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quinta-feira, 19 de março de 2026

Jenghiz Khan - Well Cut (1971)

 

Sabe aqueles países totalmente inusitados para a cena rock n’ roll? Pois é, é para eles que eu venho mirando as minhas intenções para desbravar e, não se enganem, caríssimos leitores, há muito a encontrar por aí. As cenas podem ser incipientes em quesitos quantitativos, mas qualitativamente falando a situação muda! Há muito material de altíssima qualidade nos países pouco comentados e esquecidos pelo rock!

Então vale e muito o esforço em desbravar e conhecer tais bandas e álbuns e hoje eu pousei na Bélgica e encontrei um espetacular álbum e banda que merece a sua atenção, caro leitor. Como ela se chama? JENGHIZ KHAN! Mas são aquelas bandas que, como verdadeiros cometas, surgem, como uma força da natureza, gerando impacto, mas que, de forma efêmera, sucumbem, desaparecem.

O Jenghiz Khan surgiu, em 1970, no sul da Bélgica, a partir das cinzas do "The Tim Brean Group" e do "Les Partisans". A formação da banda consistia nos seguintes músicos: Tim Brean no piano, órgão, teclados e vocais, “Big” Frisma nas guitarras base, acústica e solo e vocais, Christian “Chris Tick” Servranckx na bateria, percussão e vocal e Pierre “Peter Raepsaet” Rapsat no baixo e vocais.

Jenghiz Khan

Rapsat foi o último músico a integrar o Jenghiz Khan. Ele veio de uma banda que acabara de lançar um álbum, de nome “Laurelie”. Nos anos 1960, Pierre havia feito parte da orquestra de dança chamado “Les Ducs”, porém em sua banda seguinte, a “Tenderfoot Kids”, onde tocou em quatro singles, revelou ser um excelente compositor.

"Laurelie" (1970)

O nome “Jenghiz Khan” foi escolhido pelo terror associado ao líder mongol e, de fato, essa banda de músicos furiosos, liderado por Friswa, teve impacto no público e incendiou as placas dos festivais onde se apresentavam.

Como todas as faixas do primeiro e único álbum do Jenghiz Khan, “Well Cut”, de 1971, já estava praticamente pronta, Rapsat ficou responsável apenas em tocar o seu instrumento, o baixo. Todos os membros da banda eram compositores, então não teve espaço para Pierre demostrar seus dotes de letrista. Mas se mostrou competente empunhando o baixo, trazendo a sonoridade da banda, algo muito atual.

Além dos músicos serem compositores o seu empresário, o conhecido jornalista de rock, da revista “Telemoustic” ou “TéléMoustique”, Pierre “Piero” Kenroll, ajudou a escrever todas as letras e uma música completa.

A capa deste único trabalho do Jenghiz Khan foi desenhada por Jamic, cartunista da TéléMoustique, apresentava as cabeças dos 4 músicos decapitados brandidas por um gigante e alcançou as melhores vendas belgas, algo que nenhuma banda local conseguia fazer há muito tempo.

E diante desse cenário, “Well Cut” foi lançado até rapidamente, pelo selo “Barclay”, com um som majoritariamente pesado, porém cheio de dinâmica, ou seja, vertentes progressivas, conferindo-lhe complexidade, mas com a capacidade única de ser orgânico, mostrando músicos competentes e técnicos, mas dando tudo de si de forma corporal!

Não sou muito afeito às comparações, mas o Jenghiz Khan, reflete muito a música de seu tempo, embora traga uma sonoridade bem atemporal, rasgando as gerações com muita destreza. Ao ouvir “Well Cut” percebe-se a sonoridade de bandas, das mais famosas, claro, como Uriah Heep, Vanilla Fudgie e Iron Butterfly. Mas como coloca-la em condições de inspirada, se esta surgiu praticamente ao mesmo tempo que as mencionadas? O sucesso de algumas diz muito sobre isso, mas não quero falar sobre isso, e sim do quão importante esse tipo de sonoridade foi nas transições das décadas de 1960 e 1970.

“Well Cut” imprime uma sonoridade que é calcada no riff pesado de guitarra e o bom e velho hammond, que muito me agrada e cativa, um heavy progressivo com pitadas psicodélicas generosas, que vai do sofisticado, complexo, sujo, primitivo e áspero. Uma música que se fazia em profusão no início dos anos 1970, mas com competência, criatividade e muita ousadia, pois não se rendiam as bandas ao estereótipo, afinal, era, diria, uma sonoridade que se descobria, se abrochava em experimentalismos e o Jenghiz Khan não fugia à regra. Era uma desbravadora de seu país, pouco conhecido na cena rock, mas que tinha um radar para o mundo.

O álbum começa com a faixa “Pain” que, um vocal, à capela, dá a introdução para a “cozinha” impor seu ritmo pesado, bateria marcada, agressiva, batida poderosa, baixo pulsante, hammond cheio de vivacidade, riffs de guitarra psicodélicos, mas que dá lugar ao violão e a uma balada. Seus quase oito minutos de duração entrega uma sonoridade repleta de mudanças rítmicas, mostrando o heavy prog muito bem executado. Na metade da música os riffs são mais agressivos e sujos, talvez o momento mais pesado da faixa, que logo se sucedem com solos mais pesados ainda. Música de tirar o fôlego!

"Pain"

Segue com a curta “Campus A”, mas que anima pela pegada meio bluesy, um blues rock bem solar com um vocal cadenciado e, por vezes, um pouco rasgado. É tão somente a guitarra e voz. Simples! Para dar entrada para a próxima faixa, “The Moderate” que inicia com um hammond um tanto quanto sombrio, mas que irrompe em um belicoso som de guitarra e bateria bem agressiva. O baixo dá o groove, o balanço e a cadência. Essa música mostra um Jenghiz Khan mais sofisticado, mas não menos pesado e arrogantemente agressivo. Aqui o vocal é mais potente e gritado e conduz a faixa ao que realmente entrega: peso, mas um peso aliado ao balanço, beira o dançante. Faixa animada!

