Mostrando postagens com marcador 1973. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1973. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de setembro de 2026

Wara - El Inca (1973)

 

Eu tenho uma percepção, ou melhor, uma impressão, de que o rock regional, étnico, ou seja, que impõe elementos da música local ao rock n’ roll, não é bem visto ou não é muito bem compreendido. Talvez um intercâmbio cultural pudesse fazer com essa percepção, se real for, cair por terra. E nada como, além de ouvir música, ouvir rock n’ roll, também ser impactado pela cultura que inunda a música da banda que faz audição.

E eu trarei hoje uma banda que é considerada como uma verdadeira jóia do rock boliviano! Sim! Foi o que vocês, nobres leitores, leram, do rock boliviano que trazia em seu som o misticismo andino, além do teor das suas letras. Falo do WARA.

Bem aqui é difícil, se tratando de uma banda latina, de uma banda da Bolívia, ser o Wara uma banda conhecida, primeiro porque aqui, neste reles e humilde blog, traz bandas de temáticas obscuras e, segundo, porque a Bolívia definitivamente não está no rol dos pais “produtores” do que há melhor do rock n’ roll no planeta.

Mas isso não faz do Wara uma banda simplória e tão pouco ruim, muito pelo contrário. Em sua sonoridade traz uma versão, extremamente arrojada, do rock progressivo, com pegada hard rock, ainda nascendo na América Latina, com o já mencionado impacto cultural daquele país, o rock andino.

O seu primeiro álbum, lançado em 1973, de nome “El Inca” entrega, personifica a cultura do seu país, o rock étnico, regional ganha força nesse único trabalho, mostrando, claro, o rock progressivo britânico e o hard rock mais sofisticado. Apesar de uma curta discografia, o Wara escreveu, com maestria, a história do prog rock da Bolívia e, sem dúvida da América Latina. E falando de história, falemos um pouco dos primórdios da banda e de seu único álbum.

O Wara foi formado em La Paz, capital da Bolívia, em 1972. Dante Uzquiano conheceu Omar León no caminho de volta de Buenos Aires para La Paz. Eles voltavam do “BA Rock”, o primeiro festival de rock que aconteceu na Argentina, em 1971. Motivo da aproximação? Pelo tamanho do cabelo! Mas logo perceberam que nutriam outros gostos em comum e, diante disso, combinaram um encontro.

Em La Paz os dois se juntaram a Jorge Comorí, guitarrista e a Pedro Sanjimes, tecladista, que, posteriormente os apresentou a George Cronembold, na bateria. Pouco depois, Carlos Daza se juntaria a banda, alías Daza, Cronembold, Comorí e Uzquiano já haviam tocado em uma banda de música de bailes chamado “Conga”. De bandas como “Grupo Santana Tabú” viria também a semente do Wara.

Wara

Convém falar que, apesar da Bolívia não estar no centro do mundo do rock n’ roll, aquele país trazia uma cena razoavelmente prolífica nos anos 1960 e 1970 principalmente, trazendo algumas bandas como: Los Ovnis, Los Daltons, Los Lasers, Grupo 606, The Blackbyrds, The Loving Darks, The Crickets, Grupo Conga ou o imenso Climax. Esta última tem resenha que pode ser lida aqui.

Comorí resolveu deixar a banda. Então a formação ficou: Omar León, no baixo, Pedro Sanjimes, nos teclados, George Cronembold, na bateria e Carlos Daza nas guitarras, além de Nataniel Gonzales nos vocais, que, vindo de Oruro, se juntaria a eles. Nataniel era conhecido como o “Rouxinol de Ocura”, e veio da banda Steppen Stones.  Dante Uzquiano permaneceu na banda, porém absorvido pelos estudos.

O significado de “Wara” é “estrela”, na língua Aymará, povo conhecido como Quollas e estabelecido desde a era pré-colombiana no sul do Peru, Bolívia, Argentina e Chile. Foi Dante Uzquiano, então estudante de antropologia/arqueologia, que escolheu este nome. Uma palavra que não era da língua espanhola, nem inglesa, para identificar que a banda era claramente boliviana e se tornaria exportador de música local e da sua cultura também.

Era a década de 1970 e algumas bandas de rock bolivianas prestavam tributos ao Lez Zepellin, Uriah Heep, Yes, Alice Cooper etc. A contracultura desenvolvia-se sem que os poderes políticos conseguissem detê-la (lembrando que a Bolívia viva sob forte e combatente ditadura militar de Hugo Bánzer Suárez, com elevados níveis de repressão e discriminação, sobretudo às bandas de rock, claro.

Ainda assim, com esse cenário, totalmente desfavorável, conseguiram gravar, pelo selo Discos Heriba, seu primeiro álbum, em 1973, de nome “El Inca (Música Progressiva Boliviana)”. Em sua capa, além das imagens fazendo menção aos desenhos andinos, trazia estampado também o termo Música Progressiva Boliviana”, como que querendo a banda confirmar e mostrar para o seu público que praticaram o prog rock com influências bolivianas, mas que também traziam coisas britânicas como Deep Purple, Uriah Heep e Atomic Rooster.

É o prog rock, é o prog sinfônico, são nuances pesadas do hard rock, com vocais em espanhol e que, já que mencionei o Uriah Heep, lembra muito os vocias do saudoso David Byron, guitarras incendiárias, aquela típica sonoridade dos anos 1970, riffs blueseiros, além de participações de músicos tocando flauta, violoncelos, violinos, oboé, fagote etc. Sem sombra de dúvida o rock boliviano ganhou destaque e originalidade com o Wara. Eles fizeram bonito, sem dúvidas.


