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sábado, 1 de março de 2025

Uno - Uno (1974)

 

As dissoluções de bandas podem ser duras para os seus integrantes e fãs, mas convenhamos que o fim de uma trajetória pode significar o começo de novos e arrojados trabalhos. As vezes para construir é preciso destruir! Construções edificantes e fortes que podem ficar na história ou simplesmente ter curtas histórias, mas que podem marcar a vida de músicos e apreciadores do bom e velho rock n’ roll.

Divergências sonoras, guerras judiciais por dinheiro, ódio, egos, tantos sentimentos motivados por diversas situações que podem parecer desagradáveis e tristes para os fãs que só se preocupam com a música, podem suscitar novos grandes momentos.

E diante de tantos e tantos casos similares que presenciamos no universo do rock eu citarei um que aconteceu na Itália com uma das seminais bandas daquele país que é um verdadeiro celeiro do hard e prog nos anos 1970: o Osanna.

Osanna

O ano era 1973 e a cena era a prolífica napolitana. O Osanna lançaria talvez o seu mais famoso e representativo álbum de sua arrojada discografia, o “Palepoli”. Esse álbum personificaria o ápice da criatividade sonora do Osanna, porém esse momento épico da banda renderia a sua dissolução, o seu fim. As relações entre os seus integrantes eram delicadas, tempestuosas e já estava em curso esse triste fim.

"Palepoli" (1973)

Mesmo com um trabalho incrível o Osanna estava abalado, na corda bamba com a iminência do fim. Parece, caros leitores, que o sucesso é muito tênue nas vidas das bandas, onde, cada vez que a banda sobre, cresce e está no topo do mundo ou da sua criatividade, o ego fica cada vez mais inflado.

Eles ainda teriam tempo para lançar o vindouro álbum “Landscape of Life”, em 1974, decretando oficialmente o fim do Osanna. Esse último trabalho marcaria uma mudança na banda, onde gravariam músicas em inglês com a clara intenção de ganhar outros mercados internacionais e alçar o Osanna para mundo, o que foi inútil.

Reza a lenda que os integrantes, nas gravações de “Landscape of Life”, estavam com tantas divergências quanto a música do Osanna no futuro que o nascimento da banda que falarei nesta resenha seria a ideia que parte da banda queria para o Osanna e por isso que o UNO poderia ser uma sequência do velho Osanna.

O Uno surgiu, como disse, das cinzas do Osanna e teve na figura emblemática do guitarrista Danilo Rustici e no flautista e saxofonista Ellio D'Anna a sua espinha dorsal. Se juntaria a esses músicos, originalmente o baterista, hoje famoso e exímio, Toni Esposito.

 

O Uno surgiu, como disse, das cinzas do Osanna e teve na figura emblemática do guitarrista Danilo Rustici e no flautista e saxofonista Ellio D'Anna a sua espinha dorsal. Se juntaria a esses músicos, originalmente o baterista, hoje famoso e exímio, Toni Esposito.

No final de 1973 a banda foi apresentada pelas revistas de música italianas e as matérias eram sobre um LP que seria lançado em breve pela recém gravadora Trident. Convém lembrar que Massimo Guarino e Lino Vairetti, a outra parte do Osanna, ficaria pela Itália para colaborar com a banda napolitana Città Frontale, que daria a esta um sopro de vida, lançando o álbum “El Tor”, em 1975, cujo álbum por ser ouvido aqui.

Cittá Frontale - "El Tor" (1975)

Mas antes de qualquer lançamento a primeira baixa. Esposito sairia da banda antes de gravar qualquer material com o Uno e foi para o projeto de outra seminal banda de Nápoles chamada Cervello, gravando o excepcional “Mellos”, ainda em 1973. Para o lugar de Toni Esposito entraria o baterista Enzo Vallicelli, que tocou com o Hellza Poppin e o Osage Tribe e com Claudio Rocchi. Pronto! Nova banda formada e com o desejo de um novo álbum prometido na imprensa especializada da música italiana.

Cervello - "Mellos" (1973)

A expectativa dos executivos da gravadora Fonit Cetra era tão grande que decidiram investir e muito no Uno, tanto que encaminharam a banda para Londres e gravarem no Trident Studios o seu tão aguardado debut. E lá o álbum foi concebido, gravando para o selo Fonit Cetra o seu primeiro e único álbum de estúdio chamado simplesmente “Uno”, em 1974.

“Uno” teve algumas participações relevantes, diria famosas. Por ter sido gravado no mesmo estúdio de “Dark Side of the Moon”, icônico álbum do Pink Floyd, em 1973, o primeiro álbum do Uno teve a ajuda do letrista Nick Sedwick e a cantora Liza Strike, que colaborou com o álbum famoso do Floyd, também tocou em uma faixa de Uno.

 

Liza Strike

As conexões com o Pink Floyd não parariam por aí. A versão das músicas do primeiro álbum do Uno cantada em inglês, teve sua capa projetada pelo influente Hipgnosis, que fez uma capa extremamente surreal e instigante. Esse álbum cantado integralmente em inglês teve a nítida intenção de projetar o Uno para o mercado exterior, fazendo com que a banda ganhasse fama, mas não aconteceu. As tentativas foram inúteis. Mas antes de contar o desfecho triste de Uno, falemos de seu único álbum.

“Uno” não está muito longe do estilo tardio do até então último álbum lançado do Osanna, “Landscape of Life”, com quatro faixas cantadas em inglês e três músicas cantadas em italiano. E para muitos essa semelhança com o álbum do Osanna tenha sido a derrocada do Uno, talvez sendo o “fantasma do passado” assombrando os remanescentes da banda, poderiam assombrar o Uno ou talvez seriam as intenções ou, diria, as tentativas impostas em “Landscape of Life” que queriam implantar em “Uno”.

“Uno” traz um viés mais comercial, mas nada frívolo ou trivial, superficial demais, pois traz uma diversidade sonora que, convenhamos, o Osanna sempre teve, afinal, dois terços do Uno eram do Osanna, o que poderia ser natural. Blues rock, hard rock, prog rock, um rock orquestral capitaneado pelo sax, flauta e moog são as tônicas desse álbum. É um álbum frenético, cheio de energia e caótico, a natureza selvagem típica do Osanna estava em Uno, mas com uma roupagem mais acessível.