"The Moderate"

Segue com “Campus B” que, entregando a continuação de “Campus A” traz o blues mais eletrificado, com uma pegada mais gospel evocando os primórdios do rock na sua versão mais primitiva. Não podemos negligenciar, claro, a veia blues rock. “The Lighter” começa acústica, dedilhados de violão torna algo mais pastoral, viajante, dando lugar ao hammond e uma bateria mais vagarosa. Eis uma balada com uma característica inteiramente psicodélica, mostrando um produto de seu tempo, verdadeiramente. O trabalho de vocalização me remete ao Uriah Heep nos seus primórdios e também o Vanilla Fudgie. E finaliza com o lindo e direto solo de guitarra!

"The Lighter"

“Hard Working Man” introduz com um solo de bateria e que já denunciaria o peso que viria pela frente! Um solo de guitarra flamejante, mas que logo cadencia, continuando a bateria como profundo destaque. Aqui nesta faixa o hard rock dá o tom, é o carro chefe. Direta, poderosa, intensa, riffs de guitarra se misturam ao toque cavalar como o baixo é conduzido. Traz a “cama” para a sonoridade acontecer, ser tão evidentemente característica.

"Hard Working Man"

Segue com “Mad Lover” que, mais uma vez, inicia, em uma pegada meio flamenca, acústica, meio folk. Aqui percebo que a banda volta aos anos 1960 com um beat psicodélico. O trabalho de vocalização se faz presente e é bem feito. A guitarra, já no fim da faixa, traz uma sonoridade estranha e experimental.

"Mad Lover"

E fecha com a épica “Trip to Paradise” que começa, mais uma vez, com o belo trabalho de vocalização e uma camada soturna de teclados que traz as lembranças psicodélicas. Mas logo termina, porque a explosão do hard rock se faz vivo e latente! Bateria com a já famosa batida pesada, o baixo com aquele groove arrebatador, galopante, por vezes, sem contar com o hammond que me lembrou algo mais sinfônico. Nessa faixa, no auge de seus mais dez minutos, traz de volta o heavy prog, e se mostra capaz de atrair o ouvinte com as inúmeras mudanças de andamento. É no mínimo catártico ouvir essa música. Hard rock, psicodélico e progressivo em um caldeirão de ingredientes misturados, sem nenhuma cerimônia em se rotular. A criatividade ditou as regras que, sem dúvida, faz dessa faixa uma das melhores do álbum! O final, com o solo de guitarra, é simplesmente de tirar o fôlego!

"Trip to Paradise"

Em sua história relativamente curta, o Jenghiz Khan construiu uma boa reputação de banda ao vivo, tocando em muitos festivais e shows. Podemos destacar, como os mais importantes quando dividiram o palco com: "Wallace Collection" (Puzzle P em junho de 1970), "Black Sabbath" (Rock Bilzen em agosto de 1970), "Yes" (Pop Hot Show Huy em 5 de setembro de 1970), "Stray" (Festival de Ghent em 28 de novembro de 1970), "The Tremelous" (Grand Place Ciney em 11 de julho de 1971) e "Genesis" no Festival de Jemelle em 8 de agosto de 1971.

Um segundo álbum estava sendo escrito, mas problemas surgiriam para a banda, culpa de uma cena belga muito restrita, que não permitia que seus músicos ganhassem vida com sua música, bem como também da onda “glam” que varreu o mundo, com furacões como David Bowie, T-Rex, Salde, Sweet entre outros. E o inevitável aconteceu: o fim do Jenghiz Khan, em 1972. Se há resquícios de composição musical que possa ser gravado em um futuro próximo, não sabemos. O fato é que precisamos esperar uma grande novidade a esse respeito! Quem sabe...?

O baixista Pierre Rapsat lançou uma bem-sucedida carreira solo, em 1973. Ele gravou vários álbuns de ouro e platina, transitando entre o rock e a chanson, mas a maioria de suas músicas era cantada em sua língua nativa, o francês. Rapsat faleceu em 21 de abril de 2002, precocemente aos 53 anos de idade.

O vocalista e tecladista Tim Brean juntou-se a banda “The Pebbles”, tocando teclado com eles de 1974 a 1976, enquanto compunha muitas músicas a pedido do selo “Barclay”. Mais tarde tentou a sorte com uma carreira solo sob o nome de “Tim Turcksin”, mas conseguiu lançar apenas algumas músicas em álbuns de compilação.

O guitarrista e vocalista “Big” Frisma juntou-se a banda “Wallace Collection”, fazendo sucesso, posteriormente, com uma banda pop chamada “Two Man Sound”, lançando também dois singles solo. O primeiro, em especial, onde trabalhou novamente Pierre “Piero” Kenroll, recebeu boas críticas. O lado B, chamado “Big Friswa” era uma ótima faixa de rock. Se suicidou em 1988.

O Jenghiz Khan, com seu único trabalho, lançado em 1971, “Well Cut” traz nas raízes, bem como, claro, no teor de suas letras, temas históricos e belicosos, assim como tantas outras bandas de proto metal de sua época. Sim, Jenghiz Khan emulou o som que se fazia em sua época, lá pelos idos dos anos 1970, mas refletiu, com galhardia e competência, aquele rock n’ roll que, das transições das décadas de 1960 e 1970, mostrou-se criativo e catártico.

“Well Cut” teve alguns relançamentos. Além de seu lançamento original, pelo selo Barclay, em 1971, teve lançamento, pelo mesmo selo e ano, no Canadá e na França. Em 1994, teve um relançamento na Coréia do Sul, pelo selo Won-Sin Music Company, outro, dez anos depois, em 2004, pela gravadora Second Life, na Rússia. Mais dois relançamentos, em 2011, na Bélgica, pelo selo Philmarie, um novo relançamento na Coréia do Sul, pela Won-Sin Music Company e vários outros relançamentos por alguns selos europeus.




