Mostrando postagens com marcador Jazz Fusion. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jazz Fusion. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de janeiro de 2026

Grupo Um - Marcha Sobre a Cidade (1979)

 

A segunda metade dos anos 1970 a música instrumental estava passando por uma série de mudanças mercadológicas e estéticas, principalmente diante de um cenário em que o punk, a música “disco” e a new wave começava a ganhar tendência entre os jovens e que logo se revelaria em uma onda modista que ganharia o cerne das atenções.

Mas no Brasil estava começando uma abertura por intermédio de lançamentos independentes. Na Europa existia um movimento em torno da gravadora ECM Records, que lançava álbuns de jazz com uma estética própria. Nos Estados Unidos existiam várias tendências, desde o radicalismo tradicionalista até o experimentalismo eletrônico que se desdobrava em vários novos “formatos” sonoros. E nesse contexto que, apesar do sucesso comercial do punk, da “disco” e da “new wave”, que a música instrumental estava ganhando novas roupagens.

E a banda brasileira chamada GRUPO UM surgiria exatamente nessa efervescência. A banda nasceria, embrionariamente, em 1976, período em que Zé Eduardo Nazário, bateria e percussão, Lelo Nazário, pianos e teclados e Zeca Assumpção formava a banda “Cozinha Paulista”, de Hermeto Pascoal. Durante os períodos em que Hermeto se ausentava para algum trabalho fora do Brasil ou quando não tinha shows agendados, o trio se reunia na casa de Zé Nazário, na Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, para ensaiar, para tocar.

Grupo Um com Hermeto Pascoal no MAM (1976)

Em julho de 1976, ao lado de Luiz Roberto Oliveira, dos irmãos Nazário (Zé e Lelo), o Grupo Um realizou o seu primeiro show e com um sintetizador eletrônico, um ARP 2600), um dos primeiros que se tinha notícia no Brasil à época. A instrumentação contava com piano acústico e elétrico, fita pré-gravada (lançada a partir de um gravador), bateria e percussão, o que incluía, entre outras coisas, objetos diversos que eram quebrados dentro de uma enorme bacia, constatando uma incrível capacidade de improvisação, experimentalismo e minimalismo musical. No show teve até a pausa para o café!

Grupo Um

Nesse período o grupo Um gravou trilhas sonoras para filmes (longas-metragens e científicos) e até mesmo música para balé, como o “Transformations”, do coreógrafo japonês Takao Kusuno. Em 1977, quando a banda deixou efetivamente de seguir com os shows com Hermeto Pascoal, o Grupo Um fez a sua primeira sessão de estúdio, no “Vice-Versa B”, que pertencia ao maestro Rogério Duprat, já contando com a participação de Roberto Sion, no sax soprano e Carlinhos Gonçalves, na percussão.

A gravação era feita em poucas tomadas, com todos tocando juntos e em um espaço bastante limitado, simultaneamente, sem “play back”, como manda a tradição. A banda gostou muito do resultado e o próximo passo era levar o material gravado para às gravadoras. Os músicos perderam meses, recebendo sempre respostas negativas. Mas seguiram com seus ensaios e realizando algumas apresentações.

O trabalho com Egberto Gismonti, que se iniciou em 1977, obrigou o Zé Eduardo Nazário a abandonar o projeto do Grupo Um por algum tempo, muito em função das viagens, ensaios e gravações. Ao retornar da turnê “Tropical Jazz Rock”, em maio de 1979, se desligou finalmente do “Academia de Danças” e voltou a trabalhar com Lelo e Zeca no Grupo Um, organizando nova sessão de gravação no mesmo estúdio “Vice-Versa B”, pequeno e sem a estrutura adequada, afinal era tudo que o dinheiro dos músicos podia pagar.

Gismonti com Grupo Um 

Mauro Senise, saxofonista, foi convidado, Carlinhos Gonçalves, percussionista, foi mantido e dessa sessão, entre 26 e 27 de setembro de 1979, registrada quase que efetivamente “ao vivo”. Assim surgia o primeiro álbum, lançado oficialmente, naquele mesmo ano “Marcha Sobre a Cidade”, conhecido como o primeiro trabalho de música instrumental independente no Brasil que se tenha notícia, em uma tiragem de 1.000 cópias. Vale como registro histórico que o lado “A” inteiro foi gravado em uma única tomada, afinal, não tinha estrutura e dinheiro para longas e longas sessões.

Mauro, Zeca, Felix, Lelo e Zé

A estreia do novo trabalho foi no Teatro Lira Paulistana, a “meca” das bandas independentes, fazendo história no Brasil durante os anos 1980. “Marcha Sobre a Cidade” recebeu ótimas críticas, vide os recortes de jornais e revistas que foram publicadas à época e foi apresentado ao público em várias regiões brasileiras, nas suas principais capitais.

 

Grupo Um em ação no Lira Paulistana (1981)

O reconhecimento foi considerável a ponto de ganhar terras europeias e em 1983 o álbum foi lançado na França, pelo selo Syracuse, com uma capa bem diferente do original. O Grupo Um realizou uma turnê naquele país e visitando também a Suíça, tendo participado do Festival de Jazz de Grenoble e nas cidades de Toulose, Montpellier e Pari, onde gravou um show no “Studio 106”, da Raio France e se apresentou na conhecida casa de jazz “New Morning”, além de ter gravado com o cantor e compositor francês Frederic Pagés o álbum “Chansons Mètisses”, finalizando a turnê em Genebra. A banda estava no seu auge!