O álbum é inaugurado pela faixa “Right Place” que, para o início de um álbum, torna-se muito interessante! Inicia suave, lenta e pastoral com flauta viajante e linda, tocada de uma forma muito particular e emocionante. A guitarra acústica traz essa atmosfera agradável capitaneada pela flauta. A música, cantada em inglês, te remete ao prog britânico. A ideia da banda de internacionalizar o som foi construída nessa música. Mas quem se preocupa com isso? O que importa é a qualidade da música que está bem destacada nela. Bateria marcada, lenta, o conceito de balada se faz presente do início ao fim e o sax traz o “tempero” necessário para a viagem da música. Rápidos solos de guitarra animam. Belo início!

"Right Place"

“Popular Girl” muda um pouco o caminho. Tem uma pegada de blues rock que te remete aos blueseiros norte-americanos dos anos 1960 ou até mesmo dos blues rock do início dos anos 1970, pois tem uma pegada mais pesada e solar. Esqueça o prog rock nessa faixa e, apesar de um tanto quanto deslocada, mostra a capacidade de diversificar a sonoridade de seus belos músicos. E, falando nisso, o destaque fica para os solos de guitarra de Danilo Rustici. Enzo Vallicelli não fica atrás nas baquetas: potente e pesado. As flautas envenenadas. Nesse momento em que os instrumentos ganham destaque, o blues rock é esquecido e o hard rock ganha evidência. As mudanças rítmicas podem ser encaradas como uma música progressiva? Fica a critério de quem ouve chegar a essa conclusão.

"Popular Girl"

A primeira faixa cantada em italiano, “I Cani e La Volpe” e com isso traz a “pegada” italiana, soando mais italiana. É uma melodia cativante, linda, complexa. O uso de teclados e do saxofone faz da música cheia de recursos. E o que dizer dos vocais, uma performance magnífica cantada a plenos pulmões que, em determinados momentos, é gritado. Em alguns momentos soa caótico, lembrando os primórdios do King Crimson. Espetacular!

"I Cani e La Volpe"

“Stay With Me” retorna a língua não nativa de seus músicos e traz consigo novamente a leveza de uma balada progressiva, como na faixa inaugural. A dupla espetacular do violão e da flauta traz a tônica da música e toda a sua proposta. Violão acústico, dedilhado, com a flauta viajante, se encontram em uma simbiose sonora incrível. Mas vai encorpando a música e a bateria se encarrega desse momento. Os vocais agora dão lugar a uma pegada mais emocional. O sax, mais uma vez, é destaque, e nos faz querer bailar, dançar. Fantástico! "Uomo Come Gli Altri" é o tema mais curto aqui, um momento caloroso e relaxante em que podemos desfrutar de seus vocais, é o preâmbulo para a faixa mais longa.

"Stay With Me"

“Uno Nel Tutto”, no auge dos seus dez minutos, é simplesmente épica! Sem sombra de dúvidas é uma das melhores faixas de “Uno”. E ela se torna especial por soas diferente do que estava se ouvindo até então no álbum. É uma música cheia de sentimento, forte e repleta de personalidade. Ela soa experimental e o duelo entre o vocal, mais agressivo e o sax igualmente envenenado, remete ao hard prog, algo mais pesado e underground! E como uma música progressiva, vai mostrando mudanças rítmicas e depois dos quatro minutos de duração, ela fica com uma atmosfera mais eletrônica, me fez lembrar um krautrock germânico. É incrível o quanto esses caras se permitem ousar e deixar a criatividade falar mais alto. Solos de sax são instigantes e mesmerizantes. Não há como não se deixar render e sair dançando loucamente. E já se encaminhando para o final a bateria bate pesado, mas para quem achava que iria ser um desfecho mais hard, enganou-se, porque o piano entra e a balada ganha destaque. Música cheia de recursos e, mais uma vez, revela a capacidade de seus instrumentistas.

"Uno Nel Tutto"

E fecha com a faixa “Goodbye Friend” que traz a pegada das faixas anteriores, a balada dominada pelos violões acústicos. Os dedilhados remetem a algo mais pastoral. Mas logo entra o sax e os vocais que, mais uma vez, se revelam bons “parceiros”. É bem floydiana, não pelo fato do vocal de Liza Strike, sempre emocional e dramático, que participou em “Dark Side of the Moon”, mas que traz aquela mescla de prog com psicodélico e um viés mais radiofônico. É possível? Sim! 

"Goodbye Friend"

O texto, caro e estimado leitor, por ser meu, torna-se inevitável a minha visão acerca do álbum, nada mais natural do que isso e eu faço questão de expô-las. E “Uno” é um álbum fantástico! Quando levantei referências para construir esse texto, sobretudo na sua parte histórica, li críticas muito pesadas, visões negativas deste trabalho único da banda Uno. Merecem todas as análises muito respeito, afinal, as opiniões são pessoais, mas muitos criaram uma expectativa de ouvir em Uno o Osanna, banda mais querida pelos ouvintes de progressivo e hard rock. E é aí que a frustração nasce, pois muitos ouviram Uno como Osanna.

Evidente que os laços que os unem são fortes, afinal, grande parte do Uno veio do Osanna, mas esses ousados e grandes musicistas encararam seu até então novo projeto como algo audacioso, diferente da vertente sonora que o Osanna produzira até então. E eles fizeram! Eles conseguiram, mesmo que, em alguns momentos, eles emularam o som do Osanna em Uno, principalmente pelo que fizeram em “Landscape of Life”, mas não esperem do Uno o Osanna.

E acredito que a rejeição se deu também pelo fracasso comercial e os problemas que o Uno teve em reproduzir as faixas de seu álbum no palco, ao vivo. A turnê promocional foi problemática, devido a complexidade dos arranjos executados no estúdio, sendo difícil tocar ao vivo. Por essa razão um quarto músico foi adicionado para os shows finais da turnê: o irmão de Danilo Rustici, Corrado, que estava tocando no Cervello, na guitarra e baixo. A título de curiosidade a abertura dos shows do Uno foram feitas por Tito Schipa Jr. que tinha acabado de lançar “Lo Ed Io Solo”.

