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sábado, 17 de janeiro de 2026

Charge - Charge (1973)

 

Alguns tesouros demoram a se revelar. As pérolas ficam escondidas sempre disponíveis para garimpo e este reles e humilde blog está aqui para fazer esse árduo, porém prazeroso trabalho, de descobrir as pepitas de ouro do rock n’ roll. E a Inglaterra, como um dos gigantes produtores de rock e, mais especificamente da música pesada, traz bandas em profusão, das mais famosas e, claro, as obscuras.

E de lá surgiu um power trio extremamente raro e underground chamado CHARGE que gravou uma demo, com apenas, pasmem, 99 cópias no início de 1973, porém não culminou em fama, fortuna e todo tipo de excesso típico das estrelas de rock. O álbum foi ignorado por várias gravadoras para quem as cópias foram enviadas. Reza a lenda que teve, não 99 cópias, mas apenas uma cópia! Isso mesmo que você, meu bom amigo leitor, leu! O que reforça, ainda mais, o conceito de raridade desta banda e seu único rebento sonoro.

Mas antes de entrar nos pormenores do álbum e suas faixas, convém falar um pouco da história da banda, que também não traz tanta informação por razões óbvias. O Charge evoluiu a partir do “Baby Bertha, uma banda de hard rock psicodélico, formada pelos idos de 1971 por membros de outra banda da Costa Sul chamada “Relative” que surgiu para o mundo em 1969 fundada por Dave Ellis. Em 1972 o Baby Bertha era formado pelo vocalista e guitarrista Dave Ellis, o guitarrista Roger “Proff” Perry, o baixista Ian McLaughlin e o baterista Des Law.

O Relative, como um nome inspirado em “Family” (que havia sido disfarçado de Relative no notório romance groupie de Jenny Fabian, foi concebido quando Ellis retornou do exterior, onde havia servido para o exército britânico, sendo membro ativo do mesmo e isso explica e muito a sonoridade, tanto do Relative quanto do Baby Bertha e futuramente do Charge, com faixas conceituais sobre guerras entre outros eventos e comportamentos ligados ao belicismo. Eram tempos de guerra e de agitação social muito grande.

A banda foi produto do “boom” do blues rock britânico, mesclado a uma lisergia pesada e ácida, trazendo o embrião do que viria a se convencionar de hard rock, mas também com pitadas do também embrionário rock progressivo com suas temáticas conceituais, sobretudo. As mudanças de formação, tanto no Relative quanto no Baby Bertha, foram constantes tendo na figura de Ellis, a criatividade sonora dessas bandas. Isso mudou quando chegou Ian MaLaughlin, onde os dois criaram relação pessoal e musical muito azeitada e perdurando uma amizade até os dias de hoje.

Creio firmemente, nobres leitores, que o Baby Bertha é o pai do Charge não apenas pelo fato de trazer grande parte dos seus músicos, mas também pelo aspecto sonoro da coisa. As músicas gravadas, lá no SRT Studios, sediada em Luton, para o único álbum da primeira banda, flerta e muito com os anseios da cena blues rock da Inglaterra, tão vívida e latente por bandas do naipe do Cream e Jimi Hendrix. Da versão dura e pesada de “Looking for Somebody”, do Fleetwood Mac, acompanhada por uma versão mais solar de “Blueberry Hill”, do Fats Domino, percebe-se, nas faixas compostas por Ellis, uma orientação do Baby Bertha para o blues pesado, corroborando a mesma condição para o Charge.

Baby Bertha - "Just the Beginning" (1972)

E agora o álbum! “Charge” é um álbum de hard rock com pitadas generosas de blues rock e garage prog muito bem executados, com reminiscências de psych rock com guitarras lisérgicas e um tempero experimental. A banda, com seu único álbum, não se rotula e revela uma versatilidade mostrando-se aberta às sonoridades que estavam em voga na primeira metade dos anos 1970.

É uma sonoridade tipicamente underground, porque não assume estereótipos, é cru, é latente, um som vivo é singular, seja em seus feitos ou em suas deficiências de produção e tudo mais. É um álbum artesanalmente concebido, sem arestas, é como ele é: autêntico!

O álbum é inaugurado com a faixa “Glory Boy From Whipsnade”, abreviada, em algumas reedições não autorizadas, que traz uma encapsulação perfeita do som da banda: um turbilhão de hard rock com riffs pesados de guitarra, ao estilo Hendrix, com aquela pitada generosa de blues rock ácido. Aqui é lisergia pura! Mas ainda é perceptível algo sombrio nessa música que a torna arrastada e por vezes introspectivas. Os solos de guitarra não ficam atrás, corroborando a psicodelia ainda viva e latente, mesmo que tenha sido concebida em 1973.

"Glory Boy From Wipsnade"

E falando em sombrio, espere até ouvir a próxima faixa: “To My Friends”. Um vocal grave, soturno e melancólico introduz a faixa com certa austeridade e dramaticidade. Um dedilhado de guitarra, que continua lisérgica, mas dá sustentação a esse tom sombrio e ameaçador, que, por vezes, me remete a algo contemplativo. O destaque fica também para baixo que, embora discreto, traz algo denso e a tão perceptível atmosfera sombria, com a bateria cadenciada. Aqui a “cozinha” se faz presente e com talento.

"To my Friends"

"Rock My Soul" começa com um balanço, uma pegada soul graças a guitarra, mas com uma marca ao estilo “beat”, algo dançante que gradativamente vem assumindo um tom mais pesado, com a guitarra assumindo uma levada mais psicodélica, os riffs lisérgicos vão ficando mais estridentes e pesados. Aqui a seção rítmica é mais pesada, o baixo é espetacularmente galopante remetendo ao heavy metal dos anos 1980. A bateria é pesada, marcada, intensa.

