sábado, 19 de setembro de 2026

Blast - Damned Flame / Hope (1972/1973)

 

Mons, Bélgica, início dos anos 1970. O que parecia e, convenhamos, de fato, foi a contida cena daquela pequena localidade belga, uma esquecida paisagem sonora, eclodia uma força flamejante que anunciava um som, uma banda que simplesmente desafiou, sobretudo, no longínquo ano de 1971, qualquer definição, de qualquer estereótipo conhecido dentro do rock n’ roll.

Antes de que se convencionou de punk, heavy metal ou quaisquer desses gêneros codificados, surgia uma banda avassaladora que, mesmo com o pouco que produziu entregou, nas pequenas e famigeradas casas de shows locais, uma emoção crua, tresloucada e de uma intensidade que, àquela época, pouco se via ou melhor se ouvia. O nome da banda? BLAST!

Poucas foram as “testemunhas” de sua suja sonoridade, dentro de uma tímida cena local, que viram o Blast se apresentar, eletrificando todas as casas de shows pelas quais passaram, como uma das mais famosas de Mons, “The Chinchin. A energia que foi capturada nesses shows é algo que beira o animalesco, porém arrebatador, catártico mesmo.

Era despojado, sujo, rápido, veloz, pesado e era perceptível sons como punk, speed metal, thrash metal, hard rock, heavy metal, hardcore, tudo! É demasiadamente insano perceber toda essa sonoridade em uma época em que gêneros estavam ainda em total criação, em uma espécie de “tubo de ensaio”, onde poucas bandas como MC5 e Stooges, ousaram em fazer essa sonoridade arrasa quarteirão em plena época do “flower power”.

Liderado pelos vocais viscerais de e baixo estridente de Antoni Cucchiara, pelos riffs de guitarra sobrenaturais de Tony Colonius e pela bateria feroz de Michel Jacobs, Blast incorporava a pura rebeldia sonora. Tanto que o produtor Michel Chevalier, completamente hipnotizado pelo poder da música deles, decidiu chamá-los de “Blast” que, em tradução livre significa “explosão”. Não poderia ter batizado por um nome melhor, porque, basicamente, assim podemos conceituar o som dessa seminal banda. Eram uma verdadeira “granada” auditiva!

Blast

A jornada do Blast começou na École Technique de Hornu, onde Tony e Antoni se conheceram e a química foi imediata, se juntando pela primeira vez. Inicialmente enraizados na British Invasion e nas influências folk como Sixty-Toes e depois The Oaks, logo se aproximaram do rock pesado e blues rock vindo dos EUA. Com a chegada de Michel Jacobs em 1971, a formação estava completa.

Em 1972, mais precisamente em agosto, a banda entrou nos estúdios D.E.S, em Bruxelas para imortalizar a sua ferocidade, os seus petardos. Em uma sessão intensa e louca de duas horas, eles capturaram um som cru e implacável que simplesmente desafiou as convenções e a ortodoxia do rock n’ roll à época. O resultado foi uma pequena prensagem, de 1973, pela Majestic Records, de duas faixas chamadas “Damned Flame” e “Hope”. Sim, nobre e amigos leitores, apenas duas faixas registradas pelo Blast em sua ínfima e famigerada história. Praticamente um single, diria!

As letras exploravam a indiferença social, lutas existenciais e visões proféticas da vida plastificada e mecanizada. “Damned Flame" também foi pioneira no ritmo frenético "d-beat", antecedendo sua popularização por anos.

"Damned Flame" é personificação do proto punk, com uma pegada heavy, com uma velocidade incrível que nos remete ao thrash metal, ao speed metal, com um estilo sujo e despojado, com a bateria e o baixo, a “cozinha” rítmica no centro das atenções. É tudo, nessa faixa, demasiadamente caótico, tenso e intenso. Percebe-se, pelo fato de ser despojado, ser algo bagunçado, beirando o ingênuo, mas penso, ao ouvi-la que tudo, apesar do que é ouvido, é meticulosamente pensado. Eles sabiam o que estava fazendo com essa música!