A banda:

Tim Brean no piano, órgão, teclados e vocais

“Big” Frisma nas guitarras base, acústica e solo e vocais

Christian “Chris Tick” Servranckx na bateria, percussão e vocal

Pierre “Peter Raepsaet” Rapsat no baixo e vocais

Com:

Pierre “Piero” Kenroll nas composições

 

Faixas:

1 - Pain

2 - Campus A

3 - The Moderate

4 - Campus B

5 - The Lighter

6 - Hard Working Man

7 - Mad Lover

8 - Trip To Paradise 



"Well Cut" (1971)






















 




sábado, 1 de novembro de 2025

Plum Nelly - Deceptive Lines (1971)

 

Uma joia! Uma pérola esquecida! Alguns termos parecem ser manjados nos dias de hoje quando buscamos alguns adjetivos para as bandas obscuras, raras, que trafegam no ostracismo do underground! Embora soe piegas, em alguns casos determinadas bandas e álbuns merecem tais títulos.

Tentarei, estimados leitores, trazer alguns exemplos ou pelo menos um exemplo que certamente ilustrará o meu texto de hoje. Vamos da cena rock de Nova Iorque da virada dos anos 1960 para os anos 1970, principalmente no início dos anos 1970, onde o hard rock, aliado à psicodelia, a lisergia, dava o tom.

O rock progressivo parecia não gozar de tanta popularidade na terra do Tio Sam, mas tinha uma banda que trazia tal conceito sonoro, ainda engatinhando, praticamente no mundo, mas que também foi impactada pela sonoridade que agitava os jovens transviados da época: o hard rock.

A banda se chamava PLUM NELLY! Mas como atribuir tamanha importância para uma cena que estava embrionária e que sequer teve e ainda tem representatividade entre os fãs de rock? Pois é, amigo leitor, pode parecer um contrassenso, porém vou assumir o risco mesmo diante de minha magnânima ignorância.

Plum Nelly

Acredito que consiga, ainda assim, trazer alguns elementos, diria, substanciais, para argumentar o que afirmo de forma tão categórica. Seu único álbum, lançado no longínquo ano de 1971, entrega verdadeiras jams, com vertentes sofisticadas e progressiva, com inserção de flautas, teclados em profusão, guitarras pesadas, com solos bem elaborados, trazendo texturas de hard rock e até mesmo de um blues rock.

Nome do álbum? “Deceptive Lines”! Bem eu me adiantei um pouco e falei sobre o álbum, mas foi por um bom motivo, afinal, precisava pelo menos trazer um argumento para atribuir tamanha importância ao Plum Nelly, mesmo se tratando de uma banda obscura da cena nova iorquina dos anos 1970. Mas falarei, para não perder o costume, um pouco da história deles.

Como disse as origens do Plum Nelly remontam de Nova Iorque no final dos anos 1960, formado por cinco jovens músicos que tocavam na cena underground da cidade, em bares, clubes, começou a sua história com o nome de “Creedmore State” e trazia na sua formação inicial: Peter Harris, no baixo e vocais, Christopher Lloyd, na bateria, Ric Prince, nos vocais e teclados, Steve Ress na guitarra e vocais e John Earl Walker na guitarra, além de Jeremy Steig na flauta e Dave Bash Johnson na conga e timbal. Vale a curiosidade: Jeremy Steig, flautista americano de jazz, é filho do famoso cartunista William Steig, criador do personagem de desenho animado “Shrek!”.

As primeiras apresentações do Plum Nelly, ou melhor, “Creedmore State”, foram em pequenos clubes e, por mais que a questão estrutural não fosse um ponto positivo para a banda, foi graças a alguns proprietários desses clubes, mais precisamente Arnie e Nicky Ungano, que tinha um estabelecimento em Nova Iorque, exatamente com o nome de “Creedmore State”, que os jovens e persistentes músicos conseguiram seu primeiro contrato, com a Capitol Records.

E, por forças deste mesmo contrato que assinaram, foram forçados a mudar o nome da banda para “Plum Nelly”. Reza a lenda que a mudança do nome teria sido motivada por esses mesmos proprietários de clubes nova iorquinos que conseguiram para a banda este mesmo contrato com a Capitol. O fato é que, o agora Plum Nelly, entraria em estúdio, mais precisamente no Capitol East Studios, em novembro de 1970, e ficou até o final de dezembro para gravar seu álbum, tendo sido lançado em 1971.

“Deceptive Lines” é um formidável trabalho de hard rock, energético, arranjado de forma limpa e meticulosa. Ele é tão sofisticado e bem composto que nos remete ao rock progressivo quase que involuntariamente, pois tem complexidade, mas muito orgânico. A você, nobre leitor, que aprecia prog rock, esse álbum cairia muito bem aos seus ouvidos.

Mas não se engane que o álbum se limita apenas ao hard rock e rock progressivo: há nuances de blues rock, toques de jazz, elaborando um estilo rico e compacto, que, por passar por tantas intensidades, se mostra intenso, poderoso e vívido. Sem contar com a jams, sempre poderosas e rígidas, com muito dinamismo, com bons solos e bons riffs de guitarra, além de uma seção rítmica pulsante e um vocal extremamente competente.

A produção das músicas, consequentemente seguem marcantes, agregando a ela um som compacto, sem aqueles manjados tons místicos ou atmosférico, com aquele típico sombrio, mas muito poderoso, concreto, agressivo e solar. O desempenho de seus instrumentistas revela a versatilidade de seus músicos.

O álbum é inaugurado pela faixa “Deception” que traz uma leve e contemplativa flauta na introdução que é substanciada por uma “cozinha rítmica” bem entrosada e um vocal alto, mas límpido que cresce juntamente com o instrumental: bateria pesada e marcada, dedilhado de uma guitarra acústica que faz o contraponto, além de um baixo forte e pulsante. A faixa é tipicamente progressiva, com mudanças de andamento, variâncias rítmicas que seu frontman confirma com sua privilegiada voz. A guitarra dá o som com dedilhados ao estilo Yes, mas com um pouco de peso. Excelente faixa para começar!