"Rock my Soul"

E fecha com a impressionante e incrível “Child of Nations” que traz um vocal mais rouco, mais dramático de Ellis, com um dedilhado ao fundo de guitarra contemplativo e que nos entrega solos curtos e viajantes. Aqui é o rock progressivo que se mostra relevante! A música vai ganhando, gradativamente, corpo, o vocal, antes abafado, vai ganhando alcance, os solos de guitarra, entre a lisergia e o contemplativo, mostra o salutar duelo entre o prog rock e o rock psicodélico. E como todo bom prog rock tem as mudanças rítmicas e se mostra, em uma segunda etapa (a música é fragmentada em subfaixas como: “Soldiers”, “Battles” e “Child Of Nations”) mais pesada e experimental, lembrando, inclusive um krautrock alemão: pesado e cheio de ruídos. Depois irrompe em um típico hard rock. Uma faixa que agrada a todos os gostos, extremamente complexa e versátil.

"Child of Nations"

As 99 cópias que foram feitas do álbum foram distribuídas entre os familiares dos músicos da banda, amigos próximos e as cópias que restaram foram entregues às gravadoras que, lamentavelmente, não demonstraram interesse em distribuir e consequentemente divulgar o som do Charge mundo afora. É o preço que se paga por fazer música arrojada e que não se “encaixa” a nenhuma tendência de mercado.

A tentativa vã de um contrato de gravação, segundo a banda, pode ter sido também por conta da forma breve de seu álbum, com cerca apenas de trinta minutos de duração e também por terem sido fabricados sem nenhuma capa externa, aquele formato extremamente artesanal onde a banda não tinha nenhum recurso financeiro. Foi pensado, para enriquecer o LP regravar algumas músicas do Baby Bertha, a banda que encarnou no Charge, mas, no fim das contas, os caras não optaram por isso.

Mas apesar das dificuldades de se conseguir um contrato com gravadoras o Charge construiu, com algum êxito, uma boa reputação com as suas apresentações ao vivo e abocanhou uns bons fãs com shows bombásticos na Costa Sul nos dois ou três anos em que continuaram ativos, até serem atingidos por uma tragédia.

Em meados de 1975, o baterista Pete Gibbons, ainda com apenas 25 anos de idade à época, sofrei um terrível ataque fatal de asma, morrendo precocemente. Dave e Ian, seus amigos de banda, arrasados, sequer poderiam considerar continuar a banda sem ele e, diante da morte de Pete e da frustração de não ter conseguido um contrato de gravação para divulgar a sua grande música, decidiram pôr fim a trajetória, também de forma precoce, do Charge.

Apesar do álbum demo que gravaram na juventude, lá em 1973, já estar à venda em vinil e CD, com as reedições, os membros sobreviventes do Charge, Ian MacLaughlin e Dave Ellis, permaneceram, pasmem, completamente alheios a tudo isso. Até que, um dia, no ano de 2010, Ian decidiu, por impulso, visitar uma dessas feiras de discos pela primeira vez.

E folheando distraidamente os estandes de vinil, ele ficou surpreso ao encontrar um álbum de uma banda que compartilhava o mesmo nome de sua antiga banda. Aquilo o deixou no mínimo intrigado, não é para menos. Ele ficou ainda mais surpreso ao virar a capa e descobrir, pelos títulos das músicas, que na realidade era o álbum que ele, Dave e Pete haviam gravado lá no estúdio em Luton quase quarenta anos atrás. E mesmo isso não se comparou à surpresa que tece quando, ao contar ao dono da banca que era membro da banda que o gravou, descobrindo que custaria £15 para comprar uma prensagem pirata do próprio álbum! Uma loucura!

Mas parece que tudo acontece por um motivo, dizem que é destino, algo está escrito para acontecer, não sei dizer sobre essas questões sobrenaturais, mas o fato é que, creio eu, que essa história precisou ser contada ou melhor ter acontecido para que, mais de quarenta anos depois do lançamento do álbum único do Charge, em 1973, ter sido relançado agora de forma oficial e como bônus foi incluída as músicas que compuseram na época do Baby Bertha. Um genuíno presente para os alucinados pela música obscura e esquecida nos porões empoeirados do bom e famigerado rock n’ roll.


Dave e Ian seguiram suas trajetórias na música em várias outras bandas, mas deixaram a história do Charge por aí que, do extremo anonimato de sua curta carreira, no início dos anos 1970, ganhou luz quando Ian descobriu que estavam comercializando seus álbuns de forma não autorizada. Que bom que aconteceu, não importa a forma, para que todos nós pudéssemos ter acesso a essa pérola bruta devidamente lapidada para deleitar nossos ouvidos e corações de uma música real, criativa e atemporal. Afinal, música tão boa realmente merece alcançar o maior número possível de pessoas.


A banda:

Dave Ellis na guitarra e vocal

Ian MacLaughin no baixo e vocal

Pete Gibbons na bateria

 

Faixas:

1 - Glory Boy From Whipsnade

2 - To My Friends

3 - Rock My Soul

4 - Child of Nations

           a. Soldiers

           b. Battles

           c. Child Of Nations



"Charge" (1973)























sábado, 27 de dezembro de 2025

Blues Addicts - Blues Addicts (1970)

 

Na transição dos anos 1960 para os frutíferos anos 1970 tínhamos muitas bandas que orientavam as suas músicas, as suas sonoridades para o rock, mais precisamente para o hard rock e o blues. Bandas como Cream, Jimi Hendrix Steppenwolf eram as que estavam no topo da pirâmide da qualidade e da visibilidade, servindo de parâmetro para muitas outras que surgiriam nos anos seguintes.