O álbum é inaugurado com a faixa “El Inca (El Señor De La Tierra)” que exibe o prog sinfônico na sua mais genuína concepção e, nesta faixa, o vocal de Nataniel lembra muito a de David Byron, com inflexões operísticas e agudeza tonal evidente. Teclados ampliam camadas progressivas, os violinos trazem uma atmosfera barroca. Os ritmos são vívidos e expressivos que inspiram originalidade.

El Inca (El Señor de la Tierra)"

Segue com a faixa “Realidad” que não perde a espiritualidade e já tende a se aproximar, um pouco mais, do hard rock, talvez do hard prog sem reservas e é inevitável não deixar, novamente, de falar do Uriah Heep em seus primórdios hard progressivo. Em “Canción para una Niña Triste” há uma ornamentação instrumental polifônica e um progressivo, disparadamente sensível, mas denso, delicado, uma verdadeira beleza genuína do prog rock.

"Realidad"

A faixa título, “Wara”, vem com um traje psicodélico multicolorido e demasiadamente ácido e lisérgico. Entrega um toque refinado, sútil, elegante, mas intenso, dramático, com algumas mudanças de ritmo que trazem um arrebatamento aos ouvintes mais exigentes do rock progressivo e do psych rock. E fecha com “Kenko” que basicamente segue a mesma proposta da faixa anterior com a adição de um hard rock mais voltado para o Purple e Heep, com interessantes camadas de teclados que entonam o prog sinfônico, além de violoncelos e um solo de guitarra que parece tornar a música duradoura.

"Wara"

Os militares, que dominavam a política boliviana, não gostaram muito do debut do Wara e as únicas 500 cópias foram praticamente banidas, dificultando o impulsionamento das vendas do álbum do Wara. Depois desse baque, Cronembold e León mergulharam numa pesquisa em comunidades andinas e, em algumas entrevistas, disse Cronembold:

“Meus estudos no conservatório nos levaram a frequentar festivais de música nativa e a gravá-los. Como vestíamos jaqueta de couro e calça jeans, nós éramos vistos com desconfiança, mas aos poucos fomos nos aproximando e membros das comunidades perceberam nossa sinceridade".

Assim, o Wara passou a adicionar elementos folk, andinos, da cultura e das raízes do povo boliviano. Como desdobramento, nasceu o álbum "Maya", de 1975, o primeiro da série "Hichhanigua Hikjatata", totalmente composto na língua Aymará (essa expressão título significa "Agora você vai me encontrar").

"Era hora de resgatar o ser boliviano e essa ideia é válida até hoje, porque os bolivianos continuam num processo de busca por sua própria identidade cultural", afirmou Cronembold há alguns anos. Em "Maya", a banda buscou interpretar musicalmente o livro "Raza de Bronce", do autor Alcides Arguedas, um historiador famoso e obra considerada fundamental no movimento indigenista sul americano.

"Maya" (1975)

“El Inca” teve alguns relançamentos. Em 1993, vinte anos do lançamento original, o selo Discos Heriba, lançaria, no formato K7. Em 2009, pelo selo Revista Arte & Rock, lançaria, em CD, o álbum “El Inca”. Em 2009 também foi lançado em LP pelo selo Mandrax. Em 2018, a gravadora Retro Remasters Plus, lançaria, também em CD. E o mais significativo relançamento aconteceria em 2023, na ocasião do aniversário de número 50 do álbum, no formato CD.






A banda:

Nataniel Gonzales nos vocais

Pedro Sanjimes no órgão, piano, vocais de apoio

Omar León no baixo

George Cronembold na bateria, percussão

Carlos Daza na guitarra

 

Com:

Pablo Vezin na flauta

Jaime Gallardono violoncelo

Freddy Céspedes no violino

Vicenta Claramount no violino

Stefan Rinderknecht no violoncelo

Gustavo Oroza no oboé

Zelma Guerra nos vocais de apoio

Walter Alvarez no fagote

 

Faixas:

1 - El Inca (El Señor De La Tierra)

2 - Realidad

3 - Cancion Para Una Niña Triste

4 - Wara (Estrella)

5 - Kenko (Tierra De Piedra) 




"El Inca" (1973)

















sábado, 16 de maio de 2026

Laser - Vita Sul Pianeta (1973)

 

Certos temas e assuntos, com o passar do tempo, vão se tornando clichês, se estereotipam, até. Mas é preciso ser mencionado, pela urgência do tema e/ou se especializa em dizer certos assuntos ou melhor, se decide desbravar por certos temas. A razão de ser, por exemplo, deste reles e humilde bolg é falar de bandas obscuras, que trafegam ou trafegaram no underground e que, por algum motivo, que geralmente são inúmeros, dada a sua complexidade, sucumbiram.

A ideia central é trazer à tona as suas histórias, aqui neste site o fracasso compensa enaltecer. E não se enganem, nobres leitores, em associar fracasso a incapacidade musical, como, por exemplo, a trabalhos ruins ou coisas que o valham. Não! Há e muito a se aproveitar, com o digno garimpo, nas obscuridades, no underground!

E, quando me pus a refletir sobre isso, procurei buscar uma banda e um álbum que personificasse esses temas, essas questões e trazer aqui, porque, como disse, a ideia central é contar e disseminar histórias e álbuns que possa arrebatar ouvidos e corações sedentos por algo que fuja do usual, mas, sempre trazendo a qualidade como mote.

Claro que a questão da qualidade pode ser relativa, afinal, as percepções e gostos podem ser diametralmente diferentes uns dos outros. Isso não é nenhuma novidade, evidentemente. Mas acalmem-se, estimados leitores, tentarei dizer onde quero chegar dizendo com isso.