"Deception"

Segue com “Carry On” que começa introspectiva, dedilhados de baixo discretos que logo irrompem em riffs pesados de guitarra, em pegada mais calcado no hard rock. Bongôs são ouvidos e entrega uma veia mais percussiva e dançante. Ouve-se também uma guitarra mais lisérgica, psicodélica, uma entrega mais experimental se se percebe quando o bongô se cruza com a guitarra ácida! O hard rock retorna e ganha a cena, com um momento mais pesado e intenso. Nesta faixa o hard prog ganha evidência. O vocal é forte, alto e gritado, em alguns momentos. Mais uma vez se mostra altivo.

"Carry On"

“The Demon” assume um caráter mais acessível em sua sonoridade. Não direi se tratar de uma faixa comercial ou radiofônica, mas, ainda assim, acessível, pois entrega versatilidade de uma maneira mais simples em sua sonoridade. A faixa agradaria facilmente aos fãs de prog, com suas viagens pastorais e aos apreciadores de hard e classic rock, com riffs mais pesados de guitarra e de batidas de bateria mais fortes e marcadas. O final da música passa a predominar o hard rock, com instrumentais mais pesados e vocais rasgados.

"The Demon"

“Lonely Man’s Cry” começa leve, acústica, dedilhados de um violão acústico abrem para uma balada com uma veia voltada para o country music. É viajante, agradável e contemplativa. Os vocais alternam entre a limpidez e suavidade, com momentos de mais alcance. A música vai ganhando mais corpo, com solos de guitarra mais pesados, alternando com solos de country. Os vocais de fundo trazem leveza e são, para curiosidade, executados por um grupo vocal chamado “The Sweet Inspirations”, que eram liderados por Cissy Houston, mãe da famosa cantora Whitney Houston e que também estava gravando para Elvis Presley e Aretha Franklin à época.

"Lonely Man's Cry"

“Sail Away” começa com flautas, deduzindo uma faixa mais voltada para o prog rock, mas logo se mostra mais intensa, riffs de guitarra mais pegajosos e pesados. Embora cadenciada revela-se potente, com bateria com uma batida mais pesada e baixo pulsante e igualmente pesado. Não se pode negligenciar o trabalho rítmico nessa música.

"Sail Away"

E fecha com “Never Done” que começa também com flautas, porém em um interessante “duelo” com solos de guitarra de tirar de fôlego. O suave se encontra com o peso, dando um caráter versátil e arrojado à faixa. E depois de alguns minutos com uma apoteótica apresentação instrumental, entra os vocais que, mais uma vez, se mostra competente, agora com riffs de guitarra ao estilo hard rock dos anos 1970.

"Never Done"

Após o lançamento de “Deceptive Lines” o Plum Nelly fez uma turnê pelos Estados Unidos, tocando juntos com nomes pesados da música, como: Bo Didley, BB King, Buddy Guy, The Kinks, Savoy Brown, John Mayall, Fleetwood Mac, The Faces, Joe Cocker, Dr. John, Muddy Waters, Terry Reid, The James Gang, entre outros.

Em 1974 mudaram-se para Los Angeles. O que parecia ser um novo começo com a sua ida para Los Angeles, dois anos depois, em 1976, a banda encerraria as suas atividades. O fim da banda foi motivado, entre outros fatores, pela saída do vocalista John Walker que formou, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, a sua banda: “The John Earl Walker Band”. Infelizmente nada mais foi ouvido sobre o Plum Nelly após a sua dissolução, o que é lamentável, levando-se em conta o potencial que os jovens músicos tinham à época.

Eles não eram jovens, eles eram praticamente adolescentes e já mostravam um talento inegável, mas, além da saída de Walker, a promoção que foi dada ao álbum, à época de seu lançamento, foi muito pobre e incipiente, deixando seu álbum sem nenhuma divulgação. Mas eis que surge uma luz no fim do túnel, quando, em maio de 2025, “Deceptive Lines” ganha uma reedição pelo selo Survival Research. Um grande trabalho de garimpo e de reconhecimento a um trabalho excepcional produzido nos longínquos anos 1970 que, independente se foi ou não conhecido ao grande público do rock n’ roll, foi uma referência para o hard rock estadunidense.





A banda:

Ric Prince: vocais e teclados

John E. Walker: vocais principais

Steve Ress na guitarra e vocais

Peter Harris no baixo e vocais

Christopher Lloyd na bateria

Com:

Jeremy Steig na flauta

Dave Bash na conga e timbal

 

Faixas:

1 - Deception

2 - Carry On

3 - The Demon

4 - Lonely Man's City

5 - Sail Away

6 - Never Done



"Deceptive Lines (1971)"

 




 


 



 

















sábado, 19 de julho de 2025

The Norman Haines Band - Den of Iniquity (1971)

 

1965, Birmigham, Inglaterra. A banda “Kansas City Seven”, como o nome sugere, tinham inacreditáveis sete músicos! O único músico conhecido, que tinha algum status, era o tecladista e flautista Chris Wood. Mas não era tanto, afinal, todos, inclusive Wood, eram jovens músicos na época. Para levar a sua música mais longe, alcançar o sucesso, eles decidem mudar o nome da banda para “The Locomotive”. E até conseguem alguma reputação com belas apresentações, de jazz rock, ao vivo.

Mas quando a banda estava começando a decolar, eis que surge a baixa mais considerável! Chris Wood optou por sair do The Locomotive para se juntar ao Traffic, juntamente com Jim Capaldi, Steve Winwood e Dave Manson, e o resto da banda, perdida com o impacto da saída de Wood, decide seguir, um por um, seus caminhos. Apenas Jim Simpson permanece na banda original e coube, claro, a ele, reformular o The Locomotive.

Então ele reúne nomes como Norman Haines e Jo Ellis para continuar com o The Locomotive. A banda lança alguns singles conceituados, que se tornaram conhecidos, figurando em paradas de sucesso no Reino Unido e logo lançam o álbum “We Are Everything You See”, em 1970. A banda entra em colapso, não conseguiu dar sequência a sua jornada e, dessa vez, teve decretado o seu triste fim.

Então ele reúne nomes como Norman Haines e Jo Ellis para continuar com o The Locomotive. A banda lança alguns singles conceituados, que se tornaram conhecidos, figurando em paradas de sucesso no Reino Unido e logo lançam o álbum “We Are Everything You See”, em 1970. A banda entra em colapso, não conseguiu dar sequência a sua jornada e, dessa vez, teve decretado o seu triste fim.