Evidente que existiam outras menos conhecidas, logo com roupagens mais ousadas e, diria, menos compreensivas pelo grande público que testemunhavam, ainda de forma embrionária, o surgimento desse som híbrido e peculiarmente espetacular, como o Blue Cheer, por exemplo. Esta banda trazia a versão “eletrificada” e pesada do blues rock, com versões agressivas e intensas que tendiam, inclusive, para o proto punk, dada a sujeira e a despretensiosidade de seu som.

Mas o Blue Cheer, ao longo dos anos, foi conquistando um público fiel e deleitado com o seu som que até hoje, principalmente em seu debut, chamado “Vincebus Eruptum”, de 1968, graças também com o advento das ferramentas de internet, como as redes sociais, canais de YouTube e afins que difundiram a sua música.

Porém, dignos e estimados leitores, ainda há bandas que percorreram o mesmo caminho do Blue Cheer nos seus primórdios, não apenas pela sonoridade, mas também pelo árduo caminho da obscuridade, da marginalidade e do ostracismo. Eu descobri recentemente uma banda que me fez rememorar não apenas essa sonoridade tão querida entre os apreciadores de rock, mas também uma porção esquecida e rara de álbuns que, ao fazer uma retrospectiva, fizeram história pelo pioneirismo e também pela ousadia em se fazer um som tão potente e latente: Falo da banda BLUES ADDICTS.

Você, meu bom amigo leitor, conhece o Blues Addicts? Diante de tantos nomes pesados qual a importância de uma banda tão rara como essa? O rock escandinavo, em especial o dinamarquês, deve reverenciar uma banda como o Blues Addicts. Certamente está entre as pioneiras do blues rock e quiçá do rock n’ roll de seu país.

Claro que não podemos negligenciar bandas, igualmente obscuras, como o conterrâneo Moses que também, com seu único álbum, homônimo, de 1972, cuja resenha pode ser lida aqui, tem o seu mérito, sua história, mas temos de admitir que o Blues Addicts, em termos temporais surgiu antes. E aproveito aqui para dizer que, por razões óbvias, pouco se tem de informação sobre a banda na web, mas tentarei, dentro do possível, falar um pouco dessa seminal banda.

O Blues Addicts foi formado em 1969 e pegou o rastro que a banda Young Flowers deixou quando eles se separaram. A banda tinha, em sua formação, Ivan Horn, na guitarra e vocal, Gibber Thomsen, cujo nome verdadeiro era Thorstein Thomsen, nos vocais e bongôs, Mick Brink, no baixo e Henning Aasbjerg na bateria.

Apesar das dificuldades inaugurais de qualquer banda que praticavam bases sonoras embrionárias e ousadas, conseguiu gravar o seu primeiro e único álbum, um ano após a sua formação, em 1970, homônimo, pelo selo underground e infame de nome “Spectator Records”, mas foi uma produção muito “artesanal”, sem o mínimo de estrutura, e isso se confirma no produto final, porém não diminui em nada na sua audição, pelo contrário, traz todo um charme, porque é um álbum ousado, mantendo um viés de garage rock, mesclado a um blues rock ácido, agressivo e pesado.

Assim o é: “Blues Addicts” é um álbum de garage rock, um blues rock pesado, um hard rock elétrico, potente, que nos remete ao Blue Cheer, porque não tem aquela, diria, complexidade na sonoridade que o Cream e o Hendrix traziam em seus sons. Era algo garageiro, sujo, despretensioso mesmo e alia isso o rock psicodélico, com aqueles riffs de guitarra lisérgico, estridentes e pesados, com momentos experimentais e viajantes. É ácido, é pesado, é intenso e, por vezes, contemplativo, dado os seus momentos experimentais. Resumo: é um álbum louco e completamente novo para a sua época.

É isso! Um álbum à frente de seu tempo, que trazia frescor e, claro, com isso um pouco de rejeição pelas gravadoras e também pelo público, mesmo que o blues rock estivesse ganhando alguns adeptos pelo mundo graças ao que o Cream, Hendrix e Jeff Beck estavam fazendo com seus instrumentos e músicas.

“Blues Addicts” nasceu escuro, obscuro, tanto que, ao ser gravado pouquíssimas foram as cópias geradas e reza a lenda que a banda, ao tê-las em mãos, as distribuiu para os seus amigos e pessoas mais próximas. Então ter essa versão original é para poucos e se esses felizardos que as receberam, lá no longínquo ano de 1970, colocassem para vender, o fariam a cifras astronômicas, sem dúvidas. Logo falarei dos relançamentos, que não foram muitos, o que colaborou e muito para o nascimento de alguns bootlegs e lançamentos não oficiais. Mas agora falemos de suas originais nove faixas.

O álbum é inaugurado com a faixa “5/4” e já começa com um pé na porta sem avisar. Pesado, riffs grudentos e pegajosos, porém pesados, de guitarra, bateria pesada, a batida intensa e agressiva, o baixo pulsante, mostrando uma “cozinha” de groove. Aqui o hard rock, em sua pureza, está mais presente do que o blues rock. Segue “Ba-Ba-Dar” que traz um balanço contagiante, o acid rock está mais latente nessa faixa. O vocal aqui é mais limpo e agradável, o solo de guitarra é mais competente e complexo, trazendo a lisergia já manjada, bem como o blues rock que dá o ar de sua presença magnânima. E, claro, não podemos negligenciar o bom hard rock por aqui também e com aquele groove que revela ser outro destaque do álbum.