Quando eu ouvi o único álbum dessa banda pela primeira vez eu vi, ou melhor, li algumas poucas críticas acerca deste trabalho e digo que todas ou quase todas foram negativas. A rejeição foi grande, diria. Alguns atribuíram a incapacidade dos músicos, a produção aquém etc. Ouvi algumas vezes mais para tentar “achar” tais deficiências e algumas, de fato, foram notadas por mim, como a produção. Contudo, mesmo diante de alguns reveses, eu adorei esse álbum. Sim! Adorei! São percepções, são opiniões distintas e isso é salutar para a vida!

Então esse texto seria uma espécie de me posicionar contrário ao que a maioria disse a respeito dessa banda e álbum. Mas não é tão somente isso! É um texto para expor o meu apreço por este álbum e banda, afinal, neste blog irá figurar apenas o que este reles dono gostar. Sem mais delongas falarei do LASER.

As poucas referências, sobretudo da Itália, país de origem da banda, dão conta e isso me parece óbvio, é de que a mesma é considerada como obscura. Mas confesso que, ao ler isso, me encheu de alegria, pois se até em seu país é tida como obscura, merece figurar nesse blog.

Os protagonistas do Laser, um quinteto, eram nascidos entre Roma, Formello e Campagnano e eram: Riccardo Paolucci (vocais, guitarra), Valentino D'Agostino (vocais, teclados), Loris Cardinali (guitarra), Adalberto Sbardella (baixo) e Antonello Musso (bateria). O único álbum lançado pela banda foi “Vita Sul Pianeta”, de 1973.

A banda em 1973

Os primórdios do Laser, à época de sua formação, no final dos anos 1960, o nome era bem mais longo, sendo chamado de "Il Laser, di Elvezio Sbardella". Este foi, por um certo período cantor e letrista da banda. Nessa primeira formação havia um tecladista de nome Gino.

Fizeram as primeiras 45 RPM no ano de 1972, para uma pequena gravadora, de nome Mantra, que ficava em Bolonha. Os singles se chamavam "Dove Andremo" e "Lacrime di Ragazzo", sendo, claro, muito raro e feito com uma distribuição local, lançado apenas com uma capa branca genérica.

Single

No ano seguinte, 1973, após a formação ser definida, com a saída do tecladista Gino e o nome da banda abreviado para “Laser”, os cinco músicos foram contratados pelo selo Car Juke Box, de Carlo Alberto Rossi, que tinha, em seu cast, bandas icônicas como Le Orme, decidiu investir em novas bandas, em novos talentos em boa companhia com I Nuovi Corvi e o excelente músico de jazz Paolo Tomelleri. Tudo isso sob a égide tanto do Maestro Mario Bertolazzi (maestro da Rai) quanto de Renato Pareti, dos Nuovi Angeli.

"Vita Sul Pianeta" ou, em inglês, “Life on the Planet” (“Vida no Planeta”) era uma obra conceitual sobre a evolução da vida, do homem, no planeta. Uma parábola existencial do homem na Terra em forma narrada, com finais dramáticos e mensagens fortes e de grande urgência. A sonoridade da banda era principalmente a mescla do hard rock, com predominância, protagonismo dos seus guitarristas, com o rock progressivo, com interessantes mudanças de andamento.

Mas não para por aí. Neste único trabalho do Laser é perceptível o blues rock, pitadas de psych e até mesmo, muito em virtude dos primórdios do rock italiano, do beat, do pop macarrônico do país da bota. Embora traga nuances de progressivo, as faixas são curtas e em alguns momentos, mais básicas, porém viciantes e que cativa a todos os gostos que variam, claro, do hard ao prog. Acredito que o fato de ter, acerca desse álbum, certa rejeição, pelo fato de fugir um pouco do que se ouvia, à época, auge do progressivo italiano, mais voltado para o sinfônico e coisas mais complexas de bandas mais consagradas.

Mas é inegável observar que tais músicas trazem melodias cativantes, animadas, solares e muito daquele espírito do rock italiano, que absorveu o seu ápice e os seus primórdios, sem dúvida. Esse, posso dizer, sem quaisquer constrangimentos e medo, álbum do Laser traz, em sua essência sonora, a cultura underground, marginalizando-se do que se praticava na primeira metade dos anos 1970. E o interessante que até mesmo nas letras dessas músicas, dada a sua questão conceitual, também entrega elementos mais underground, diria até mais hippie.

Outro ponto de muita crítica acerca de “Vita Sul Pianeta” está nos vocais e na produção muito abaixo que, para muitos, colaborou negativamente para o resultado final deste álbum. Há uma rotação nos vocais entre três músicos: nos dois guitarristas e tecladista. De fato, as vozes podem não ser convincentes, estupendas vozes, mas compensa pelos alcances altos, em alguns momentos mais altos e gritados, o que traz algo pouco ortodoxo para a realidade dos trabalhos progressivos. Nos momentos pesados das faixas é extremamente atraente!

O álbum é inaugurado com a faixa título, “Vita Sul Pianeta” que começa com uma narração, mas logo traz uma atmosfera sombria, soturna, com os teclados psicodélicos e sinfônicos que é entrelaçado por riffs de guitarra e solos lisérgicos curtos. A bateria é marcada e pesada, baixo pulsante, o ritmo, cadenciado, tende para o hard rock e pitadas progressivas. Vocais altos e agudos entregam uma música mais pesada e me remetem, por um instante, o norte-americano Vanilla Fudgie. O final já revela aquele progressivo mais sinfônico tipicamente italiano. Música de muitos recursos!

“Non Vede La Gente” já começa cativante com uma pegada meio beat, meio psicodélica, com o hard rock dando o “tempero”. É inegável que aqui percebe-se o hard prog em sua mais fiel essência. O peso dos riffs de guitarra e as mudanças de andamento, faz da música interessante e atraente.

