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sábado, 18 de outubro de 2025

Surprize - Keep On Truckin’ (1972)

 

Certas experiências pelas quais passamos podem revelar e descortinar mudanças radicais em nossas vidas! Embora isso seja óbvio, não parece ser muito fácil, principalmente pelo fato de que tais decisões vêm em detrimento de abdicar de outra vida que você levava e às vezes uma vida repleta de glamour ou de um futuro promissor seja pessoal ou profissionalmente falando.

Vocês devem estar se perguntando, nobres leitores, mas que diabos ele está dizendo isso? Mas, como sempre, para manter aquele suspense, sugiro que, caso tenha se interessado, fique até o fim em sua leitura, pois entenderão. Não se enganem, este blog não está tendendo para autoajuda, a música, evidente, ainda está presente e no texto de hoje vocês terão uma ótima música, cuja banda tinha todos os elementos para conquistar um espaço na indústria musical, mas sucumbiu por conta das mencionadas experiências e decisões.

Falemos do SURPRIZE! A banda foi formada na Filadélfia, nos Estados Unidos, em 1971 e trazia, em sua formação Peter Accardi no vocal, percussão e gaita, Mark Shapiro na guitarra e vocal de apoio, Frank Bissel, nos teclados e vocal de apoio, Rick Martin no baixo e vocal de apoio e Fred Kieffer na bateria.

Apesar de muito jovens, tudo aconteceu muito rapidamente na história do Surprize. Em pouco mais de oito meses de formada, a banda entraria em um dos melhores estúdios do país para gravar o seu primeiro e único álbum, chamado “Keep On Truckin’”, em 1972, pelo selo East Coast Records. Após o lançamento de seu álbum, a banda começou a receber muitos convites para se apresentar em TV e rádio.

Foi uma verdadeira hecatombe de emoções e momentos importantes para os jovens músicos da Filadélfia. Além das apresentações nos canais de televisão e nas estações de rádio, com suas músicas sendo diariamente executadas, a banda também passou a tocar em shows de grandes estruturas, com uma ótima produção. O Surprize começou a fazer sucesso! O caminho que estava trilhando era de realização musical e cada dia que passava estava abocanhando novos fãs e se tornando cada vez mais popular.

“Keep On Truckin’” é um trabalho, sonoramente falando, multifacetado, versátil, trazendo um hard rock, com fortes características do rock n’ roll norte americano, com viés psicodélico, ainda vívido na cena rock do início dos anos 1970, com aquela guitarra lisérgica, além de uma pegada de blues rock e de soul music. Ou seja, sonoridades bem típicas da época, em uma mistura em caldeirão com temperos bem saborosos que remete também a uma música mais radiofônica, porém de qualidade superior. De fato, o som do único trabalho do Surprize corrobora o seu sucesso à época.

O álbum é inaugurado com a faixa “Earth Odyssey” que, em sua introdução, traz uma guitarra distorcida e teclados espaciais que anuncia uma música calcada exatamente no hard rock e space rock, com pitadas progressivas. Um riff de guitarra traz variâncias rítmicas e o prog rock se conecta ao rock psicodélico, onde as teclas se mostram mais presentes e enérgicas. Essa música já entrega o que representa o álbum, em sua plenitude.

"Earth Odyssey"

“Sweet Love” já traz a versão dançante e animada ao álbum. É inegável que a sua introdução não faça o ouvinte dançar, é solar. A soul music ganha protagonismo nesta faixa. Bateria swingada, baixo dançante, piano envolvente se envolvem com um pouco de peso graças aos seus riffs e solos ocasionais. E a harmonização entre o soul music e o hard rokc, o que poderia parecer se tornar improvável traz peso e animação aos que tem a mínima capacidade de absorver o som.

"Sweet Love"

Chega a faixa título, “Keep On Truckin’”, que, no seu início traz a gaita chorando e a bateria tocada de forma agressiva, uma batida pesada e evolvente. Tudo isso envolto em riffs pesados de guitarra! O típico hard rock dos anos 1970 se ouve nessa música. Pode se perceber pitadas discretas de um blues rock bem pesado. Solos de guitarra são de tirar o fôlego na metade da faixa.

"Keep on Truckin'"

“Ev’ry Day” começa lenta, ao toque do piano e vocal bem límpido, ouve-se uma balada psicodélica, de sonoridade agradável e bem acessível aos ouvidos, com riffs de guitarra bem lisérgicos. O solo de guitarra é viajante e com ela a música vai ganhando um discreto peso, mas sempre voltando ao tom de balada.