The Locomotive - "We Are Everything You See" (1970)

Coube agora a Norman Haines a dar um norte na banda, fazendo, contudo, mudanças drásticas. Na realidade Haines protagonizou um início a outro projeto, recrutando o guitarrista Neil Clarke, o vocalista e baixista Andy Hughes e o baterista Jimmy Skidmore formando o “The Sacrifice Ensemble”. Mas antes de entrar na história do The Sacrifice Ensemble, convém tecer algumas linhas sobre Norman Haines.

Norman, tecladista e vocalista, começou a sua carreira profissional em uma banda beat, em 1966, chamada “The Brumbeats”, de Birmingham. Quando a banda se separa, Haines torna-se membro do The Locomotive, em 1967, ajudando a Jim Simpson a reformulá-la, pois também sofrera com a debandada de todos os seus músicos e logo assumiu o protagonismo na banda. Tanto que, quando o Locomotive sofreu com a saída da maioria dos seus músicos, teve a competência de reformular e criar um projeto, o The Sacrifice Ensemble.

Então voltando ao The Sacrifice, esta agradou tanto que logo ganharia um contrato com o selo Parlophone Records, em 1970. Esse contrato de gravação custaria o nome da banda, porque os executivos de marketing da gravadora mostraram-se descontentes com o nome da mesma e quando lançaram os singles de estreia da banda, “Daffodil” e “Autumn Mobile”, mudaram, unilateralmente, o nome para “THE NORMAN HAINES BAND”. Sim! Deu o protagonismo para Haines até no nome da banda.

The Norman Haines Band

A banda então, com o seu novo nome e novas expectativas de alcançar o tão almejado sucesso, se reúne no mítico Abbey Road Studios, em 1971, para gravar seu primeiro álbum com essa formação e nome novos. E eis que surge “Den of Iniquity”, naquele mesmo ano. Perfilando o The Norman Haines Band temos, além de Haines no teclado, piano e vocais, Neil Clark na guitarra, Andy Hughes no baixo e vocal e Jim Skidmore na bateria e percussão.

Embora os singles não tenham feito tanto sucesso, à época do seu lançamento, a Parlophone decidiu financiar o álbum. “Den of Iniquity” traz traços da banda The Locomotive, com uma música chamada “Everything You See (Mr. Armageddon)”, que esteve no álbum desta última banda, mas com uma versão mais arrojada e sofisticada, mais bem acabada sob o aspecto da produção e das melodias. Apesar do álbum do The Locomotive e do The Norman Haines Band tenham sido lançados em um curto espaço de tempo, nota-se, com evidência, que o último é bem melhor em vários aspectos.

Podemos considerar, sem dúvidas, que “Den of Inquility” traz um progressive hard rock ou ainda como heavy progressive rock. É um álbum tão versátil e pouco estereotipado que pode, por conta disso, parecer um pouco disperso para ouvidos mais pasteurizados em determinadas vertentes sonoras, mas é um deleite a diversidade.

É impulsionado pela combinação de voz e teclados empolgantes de Haines e a fantástica guitarra de Clarke com resultados espetaculares de hard rock afiado, blues-rock e movimentos mais comerciais. Mas por mais que tenhamos neste trabalho essas vertentes, podemos perceber nuances mais sombrias entregando uma versão dark prog e occult rock também.

O álbum é inaugurado com a faixa título, “Den of Inquility” que, de imediato, te remete a um clássico do hard rock. Essa música explode com um riff de órgão e bateria que bate forte e pesada ao fundo. A guitarra vem seguindo o órgão antes de assumir o seu protagonismo com riffs potentes e cheios de wah wah. O seu solo é matador, avassalador e as “curvas” de wah wah ao fundo são extremamente sedutoras. Um hard rocker matador!

"Den of Iniquity"

Segue com “Finding My Way Home” que lembra um jam vibrante, solar, cheia de força e presença, com destaque indiscutível dos vocais e da guitarra com riffs pesados e solos bem elaborados. A faixa seguinte, a versão retrabalhada de “Everything You See (Mr. Armageddon)”, que foi do The Locomotive, ganha corpo com o protagonismo da guitarra. Ela, inicialmente, tem um início mais lento, mas a guitarra de Neil Clarke se redime totalmente na segunda metade da música. Ele praticamente sola até o final e cada segundo dessa parte da faixa é simplesmente espetacular. Uma verdadeira progressão de acordes que traz o prog rock na sua versão mais arrojada e encorpada.

"Finding My Way Home"

“When I Come Down” é outro hard rock típico e cheio de potência e peso, carregado de wah wah, com um pouco de órgão distorcido que corrobora a sua condição de peso. Essa música, aqui vale uma curiosidade, foi usada como demo, pela outra banda do antigo empresário Jim Simpsons, “Earth”, que naquela época havia mudado seu nome para simplesmente “Black Sabbath”.

"When I Come Down"

O clima dá uma guinada suave com a balada “Bourgeois”, interpretada e cantada pelo guitarrista Clarke. Ele exibe, orgulhosamente, as suas raízes folk, mas com muita personalidade. Segue agora com a robusta e longa, de 13 minutos, a faixa “Rabbits” que lembra uma jam sólida e estendida. Nessa música as raízes progressivas estão fincadas nas tecituras instrumentais, mostrando várias mudanças rítmicas, cheias de nuances sofisticadas, mas muito orgânicas.

"Rabbits"

O fim do álbum entrega a faixa, de 8 minutos, chamada “Life is so Unkind”, que traz uma hecatombe instrumental liderado pelo órgão, piano elétrico e um pouco de guitarra que, embora não traga destaque, como as teclas, leva o álbum a um final, diria, deliciosamente catártico, fantasticamente ameaçador.

"Life Is So Unkind"

Quando o The Norman Haines Band apresentou o produto, incluindo a grotesca capa do álbum, digno hoje para muitas bandas de heavy metal dos anos 1980, a gravadora se recusou a lançá-lo, tanto que a banda finalizou as gravações no final de 1970, mas a Parlophone só lançou “Den of Inquility” em agosto de 1971.

