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sábado, 24 de janeiro de 2026

Grupo Um - Marcha Sobre a Cidade (1979)

 

A segunda metade dos anos 1970 a música instrumental estava passando por uma série de mudanças mercadológicas e estéticas, principalmente diante de um cenário em que o punk, a música “disco” e a new wave começava a ganhar tendência entre os jovens e que logo se revelaria em uma onda modista que ganharia o cerne das atenções.

Mas no Brasil estava começando uma abertura por intermédio de lançamentos independentes. Na Europa existia um movimento em torno da gravadora ECM Records, que lançava álbuns de jazz com uma estética própria. Nos Estados Unidos existiam várias tendências, desde o radicalismo tradicionalista até o experimentalismo eletrônico que se desdobrava em vários novos “formatos” sonoros. E nesse contexto que, apesar do sucesso comercial do punk, da “disco” e da “new wave”, que a música instrumental estava ganhando novas roupagens.

E a banda brasileira chamada GRUPO UM surgiria exatamente nessa efervescência. A banda nasceria, embrionariamente, em 1976, período em que Zé Eduardo Nazário, bateria e percussão, Lelo Nazário, pianos e teclados e Zeca Assumpção formava a banda “Cozinha Paulista”, de Hermeto Pascoal. Durante os períodos em que Hermeto se ausentava para algum trabalho fora do Brasil ou quando não tinha shows agendados, o trio se reunia na casa de Zé Nazário, na Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, para ensaiar, para tocar.

Grupo Um com Hermeto Pascoal no MAM (1976)

Em julho de 1976, ao lado de Luiz Roberto Oliveira, dos irmãos Nazário (Zé e Lelo), o Grupo Um realizou o seu primeiro show e com um sintetizador eletrônico, um ARP 2600), um dos primeiros que se tinha notícia no Brasil à época. A instrumentação contava com piano acústico e elétrico, fita pré-gravada (lançada a partir de um gravador), bateria e percussão, o que incluía, entre outras coisas, objetos diversos que eram quebrados dentro de uma enorme bacia, constatando uma incrível capacidade de improvisação, experimentalismo e minimalismo musical. No show teve até a pausa para o café!

Grupo Um

Nesse período o grupo Um gravou trilhas sonoras para filmes (longas-metragens e científicos) e até mesmo música para balé, como o “Transformations”, do coreógrafo japonês Takao Kusuno. Em 1977, quando a banda deixou efetivamente de seguir com os shows com Hermeto Pascoal, o Grupo Um fez a sua primeira sessão de estúdio, no “Vice-Versa B”, que pertencia ao maestro Rogério Duprat, já contando com a participação de Roberto Sion, no sax soprano e Carlinhos Gonçalves, na percussão.

A gravação era feita em poucas tomadas, com todos tocando juntos e em um espaço bastante limitado, simultaneamente, sem “play back”, como manda a tradição. A banda gostou muito do resultado e o próximo passo era levar o material gravado para às gravadoras. Os músicos perderam meses, recebendo sempre respostas negativas. Mas seguiram com seus ensaios e realizando algumas apresentações.

O trabalho com Egberto Gismonti, que se iniciou em 1977, obrigou o Zé Eduardo Nazário a abandonar o projeto do Grupo Um por algum tempo, muito em função das viagens, ensaios e gravações. Ao retornar da turnê “Tropical Jazz Rock”, em maio de 1979, se desligou finalmente do “Academia de Danças” e voltou a trabalhar com Lelo e Zeca no Grupo Um, organizando nova sessão de gravação no mesmo estúdio “Vice-Versa B”, pequeno e sem a estrutura adequada, afinal era tudo que o dinheiro dos músicos podia pagar.

Gismonti com Grupo Um 

Mauro Senise, saxofonista, foi convidado, Carlinhos Gonçalves, percussionista, foi mantido e dessa sessão, entre 26 e 27 de setembro de 1979, registrada quase que efetivamente “ao vivo”. Assim surgia o primeiro álbum, lançado oficialmente, naquele mesmo ano “Marcha Sobre a Cidade”, conhecido como o primeiro trabalho de música instrumental independente no Brasil que se tenha notícia, em uma tiragem de 1.000 cópias. Vale como registro histórico que o lado “A” inteiro foi gravado em uma única tomada, afinal, não tinha estrutura e dinheiro para longas e longas sessões.

Mauro, Zeca, Felix, Lelo e Zé

A estreia do novo trabalho foi no Teatro Lira Paulistana, a “meca” das bandas independentes, fazendo história no Brasil durante os anos 1980. “Marcha Sobre a Cidade” recebeu ótimas críticas, vide os recortes de jornais e revistas que foram publicadas à época e foi apresentado ao público em várias regiões brasileiras, nas suas principais capitais.

 

Grupo Um em ação no Lira Paulistana (1981)

O reconhecimento foi considerável a ponto de ganhar terras europeias e em 1983 o álbum foi lançado na França, pelo selo Syracuse, com uma capa bem diferente do original. O Grupo Um realizou uma turnê naquele país e visitando também a Suíça, tendo participado do Festival de Jazz de Grenoble e nas cidades de Toulose, Montpellier e Pari, onde gravou um show no “Studio 106”, da Raio France e se apresentou na conhecida casa de jazz “New Morning”, além de ter gravado com o cantor e compositor francês Frederic Pagés o álbum “Chansons Mètisses”, finalizando a turnê em Genebra. A banda estava no seu auge!

