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sábado, 28 de março de 2026

Mutha Goose - I (1975)

 

Uma banda envolta em sombras! Um álbum produzido de forma artesanal, com um número incipiente de cópias! Assim se faz uma banda obscura! Ou melhor: aqui, neste reles e humilde blog, não se faz, mas dissemina, difunde! Bandas como a que eu tentarei contar a história, jamais ganharia, com exceção de um valoroso nicho de abnegados, as redes sociais ou os canais de comunicação e/ou a geração de conteúdos de quem quer que seja.

O rock n’ roll é desconhecido pelos seus ditos apreciadores. E nesse momento em que podemos dizer, com certo risco, que as bandas não são tão somente obscuras, mas as tornam obscuras. O mercado fonográfico tendência e é tendencioso, o modismo é a arma que segmenta, trazendo cenas e bandas, muitas vezes, manipuladas pelo marketing, por empresários, pseudo empreendedores da música, onde a música, a arte, é pincelada por melodias acessíveis, de fácil assimilação, com potencial de “venda”.

E assim simula e projeta as percepções de um mercado que, de joelhos, segue, como uma ovelha, o pastor fonográfico, que decide os nossos gostos musicais. Mas ainda há abnegados, persistentes que, em um nível de resistência, segue na contramão do status quo sonoro e trazem bandas como essa que, modéstia à parte, somente este e poucos blogs, podem trazer. Qual é a banda? MUTHA GOOSE.

O Mutha Goose foi uma raríssima e esquecida banda norte-americana, formada em Indiana que, dada a sua arrojada e pouco ortodoxa música, foi relegada ao ostracismo e, evidentemente, pouco se sabe dela e a grande web, tida como democrática, na difusão, em profusão, de tantas informações, reduz-se a poucas linhas para essa banda.

Foi uma banda que sequer atingiu sucesso em Indiana, mas, ainda assim conseguiu, de forma, como disse, artesanal e limitada, gravar apenas um álbum, em 1975, chamado de “I”, pelo selo Alpha Omega, gravadora de Indiana que atuou no mercado entre as décadas de 1960 e 1970. Claro que pouco se sabe quantas cópias foram lançadas, mas, diante de cenário de total obscuridade e ostracismo, reza a lenda que foi um lançamento privado, com cerca de 50 cópias, apenas, que provavelmente circulou apenas a amigos e pessoas próximas aos integrantes da banda.


A névoa densa da desinformação também circunda entre os seus integrantes que é sabido os seus nomes, mas pouco se sabe quais instrumentos tocavam. A pouco informação pode ser um entrave, mas, preciso admitir que, lá no íntimo do meu ser, a obscuridade, tema central deste reles blog, é um ponto deveras sedutor. A banda trazia Jeff Cefali que, pelo que pude apurar, em minhas pesquisas, era baixista, Dave Limeberry, bateria e Mark Hardy e Herb Hagenwald que desconheço quais instrumentos tocavam.

Em algumas fontes, apurei que Herb, além de ter sido bem ativo nas composições das cinco faixas do álbum, também foi responsável pela produção deste, ganhando certo protagonismo na sua concepção. Nessa mesma fonte pude observar que o “Copyright”, ou seja, que, por definição, é o direito exclusivo do autor de reproduzir sua obra, geralmente utilizado em obras literárias e científicas, traz o nome de “Mutha Goose Productions”, o que reforça a característica bem artesanal na produção desse álbum, único lançado pela banda.

A sonoridade de “I” traz riffs pesados e fuzz, seja de baixo, como principalmente de guitarra, com bordas duras, sujas e alucinantes de órgãos, incluindo ainda o uso de flautas e piano. Nele se percebe, se ouve um hard rock, com temperos psicodélicos que se entrelaçam com arestas de garage rock e floreios progressivos, com destaque para jams estendidos e vocais lisérgicos. A sonoridade do único álbum do Mutha Goose entrega uma energia crua underground de algumas bandas obscuras dos anos 1970, com a tipicidade do Meio Oeste estadunidense, de sua, claro, ala mais underground.

Aos apreciadores de música pesada e pouco estereotipada, bem como os bons “degustadores” do prog rock com teclados em profusão, irá se deleitar com o trabalho do Mutha Goose. É fato que muito se explica também pela condição desse álbum, pois mostra um resultado que não se rotula, trafegando por várias vertentes, tendo como espinha dorsal, o hard e o prog.

O álbum é inaugurado pela faixa “You Said Goodbye” que introduz em dedilhados viajantes de piano e uma flauta doce, dando um clima pastoral à música, mas vai ganhando corpo, consistência sonora, os riffs mais pesados e pegajosos de guitarra capitaneiam essa transição do acústico ao peso do hard rock. O vocal não pode ser negligenciado, pois, nessa transição é participante de destaque, do melódico ao quase rasgado, ao grito. É a típica faixa progressiva, repleta de mudanças rítmicas, tendo o órgão catártico, energético e que desemboca em um solo frenético de guitarra, com a camada de teclados igualmente poderosos. Uma música organicamente caótica e complexa.

"You Said Goodbye"

“I Think It's You” chega dançante, uma pegada mais sinfônica e cristalina aos ouvidos. O vocal é extremamente limpo e melódico. A faixa é solar, o piano traz o balanço, mas não se engane, a música prega uma peça e se mostra dinâmica, com riffs pesados de guitarra que a coloca em um patamar pesado típico do hard rock e que logo se revela mais acústica, com as flautas trazendo de volta um clima de balada rock mais acessível aos ouvidos. A “cozinha rítmica” ganha destaque no final da faixa, baixo galopante, bateria pesada, guitarra estridente. Excelente!

"I Think It's You"

“Exodus” traz a introdução voltada mais para o psych prog, algo mais experimental, baixo potente, vívido, bateria marcada, pesada, o órgão te manda para mares progressivos e psicodélicos. A lisergia encontra a sofisticação do progressivo. Mas o hard rock, personificado pelo riffs pesado e sujo de guitarra, traz o inusitado, a sopa sonora. Solos ácidos, lisérgicos, garageiros são ouvidos. O complexo em um casamento com o despretensioso.