Mesmo com a reação fria e monótona da imprensa especializada e do público, foi lançada uma versão, em inglês, de “Uno”, com uma bela capa surreal projetada pela Hipgnosis, mas também não atraiu nenhum interesse. Ele foi lançado na França, pela Motors e na Alemanha pela Pan, ambos com a capa desenhada pela Hipgnosis. Há um lançamento em CD japonês, em Strange days, com capa de Mini LP. As reedições originais do CD cantado em italiano, excluídas de catálogo há muito tempo, foram finalmente substituídas por um lançamento com capa gatefold e livreto ilustrado bem caprichado.

Capa alternativa de "Uno"

A rejeição da imprensa e o desdém pelo seu álbum, lamentavelmente decretou o precoce fim do Uno! O mercado da música sempre falou mais alto e infelizmente, em virtude desse triste cenário, sempre aliaram o fracasso comercial à qualidade dos trabalhos realizados. A banda se separou e um novo projeto nasceria com os irmãos Rustici e D’Anna que se chamaria “Nova”, apostando em um viés mais fusion. O primeiro álbum se chamaria “Blink”, lançado em 1975. A resenha desta banda e álbum, caro amigo leitor, pode ser lida aqui. Enzo Vallicelli tocaria, por muitos anos, com vários artistas italianos populares e hoje assinando como “Vince Vallicelli”, é um grande baterista de blues.

Nova - "Blink" (1975)

O sucesso comercial não veio, mas aqui neste blog o fracasso ganha destaque, a obscuridade ganha luz e o Uno, com seu único álbum, homônimo, é, sem sombra de dúvidas um clássico do prog rock obscuro. Um trabalho ousado, digno, forte, de alto teor emocional e caráter dramático. Está nos anais da história do rock marginal. Altamente recomendado!



A banda:

Danilo Rustici nos vocais, na guitarra elétrica e acústica, bass pedal, strings pedal, moog e piano.

Elio D'Anna no tenor e barítono e alto e soprano saxofone, flauta e strings pedal.

Enzo Vallicelli na bateria.

 

Com:

Liza Strike no backing vocal

 

E:

Corrado Bacchelli na produção

 

Faixas:

1 - Right Place

2 - Popular Girl

3 - I Cani E La Volpe

4 - Stay With Me

5 - Uomo Come Gli Altri

6 - Uno Nel Tutto

7 - Goodbye Friend



"Uno" (1974) - Ouça aqui!








 






























quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Pandora - Measures of Time (1974)

 

Quando leio alguns textos sobre determinadas bandas ou álbuns observo, nitidamente, que as pessoas buscam algo inovador. Claro que, quando temos um primeiro contato com uma banda, buscamos algo que nos arrebate, perfeitamente natural ter, ou melhor sentir isso. Mas percebo que o nível de exigência tem sido demasiadamente alto a ponto de rejeitar e criticar determinadas bandas e trabalhos por elas produzidas.

A crítica e a rejeição também fazem parte do processo da aceitação ou não de determinados trabalhos, mas penso que buscar sempre algo inovador é demasiado exigir demais de determinadas bandas e principalmente de si mesmo quanto ao seu nível de aceitação e rejeição de determinados trabalhos.

As cenas musicais chegam a níveis de saturação, com um número enorme de bandas que surgem. Percebo isso em movimentos musicais de hoje e do passado e com o rock progressivo não foi diferente, principalmente na primeira metade dos anos 1970, quando viveu sua ebulição criativa, embora nunca tenha sido uma cena palatável e tanto aceita pela indústria fonográfica. E que fique claro que a sua ebulição criativa foi na primeira metade dos anos 1970, mas não significa que em outros tempos não tenha sido.

E, diante desse cenário, que penso ter acontecido, muitas bandas surgiram, algumas viram a luz do sucesso, enchendo arenas, estádios e participando de festivais faraônicos e muitas outras caíram no limbo do esquecimento, vagando pelas sombras obscuras do underground.

E essas últimas sofreram e sofrem com uma investida pesada de ultrajantes cópias das bandas famosas, de sucesso. Evidente que não tirarei os méritos dos medalhões do prog rock que conquistaram suas condições de pioneiras e inovadoras, mas qual o motivo de taxar as obscuras de plagiadores? Qual o motivo de pontuá-las como farsantes ou coisa que o valha?

Essa defesa veemente da minha parte, caros leitores, se dá por uma questão óbvia, afinal, esse reles e humilde blog fala de bandas obscuras, mas não se enganem que a defesa seja cega e alienada. Aqui há espaço para críticas, mas principalmente, modéstia à parte, para grandes álbuns e bandas.

E a banda de hoje eu conheci recentemente em uma dessas incursões, às vezes, confesso, aleatórias na grande rede na caça de álbuns obscuros e quando a ouvi simplesmente adorei, porque alia um progressivo sinfônico, com uma pegada mais pesada, um hard mais acessível, com uma sonoridade, diria, comercial, mas de qualidade. Falo da banda sueca PANDORA.

Pandora

Quando levantei referências para este texto que você, fiel e bom amigo leitor, li algumas críticas pesadas, desconstruindo a sonoridade da banda, dizendo que era cópia de ícones como Uriah Heep, Genesis, entre outras bandas de sucesso. Ao ouvir o único álbum lançado pela banda, há cinquenta anos, em 1974, chamado “Measures of Time”, não se percebe, de fato, nada de inovador, era o que se fazia na primeira metade dos anos 1970, na cena progressiva, mas se trata de um trabalho excepcional, muito agradável de se ouvir e é isso que importa aos ouvidos e a alma.