"Ev'ry Day"

“See the Light” traz de volta o balanço, a pegada soul music com os riffs típico de guitarra, mas com a veia mais voltada para o hard rock, com bateria com batida mais pesada e um baixo cheio de groove e igual peso. Não podemos negligenciar o trabalho dos teclados que, de forma enérgica e solar, traz passagens mais progressivas a música. E em determinado momento da faixa ouve-se a pegada progressiva, do hard e do soul. Uma “sopa” sonora incrível!

"See the Light"

E fecha com “Try a Little More” que inicia discreta, leve, ao som do piano e do bongôs e um vocal baixo e introspectivo. E vai aumentando, ganhando estrutura, peso. Um hard rock dançante, alto e nitidamente pesado que traz intervalos mais leves e dedilhados de guitarra psicodélicos. É impossível passar incólume à essa faixa. Animada, solar, dançante.

"Try a Little More"

Quando o Surprize se apresentava fora da Filadélfia, Peter Accardi teve uma experiência sobrenatural que mudaria a sua vida completamente, de forma profunda. Accardi, após esse evento, convocou a banda para uma reunião que seria crucial para o futuro da banda. Compartilhou com todos da sua experiência e disse que a mesma lhe mostrou que ele iria para o céu e precisava difundir a todos sobre tudo isso. Ele disse também que isso seria bom para todos da banda e para choque de todos decidiu que sairia da banda.

Ele não deixaria apenas o Surprize, deixaria também a sua carreira musical e se transferiu para Faculdade Bíblica, pois gostaria de se tornar um pregador. O tecladista Frank Bissel, semanas depois da saída de Accardi, deixaria a banda, para seguir os passos de seu agora ex-companheiro de banda. Diante disso o Surprize finalizaria as suas atividades. Atualmente Accardi e Bissel servem na Igreja Batista Elkdale, em West Clifford, na Pensilvânia. Accardi como evangelista e Bissel serve como pastor da igreja.

Accardi pregando

Cada ser humano é dono de suas escolhas, embora o Surprize estivesse em um franco crescimento, fazendo shows, tornando-se famoso e evidente, seu principal músico teve uma experiência, segundo o próprio, sobrenatural, interrompendo sua trajetória e começando outra. A realização e o prazer devem estar em primeiro lugar, mas é inegável dizer que a tendência era forte para um futuro consistente para o Surprize e isso se reflete em seu único álbum. Mas quis os ventos da mudança soprarem no caminho dos seus músicos. “Keep on Truckin'” teve um relançamento, em CD, pelo selo GEMA.

Apesar da precocidade fica a história, que é fabulosa e um registro para que a banda se eternize por intermédio de sua única obra. E aqui, neste reles e humilde blog, as histórias sempre serão contadas, sejam elas de todos os teores e enredos possíveis, sempre harmonizando, claro, com a música e o Surprize, definitivamente entregou os dois. Espero que todos se divirtam com ambos.


A banda:

Peter Accardi no vocal, percussão e gaita

Mark Shapiro na guitarra e vocal de apoio

Frank Bissel nos teclados e vocal de apoio

Rick Martin no baixo e vocal de apoio

Fred Kieffer na bateria

 

Faixas:

1 - Earth Odyssey

2 - Sweet Love

3 - Keep On Truckin'

4 - Ev'ry Day

5 - See the Light

6 - Try a Little More



"Keep on Truckin" (1972) - Ouça o álbum aqui!









 







 


 








 


sábado, 20 de setembro de 2025

A Euphonious Wail - A Euphonious Wail (1973)

 

A psicodelia fervia na costa californiana em meados para o fim dos anos 1960. Bandas como Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service e tantas outras ditavam as regras sonoras e culturais daquela região e de todos os cantos dos Estados Unidos. Era a voz do rock n’ roll, que vibrava com o experimentalismo e as viagens lisérgicas, com guitarras ácidas, o som, por vezes, dançantes. Era o “flower power”, era a cultura do “paz e amor” e contra a guerra do Vietnã e outros dogmas sociais.

Não podemos negligenciar também que dentro dessa cena que, para muitos pairou na controvérsia em todos os aspectos, que variam da própria música, como no comportamento, haviam bandas que ousaram trazendo sonoridades arrojadas e diferentes que, por consequência, flertaram com a marginalidade, caindo no ostracismo.