"Exodus"

“Freak – Hitchhicker” me remete ao minimalismo do krautrock germânico, uma simplicidade carregada de peso, de um hard psicodélico repleto de lisergia e um experimentalismo que beira a jams sections totalmente desprovida de bons modos. É sujo, é garageiro, é louco e pouco ortodoxo. Riffs de guitarra e solos deixam a música ainda mais pesada e é nesse momento que o hard rock, típico, domina. A simplicidade se revela dura e pesada.

"Freak-Hitchhiker"

E fecha com “Being Her Friend” que traz uma introdução mais soturna, diria sombria, com um vocal distante, abafado. Algo dramático, em tom de dramaticidade traz uma camada estranha para essa música. Flautas, suaves notas de teclados corroboram a sua condição soturna e reflexiva. Mas eis que surge a surpresa: A guitarra traz um riff mais dançante, o baixo segue com um groove animado e a bateria, em uma batida marcada e pesada entrega uma pegada distinta a música e assim termina, de forma mais animada e solar.

"Being Her Friend"

A qualidade dessa sonoridade é definitivamente sólida, do seu começo ao fim, um som estranho, por vezes, sombrio, mas muito inventivo e que não se prende a rótulos e estereótipos, fazendo dele uma obra excelente de hard prog, com uma pegada garageira e suja. E quando trazemos à tona essas nuances a um álbum que tem o progressivo, pode parecer, aos ouvidos mais conservadores, improvável, mas sim, é possível associar, claro, de forma arrojada o rock de garagem, por exemplo, ao prog rock.

A edição original, pelo que pude apurar também, por intermédios das escassas fontes disponíveis, é até agora a única deste álbum e, por ter tido uma baixa tiragem, é muito difícil de conseguir, não tendo, como disse, reedições disponíveis, o que faz do único álbum do Mutha Goose e, consequentemente da banda, obscura, rara. Não duvido que esse trabalho, se tem disponibilidade de venda, deve ter cifras estratosféricas, o que faz dessa banda e álbum sedutores dentro de seu universo obscuro. Mas não é apenas por isso, também pela sua sonoridade arrojada e de profunda personalidade criativa.


A banda:

Jeff Cefali no baixo

Dave Limebery na bateria

Mark Hardy ?

Herb Hagenwald ?

 

Faixas:

1 - You Said Goodbye

2 - I Think It's You

3 - Exodus

4. Freak - Hitchhicker

5. Being Her Friend




"I" (1975)

 


















sábado, 6 de dezembro de 2025

Apoteosi - Apoteosi (1975)

 

O rock progressivo em família! A família italiana em prol do rock progressivo dos anos 1970! A cultura do prog naquele país é tão grande que famílias se reúnem para tocá-lo. Músicos são talhados para tocar essa vertente do rock tão vivo e presente até os dias atuais. A história que vou apresentar hoje nesse texto inevitavelmente se depara com uma situação única e particular.

Particular e única por ser uma banda que trazia três irmãos e um pai como produtor, mas que não traz novidades em se tratando de sua precocidade. Mais uma daquelas “one-shot-bands” italianas negligenciadas, esquecidas e que, como um sonho, surgiu e passou rápido, tal como também um desses cometas. Falo da banda APOTEOSI.

Outro ponto particular e peculiar foi o local de surgimento do Apoteosi, na região de Palmi, na Calábria, tida como pouco conhecida no que se refere ao rock n’ roll, no rock progressivo. A cena era insipiente, poucas bandas surgiram nessa parte da Itália. Além de particular, o Apoteosi se tornou importante, praticamente se tornando a única ou uma das poucas a terem, mesmo que discretamente, um surgimento e carregando, consequentemente, o rock progressivo da Calábria.

E o Apoteosi, quando lançou seu álbum, em 1975, que, neste ano de 2025 completou cinquenta anos de lançamento, se tornou importante e um referencial não apenas pelo fato de ter sido uma das poucas bandas da Calábria, mas por ter construído um álbum conceitual, tendo a cidade natal desses músicos, como cerne, um verdadeiro hino à sua terra, uma espécie de hino de esperança para o despertar desse pequeno pedaço da Itália esquecido pelo rock progressivo.

Apoteosi

Bem já que falamos de família, vamos tecer detalhes da história do Apoteosi que, como disse, tem fundações enraizadas no conceito familiar, na família Idà. São eles: Silvana Idà nos vocais, Massimo Idà, na guitarra e vocal, Federico Idà, no baixoe flauta, juntamente com os “forasteiros” Franco Vinci, na guitarra e vocais e Marcello Surace na bateria.

E regendo tudo isso vinha o pai, o patriarca do prog na família Idà, o Salvatore Idà que, além de pai de Silvana, Federico e Massimo, desempenhou o papel de produtor e compondo uma das músicas do único álbum da banda. Pode parecer algo pouco usual um pai incutir na mente de seus filhos o conceito do rock progressivo e ajuda-los a montar uma banda e financiá-los, mas a cultura do prog rock na Itália, apesar de todos os problemas e turbulências políticas nos anos 1970, era forte e não podemos negligenciar a veia musical dos jovens músicos.

Os irmãos Idà

E quando falo jovens músicos é porque são efetivamente jovens mesmo, onde a maioria dos Idà sequer chegaram à adolescência quando formaram a banda e lançaram o seu autointitulado álbum, em 1975. Para se ter uma ideia o Massimo tinha apenas quatorze anos de idade quando gravou o álbum juntamente com seus irmãos e Franco Vinci tinha apenas dezessete anos quando tocou em sua primeira banda, “The Green Age”. Muito dessa referência dos irmãos se deu também pelo estúdio que o seu pai tinha e ter sido também o homem forte, o que comandava o selo Said Records. O álbum foi editado pelo próprio Massimo Idà, em um processo que não gerou nenhum cachê, afinal, tudo estava em família.

Sobre o álbum do Apoteosi, embora tenha sido concebido em família e em uma região italiana pouco visível para o rock progressivo na Itália, não teve a repercussão que se esperava a começar pela baixa distribuição e exposição desse álbum e muito se atribuiu também, à época, por conta das semelhanças com a já famosa banda Premiata Forneria Marconi, que tendia evidentemente para o progressivo sinfônico, primordialmente.