E falando em referências lamentavelmente pouco encontrei sobre a história do Pandora na web, sobre as suas origens, então vai as minhas famigeradas licenças poéticas acerca de sua história obscura. O nome da banda te remete a conhecida “Caixa de Pandora” com a sua história de que os deuses gregos colocaram todas as desgraças do mundo, entre as quais a guerra, a discórdia, as doenças do corpo e da alma em uma caixa. Talvez a inspiração para o nome da banda seja a música como uma manifestação irrestrita de esperança. Há muito a se falar da “Caixa de Pandora”, mas não entrarei em pormenores.

Vamos ao pouco da história do Pandora, a banda. A banda foi formada na cidade de Norrkoping, no sul da Suécia, em 1971 pelo baterista Bertil Jonsson e pelo guitarrista Urban Gotling. Após algumas mudanças na formação a banda gravou o já informado debut, na realidade único trabalho, “Measures of Time”, de 1974. Com a saída de Gotling, a formação que concebeu esse álbum tinha, além de Jonsson, na bateria, Leif Hellquist e Åke Rolf na guitarra, Peter Hjelm, no vocal principal, Janne "Flojda" Dockner no piano e sintetizador e Björn Malmqvist no baixo.

“Measures of Time”, lançado pelo selo sueco SMA, no formato vinil, traz uma música bem executada, com excelentes arranjos e melodias com uma roupagem progressiva sinfônica, com teclados agradáveis e vocais bem envolventes, com uma textura mais pesada, tendendo para o hard rock que harmoniza muito bem com os sintetizadores e a pegada sinfônica, fazendo de sua sonoridade versátil e que pode certamente agradar aos apreciadores de progressivo e hard rock, além de um viés mais comercial, porém bem executado.

Nuances psicodélicas são percebidas também que te faz remeter naquela transição dos anos 1960 para os anos 1970, que se percebe uma sonoridade que tenta deixar o experimentalismo e a pegada beat indo para algo mais complexo e bem trabalhado. Assim o é “Measures of Time”. Não para por aí: ainda se percebe um blues progressivo e calorosas pegadas de krautrock. A sonoridade do Pandora é bem globalizada e se afasta um pouco do som das bandas suecas meio exóticas e pouco ortodoxas do início dos anos 1970.

O álbum é inaugurado pela faixa título “Measures of Time” que começa meio operística, piano e baixo em total sinergia entregando um progressivo sinfônico com riffs pesados de guitarra e um vocal melódico cheio de dramaticidade. E tudo isso ganha vivacidade e emoção com solos lindos de guitarra que logo tem a companhia do piano dando uma cadenciada e “rivalizando” com a guitarra. É a faixa que define bem o trabalho do Pandora.

"Measures of Time"

Segue com “Dusty Ledger” que também ganha vida com o piano na introdução e baixo trazendo uma textura mais misteriosa o que é corroborado pelo vocal mais fechado e introspectivo. O baixo fica mais pulsante, a música ganha mais corpo, os riffs de guitarra trazem uma roupagem hard rock, bateria é marcada e bate mais forte, o vocal segue a proposta com alcances maiores, os teclados dão um tom mais sinfônico, solos de guitarra são de tirar o fôlego. Não há como negar que a faixa se revela complexa e repleta de mudanças rítmicas.

"Dusty Ledger"

“The Queen” segue com a proposta mais sinfônica com uma introdução de piano, mas dessa vez foi rápida, porque ela já começa animada, enérgica e agitada. Vocais mais nervosos, mas não menos melódico, o que sempre me agrada, riffs de guitarra dão o tom mais solar, bateria as vezes pesada ou com uma discreta pegada jazzística, o piano mais frenético entrega o peso, o baixo pulsante e dançante, solos mais acessíveis de guitarra. Sem dúvida a mais animada faixa do álbum.

"The Queen"

“Life is Good, Life is Bad” começa com uma salutar “rivalidade” entre piano e a guitarra com seus riffs, tendo uma textura rítmica mais dançante, graças, claro, ao baixo mais pulsante e bateria marcada. Vocal, como sempre, em destaque, sempre melódico e agora em um tom mais dramático. As mudanças rítmicas também é a tônica da faixa, trazendo à tona passagens mais sinfônicas. Na sequência tem “Tailor” com o piano em destaque. A roupagem mais progressiva ganha força nessa faixa e os teclados confirmam essa condição com aquela pegada típica do sinfônico, que logo irrompe nos indefectíveis solos de guitarra sempre bem executada.

E fecha com “Mind of Confusion” traz à tona novamente o hard prog, o peso dos riffs e solos da guitarra e as mudanças rítmicas são arrebatadoras e extremamente solares. E nessas mudanças rítmicas não podemos negligenciar o vocal, destacando-o conduzindo perfeitamente os “humores” da faixa. Traz alcances vocais poderosos a sussurros.

Após o lançamento de “Measures of Time” o Pandora teve alguns bons e importantes shows dando a perceber que a banda vingaria, seguiria o seu curso na história. Abriu banda para bandas mais famosas da Suécia como Kaipa e Trettioariga Kriget, entre outras, isso entre 1975 e 1977, durando até 1981, quando a banda se desfez por diferentes razões, de relacionamento a percepções musicais, sendo que alguns músicos já tinham, inclusive, saído do Pandora para outros projetos.

“Measures of Time” permaneceu como uma total raridade até que a Tachika Records o relançou em mini LP. O selo em questão é um tanto quanto nebuloso, pois seu catálogo está na loja virtual “Syn-Phonic”, mas nem eles sabem se totalmente legalizado, apontando um vínculo com outras empresas como a “Progressive Line” e a coreana “Won Sin”, mas o que vale é a qualidade do lançamento e de que o álbum ganhou alguma repercussão, embora pequena. Teve outro relançamento, agora em vinil e CD, pelo selo alemão Press Alemanha, em 2015 e desde então não se tem notícias sobre um novo relançamento deste belíssimo álbum.

Independente se é ou não inovador, o único trabalho do Pandora, “Measures of Time”, é saboroso de ouvir, é agradável e traz uma complexidade em sua sonoridade muito democrática que faz com apreciadores de progressivo e hard rock se junte e ouça esse trabalho da banda sueca. O mais importante das discussões sobre vertentes do álbum e o bom alimento a alma que a boa música pode nos proporcionar.