“Marcha Sobre a Cidade” é calcado primordialmente no jazz, no jazz fusion, com experimentações e improvisações rítmicas e melódicas incríveis, estimulantes e até mesmo intrigantes, com construções que trazem referências do rock n’ roll, a música brasileira e música africana, graças ao seu trabalho ousado na percussão. O debut do Grupo Um definitivamente é para quem aprecia um som ousado e pouco usual, que entrega um minimalismo ao extremo, que lembra o krautrock germânico, com texturas experimentais e variações e desafios sonoros.

O primeiro álbum do Grupo Um estava longe de ser maçante, por conta das inúmeras improvisações e experimentalismos. Ele dispunha de uma estimulante pulsação, porque trazia o conceito regional muito acentuado, texturas tipicamente brasileiras e africanas, um genuíno “beat” brasileiro, um legítimo e solar free jazz brasileiro.

O álbum é inaugurado com a faixa “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]” que já começa com o excelente trabalho de percussão ao estilo música brasileira, a brasilidade mesclada a jazz rock, com um trabalho, igualmente excelente, do sax, melódico e dançante. Assim é a faixa: dançante, cheia de energia, animada. Entre solos rápidos de bateria e de sax, a música vai ficando mais encorpada, um jazz fusion com a cara do Brasil, o balanço do baixo, o frenesi dos teclados. Uma música incendiária para abrir o álbum.

 “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]”

Segue com “Sangue De Negro” que traz um caráter, uma textura mais experimental, com solos de bateria, trazendo um jazz mais “root”, mas por outro lado percebe-se algo mais minimalista, que me remete a um krautrock, com pitadas psicodélicas. Porém, ao longo da música, vai ganhando mais corpo com a bateria mais pesada, um fusion novamente, mas logo retoma o experimentalismo kraut.

"Sangue de Negro"

A faixa título, “Marcha Sobre A Cidade”, se revela mais a cara do álbum, um jazz contemporâneo, com a pegada fusion, a pitada mais pesada. Por vezes contemplativa e viajante, graças a linda execução do sax. É progressiva, cheia de viradas rítmicas, é psicodélica, é lisérgica, é experimental, é viva, é latente. Se mostra complexa, versátil. Aqui a banda está em nível criativo e de improvisação únicos. Sem dúvida uma das melhores faixas do álbum.

"Marcha Sobre a Cidade" - Ao vivo (1980)

“A Porta do ”Sem Nexo” mescla o free jazz, com a sonoridade experimental bem evidente, trazendo uma versão mais kraut, experimental, com ruídos, sons mais introspectivos, diria algo soturno, sombrio. Flautas, percussão, teclados, tudo trazendo texturas minimalistas e ousadas para a sua época. Definitivamente “Marcha Sobre a Cidade” é um álbum à frente do seu tempo.

"A Porta do Sem Nexo" - Ao vivo (1980)

“54754-P(4)-D(3)-0” segue com um jazz fusion mais puro e genuíno. Aqui é a música mais nervosa, um sax mais frenético e cheio de energia e até mesmo desconcertante, poderoso. A bateria segue batendo forte também, em um “duelo” mais do salutar com o sax. As teclas não ficam atrás, cheio de energia!

“54754-P(4)-D(3)-0”

E fecha com “Dala” que linda, viajante e contemplativa, segue, reinando absoluta durante toda a música, com um piano ao fundo que, em uma textura acústica, estica o tapete vermelho para o protagonismo do sax.

"Dala"

“Marcha Sobre a Cidade”, mesmo sendo um dos primeiros ou o primeiro álbum de música instrumental concebido de forma independente no Brasil, atingiu, de forma inacreditável, um sucesso que parecia, diante desse cenário, inimaginável. Era como se tivesse passado pelo buraco de uma agulha, trazia luz a um caminho escuro e completamente tortuoso que era do jazz fusion, da música experimental e instrumental em um país, em um mundo onde reinava o punk, a “disco music” e a new wave.

Era a possibilidade de abrir um caminho, com a sua luz, sendo um farol para tantas outras bandas que quisessem seguir a trilha, uma nova estrada para lograr um objetivo maior. Este lugar, ainda não explorado, situava-se além da fronteira do permitido, que era fortemente guardada pelos “baluartes” e “arautos” do colonialismo provinciano, que só abriam as portas para os que chegassem do exterior, mesmo que tivessem saído daqui, voltando depois com o selo de “importado”, para que pudessem ser “legalizados” e aceitos no meio artístico e no show business, principalmente em se tratando de música instrumental.

Os anos 1980 entraram e foram frutíferos para o Grupo Um. Foram gratificantes porque os músicos mostraram suas caras com seus próprios nomes, sem a tutela de quem quer que fosse, sendo músico, empresário ou produtor. Eles estavam conseguindo mostrar a sua música “louca” para o máximo de pessoas possível, mesmo que trafegando na zona underground. Estavam ganhando visibilidade, tanto que Carlinhos Gonçalves recebeu um convite para tocar na Austrália, sendo sucesso por muitos anos. Zeca Assumpção optou por mudar-se para o rio de Janeiro, em vistas das boas propostas de trabalho que surgiram. Em seu lugar ficou seu melhor aluno, que acompanhava de perto as apresentações do Grupo Um, esse era Rodolfo Stroeter que permaneceu na banda até a sua dissolução, em 1984.

Outro que se juntaria ao Grupo Um era Felix Wagner, nascido na Alemanha e vivendo, desde adolescente no Brasil. Paralelamente ele integrou com Lelo e Rodolfo o “Symmetric Ensemble”, uma banda composta por dois pianos e um baixo!

Em 1981 o Symmetric Ensemble faria uma turnê importante para a Europa cabendo a Zé Eduardo Nazário continuar com o Grupo Um. Além de Mauro Senise, participaram o pianista Nelson Ayres e os baixistas Evaldo Guedes em algumas oportunidades e Paulinho Soveral em outras, mantendo a banda em atividade, fazendo alguns shows.