Temas sombrios, de sonoridades pesadas e densas, tingiam de uma realidade nua e crua os escombros de uma sociedade pseudo conservadora e tornando-a palpável na sua música, tendo como exemplo clássico, bandas como Black Sabbath, The Stooges, Alice Cooper, que tinha um som cru, seco, poderoso, pesado e letras horripilantes, paranormais e ocultas.

Por outro lado, bandas assumiram outras vertentes mais ousadias, flertando, não só apenas com o som que dominava a costa da Califórnia na segunda metade dos anos 1960, mas também absorveu outros estilos que estavam em voga já nos anos 1970, sobretudo no início daquela década, como o hard rock e o rock progressivo. Posso, caros e estimados leitores, citar uma banda que diria ser seminal: A EUPHONIOUS WAIL.

A Euphonious Wail

Claro que poucos conhecem diante do arsenal de bandas clássicas existentes na transição das décadas de 1960 e 1970, mas esta banda que apresento trazia alguns atrativos que realmente são dignos de atenção, no mínimo. A banda é produto de seus primórdios e do período que produziu seu único álbum, de 1973, autointitulado.

Mas antes de falar do seu único trabalho lançado, falemos um pouco sobre a banda. O A Euphonious Wail surgiu em Santa Rosa, na costa da Califórnia, no ano de 1968. O nome da banda veio da inspiração da música “The Euphonious Whale”, de Dan Hicks. Durante os cinco anos que separaram o seu surgimento e o lançamento oficial de seu álbum, a banda se apresentou localmente abrindo para bandas como Iron Butterfly e Steppenwolf.

As apresentações da banda eram animadas e por vezes explosivas e a sua sonoridade pouco deslocada do que se fazia à época parece ter sido um dos motivos pelo qual alguns selos não tenham contratado o A Euphonious Wail para a gravação de seu primeiro álbum. Mas haviam algumas gravadoras que assumiam o “risco” e traziam à tona essas bandas, digamos, arrojadas.



E foi assim que a Kapp Records, graças à essas apresentações, decidiu levar o A Euphonious Wail para o estúdio para gravar “A Euphonious Wail”, em 1973. A banda era composta por Doug Hoffman (bateria), Bart Libby (teclados), Suzanne Rey (vocais), Steve Tracy (guitarra, vocais) e Gary Violetti (baixo).

Alguns críticos classificam a música do A Euphonious Wail como hard prog e não deixa de ser uma realidade, pois, como disse, a banda flertou com várias vertentes do rock que estavam em voga e também fora de moda, como o hard rock, profundamente evidenciado pelo som da guitarra Steve Tracy, bem como o rock psicodélico, graças a sua origem, além do próprio rock progressivo e até mesmo nuances de soul music garantidos pelo vocal feminino de Suzanne Rey.

O fato é que a banda era difícil de se rotular e o seu álbum corrobora essa condição, trazendo um caldeirão de um alimento sonoro com várias camadas e temperos. Bom amigo leitor se gostas de bandas versáteis e pouco estereotipadas, aposte em A Euphonious Wail e seu único trabalho, de 1973.

O álbum foi co-produzido e projetado no MCA Recording Studios por Brian Ingoldsby, que trabalhou com Joe Cocker, Jimmy Web, Biff Rose, Linda Perhacs, Fanny Adams, Elton John entre outros. O enigmático desenho da capa do álbum foi feito por Michael Hawes e dependendo de como você olha para ele, se vê algo completamente abstrato ou até mesmo obsceno. O fato é que essa arte um tanto quanto surrealista traz certo apetite para a audição deste belo álbum.

O álbum é inaugurado com a faixa “Pony” que tem uma incrível introdução de baixo bem dançante ao estilo soul e dessa forma a música vai se desenvolvendo, com essa pegada, mas traz também algo de psych e hard rock, com a predominância do órgão, dos teclados e de riffs pesados de guitarra. O final é pesado, o “duelo” entre guitarra e teclado é espetacular! Psych, rock e soul na medida certa e com uma dose bem inusitada e ousada.

"Pony"

Segue com “We've Got the Chance” continua na pegada mais soul music com “pitadas” mais rock! Definitivamente a guitarra traz o lado rock às músicas. As teclas, mais discretas, não negligenciam, ainda assim, o seu protagonismo. Aqui domina o vocal feminino de Suzanne Rey que se mostra alto e vívido. A música vai ganhando “corpo”, tendendo, cada vez para o hard rock, os solos de guitarra são de tirar o fôlego e corrobora o seu lado mais pesado.