A banda:

Björn Malmqvist no baixo

Bertil Jonsson na bateria

Leif Hellquist na guitarra

Åke Rolf na guitarra

Peter Hjelm nos vocais

Janne "Flojda" Dockner no piano e sintetizador

  

Faixas:

1 - Measures Of Time

2 - Dusty Ledger

3 - The Queen

4 - Life Is Good, Life Is Bad

5 - Tailor

6 - Mind Of Confusion 



"Measures of Time" (1974




 


 















quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Gäa - Auf Der Bahn Zum Uranus (1974)

 

Acho pitoresco esses termos, essas nomenclaturas que se atribuem a uma banda ou sua obra de arte, as suas condições perante a cena, perante ao mercado e no que isso tudo pode impactar uma realidade em um determinado país ou a um estilo de música, como no caso do rock n’ roll, por exemplo.

Uma banda que lança um álbum e que passa despercebida, cai nos escombros do rock, se torna empoeirada, no limbo do ostracismo, mas, com o passar dos anos se torna cult, referência e tem seus álbuns, geralmente lançados de forma quase que “artesanal”, em poucas tiragens, sendo disputados a tapas pelos caçadores de raridades, ou ainda sendo vendidos em valores quase que inalcançáveis aos bolsos dos pobres mortais.

Não estou, caro e estimado leitor, questionando essas viradas da história, mas, parando para refletir, torna-se, no mínimo, louco pensar que um trabalho totalmente esquecido por tudo e por todos, depois de alguns anos, ter o valor de seus álbuns altíssimo.

São alguns fenômenos comerciais e sonoros que caberia uma profunda dissertação, mas não vou entrar nos pormenores para não os deixar, amigos leitores, cansados, tornando essa leitura deveras enfadonha. E a Alemanha dos anos 1970, com o seu krautrock, movimento político, comportamental e musical completamente contracultural, e mais à frente o prog rock, hard rock, trouxeram inúmeras bandas que ficaram à margem do sucesso, do glamour do mainstream, pelo simples fato de apresentar músicas pouco ortodoxas.

E uma banda, em especial, adequa-se a esses requisitos com uma fidelidade espantosa e promoveu uma música extremamente vanguardista e que, de uma forma, ajudar a tecer a música alemã dos incríveis anos 1970. Falo do Gäa. Arrisco dizer que essa banda sequer é comentada entre os próprios alemães apreciadores de rock, mesmo com a sua afeição a cena rock daqueles tempos.

Gäa

É underground, por isso é raro. É uma sonoridade que alucina, nos provoca a sair da famigerada e temida zona de conforto, nos torna mais eufóricos por perceber que a sua sonoridade é conduzida a um patamar onde a criatividade rege a mente e os instrumentos de seus músicos. O Gäa traz nuances extremamente surrealistas, uma obra de arte que nos entorpece, quase chega a ser abstrata.

Parece ser minimalista, experimental, lisérgico, mas descamba para o blues rock, para o hard rock, para o prog rock como que em um estalar de dedos, sem pestanejar. Não há uma obediência calcada em estereótipos, não há um carimbo que determina um estilo específico de música. Há sim, tudo. E falo tudo isso porque em seu debut, o “Auf Der Bahn Zum Uranus”, lançado em 1974, sintetiza fielmente o que foi a banda em sua curta trajetória no planeta da música.

Mas para perder o costume vamos à história da banda, afinal a sua história se torna o espelho do que produziu em seus álbuns, sobretudo para bandas como o Gäa que deixa a liberdade da criatividade imperar.

“Gäa” vem do nome da deusa grega da Terra e da Fertilidade, Gaia, e foi formada em 1973, em Saarbrücken, capital do menor estado do Sarre, que faz fronteira com Luxemburgo e França. E quem esteve na fundação foram três amigos: Helmut Heisel, na guitarra, Peter Bell, no baixo e Stefan Dörr, na bateria e que tocaram juntos em uma banda chamada “The Phantoms” no colégio.

Era uma banda praticamente amadora, de jovens músicos, que tocavam cover, mas que logo se estabilizou em torno do guitarrista Werner Frey, que entrou no lugar de Heisel que, quando se formou na escola, optou por cursar Direito, do baterista Stefan, do vocalista e percussionista Werner Jungmann, do tecladista Günther Lackes e do baixista e flautista Peter Bell.

Depois de vários shows, estes amigos tiveram a oportunidade de entrar em estúdio, ainda em 1973, quando a banda já estava de fato formada e determinada a gravar músicas autorais, para gravar o álbum “Auf Der Bahn Zum Uranus” que foi lançado um ano depois, em 1974, com uma tiragem, pasmem, de apenas 300 exemplares! Reza a lenda que a quantidade de prensagens foi ainda menor, com cerca de 289 cópias!

Desde o início de sua trajetória o Gäa se distanciou da cena cultura de Munique ou da antiga Berlim Ocidental. Não tinham a “elegância” local, não se comparavam a bandas como Can, Faust, Cluster ou ainda o Amon Düül. Talvez pelo fato da banda, sem recursos para ter os equipamentos caros ou uma estrutura condizente para construir sonoridades como dessas seminais bandas representantes do krautrock, construiu a sua própria e arrojada sonoridade. Se tornaram únicos à sua maneira, mesmo que diante de obstáculos e entraves de cunho estruturais.

"Auf Der Bahn Zum Uranus" que, em tradução livre, significa “No caminho para Urano”, talvez personifique bem a condição sonora de suas chapantes músicas, porque, como disse, além de ser bem original, traz aquele apelo à space rock, que arriscaria em dizer que pode ter sido um dos primeiros trabalhos lançados na história.

E esse tipo de música, pouco usual para a época, foi o que interessou Alfred Kerston, dono da gravadora Kerston Records que decidiu contratar os caras imediatamente. Mesmo com essa questão da música underground e que pouco se encaixa ao que existia à época, a banda foi precoce, porque foi formada em 1973 e logo gravou seu primeiro álbum em 1974.