“Marcha Sobre a Cidade” é calcado primordialmente no jazz, no jazz fusion, com experimentações e improvisações rítmicas e melódicas incríveis, estimulantes e até mesmo intrigantes, com construções que trazem referências do rock n’ roll, a música brasileira e música africana, graças ao seu trabalho ousado na percussão. O debut do Grupo Um definitivamente é para quem aprecia um som ousado e pouco usual, que entrega um minimalismo ao extremo, que lembra o krautrock germânico, com texturas experimentais e variações e desafios sonoros.

O primeiro álbum do Grupo Um estava longe de ser maçante, por conta das inúmeras improvisações e experimentalismos. Ele dispunha de uma estimulante pulsação, porque trazia o conceito regional muito acentuado, texturas tipicamente brasileiras e africanas, um genuíno “beat” brasileiro, um legítimo e solar free jazz brasileiro.

O álbum é inaugurado com a faixa “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]” que já começa com o excelente trabalho de percussão ao estilo música brasileira, a brasilidade mesclada a jazz rock, com um trabalho, igualmente excelente, do sax, melódico e dançante. Assim é a faixa: dançante, cheia de energia, animada. Entre solos rápidos de bateria e de sax, a música vai ficando mais encorpada, um jazz fusion com a cara do Brasil, o balanço do baixo, o frenesi dos teclados. Uma música incendiária para abrir o álbum.

 “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]”

Segue com “Sangue De Negro” que traz um caráter, uma textura mais experimental, com solos de bateria, trazendo um jazz mais “root”, mas por outro lado percebe-se algo mais minimalista, que me remete a um krautrock, com pitadas psicodélicas. Porém, ao longo da música, vai ganhando mais corpo com a bateria mais pesada, um fusion novamente, mas logo retoma o experimentalismo kraut.

"Sangue de Negro"

A faixa título, “Marcha Sobre A Cidade”, se revela mais a cara do álbum, um jazz contemporâneo, com a pegada fusion, a pitada mais pesada. Por vezes contemplativa e viajante, graças a linda execução do sax. É progressiva, cheia de viradas rítmicas, é psicodélica, é lisérgica, é experimental, é viva, é latente. Se mostra complexa, versátil. Aqui a banda está em nível criativo e de improvisação únicos. Sem dúvida uma das melhores faixas do álbum.

"Marcha Sobre a Cidade" - Ao vivo (1980)

“A Porta do ”Sem Nexo” mescla o free jazz, com a sonoridade experimental bem evidente, trazendo uma versão mais kraut, experimental, com ruídos, sons mais introspectivos, diria algo soturno, sombrio. Flautas, percussão, teclados, tudo trazendo texturas minimalistas e ousadas para a sua época. Definitivamente “Marcha Sobre a Cidade” é um álbum à frente do seu tempo.

"A Porta do Sem Nexo" - Ao vivo (1980)

“54754-P(4)-D(3)-0” segue com um jazz fusion mais puro e genuíno. Aqui é a música mais nervosa, um sax mais frenético e cheio de energia e até mesmo desconcertante, poderoso. A bateria segue batendo forte também, em um “duelo” mais do salutar com o sax. As teclas não ficam atrás, cheio de energia!

“54754-P(4)-D(3)-0”

E fecha com “Dala” que linda, viajante e contemplativa, segue, reinando absoluta durante toda a música, com um piano ao fundo que, em uma textura acústica, estica o tapete vermelho para o protagonismo do sax.

"Dala"

“Marcha Sobre a Cidade”, mesmo sendo um dos primeiros ou o primeiro álbum de música instrumental concebido de forma independente no Brasil, atingiu, de forma inacreditável, um sucesso que parecia, diante desse cenário, inimaginável. Era como se tivesse passado pelo buraco de uma agulha, trazia luz a um caminho escuro e completamente tortuoso que era do jazz fusion, da música experimental e instrumental em um país, em um mundo onde reinava o punk, a “disco music” e a new wave.

Era a possibilidade de abrir um caminho, com a sua luz, sendo um farol para tantas outras bandas que quisessem seguir a trilha, uma nova estrada para lograr um objetivo maior. Este lugar, ainda não explorado, situava-se além da fronteira do permitido, que era fortemente guardada pelos “baluartes” e “arautos” do colonialismo provinciano, que só abriam as portas para os que chegassem do exterior, mesmo que tivessem saído daqui, voltando depois com o selo de “importado”, para que pudessem ser “legalizados” e aceitos no meio artístico e no show business, principalmente em se tratando de música instrumental.

Os anos 1980 entraram e foram frutíferos para o Grupo Um. Foram gratificantes porque os músicos mostraram suas caras com seus próprios nomes, sem a tutela de quem quer que fosse, sendo músico, empresário ou produtor. Eles estavam conseguindo mostrar a sua música “louca” para o máximo de pessoas possível, mesmo que trafegando na zona underground. Estavam ganhando visibilidade, tanto que Carlinhos Gonçalves recebeu um convite para tocar na Austrália, sendo sucesso por muitos anos. Zeca Assumpção optou por mudar-se para o rio de Janeiro, em vistas das boas propostas de trabalho que surgiram. Em seu lugar ficou seu melhor aluno, que acompanhava de perto as apresentações do Grupo Um, esse era Rodolfo Stroeter que permaneceu na banda até a sua dissolução, em 1984.

Outro que se juntaria ao Grupo Um era Felix Wagner, nascido na Alemanha e vivendo, desde adolescente no Brasil. Paralelamente ele integrou com Lelo e Rodolfo o “Symmetric Ensemble”, uma banda composta por dois pianos e um baixo!