"We've Got the Chance"

“Did You Ever” tira o pé do acelerador e mostra a primeira balada do álbum. A bateria cadenciada e lenta traz lembranças de jazz melancólico e introspectivo, os teclados lembram um psych, o vocal masculino é límpido e transparente. O solo de piano é simplesmente espetacular e te alça a voos altos e contemplativos.

"Did You Ever'

Na sequência tem “When I Start to Live” que é introduzida com um órgão em camadas introspectivas e psicodélicas e assim continua até irromper em uma sonoridade mais solar e animada, agitada, com alguma velocidade. Bateria pesada e cadenciada e baixo mais pulsante mostra uma “cozinha” rítmica coesa e cheia de talento. Guitarra ácida e pesada revela, claro, o lado pesado da faixa.

"When I Start to Live"

“F#” entrega o lado mais raivoso do álbum! Aqui o hard rock reina absoluto! Bateria pesada, baixo distorcendo, riffs pegajosos de guitarra que desagua em solos pesados e agressivos, sem contar com os vocais que seguem a “proposta” da música, sendo gritados e altos. Espetacular!

"F#"

“Chicken” dá sequência a porrada sonora da faixa anterior e aqui o baixo protagoniza sempre pulsante e galopante, cheio de groove, com pancadaria agressiva e pesada da bateria, teclados energéticos e riffs e solos de guitarra de tirar o fôlego. Nessa faixa a performance instrumental é exuberante até o vocal de Suzanne entrar, trazendo mais balanço à faixa.

"Chicken"

“Night Out” continua na mesma vibe das músicas anteriores: pesada, animada, dançante, mas com uma característica mais radiofônica. Percebe-se, nessa faixa, uma pegada mais acessível, mas não menos interessante que as demais. O destaque fica para os riffs e solos mais diretos de guitarra!

"Night Out"

“Love My Brother” é mais cadenciada e calcada em uma levada mais soul rock. É contagiante a música, dançante e solar. A seção rítmica ganha destaque e o peso da guitarra traz o lado “encorpado” da música. Baixo cheio de groove, teclados ao estilo Deep Purple. Música cheia de recursos e muito, muito versátil, mostrando a capacidade instrumental de seus músicos.

"Love My Brother"

E fecha com “I Want to be a Star” que retorna à calmaria da balada e a voz límpida e transparente de Suzanne Rey conduz a faixa para a beleza sonora que se revela. Dedilhados e solos de guitarra faz da música uma “gangorra” sonora, com várias mudanças rítmicas. Na metade da faixa o peso ganha evidência até finalizar brilhantemente.

"I Want to be a Star"

O único do A Euphonious Wail, que teve uma visualização mínima na carreira, quando a banda encerrou as atividades, logo após o lançamento de seu único álbum autointitulado, foi o tecladista Bart Libby que tocou no EP da banda britânica “Terraplane”, de nome “Arrives”, de 1981. Aparece também nos créditos do álbum de Francis Anfuso, “Who Will Tell Them?”, de 1986.

“A Euphonious Wail” teve alguns relançamentos, depois de seu oficial, ocorrido em 1973. O primeiro relançamento foi na Austrália, em 1994, pelo selo W.O.T.S.V Ltda, no formato CD. O segundo, pelo selo Media Arte, em 2012, por toda a Europa, também no formato CD e o último, até onde posso saber, aconteceu em 2013, no Japão, pelo selo Vivid Sound Corporation.






A banda:

Suzanne Rey nos vocais

Bart Libby nos teclados

Steve Tracy na guitarra e vocal

Gary Violetti no baixo e vocal

Doug Huffman na bateria e vocal

 

Faixas:

1 - Pony

2 - We've Got the Chance

3 - Did You Ever

4 - When I Start to Live

5 - F#

6 - Chicken

7 - Night Out

8 - Love my Brother

9 - I Want to be a Star




"A Euphonious Wail" (1973)



























 







sexta-feira, 9 de maio de 2025

Medusa - Medusa (1978)

 

Eu não preciso dizer que este reles e humilde blog dedica-se a dar luz ao rock obscuro, o nome já denuncia isso. Trazer à tona as bandas obscuras e raras é o mote desse site. A banda que falarei hoje empunhará a temática de forma eloquente, porém parte dos músicos que a conceberam gozaram de notório sucesso em suas carreiras.

Para muitos os dois músicos que apresentarei criaram essa banda com o intuito de buscar novos mercados que não fosse do habitual Jazz-Rock Fusion que faziam parte e eram qualificados. Falo de John Lee e Gerry Brown, falo também da banda norte americana MEDUSA. Antes de falar um pouco da banda, torna-se relevante falar das mentes por detrás do projeto “Medusa”, principalmente dos seus currículos invejáveis.