"5/4"

“Bottleneck” traz uma introdução acústica, o dedilhar de guitarra e um viés mais psicodélico, um momento mais contemplativo, eu diria, mas logo surge a guitarra bluesy, o blues mais primitivo se revela na faixa, mas retorna à psicodelia. Um exemplo experimental de acid blues na sua gênese. Era algo novo, soava novo aos ouvidos e me coloco no lugar de quem a ouviu em 1970! Que maravilha! “Hailow” surge pesada, autenticamente blues rock, com pitadas extremamente bem servidas de um tempero hard rock eletrificado, trazendo à tona o Blue Cheer. É arrastada, é pesada, agressiva. Espetacular!

"Bottleneck"

“Jazzer” é curta, rápida, mas que traz uma novidade no álbum e que reflete em seu nome: o jazz rock! Sim, amigos leitores, um jazz rock envenenado, potente, com uma batida pesada e animada. Uma música definitivamente solar que mostra que o Blues Addictis, apesar de ter concebido um álbum artesanal, mostrava repertório. Segue com “Simple Expressions” que traz a essência do blues rock. A levada blueseira que lembra o Cream. Um som pesado, bem acabado, diria complexo. O vocal se mostra versátil, adequando-se ao blues ácido, pesado, latente e altivo. Solos de tirar o fôlego, bateria marcada e pesada, baixo pulsante. Sem dúvidas um dos destaques do álbum.

"Simple Expressions"

“Coward Way” começa estranha, ruídos tirados da guitarra um tanto quanto experimental, mas logo isso acaba, revelando a sua veia blueseira, um solo de guitarra puro, simples, mas bem feito, cheio de groove e peso, mas aquele peso cadenciado, o que corrobora o seu balanço inconfundível e saborosamente animado. E fica mais animado e dançante quando entra o bongô. Uma loucura experimental que só se via, ou melhor, ouvia, naqueles anos distantes de 1970. “Smukke” começa contemplativa e sombria, algo de The Doors pode ser ouvido, com um dedilhado de guitarra bem lisérgico. O peso alterna, o acid rock é latente, mas aqui se percebe o psych vivamente.

"Coward Way"

E fecha com “Electric”, a mais longa faixa do álbum, e traz um riff pesado e potente de guitarra. É sujo, é underground até a espinha e mostra uma versão arrogante e agressiva de Steppenwolf. Um acid rock com pitadas blueseiras, que mostra uma banda poderosa e incrivelmente versátil. Solos de guitarras espetaculares, de tirar o fôlego, avassaladoras, uma “cozinha” potente, vocal gritados. Eis a faixa ou uma das faixas mais legais e pesadas do álbum que é finalizado com chave de ouro.

"Electric"

O Blues Addicts, após o lançamento de seu underground álbum, em 1970, rodou toda a Europa, fazendo muito shows, muitas apresentações. Era uma banda estradeira, de turnê, mesmo que as dificuldades estruturais surgissem. E graças a sua energia nos palcos, com apresentações catárticas, conseguiu uma razoável base de fãs. Mas infelizmente as dificuldades, a falta de apoio e a inexperiência de seus jovens músicos, a banda não tardou a perecer, tendo uma vida muito curta.

Mas deixou um legado! Deixou, mesmo que desconhecidamente, um conceito de rock n’ roll mesclado ao blues que o criou lá nos anos 1950, juntamente com outros tantos estilos. Ajudou, não só a fundi-los, mas principalmente a mostrar uma alternativa de música pesada que surgiu, em profusão, no início dos anos 1970. Um álbum cru, envenenado, potente, vivo, pulsante, pesado, intenso, garageiro e sujo, totalmente sujo e despretensioso.

Pouco se sabe sobre os integrantes do Blues Addicts, mas o guitarrista e vocalista da banda, Ivan Horn, quando o Blues Addicts se separou tocou guitarra com CV Jørgensen e vários outros músicos e bandas construindo uma carreira também na cena underground dinamarquesa.

O único álbum do Blues Addicts teve alguns relançamentos. O primeiro ocorreu em 1991, pelo selo Little Wing Refugees, da Alemanha e com ele veio uma capa alternativa, além de faixas jamais lançadas e até mesmo inéditas. São elas: “Train Kept Rollin”, “Saxe” e “Kong Midas”, além de faixas lançadas na versão original, mas com tonalidades alternativas, como: “5/4”, “Ba-Ba-Dra” e “Hailow”.

Em 2006 outro selo dinamarquês, o Karma Musica, relançaria o álbum e logo depois outros relançamentos aconteceriam entre 2007 e 2008, alguns oficiais e outros não. Os “viciados em blues” deixou uma marca no rock dinamarquês e mundial, mesmo com um álbum obscuro, unindo o blues e o rock de forma poderosa, crua e original.