Em 1981 o Symmetric Ensemble faria uma turnê importante para a Europa cabendo a Zé Eduardo Nazário continuar com o Grupo Um. Além de Mauro Senise, participaram o pianista Nelson Ayres e os baixistas Evaldo Guedes em algumas oportunidades e Paulinho Soveral em outras, mantendo a banda em atividade, fazendo alguns shows.

Quando o resto da banda retornou dessa viagem à Europa, decidiram se reunir para iniciar o trabalho do segundo álbum, com novas composições que que Lelo vinha desenvolvendo. Assim nasceria para o mundo “Reflexões sobre a Crise do Desejo”, lançado em 1981, nos estúdios JV, dos músicos Vicente Sálvia e Edgard Gianullo, em São Paulo, que tinha um bom equipamento e contava com um excelente técnico, Sérgio Kenji Okuda (Shao-Lin), jovem, mas com bastante experiência e atento às nossas necessidades para colher o melhor resultado possível. O álbum foi considerado pela revista Manchete um dos dez melhores de 1981, além de conquistar elogios em resenhas dos mais conceituados críticos de música da época, colocando a produção independente no mais destacado patamar até então atingido por qualquer músico ou banda instrumental no Brasil.

"Reflexões Sobre a Crise do Desejo" (1981)

Em 1982 iniciaria a fase mais “colorida” do trabalho da banda, a começar pela capa do terceiro álbum do Grupo Um, “A Flor de Plástico Incinerada”. Esse LP foi gravado em outubro, época que marcou o início de uma transição nas carreiras dos jovens e talentosos músicos, sendo a eles oferecido o custeio da gravação e da produção gráfica do novo disco pelo selo “Lira Instrumental”, criado por um acordo entre o Teatro Lira Paulistana em parceria com a gravadora Continental e artistas que vinham apresentando trabalhos com regularidade na programação do teatro localizado à Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, São Paulo.

"A Flor de Plástico Incinerada" (1983)

Isso se devia ao notável crescimento das bandas de música instrumental, que passaram a ser vistos como um “filão” comercialmente explorável. Nesse mesmo pacote foi oferecido a zé Eduardo Nazário também o custeio da gravação e produção gráfica de seu primeiro álbum solo, “Poema da Gota Serena”, que foi realizada no mesmo estúdio (J.V.) e no mesmo período em que foram feitas as gravações de “A Flor de Plástico Incinerada”. Além disso, foram oferecidas também as passagens para a turnê europeia do Grupo Um, onde seria lançada a versão francesa do LP “Marcha sobre a Cidade” pela gravadora parisiense “Syracuse”.

Grupo Um no aniversário de São Paulo (1983)

A banda faria uma pausa em 1984 e que se tornaria um hiato por mais de trinta anos quando decidem retornar em 2015, gravando um registro ao vivo chamado “Uma Lenda ao Vivo”, em 2016. O show, gravado no dia 20 de agosto de 2015, no Teatro Sec Pompeia, foi diante de uma plateia atenta e afetuosa e é um registro da noite memorável que marcou a volta do Grupo Um aos palcos e que assinalaria outro fato marcante: os 40 anos da fundação da banda.

Grupo Um - SESC Instrumental Brasil (Ao Vivo)

"Uma lenda Ao Vivo" (2015)

As incursões pelo free jazz; pelo primitivismo étnico; pelo abstracionismo da música impressionista; pela fragmentação da música minimalista; pelos ruídos pelas células harmônicas e melódicas da música contemporânea; bem como pelas harmonias complexas da música brasileira; além das inúmeras experiências atonais do jazz contemporâneo, projetam o Grupo Um para além do música plástica e careta e muito próximo do experimentalismo e das improvisações livres de qualquer coisa modista e sempre “escravo” da criatividade sem arestas. “Marcha Sobre a Cidade” lançado de forma independente em 1979, com segunda edição pelo selo Lira Paulistana. Lançado na França pelo selo Syracuse em 1983. Reeditado em CD pela Editio Princeps em 2002.




A banda:

Zé Eduardo Nazario na bateria e percussão

Zeca Assumpção no baixo (Piano na Faixa 6)

Lelo Nazário no piano

Carlinhos Gonçalves na percussão

Com:

Roberto Sion no sax soprano (Faixa 8 – Bônus track)

Mauro Senise na flauta, sax alto e soprano (Faixas de 1 a 7, esta última Bônus Track)

 

Faixas:

1 - [B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]   

2 - Sangue De Negro        

3 - Marcha Sobre A Cidade         

4 - A Porta Do ''Sem Nexo''          

5 - 54754-P(4)-D(3)-0        

6 – Dala

 

Bônus Tracks:         

7 - N'daê      

8.1 - Festa Dos Pássaros 

8.2 - C(2)/9-0.74-K.76



"Marcha Sobre a Cidade" (1979) - Audição aqui!






























































sábado, 19 de julho de 2025

The Norman Haines Band - Den of Iniquity (1971)

 

1965, Birmigham, Inglaterra. A banda “Kansas City Seven”, como o nome sugere, tinham inacreditáveis sete músicos! O único músico conhecido, que tinha algum status, era o tecladista e flautista Chris Wood. Mas não era tanto, afinal, todos, inclusive Wood, eram jovens músicos na época. Para levar a sua música mais longe, alcançar o sucesso, eles decidem mudar o nome da banda para “The Locomotive”. E até conseguem alguma reputação com belas apresentações, de jazz rock, ao vivo.