Gerald D. Brown, conhecido como “Gerry Brown”, nascido na Filadélfia, Pensilvânia, é um baterista renomado de jazz e já tocou com os baixistas Stanley Clarke e, claro, John Lee. Foi membro da banda do exímio pianista, também de jazz, Chick Corea e esteve na banda Return to Forever, banda esta que Corea também esteve.

Brown trabalhou também com Phil Collins, Julee Cruise, Roberta Flack e Marvin Gaye, além de ter sido baterista de turnê de Steve Wonde por muitos anos. Ele também trabalhou na Alemanha.

John Gregory Lee, conhecido como “John Lee”, nascido em Roxbury, Massachusetts, é um baixista, engenheiro e produtor de jazz. Fundou a “Jazz Legacy Productions” e a “Alleycat Studios”, com sede em West Orange, Nova Jersey.

Lee se apresentou em Nova Iorque no início dos anos 1970, com Joe Henderson Pharoah Sanders e o Max Roach Quartet, antes de se mudar para a Europa em 1972, onde conheceria Gerry Brown.

Gerry Brown e John Lee

Foi a partir desse momento que o elo artístico de Lee e Brown aconteceria. Os dois começaram a trabalhar juntos na banda de fusion do flautista holandês Chris Hinze, “The Chris Hinze Combination”. E, em 1974 lançariam o seu álbum de estreia, chamado “Infinite Jones".

"Infinite Jones" (1974)

Em 1975, John Lee juntou-se ao Eleventh House de Larry Coryell, permanecendo até 1977, e foi ouvido em "Motherland" de Earl & Carl Grubbs, "Hip Elegy" de Joachim Kuhn, "Esoteric Funk" de Hubert Eaves, "New Love" de Carlos Garnett, "However" de Jasper Van't Hof, "Poussez! Leave That Boy Alone" e "Symphony Sessions" de Dizzy Gillespie.

Lee foi baixista de Dizzy Gillespie de 1984 a 1993. Ele se apresentou e gravou no Dizzy Gillespie Quintet, Dizzy Gillespie Big Band, Dizzy's United Nation Orchestra, Dizzy Gillespie All-Stars, Dizzy Gillespie All-Star Big Band e Dizzy Gillespie Afro-Cuban Experience.

Lee também trabalhou nas bandas de Gary Bartz, Jon Faddis, Aretha Franklin, Roberta Gambarini, Roy Hargrove, Jimmy Heath, Gregory Hines, Claudio Roditi, Sonny Rollins e McCoy Tyner.

Depois do debut, de 1974, “Infinite Jones”, a parceria de Gerry Brown e John Lee, continuou forte e frutífera com mais lançamentos como “Sunrise”, de 1975, “Still Can’t Say”, de 1976, “Chaser”, de 1979, “Fancy Glance”, de 1979, com a participação de Stu Goldberg, um pianista americano de jazz, entre outros trabalhos.

Entre esses álbuns que Lee e Brown lançaram nos anos 1970, surgiu aquele que falarei, “Medusa”, de 1978. Esse trabalho foi introduzido ao mercado com a nítida tentativa de buscar um público mais diversificado, tendendo para o AOR. Neste álbum vislumbra-se uma pegada mais para o rock, diria o hard rock, soul music e até mesmo para o funk. Uma miscelânea sonora pouco improvável, mas que surtiu um efeito bem interessante e até mesmo arrojado. Eles se reuniram em Nova Iorque após assinar contrato com a Columbia Records (Zembu Records) e começaram a gravar.

Arrojado e talvez, para muitos conservadores, como algo delirante, pois nota-se que John Lee e Gerry Brown queria criar um nicho dentro de uma concepção, de um conceito comercial, de uma música diversificada, plural, que pudesse contemplar vários públicos. É notável a musicalidade em “Medusa” e o risco também. O álbum foi produzido por John e Gerry com a ajuda de Skip Drinkwater para a Zembu Records, subsidiária da Columbia.

A formação da banda, quando gravou e lançou “Medusa” trazia, além de Gerry Brown na bateria e percussão e John Lee no baixo, Eric Tagg nos vocais, Charyl Alexander também nos vocais, Jim Mahoney na guitarra, James Batton nos vocais e teclados, Darryl Thompson, na guitarra elétrica e acústica. Contou com algumas participações como David Sancious no órgão e sintetizador, Bobby Malach, no saxofone e Peter Robinson no ARP Odyssey on.