E falando em lançamento, a tiragem foi limitada e quase que caseira, diria “artesanal”, tendo ainda uma distribuição local, se tornando, claro, entre os aficionados pelo vinil, cópias muito raras. Mas se o Apoteosi tem certa visibilidade hoje, nem tanto, se deve aos relançamentos, às abnegadas gravadoras, mas também a “web”, as redes sociais e os produtores de conteúdo e que bom, caros leitores, que esse trabalho esteja figurando neste reles e humilde blog.

Mas por mais que não se vislumbre no único álbum do Apoteosi a tal da originalidade, não podemos deixar de comentar a incrível capacidade e habilidade de seus músicos, mesmo que na mais tenra idade. E o que dizer também de suas habilidades composicionais? Não podemos, de forma alguma, negligenciar isso desta banda da Calábria.

E as referências evidentes em PFM, Banco del Mutuo Soccorso talvez se evidencia pela pouca idade de seus músicos que, mesmo habilidosos com seus instrumentos, eram muito jovens e isso não se pode esquecer, eles, ainda assim, estavam em uma fase de construção de sua identidade musical.


Mas ver como Massimo, o tecladista, um menino no auge dos seus quatorze anos de idade, toca piano, Hammond e ainda editando o álbum é algo no mínimo assombroso de tão incrível. A sua irmã, a vocalista Silvana Idà, um pouco mais velha que ele, mas trazendo uma voz linda e extremamente versátil, que vai da psicodelia, progressivo ao folk rock, mesmo que ainda dependesse de um pouco mais de estrutura, altivez, mas penso que isso se deva a questão da maturidade, afinal, ela também era muito jovem e estava em fase de desenvolvimento musical, como todos os demais músicos.

Diante desse, digamos, problema vocal, a banda deitou-se em um terreno seguro para demonstrar toda a sua capacidade nos seus instrumentos. Além de Massimo Idà dando espetáculo com as suas teclas, tinha também a seção rítmica formada por Federico, no baixo e Marcello Surace na bateria, mostrando-se sólidos e harmoniosos. As guitarras são enérgicas e, além de trazer as indefectíveis nuances sinfônicas, nos remete também a algo mais pesado, um hard rock. É isso que faz desse único álbum do Apoteosi especial: versátil, inusitado, com pitadas folk, psicodélicas e mais pesadas destacadas pelos riffs de guitarra, além de um toque de inocência, pelo fato de termos jovens ainda descobrindo o seu DNA sonoro.

Eu diria, amigos e estimados leitores, que esse álbum tem muitos rostos, a cara de cada um é impressa de forma, embora ainda inocente pela inexperiência, muito viva e plena. São composições convincentes, brilhantes, orgânicas, com destaque, como disse, no seu instrumental, na guitarra vibrante, na seção rítmica empolgante e calcada no rock progressivo sinfônico que, embora revele referências de bandas já estabelecidas na cena italiana, mostra, com evidência, a característica do prog rock da Itália.

“Apoteosi” é franco, altivo, simples, orgânico, intenso e mostra as habilidades de jovens músicos que deixaram, definitivamente, a criatividade falar por si só, sem abrir mão de suas convicções sonoras, trazendo à tona também as suas mais fiéis inspirações e referências, personificando também o que se fazia na Itália progressiva nos anos 1970.

Então vamos às faixas! O álbum é inaugurado pela faixa “Embrion” que se trata, claramente, de uma introdução que, embora curta, se revela cintilante principalmente na execução do teclado na primeira metade da música, com a banda avançando com força total. É perceptível que a ideia composicional dessa faixa era de explorar as habilidades de todos os músicos e, diante desse caos, se faz a beleza sonora. Reza a lenda que a “confusão fragmentada” desta música veio da ideia de todos e que não havia tempo para realmente discutir a construção da mesma. Então o já falado caos se fez presente na faixa.

"Embrion"

Eis que surge então a próxima música, que é uma verdadeira epopeia sonora e certamente se revela a melhor do álbum: “Prima Realta / Frammentaria Rivolta”! No auge dos seus quatorze minutos o piano começa lentamente antes da bateria, lindamente, juntamente com a flauta assumirem o controle. O ritmo logo acelera, os vocais femininos de Silvana trazem a contradição, a leveza. Definitivamente a bateria e o piano ganham destaque, com a guitarra, com alguma energia, tenta, com algum sucesso, protagonismo, sendo esta a mola propulsora do peso na música.

"Prima Realta /Frammentaria Rivolta"

"Il Grande Desumana / Oratori (Coral) / Atteca" começa com um piano que entrega algo sombrio, uma atmosfera melancólica, mas logo acelera com a bateria, que vem forte e soberba. Surgem vocais masculinos sem muito destaque, com a guitarra em seguida, com dedilhados sutis. Os vocais de Silvana são contidos, discretos, diria pastorais e com uma pegada folk. Mas logo anima novamente com uma veia jazzística órgão espectral assombroso e sóbrio e interlúdio coral.

"Il Grande Disumano, Oratorio (Chorale), Attesa"

“Dimensione Da Sogno” se torna triunfante e esperançoso com Silvana cantando com dignidade e certo espírito. Percebe-se nitidamente uma faixa audaciosa e repleta de nuances sonoras distintas, sobretudo quando se sente o prog sinfônico em voga nas variações rítmicas.

"Dimensione Da Sogno"

E fecha com a faixa título, “Apoteosi” que, lentamente vai se desenrolando, com sintetizadores brilhantes, com pitadas interessantes e intrigantes de um space rock e solos de guitarra bem sutis e contemplativas. Talvez nessa música é o que chega mais próximo de um momento psicodélico que nos remete a fase inaugural de bandas como Pink Floyd e Nektar.

"Apoteosi"

A banda, reza a lenda, que nunca se apresentou ao vivo, após o lançamento do álbum e, devido a falta de apoio e de uma estrutura que permitisse a banda difundir a sua arte e manter o mínimo de estabilidade para seguir com a sua trajetória, o inevitável se deu: o Apoteosi se desfez para dar lugar às diferentes decisões de cada um dos irmãos, ou seja, cada um seguirem com as suas carreiras e convicções sonoras. Talvez, arrisco dizer, que o Apoteosi não passou de uma espécie de tudo de ensaio para os jovens músicos testarem as suas aptidões e, a partir daí, explorarem, individualmente, as suas habilidades musicais.