Mas quando a banda estava começando a decolar, eis que surge a baixa mais considerável! Chris Wood optou por sair do The Locomotive para se juntar ao Traffic, juntamente com Jim Capaldi, Steve Winwood e Dave Manson, e o resto da banda, perdida com o impacto da saída de Wood, decide seguir, um por um, seus caminhos. Apenas Jim Simpson permanece na banda original e coube, claro, a ele, reformular o The Locomotive.

Então ele reúne nomes como Norman Haines e Jo Ellis para continuar com o The Locomotive. A banda lança alguns singles conceituados, que se tornaram conhecidos, figurando em paradas de sucesso no Reino Unido e logo lançam o álbum “We Are Everything You See”, em 1970. A banda entra em colapso, não conseguiu dar sequência a sua jornada e, dessa vez, teve decretado o seu triste fim.

Então ele reúne nomes como Norman Haines e Jo Ellis para continuar com o The Locomotive. A banda lança alguns singles conceituados, que se tornaram conhecidos, figurando em paradas de sucesso no Reino Unido e logo lançam o álbum “We Are Everything You See”, em 1970. A banda entra em colapso, não conseguiu dar sequência a sua jornada e, dessa vez, teve decretado o seu triste fim.

The Locomotive - "We Are Everything You See" (1970)

Coube agora a Norman Haines a dar um norte na banda, fazendo, contudo, mudanças drásticas. Na realidade Haines protagonizou um início a outro projeto, recrutando o guitarrista Neil Clarke, o vocalista e baixista Andy Hughes e o baterista Jimmy Skidmore formando o “The Sacrifice Ensemble”. Mas antes de entrar na história do The Sacrifice Ensemble, convém tecer algumas linhas sobre Norman Haines.

Norman, tecladista e vocalista, começou a sua carreira profissional em uma banda beat, em 1966, chamada “The Brumbeats”, de Birmingham. Quando a banda se separa, Haines torna-se membro do The Locomotive, em 1967, ajudando a Jim Simpson a reformulá-la, pois também sofrera com a debandada de todos os seus músicos e logo assumiu o protagonismo na banda. Tanto que, quando o Locomotive sofreu com a saída da maioria dos seus músicos, teve a competência de reformular e criar um projeto, o The Sacrifice Ensemble.

Então voltando ao The Sacrifice, esta agradou tanto que logo ganharia um contrato com o selo Parlophone Records, em 1970. Esse contrato de gravação custaria o nome da banda, porque os executivos de marketing da gravadora mostraram-se descontentes com o nome da mesma e quando lançaram os singles de estreia da banda, “Daffodil” e “Autumn Mobile”, mudaram, unilateralmente, o nome para “THE NORMAN HAINES BAND”. Sim! Deu o protagonismo para Haines até no nome da banda.

The Norman Haines Band

A banda então, com o seu novo nome e novas expectativas de alcançar o tão almejado sucesso, se reúne no mítico Abbey Road Studios, em 1971, para gravar seu primeiro álbum com essa formação e nome novos. E eis que surge “Den of Iniquity”, naquele mesmo ano. Perfilando o The Norman Haines Band temos, além de Haines no teclado, piano e vocais, Neil Clark na guitarra, Andy Hughes no baixo e vocal e Jim Skidmore na bateria e percussão.

Embora os singles não tenham feito tanto sucesso, à época do seu lançamento, a Parlophone decidiu financiar o álbum. “Den of Iniquity” traz traços da banda The Locomotive, com uma música chamada “Everything You See (Mr. Armageddon)”, que esteve no álbum desta última banda, mas com uma versão mais arrojada e sofisticada, mais bem acabada sob o aspecto da produção e das melodias. Apesar do álbum do The Locomotive e do The Norman Haines Band tenham sido lançados em um curto espaço de tempo, nota-se, com evidência, que o último é bem melhor em vários aspectos.

Podemos considerar, sem dúvidas, que “Den of Inquility” traz um progressive hard rock ou ainda como heavy progressive rock. É um álbum tão versátil e pouco estereotipado que pode, por conta disso, parecer um pouco disperso para ouvidos mais pasteurizados em determinadas vertentes sonoras, mas é um deleite a diversidade.

É impulsionado pela combinação de voz e teclados empolgantes de Haines e a fantástica guitarra de Clarke com resultados espetaculares de hard rock afiado, blues-rock e movimentos mais comerciais. Mas por mais que tenhamos neste trabalho essas vertentes, podemos perceber nuances mais sombrias entregando uma versão dark prog e occult rock também.

O álbum é inaugurado com a faixa título, “Den of Inquility” que, de imediato, te remete a um clássico do hard rock. Essa música explode com um riff de órgão e bateria que bate forte e pesada ao fundo. A guitarra vem seguindo o órgão antes de assumir o seu protagonismo com riffs potentes e cheios de wah wah. O seu solo é matador, avassalador e as “curvas” de wah wah ao fundo são extremamente sedutoras. Um hard rocker matador!

"Den of Iniquity"

Segue com “Finding My Way Home” que lembra um jam vibrante, solar, cheia de força e presença, com destaque indiscutível dos vocais e da guitarra com riffs pesados e solos bem elaborados. A faixa seguinte, a versão retrabalhada de “Everything You See (Mr. Armageddon)”, que foi do The Locomotive, ganha corpo com o protagonismo da guitarra. Ela, inicialmente, tem um início mais lento, mas a guitarra de Neil Clarke se redime totalmente na segunda metade da música. Ele praticamente sola até o final e cada segundo dessa parte da faixa é simplesmente espetacular. Uma verdadeira progressão de acordes que traz o prog rock na sua versão mais arrojada e encorpada.