O álbum é inaugurado com a faixa “Soul Free” que proporciona logo ao ouvinte o peso da bateria, o hard rock mais refinado, mas com uma pegada AOR, soando radiofônico, pop. Traz o “classic rock”, o sinfônico personificado nos teclados tocados freneticamente, repleto de energia. Um misto de musicalidade fina, mas acessível. Solos de guitarra animados, solares corroboram a sua condição, dando-lhe o peso identificado. Já começa intenso e animado.

"Soul Free"

Segue com “Heartburn” que chuta a porta com um riff pegajoso, típico do hard rock dos anos 1970! A diversidade da faixa anterior não se encontra em “Heartburn”, que, de forma avassaladora, abre as cortinas do velho e bom hard rock. Os riffs são elegantes e atraentes e nos faz bater a cabeça, mas dançar também. Os vocais, para seguir a proposta, vem rasgado, quase gritado. Solos de guitarra são bem elaborados e põe a música em seu lugar: pesada!

"Heartburn"

"Second-Hand Brain" traz de volta o arrojo de seus músicos tentando diversificar e mesclar os sons. E consegue com êxito! Aqui se percebe, com nitidez, o heavy rock com uma dosagem bem temperada de R&B. Nota-se a produção excelente, a qualidade das melodias. É dançante, é pesado, os teclados são arrebatadores, enérgicos, os solos de guitarra, embora simples e diretos, são solares e conduz o formato animado e diversificado dessa faixa.

"Second-Hand Brain"

"Our Love Is Surely Gospel" começa com uma pegada mais voltada para o progressivo sinfônico, mesclado com um balanço, extremamente dançante e um vocal límpido e bem executado. Há um toque de exaltação nessa música que talvez se confirme o “Gospel” no nome da faixa. É cheia de luz e vida. Os instrumentos de sopro entram discretamente, como o saxofone, e deixa tudo mais rico e diversificado sonoramente falando.

"Our Love Is Surely Gospel"

A faixa título chega, “Medusa”, com riffs poderosos de guitarra, que a torna pesada e que me remete a um Southern Rock com uma pitada bem generosa de R&B e soul music. Se tornou inevitável lembrar de Trapeze no auge, com Glenn Hughes. Aqui não se enquadraria em uma faixa que tende para o AOR, uma música comercial. Ela é ousada e pouco compreendida para um público menos exigente.

"Medusa"

"Hit And Run Lover" começa animada e linda com doses cavalares de piano e riffs de guitarra. O hard rock, com uma pegada mais radiofônica, se mostra aqui novamente. O vocal, com um viés mais R&B se faz presente também. Esse é um risco adorável que a banda assumiu fazer. Um cantor de R&B cantando hard rock. E falando no hard rock, o solo de guitarra chega e vem poderoso, trazendo, ainda mais, textura de um hard rock mais comercial.

"You Leave Me Hangin'" tira um pouco o pé do freio e entrega um pouco de jazz rock calcado no piano e na “cozinha” rítmica simples, mas trazendo uma camada bem forrada de balanço no formato balada rock. O vocal retorna aqui com uma limpidez incrível, límpido, delicado, sem exageros, mas eloquente pela sua beleza, juntamente com um backing vocal que nos remete a música negra. Fecha lindamente com solos de guitarra e saxofones viajantes.

"You Leavin Me Hangin"

E termina o álbum com "Mr. C.T." que traz de volta o hard rock que logo se inicia com solos de guitarra e bateria marcada e pesada. Um hard rock instrumental com belíssimos solos de guitarra, com passagens sinfônicas do teclado que dá o tom de prog rock em discretos momentos.

"Mr. C.T."

Infelizmente a Columbia Records assinou com a banda com base no valoroso histórico de jazz fusion de Gerry Brown e John Lee, as mentes por detrás do Medusa. Mas, como podemos ouvir em “Medusa” o material é extremamente diversificado e arrojado em sua sonoridade, mais orientada para o rock clássico, para o hard rock e nuances de soul music, R&B e até mesmo para o funk com pegadas bem dançantes e pesadas. Essa era a atenção evidente de Brown e Lee, que decidiram sair um pouco de seus trabalhos voltados para o jazz fusion.

Só não se sabe exatamente se esse projeto foi delineado, de forma detalhada, com os executivos da Columbia. Se não o fez, certamente não agradou muito a gravadora que não fez um trabalho de difusão do projeto, muito ajudado também pela banda que não decidiu promovê-lo por intermédio de apresentações.