A banda:

Thorstein Thomsen no vocal e percussão

Ivan Horn na guitarra e vocal

Mich Brink no baixo

Henning Aasbjerg na bateria

 

Faixas:

1 - 5/4

2 - Ba-Ba-Dar

3 - Bottleneck

4 - Hailow

5 - Jazzer

6 - Simple Expressions

7 - Coward Way

8 - Smukke

9 - Electric



"Blues Addicts" - Versão original (1970)


"Blues Addicts" - Relançamento com faixas extras e inéditas (1991)

























 





sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Gandalf - Gandalf (1977)

 

A cena progressiva da Suécia foi prolífica, foi grandiosa em qualidade e quantidade. Inúmeras bandas surgiram, algumas caíram na obscuridade e no ostracismo, outras gozaram de certa fama. As questões políticas limitavam um pouco, afinal grande parte dessa cena, predominantemente underground, se posicionavam, criticavam por intermédio de suas letras o status quo e os governos censuravam ou as gravadoras, por medo, não gravavam ou engavetavam certos projetos musicais com esse teor, digamos, revolucionário ou anárquico. E, muito em virtude desse cenário desolador, florescia a música sueca comercial “rivalizando” com o prog rock local.

Mas ainda assim o rock progressivo sueco teve um impacto significativo nas forças socioculturais e também, claro, nas políticas que se mostravam antagônicas a essa cena. O prog sueco versava sobre amor, paz e felicidade. As pessoas viviam em coletivos, mudavam-se para o interior e cultivavam suas próprias colheitas. E muitas bandas começaram nessas comunidades e as manifestações foram influenciadas pelo movimento de esquerda.

E, diante desse cenário, os primeiros passos da carreira desses músicos e bandas foram dados em um ambiente pela escassez financeira. Muitos eram jovens e surgiam, em alguns casos, de forma despretensiosa, apenas pelo amor à música, em espaços escolares. E assim foi com uma banda extremamente rara: GANDALF.

Gandalf

Meu bom e fiel amigo leitor, você deve estar a pensar: mais uma banda com o nome Gandalf? Sim, são algumas bandas com esse nome, mas o Gandalf sueco certamente é o menos conhecido. E não se engane, a origem do nome da banda se deu exatamente por conta do famoso e misterioso mago de “O Senhor dos Anéis”. Então a banda achou interessante ter tal nome, pois o personagem era envolto em mistério.

E por falar em banda, vamos aos jovens que formaram o Gandalf: Per-Åke Persson na bateria, Lars Linell no baixo, Mats Ågren no vocal, guitarra e piano, Michael Schlömer na flauta e Johan von Feilitzen no vocal, guitarra e piano.

E quando falamos em influência e movimento progressivo na Suécia, o Gandalf, claro, tiveram as suas referências sonoras e contava com as grandes bandas daquele país, cujos destaques são, entre outras:  Bandas suecas influentes incluíram Hoola Bandoola Band, Nynningen, Kebnekajse, Ola Magnell, Ensamma Hjärtan, Motvind, Coste Apetrea, Zamla Mammas Manna, Mobben, Kaipa, Nationalteatern e Norbottensjärn, Rekyl. E evidente que as bandas internacionais também foram determinantes para a sonoridade do Gandalf, como: Focus, Pink Floyd, Ekseption, Gentle Giant, Frank Zappa e Deep Purple.

O Gandalf, lá no final dos anos 1970, decidiu lançar seu primeiro álbum, de forma privada. Tentaram contatar algumas gravadoras, sendo, claro, em pleno final dos anos 1970, onde bandas pop e comerciais como ABBA eram a oportunidade de mercado das gravadoras, além do punk que florescia para este mesmo mercado, negado. Por isso a decisão dos jovens músicos do Gandalf lançar o álbum, homônimo, em 1977, de forma bem “artesanal” e privada (Gandalf Skivprod), em um total limitado de 378 cópias. Eles tiveram o apoio financeiro principalmente dos seus amigos da escola. Eles eram tão jovens!

Inclusive, convém trazer à tona uma parte desse momento da história do Gandalf. O primeiro e único álbum da banda estava planejado para ser lançado por um selo comunista de nome Oktober, mas quando ouviram a faixa inaugural “Plastisk Svensson”, os empresários do selo consideraram “anti-classe trabalhadora demais”. Ficaram com medo e decidiram cancelar o lançamento.

Já que estamos falando do único álbum do Gandalf, convém tecer alguns comentários acerca de sua sonoridade que flerta com várias vertentes do rock, não apenas o progressivo sueco, que tem, como base, o prog sinfônico, mas também de um boogie-rock, com alguns solos pesados de guitarra, que tendem para o hard rock, além de uma pegada bluesy, um blues rock. A banda não tinha rótulos e experimentava todos os sons que reinaram no rock nos anos 1970. E esse som pouco estereotipado e por vezes de garagem, fez com que, em 1977, mais precisamente, com o seu lançamento tímido e limitado em cópias, não ganhasse o interesse de selos conservadores.

Antes de falar de cada música deste álbum pouco usual para ouvidos mais ortodoxos, convém falar um pouco do retrato vivido pelo Gandalf da percepção do público pela mesma, bem como as suas primeiras apresentações ao vivo. A banda, oriunda de uma cidade chamada Uppsala, começaram a tocar, graças a sua boa relação com outras instituições de ensino, fizeram alguns shows em outras escolas. E conseguiram tocar para 25.000 pessoas nos arredores de Estocolmo em um salto mais ousado da banda, no “Hagafesten”. Um dia fantástico de verão com um uma grande plateia. E dividir o palco com tantas outras bandas, algumas já experientes e outras surgindo, foi, no mínimo, incrível para os jovens músicos do Gandalf.

O álbum é inaugurado com a faixa “Plastisk Svensson” que traz um hard rock com o destaque para riffs e solos de guitarra que a torna pesada e animada. E essa energia da música também se revela em uma pegada mais dançante lembrando um rockabilly. Também se percebe uma lisergia, um beat que se “entrelaça” com o rockabilly. Segue com “Morgon Dimman” que começa pastoral, viajante, com dedilhados lisérgicos de guitarra e uma flauta doce, delicada. E assim a música é conduzida, entre solos ácidos de guitarra e a flauta. E ainda assim, traz uma melodia com nuances, como um prog rock.