Mas antes disso decidiram juntos enveredar pela música comercial, mudaram o nome para “Stress Band” e gravaram um single, em 1979, com um cover de uma música de Gino Vannelli. Mas com a inevitável dissolução, cada irmão seguiu com carreiras diametralmente distintas uma das outras.

"Stress Band"

Massimo Idà mudou-se para Roma, trabalhando como músico de estúdio e produtor de música para televisão. Atualmente ele toca em uma banda de funky disco, chamada “Frankie & Canthina Band”. Ele também produziu e se apresentou no álbum “Dylaniato”, de Tito Schipa Jr., de 1982.

Silvana Idà deixou a indústria musical para formar a sua família e continua a morar em Palmi, na Calábria, sua cidade natal. Seu filho atualmente toca em uma banda de rock n’ roll. Federico Idá, juntamente com seu irmão Massimo, fez um single como “The Zombies”. Ele faleceu em 1992.

"The Zombies"

O guitarrista Franco Vinci continuou tocando e continua muito ativo no blues. Seu álbum, com a banda “Bootleg”, “Boot Trip”, foi lançado em 2003. Sua banda atuaç leva seu nome e se chama “Franco Vinci Blues Band”. O baterista Marcello Surace continua tocando como músico de estúdio na Itália e na França e também faz parte da “Frankie & Canthina Band”, juntamente com Massimo Idà.

O único álbum de Apoteosi oferece rock progressivo melódico surpreendentemente acessível ao rock progressivo italiano dos anos 1970. É sim um rock progressivo por excelência, afinal todos os elementos certos estão lá: interação musical complexa, seção rítmica sólida, mudanças de tempo e assim por diante. Embora os vocais de Silvana Idà não sejam tão competentes mostram certo prazer. As entradas sinfônicas de teclado são fantásticas e maduras, flautas competentes e guitarras que vão do peso a sutileza.

Um álbum mais do que recomendado que, infelizmente, à época não recebeu a atenção que merecia, afinal, sua edição foi muito limitada, sendo um dos vinis mais procurados e cobiçados entre colecionadores, chegando a valores, quando encontrados astronômicos. Felizmente em 1993 a abnegada Mellow Records relançou o álbum em CD e fez um grande favor aos apreciadores e fãs de rock progressivo. Tiveram outros relançamentos como no Japão, em 2012, pelo selo Belle Antique, em CD, em 2015, na Itália, pelo selo AMS Records e também pelo selo dos pais dos músicos, Salvatore Idà. Entre 2022 e 2024 a AMS Records e a Belle Antique relançaram o álbum no formato CD.





A banda:

Silvana Idà nos vocais

Franco Vinci nos vocais e guitarra elétrica e acústica

Massimo Idà no piano, Hammond B3, Eminent organ, ARP Pro Soloist synthesizer

Federico Idà no baixo e flauta

Marcello Surace na bateria

Com:

Coro Alessandroni / vocais do coro (Em “Oratorio”)

 

Faixas:

1 - Embrion

2 - Prima Realta / Frammentaria Rivolta

3 - Il Grande Disumano / Oratorio (Chorale) / Attesa

4 - Dimensione Da Sogno

5 - Apoteosi



"Apoteosi" (1975)




 











 










 






sexta-feira, 11 de julho de 2025

Sahara - For All the Clowns (1975)

 

Para todos que apreciam rock n’ roll, que existe uma rotatividade imensa entre as bandas desta vertente. Vaidades, dinheiro, novos ares vislumbrando projetos mais audaciosos, novos, diferentes do que faziam, podem ser um dos motivos por tantas saídas de músicos ou ainda de vertentes sonoras ou, claro, todos os quesitos também contam como motivo para esse “fenômeno” tão recorrente.

O fato também que, mudanças nas formações e nas vertentes sonoras, embora sejam eventos complexos e difíceis para quaisquer bandas, podem trazer boas novas, sobretudo para os fãs, no que tange a qualidade. Talvez a mudança, por mais complicada possa parecer, podem trazer bons e arrojados frutos, com projetos grandiosos que deixam marcas indeléveis para a história da banda e até mesmo da música.

Poderia escrever, por longas linhas, inúmeros casos, exemplos que se tornaram verdadeiros exemplos e inspirações de que a mudança pode oxigenar realidades estáticas de muitas bandas e outras que sucumbiram caindo em desgraça, no mais profundo ostracismo, mas falarei de uma banda que foi submetida a mais profunda mudança, que passou não apenas na sua sonoridade, o que já é, por si só, substancioso, mas também pelo nome e pela entrada e saída constante de seus músicos: Falo da alemã SAHARA.

Sahara

Mas nos seus primórdios a banda não se chamava Sahara, mas “Subject ESQ.” E foi concebida na cidade de Munique, na Alemanha, em 1966. Tinha, em sua sonoridade, predominantemente o jazz rock, lançando, inclusive, seu primeiro e único álbum, com este nome, em 1972, autointitulado. Sua formação trazia Peter Stadler nos teclados, Michael Hofmann na flauta, saxofone e vocais, Alex Pittwohn na harpa, guitarra e vocais, Stephan Wissnet no baixo e vocais e Harry Rosenkind na bateria e percussão, além da participação de Paul Vincent na guitarra elétrica e espanhola e Franz Löffler na viola.

Após o lançamento do seu debut o Subject ESQ. teria a primeira mudança em sua formação, com a saída do tecladista Peter Stadler e a entrada, de peso, de Hennes Hering, simplesmente o tecladista que gravou os três primeiros álbuns do grande e também alemã Out of Focus. Mas a mudança mais significativa estaria por vir.

"Subject ESQ." (1972)

No ano de 1974, portanto dois anos depois do lançamento de “Subject ESQ”, a banda sofreria mais mudanças e dessa vez começou pelo nome. Mudaria para “Sahara”, e também com uma nova inclusão de músico, dessa vez do guitarrista Nicholas Woodland, guitarrista original de outra seminal banda alemã, o Gift, passando a nova banda, Sahara, ser um sexteto.

E com uma nova formação e nome, o Sahara gravaria o seu primeiro álbum chamado “Sunrise”, em 1974. A banda teria, em seu line-up, portanto, Nick Woodland na guitarra, Hennes Hering nos teclados, Michael Hofmann no moog, mellotron, composição e vocais, Alex Pittwohn, na harpa, no saxofone e vocais, Stephan Wissnet no baixo e vocal principal, além de Harr Rosenkind na bateria.