E outro detalhe importante que é, no mínimo inusitado, é que a gravadora era focada principalmente no lançamento de singles e bandas pop e que sempre evitou desbravar músicos e bandas alternativas. Era um estúdio pouco equipado, não tinha a estrutura dos grandes estúdios da época e, claro que o Gäa seria submetido a esse cenário e gravaria seu primeiro álbum de forma muito artesanal e assim nasceu “Auf Der Bahn Zum Uranus”.

E além da pouquíssima tiragem, ainda sofreram com alguns acidentes, porque parte da edição foi destruída e apenas uma pequena parte, à época do lançamento, foi vendida nos shows, sem nenhum tipo de divulgação por parte da gravadora, mas também com esse número tão reduzido de cópias. O que fazer? E hoje é tido, por muitos especialistas e colecionadores ávidos de vinis, como um dos LPs mais raros do mundo!

Mas não se enganem, caros amigos leitores, que esse trabalho se resume a uma pegada space rock, mas traz texturas interessantes de blues rock, de hard rock, de psych rock, com altos tons de lisergia, com guitarras alucinantes, com levadas de prog rock com um caráter mais sujo e garage e uma discreta pegada experimental, afinal, quando se coloca tudo isso em um “caldeirão” sonoro, não pode ser esquecido o fator experimental para tentar definir esse clássico obscuro.

A produção, para variar, fica aquém do que se espera, afinal, com a tímida estrutura do estúdio a qual foi concebido, não poderia ser diferente, mas traz certo “charme” ao produto final, dando-lhe identidade, trazendo também composições ingênuas, simples, mas que sintetiza fielmente o rock em sua gênese.

O Gäa, com o seu debut, demonstra uma tendência não conformista. Sente-se uma música sensível, cheia de melancolia, paixão, visceral, com tons até mesmo dramáticos, graças ao hard rock e até mesmo ao folk envolvidos. Ousaria dizer que ficaria no mesmo patamar de medalhões como Pink Floyd, Scorpions e até mesmo Jimi Hendrix. Basta observar, ouvir a guitarra de Werner Frey para corroborar tal questão, mas não se enganem, a sonoridade não se plagia. A formação da banda, em seu primeiro trabalho, trazia: Werner Frey na guitarra e vocal, Stefan Dorr na bateria e vocal, Werner Jungmann no vocal, Gunter Lackes nos teclados, órgão, piano e vocal e Peter Bell no baixo. Flauta e vocal.

O álbum começa, e muito bem, com a faixa “Uranus” que introduz com sons calmos, brandos, levando a um sermão falado em alemão. Há quem diga se tratar da sonda “Voyager” que estava indo para esses planetas gigantes gasosos distantes na década de 1970. E com isso a música se traveste em uma paisagem sonora cósmica, graças a um órgão soturno e sinfônico, revestido por um blues ácido e pesado, nebuloso, com uma guitarra lisérgica. A música interage com space rock, a calmaria que este propicia e o peso da lisergia capitaneada pela guitarra.

"Uranus"

Segue com a instrumental “Bossa Rustical”, de clima meio hispânico mesclada a aridez da psicodelia trazendo variações com violão acústico de estilo folk e que a bateria e o baixo dão sequência, atribuindo um pouco mais de ritmo. Eis que surge a guitarra que traz consigo um pouco mais de peso, mas que logo desaparece e a música termina em um vazio estranho.

"Bossa Rustical"

“Tanz Mit Dem Mond” que começa com pianos acústicos bem dramáticos e guitarra bem amplificada, soprando isso tudo, criando um “campo sonoro” bem agradável e pungente, diria. É a faixa enriquecida com belas melodias feitas por várias camadas vocais que são tão bem ecoadas que nos faz viajar.

"Tanz Mit Dem Mond"

“Mutter Erde” trazem melodias repletas de humores rítmicos, idas e vindas, variações sonoras, nos fazem chegar à conclusão de que a sonoridade não tem rótulos definidos e fechando isso tudo vem uma textura psicodélica cheia de groove. Definitivamente tem uma dinâmica fantástica, sendo um dos maiores destaques do álbum. “Welt Im Dunkel” é uma música mística, estranha, exotérica, talvez traz algum tipo de adoração, ritual, lembrando as músicas do seminal Black Widow e até mesmo Coven. Há uma “pitada” de occult rock nessa faixa.

"Mutter Erde"

E fecha com a faixa título, “Gaa” que começa, fantasticamente, com batidas de blues na seção rítmica, que se entrelaçam a guitarras pesadas e lisérgicas e que explode em uma verdadeira jam section. Há alguns toques leves de flauta, lembrando algo mais voltado para o beat, descambando para algo mais experimental e totalmente underground.

"Gaa"

A gravação, a produção do álbum de fato está aquém do que esperamos, claro, as condições pelas quais a banda trabalhou não eram favoráveis para uma gravação de qualidade, mas ainda assim, ao ouvi-lo, percebe-se o quão é cativante e agradável de ouvir esse único trabalho do Gäa. Além dos reveses que foi ter gravado esse álbum, sofreram com a perda de grande parte das cópias que, tudo indica ter sido criminosa, pois reza a lenda também que foram jogadas em uma lata de lixo no fundo de um quintal até mesmo com as fitas originais.

No início de 1975 foi gravado, desta vez em melhores condições, no estúdio “Leico”, de Michael Leistenschneider em Schmelz, o segundo álbum da banda chamado “Alraunes Alptraum”, que pode ser ouvido aqui, que não foi concluído, sendo lançado, somente em 1998, pelo selo “Garden of Delights”, porque a banda decidiu se separar, naquele mesmo ano, deixando-o inacabado. Há informações de que o Gäa teria se separado em 1978. 

"Alraunes Alptraum" 

Werner Frey seguiu Peter Bell até Tombstone, Günter Lackes juntou-se ao Blackbirds, onde até hoje toca com a banda, Helmut Heisel passou por várias bandas e está no Saartana desde 1991 junto com Stefan Dörr, que gravou um álbum solo em 1998. Werner Jungmann e Bello não atuam mais como músicos. Werner Frey agora trabalha como professor, Günter Lackes como bancário, Helmut Heisel como dono de terras, Stefan Dörr como empreiteiro de transporte, Werner Jungmann no serviço médico e Bello como funcionário público.