Quando o resto da banda retornou dessa viagem à Europa, decidiram se reunir para iniciar o trabalho do segundo álbum, com novas composições que que Lelo vinha desenvolvendo. Assim nasceria para o mundo “Reflexões sobre a Crise do Desejo”, lançado em 1981, nos estúdios JV, dos músicos Vicente Sálvia e Edgard Gianullo, em São Paulo, que tinha um bom equipamento e contava com um excelente técnico, Sérgio Kenji Okuda (Shao-Lin), jovem, mas com bastante experiência e atento às nossas necessidades para colher o melhor resultado possível. O álbum foi considerado pela revista Manchete um dos dez melhores de 1981, além de conquistar elogios em resenhas dos mais conceituados críticos de música da época, colocando a produção independente no mais destacado patamar até então atingido por qualquer músico ou banda instrumental no Brasil.

"Reflexões Sobre a Crise do Desejo" (1981)

Em 1982 iniciaria a fase mais “colorida” do trabalho da banda, a começar pela capa do terceiro álbum do Grupo Um, “A Flor de Plástico Incinerada”. Esse LP foi gravado em outubro, época que marcou o início de uma transição nas carreiras dos jovens e talentosos músicos, sendo a eles oferecido o custeio da gravação e da produção gráfica do novo disco pelo selo “Lira Instrumental”, criado por um acordo entre o Teatro Lira Paulistana em parceria com a gravadora Continental e artistas que vinham apresentando trabalhos com regularidade na programação do teatro localizado à Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, São Paulo.

"A Flor de Plástico Incinerada" (1983)

Isso se devia ao notável crescimento das bandas de música instrumental, que passaram a ser vistos como um “filão” comercialmente explorável. Nesse mesmo pacote foi oferecido a zé Eduardo Nazário também o custeio da gravação e produção gráfica de seu primeiro álbum solo, “Poema da Gota Serena”, que foi realizada no mesmo estúdio (J.V.) e no mesmo período em que foram feitas as gravações de “A Flor de Plástico Incinerada”. Além disso, foram oferecidas também as passagens para a turnê europeia do Grupo Um, onde seria lançada a versão francesa do LP “Marcha sobre a Cidade” pela gravadora parisiense “Syracuse”.

Grupo Um no aniversário de São Paulo (1983)

A banda faria uma pausa em 1984 e que se tornaria um hiato por mais de trinta anos quando decidem retornar em 2015, gravando um registro ao vivo chamado “Uma Lenda ao Vivo”, em 2016. O show, gravado no dia 20 de agosto de 2015, no Teatro Sec Pompeia, foi diante de uma plateia atenta e afetuosa e é um registro da noite memorável que marcou a volta do Grupo Um aos palcos e que assinalaria outro fato marcante: os 40 anos da fundação da banda.

Grupo Um - SESC Instrumental Brasil (Ao Vivo)

"Uma lenda Ao Vivo" (2015)

As incursões pelo free jazz; pelo primitivismo étnico; pelo abstracionismo da música impressionista; pela fragmentação da música minimalista; pelos ruídos pelas células harmônicas e melódicas da música contemporânea; bem como pelas harmonias complexas da música brasileira; além das inúmeras experiências atonais do jazz contemporâneo, projetam o Grupo Um para além do música plástica e careta e muito próximo do experimentalismo e das improvisações livres de qualquer coisa modista e sempre “escravo” da criatividade sem arestas. “Marcha Sobre a Cidade” lançado de forma independente em 1979, com segunda edição pelo selo Lira Paulistana. Lançado na França pelo selo Syracuse em 1983. Reeditado em CD pela Editio Princeps em 2002.




A banda:

Zé Eduardo Nazario na bateria e percussão

Zeca Assumpção no baixo (Piano na Faixa 6)

Lelo Nazário no piano

Carlinhos Gonçalves na percussão

Com:

Roberto Sion no sax soprano (Faixa 8 – Bônus track)

Mauro Senise na flauta, sax alto e soprano (Faixas de 1 a 7, esta última Bônus Track)

 

Faixas:

1 - [B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]   

2 - Sangue De Negro        

3 - Marcha Sobre A Cidade         

4 - A Porta Do ''Sem Nexo''          

5 - 54754-P(4)-D(3)-0        

6 – Dala

 

Bônus Tracks:         

7 - N'daê      

8.1 - Festa Dos Pássaros 

8.2 - C(2)/9-0.74-K.76



"Marcha Sobre a Cidade" (1979) - Audição aqui!






























































sábado, 26 de abril de 2025

Minotaurus - Fly Away (1978)

 

Você costuma se incomodar com aquelas bandas que não costumam classificar? E diante desse cenário costuma rejeitá-las categoricamente? Me parece que essas perguntas, embora sejam desafiadoras estruturar uma resposta, creio ser relevante para entender, mesmo que de forma parcial, a indústria fonográfica e a sua política antiga e conservadora que, sem dúvida, reflete o comportamento do mercado.

Parece ser cômodo e seguro da nossa parte ter uma espécie de compreensão profunda da vertente sonora de determinadas bandas para, a partir daí, criar um vínculo, uma identificação partindo da premissa de suas predileções. Muitas bandas pereceram, ao longo dos anos, por deixar apenas a sua criatividade ser a sua força motriz, o principal condutor de suas músicas.

Os anos 1970 nos “brindou” com uma infinidade de bandas que fracassaram por não ter sequência em sua história na cena musical rock, porque nunca se permitiu estereotipar, se rotular, mesmo lutando contra um mercado consumidor conservador e uma indústria com uma política tão ortodoxa quanto.