Non Vede La Gente

“Sconosciuto Amico” traz o vocal, praticamente à capela, apenas com um piano e teclado ao fundo, mostra a voz mais apurada, melódica e tipicamente dramática do rock italiano. Uma balada prog bem legal vai se revelando aos poucos. Uma sonoridade contemplativa e viajante que mescla o progressivo e o rock psicodélico. Backings vocals femininos me remetem a um clássico floydiano dos anos 1970. Mas quando se encaminha para o final, algo meio King Crimson se percebe com saxofone e uma pegada experimental.

“Dove Andremo” segue basicamente a mesma pegada da faixa anterior: vocal mais soturno, urgente, introspectivo e uma bateria, meio percussiva ao fundo. Mas conforme o vocal ganha alcance, a sonoridade vai ganhando mais corpo e irrompe em uma explosão de riffs e teclados enérgicos em um hard rock potente e volumoso. Mas logo retorna ao som mais sombrio do início. As mudanças de andamento, mais uma vez, se mostram evidentes, trazendo a veia progressiva que permeia todo esse trabalho.

"Dove Andremo"

“L'ultimo Canto Del Killer” introduz com a “cozinha” dando o recado: solo de bateria, baixo cheio de groove, pesado, e depois vem o peso da guitarra, de riffs mais sujos e pegajosos, entregando, de imediato, um hard rock cadenciado com o vocal gritado e rouco. Aqui se percebe também uma pegada mais bluesy, um bom blues rock com recheio progressivo, um pouco mais sutil aqui, é bem verdade. Talvez uma das mais pesadas do álbum!

"L'Ultimo Canto Del Killer

“Corri Uomo” vem trazendo o carro-chefe do álbum: o hard prog! Aqui há uma belíssima “rivalidade” entre os teclados, enérgicos, com a guitarra, em riffs pesados e solos curtos igualmente pesados. O final é de tirar o fôlego com solos de guitarra estrondosos e teclados ainda mais pesados. Pesado! “Eri Importante” já começa dançante: instrumentos de sopro animados, teclados lisérgicos, um beat solar. Vocais mais gritados e, por vezes, melódicos. A pegada pop está mais latente. O beat italiano é mais vivo nessa faixa.

E fecha com “Alla Fine Del Viaggio” já começa com o pé na porta, com uma explosão de guitarra, em um solo bem competente. O hard rock aparece aqui com veemência. A camada de teclados traz uma textura progressiva. O “duelo” entre guitarra e teclado é um espetáculo à parte e nítida sensação de um hard prog vem tocando aos ouvidos deliciosamente. Grande e derradeira faixa!

"Alla Fine Del Viaggio"

Poucas foram as cópias impressas para esse álbum, em 1973. É evidente que a produção, fruto do baixo envolvimento e investimento da gravadora para com o Laser, esteve aquém, mas não se pode atribuir a responsabilidade à banda que, mesmo contra tais adversidades, mostrou competência no que se propôs a produzir. Sim! Um som áspero, mais pesado, incomum no auge do rock progressivo italiano no início dos anos 1970 que prezava pela qualidade técnica, mas um álbum muito bom diante da sua proposta de um hard prog.

Os reveses, diante desse cenário, seriam evidentes para a trajetória do Laser. A sua trajetória foi curta, precoce e a banda, lamentavelmente, se desfez logo após o lançamento de “Vita Sul Pianeta”, em 1973. Culminou, também, com a saída do tecladista Valentino D'Agostino que foi obrigado a prestar o serviço militar. A banda se reúne, décadas depois, em 2019.

"L'Ultimo Canto Del Killer (Live, 2019)

“Vita Sul Pianeta” teve alguns relançamentos ao longo dos anos. Em 2000 o selo Akarma o relança, no formato LP. Em 2012 foi a vez do selo AMS/BTF relançar, também no formato LP. Já no formato CD o primeiro relançamento foi em 1992 pelo icônico selo Mellow. Akarma também relançou em 2000, bem como a gravadora AMS/BTF.

Capa de relançamento

Um clássico incompreendido! Um clássico obscuro marginalizado, que caiu no mais profundo ostracismo que o tempo, quem sabe, se encarregará de trazer justiça pela forma arrojada como foi concebido. Produção pobre? Inocência sonora? As percepções são variadas, mas uma coisa é fato: é único por ser simplesmente diferente.


A banda:

Riccardo Paolucci nos vocais e guitarra

Valentino D'Agostino nos vocais e teclados

Loris Cardinali na guitarra

Adalberto Sbardella no baixo

Antonello Musso na bateria

 

Faixas:

1 - Vita Sul Pianeta

2 - Não Vede La Gente

3 - Sconosciuto Amico

4 - Dove Andremo

5 - L'ultimo Canto del Killer

6 - Corri Uomo

7 - Eri Importante

8 - Alla Fine Del Viaggio 



"Vita Sul Pianeta" (1973)






 

















domingo, 12 de abril de 2026

Triade - 1998: La Storia di Sabazio (1973)

 

A influência do britânico Emerson, Lake & Palmer para o rock progressivo italiano é notório! Não falo de plágio ou que a Itália progressiva se deita na fama sonora do ELP para construir o seu som. É perceptível! Mas ainda assim a Itália, mesmo com a forte influência, e assim devemos chamar, soube edificar a sua sonoridade com qualidade e originalidade.

Os teclados, as texturas sinfônicas baseadas na música clássica serviram e ainda servem de sustentáculo para o prog italiano. A maioria das bandas clássicas da Itália traz essas nuances de forma latente, viva. As bandas progressivas italianas, principalmente aquelas que atingiram o status de pioneirismo, foram movidas pelo teclado, pelas notas sinfônicas, com um forte toque de dramaticidade tipicamente italiano.

