição de um hard rock mais voltado para
o Purple e Heep, com interessantes camadas de teclados que entonam o prog
sinfônico, além de violoncelos e um solo de guitarra que parece tornar a música
duradoura.
Os militares, que dominavam a
política boliviana, não gostaram muito do debut do Wara e as únicas 500 cópias
foram praticamente banidas, dificultando o impulsionamento das vendas do álbum
do Wara. Depois desse baque, Cronembold e León mergulharam numa pesquisa em
comunidades andinas e, em algumas entrevistas, disse Cronembold:
“Meus estudos no conservatório
nos levaram a frequentar festivais de música nativa e a gravá-los. Como
vestíamos jaqueta de couro e calça jeans, nós éramos vistos com desconfiança,
mas aos poucos fomos nos aproximando e membros das comunidades perceberam nossa
sinceridade".
Assim, o Wara passou a
adicionar elementos folk, andinos, da cultura e das raízes do povo boliviano.
Como desdobramento, nasceu o álbum "Maya", de 1975, o primeiro da
série "Hichhanigua Hikjatata", totalmente composto na língua Aymará
(essa expressão título significa "Agora você vai me encontrar").
"Era hora de resgatar o
ser boliviano e essa ideia é válida até hoje, porque os bolivianos continuam
num processo de busca por sua própria identidade cultural",
afirmou Cronembold há alguns anos. Em "Maya", a banda buscou
interpretar musicalmente o livro "Raza de Bronce", do autor Alcides
Arguedas, um historiador famoso e obra considerada fundamental no movimento
indigenista sul americano.
“El Inca” teve alguns
relançamentos. Em 1993, vinte anos do lançamento original, o selo Discos
Heriba, lançaria, no formato K7. Em 2009, pelo selo Revista Arte & Rock,
lançaria, em CD, o álbum “El Inca”. Em 2009 também foi lançado em LP pelo selo
Mandrax. Em 2018, a gravadora Retro Remasters Plus, lançaria, também em CD. E o
mais significativo relançamento aconteceria em 2023, na ocasião do aniversário
de número 50 do álbum, no formato CD.
A banda:
Nataniel Gonzales nos vocais
Pedro Sanjimes no órgão,
piano, vocais de apoio
Omar León no baixo
George Cronembold na bateria,
percussão
Carlos Daza na guitarra
Com:
Pablo Vezin na flauta
Jaime Gallardono violoncelo
Freddy Céspedes no violino
Vicenta Claramount no violino
Stefan Rinderknecht no violoncelo
Gustavo Oroza no oboé
Zelma Guerra nos vocais de
apoio
Walter Alvarez no fagote
Faixas:
1 - El Inca (El Señor De La
Tierra)
2 - Realidad
3 - Cancion Para Una Niña
Triste
4 - Wara (Estrella)
5 - Kenko (Tierra De Piedra)






