sábado, 26 de setembro de 2020

After All - After All (1969)

 

O After All poderia ser só mais uma banda que pereceu precocemente sendo esquecida e relegada, excluída de nossas pretensões de audição ou ser meramente um “produto”, uma edição de colecionador, aquela para compor o catálogo de vinis de algum audiófilo espalhado pelo mundo. Todavia não encaro por esse prisma. Em meus garimpos em busca de novas bandas antigas vilipendiadas pelo público e pelo tempo, descobri recentemente a banda americana After All e ávido por descobrir mais e mais sobre o rock progressivo norte americano essa banda se deparou diante dos meus olhos de uma forma tão ocasional que, ao ouvi-la fui tomado por um arrebatamento que me pergunto, como sempre, e de uma forma veemente, como que uma banda como o After All não tem o seu devido crédito, não tem o seu devido lugar de destaque e pioneirismo na história do prog rock da terra do Tio Sam? Digo pioneirismo não pelo fato cronológico, pois o seu único álbum, lançado no longínquo ano de 1969, mas também pela sua vanguardista sonoridade que, na transição da década de 1960 para a de 1970, já se desenhava um progressivo embrionário com aquela pegada psicodélica, lisérgica, típica, é claro, daquele ano, tempos áureos do referido estilo, com o Woodstock ditando o ritmo e o comportamento também. Sim, caros e dignos leitores, o After All, diante de sua magnânima obscuridade, pode ser considerada como uma das pioneiras do rock progressivo norte americano! A banda que foi o pilar, o sustentáculo para a edificação de um estilo que entregou grandes bandas, apesar de sua maioria pouco conhecidas, mais prolíficas e que não lhe deram o crédito, apesar de fugaz e circunstancial para muitos. Finalmente as mídias sociais e a tecnologia da informação fez jus a essa banda e fez com que eu a descobrisse e que esteja me estimulando a redigir algumas linhas sobre a sua história obscura. Os quatro integrantes que compuseram o After All eram amigos e conhecidos, experientes no circuito de rock de Tallahassee, Flórida e juntos aprimoraram, ainda mais, as suas habilidades. São eles: Bill Moon nos vocais e baixo, Charlie short na guitarra, Alan Gold nos teclados e Mark Ellerbee na bateria e vocais.

After All

E isso se nota, nobres amigos leitores, nos arranjos, na melodia das músicas deste único álbum lançado pelo After All. Essa experiência pesou e muito na qualidade de sua música que, logo no seu debut, está belissimamente em evidência aos ouvidos e alma de quem faz uma audição de peito e mente abertas. Um álbum híbrido, como era naquelas épocas de experimentação e inquietude criativa, com levadas jazzísticas, de proto prog, de rock psicodélico, de lirismo, delicadeza, elegância...Uma mescla sonora que é digna de audição realmente. Mas, apesar de o After All ter um combo de quatro excelentes músicos não podemos negligenciar a história de uma poetisa, de uma cantora que esteve por trás desse músico que, apesar de ter sido de forma discreta foi imprescindível para a concepção desse álbum de 1969 da banda. Falo de Linda Hargrove. Linda, nascida também em Tallahassee, na Flórida, em 3 de fevereiro de 1949 foi uma cantora, compositora e poetisa e se aventurou com sucesso na música country norte americana. Ela escreveu muitas músicas de sucesso para muitas bandas e cantores de sucesso do estilo e teve uma grande visibilidade na década de 1970. Linda era conhecida como "The Blue Jean Country Queen", pois se apresentava em seus shows de jeans e sem aquela maquiagem elaborada que outras cantoras country usavam. 