E a banda que falarei hoje indica a forte influência do Emerson, Lake & Palmer, mas, claro, assume também uma história calcada no mistério e na escassez de informações. Assim deve ser, afinal, essa é a razão de ser deste humilde e reles blog que você, estimado leitor, lê. A banda se chama TRIADE.

O Triade era é uma banda que foi concebida na cidade de Florença, na Itália, no início dos anos 1970 e, como o ELP, era um trio que, por décadas, não se sabia seus nomes. Sim, já começa por aqui! No seu único álbum, lançado em 1973, de nome “1998: La Storia di Sabazio”, o selo de Milão, Derby, não creditou seus nomes no vinil. Na realidade apenas seus sobrenomes apareciam como créditos na arte gráfica do álbum. E isso fomentou a aura sombria que pairava na história da banda.

Mas de certa forma isso era comum entre os jovens músicos italianos de rock progressivo na década de 1970 onde se usava nomes “fantasmas” ou pseudônimos para evitar problemas legais, pois a maioria não eram membros da Siae, a italiana Riaa.

Somente anos mais tarde, por intermédio de um árduo trabalho, o historiador de Rock Progressivo Italiano, Augusto Croce e o músico Enrico Rosa descobriram o mistério e a história foi revelada. O tecladista Vincenzo Coccimiglio (que tinha apenas 18 anos na época) conheceu o baixista Agostino "Tino" Nobile em um clube de Rock. Os dois se deram bem e cada um escreveu um lado do material no álbum. Demorou algum tempo, mas eles finalmente encontraram um baterista bom o suficiente para lidar com o que eles escreveram: Giorgio Sorano.

As origens do Triade, no início dos anos 1970, surgiram a partir da banda “Noi Ter”, onde Agostino tocou com Franco Falsini, do Sensations Fix e Paolo Tofani, do I Califfi e, posteriormente, do Area. Ele trabalhou então no Space Electronic, em Florença, onde conheceu Vicenzo. Começaram a tocar juntos e, como disse, compuseram cada um deles, um lado do álbum e com a adição de Sorano formaram finalmente o Triade.

A origem do nome "Triade", poderia ser usada em vários contextos. Talvez religioso, as três divindades, os três músicos ou ainda musicais, um acorde com três notas. O fato é que a nomenclatura tem origem, gira em torno do número "3". A tríade é um termo que se refere a um conjunto de três elementos, pessoas ou coisas. A palavra vem do grego, "trias" que significa "três". O fato é que a origem do nome, sem dúvida, gira em torno do número "3". E já que falei da arte gráfica, o belo trabalho da capa do álbum, foi de responsabilidade da namorada do baterista que era design gráfica.

Triade

Eles foram contratados pelo produtor Elio Gariboldi (um famoso produtor italiano, mais conhecido por ter feito parte da banda italiano “Squallor”) e também contratado, de forma imediata, pelo selo Derby. Em 1973 “1998: La Storia di Sabazio” foi gravado no Rossi Studio, em Milão, e teve a arte, bem interessante e enigmática, desenhada pela esposa de Sorano. Convém lembrar que o selo Derby já havia produzido muitos álbuns de Toquinho ou Gianni Bella, uma gravadora que nada tinha a ver com rock progressivo.

“1998: La Storia di Sabazio” apresentava uma obra conceitual, pequenas “peças” progressivas de no máximo dois ou três minutos cada, explorando diferentes progressões e arranjos instrumentais, tendo o teclado como ponto central de sua música. Tal construção me remete e muito o estilo “Tarkus”, clássico do Emerson, Lake & Palmer”, com os teclados em destaque, sobretudo na primeira faixa, “Sabazio”, que é dividida em quatro partes instrumentais.

O único álbum do Triade é, como disse, fortemente influenciado por Emerson, Lake & Palmer, isso é inevitável, mas não se pode afirmar plágio ou cópia, mas a forte influência britânica na música progressiva italiana. Assim como suas inspirações inglesas, a música do Triade focava em um jogo intenso entre teclados, claro, e seções rítmicas marcadas. E assim se percebia no primeiro lado do álbum, composto por Vincenzo Coccimiglio. Um som instrumental, curtas faixas, influências clássicas, prog com psych em várias partes, um som suave nada intrincado, mas com o toque requintado das teclas de Vincenzo, mostrando virtuosidade.

O segundo lado do álbum, continua no rock progressivo, mas com forte viés melódico e sinfônico, onde Agostino Nobile, compositor das faixas, surge com violão acústico, em vez do baixo, acompanhando os teclados. Aqui, neste lado, traz à memória o Le Orme, mas também traz toques evidentes do ELP, mesclando partes instrumentais, acústicas e vocais, intercaladas com teclados e sintetizadores, sempre dentro da linha progressiva um pouco mais melódica e sinfônica. E o violão lembra os sets de Greg Lake quando esteve à frente do Emerson, Lake & Palmer. Essas nuances, um tanto quanto distintas, entre os lados do álbum ganhou críticas não muito agradáveis, por conta dessas abordagens sonoras, mas penso ser exageradas, pois, apesar de contarem com compositores únicos e diferentes, percebe-se, apesar de tudo, uma base calcada no prog italiano que se praticava na primeira metade dos anos 1970.