A mudança foi drástica e creio, se me permitem a licença poética em falar deste novo trabalho do Sahara, foi uma mudança para melhor. Do estranho e experimental “Subject ESQ.” tiveram um rock progressivo mais variado e versátil em “Sunrise”. Sem sombra de dúvida a entrada de Hering foi determinante para essa nova concepção sonora da banda, mas não podemos negligenciar a participação dos demais músicos e principalmente de Woodland que sairia do Gift com uma veia mais hard rock para uma prog rock genuíno.

"Sunrise" (1974)

Sem dúvida o nome da banda personificaria a aventura que esse novo álbum entregaria. Tecidos de teclados soberbos, sofisticação sonora, mas orgânico e poderoso, um progressivo clássico, mas virando, em dado momento, um jazz fusion e outras vezes um blues rock. “Sunrise” nasceria completo, robusto, intenso, maduro, versátil. O álbum foi lançado pelo modesto selo alemão Pan (Ariola), porém foi distribuído, no Reino Unido, pela gravadora Dawn, no início de 1974.

Mas todo esse início não era para falar dos primeiros álbuns dessa seminal banda germânica, mas para tecer generosos comentários acerca do seu terceiro trabalho, segundo com o nome de “Sahara”, o grandioso “For All the Clowns”, de 1975 que, por uma grata coincidência, completa, neste ano, 50 anos de lançamento.

Para manter uma espécie de rotina no Sahara as mudanças na formação aconteceram trazendo um novo guitarrista, Günther Moll, no lugar de Nicholas Woodland, que entraria na banda Desertland e outra também no posto de baterista saindo Harry Rosenkind e entrando Holger Brandt, que era da banda Missing Link.

Então a formação do Sahara para “For All the Clowns” trazia Moll na guitarra e vocal, Hennes Hering nos teclados, piano e sintetizadores, Michael Hofmann no moog, no sintetizador de cordas, guitarra, flauta e vocais, Stephan Wissnet no baixo, violão e vocais principais e Brandt na bateria e percussão. Na realidade Nick Woodland teria uma pequena participação, na faixa 2, “The source Part I & Part II”, tocando violão de 12 cordas, além de Meryl Creser na recitação na faixa 5, “The Mountain King Part I & II”.

“For All the Clowns” foi lançado em 1975 pelo também selo Pan (Ariola) e além das referidas mudanças na formação da banda, deixando apenas os remanescentes Hofmann, Wissnet e Pittwohn, mudanças em sua sonoridade são percebidas neste novo trabalho também, onde as vertentes jazzísticas, presentes no álbum anterior, “Sunrise”, desapareceriam, por completo, de “For All the Clowns”. 

Neste novo álbum teria a predominância do rock progressivo calcado no sinfônico, em uma concepção mais direta, mas não menos sofisticada e complexa. A versatilidade seria o mote deste trabalho e nisso se assemelha ao “Sunrise”. Concepção direta, porém, nem um pouco talhado para o mainstream.

Mas não se enganem, caros e estimados leitores, que as mudanças parariam por aí. Bastante importante para o Sahara, Hofmann não tocaria, neste álbum, saxofone, este instrumento seria abolido da sonoridade deste novo trabalho da banda, o que é perceptível no resultado final, nas músicas, mas dedicou-se aos sintetizadores, moog, guitarras e ainda a flauta. Pittwohn, além de ter as suas funções de músico, acumularia a de produtor e gerente do Sahara.  A capa de For All the Clowns” traria uma arte totalmente bizarra, mas com uma “tonalidade” bem humorística, mas que não adequa a tipicidade da música. Foi concebida por Kurt Halbritter. Mas o que importa é o conteúdo e este traz um álbum arrojado e fortemente calcado em um prog sinfônico muito bem executado.

O álbum é inaugurado pela faixa “Flying Dancer” que começa com o destaque vocal, que oferece novas e extensas passagens, mostrando um belíssimo alcance. A sua sonoridade é calcada no progressivo sinfônico trazendo inspirações britânicas, fugindo da rigidez lisérgica do experimentalismo germânico, o famoso krautrock.

"Flying Dancer" 

Segue com a música mais complexa, diria, do álbum: “The Source Part I & Part II”, onde a banda mergulha em uma atmosfera densa, estranha, experimental. É como se fôssemos transportados por uma galáxia distante e inimaginável, com o peso evidente do teclado. A faixa alterna entre passagens silenciosas e sombrias e momentos sombrios mais pesados. A guitarra não é estridente, mas dedilhada com esmero e dramaticidade. Tudo nesta música soa moderno e arrojado para a época.

"The Source Part I & Part II"

A faixa título, “For All the Clowns”, que tem duração de 11 minutos, começa meio Pink Floyd. O baixo toca discretamente, tons de sintetizador atmosféricos são colocados sobre ele e dão à música seu próprio toque, peculiar. Posteriormente sons limpos de guitarra se juntam e vão encorpando a música cada vez mais. A batida do ritmo é captada, mas logo se silencia novamente. As variâncias rítmicas corroboram a sua condição progressiva.

"For All the Clowns"

“Prélude” personifica o seu conceito e abre alas para outra grande e monumental faixa, “The Mountain King Part I & II”. Um riff de guitarra, altamente interessante, abre a música, com mais de 13 minutos de duração. A flauta é destaque nela, com toques suaves, doces, mas alternando momentos mais intensos e vívidos, trazendo à tona toques mais rústicos e pesados, ao estilo Ian Anderson, do grande Jethro Tull. Os cantos também interferem decisivamente, entrando no reino da improvisação típica. A seção rítmica dá o tom e se mostra decisiva e essencial para o balanço da faixa.

"The Mountain King Part I & Part II"

Segue com “Dream Queen” onde a flauta se mantém dominante, como na faixa anterior, juntamente com os vocais que, cativantes, começam suavemente, dando um parâmetro para as flautas dando a faixa leveza e um ar contemplativo. Fecha com “Fool the Fortune” que traz um arpejo de guitarra esplêndido, embora simples, porém bem executado. Segue nela também um tom pastoral com vocais suaves e cantos de pássaros.