A capa também gerou repulsa por parte dos varejistas britânicos, e muitas lojas estocaram poucos álbuns e esse termômetro dos vendedores, das lojas, determinou as diretrizes da gravadora que pouco o promoveu e apoiou, gerando poucas cópias, resultando em um lançamento bastante escasso e que atualmente, por ser um trabalho cult e raro, é vendido por até 2.000 euros no mercado de discos. E já que mencionei a capa do álbum do The Norman Haines Band, o autor da linda capa é Heinrich Kley, um famoso e controverso desenhista alemão da cidade de Munique.

“Den of Iniquity” foi lançado, no formato LP, na França e no Uruguai pelo selo Odeon Records, em 1972 e diz que, por intermédio da verificação com a gravadora, foi inacreditável distribuir e vender este álbum no Uruguai naquela época, levando em consideração a frágil economia daquele país e o número consequente limitado de pessoas que comprariam esse trabalho.

Em 1993 a Shoesstring Records lançou no Reino Unido, no formato CD, contendo mais cinco composições e uma edição limitada de 1.000 cópias. Em 1994 esta mesma gravadora lançou, agora no formato LP, também no Reino Unido, contendo mais duas composições e uma edição limitada de 500 cópias.

Em 2002 a Progressive Line lançou, em CD, com mais cinco músicas, uma versão não licenciada. Em 2004 a Radioactive Records lançou discos e vinis pelo Reino Unido também com versões não licenciadas, bem como a Sunrise Records que lançou, em CD, na Alemanha, versões não licenciadas.

Em 2011, a Esoteric Records lançou um álbum, em CD, no Reino Unido, com mais seis músicas. Porém, mais versões não licenciadas foram lançadas entre 2014 e 2021, incluindo selos como Acid Nightmare, a Ethelion Records, a Magic Box Records e a Prog Records.

Com o escasso apoio da gravadora e a rejeição dos donos de lojas em vender um álbum com uma capa, para eles, grotesca e nojenta, o The Norman Haines Band iria decretar o seu fim, ainda em 1971, ano do lançamento de seu único álbum. Norman tentou a última sacada, em 1972, e gravou algumas demos, que acabou, diante desses relançamentos, por serem incluídas em “Den of Iniquity”, como “Give It To You Girl" e “Elaine”. "Give It To You Girl", uma melodia pop matadora liderada por sua voz brilhante e piano elétrico. Isso mostra o crescente gosto de Norman pela percussão latina e nos dá uma amostra do que poderia ter vindo a seguir.

Norman caiu na estrada usando o nome “The Locomotive”, porque ele estava muito endividado e precisava de grana para pagar as suas dívidas e nada como usar o nome “The Locomotive” que te trouxe algum sucesso na música, apesar de tão efêmero. Mas de nada adiantou! Desiludido e revoltado com o mundo da música se retirou melancolicamente, recusando, inclusive, uma proposta de entrar na jovem e promissora Black Sabbath, sumindo do mercado da música.

Haines entraria no ramo de construção e até montou uma banda que tocava em casamentos e eventos de danças locais, o que ele ainda faz até os dias de hoje. Eu pergunto a você, estimado leitor: Será que a maioria das pessoas para quem ele e a sua banda toca hoje em dia, percebe o músico brilhante que realmente ele é? A história, que foi pouco gentil com ele, será, no futuro, a redentora de seu talento pouco aproveitado por uma série de tristes circunstâncias? O fato é que Haines e sua banda foi deveras essencial para o rock n’ roll de Birmingham no início dos anos 1970.





A banda:

Neil Clark na guitarra

Andy Hughes no baixo, vocais

Jimm Skidmore na bateria, percussão

Norman Haines no órgão, piano, vocais

 

Faixas:

1 - Den of Iniquity

2 - Finding My Way Home

3 - Everything You See (Mr Armageddon)

4 - When I Came Down

5 - Bourgeois

6 - Rabbits

        a) Sonata (For Singing Pig)

        b) Joint Effort

        c) Skidpatch

        d) Miracle



"Den of Iniquity" (1971)
























sábado, 8 de março de 2025

Stonehouse - Stonehouse Creek (1971)

 

Devonport, Inglaterra. Lá começa a história de James (Jimmy) Smith. Ele foi criado em uma família numerosa, grande, tinha dez irmãos! Quando ele tinha sete anos de idade estava brincando na rua juntamente com três de seus irmãos quando um carro, que ele não conseguia identificar, parou. Algumas pessoas desceram dele e lhes deram roupas. Eram muito bonitas! Mais bonitas do que ele e seus irmãos usavam. Essas pessoas o levaram, juntamente com seus irmãos para Brixham, em Paignton, Devon.

Eles não entenderam nada, estavam confusos. Depois que eles perceberam que foram levados para um orfanato e deixados lá! Descobriu, seis meses depois, que sua mãe estava muito doente, sofria de câncer, morrendo em seguida. Seu pai, estava na Marinha, no HMS Ark Royal, então ele não tinha condições de cuidar de Jimmy e de seus irmãos, afinal viajava muito. Era um orfanato naval e por lá tinham bandas, então o já adolescente Jimmy, com doze anos de idade, entrou para a banda naval como baterista lateral, além de tocar corneta também. Naquele local foi o seu primeiro contato com a música.

Ele sentiu que era sua aptidão natural, até porque ele pegava as notas musicais com muita facilidade, as tocava maravilhosamente. Aos quinze anos, o jovem James Smith deixou o orfanato e foi morar com a irmã em Plymouth. Entrou para um pequeno clube de boxe para jovens e por lá ficou um tempo. E nesse clube me perguntaram a ele se gostaria de se juntar a uma banda. Eles sabiam que o jovem James tinha participado da banda naval do orfanato.