Então não era de se esperar de que o álbum tenha passado despercebido entre o mercado da música, entre os fãs, caindo na mais total obscuridade, ficando esquecido, nas poeiras do rock, até ser redescoberto, muito graças a reputação de Lee e Brown, na cena jazz fusion, e por conta das redes sociais, da internet.

A dupla Gerry Brown e John Lee retornaria, no ano seguinte, mais precisamente em 1979 para gravar o álbum “Chaser” que, de alguma forma continuou com a pegada jazz fusion, crossover, funk e soul e hard rock, tanto que contou, inclusive, com alguns músicos do Medusa.

"Chaser" (1979)

“Medusa” foi lançado inicialmente pela Columbia Records, no Canadá, onde se criou uma confusão da banda ser daquele país, sendo, claro, concebida nos Estados Unidos, onde o álbum foi lançado no mesmo ano de 1978. A CBS lançaria o álbum também pela Europa, por alguns países de lá, em 1979 e o relançando, também em 1979, pelos Estados Unidos, pela Columbia Records.

O único álbum do Medusa pode não ter tido o reconhecimento do público, pode ter sido considerado esquisito, estranho, com a sua diversidade sonora pouco ortodoxa, mas é exatamente por conta desse arrojo, trouxe um projeto audacioso e solar. Um clássico obscuro e improvável!




A banda:

Eric Tagg - vocal

Charyl Alexander - vocal

Jim Mahoney - guitarra

James Batton – teclados e vocal

Darryl Thompson – guitarra acústica e elétrica

John Lee – baixo

Gerry Brown – bateria

 

Com:

David Sancious - sintetizadores (1,3,4,5,7,8), órgão (1,6)

Bobby Malach – Tenor Saxofone (4)

Peter Robinson - ARP Odyssey on (8)

Eef Albers – Guitarra acústica e elétrica

 

Faixas:

1 - Soul Free

2 - Heartburn

3 - Second-Hand Brain

4 - Our Love Is Surely Gospel

5 - Medusa

6 - Hit And Run Lover

7 - You Leave Me Hangin'

8 - Mr. C.T.



"Medusa" (1978)

 


























quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Warlock - Warlock (1972)

 

O rock n’ roll sempre teve personagens envoltos em mistérios, envoltos em camadas densas de mistério e enigmas. Antes de bandas mascaradas que atingiram o sucesso comercial como o Kiss e Alice Cooper e mais recentemente os teatrais do Ghost, muitas bandas, principalmente obscuras e undergrounds, flertaram com ocultar de suas personas, bem antes das bandas mencionadas.

Muitas delas gravaram e lançaram álbuns ocultando suas identidades cultivando entre os aficionados do estilo, uma curiosidade acerca de seus músicos. Outro fato comum nos anos 1960 e 1970 eram bandas concebidas com músicos de estúdio que se envolviam em projetos de curto tiro, sem intenções de dar seguimento as suas histórias.

Mas independentemente da situação o fato é que essas bandas que não creditam seus artistas em álbuns ou os divulgam em shows, por exemplo, sempre alimentou uma cultura de interesse principalmente entre aqueles apreciadores do rock obscuro, do underground onde elas, as bandas, proliferam.

E uma banda que descobri, praticamente por acaso ou nem tanto assim, haja vista que estou sempre a garimpar por raridades empoeiradas pela grande rede, se adequa perfeitamente a essas bandas esquecidas nos escombros da cena underground

Mas o que mais me chamou atenção, o que de fato se tornou natural, foi o aspecto visual, a arte gráfica do álbum que, ao primeiro olhar, sugeria uma ser uma banda de heavy metal ou até hard rock, por se tratar de ter estampado um estonteante e colorido Baphomet, mas quando liguei o “play” foi uma tremenda surpresa, pois ouvi uma miscelânea de sons que em tese não “harmonizou” com a capa, a começar com jazz, prog rock, black music e soul music. Sim!

A banda em questão é o WARLOCK que surgiu nos subúrbios de Detroit, cidade que tinha uma ótima cena rock nos anos 1970. Pois é amigos e queridos leitores são essas loucuras e bizarrices estranhas que surgem nos Estados Unidos que trafegam na obscuridade que faz do rock n’ roll algo singular na sua diversidade.

E para variar pouco se sabe sobre essa banda, sequer se sabe de seu line up, dos músicos que participaram da concepção de seu único álbum, lançado em 1972, chamado simplesmente de “Warlock”. E não se confundam com o Warlock mais famoso do início dos anos 1980 que tinha na sua formação a linda headbanger Doro Pesch. Esse, como disse, trafega na escuridão.