O álbum começa com a suíte “Sabazio” que é dividida por quatro partes, com pouco mais de três minutos cada, são elas: 1- “Nascita”, 2- “Il Viaggio”, 3- “Il Sogno” e 4- “Vita Nuova”. A parte 1 traz um som mais suave, mais pastoral e viajante, quase contemplativo, com um órgão flutuante. A parte 2 já traz um órgão mais pulsante, com a seção rítmica mais enérgica, o baixo e bateria em uma sinergia interessante. A parte 3 apresenta tambores, algo mais percussivo, órgão também pulsante e latente, com energia, além da inclusão de violoncelo. Ao longo da música vai ficando mais poderosa, um pouco mais pesado. A parte 4 traz a predominância de teclados duplos, a prog rock aqui é mais evidente. “Sabazio” é o sonho para qualquer amante de música clássica e progressiva, graças ao órgão, ao piano, violoncelo, com elementos de rock como o baixo e a bateria. Uma sonoridade, embora simples, se revela atraente e elegante o que é incrível para músicos tão jovens à época.

"Sabazio - Nascita" (Parte 1)

"Sabazio - Il Viaggio" (Parte 2)

"Sabazio - Il Sogno" (Parte 3)

"Sabazio - Vita Nuova" (Parte 4)

Segue para o outro lado do álbum com a faixa “Il Circo” que traz uma batida mais voltada para o rock, com uma pegada mais hard, pesada, com um órgão igualmente pesado e enérgico. Aqui as teclas se destaca, com a bateria, marcada e pesada, também protagoniza.

"Il Circo"

“Espressione” soa mais como um típico rock progressivo italiano com sintetizadores, acústico, com pianos doces e vocais calorosos e agradáveis. Aqui percebe-se, de forma nítida, o lado mais suave e romântico da Itália progressiva. Um ótimo trabalho de piano e acústico agradável. Traz um pouco de sinfônico com sintetizadores já para o final da música.

"Espressione"

“Caro Fratello” é parecido com Il Circo, por ser um rock mais acelerado com órgão, mas se expande por incluir mellotron, violão acústico e vocais mais suaves. O destaque fica logo no começo com órgão, bateria e baixo em uma ótima jam, extremamente animado, solar. Aqui também traz, claro, destaque para o órgão, que divide momentos mais animados e enérgicos, com momentos mais intimistas e dramáticos.

"Caro Fratello"

E fecha com “1998 (Millenovecentonovantotto)” começa com uma onda de dedilhados acústicos, com vocais suaves e melódicos, com um baixo bem tocado. A bateria surge dando “corpo” a faixa. Fica mais edificante com sintetizadores alegres e vibrantes, sobretudo em seus momentos finais. As seções acústicas, bem tocadas, se misturam com bons teclados. Se revela uma música com boas camadas e animada.

"1998 (Millenovecentonovantotto)"

Com a mudança do produtor Gariboldi para Munique, na Alemanha, o novo produtor, de nome Lombroso, assume a produção do Triade. A primeira exigência dele foi que a banda voltasse ao estúdio e gravar um álbum mais comercial. A banda imediatamente recusou a proposta. Aqui seria o começo do fim do Triade. Mas não foi apenas a discordância entre produtor e banda, com relação às novas tendências sonoras, que fez com que o Triade findasse, tão precocemente, a sua trajetória.

A crítica também não foi muito gentil com a banda. Os acusou de serem pouco originais, principalmente por não enfatizar tanto, segundo os críticos, a essência do rock progressivo italiano, absorvendo sonoridades britânicas, principalmente do Emerson, Lake & Palmer. Evidente que o único álbum do Triade não soa original e traz influências do ELP, afinal, penso que as raízes progressivas italianas vêm dos britânicos, principalmente do Emerson, Lake & Palmer e nota-se, de forma evidente, a meu ver, uma sonoridade simples, quase inocente, sim, mas muito talhado para o rock progressivo italiano.

“1998: La Storia di Sabazio” talvez não represente totalmente a pureza do rock progressivo italiano que foi se construindo ao longo dos anos 1970, mas é um resultado, como todas bandas que surgiriam no cenário italiano, das influências daquele país, absorvendo ainda as características marcantes da sua sonoridade, as suas peculiaridades.

Após a formação da Triade, quando o baterista Giorgio Sorano entrou por último na banda, surgiu a chance, e foi tudo muito rápido, de se reunir com o produtor Elio Gariboldi. E deve-se a ele por ajudar os jovens músicos à época, a lapidar seu som, produzindo resultados lucrativos, sob o aspecto sonoro, com “1998: La Storia di Sabazio”, que incluíam equipamentos, instrumentos de ponta, como mellotron e um gonue gigante, além de um tempo considerável em um estúdio com um engenheiro de som. E assim surgiu o único álbum do Triade.

“1998: La Storia di Sabazio” entrou na cena prog italiana com um grande destaque, devido às performances ao vivo enérgicas e até extravagantes da banda. Os garotos do Tríade estavam no auge da criatividade e físico e o mundo parecia ser o limite. Logo abriram shows para as grandes bandas da época, como Banco, Premiata Forneria Marconi e Franco Battiato e até conseguiram alguns shows como atração principal, mas apesar da exposição que a banda vinha conquistando, o álbum não emplacava, não correspondendo às expectativas de vendas.

A corrida do ouro do progressivo italiano, nos anos 1970, para muitos virou simplesmente um latão desvalorizado e frustrante e com o Triade não foi diferente. As baixas vendas de seu álbum e o tímido apoio da gravadora fez com a banda cessasse as suas atividades precocemente, como tantas outras que seguiram sua trajetória na mais profunda obscuridade e ostracismo.

“1998: La Storia di Sabazio” teve alguns relançamentos. Em 1974, um ano após seu lançamento, o selo Derby o relançou na Itália, no formato LP e cassete. Em 1993 foi lançado no Japão pelos selos Nexus International e King Records no formato LP. Em 1987 novo relançamento no Japão no formato CD, pelo selo Nexus e outro relançamento, em 1993, também em CD, pelo selo CGD. Em 1993 foi a Coréia do Sul. Entre 1994 e 2020 foram vários relançamentos, em CD e LP, alternando entre a Itália e o Japão.