A conexão amigável entre eles ainda existe e é muito forte, tanto que, durante a década de 1980, os ex-membros do Gäa ocasionalmente se reuniram para tocar em pequenos clubes à noite e chegaram a gravar algum material autoral, mas não foram lançados oficialmente.

“Auf Der Bahn Zum Uranus” teve algumas reedições. A primeira foi em 1992 pelo selo Ohrwaschl, no formato CD, bem como em 2007, também em CD, pela gravadora “Orange”. Mais tarde, em 2015, foi reeditado pelo icônico selo “Garden of Delights”. Apesar do profundo ostracismo pelo qual o Gäa foi submetido a banda trouxe à tona um trabalho arrojado, importante, poderoso e extremamente versátil, não se adequando a rótulos, estilos, nada. Foi um álbum que absorveu, com êxito, todas as cenas musicais que borbulhavam na Alemanha no final dos anos 1960 e nos anos 1970.


A banda:

Werner Frey na guitarra e vocal

Stefan Dorr na bateria e vocal

Werner Jungmann no vocal e congas

Gunter Lackes no órgão, piano e vocal

Peter Bell no baixo, flauta e vocal

 

Faixas:

1 - Uranus

2 - Bossa Rustical

3 - Tanz Mit Dem Mond

4 - Mutter Erde

5 - Welt Im Dunkel

6 - GAA 



"Auf Der Bahn Zum Uranus" (1974)





 














 



 




quinta-feira, 13 de junho de 2024

Supernaut - Supernaut (1974)

 

Atualmente estamos testemunhando uma série de imbróglios judiciais acerca de propriedade intelectual. O advento da internet, das redes sociais e da infinidade de informações contidas na grande rede parece ter aumentado significativamente tudo isso.

No universo da música não tem sido diferente. Músicos e bandas entrando processos seus colegas de profissão, acusando-os de plágio, de roubo de propriedade intelectual.

Presenciamos um dos mais emblemáticos casos envolvendo a gigante banda britânica Led Zeppelin que foi acusada de plagiar trecho de uma música da banda norte americana Spirit, quando a banda de Plant, Gonzo, Jones e Page conceberam o clássico “Stairway to Heaven”.

O Zeppelin teve nas costas outras acusações no passado com as faixas de blues dos seus primeiros álbuns de estúdio, sendo colocado em cheque a sua idoneidade artística e tudo o mais.

No caso da banda Spirit, o Zeppelin foi absolvido de todas as acusações. Mas quando podemos, como fazemos, como analisamos casos de plágio, de apropriação da propriedade intelectual? Quais os critérios?

Quando tais situações chegam na Justiça, alguns vereditos são tomados na internet por alguns juízes escondidos nas redes sociais que, sem nenhum critério técnico, providos apenas de intolerância sonora, definem plágio, cópia ou coisa que o valha.

Mas preciso repetir a pergunta: o que é plágio? O que é influência? Não podemos negligenciar a segunda opção nunca! Como uma banda recente de hard rock, por exemplo, não ter como influência, como inspiração, bandas do naipe do Deep Purple, o próprio Led Zeppelin e o Black Sabbath, tidas como a Santíssima Trindade da música pesada?

Alguma nuance terá, creio que isso seja consenso entre todos, bem como também a cópia, mas discutir isso nos dias de hoje, com uma gama tão diversificada de bandas e músicas, sobretudo no universo, ainda selvagem e inexplorado do rock n’ roll, seria uma total perda de tempo. Discutir e crucificar as bandas, em plena rede social, a troco de nada.

Presenciei algumas homéricas discussões que descambaram para o ódio gratuito e polarizado, esquecendo que a música é para nosso deleite e, se não aprecia determinadas músicas, basta esquecer delas. Não digo que seja um cidadão que não aprecie o debate, mas esse sempre baseado nos preceitos civilizados defendendo, com consistência, os seus posicionamentos.

Disse isso tudo, nesta quilométrica introdução, para ilustrar uma pequena experiência que tive ao conhecer, recentemente, uma banda inglesa que já pelo nome pode acarretar em uma celeuma gigantesca nos dias de hoje. Bem, poderia ter caso ela fosse conhecida, mas para variar, caríssimos leitores, o blog trata de bandas raras e obscuras. E essa parece ser mais do que isso: Falo do SUPERNAUT.

Duvido que, aos que apreciam o bom e velho Black Sabbath, lembrará desse nome, que remete a uma música da banda de Birmingham, do icônico “Vol. 4”, lançado no ano de 1972.

Definitivamente não conseguiria ser taxativo nesse sentido, pois, por se tratar de uma banda pouco conhecida, pouco se tem de informações mais concretas a esse respeito na web. Mas ao ouvir o seu único álbum, homônimo, supostamente lançado em 1974, é inevitável não deixar de lembrar da sonoridade suja, pesada e indulgente dos primórdios do Sabbath.

Assim é “Supernaut”: pesado, guitarra arrastada e suja, riffs de guitarra pegajosos, baixo pulsante e bateria pesada. Uma sonoridade suja, despretensiosa, de uma banda garageira que não estava nem um pouco preocupada com sofisticação e complexidade. Assim era o Black Sabbath nos seus três primeiros álbuns.

Pronto! Um prato cheio para as discussões de plágio, cópia e falsidades afins. Não gostaria de entrar no mérito dessa discussão que confesso ser deveras cansativa, mas tentar focar no mais importante: na sonoridade e na história que envolve essa banda britânica.

E por falar em histórias, vamos a ela, às poucas informações que circulam na grande rede e que geram algumas controvérsias. O Supernaut teria sido formado em Londres no ano de 1973. Teria? Sim, caros leitores, teria! Reza a lenda de que o único álbum que eles lançaram, em Derbyshire, em 1974, o homônimo, seria uma demo gravada nos anos 1980, mas que também carece de maiores informações.