Ele aceitou a sugestão! Conseguiu uma bateria barata, um kit de bateria em tamanho real e começou a tocar coisas como “The Shadows” e, a partir daí se desenvolveu aos poucos. Ele tocou em algumas bandas, dessas amadoras, locais, mas sentia que não era bom o suficiente. Nunca foi treinado em música, nunca aprendeu a ler músicas. Suas habilidades se desenvolveram apenas estudando outros músicos. Ia para casa e trabalhava pouco a pouco no que ouvia.

Quando James tinha cerca de dezesseis anos estava tocando em uma banda em um show, em um cinema em Devonport, Plymouth. Eles estavam dando suporte aos shows do The Who. Naquela noite viu Roger Daltrey vestindo uma jaqueta trespassada com listras e pensou que era o mundo do rock em que queria estar! A banda em que estava foi até tocar na Alemanha, na cidade de Hamburgo, naquele circuito famoso logo depois daqueles shows dos Beatles. Era incrível o que estava vivendo! A banda se chamava “The Crusaders”!

Ele estava mais seguro na bateria, estava tocando melhor, até porque estava tocando regularmente em pequenos clubes sociais e juvenis e começou, contudo, a atrair outros músicos. Quando ele tinha dezessete anos, Pete Spearing, um jovem guitarrista, se aproximou dele. A essa altura James estava se aventurando nos vocais e o fazia simultaneamente com a bateria. Pete foi direto e perguntou se ele queria tocar em uma banda com “três peças”: bateria, baixo e guitarra.

Pete Spearing

Terry Parker, baixista, também muito jovem à época morava em um lugar chamado Southway e já estava na banda que Pete estava formando. Assim foi formado o embrião do STONEHOUSE, banda que falaremos hoje. A concepção da banda era de Pete Spearing, era todo o seu material e ele era um compositor tão prolífico, tão competente. O Stonehouse era a visão de Pete! Na banda já estaria Ian Snow, baterista de formação.

Ian Snow

Antes do Stonehouse Pete Spearing fez uma turnê pela Alemanha, como James, por volta de 1966 ou 1967 e gravou alguns singles para a Deutsche Vogue e até apareceu na TV de Bremen. Ele já tinha alguma experiência quando antes de conceber o Stonehouse. Quando ele retornou ao Reino Unido lançou outros singles na Decca e Columbia. Ganhou alguma repercussão, mas não teve êxito e tão pouco longevidade nesses projetos, daí surgiu a possibilidade de lançar o Stonehouse.

Terry Parker

Com a banda formada a ideia era não soar como ninguém, como banda nenhuma, queriam ser originais e, ao ouvir seu primeiro e único álbum, lançado em 1971, chamado “Stonehouse Creek”, torna-se perceptível isso, mas claro, aqueles jovens músicos tinham as suas influências e, de alguma forma, elas foram impressas no formato sonoro do Stonehouse. O próprio James, que, quando entrou para banda, assumiria os vocais, idolatrava o Free. O seu vocal era de alcance muito alto e potente e isso vem de Paul Rodgers que faria sucesso também no Bad Company. O jovem Jimmy viu várias vezes o Free em Plymouth, em um clube que se chamava “Van Dike”.

Stonehouse

A ideia do nome “Stonehouse” veio da área que Pete morava. A ideia veio dele. Há um lugar chamado “Stonehouse Creek” (nome dado ao álbum), onde mantém barcos embaixo da ponte de Ha’Penny, onde nos séculos XVII e XVII, as costumavam usar, a ponte para atravessar. É uma ponte grande tendo, atualmente, duas faixas para tráfego. Abaixo há o rio Stonehouse (Stonehouse Creek) onde as pessoas, até hoje, usam para pescar e descansar nas bordas da água, fazendo piqueniques ou coisas do tipo.

A cena local era pequena, não existiam tantas bandas e o Stonehouse meio que reinava absoluta fazendo muitos shows, em clubes, sozinhos, sem outras bandas se apresentando. O Stonehouse chegou a fazer shows fora de Devonport e Plymouth, indo para Londres! Tocaram em vários lugares, como The Speakeasy, por exemplo. Se saíram muito bem. O público foi bem receptivo. Cerca vez tocaram em Glastonbury e lá se saíram bem também. O Stonehouse, em virtude das suas apresentações, foi eleito uma das dez melhores bandas da Inglaterra!

O processo de gravação do debut do Stonehouse, o “Stonehouse Creek”, aconteceu quando Pete arranjou uma conversa com um representante da gravadora RCA, depois de um show em que esse mesmo empresário assistiu e ficou maravilhado com a apresentação da banda. Gostou da banda e queria assinar um contrato. Isso em 1971.

“Stonehouse Creek” foi produzido por Mickey Clarke que produziu álbuns da banda Room e Raw Material. O engenheiro de som do álbum foi Barry Ainsworth que trabalhou com Jack Bruce, Beggars Opera, Stud e Continuum, Hawkwind, Deep Purple, The Strawbs, May Blitz e Sam Gopal. Keith MacMillan, também conhecido como “Keef” desenhou a capa do álbum, que é uma superfície de pedra gravada com o nome da banda, o título do álbum e o ano de seu lançamento, 1971. Keef trabalhou em inúmeras capas de bandas de pós-psych, principalmente na gravadora Vertigo e RCA, incluindo Hannibal, cuja resenha pode ser lida aqui, Warhorse, Affinity, Colosseum (“Valentine Suite”), Fresh Maggots, Tonton Macoute, Spring e Cressida.

O único trabalho do Stonehouse foi concebido nos estúdios Command, inicialmente lá pelo ano de 1970 sendo concluído em 1971, ano de seu lançamento. Foi dado à banda apenas, pasmem, um dia para gravarem o seu álbum e isso se deu devido a economia que a gravadora, afinal era uma banda sem projeção então não seria, na percepção da gravadora, arriscar, ser mais conservadores quanto ao investimento do Stonerhouse. Mas a banda não ficou um dia inteiro no estúdio, concluindo a gravação em doze horas!