"Finding My Way Home"

“When I Come Down” é outro hard rock típico e cheio de potência e peso, carregado de wah wah, com um pouco de órgão distorcido que corrobora a sua condição de peso. Essa música, aqui vale uma curiosidade, foi usada como demo, pela outra banda do antigo empresário Jim Simpsons, “Earth”, que naquela época havia mudado seu nome para simplesmente “Black Sabbath”.

"When I Come Down"

O clima dá uma guinada suave com a balada “Bourgeois”, interpretada e cantada pelo guitarrista Clarke. Ele exibe, orgulhosamente, as suas raízes folk, mas com muita personalidade. Segue agora com a robusta e longa, de 13 minutos, a faixa “Rabbits” que lembra uma jam sólida e estendida. Nessa música as raízes progressivas estão fincadas nas tecituras instrumentais, mostrando várias mudanças rítmicas, cheias de nuances sofisticadas, mas muito orgânicas.

"Rabbits"

O fim do álbum entrega a faixa, de 8 minutos, chamada “Life is so Unkind”, que traz uma hecatombe instrumental liderado pelo órgão, piano elétrico e um pouco de guitarra que, embora não traga destaque, como as teclas, leva o álbum a um final, diria, deliciosamente catártico, fantasticamente ameaçador.

"Life Is So Unkind"

Quando o The Norman Haines Band apresentou o produto, incluindo a grotesca capa do álbum, digno hoje para muitas bandas de heavy metal dos anos 1980, a gravadora se recusou a lançá-lo, tanto que a banda finalizou as gravações no final de 1970, mas a Parlophone só lançou “Den of Inquility” em agosto de 1971.

A capa também gerou repulsa por parte dos varejistas britânicos, e muitas lojas estocaram poucos álbuns e esse termômetro dos vendedores, das lojas, determinou as diretrizes da gravadora que pouco o promoveu e apoiou, gerando poucas cópias, resultando em um lançamento bastante escasso e que atualmente, por ser um trabalho cult e raro, é vendido por até 2.000 euros no mercado de discos. E já que mencionei a capa do álbum do The Norman Haines Band, o autor da linda capa é Heinrich Kley, um famoso e controverso desenhista alemão da cidade de Munique.

“Den of Iniquity” foi lançado, no formato LP, na França e no Uruguai pelo selo Odeon Records, em 1972 e diz que, por intermédio da verificação com a gravadora, foi inacreditável distribuir e vender este álbum no Uruguai naquela época, levando em consideração a frágil economia daquele país e o número consequente limitado de pessoas que comprariam esse trabalho.

Em 1993 a Shoesstring Records lançou no Reino Unido, no formato CD, contendo mais cinco composições e uma edição limitada de 1.000 cópias. Em 1994 esta mesma gravadora lançou, agora no formato LP, também no Reino Unido, contendo mais duas composições e uma edição limitada de 500 cópias.

Em 2002 a Progressive Line lançou, em CD, com mais cinco músicas, uma versão não licenciada. Em 2004 a Radioactive Records lançou discos e vinis pelo Reino Unido também com versões não licenciadas, bem como a Sunrise Records que lançou, em CD, na Alemanha, versões não licenciadas.

Em 2011, a Esoteric Records lançou um álbum, em CD, no Reino Unido, com mais seis músicas. Porém, mais versões não licenciadas foram lançadas entre 2014 e 2021, incluindo selos como Acid Nightmare, a Ethelion Records, a Magic Box Records e a Prog Records.

Com o escasso apoio da gravadora e a rejeição dos donos de lojas em vender um álbum com uma capa, para eles, grotesca e nojenta, o The Norman Haines Band iria decretar o seu fim, ainda em 1971, ano do lançamento de seu único álbum. Norman tentou a última sacada, em 1972, e gravou algumas demos, que acabou, diante desses relançamentos, por serem incluídas em “Den of Iniquity”, como “Give It To You Girl" e “Elaine”. "Give It To You Girl", uma melodia pop matadora liderada por sua voz brilhante e piano elétrico. Isso mostra o crescente gosto de Norman pela percussão latina e nos dá uma amostra do que poderia ter vindo a seguir.

Norman caiu na estrada usando o nome “The Locomotive”, porque ele estava muito endividado e precisava de grana para pagar as suas dívidas e nada como usar o nome “The Locomotive” que te trouxe algum sucesso na música, apesar de tão efêmero. Mas de nada adiantou! Desiludido e revoltado com o mundo da música se retirou melancolicamente, recusando, inclusive, uma proposta de entrar na jovem e promissora Black Sabbath, sumindo do mercado da música.

Haines entraria no ramo de construção e até montou uma banda que tocava em casamentos e eventos de danças locais, o que ele ainda faz até os dias de hoje. Eu pergunto a você, estimado leitor: Será que a maioria das pessoas para quem ele e a sua banda toca hoje em dia, percebe o músico brilhante que realmente ele é? A história, que foi pouco gentil com ele, será, no futuro, a redentora de seu talento pouco aproveitado por uma série de tristes circunstâncias? O fato é que Haines e sua banda foi deveras essencial para o rock n’ roll de Birmingham no início dos anos 1970.