Mas ao ouvi-lo, além do peso que poderia se “adequar” ao heavy metal que estava em voga em meados dos anos 1980, traz também um moog que “destoa” daquela década. Talvez a palavra correta não seria “destoa”, mas não fosse popular em pleno anos 1980, sob o aspecto comercial da coisa.

Então aposto que a tal material, que goza também de uma produção aquém, não teria sido concebido nos 1980. E qual o interesse em gravar um material pouco digerido por uma indústria conservadora e ortodoxa e fingir ser antigo?

E por falar em rejeição há “rumores” de que o Supernaut já tinha praticamente um acordo firmado com a Vertigo Records, mas os seus executivos os recusou porque eram muito pesados e, consequentemente, teriam um baixo potencial vendável.

Em 1975 a Ariola pediu a banda para gravar alguns covers dos Eagles, que estavam no ápice do sucesso à época, para garantir um acordo e a banda fez isso, gravou algumas músicas, mas ficaram tão putos com o resultado, com o que fizeram que se separaram. Essas faixas são da demo original (antes conhecidas como “The Effigy Tapes”) e que teria sido a pá de cal para o Supernaut.

Algumas histórias, envoltas em névoas, faz da banda e sua sonoridade algo muito, mas muito obscuro. E a sua natureza sinistra, as suas histórias indefinidas definitivamente me cativou e, claro, a sua música. Independente de questões cronológicas e protocolares a sua música merece exaltações, sobretudo por aqueles que apreciam heavy rock, occult rock e afins.

“Supernaut” é puramente instrumental, com uma distorção suja, tosca e garageira, além, claro, pesada. Há, como disse, incursões de teclados (Moog Synthesizer) que dão um toque satânico bem vintage, bem retrô que nos remete a Salem Mass, Coven e, óbvio, Black Sabbath. Um álbum estranho com riffs de guitarra contínuos, sem virtuosismos, porém muito legais.

O Supernaut tinha em sua formação, quando gravaram seu único álbum, os seguintes músicos: Glynn Serpell, nos vocais, Brian Took, na guitarra, Peter Oldham, no baixo, Barry Stonehouse na bateria e Mark Hodgkinson nos teclados. Confesso, amigos leitores, que essa aura de incertezas está me excitando! Mas rola as más línguas dizendo que a formação da banda e até mesmo algumas fotos são fictícias. Porém vamos ao que interessa e dissecar faixa a faixa de seu único trabalho.

O álbum é inaugurado pela longa faixa de nove minutos chamada “Keeper of the Keys” que já diz a que veio com riffs de guitarra pesados e pegajosos, sujo como o proto doom, arrastado e tenebroso. O moog também é cheio de energia e o que poderia ser um contraste harmoniza em uma massa densa e pesada que se confirma com a “cozinha” cuja bateria marcada está alinhada com o baixo pulsante.

"Keeper of the Keys"

Na sequência vem “Darkness Falls” com uma pegada tipicamente hard rock, sempre com o moog trazendo uma atmosfera sombria e estranha. Os riffs de guitarra, indispensáveis, surgem a cada momento confirmando peso e algo deliciosamente tosco e garageiro. “Win or Lose” tem uma introdução evidente de doom metal, o que talvez possa ter gerado desconfiança deste álbum ser dos anos 1980. Mas a guitarra, arrastada e suja, riffs densos e pesados, traz à tona o doom metal que ganhou alguma visibilidade no underground do rock n’ roll dos anos 1980. Mas o “clima” ganha contornos estranhos, sombrios, algo como o occult rock dos anos 1970 mesclado ao heavy rock e a música vai ganhando peso. E o vocal finalmente aparece, abafado.

"Win or Lose"

Segue com “The Fog” com a pegada heavy rock pairando. Hard rock, heavy metal de vanguarda em uma mistura explosiva que estranhamente “harmoniza” com os teclados que insistem em trazer a pegada de occult rock com uma textura soturna. Mas arrisco em dizer que “The Fog” entrega algo mais animado ao álbum, apesar de tudo. “Night Watch” é logo dominado por um riff alto e potente de guitarra, nada muito arrastado e sujo com nas faixas anteriores, algo mais voltado para o hard rock. Uma porta de entrada para uma verdadeira hecatombe instrumental, com peso e agressividade. Há algumas viradas rítmicas e o riff potente de guitarra inaugural se apresenta mais para o doom, juntamente com o moog que é, ocasionalmente, tocado com muita energia. Excelente faixa!

"Night Watch"

E fecha com “He Was a Robot” que teimosamente traz o riff de guitarra de um típico e poderoso hard rock setentista travando um “duelo” com o bom e velho moog. O riff é alto, intenso, denso, pesado e a textura do teclado intensifica a sua proposta sombria e soturna, trazendo à tona o occult rock.

As audições podem soar falsas, te lembrar algo que já ouviu em algum momento de sua vida das famosas bandas que conhece de ponta a ponta de sua rica e vasta discografia. As discussões acerca dos plágios e inspirações podem rondar as suas intenções de definir a sonoridade de uma banda e seu álbum, mas se permita, primordialmente, a ouvir e curtir cada nota, cada melodia.

Afinal essa é a nossa razão neste mundo quando se fala na música de que tanto amamos: ouvir e se arrepiar com o que gosta. E quando acontece, teremos o melhor e mais passional dos resultados.

O Supernaut de fato não traz nada de arrojado, de vanguardista, de novo. Mas traz o que há de mais significativo na música pesada: vivacidade, algo orgânico, despretensioso e indulgente. Não sabemos da veracidade das informações que circulam sobre a sua história na grande rede, mas dessa vez as supostas ausências de veracidade trouxeram algo extremamente excitante e solar.




A banda:

Brian Took na guitarra

Barry Stonehouse na bateria

Peter Oldham no baixo

Mark Hodgkinson nos teclados

Glynn, Serpell nos vocais

 

Faixas:

1 – Keeper of the Keys

2 – Darkness Falls

3 – Win or Lose

4 – The Fog

5 – Night Watch

6 – He Was a Robot



"Supernaut" (1974)