Na Alemanha, por exemplo, não faltaram bandas que precocemente saíram de cena, pagando um preço alto por deixar que a criatividade seja a dona de seus caminhos sonoros e, sob o aspecto comercial, fracassaram. Muitas sofreram por serem adicionadas no “saco” do krautrock para atender às demandas mercadológicas e facilitarem os negócios das gravadoras e muitas delas não praticaram o estilo em suas músicas.

E isso acabou construindo uma ideia equivocada de que a Alemanha, sobretudo nos anos 1970, reduziu-se a apenas o experimentalismo do kraut das transições da década de 1960 para os anos 1970 e isso, convenhamos, não é verdade! A Alemanha muito ofereceu, em termos de diversidade de som, nos anos 1970, principalmente.

E eu gostaria de apresentar uma banda que lamentavelmente não teve muita chance de apresentar a sua música e, como tantas outras, mesmo com persistência, não vingaram e pairaram no mais soturno e sombrio campo do esquecimento do rock, tendo ainda a desconfiança e a rejeição de tantos questionando as suas qualidades pelo simples fato de terem seus propósitos fracassados. Mas como neste blog as bandas fracassadas e esquecidas ganham protagonismo, essa é digna de apresentações: MINOTAURUS.

Minotaurus

A banda foi formada na cidade de Oberhausen, na área do Ruhr Ocidental, na Alemanha, começando sua trajetória em meados dos anos de 1970. Como muitas bandas, a banda foi concebida por seis jovens, quando decidiram se juntar para fazer música juntos. Era a Alemanha que proliferava em bandas de rock nos mais diversos estilos e vertentes, então os impetuosos jovens da época tinham como desejo ganhar fama e sucesso fazendo shows e tocando sua música. Eles tinham dois guitarristas, Michael Helsberg (nascido em 07/02/1957 em Oberhausen) e Ludger "Lucky" Hofstetter, este último treinado em violão clássico e violoncelo. Ulli Poetschulat tocou bateria, Dietmar Barzen os teclados. Também havia Bernd Maciej no baixo e Peter Scheu nos vocais.

A maioria desses jovens músicos foram autodidatas, não tinham grana para contratar professores de música ou coisa que o valha e a base de muitos ensaios e persistência, conseguiram fazer os seus primeiros shows. Nos primórdios o Minotaurus, começaram a construir seu nome fornecendo acompanhamento ao vivo para o filme do famoso diretor de cinema, Stanley Kubrick, em seu filme chamado “7117” no Festival de Curtas-Metragens de Oberhausen (Filmothek).

E com isso os caras do Minotaurus estavam, de forma gradual, ganhando fama local e, com isso escrevendo, compondo cada vez mais músicas autorais. Material eles já tinham agora faltava um contrato assinado para oficializar um lançamento de suas músicas e mais uma etapa havia sido superada, pois entrou no circuito Hans-Werner "Roller" Suedbrack, Uwe "Jacke" Ziemert e o falecido Wolfgang "Jagger" Jäger, se tornando responsáveis pelo sistema de PA.

Bem agora o lançamento de um álbum estava mais maduro, um novo trabalho estava por nascer e isso excitou os jovens e promissores músicos. E em 1977 eles decidiram lançar esse álbum! A gravação de seu primeiro trabalho ocorreu de 13 a 15 de janeiro de 1978, no estúdio Langendreer Sound, de propriedade de Günter Henne, da banda Epidaurus, e sob a direção do baterista da banda, Manfred Struck. O tecladista Dietmar Barzen foi autorizado para usar o mellotron dos amigos do Epidaurus, porque os meninos do Minotaurus não tinham dinheiro para ter um instrumento minimamente bom para gravar as suas músicas. Os primeiros anos foram difíceis apesar de gozarem de alguma fama.

E assim foi lançado, em 1978, “Fly Away”, lançado de forma independente, com uma prensagem pequena, com cerca de apenas 1.000 cópias, fabicadas em Pallas, em Diepholz, originalmente sem tampa. Os caras do Minotaurus optaram por distribuírem muitas cópias entre amigos, antes de conceberem uma capa, uma arte da capa. Quando o projeto da capa foi concluído, eles pensaram que encomendar 600 cópias seria o suficiente para divulgar a música da banda seria o suficiente, mas ainda assim, um número muito incipiente.

A capa escolhida mostrava um Minotauro, o lendário se com cabeça de touro da antiga Creta Minóica. Essas 600 cópias foram todas vendidas e a banda descobriu que ainda tinha cerca de 200 LP’s sem capas guardadas! Era a chance de aproveitar as boas vendas de “Fly Away” e vender essas cópias restantes. Então Ulli Poetschulat mandou imprimir mais 200 capas, desta vez com uma nova obra de arte mostrando um avião desenhado por Heike Zywitzki.

Já que eu comecei esse texto falando de diversidade sonora e bandas e álbuns que pouco se permitiram rotular, nada mais prudente do que fazer uma breve descrição da multiplicidade sonora de “Fly Away”, o debut do Minotaurus. Este álbum traz na sua base sonora um progressivo sinfônico calcado no peso do hard rock, pois entrega uma sonoridade solar, vívida e cheia de energia, revelando ainda texturas de space rock, algum experimentalismo, reminiscências do krautrock dos anos 1960, com uma pegada, em alguns momentos de blues e até jazz fusion.

A banda, que lançou um álbum um tanto quanto descolado do seu tempo, em 1978, com o punk em evidência e a música “disco”, bebeu das fontes sonoras do início dos anos 1970 quando o progressivo e o hard rock fora prolífico. A variedade de tons sonoros faz com que “Fly Away” se torne um álbum agradável, fazendo dele um álbum imprevisível e extremamente versátil, mostrando que aqueles jovens músicos autodidatas fizeram um bom trabalho graças a sua dedicação nos ensaios e nos trabalhos composicionais.