A banda:

Neil Clark na guitarra

Andy Hughes no baixo, vocais

Jimm Skidmore na bateria, percussão

Norman Haines no órgão, piano, vocais

 

Faixas:

1 - Den of Iniquity

2 - Finding My Way Home

3 - Everything You See (Mr Armageddon)

4 - When I Came Down

5 - Bourgeois

6 - Rabbits

        a) Sonata (For Singing Pig)

        b) Joint Effort

        c) Skidpatch

        d) Miracle



"Den of Iniquity" (1971)
























sábado, 12 de abril de 2025

Satan - Satan (1975 - 2016)

 

Julien Thomas era um pequeno francês de 4 anos de idade e já tinha contato com o rock n’ roll. As lembranças, embora antigas, estavam vivas em sua memória, das bandas e músicas que ouvia em casa ou até mesmo no banco de trás de carro de sua família. E uma banda, em especial, lhe marcou e muito. Esquecida, pouco conhecida, obscura na cena musical francesa. Era o SATAN!

Dentre tantas bandas que Julien, tão jovem, ouvia, o SATAN era a que mais ouvia em sua casa. E ele ganhou, na realidade os seus pais, o único álbum da banda, gravado em um K7 simples pelo tecladista Jérôme Lavigne, um dos membros da banda e que nela esteve de 1972 até 1976, ano em que foi extinta.

E foi com essa cópia que, décadas depois, o Satan viveria a sua redenção! Na década de 1990, aquele garotinho, que ouvia as músicas do Satan, entre outras bandas, no banco de trás do carro dos seus pais, tornou-se um estudante do ensino médio e descobriu as grandes bandas da cena progressiva mundial, como King Crimson, Magma, Genesis, Pink Floyd etc.

Mas o que estava na mente dele, era aquela banda, cujas músicas estavam gravadas naquele K7 simples, aquela banda de nome tenebroso, mas de uma sonoridade cativante e envolvente: Satan! Em uma galáxia musical, mais precisamente nos anos 1990, tomada por Gun’s N’ Roses, música eletrônica, grunge e a Eurodance, para um jovem avesso à essas sonoridades, a incompreensão reinava em sua percepção de música.

Se colocou a pesquisar sobre o Satan, buscou onde podia referências sobre ela em toda a parte: bibliotecas de mídias, enciclopédia do rock francês... Nada! Nada! A difusão da internet veio, talvez com ela Julien conseguisse buscar informações sobre a obscura banda, mas nada mudou. Não se tinha vestígios daquela sonoridade que embalou a sua infância por tanto tempo. Será que teria salvação para o Satan?

Chegou a óbvia conclusão de que teria que fazer o exaustivo trabalho sozinho de reparar uma injustiça histórica e trazer à luz o rock obscuro do Satan e tentar colocar a banda na história do rock francês. O que teria acontecido com os jovens músicos do Satan nos anos 1970? Ingenuidade, idealismo, a indústria fonográfica? O que o tornaram anônimos?

Fundada em 1968, por estudantes da école Normal du Mans sob o nome de “Heaven Road”, a começou, como tantas outras, tocando covers de Colosseum, The Who, Jethro Tull, Soft Machine entre outras que faziam sucesso na segunda metade dos anos 1960. Depois de um tempo decidiram compor material próprio, explorando camadas experimentais e atmosféricas, musicando poemas de Verlaine, Soleils, Couchants, por exemplo.

Depois de pouco mais três anos, os futuros e promissores funcionários públicos deixaram de lado suas carreiras emergentes como professores e as promessas de estabilidade no emprego para se dedicarem integralmente à música. Em uma França no auge das revoltas estudantis e dos movimentos sociais, parecia ser bem revolucionário sair da “École Normale”.

E assim o foi. Os jovens músicos, na faixa dos seus vinte anos, se estabeleceram em uma comunidade no interior de Sarthe e passaram a viver a utopia do rock n’ roll. Uma vida ditada pela moda, pela convicção, talvez não seja utopia...

Satan

Distante da civilização, em uma espécie de “bolha impermeável”, a banda desenvolve sua identidade, por um método peculiar de composição, com alicerce na “ilustração sonora”. E Macson, ao conceder uma entrevista, explicou esse processo:

"Sempre construímos nossas músicas a partir de um roteiro, um pouco como um filme. Primeiro escrevemos uma história e adaptamos músicas e textos para ela".

A banda tinha uma ambição latente e real de transmitir imagens e história por intermédio das músicas que compunham e ainda tinha outro detalhe importante, outra característica marcante que a banda tinha e que ficou exposta nas músicas que continham em seu único álbum: texturas sonoras, mas bastante simples e pouco se fazia isso na cena progressiva francesa! Talvez o Ange pudesse imprimir esse tipo de sonoridade, mas o único talvez.

Apesar das dificuldades financeiras da banda, da precária condição de vida e dos seus instrumentos musicais, eles, com muita persistência, começaram a conquistar uma reputação séria no palco e foi notado várias vezes durante as suas apresentações no Golf Drouot, um templo parisiense do pop e do rock. O Heaven Road, o antigo Satan, se tornou o “rei” do local, tornando-se o queridinho do dono da casa de show, Henri Leproux.

Se aproximaram do produtor Jacky Chalard, baixista da banda Dymasty Crisis, que na época abria para Michel Polnareff. Com um pé no show-biz, o Heaven Road seguiu o conselho de seus patrocinadores e decidiu adotar um nome francês para adequar ao mercado fonográfico local, mais comerciável à época, com a esperança de galgar degraus, buscar a fama. A lista submetida a eles se resumiu em dois nomes: “Sarah”, que parecia algo meio glam ou andrógeno e “Satan”. A segunda opção foi escolhida no verão de 1973. Macson, o guitarrista, argumentou o seguinte, em uma entrevista:

"Bem, nós gostamos e então, como na época havia Ange que estava indo bem, pensamos que isso poderia tornar possível fazer a troca".