"Damned Flame"

“Hope” é, se é que podemos dizer assim, mais “comedida”, focando, basicamente no hard rock, mas a pegada suja e grosseira estava lá, como se fora uma assinatura, um DNA mapeado do Blast. A guitarra entrega riffs grudentos, pesados. Aqui a sonoridade se adequa, um pouco mais, ao que se praticava nos idos dos anos 1970, o hard rock. Mas é o hard com o “tempero” do heavy dando um sabor totalmente carregado e encorpado. É de se deleitar com “Hope”!

"Hope"

Esse “single” não teve mais do que 500 cópias prensadas, provavelmente muito menos, afinal, poucas são as informações fidedignas que circulam na grande rede a respeito do único registro do Blast. Na reedição, de 2015, da Death Vault, consta tal informação e consta também, um curioso depoimento do baixista e vocalista Antoni que diz:

“Nosso público teve reações diferentes. Primeiro, eles ficaram surpresos. Para algumas pessoas, não éramos descolados o suficiente, para outras, o que fizemos foi genial." 

Porém antes dessa reedição a banda foi, digamos, redescoberta, graças aos blogs de bandas obscuras que, em 2008, aproximadamente, estavam em seu auge e, mais tarde, replicaram no YouTube fazendo com que fomentasse o Blast como uma banda cult. Mas ainda assim, pouco se conhecia e ainda pouco se conhece, de fato, sobre a história do Blast, bem como o motivo que levaram o seu fim e o futuro de seus integrantes.

Questionou-se, inclusive, à época, se o material difundido na web era de fato real ou não, tamanho era a obscuridade que a envolvia. Mas se confirmava a sua existência, quando alguns desbravadores da música obscura teimavam em flertar, visitar alguns sebos de vinis e, ocasionalmente, encontravam uma cópia original do Blast jogado e esquecido.

Embora o Blast tenha se separado em 1974, sua breve existência deixou uma marca indelével. O lançamento de 1973 e as apresentações ao vivo deles permanecem artefatos preciosos de um momento inovador na história do heavy rock, do punk rock, do hardcore e do thrash metal.





A banda:

Antoni Cucchiara no vocal e no baixo

Tony Colonius na guitarra

Michel Jacobs na bateria

 

Faixas:

1 - Damned Flame

2 - Hope



"Damned Flame / Hope" (1972/1973)


 












domingo, 6 de setembro de 2026

Wara - El Inca (1973)

 

Eu tenho uma percepção, ou melhor, uma impressão, de que o rock regional, étnico, ou seja, que impõe elementos da música local ao rock n’ roll, não é bem visto ou não é muito bem compreendido. Talvez um intercâmbio cultural pudesse fazer com essa percepção, se real for, cair por terra. E nada como, além de ouvir música, ouvir rock n’ roll, também ser impactado pela cultura que inunda a música da banda que faz audição.

E eu trarei hoje uma banda que é considerada como uma verdadeira jóia do rock boliviano! Sim! Foi o que vocês, nobres leitores, leram, do rock boliviano que trazia em seu som o misticismo andino, além do teor das suas letras. Falo do WARA.

Bem aqui é difícil, se tratando de uma banda latina, de uma banda da Bolívia, ser o Wara uma banda conhecida, primeiro porque aqui, neste reles e humilde blog, traz bandas de temáticas obscuras e, segundo, porque a Bolívia definitivamente não está no rol dos pais “produtores” do que há melhor do rock n’ roll no planeta.

Mas isso não faz do Wara uma banda simplória e tão pouco ruim, muito pelo contrário. Em sua sonoridade traz uma versão, extremamente arrojada, do rock progressivo, com pegada hard rock, ainda nascendo na América Latina, com o já mencionado impacto cultural daquele país, o rock andino.

O seu primeiro álbum, lançado em 1973, de nome “El Inca” entrega, personifica a cultura do seu país, o rock étnico, regional ganha força nesse único trabalho, mostrando, claro, o rock progressivo britânico e o hard rock mais sofisticado. Apesar de uma curta discografia, o Wara escreveu, com maestria, a história do prog rock da Bolívia e, sem dúvida da América Latina. E falando de história, falemos um pouco dos primórdios da banda e de seu único álbum.