Um álbum forte nos instrumentais, com guitarras ricas em notas, teclados, órgãos e mellotrons solares e enérgicos e vocais teatrais fez desse álbum, a meu ver, especial e que muita gente considera como uma influência evidente do medalhão Genesis. Bem se é eu não poderia dizer com tamanha propriedade, mas o fato é que um álbum desse naipe sendo lançado em pleno 1978 é, no mínimo arrojado pelos audaciosos músicos do Minotaurus.

O álbum é inaugurado pela faixa “7117” que, como disse foi composta para acompanhar a exibição do filme de Stanley Kubrick com o mesmo nome, por volta de 1976, se mostra muito dinâmica e ao mesmo tempo apresenta algumas passagens bonitas e melódicas, destaque para os solos de guitarra e de mellotron. Tudo isso envoltos em uma entrega vocal ao estilo psicodélico espacial. Essas passagens mais explosivas são compensadas com passagens mais pastorais e acústicas. Um trabalho inaugural excelente!

"7117"

Segue com “Your Dream” que também é muito bem executada, com passagens suaves e até líricas, com destaques das guitarras, com solos e riffs maravilhosos, teclados enérgicos, tudo isso sobre uma cama de mellotron, embora a característica principal seja do teclado e de linhas de guitarras mais bem trabalhadas.

"Your Dream"

“Lonely Seas” começa de maneira sútil, percussão tilitante, violão levemente dedilhado, tocado de forma acústica e vocais sombrios e quase frágeis ou melancólicos, que faz da faixa mais dramática. Mas logo isso dá lugar a teclados triturantes e enérgicos e guitarra cortante e distorcida que cria certa tensão que a impressão que nos passa é de que vai explodir. E quando isso acontece tem solos mais melódicos e notas complexas.

"Lonely Seas"

“Highway” surge com uma pegada mais psicodélica, lembrando e muito um psych rock norte americano, algo como se fosse lançado nos anos 1960, trazendo uma lisergia principalmente nos riffs de guitarra fazendo da música até algo mais dançante. Mas a épica estava por vir, a excelente faixa título, “Fly Away”, no auge dos seus quase treze minutos de duração, trazendo um excelente progressivo sinfônico, com uma excepcional seção rítmica que entrega muitas mudanças de andamento, mostrando os músicos muita destreza em seus instrumentos. Não podemos negligenciar um mellotron enérgico que proporciona um clima nostálgico e solar. A guitarra e gigante e poderosa.

"Fly Away"

"The Day The Earth Will Die" fecha o álbum de uma forma muito cativante e dinâmica, estando mais próximas de um blues rock típico dos meados dos anos 1960 com uma textura mais psicodélica, com explosões de guitarras abrasadoras e distorcidas que se alternam com vocais mais potentes e virtuosos fazendo dessa faixa solar e otimista. São os anos 1960 mesclados ao som mais pesado e direto dos anos 1970. A faixa fecha com um número mais experimental trazendo um pouco à tona o kraut sessentista.

"The Day The Earth Will Die"

A faixa bônus é "Sunflower", que é uma música cintilante, robusta e de uma veia funky que foge um pouco a proposta do álbum, mas ele é diverso, então está tudo dentro da normalidade. Goza de uma guitarra jazzy blues solando belamente, tudo capitaneado por uma batida funky.

"Sunflower"

No mesmo ano do lançamento de “Fly Away” já surgiu um problema para o Minotaurus. O guitarrista Micky Helsberg foi o primeiro a deixar a banda e no ano seguinte, em 1979, de forma precoce, o Minotaurus finalizaria as suas atividades com cerca de 100 shows em seu currículo. De fato, um final lamentável e melancólico. Reza a lenda também que um dos motivos para o fim da banda foram as questões de negócios mau geridos.

No passar dos anos as pessoas perceberam o quão bom “Fly Away” era, até porque as suas poucas prensagens foram todas vendidas, fazendo deste trabalho muito requisitado, tanto que são pagos cerca de três dígitos pelo vinil original. Então teve uma reedição, no formato CD, em 1992, por um selo de nome Lost Pipedreams.

A realidade era que Jürgen Reinke havia vendido a essa gravadora os direitos dessas músicas sem realmente possuí-los e sem consultar os músicos do Minotaurus e como as faixas usadas para gravar esse álbum não eram oriundas das fitas master a qualidade da gravação estava aquém do que se esperava de um álbum tão grandioso.

Mas em 2002 o valoroso selo alemão Garden of Delights conseguiu localizar o baterista Ulli Poetschulat, que colocou suas fitas master à disposição do selo para que estes fizessem o lançamento. Este CD contou também com uma faixa bônus de nome “Sunflowers” que fora gravada em estúdio e que, na versão original, não entrou no vinil.

Há a informação de que o baterista do Minotaurus estaria de posse de algumas fitas para um segundo lançamento, com músicas inéditas, porém até os dias de hoje esse novo segundo álbum não foi lançado oficialmente. O que nos resta é aguardar que esse trabalho ganhe a luz do dia.

Em 1997 Micky Helsberg e sua banda M.I.D. (Manner in Dosen) onde lançaram um CD, também produzido e lançado de forma independente, chamado "Kopfschmerzen" ("Dor de cabeça"). Ele ainda mora em Oberhausen, assim como Hans-Werner Suedbrack. Ulli Poetschulat mudou-se para a antiga Alemanha Oriental e por lá trabalhou, por muito tempo, como organizador de shows, já os demais integrantes do Minotaurus nunca foram localizados e pouco se sabe dos seus paradeiros.