"Plastisk Svensson"

“Verklig Heten” explode em um hard rock volumoso, solos intensos de guitarra, bateria forte e com uma batida agressiva e marcada. O baixo é pulsante, a “cozinha” é extremamente competente. Mas ainda há mudanças de andamento, momentos de balada, conduzidas por um vocal cantado em sueco. O solo de guitarra no meio da faixa é espetacular: límpido e viajante. O lado progg é capitaneado pela flauta delicada. “Betygs Terror” começa com um piano e a flauta, novamente em destaque, construindo um prog rock com uma pegada meio jazzística. As mudanças de andamento são perceptíveis e a bateria conduz cada mudança com maestria.

"Verklig Heten"

“Den Vita Snov” começa com uma pegada psicodélica, com dedilhados de guitarra lisérgica e solos que me remetem ao The Doors e Iron Butterfly. Bateria lentamente executada, lembrando um blues rock, baixo no mesmo ritmo. Simples e agradável essa faixa! Viajante com solos de guitarra. “Miljo Forstoring” segue a mesma proposta da faixa anterior, um beat psicodélico bem dançante, mas com uma pitada comercial, algo mais palatável, com um boogie com muita animação entre tudo isso.

“Vanderingar Om Skolan” traz a versão blues rock do Gandalf. Sedutor, envolvente, assim se conduz a música, com o piano no destaque, mas alterna com uma pegada mais hard rock e assim se desenvolve, entre o peso do hard rock e a sedução do blues rock cantado, de uma forma inusitada, em sueco. “Balladen Om Fyristorg” continua com a pegada bluesy, mas agora inteiramente com o blues rock pesado, com riffs pegajosos de guitarra. E fecha com “The Spoon” começa com uma balada com o piano e vocal quase que à capela. Entra, em seguida, a bateria, marcada e um solo voltado para o blues que deixa a sonoridade dessa faixa versátil como todo o álbum.

"Balladen Om Fyristorg"

A dissolução do Gandalf ocorreu de forma muito precoce, afinal o cenário era desfavorável para esses jovens e audaciosos músicos que, em pleno final dos anos 1970, onde o punk estava no auge mercadológico, bem como a new wave e a disco music, tornaria difícil a “concorrência”. Era o início dos anos 1980 e o Gandalf, sem apoio e suporte financeiro adequado para difundir sua arte, pereceu, sumiu da cena prog que já não estava mais no auge comercial.

Mas nem tudo era ruim, a luz no fim do túnel escuro e negro se fez e o Gandalf teve o tão aguardado e esperado álbum homônimo relançado, com toda a pompa e circunstância pelo selo PQR-Disques Plusqueréel. No estilo da verdadeira ressureição, as vibrações carregadas de prog sinfônico, hard rock, blues e até mesmo um rock psych repleto de ácido desperta a alma de quem ouve esse belo e intrigante trabalho, os transportando para as florestas encantadoras onde os sonhos hippies se entrelaçam com as estrelas. Eram as origens dessa cena ganhando visibilidade novamente por intermédio do Gandalf.

O vinil, acompanhado por um livreto de 12 páginas, com letras originais e fotos da banda inéditas, destaca uma cena prolífica personificada pelo único trabalho do Gandalf, oferecendo a mistura pouco ortodoxa de psicodelia, progressivo, hard rock, com estilos emergentes e experimentais da sua época.

Os anos 1970 trouxeram sonoridades em caráter experimental e esses novos sons, de fato testaram a capacidade de ousar muitas gravadoras no que diz respeito ao apoio a essas bandas que são igualmente ousadas, em criar um som totalmente novo e arrojado, diante de músicas plastificadas e óbvias, clacadas em um pop digerível e de fácil assimilação.

Hoje as bandas gozam dessa caminhada tortuosa e difícil de seus predecessores, além de ter tantas formas de audição e de alcance a essas sonoridades, tantas formas digitais de escolher, as redes sociais que difundem as novas bandas e solidifica, mesmo que em um ambiente underground, mas forte, de sonoridades que se dão ao luxo de ainda ganhar novos “braços” sonoros, sempre se renovando.

Por mais que o Gandalf tenha perecido na obscuridade nos seus primórdios foi, como tantas outras bandas de sua época, importante para a pavimentação de uma música tão poderosa e original que, sem dúvida, faz do rock sueco ainda muito criativo e vivo, poderoso e cheio de vida, de uma vida longa e próspera. O cantor e guitarrista Johan von Feilitzen mais tarde fundou a banda comercial de pop rock Hansa Band, uma banda sem mérito e com ainda menos qualidades prog.





A banda:

Johan von Feilitzen no vocal, guitarra e piano

Per-Åke Persson na bateria

Lars Linell no baixo

Mats Ågren no vocal, guitarra e piano

E Michael Schlomer na flauta

 

Faixas:

1- Plastisk Svensson

2- Morgon Dimman

3- Verklig Heten

4- Betygs Terror

5- Den Vita Snov

6- Miljo Forstoring

7- Vanderingar Om Skolan

8- Balladen Om Fyristorg

9- The Spoon 




"Gandalf" (1977)



























sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Bare Sole - Flash (1969 - 2015)

 

Kingston Upon Hull, cidade portuária em East Riding of Yorkshire, Inglaterra, segunda metade dos anos 1960. A cena rock não era muito proeminente na região, apesar de ter revelado alguns músicos para o mundo, tais como Mick Ronson e Robert Palmer, porém tiveram que sair de Hull para edificar a sua carreira. Mas as bandas surgiam, afinal os anos 1960 e 1970 foram prolíficos para o rock n’ roll em termos de cena e surgimento de bandas, independente de termos cenários undergrounds e de glamour, de bandas famosas.