"Dream Queen"

“For All the Clowns” certamente é o álbum ideal aos apreciadores de rock progressivo sinfônico, mas devido a sua versatilidade passa a ser uma audição interessante aos amantes de rock clássico e até mesmo, em alguns momentos, de hard rock.

É em “For All the Clows” que a banda mostra mais a sua habilidade mais claramente do que os seus antecessores, talvez pelo simples fato de ser mais versátil, acessível e, logo capaz de sensibilizar ouvidos variados e exigentes. A fusão entre progressivo sinfônico, rock clássico e hard rock funcionou plenamente neste derradeiro álbum do Sahara.

O Sahara, entre 1973 e 1975 tocou em profusão, se apresentando em vários shows e festivais, divulgando “Sunrise” e parte de seu segundo trabalho, “For All the Clowns”. Tocou no “Hamburg Rockfabrik” e no festival de rock em Lidau junto com os Scorpions, que na época, ainda com Uli Jon Roth na guitarra, entre outros, tentava conquistar seu lugar ao sol. Para o segundo álbum, a banda seguiria para uma extensa turnê pela Holanda.

Apesar das mudanças que se sucediam na banda, era perceptível que, sob o aspecto sonoro, crescia, ficava mais madura e tudo indicava que teria longeva vida, no final dos anos 1970, mais precisamente em 1977, Brandt e Moll sairiam do Sahara, decretando, diante disso, seu fim. Em 24 de julho de 1977 o Sahara faria seu último grande show no Theater der Jugend, em Munique. A precocidade bateu forte e impiedosa na história promissora da banda.

Mas a música é capaz de tudo! De fazer ressurgir o que há de melhor nela, nas suas mais variadas versões e situações. O Sahara, depois de um hiato de décadas e décadas, quase 30 anos depois, decide se reunir novamente, mais precisamente em 2 de agosto de 2006. A formação original estaria na ativa novamente! 40 anos após a fundação da banda, que ainda se chamava Subject ESQ,! Isso era significativo e histórico!

Sahara em 2013

O palco foi um show, ao ar livre, no Festival Bur-Herzberg, em julho de 2007. Outros palcos de destaque também receberiam o Sahara, como a apresentação no antigo Blow Up, atual Schauburg, em Munique, no mês de abril de 2008, além do show na Academia de Belas Artes de Munique, em fevereiro de 2009. Os shows foram acontecendo em períodos espaçados, até outubro de 2019, quando a banda decide, mais uma vez, se separar. O único relançamento que se tem notícia de “For All the Clowns” foi, em CD, pelo selo Ohrwaschl Records, em 1993.


A banda:

Günther Moll na guitarra e vocal

Hennes Hering no teclado, piano e sintetizadores

Michael Hofmann no Moog, guitarra, flauta e vocal

Stephan Wissnet no baixo, na guitarra acústica e vocal principal

Holger Brandt na bateria

 

Faixas:

1 - Flying Dancer

2 - The Source Part I & Part II

3 - For All the Clowns

4 - Prélude

5 - The mountain King Part I & II

6 - Dream Queen

7 - Fool the Fortune

 



"For All the Clowns" (1975)"


 

























 




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Baumstam - On Tour (1975)

 

Costumamos atribuir ao krautrock como a cena rock mais emblemática da Alemanha. E essa informação se confirma dado o seu pioneirismo, a sua importância, a sua representatividade não só para o aspecto musical, mas para a contracultura germânica que ainda recolhia seus cacos da Segunda Grande Guerra Mundial.

O Kraut, embora tenha sido um nome pejorativo dado pela imprensa britânica trouxe bandas do naipe de Can, Kraftwerk, Tangerine Dream, Amon Duul II, entre tantas outras que tingiram a cena de um experimentalismo como nenhuma outra o fez, com uma simplicidade minimalista que trazia à tona uma complexidade de interpretação a sons, ruídos, entre outras viagens lisérgicas e ácidas que podemos comparar a versão alemã da psicodelia que estava em voga no mundo na segunda metade dos anos 1960.

O Krautrock teve seu ápice entre os anos de 1967 e 1972, aproximadamente, onde os grandes álbuns do estilo se eternizaram, mas muitas bandas trafegaram no ostracismo, na obscuridade flertando com outras sonoridades que ia do jazz rock, que também traziam doses cavalares de jam section, com muitas experimentações a versões do rock mais pesadas, inclusive e que não tiveram tanto acesso aos tocadores de som dos aficionados pelo rock germânico.

Claro que essas bandas, como disse, caíram no mais profundo esquecimento ou pelo menos grande parte delas e sem sombra de dúvida trouxeram músicas significativas para a história, para os primórdios do rock alemão e podemos, de imediato, citar bandas como Birth Control, por exemplo, que até hoje, com mais de cinquenta anos de estrada, grava material inédito para o mundo testemunhar que o kraut não se resume a experimentalismos e viagens lisérgicas e ácidas.

Temos o jazz rock, temos o hard rock que surgiram, mais ou menos, nesse mesmo período em que o kraut reinou na Alemanha e que corrobora a diversidade sonora que brotou neste país na transição dos anos 1960 para os anos 1970. E a banda que eu falarei hoje surgiu um pouco depois dessa fase mais prolífica do kraut e seu minimalismo, mas trouxe consigo a pedra fundamental da música pesada na Alemanha. Falo do BAUMSTAM.

Baumstam

Certamente você, meu bom amigo leitor, nunca tenha ouvido falar dessa banda em sua vida ou conheça, porém nunca tenha visto ou ouvido, em uma conversa de amigos apreciadores do rock setentista, o nome dessa banda em algum momento. É claro! A banda é pouco conhecida e tida pelos especialistas como muito rara. Sendo ou não rara, o fato é que o Baumstam não figura entre os grandes do rock alemão dos anos 1960 ou 1970, mas tem uma relevância inominável quando se fala de pioneirismo do hard rock germânico. Como pode? Parece estranho, mas sim, ela foi importante.

E como prova irrefutável apresento o seu debut, o avassalador “On Tour”, lançado no longínquo ano de 1975, alvo de discussão no meu texto de hoje. Mas antes tentarei falar um pouco da história da banda, mas, por questões óbvias, será um tanto quanto difícil, pois a banda não gozava de tanta popularidade e infelizmente na grande rede poucas são as referências sobre ela, mas tentaremos trazer um pouco de suas raízes.