“Fly Away” trouxe, no final dos anos 1970, todas as marcas registradas de toda uma década, com as bases fundadas no rock progressivo sinfônico com o viés mais pesado, do hard rock. Guitarras pesadas, distorcidas, lisérgicas, melódicas e intricadas, com linhas de moog e sintetizadores de tirar o fôlego. Assim foi o único trabalho do Minotaurus que, lançados de forma praticamente artesanal, merecia um futuro mais justo, do tamanho da qualidade de seu excelente álbum. Um clássico obscuro!




A banda:

Peter Scheu nos vocais

Dietmar Barzen no órgão, mellotron, sintetizadores e clavinete

Ludger "Lucky" Hofstetter nas guitarras

Michael "Micky" Helsberg nas guitarras

Bernd Maciej no baixo

Ulli Poetschulat na bateria

 

Com:

Uwe "Jacke" Ziemert

Hans-Werner "Roller" Suedbrack

Wolfgang "Jagger" Jager

 

Faixas:

1 - 7117 (Musik Zum Gleichnamigen Film)

2 - Your Dream

3 - Lonely Seas

4 - Highway

5 - Fly Away

6 - The Day The Earth Will Die

Bonus:

7 - Sunflowers 





"Fly Away" (1978)










 

















sábado, 12 de abril de 2025

Satan - Satan (1975 - 2016)

 

Julien Thomas era um pequeno francês de 4 anos de idade e já tinha contato com o rock n’ roll. As lembranças, embora antigas, estavam vivas em sua memória, das bandas e músicas que ouvia em casa ou até mesmo no banco de trás de carro de sua família. E uma banda, em especial, lhe marcou e muito. Esquecida, pouco conhecida, obscura na cena musical francesa. Era o SATAN!

Dentre tantas bandas que Julien, tão jovem, ouvia, o SATAN era a que mais ouvia em sua casa. E ele ganhou, na realidade os seus pais, o único álbum da banda, gravado em um K7 simples pelo tecladista Jérôme Lavigne, um dos membros da banda e que nela esteve de 1972 até 1976, ano em que foi extinta.

E foi com essa cópia que, décadas depois, o Satan viveria a sua redenção! Na década de 1990, aquele garotinho, que ouvia as músicas do Satan, entre outras bandas, no banco de trás do carro dos seus pais, tornou-se um estudante do ensino médio e descobriu as grandes bandas da cena progressiva mundial, como King Crimson, Magma, Genesis, Pink Floyd etc.

Mas o que estava na mente dele, era aquela banda, cujas músicas estavam gravadas naquele K7 simples, aquela banda de nome tenebroso, mas de uma sonoridade cativante e envolvente: Satan! Em uma galáxia musical, mais precisamente nos anos 1990, tomada por Gun’s N’ Roses, música eletrônica, grunge e a Eurodance, para um jovem avesso à essas sonoridades, a incompreensão reinava em sua percepção de música.

Se colocou a pesquisar sobre o Satan, buscou onde podia referências sobre ela em toda a parte: bibliotecas de mídias, enciclopédia do rock francês... Nada! Nada! A difusão da internet veio, talvez com ela Julien conseguisse buscar informações sobre a obscura banda, mas nada mudou. Não se tinha vestígios daquela sonoridade que embalou a sua infância por tanto tempo. Será que teria salvação para o Satan?

Chegou a óbvia conclusão de que teria que fazer o exaustivo trabalho sozinho de reparar uma injustiça histórica e trazer à luz o rock obscuro do Satan e tentar colocar a banda na história do rock francês. O que teria acontecido com os jovens músicos do Satan nos anos 1970? Ingenuidade, idealismo, a indústria fonográfica? O que o tornaram anônimos?

Fundada em 1968, por estudantes da école Normal du Mans sob o nome de “Heaven Road”, a começou, como tantas outras, tocando covers de Colosseum, The Who, Jethro Tull, Soft Machine entre outras que faziam sucesso na segunda metade dos anos 1960. Depois de um tempo decidiram compor material próprio, explorando camadas experimentais e atmosféricas, musicando poemas de Verlaine, Soleils, Couchants, por exemplo.

Depois de pouco mais três anos, os futuros e promissores funcionários públicos deixaram de lado suas carreiras emergentes como professores e as promessas de estabilidade no emprego para se dedicarem integralmente à música. Em uma França no auge das revoltas estudantis e dos movimentos sociais, parecia ser bem revolucionário sair da “École Normale”.

E assim o foi. Os jovens músicos, na faixa dos seus vinte anos, se estabeleceram em uma comunidade no interior de Sarthe e passaram a viver a utopia do rock n’ roll. Uma vida ditada pela moda, pela convicção, talvez não seja utopia...

Satan

Distante da civilização, em uma espécie de “bolha impermeável”, a banda desenvolve sua identidade, por um método peculiar de composição, com alicerce na “ilustração sonora”. E Macson, ao conceder uma entrevista, explicou esse processo:

"Sempre construímos nossas músicas a partir de um roteiro, um pouco como um filme. Primeiro escrevemos uma história e adaptamos músicas e textos para ela".

A banda tinha uma ambição latente e real de transmitir imagens e história por intermédio das músicas que compunham e ainda tinha outro detalhe importante, outra característica marcante que a banda tinha e que ficou exposta nas músicas que continham em seu único álbum: texturas sonoras, mas bastante simples e pouco se fazia isso na cena progressiva francesa! Talvez o Ange pudesse imprimir esse tipo de sonoridade, mas o único talvez.

Apesar das dificuldades financeiras da banda, da precária condição de vida e dos seus instrumentos musicais, eles, com muita persistência, começaram a conquistar uma reputação séria no palco e foi notado várias vezes durante as suas apresentações no Golf Drouot, um templo parisiense do pop e do rock. O Heaven Road, o antigo Satan, se tornou o “rei” do local, tornando-se o queridinho do dono da casa de show, Henri Leproux.