Command Studios

Eles correram contra o tempo! E trabalho, para terem, caros leitores, uma noção, de guitarra de Pete foi feito, ao vivo, em estúdio, em apenas uma vez, sem repetição! Então bons amigos leitores, não cobrem sofisticação e qualidade do som da banda diante desse cenário, mas, convenhamos, esse foi o “charme” do álbum. Outro ponto curioso no processo de gravação foi a adição do piano em algumas faixas que não foi inserido pela banda, mas foi após a gravação do álbum, sem o consentimento da banda. E eles nunca souberam quem foi o músico que tocou o piano nas faixas e tão pouco foi creditado nos encartes do álbum do Stonehouse.

“Stonehouse Creek” é um petardo, um volumoso e potente hard rock que traz nuances de um blues rock vigoroso e eletrificado, distorcido, com riffs potentes de guitarra, uma “cozinha” pesada, cheia de groove e bem entrosada, com um vocal poderoso, alto que poderia fazer inveja a muitos vocalistas de heavy metal dos anos 1980! A propósito é perceptível, em grande parte das faixas, um heavy metal de vanguarda, um proto metal de tirar o fôlego!

A faixa inaugural, a faixa título “Stonehouse Creek” é um ponto fora da curva, algo totalmente diferente do hard rock poderoso praticado pela banda ao longo de seu único trabalho. É uma faixa curta, leve, quase que uma vibe meio folk rock, com um vocal limpo e melódico. Mas com “Hobo” a vibração do blues rock se revela. Essa faixa estabelece as habilidades rígidas e pesadas da banda. A bateria meio funky de Ian, os “licks” ágeis de blues de Peter, as linhas pulsantes de baixo de Terry e os versáteis vocais de amplo alcance de Jim faz da música complexa, pesada, austera.

"Stomehouse Creek" 

A segunda faixa é um verdadeiro destaque do álbum, "Cheater", com a performance apaixonada e taciturna de Jim combinando com o riff de blues carregado de desgraça de Pete, entregando o melhor do blues e do hard em uma combinação explosiva e perigosa, deliciosamente perigosa. “Nightmare” abre com a linha de baixo peculiar e com pitadas de prog rock de Terry, com alguns “enfeites” do piano, primeira faixa do álbum em que o instrumento aparece. Mas por mais que não tenha sido inserido pela banda é bem tocado, sem exageros e combina muito bem com a vibração do hard rock!

"Cheater"

“Crazy White Folk” te remete, sobretudo na sua introdução, ao Cream. Os riffs lembram Clapton, repletos de um blues rock envenenado, poderoso e lisérgico. Os vocais de Jimmy são muito altos, potentes. Logo são ouvidos solos dançantes de guitarra que te leva aos anos 1960 com muito ácido e LSD para estimular a viagem. “Down Down” começa animada, com riffs de guitarra mais solares, algo radiofônico, talvez, mas pesado e cheio de ritmo e balanço. É inegável a pessoa não conseguir dançar com essa faixa.

"Crazy White Folk"

“Ain't No Game” traz de volta o hard rock puro e genuíno, mas um pouco mais cadenciado. Sons pesados, bateria pegando pesado, marcada e pesada, baixo pulsante, vocal mais melódico e limpo. Uma das melhores faixas do álbum. “Don't Push Me” continua no hard rock e o riff inicial talvez seja o mais sujo e pesado do álbum. Jimmy volta com seu vocal potente, alto, rasgado, quase que gritado. A bateria segue a mesma proposta de agressividade. Tudo é distorcido nessa faixa, é agressivo, é pesado.

"Don't Push Me"

“Topaz” é uma faixa instrumental compacta e cheia de groove. Nela há uma incrível liberdade criativa dos músicos, me faz lembrar até mesmo uma jam session, com instrumentos muito bem executados. “Four Letter Word” traz novamente aquelas lembranças do rock psicodélico, porém mais pesados, aquela lisergia, ácida. Vocal de Jimmy mais contidos, em alguns momentos. E fecha, novamente, com a faixa título, “Stonehouse Creek” que basicamente é uma continuação da primeira música, mais lenta, uma balada contemplativa e viajante.

"Four Letter World"

O Stonehouse não teve nenhuma música executada nas rádios, não teve nenhum single definido entre a gravadora e a banda para divulgar o “Stonehouse Creek”. Tornou-se, contudo, inevitável a separação da banda ainda em 1971, no mesmo ano de lançamento de seu único trabalho de estúdio. O motivo ou os motivos nunca pairaram em brigas, guerras de egos ou coisa que o valha.

A banda se dava muito bem, mas as pressões, sobretudo para Pete, que era a mente pensante por trás da banda, foram maiores, principalmente porque ele havia se casado logo quando o álbum foi lançado e tinha nascido a sua filha, então seria muito difícil para ele seguir em turnê tendo uma filha pequena e esposa sozinhas. E ainda tinha o retorno difícil de como a banda estava seguindo, sem sucesso, sem vendas de álbuns etc.

Antes de finalizar as suas atividades o Stonehouse saiu em uma pequena turnê para promover o álbum e tocou para um público de cerca de 200 a 300 pessoas. A banda nunca recebeu um centavo da gravadora, nunca promoveram a banda, a ponto dos caras das bandas terem que sair, por conta própria, e buscar os seus próprios promotores de shows. Mas não conseguiam sempre encontrar uma pessoa que os promovesse.

Smith e Snow se juntariam a uma banda chamada Asgærd, uma combinação folk que lançou o álbum “In The Realm of Asgærd”, em 1972. Pete também esteve brevemente envolvido com essa banda. “Stonerhouse Creek” foi relançado pela primeira vez, não oficialmente, em 1993 pelo selo Angel Darling. Desde 2007 o álbum foi relançado três vezes pelo selo Universum Records, um selo alemão.


A banda:

Pete Spearing na guitarra e letrista da banda

Ian Snow na bateria

Terry Parker no baixo

James (Jimmy) Smith nos vocais

 

Faixas:

1 - Stonehouse Creek

2 - Hobo

3 - Cheater

4 - Nightmare

5 - Crazy White Folk

6 - Down, Down

7 - Ain't No Game

8 - Don't Push Me

9 - Topaz

10 - Four Letter Word

11- Stonehouse Creek (reprise)





"Stonehouse Creek" (1971)