E de Hull surgiu uma banda chamada “The Combine”, que trazia, em sua formação o guitarrista Richard “Richie” Foster, o baterista Ron Newlove e Dave George na guitarra rítmica. Richie e Ron haviam emigrado de uma banda, no início dos anos 1960, chamada “The Mariners”, que a certa altura apresentava um jovem Mick Ronson que, à época, estava conciliando um emprego diurno com jardineiro e de, claro, guitarrista promissor.

The Combine, apesar de gozar de certa popularidade em sua cidade natal, por tocar um beat, que estava em voga nos anos 1960, decidiu mudar seu direcionamento sonoro. Então, a banda decidiu se juntar ao baixista Brian Harrison, em idos de 1968 e concretizaram as suas mudanças, a começar pelo nome. Assim nasceria o BARE SOLE.

As mudanças sonoras seriam evidentes e radicais, diria, saindo de um psicodélico, ao estilo beat e “flower power” para uma pancada proto metal e hard rock sujo, direto e despretensioso, calcado no psych e blues rock. A sonoridade, principalmente o blues rock, estava em evidência, sendo fomentado, na Inglaterra, por bandas como Cream, Led Zeppelin e Are You Experienced, de Jimi Hendrix, além dos pesos pesados do proto hard como Black Sabbath e Deep Purple, que ainda flertava com o psicodélico em seus primórdios.

Bare Sole

Apesar da mudança radical e ousada, que requer certa coragem, o Bare Sole teve um apoio substancial de um empresário local, que injetou dinheiro aos jovens e promissores músicos, dando-lhes tudo que eles precisavam, inclusive um fluxo constante de shows, fazendo-os participar de shows e atrações com nomes de peso, como The Move, Status Quo, Family e Small Faces que, à época, trazia Rod Stewart em seu line-up.

Locais como “The Bridlington Spa” e o “Skyline Ballroom” mostraram e provaram ser uma plataforma valiosa para mostrar as grandes e famosas bandas visitantes o que Hull poderia oferecer, apesar de a cena rock no local não ser tão grande e conhecia.

A confiança entre o Bare Sole e seu novo empresário crescia depois de vários retornos das bandas famosas à Hull e o tempo de estúdio acabou sendo arranjado nos estúdios Fairview. Tudo caminhava muito bem para o Bare Sole: mudaram seu direcionamento sonoro que, apesar de não ser unânime no mercado fonográfico, em virtude do auge da psicodelia e do embrionário rock progressivo que tomava de assalto a Inglaterra, tinha o financiamento de carreira e uma gestão eficiente e já tinha a estrutura de estúdio para finalmente gravar seu novo trabalho.

O empresário até descolou um compositor jamaicano, de nome Ira George Green, que tinha talentos de composição para ajudar a banda nesta etapa que, acabou por compor uma faixa, a “Woman a Come”. E até conseguiram popularidade com a música, tanto que rendeu uma segunda versão, com Keith Herd, que aplicou um apoio de órgão dominante, como faria também com outra faixa, a “Is Not Nobory Here”. Mas logo, meus estimados leitores, falarei, com requintes de detalhes de cada faixa que o Bare Sole produziria.

As seções, que aconteceram nos estúdios Fairview, trairiam, o que seria, o primeiro álbum do Bare Sole, gravado em 1969, mas, lamentavelmente, este não seria oficialmente lançado, o que também, muito em breve contarei por aqui, caro leitor. Mas essa história, ainda assim, registrada da banda, seria marcada por um desprezo indulgente desses jovens músicos por qualquer coisa relacionado ao rock psicodélico e o rock progressivo. Para muitos tais impulsos poderia ser perdoado por entusiasmo juvenil, mas não era somente por isso, mas por conta de uma cena mais pesada que também florescia na Inglaterra.

Esse trabalho foi calcado no peso, que era diluído no psych, no blues. Uma sonoridade pouco sofisticada, sem experimentalismos, com uma sujeira garageira, um tempero underground. O hard rock ditou os caminhos sonoros desse álbum que não foi lançado na época em que fora concebido, como tantos outros obscuros e vilipendiados pelos fãs e mercado fonográfico.

O álbum, que não possuía um nome, quando foi gravado, lá pelo ano de 1969, começa com a faixa “Flash” que começa com um peso lisérgico e ácido de guitarra, riffs de guitarra bem sujos e despretensiosos, com uma bateria pesada, um baixo pulsante mostrando uma seção rítmica agressiva e sem sofisticação, o que traz o “charme” a este álbum. Mas logo vem o solo de guitarra que mantém a sua chama pesada e repleta de lisergia e psicodelia, mas com o “tempero” hard.

"Flash"

Segue com “Woman a Come” que, logo no início, traz uma peculiaridade, com uma voz, bem discreta, ao fundo, anunciando a faixa, como se fora um “take”, mostrando o caráter “artesanal” da produção deste álbum! Mais um “charme”! Começa animada, dançante. As origens do beat estão na introdução da música. Baixo cheio de groove, bateria marcada. Uma faixa solar! Mas o peso vem chegando, vagaroso, com solos de guitarra na lisergia, na pegada psych.