Se aproximaram do produtor Jacky Chalard, baixista da banda Dymasty Crisis, que na época abria para Michel Polnareff. Com um pé no show-biz, o Heaven Road seguiu o conselho de seus patrocinadores e decidiu adotar um nome francês para adequar ao mercado fonográfico local, mais comerciável à época, com a esperança de galgar degraus, buscar a fama. A lista submetida a eles se resumiu em dois nomes: “Sarah”, que parecia algo meio glam ou andrógeno e “Satan”. A segunda opção foi escolhida no verão de 1973. Macson, o guitarrista, argumentou o seguinte, em uma entrevista:

"Bem, nós gostamos e então, como na época havia Ange que estava indo bem, pensamos que isso poderia tornar possível fazer a troca".

Mas essa onda de surfar na notoriedade da banda carro-chefe da cena rock da França e torcer o nariz para ela e seu nome não seria, claro, bem recebida. Esse nome, em breve, seria uma bola de ferro acorrentada em seus pés. E o gerente que os acompanhou por alguns meses fez um grande alarde disso, fomentando sessões de fotos em cemitérios, por exemplo, para personificar esteticamente o nome sombrio da banda adotado recentemente. Fora outros detalhes sórdidos, como kits impressos descrevendo “o mestre do inferno se expressando através da violência”, entre outros detalhes subversivos.

Mas esse não era o desejo da banda de buscar sucesso, tanto que, com a saída de seu gerente, os jovens músicos insistiram mais nas noções de imaginação, devaneio e mistério, tema esses já presentes em suas composições. E com isso sua produção de palco muda também, com os caras subindo neste escuro, com apenas as lâmpadas dos amplificadores e seus pregos fosforescentes como fontes de luz. As “peças” são apresentadas como pinturas, apoiadas por projeção de vídeo. Eram verdadeiros shows multimídia antes de seu tempo. E com isso, de volta ao Golf Drouot, em dezembro de 1973, eles foram coroados com o curioso título de “melhor banda semiprofissional francesa”.

Apesar das satisfatórias incursões em Paris, o Satan decidiu manter-se a distância desse glamour e volta a se isolar em sua fazenda. Porém na primavera de 1974 eles embarcaram em uma turnê com a banda Caravan, que já gozava de uma pequena notoriedade no embrionário “underground” da época. Mas a turnê se tornou um fracasso para ambas as bandas. Em Orléans o show foi boicotado por uma história sombria de rivalidade entre os organizadores, ocasionando a interrupção da turnê e o retorno à Inglaterra do Caravan, além da volta do Satan à Sarthe.

Levados ao limite e sem fôlego, financeiramente falando, André “Macson” Beldent, guitarrista, Jerome Lavigne, tecladista, Christian Savigny, baterista e Richard Fontaine, baixista, os membros do Satan, criaram o “Ciel d'été”, um projeto paralelo que tinha a intenção primordial de trazer dinheiro. E surtiu efeito! O Ciel d'été foi tão bem-sucedido no oeste da França que os músicos acumularam dinheiro o bastante para comprar equipamentos e, um ano depois, fazer uma residência de um mês no “Studio 20”, em Angers. É nesse momento que o trabalho do Satan seria concebido.

Ciel D'Été antes e atualmente

Ciel D'Été - "Father of Night, Fight of Day"

Cinco dias por semana os músicos trabalharam incansavelmente, fazendo e refazendo tomadas até obter o resultado desejado. E finalmente com o rolo debaixo do braço, com as suas músicas prontas o Satan retorna à Paris para oferecer seu álbum para as gravadoras. Sem sucesso! Tentaram os relacionamentos que construíram, mas nada! Questionaram, indagaram para si mesmos se as pessoas que receberam as cópias de seu álbum realmente ouviram, mas logo se entediaram e, depois de mais três ou quatro recusas, ainda com o projeto “Ciel d'été”, a banda deu o seu último suspiro, em 1976.

O álbum que foi esquecido do Satan trazia um “prog rock envenenado”, repleto de recursos sonoros, com uma vibe jazzística e pegada pesada, lembrando, por vezes um hard rock. Um limiar entre peso, prog, simplicidade, envolto em um som orgânico e complexidade, devido a tamanha ousadia em trazer esses elementos e tirar deles uma massa sonora incandescente e solar.

O álbum é inaugurado com a faixa “Le Voyage” que tem como destaque as texturas de teclado que acompanham uma seção rítmica frenética e solar, com solos diretos e pesados de guitarra, tudo isso envolto uma atmosfera sideral, uma pegada space rock ao estilo Pink Floyd. Uma faixa viajante e estilosa.

"Le Voyage"

Segue com a faixa “OS” que inicia com um vocal falado, mas logo entrega um teclado sombrio e depois mais sinfônico, mostrando uma incrível versatilidade em um curto espaço de tempo na música. As viradas rítmicas não param por aí: percebe-se uma vibe jazzística, uma pegada mais hard, depois contemplativa, algo pastoral, depois fica mais experimental e soturno. O vocal retorna com risadas doentias e paranoicas. Definitivamente é uma faixa sombria e estranha.

“Le Robot” começa com riffs mais pesados de guitarra com teclados tendendo para o progressivo sinfônico e que me remeteu imediatamente ao krautrock e o rock progressivo britânico. Pode parecer uma “mistura” improvável, mas essa é a percepção. O vocal entra e uma pegada mais viajante e estranha se faz ouvida. Essa proposta mais viajante se une aos riffs mais pesados de guitarra e formam um contraste envolvente e intrigante, ao mesmo tempo. Uma das melhores faixas do álbum.