O Wara foi formado em La Paz, capital da Bolívia, em 1972. Dante Uzquiano conheceu Omar León no caminho de volta de Buenos Aires para La Paz. Eles voltavam do “BA Rock”, o primeiro festival de rock que aconteceu na Argentina, em 1971. Motivo da aproximação? Pelo tamanho do cabelo! Mas logo perceberam que nutriam outros gostos em comum e, diante disso, combinaram um encontro.

Em La Paz os dois se juntaram a Jorge Comorí, guitarrista e a Pedro Sanjimes, tecladista, que, posteriormente os apresentou a George Cronembold, na bateria. Pouco depois, Carlos Daza se juntaria a banda, alías Daza, Cronembold, Comorí e Uzquiano já haviam tocado em uma banda de música de bailes chamado “Conga”. De bandas como “Grupo Santana Tabú” viria também a semente do Wara.

Wara

Convém falar que, apesar da Bolívia não estar no centro do mundo do rock n’ roll, aquele país trazia uma cena razoavelmente prolífica nos anos 1960 e 1970 principalmente, trazendo algumas bandas como: Los Ovnis, Los Daltons, Los Lasers, Grupo 606, The Blackbyrds, The Loving Darks, The Crickets, Grupo Conga ou o imenso Climax. Esta última tem resenha que pode ser lida aqui.

Comorí resolveu deixar a banda. Então a formação ficou: Omar León, no baixo, Pedro Sanjimes, nos teclados, George Cronembold, na bateria e Carlos Daza nas guitarras, além de Nataniel Gonzales nos vocais, que, vindo de Oruro, se juntaria a eles. Nataniel era conhecido como o “Rouxinol de Ocura”, e veio da banda Steppen Stones.  Dante Uzquiano permaneceu na banda, porém absorvido pelos estudos.

O significado de “Wara” é “estrela”, na língua Aymará, povo conhecido como Quollas e estabelecido desde a era pré-colombiana no sul do Peru, Bolívia, Argentina e Chile. Foi Dante Uzquiano, então estudante de antropologia/arqueologia, que escolheu este nome. Uma palavra que não era da língua espanhola, nem inglesa, para identificar que a banda era claramente boliviana e se tornaria exportador de música local e da sua cultura também.

Era a década de 1970 e algumas bandas de rock bolivianas prestavam tributos ao Lez Zepellin, Uriah Heep, Yes, Alice Cooper etc. A contracultura desenvolvia-se sem que os poderes políticos conseguissem detê-la (lembrando que a Bolívia viva sob forte e combatente ditadura militar de Hugo Bánzer Suárez, com elevados níveis de repressão e discriminação, sobretudo às bandas de rock, claro.

Ainda assim, com esse cenário, totalmente desfavorável, conseguiram gravar, pelo selo Discos Heriba, seu primeiro álbum, em 1973, de nome “El Inca (Música Progressiva Boliviana)”. Em sua capa, além das imagens fazendo menção aos desenhos andinos, trazia estampado também o termo Música Progressiva Boliviana”, como que querendo a banda confirmar e mostrar para o seu público que praticaram o prog rock com influências bolivianas, mas que também traziam coisas britânicas como Deep Purple, Uriah Heep e Atomic Rooster.

É o prog rock, é o prog sinfônico, são nuances pesadas do hard rock, com vocais em espanhol e que, já que mencionei o Uriah Heep, lembra muito os vocias do saudoso David Byron, guitarras incendiárias, aquela típica sonoridade dos anos 1970, riffs blueseiros, além de participações de músicos tocando flauta, violoncelos, violinos, oboé, fagote etc. Sem sombra de dúvida o rock boliviano ganhou destaque e originalidade com o Wara. Eles fizeram bonito, sem dúvidas.