A banda:

Vincenzo Coccimiglio nos teclados

Agostino Nobile no baixo, violão e vocal

Giorgio Sorano na bateria

 

Faixas:

1 - Sabazio: Nascita

2 - Sabazio: Il Viaggio

3 - Sabazio: Il Sogno

4 - Sabazio: Vita Nuova

5 - Il Circo

6 - Espressione 



"1998: La Storia di Sabazio" (1973)



























 


sábado, 17 de janeiro de 2026

Charge - Charge (1973)

 

Alguns tesouros demoram a se revelar. As pérolas ficam escondidas sempre disponíveis para garimpo e este reles e humilde blog está aqui para fazer esse árduo, porém prazeroso trabalho, de descobrir as pepitas de ouro do rock n’ roll. E a Inglaterra, como um dos gigantes produtores de rock e, mais especificamente da música pesada, traz bandas em profusão, das mais famosas e, claro, as obscuras.

E de lá surgiu um power trio extremamente raro e underground chamado CHARGE que gravou uma demo, com apenas, pasmem, 99 cópias no início de 1973, porém não culminou em fama, fortuna e todo tipo de excesso típico das estrelas de rock. O álbum foi ignorado por várias gravadoras para quem as cópias foram enviadas. Reza a lenda que teve, não 99 cópias, mas apenas uma cópia! Isso mesmo que você, meu bom amigo leitor, leu! O que reforça, ainda mais, o conceito de raridade desta banda e seu único rebento sonoro.

Mas antes de entrar nos pormenores do álbum e suas faixas, convém falar um pouco da história da banda, que também não traz tanta informação por razões óbvias. O Charge evoluiu a partir do “Baby Bertha, uma banda de hard rock psicodélico, formada pelos idos de 1971 por membros de outra banda da Costa Sul chamada “Relative” que surgiu para o mundo em 1969 fundada por Dave Ellis. Em 1972 o Baby Bertha era formado pelo vocalista e guitarrista Dave Ellis, o guitarrista Roger “Proff” Perry, o baixista Ian McLaughlin e o baterista Des Law.

O Relative, como um nome inspirado em “Family” (que havia sido disfarçado de Relative no notório romance groupie de Jenny Fabian, foi concebido quando Ellis retornou do exterior, onde havia servido para o exército britânico, sendo membro ativo do mesmo e isso explica e muito a sonoridade, tanto do Relative quanto do Baby Bertha e futuramente do Charge, com faixas conceituais sobre guerras entre outros eventos e comportamentos ligados ao belicismo. Eram tempos de guerra e de agitação social muito grande.

A banda foi produto do “boom” do blues rock britânico, mesclado a uma lisergia pesada e ácida, trazendo o embrião do que viria a se convencionar de hard rock, mas também com pitadas do também embrionário rock progressivo com suas temáticas conceituais, sobretudo. As mudanças de formação, tanto no Relative quanto no Baby Bertha, foram constantes tendo na figura de Ellis, a criatividade sonora dessas bandas. Isso mudou quando chegou Ian MaLaughlin, onde os dois criaram relação pessoal e musical muito azeitada e perdurando uma amizade até os dias de hoje.

Creio firmemente, nobres leitores, que o Baby Bertha é o pai do Charge não apenas pelo fato de trazer grande parte dos seus músicos, mas também pelo aspecto sonoro da coisa. As músicas gravadas, lá no SRT Studios, sediada em Luton, para o único álbum da primeira banda, flerta e muito com os anseios da cena blues rock da Inglaterra, tão vívida e latente por bandas do naipe do Cream e Jimi Hendrix. Da versão dura e pesada de “Looking for Somebody”, do Fleetwood Mac, acompanhada por uma versão mais solar de “Blueberry Hill”, do Fats Domino, percebe-se, nas faixas compostas por Ellis, uma orientação do Baby Bertha para o blues pesado, corroborando a mesma condição para o Charge.

Baby Bertha - "Just the Beginning" (1972)

E agora o álbum! “Charge” é um álbum de hard rock com pitadas generosas de blues rock e garage prog muito bem executados, com reminiscências de psych rock com guitarras lisérgicas e um tempero experimental. A banda, com seu único álbum, não se rotula e revela uma versatilidade mostrando-se aberta às sonoridades que estavam em voga na primeira metade dos anos 1970.

É uma sonoridade tipicamente underground, porque não assume estereótipos, é cru, é latente, um som vivo é singular, seja em seus feitos ou em suas deficiências de produção e tudo mais. É um álbum artesanalmente concebido, sem arestas, é como ele é: autêntico!

O álbum é inaugurado com a faixa “Glory Boy From Whipsnade”, abreviada, em algumas reedições não autorizadas, que traz uma encapsulação perfeita do som da banda: um turbilhão de hard rock com riffs pesados de guitarra, ao estilo Hendrix, com aquela pitada generosa de blues rock ácido. Aqui é lisergia pura! Mas ainda é perceptível algo sombrio nessa música que a torna arrastada e por vezes introspectivas. Os solos de guitarra não ficam atrás, corroborando a psicodelia ainda viva e latente, mesmo que tenha sido concebida em 1973.

"Glory Boy From Wipsnade"

E falando em sombrio, espere até ouvir a próxima faixa: “To My Friends”. Um vocal grave, soturno e melancólico introduz a faixa com certa austeridade e dramaticidade. Um dedilhado de guitarra, que continua lisérgica, mas dá sustentação a esse tom sombrio e ameaçador, que, por vezes, me remete a algo contemplativo. O destaque fica também para baixo que, embora discreto, traz algo denso e a tão perceptível atmosfera sombria, com a bateria cadenciada. Aqui a “cozinha” se faz presente e com talento.