A história do Baumstam começa aqui com uma conhecida letra de Herbert Grönemeyer, que diz:

“...Nas profundezas do oeste, onde o sol está se pondo.”

Nas profundezas do oeste da Alemanha fica a região do Ruhr. E nas agitações dos fornos das minas, nas torres sinuosas das fábricas e pequenos assentamentos de trabalhadores entre Bochum e Dortmund fica a cidade de Witten, onde a banda foi formada lá pelo ano de 1972.

Como disse o início dos anos 1970 tínhamos uma hecatombe de bandas de krautrock, com sonoridades calcadas no órgão, ruídos eletrônicos e, por vezes, guitarras lisérgicas e pesadas e assim também aconteceu em Witten. E por lá os ex-amigos de escola Ulrich Klawitter e Michael Lobbe nas guitarras, Gerd Stracke na bateria e Michael Willecke no baixo fundaram uma banda, o Baumstam, com apenas um “M” no final.

Logo quando o Baumstam foi formado começou a tocar em casas de shows razoavelmente grandes e em shows ao ar livre e a fazer também turnês conjuntas com bandas como Franz K. e Faithful Breath. Sua sonoridade era pesada, rústica, garageira tendo a guitarra dupla, a guitarra fuzz como o cerne dessa sonoridade que à época não era comum, não era cotidiano e que causou entusiasmo entre os fãs nos shows, por isso que logo na sua formação recebeu muitas ofertas de shows importantes e grandes, se tornando inovador para a história do hard rock alemão, diria para o rock e todas as suas vertentes naquele país.

Mas como acontece com a esmagadora maioria das bandas o Baumstam teve baixas, teve saídas de integrantes e o primeiro a abandonar o barco foi Michael Willecke que deixou a banda em 1974, sendo substituído por Volker Wobbe, no baixo. A bateria foi assumida pelo Gerhard (Gerd) Meyer von Stracke.

Depois de algum tempo de formada, cerca de três anos finalmente a hora do Baumstam de lançar oficialmente um álbum novo havia chegado e o anos era 1975. A banda se reuniria Knöterich Studio de Lothar Simmsheuser em Witten-Annen e as nove faixas para o LP foram gravadas, pasmem, em apenas um final de semana, afinal, os jovens músicos não tinham grana para alugar, por um longo tempo, um estúdio. Um pedal de distorção “Schaller” e uma velha guitarra “Framus Deluxe”, o som da banda estava pronto.

Eu não sou um profundo conhecedor dos instrumentos musicais, da sua parte técnica, mas, optei por colocar essa informação no meu texto, após as minhas pesquisas, na web, sobre a banda, para enfatizar a essência da sonoridade do Baumstam e a importância que esta teve para a história do rock alemão nos anos 1970.

O álbum, que se chamaria “On Tour”, foi distribuído em seu próprio selo BMF, como o número de catálogo BS 6232 855. Atualmente um vinil original de “On Tour” pode ser disputado a tapas por colecionadores de raridades e pode chegar a um valor na bagatela de mais 600 euros! Sim, prezados leitores, um álbum de caráter cult e que hoje é uma verdadeira pérola, um ouro raro e caro para se adquirir.

“On Tour” centraliza sua performance nas suas notas de guitarras distorcidas, com um toque áspero, sujo, garageiro, com um som nem um pouco polido e que pode agredir aos ouvidos que preza por um som mais limpo e sofisticado. Para muitos poderia ser considerado como um álbum psicodélico e pessoalmente não discordo, mas o psych, com guitarras lisérgicas, é um tempero ao som pesado calcado no velho hard rock e que poderia, ainda, remeter ao som mais atual que é o stoner rock. Guitarras distorcidas, sujas, ásperas, sem dúvidas traz à mente o stoner, o doom metal tão em voga nos dias de hoje. O Baumstam definitivamente foi singular no seu tempo, estando muito a frente dele. O som curto era bem estruturado, fazendo das faixas de “On Tour” extremamente atraente. Então vamos a elas?

O álbum é inaugurado com a faixa título, “On Tour” que já entrega a guitarra distorcida e lisérgica, cheia de peso e groove. Sim, ela tem um groove forte e torna-se inevitável que faça com que você balance a cabeça freneticamente. A interação entre as duas guitarras é incrível, significativa. O vocal, rouco e áspero, se encaixa perfeitamente com o som. Essa é a porta de entrada para o “mundo” de “On Tour” e o Baumstam.

"On Tour"

Segue com “Lucky Strike” que, se passasse despercebido, poderia ser considerada como uma sequência se não fosse pela parte do verso mais silencioso. Mas a sonoridade, de alguma forma, se mantém na proposta da faixa anterior, com o peso das guitarras duplas, com solos sujos e pesados, um baixo mais pulsante e uma bateria, igualmente pesada, porém marcada.

"Lucky Strike"

“Hold Me” foge um pouco à regra das faixas iniciais e começa de forma mais acústica e até calma. Ela é tocada em um ritmo mais lento e apenas na parte do meio surge a guitarra mais distorcida e rápida, dando-lhe um pouco mais de peso. A faixa traz ainda uma “pitada” mais de blues, mais dramática a música. Até o vocal fica um tanto quanto melódico.

"Hold Me"

A próxima faixa é “Jazz Break” e tem relativamente pouco a ver com jazz. Começa com uma pegada meio groove, mas aumenta o tom no seu decorrer para um típico krautrock, baseado em uma guitarra solo distorcida e pesada, calcada em tonalidades psicodélicas.

"Jazz Break"

Semelhante à faixa título, a próxima música, “Dusty Road”, atravessa os canais auditivos e faz também as cabeças tremerem freneticamente por todo o tempo. É pesada, é intensa, é rústica, é poderosa. A faixa ao vivo “Girl I Want To Stay Into Your Fire” segue a sua jornada na sua crueza sem filtros, pesada, intensa, sem cortes, cheia de groove e guitarras fuzz e lisérgicas.

"Dusty Roads" (Live)

“Last Letter” tem o violão que toca os acordes rítmicos e a guitarra elétrica que vibra no topo com o vocal principal que soa melancólico. Uma mudança até bem-vinda em relação às faixas que predomina com o peso e a aspereza.