O álbum é inaugurado com a faixa “El Inca (El Señor De La Tierra)” que exibe o prog sinfônico na sua mais genuína concepção e, nesta faixa, o vocal de Nataniel lembra muito a de David Byron, com inflexões operísticas e agudeza tonal evidente. Teclados ampliam camadas progressivas, os violinos trazem uma atmosfera barroca. Os ritmos são vívidos e expressivos que inspiram originalidade.

El Inca (El Señor de la Tierra)"

Segue com a faixa “Realidad” que não perde a espiritualidade e já tende a se aproximar, um pouco mais, do hard rock, talvez do hard prog sem reservas e é inevitável não deixar, novamente, de falar do Uriah Heep em seus primórdios hard progressivo. Em “Canción para una Niña Triste” há uma ornamentação instrumental polifônica e um progressivo, disparadamente sensível, mas denso, delicado, uma verdadeira beleza genuína do prog rock.

"Realidad"

A faixa título, “Wara”, vem com um traje psicodélico multicolorido e demasiadamente ácido e lisérgico. Entrega um toque refinado, sútil, elegante, mas intenso, dramático, com algumas mudanças de ritmo que trazem um arrebatamento aos ouvintes mais exigentes do rock progressivo e do psych rock. E fecha com “Kenko” que basicamente segue a mesma proposta da faixa anterior com a adição de um hard rock mais voltado para o Purple e Heep, com interessantes camadas de teclados que entonam o prog sinfônico, além de violoncelos e um solo de guitarra que parece tornar a música duradoura.

"Wara"

Os militares, que dominavam a política boliviana, não gostaram muito do debut do Wara e as únicas 500 cópias foram praticamente banidas, dificultando o impulsionamento das vendas do álbum do Wara. Depois desse baque, Cronembold e León mergulharam numa pesquisa em comunidades andinas e, em algumas entrevistas, disse Cronembold:

“Meus estudos no conservatório nos levaram a frequentar festivais de música nativa e a gravá-los. Como vestíamos jaqueta de couro e calça jeans, nós éramos vistos com desconfiança, mas aos poucos fomos nos aproximando e membros das comunidades perceberam nossa sinceridade".

Assim, o Wara passou a adicionar elementos folk, andinos, da cultura e das raízes do povo boliviano. Como desdobramento, nasceu o álbum "Maya", de 1975, o primeiro da série "Hichhanigua Hikjatata", totalmente composto na língua Aymará (essa expressão título significa "Agora você vai me encontrar").

"Era hora de resgatar o ser boliviano e essa ideia é válida até hoje, porque os bolivianos continuam num processo de busca por sua própria identidade cultural", afirmou Cronembold há alguns anos. Em "Maya", a banda buscou interpretar musicalmente o livro "Raza de Bronce", do autor Alcides Arguedas, um historiador famoso e obra considerada fundamental no movimento indigenista sul americano.

"Maya" (1975)

“El Inca” teve alguns relançamentos. Em 1993, vinte anos do lançamento original, o selo Discos Heriba, lançaria, no formato K7. Em 2009, pelo selo Revista Arte & Rock, lançaria, em CD, o álbum “El Inca”. Em 2009 também foi lançado em LP pelo selo Mandrax. Em 2018, a gravadora Retro Remasters Plus, lançaria, também em CD. E o mais significativo relançamento aconteceria em 2023, na ocasião do aniversário de número 50 do álbum, no formato CD.






A banda:

Nataniel Gonzales nos vocais

Pedro Sanjimes no órgão, piano, vocais de apoio

Omar León no baixo

George Cronembold na bateria, percussão

Carlos Daza na guitarra

 

Com:

Pablo Vezin na flauta

Jaime Gallardono violoncelo

Freddy Céspedes no violino

Vicenta Claramount no violino

Stefan Rinderknecht no violoncelo

Gustavo Oroza no oboé

Zelma Guerra nos vocais de apoio

Walter Alvarez no fagote

 

Faixas:

1 - El Inca (El Señor De La Tierra)

2 - Realidad

3 - Cancion Para Una Niña Triste

4 - Wara (Estrella)

5 - Kenko (Tierra De Piedra) 




"El Inca" (1973)