Mas essa onda de surfar na notoriedade da banda carro-chefe da cena rock da França e torcer o nariz para ela e seu nome não seria, claro, bem recebida. Esse nome, em breve, seria uma bola de ferro acorrentada em seus pés. E o gerente que os acompanhou por alguns meses fez um grande alarde disso, fomentando sessões de fotos em cemitérios, por exemplo, para personificar esteticamente o nome sombrio da banda adotado recentemente. Fora outros detalhes sórdidos, como kits impressos descrevendo “o mestre do inferno se expressando através da violência”, entre outros detalhes subversivos.

Mas esse não era o desejo da banda de buscar sucesso, tanto que, com a saída de seu gerente, os jovens músicos insistiram mais nas noções de imaginação, devaneio e mistério, tema esses já presentes em suas composições. E com isso sua produção de palco muda também, com os caras subindo neste escuro, com apenas as lâmpadas dos amplificadores e seus pregos fosforescentes como fontes de luz. As “peças” são apresentadas como pinturas, apoiadas por projeção de vídeo. Eram verdadeiros shows multimídia antes de seu tempo. E com isso, de volta ao Golf Drouot, em dezembro de 1973, eles foram coroados com o curioso título de “melhor banda semiprofissional francesa”.

Apesar das satisfatórias incursões em Paris, o Satan decidiu manter-se a distância desse glamour e volta a se isolar em sua fazenda. Porém na primavera de 1974 eles embarcaram em uma turnê com a banda Caravan, que já gozava de uma pequena notoriedade no embrionário “underground” da época. Mas a turnê se tornou um fracasso para ambas as bandas. Em Orléans o show foi boicotado por uma história sombria de rivalidade entre os organizadores, ocasionando a interrupção da turnê e o retorno à Inglaterra do Caravan, além da volta do Satan à Sarthe.

Levados ao limite e sem fôlego, financeiramente falando, André “Macson” Beldent, guitarrista, Jerome Lavigne, tecladista, Christian Savigny, baterista e Richard Fontaine, baixista, os membros do Satan, criaram o “Ciel d'été”, um projeto paralelo que tinha a intenção primordial de trazer dinheiro. E surtiu efeito! O Ciel d'été foi tão bem-sucedido no oeste da França que os músicos acumularam dinheiro o bastante para comprar equipamentos e, um ano depois, fazer uma residência de um mês no “Studio 20”, em Angers. É nesse momento que o trabalho do Satan seria concebido.

Ciel D'Été antes e atualmente

Ciel D'Été - "Father of Night, Fight of Day"

Cinco dias por semana os músicos trabalharam incansavelmente, fazendo e refazendo tomadas até obter o resultado desejado. E finalmente com o rolo debaixo do braço, com as suas músicas prontas o Satan retorna à Paris para oferecer seu álbum para as gravadoras. Sem sucesso! Tentaram os relacionamentos que construíram, mas nada! Questionaram, indagaram para si mesmos se as pessoas que receberam as cópias de seu álbum realmente ouviram, mas logo se entediaram e, depois de mais três ou quatro recusas, ainda com o projeto “Ciel d'été”, a banda deu o seu último suspiro, em 1976.

O álbum que foi esquecido do Satan trazia um “prog rock envenenado”, repleto de recursos sonoros, com uma vibe jazzística e pegada pesada, lembrando, por vezes um hard rock. Um limiar entre peso, prog, simplicidade, envolto em um som orgânico e complexidade, devido a tamanha ousadia em trazer esses elementos e tirar deles uma massa sonora incandescente e solar.

O álbum é inaugurado com a faixa “Le Voyage” que tem como destaque as texturas de teclado que acompanham uma seção rítmica frenética e solar, com solos diretos e pesados de guitarra, tudo isso envolto uma atmosfera sideral, uma pegada space rock ao estilo Pink Floyd. Uma faixa viajante e estilosa.

"Le Voyage"

Segue com a faixa “OS” que inicia com um vocal falado, mas logo entrega um teclado sombrio e depois mais sinfônico, mostrando uma incrível versatilidade em um curto espaço de tempo na música. As viradas rítmicas não param por aí: percebe-se uma vibe jazzística, uma pegada mais hard, depois contemplativa, algo pastoral, depois fica mais experimental e soturno. O vocal retorna com risadas doentias e paranoicas. Definitivamente é uma faixa sombria e estranha.

“Le Robot” começa com riffs mais pesados de guitarra com teclados tendendo para o progressivo sinfônico e que me remeteu imediatamente ao krautrock e o rock progressivo britânico. Pode parecer uma “mistura” improvável, mas essa é a percepção. O vocal entra e uma pegada mais viajante e estranha se faz ouvida. Essa proposta mais viajante se une aos riffs mais pesados de guitarra e formam um contraste envolvente e intrigante, ao mesmo tempo. Uma das melhores faixas do álbum.

"Le Robot"

“La Nuit Des Temps”, a faixa mais longa do álbum, começa com um ruído meio sideral e sombrio, mas logo fica solar e deslumbrante com um lindo e límpido solo de guitarra, mas não por muito tempo. Os teclados tornam a música mais experimental e minimalista, com a “cozinha” rítmica ditando o humor da música. Bateria delicada e bem executada, baixo pulsante. Entre momentos mais soturnos e solares, a música se revela versátil e cheia de mudanças de tempo. Excelente!