"Le Robot"

“La Nuit Des Temps”, a faixa mais longa do álbum, começa com um ruído meio sideral e sombrio, mas logo fica solar e deslumbrante com um lindo e límpido solo de guitarra, mas não por muito tempo. Os teclados tornam a música mais experimental e minimalista, com a “cozinha” rítmica ditando o humor da música. Bateria delicada e bem executada, baixo pulsante. Entre momentos mais soturnos e solares, a música se revela versátil e cheia de mudanças de tempo. Excelente!

"Las Nuits des Temps"

E fecha com a faixa “L’Aigle” que inicia com uma pegada folk, ao estilo pagão de ser, uma pegada celta, com uma atmosfera sombria e ameaçadora, mas logo é “encorpada” com o progressivo sinfônico e depois algo mais psicodélico, um beat que nos remete aos anos 1960. Inacreditável como a versatilidade aliado à simplicidade se faz presente nesta e nas demais músicas do único álbum do Satan.

"L'Aigle"

Voltando a Julien e já adulto ele relatou, também em entrevista que concedeu, que o Satan tomou o caminho ao contrário:

"...porque quando uma banda chamava a atenção, a gravadora primeiro a confiava a um diretor artístico que orientava o trabalho, que procedia com uma espécie de formatação para que fosse mais assim ou aquilo, para que pudesse ser tocada no rádio, etc. Eles gravaram primeiro, era arriscado. E então, talvez devamos reconhecer uma falta de combatividade da parte deles, em comparação com uma indústria que já havia feito o suco desse tipo. Basicamente, havia o Ange que vendia muito e então todas as gravadoras tinham sua banda progressiva como Magma ou Mona Lisa..., mas atrás deles, as portas estavam fechadas. Você também tem que lembrar que bandas como Magma ou Gong estavam morrendo de fome na época! Comercialmente, o gênero estava em declínio e Satan chegou no final da onda, no momento em que o negócio estava começando a mudar para a onda rock/punk que veria o surgimento de artistas como Little Bob, Bijou, Starshooter, Téléphone, Asphalt Jungle... A cena estava mudando e eles realmente chegaram à dobradiça”.

De acordo com o baterista da banda, Christian “Kicks” Sauvigny, que mais tarde faria carreira como produtor e programador musical no rádio (Chérie FM, Europe 2, Nostalgie...), o “máster” original do álbum foi colocado em segurança em um cofre de banco. O que resta saber é: Em qual banco? Em qual cidade? Ninguém sabe, ninguém soube de absolutamente nada! O carretel, com as gravações da música nunca ressurgiu. Os demais membros da banda não tinham mais uma cópia, nem mesmo o Studio 20, em Angers, onde foram gravadas as músicas, não tinha nada arquivado.

O baterista Savigny tinha uma cópia, a única conhecida, até então. Foi ele quem falou sobre o Satan pela primeira vez para Serge Vincendet, dono da loja de discos e gravadora de Paris, a Monster Melodies, especializada nesse tipo de pequenos “tesouros” perdidos, obscuros. Mas a fita estava em condições precárias, praticamente destruídas.

Mas é nesse momento que entra na história Julien. Julien, com seu antigo K7, agora digitalizado no estúdio, feito no início dos anos 2000, tentou se aproximar de algumas marcas especializadas, principalmente na França e na Itália. Mas o risco financeiro parecia demais para ele, afinal uma banda virtualmente desconhecida da qual ninguém tinha ouvido falar. Uma coisa levando a outra e o encontro finalmente aconteceu, em outubro de 2015, entre Julien, aquele ex-adolescente fã de Satan e o chefe da Monster Melodies.

A famosa cópia que o menino Julien ouvia na casa dos pais, no banco de trás de seu carro foi usada para a gravação do álbum no formato vinil. Com uma tiragem de 1.000 cópias, o LP do Satan, homônimo, que apresenta cinco das sete faixas gravadas em 1975, foi distribuído em lugares distantes da França, como Espanha, Alemanha, Holanda, Itália e até mesmo os Estados Unidos.

A persistência e os encontros fizeram com que algo, totalmente perdido e improvável para ganhar a luz, veio a vida quarenta anos depois de sua concepção. Um belo consolo para o fundador do Satan, o guitarrista André “Macson” Beldent que, até hoje, ainda vive uma vida intensa de rock n’ roll, no auge dos seus quase 75 anos de idade, com sua banda de blues tocando todo fim de semana em bares.

Como esperar um efeito positivo, no que tange ao seu lançamento, quarenta anos depois, de uma música que pouco se encaixaria atualmente, mas que ganhou, mesmo que tardiamente a sua redenção tardia, embora a banda jamais iria tirar proveito de seu verdadeiro valor sonoro. Richard “Sam” Fontaine se afastou da música e as últimas informações que pude obter, buscando na web sobre a banda, é de que estaria muito doente. Quanto o tecladista Jérôme Lavigne, seu fim foi trágico. O mesmo se suicidaria em 1987, alguns anos após ter entregado a cópia, o K7, ao jovem Julien que possibilitou livrar o Satan do “purgatório” e do esquecimento eterno. 

Se você quiser ouvir o álbum na íntegra com mais duas faixas que não entraram no lançamento pelo selo Monster Melodies, clique aqui. Há também um show da banda, de 1974, que pode ser ouvido aqui. Há reportagens também do Satan, afinal esse é o canal do YouTube de Julien Thomas.




A banda:

André “Macson” Beldent na guitarra

Jérôme Lavigne nos teclados

Christian Savigny na bateria

Richard “Sam” Fontaine no baixo e vocal


Faixas:

1 - Le Voyage

2 - O.S.

3 - Le Robot

4 - La Nuit Des Temps

5 - L'aigle

 



"Satan" (1975 - 2016)