"To my Friends"

"Rock My Soul" começa com um balanço, uma pegada soul graças a guitarra, mas com uma marca ao estilo “beat”, algo dançante que gradativamente vem assumindo um tom mais pesado, com a guitarra assumindo uma levada mais psicodélica, os riffs lisérgicos vão ficando mais estridentes e pesados. Aqui a seção rítmica é mais pesada, o baixo é espetacularmente galopante remetendo ao heavy metal dos anos 1980. A bateria é pesada, marcada, intensa.

"Rock my Soul"

E fecha com a impressionante e incrível “Child of Nations” que traz um vocal mais rouco, mais dramático de Ellis, com um dedilhado ao fundo de guitarra contemplativo e que nos entrega solos curtos e viajantes. Aqui é o rock progressivo que se mostra relevante! A música vai ganhando, gradativamente, corpo, o vocal, antes abafado, vai ganhando alcance, os solos de guitarra, entre a lisergia e o contemplativo, mostra o salutar duelo entre o prog rock e o rock psicodélico. E como todo bom prog rock tem as mudanças rítmicas e se mostra, em uma segunda etapa (a música é fragmentada em subfaixas como: “Soldiers”, “Battles” e “Child Of Nations”) mais pesada e experimental, lembrando, inclusive um krautrock alemão: pesado e cheio de ruídos. Depois irrompe em um típico hard rock. Uma faixa que agrada a todos os gostos, extremamente complexa e versátil.

"Child of Nations"

As 99 cópias que foram feitas do álbum foram distribuídas entre os familiares dos músicos da banda, amigos próximos e as cópias que restaram foram entregues às gravadoras que, lamentavelmente, não demonstraram interesse em distribuir e consequentemente divulgar o som do Charge mundo afora. É o preço que se paga por fazer música arrojada e que não se “encaixa” a nenhuma tendência de mercado.

A tentativa vã de um contrato de gravação, segundo a banda, pode ter sido também por conta da forma breve de seu álbum, com cerca apenas de trinta minutos de duração e também por terem sido fabricados sem nenhuma capa externa, aquele formato extremamente artesanal onde a banda não tinha nenhum recurso financeiro. Foi pensado, para enriquecer o LP regravar algumas músicas do Baby Bertha, a banda que encarnou no Charge, mas, no fim das contas, os caras não optaram por isso.

Mas apesar das dificuldades de se conseguir um contrato com gravadoras o Charge construiu, com algum êxito, uma boa reputação com as suas apresentações ao vivo e abocanhou uns bons fãs com shows bombásticos na Costa Sul nos dois ou três anos em que continuaram ativos, até serem atingidos por uma tragédia.

Em meados de 1975, o baterista Pete Gibbons, ainda com apenas 25 anos de idade à época, sofrei um terrível ataque fatal de asma, morrendo precocemente. Dave e Ian, seus amigos de banda, arrasados, sequer poderiam considerar continuar a banda sem ele e, diante da morte de Pete e da frustração de não ter conseguido um contrato de gravação para divulgar a sua grande música, decidiram pôr fim a trajetória, também de forma precoce, do Charge.

Apesar do álbum demo que gravaram na juventude, lá em 1973, já estar à venda em vinil e CD, com as reedições, os membros sobreviventes do Charge, Ian MacLaughlin e Dave Ellis, permaneceram, pasmem, completamente alheios a tudo isso. Até que, um dia, no ano de 2010, Ian decidiu, por impulso, visitar uma dessas feiras de discos pela primeira vez.

E folheando distraidamente os estandes de vinil, ele ficou surpreso ao encontrar um álbum de uma banda que compartilhava o mesmo nome de sua antiga banda. Aquilo o deixou no mínimo intrigado, não é para menos. Ele ficou ainda mais surpreso ao virar a capa e descobrir, pelos títulos das músicas, que na realidade era o álbum que ele, Dave e Pete haviam gravado lá no estúdio em Luton quase quarenta anos atrás. E mesmo isso não se comparou à surpresa que tece quando, ao contar ao dono da banca que era membro da banda que o gravou, descobrindo que custaria £15 para comprar uma prensagem pirata do próprio álbum! Uma loucura!

Mas parece que tudo acontece por um motivo, dizem que é destino, algo está escrito para acontecer, não sei dizer sobre essas questões sobrenaturais, mas o fato é que, creio eu, que essa história precisou ser contada ou melhor ter acontecido para que, mais de quarenta anos depois do lançamento do álbum único do Charge, em 1973, ter sido relançado agora de forma oficial e como bônus foi incluída as músicas que compuseram na época do Baby Bertha. Um genuíno presente para os alucinados pela música obscura e esquecida nos porões empoeirados do bom e famigerado rock n’ roll.


Dave e Ian seguiram suas trajetórias na música em várias outras bandas, mas deixaram a história do Charge por aí que, do extremo anonimato de sua curta carreira, no início dos anos 1970, ganhou luz quando Ian descobriu que estavam comercializando seus álbuns de forma não autorizada. Que bom que aconteceu, não importa a forma, para que todos nós pudéssemos ter acesso a essa pérola bruta devidamente lapidada para deleitar nossos ouvidos e corações de uma música real, criativa e atemporal. Afinal, música tão boa realmente merece alcançar o maior número possível de pessoas.


A banda:

Dave Ellis na guitarra e vocal

Ian MacLaughin no baixo e vocal

Pete Gibbons na bateria

 

Faixas:

1 - Glory Boy From Whipsnade

2 - To My Friends

3 - Rock My Soul

4 - Child of Nations

           a. Soldiers

           b. Battles

           c. Child Of Nations



"Charge" (1973)