"Las Nuits des Temps"

E fecha com a faixa “L’Aigle” que inicia com uma pegada folk, ao estilo pagão de ser, uma pegada celta, com uma atmosfera sombria e ameaçadora, mas logo é “encorpada” com o progressivo sinfônico e depois algo mais psicodélico, um beat que nos remete aos anos 1960. Inacreditável como a versatilidade aliado à simplicidade se faz presente nesta e nas demais músicas do único álbum do Satan.

"L'Aigle"

Voltando a Julien e já adulto ele relatou, também em entrevista que concedeu, que o Satan tomou o caminho ao contrário:

"...porque quando uma banda chamava a atenção, a gravadora primeiro a confiava a um diretor artístico que orientava o trabalho, que procedia com uma espécie de formatação para que fosse mais assim ou aquilo, para que pudesse ser tocada no rádio, etc. Eles gravaram primeiro, era arriscado. E então, talvez devamos reconhecer uma falta de combatividade da parte deles, em comparação com uma indústria que já havia feito o suco desse tipo. Basicamente, havia o Ange que vendia muito e então todas as gravadoras tinham sua banda progressiva como Magma ou Mona Lisa..., mas atrás deles, as portas estavam fechadas. Você também tem que lembrar que bandas como Magma ou Gong estavam morrendo de fome na época! Comercialmente, o gênero estava em declínio e Satan chegou no final da onda, no momento em que o negócio estava começando a mudar para a onda rock/punk que veria o surgimento de artistas como Little Bob, Bijou, Starshooter, Téléphone, Asphalt Jungle... A cena estava mudando e eles realmente chegaram à dobradiça”.

De acordo com o baterista da banda, Christian “Kicks” Sauvigny, que mais tarde faria carreira como produtor e programador musical no rádio (Chérie FM, Europe 2, Nostalgie...), o “máster” original do álbum foi colocado em segurança em um cofre de banco. O que resta saber é: Em qual banco? Em qual cidade? Ninguém sabe, ninguém soube de absolutamente nada! O carretel, com as gravações da música nunca ressurgiu. Os demais membros da banda não tinham mais uma cópia, nem mesmo o Studio 20, em Angers, onde foram gravadas as músicas, não tinha nada arquivado.

O baterista Savigny tinha uma cópia, a única conhecida, até então. Foi ele quem falou sobre o Satan pela primeira vez para Serge Vincendet, dono da loja de discos e gravadora de Paris, a Monster Melodies, especializada nesse tipo de pequenos “tesouros” perdidos, obscuros. Mas a fita estava em condições precárias, praticamente destruídas.

Mas é nesse momento que entra na história Julien. Julien, com seu antigo K7, agora digitalizado no estúdio, feito no início dos anos 2000, tentou se aproximar de algumas marcas especializadas, principalmente na França e na Itália. Mas o risco financeiro parecia demais para ele, afinal uma banda virtualmente desconhecida da qual ninguém tinha ouvido falar. Uma coisa levando a outra e o encontro finalmente aconteceu, em outubro de 2015, entre Julien, aquele ex-adolescente fã de Satan e o chefe da Monster Melodies.

A famosa cópia que o menino Julien ouvia na casa dos pais, no banco de trás de seu carro foi usada para a gravação do álbum no formato vinil. Com uma tiragem de 1.000 cópias, o LP do Satan, homônimo, que apresenta cinco das sete faixas gravadas em 1975, foi distribuído em lugares distantes da França, como Espanha, Alemanha, Holanda, Itália e até mesmo os Estados Unidos.

A persistência e os encontros fizeram com que algo, totalmente perdido e improvável para ganhar a luz, veio a vida quarenta anos depois de sua concepção. Um belo consolo para o fundador do Satan, o guitarrista André “Macson” Beldent que, até hoje, ainda vive uma vida intensa de rock n’ roll, no auge dos seus quase 75 anos de idade, com sua banda de blues tocando todo fim de semana em bares.

Como esperar um efeito positivo, no que tange ao seu lançamento, quarenta anos depois, de uma música que pouco se encaixaria atualmente, mas que ganhou, mesmo que tardiamente a sua redenção tardia, embora a banda jamais iria tirar proveito de seu verdadeiro valor sonoro. Richard “Sam” Fontaine se afastou da música e as últimas informações que pude obter, buscando na web sobre a banda, é de que estaria muito doente. Quanto o tecladista Jérôme Lavigne, seu fim foi trágico. O mesmo se suicidaria em 1987, alguns anos após ter entregado a cópia, o K7, ao jovem Julien que possibilitou livrar o Satan do “purgatório” e do esquecimento eterno. 

Se você quiser ouvir o álbum na íntegra com mais duas faixas que não entraram no lançamento pelo selo Monster Melodies, clique aqui. Há também um show da banda, de 1974, que pode ser ouvido aqui. Há reportagens também do Satan, afinal esse é o canal do YouTube de Julien Thomas.




A banda:

André “Macson” Beldent na guitarra

Jérôme Lavigne nos teclados

Christian Savigny na bateria

Richard “Sam” Fontaine no baixo e vocal


Faixas:

1 - Le Voyage

2 - O.S.

3 - Le Robot

4 - La Nuit Des Temps

5 - L'aigle

 



"Satan" (1975 - 2016)