“Warlock” foi lançado por um selo chamado “Music Merchant” que também teve curta duração que também foi criado no mesmo ano do lançamento do álbum do Warlock e, segundo reza a lenda, concebido pela equipe de composição e produção da Motown de Holland-Dozier-Holland. Talvez responda essa vertente da banda meio soul, meio funk.

“Warlock”, produzido por Ronald Dunbar, um cantor de funk e soul e também produtor, apresenta uma sonoridade calcada em experimentalismos, onde nitidamente a banda deixa fluir a sua criatividade, o seu talento, sem amarras com estereótipos sonoros, flertando com o hard rock, flertando com o jazz rock, o rock progressivo, além da música negra, algo de black e soul music, além do funk e momentos de groove bem interessantes. 

Para muitos a banda apresenta, em seu som, muita estranheza, pelo simples fato de não se agarrar aos estereótipos, o que é bom para aqueles que apreciam o rock nas suas mais diversas facetas, mas que pode gerar rejeição para aqueles que curtem um ou outro estilo.

Já que não temos os músicos para apresentar, apresentemos o que eles produziram em estúdio o que verdadeiramente é primoroso, dissequemos a sua música, o que, convenhamos, é o mais importante.

O álbum é inaugurado com a faixa “Music Box: Struggling Man” que já escancara com um vocal potente, rasgado, gritado, com o saxofone em pleno destaque com solos frenéticos e enérgicos e um baixo pulsante com uma pegada bem funky, cheio de groove. Tem um peso nessa faixa também, algo de hard com passagens mais lentas e um vocal mais suave e melódico que surge. Excelente!

"Music Box: Struggling Man"

“So Can Woman” é dançante, o vocal, mais bem elaborado e limpo, traz todo o balanço e a textura central da faixa, com o sax ganhando espaço também, emoldurando a proposta da música. Teclados trazem uma proposta mais progressiva a faixa, que se aventura em caminhos mais experimentais.

"So Can Woman"

“Putting Life Together” começa com um envolvente solo de piano, com uma textura discreta e sombrio de baixo, com uma pegada meio jazzy, com lindos e contemplativos solos de saxofone e riffs de guitarra meio dançantes. O vocal volta a se destacar, melancólico e dramático.

"Putting Life Together"

“You've Been My Rock” é um “ponto fora da curva” do álbum. Escrita por Holland-Dozier-Holland, traz uma vibe meio “disco”, cheia de groove e extremamente dançante trazendo a black e soul music. Confesso ter sido um tanto quanto chocante ouvir essa música depois de uma sequência mais sombria e experimental.

"You've Been My Rock"

“Thrills of Love” entrega peso, um hard rock ao estilo Cream, com riffs forte, potentes e pegajosos, mas com a adição dos instrumentos de sopro, como o saxofone, entregou um pouco de experimentalismo, com destaque também para o vocal gritado e de grande alcance que é definitivamente a cereja do bolo desta belíssima música.

"Thrills of Love"

“Love Girl” volta a destoar do conjunto, mas para melhor. Uma linda e memorável balada ao estilo jazzy que traz o destaque de um vocal lindo, melódico e extremamente dramático, com uma flauta viajante e contemplativa que faz da música extremamente linda!

"Love Girl"

E fecha, de forma fantástica, com “As You Die: Music Box” que definitivamente é a faixa mais progressiva do álbum, não apenas pela sua longa duração, com cerca de 14 minutos, mas primordialmente pelos vários andamentos e mudanças rítmicas e pegadas bem enérgicas de saxofone, solos potentes de guitarra. A música, apesar de longa, não se arrasta em nenhum momento, é o ponto mais alto do álbum, sem sombra de dúvida.

"As You Die: Music Box"

O único rebento do Warlock foi relançado em vinil em 2021 pelo selo Demon Records, prensado em vinil preto de 140g com arte original e capa interna impressa muito bem-acabada.

Se você aprecia Blood, Sweet & Tears, The Doors e Deep Purple e quer aguçar seu apetite musical com um som repleto de alma, com mudanças cheias de humor e tem um gosto suficientemente aventureiro, mergulhe com o único trabalho do Warlock. É raro, obscuro, é uma pérola perdida, mas extremamente rica e recomendado.




A banda: Não creditada

 

Faixas:

1 - Music Box: Struggling Man

2 - So Can Woman

3 - Putting Life Together

4 - You've Been My Rock

5 - Thrills of Love

6 - Love Girl

7 - As You Die: Music Box


Warlock - "Warlock" (1972)