"Woman a Come"

O blues chega com a faixa “Soul Blues”. O nome denuncia a sua veia blues rock com pegada mais hard, mas também traz nuances das raízes do velho e bom blues. A guitarra dedilhada esconde das pretensões do guitarrista a lisergia, mostrando a sua versatilidade, apesar do som primitivo e sujo que permeia no álbum. O solo de guitarra é de tirar o fôlego e que fecha maravilhosamente a música.

“Let’s Communicate”, feita apenas em um “take”, conforme informado na gravação, chega pesada e ameaçadora. Riffs sujos, grudentos e pesados de guitarra mete, agressivamente, o pé na porta e vem, como uma força da natureza, impiedosa, varrendo tudo o que vê pela frente. Os gritos do vocalista dão o tempero ao hard psych que se apresenta na faixa. Solos de guitarra corroboram o peso e faz com que o ouvinte que, minimamente se deixa levar pela emoção que a música pode proporcionar, bata cabeça compulsoriamente. Espetacular!

"Let's Communicate"

“Jungle Beat”, foi concebida no take 2, e começa com um baixo galopante e pulsante, fazendo jus ao nome da música, mas não se engane, prezado leitor, de que o beat reina absoluta na faixa. O hard rock, mesclado ao psych também tem seu protagonismo, por intermédio de seus instrumentais tocados de forma sublime e suja. Solos de bateria te faz dançar e, sem firulas, traz uma pitada um tanto quanto tribal. 

"Jungle Beat"

“Woman a Come”, em sua versão dois, não traz muitas modificações sonoras em relação a primeira versão, a não ser com uns toques de teclados. Fecha com “Is Not Nobody Here” que começa também dançante e me parece que a intenção da banda era fechar o álbum com o beat, evidentemente com uma pegada mais pesada e lisérgica, que marcou as origens da banda no início dos anos 1960. Os teclados trazem uma camada de pura psicodelia e lisergia.

"Woman a Come (Version 2)"

O empresário do Bare Sole se esforçou e muito para catapultar a banda para o sucesso, para garantir um contrato de gravação e consequentemente sair em turnê para divulgar seu primeiro trabalho, enviando a fita demo para a Decca Records, em Londres. Mas a banda teve negada uma audição, em 1970, e o motivo, tosco, diga-se de passagem, é que não estava disposta a investir em uma banda que claramente não tinha intenções de acompanhar as mudanças na moda musical da Londres progressiva.

Bare Sole apresentava um som cru e primitivo demais para os estúdios chiques da Decca, em West Hampstead ou de De Lane Lea. Imediatamente antes de sua fita demo ser devolvida, a banda estava fazendo as malas para uma turnê pelas bases aéreas americanas na Alemanha Ocidental.

Mas o problema não viria apenas com uma fita demo rejeitada pela Decca Records. O baterista Ron Newlove estava prestes a se casar com sua namorada de longa data, o que acabou levando à sua decisão de deixar o Bare Sole durante a turnê. Newlove e a banda voltaram consternados, frustrados, após uma breve e infrutífera existência do Bare Sole, com um baterista recém recrutado. Inevitavelmente a banda se separaria, dando fim, precoce, às suas atividades, voltando, os seus integrantes, aos seus empregos diários, em meados dos anos 1970.

Embora o Bare Sole tenha durado pouco mais de um ano, com esta formação e concepção sonora, ouso dizer, por mais que não tenha lançado, de forma oficial, seu álbum e ter caído nas sombras da obscuridade, que deixou uma marca importante na história da música pesada na Inglaterra, mostrando, apesar de seu álbum sujo e despretensioso, uma versatilidade sonora arrojada, aliando o peso ao beat e ao psych, que estava em voga na sua época.

Mas nem tudo estava perdido e mesmo que o tempo pudesse ser implacável, 43 anos depois da gravação dos estúdios Fairview, em 2012, o ex-baterista do Bare Sole, Ron Newlove, juntamente com Keith Herd, que tocou teclados em uma das faixas do álbum, recuperaram as fitas originais e conseguiram salvar a maioria delas de uma deterioração de pouco mais de quatro décadas!

Em 2015 a valorosa gravadora Guerssen Records, juntamente com o selo Sommor, na Espanha, lançariam, finalmente, de forma oficial, nos formatos LP e CD, o álbum dando-lhe o nome de “Flash”. Além desse lançamento oficial, depois de 46 anos, o Bare Sole teria sua história e serviço sacramentados no site “British Music Archive” conforme pode ser acessado aqui



Além desse holofote importante para o lançamento oficial do único álbum do Bare Sole, também apareceu em “Front Room Masters”, um conjunto de arquivos de CD duplo, com um total de 42 faixas gravadas nos estúdios Fairview, de 1966 a 1973. Sua representatividade e importância musical para o rock inglês na transição das décadas de 1960 e 1970, foi finalmente eternizada, após quase cinquenta anos, provando que, por mais que o tempo possa ser implacável, a música continua inoxidável, influente e relevante para gerações que surgiram e que certamente surgirão perpetuando o rock n’ roll. Se você quiser fazer o download do álbum clique aqui.


A banda:

Richard, “Richie”, Foster no vocal e guitarra rítmica

Dave George na guitarra

Brian Harrison no baixo

Ron Newlove na bateria

 

Com:

Keith Herd nos teclados

 

Faixas:

1 - Flash

2 - Woman a Come

3 - Soul Blues

4 - Let’s Communicate

5 - Jungle Beat

6 - Woman A Come (Version Two)

7 - Ain’t Nobody Here



"Flash (1969 - 2015)"