Linda Hargrove

Linda Hargrove, então apenas com vinte anos de idade, se juntou com o After All e ofereceu a eles vários de seus poemas e os caras gostaram no ato! Ela tinha uma capacidade inventiva de criar, elaborar seus poemas para serem cantadas por homens, para homens, ela tinha uma incrível capacidade para adentrar a mente masculina. Era isso que muitos dos músicos de sua geração e que teve, de alguma forma, contato com ela, diziam a seu respeito. Mas não foi apenas a sua capacidade de criação de poemas que fez com que o After All se juntar com a jovem e talentosa Linda. Ela, à época, já estava construindo uma bela reputação na cena local de Tallahassee e tinha sido membro de uma banda dessa região chamada “The Other Side”, em 1967 e gravou inclusive, neste mesmo ano, um álbum com uma veia meio folk rock.

Álbum da banda "The Other Side" com Linda Hargrove

Mas Linda também encontrou no After All um grande parceiro, o baterista e vocalista Mark Ellerbee que praticamente compôs todas as músicas do álbum. E essa harmonização sonora entre Ellerbee e Hargrove foi sensacional! Essa parceria trouxe a banda, às suas músicas uma textura complexa, com uma atmosfera surreal, diria até sombria e contemplativa graças também a já dita experiência dos músicos que fez com que aflorasse nas músicas toda essa complexidade: jazz, rock, psicodélico, progressivo de vanguarda, folk. Uma verdadeira miscelânea que fez do After All importante para a sua cena, ou melhor, foi um verdadeiro desbravador do estilo em seu país. E essa experiência aliada a alguma reputação que criaram surtiu também alguns relacionamentos, aproximações com alguma pessoas, do mundo da música, que os ajudaram na caminhada para o lançamento do seu tão esperado novo trabalho. Os caras conheciam um produtor de Nashville e este estava disposto a gravar um material específico, algo diferente, novo com a banda e melhor: sem nenhum custo adicional por isso, desde que fizesse a gravação desse trabalho rapidamente para não extrapolar nos custos. Então o After All entrou em estúdio no ano de 1969 e gravaram, em poucos dias, “After All”. O lançamento se deu pela Athena Records em poucas cópias, tendo uma tímida e contida venda consequentemente.

Então vamos finalmente as notáveis e surreais músicas desse clássico obscuro. Comecemos com “Intangible She” faz jus ao nome, tão lisérgica que parece nos fazer sair do chão, algo intangível, mas que rompe a nossa alma de forma tão avassaladora que as vezes não temos palavras para descrever. Mas o início da música tem uma levada jazzística capitaneada pela bateria e um órgão envenenado e poderoso e que logo surge um vocal imperioso e grave chapante, que te faz viajar maravilhosamente. A psicodelia e o progressivo, ainda lactente, flertam cosmicamente, lindamente. Pura vanguarda! E o que dizer do solo de guitarra direto e muito bem executado? Que começo!

After All - "Intangible She"

“Blue Satin” traz um tom melancólico, isso é perceptível no vocal. Os instrumentos acompanham essa atmosfera soturna, e mediando isso temos aquela “vibe” jazzy também e que traz o lado mais solar à música e que de “quebra” entrega alguns solos curtos e lisérgicos de guitarra, mas o destaque fica realmente para a “cozinha” da banda. A sinergia entre o baixo e a bateria traz esse tempero mais jazz da música. “Blue Satin” conta a história de um cara que foi longe demais com uma garota. Em sua mente, ela cresceu e se tornou uma mulher, mas apenas em sua mente. Mais tarde, ele chora pelo que fez e como a amou “de sua maneira mesquinha e egoísta”, mas é tarde demais.

After All - "Blue Satin"

“Nothing Left To Do” introduz suavemente, um lindo e discreto piano traz o pano de fundo para um vocal limpo, mas cantado quase que de forma sussurrada e assim permanece até a aurora de uma bateria, mais uma vez, jazzística, envolta em um clima psicodélico, sendo adicionada por surtos de guitarra com solos curtos e diretos e aos poucos vai aumentando o tom, a música vai ganhando vida e irrompe em uma hecatombe de instrumentos e um vocal agora alto e rasgado, cantado de forma raivosa, diria. Mas logo volta a introspecção. Isso é um exemplo de música progressiva: cheia de contrastes sonoros, alternâncias rítmicas. Excelente!