"Last Letter"

Mas tudo volta a ficar mais rápido com “Fifteen Years Old Mary”, onde o “fuzz” age novamente e de forma impiedosa, a guitarra dupla, cheia de distorção, ganha vida novamente nessa faixa. Percebe-se, ouso dizer, que essa faixa se adequaria a um heavy metal de vanguarda, um proto metal respeitável. A banda mostra o seu pioneirismo nessa faixa.

"Fifteen Years Old Mary"

E “On Tour” finalmente é fechado com a faixa “He's A Liar” e traz algo atípico, até então, para o álbum, uma pegada mais progressiva, mas sem deixar de lado o seu peso, os riffs de guitarra sujos e despretensiosos. Mas aqui você ouve um Baumstam mais sofisticado, mais arrojado, mas ainda assim, hard e poderoso.

Após o lançamento de “On Tour” o Baumstam não teve falta de oportunidades de se apresentar. Muitas ofertas de shows surgiram e a banda continua a fazer shows em casas importantes. A bela produção do LP fez com que as grandes gravadoras mantivessem seus radares ligados para gravar a banda e divulgar “On Tour” com uma turnê maior, com mais estrutura que a banda merecia. Mas

Mas os músicos não conseguiram chegar a um acordo sobre um contrato de gravação oferecido pela Deutsche Grammophon, motivando a separação do Baumstam em 1977 e o capítulo da história inicial da banda se fecharia de forma precoce, porém não em definitivo. Para Ulrich Klawitter e Gerd Stracke, no entanto, a música não havia acabado naquela época, eles continuaram a tocar, independentemente um do outro, nas bandas de Witten, tocando localmente.

E o reencontro do Baumstam se deu graças ao relançamento de “On Tour”, em 2004, pelo selo “Amber Soundroom”. Os velhos amigos de banda se reencontrariam e juntos redescobriram que poderiam tocar novamente. Grande parte da velha magia que os moviam no passado ainda estava viva, flamejando e que necessitava ser reacendida por música.

E eles não se resumiram a apenas divulgar o relançamento de seu debut e gravaram o segundo álbum de inéditas com o sugestivo nome de “Dreams of Yesterday”, em 2005. A formação de Baumstam, para este álbum, trazia Klawitter, Strake e Volker Wobbe. Para Michael Lobbe, o filho de Ulli, Adrian "Adi" Klawitter na guitarra e teclados, e Anna Weigand nos vocais e flauta se juntaram à banda. Como 30 anos antes, o engenheiro de gravação e proprietário do estúdio do Fanton Studios envolvido era o conhecido Lothar Simmsheuser.


"Dreams of Yesterday" (2004)

O até então novo álbum, do próprio selo Schöne Töne, traz a marca registrada do Baumstam e com esse trabalho surgiram shows por toda a Alemanha e até a França. Anna deixaria o Baumstam em 2006, mas mesmo com essa baixa, a banda ganharia e muito com a adição de Adi Klawitter que renovou o som da banda trazendo novas influências, de modo que a próxima gravação já estaria prevista para 2007.

“Moment”, terceiro álbum do Baumstam, ganharia luz em 2007 e novamente dois anos depois um álbum ao vivo seria adicionado a sua discografia, oriunda da turnê de nome “Dusty Roads”, gravada em junho de 2009 no WerkStadt em Witten e lançada sob o mesmo nome de Moment e Dreams of Yesterday pelo selo Schöne Töne. A propósito clique aqui para ver algumas fotos da turnê do Baumstam no ano de 2008.

"Moment" (2007)

Em 2012, o aniversário de quarenta anos da banda, precisava contar, em tom de comemoração, com um novo trabalho de estúdio para homenagear o aniversário, mas as baixas aconteceriam. Volker Wobbe foi substituído por Jens Gubert no baixo e Rex Dehnhardt se juntou a Baumstam nos teclados. O trabalho de aniversário foi intitulado com a equação 72 – 12 = 40. O significado por trás disso é simplesmente ... 1972 a 2012 = 40 anos de Baumstam.

O trabalho foi lançado pelo selo Green Tree, que já havia sido relançado várias vezes na turnê, e contém onze novas músicas. A turnê do 40º aniversário levou Baumstam por várias cidades da Alemanha. Era o Baumstam no seu melhor lugar, no palco, tocando magistralmente ao vivo.

No início de 2014, Gerd Stracke deixou a banda, de modo que outra mudança de formação foi necessária. Adi Klawitter agora assumiu a bateria e Baumstam continuou como um quarteto desde então. As mudanças na sua formação foram uma constante desde os seus primórdios, mas sempre tiveram a capacidade de manter intacta a sua sonoridade, mantendo-se extremamente fiel e consolidada.

“On Tour” tiveram relançamentos antes de 2004 que motivou a reunião de seus músicos. E isso foi ainda nos anos 1990, com a primeira, no formato CD, em 1990 e em 1994 pela CRC Records. Tais relançamentos, sobretudo as do formato em vinil, em LP, foram em tiragens bem limitadas fomentando o quesito de raridade desse trabalho, sendo essas cópias atingindo os três dígitos de tão caro, mas disputado a tapas pelos colecionadores de vinis.

A banda sempre esteve à margem da popularidade, trafegou nos submundos do rock, esteve longe do glamour e mesmo citada em alguns períodos de rock como uma referência para a música pesada na Alemanha, é pouco lembrada pelos fãs. Mas até os dias de hoje as músicas de “On Tour” ainda são tocadas em algumas rádios dos Estados Unidos, claro, de música underground e é tida, com alguma razão, como um dos pilares do stoner rock, da música pesada alemã.





A banda:

Ulrich Klawitter na guitarra solo, vocais

Michael Lobbe na guitarra acústica, 2ª guitarra elétrica

Volker Wobbe no baixo

Gerhardt Meyer na bateria, percussão

 

Faixas:

1 - On Tour

2 - Lucky Strike

3 - Hold Me

4 - Jazz Break

5 - Dusty Roads

6 - Girl I Want To Stay Into Your Fire

7 - Last Letter

8 - Fifteen Years Old Mary

9 - He's A Liar



"On Tour - Versão original" (1975)


"On Tour - Versão estendida" (1975)