After All - "Nothing Left To Do"

“And I Will Follow” traz uma proposta lenta e viajante e o vocal se faz, mais uma vez, em pleno destaque. A faixa me remete a algo inteiramente psicodélico, algo do seu tempo e os teclados chapantes dão o tom da música, sem dúvida alguma. “Let It Fly”, por outro lado, é a antítese da faixa anterior, tem um balanço, um groove e a levada dos riffs da guitarra entrega isso plenamente. Essa faixa é o exemplo crucial das habilidades da banda e da sua capacidade de flertar com muitas vertentes sem pestanejar e deixar quaisquer dúvidas quanto ao talento desses músicos.

After All - "And I Will Follow"

After All - "Let It Fly"

“Now What Are You Looking For?” talvez sintetize com fidelidade, diria, a minha percepção em relação ao prog rock de vanguarda deste álbum do After All. Uma música cheia de vivacidade, poderosa, complexa e o teclado tem o protagonismo nessa faixa. “A Face That Doesn't Matter” segue a mesma proposta da faixa anterior trazendo aquele clima meio sinistro e sombrio, em tom meio profético que nos faz lembrar The Doors, por exemplo. A faixa remete ao beat dos anos 1960, até bem dançante, contrastando com o clima meio pessimista antes analisado.

After All - "A Face That Doesn't Matter"

E fecha com a faixa “Waiting” que privilegia o belo trabalho de vocalização, entregando, mais uma vez, uma música lisérgica, lembrando os belos trabalhos psicodélicos de bandas como Vanilla Fudge, por exemplo, outro baluarte da música norte americana. O salutar duelo entre guitarra e teclado traz um contexto variado a música e a bateria entrega um desfecho jazzístico a música. Fechando em grande estilo. Após o lançamento do álbum, a banda se separou e seguiu caminhos separados, cada um com sua carreira, mas localmente, retornando para Flórida, embora continuassem amigos. Já Linda Hargrove, após ter seguido com a banda para Nashville para gravar o álbum, ficou por lá e decidiu enveredar a sua carreira no mundo do country music e depois de ter gravado um álbum obscuro foi apresentado ao ex- Monkee Mike Nesmith que a contratou para o seu selo country. Sua carreira parecia estar em franca ascensão quando foi diagnosticada com leucemia. Hargrove conseguiu se recuperar e retomar a sua carreira. Morreu em outubro de 2010. O álbum “After All” teve um renascimento em 2000-2001, quando foi relançado pelo selo “Gear Fab”. Graças a esse relançamento esse clássico obscuro e raro pode ser ouvido pelo máximo número de pessoas possível. E assim que tem de ser: boa música, independente de ser ou não de bandas consagradas, precisam ganhar luz e impactar, de forma avassaladora as mentes, os ouvidos e a alma de um bom audiófilo. E assim é o After All e seu único e nada fugaz álbum. Uma pérola!



A banda:

Bill Moon nos vocais e baixo

Charlie Short na guitarra

Alan Gold nos teclados

Mark Ellerbee na bateria e vocais

Faixas:

1 - Intangible She

2 - Blue Satin

3 - Nothing Left To Do

4 - And I Will Follow

5 - Let It Fly

6 - Now What Are You Looking For?

7 - A Face That Doesn't Matter

8 - Waiting




 

 

 

 

 

 


























4 comentários:

  1. Estou ouvindo agora. Surpreendente! Gostei muito do seu texto. Parabéns.

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    1. É uma excelente banda mesmo! Mais uma obscura banda que merecia algo mais em sua história. Obrigado por ler e pelos elogios.

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  2. Banda incrível e a resenha sensacional. Sempre um prazer imenso visitar esse blog.

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    1. Querido amigo Anderson é um prazer imenso saber que tem lido as minhas humildes resenhas e de que também está curtindo o blog. Sem dúvida que essa banda é foda demais e a história dela inspira qualquer um resenhar! Mais uma vez agradeço por ter lido e pelas elogiosas palavras!

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