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sábado, 8 de novembro de 2025

Tapiman - Tapiman (1972)

 

Costumo associar ou comparar algumas bandas, principalmente aquelas de vida efêmera, com uma estrela cadente, como são conhecidos, popularmente, como meteoros. São fugazes, são manifestações naturais, que, quando surgem, são fugazes e, dependendo de sua magnitude, destroem tudo o que veem pela frente.

Não há comparação melhor com as bandas obscuras e que surgem na escuridão, na obscuridade, vivem uma vida curta, desaparecem sem deixar rastros, mas, ainda assim, conseguem servir de referência para suas vertentes sonoras, mas não gozando de sucesso e popularidade.

E como estrelas fugazes podem ser apreciados por poucos, afinal tem de estar com os seus telescópios, seus olhares voltados para o lugar certo e no momento certo. E repararam quando presenciamos tais fenômenos nos sentimos privilegiados? Pois é, caros leitores, isso se aplica também às bandas que surgem, vivem e perecem obscuramente.

Por isso que costumo dizer que nasci no “tempo errado”. O tempo é relativo, porque temos a sorte de termos gravadoras undergrounds abnegadas e dispostas em trazer à tona bandas e álbuns esquecidos e jogados no fundo do baú empoeirado do rock n’ roll e que podemos ouvir e perceber, definitivamente que, os anos 1970, foram os mais prolíficos para o rock.

Então falemos de uma excepcional banda catalã, surgida, claro, em Barcelona, que abalou com as estruturas sônicas daquela proeminente cena rock trazendo um hard rock potente calcado ainda no blues rock e no que convencionaríamos, no futuro, de heavy metal. A banda? TAPIMAN.

Tapiman

As origens do Tapiman vêm do exímio baterista Josep María Vilaseca "Tapi", que era uma lenda do rock espanhol, tido, inclusive como o melhor baterista de seu tempo. Reza a lenda de quem o conheceu, de que ele era um menino e mais a frente um jovem a frente de seu tempo, que gostava de beber e se divertir. Tapi era uma maravilha com as baquetas na mão. Parecia levitar com seu instrumento, quando se apresentava.

E a sua trajetória no rock se fez com a banda Vértice e em 1969 ingressaria no Maquina!, uma referência do rock catalão na transição das décadas de 1960 para a de 1970. Com a dissolução do Maquina!, Tapi decidiu alçar novos voos e contou com o excelente guitarrista Miguel Ángel Núñez para formar o Tapiman, lá pelo ano de 1970. A origem do nome “Tapiman” vem do nome “Tapi” de Josep e a contração do nome do guitarrista Miguel (MAN). Se juntaria, logo após, à banda o baixista Pepe Fernández, que tocou também no Vértice com Tapi. Vale dizer também que “Tapi” era o nome artístico de Josep, porque ele morava rua Tapioles (Tapi / oles), na Chinatown de Barcelona.

O “power trio” estava formado. E eles de fato trouxeram algo novo, arrojado ao rock n’ roll espanhol. E com um punhado de músicas no braço os jovens músicos foram em busca de algum produtor, empresário ou gravadora para materializar seu sonho de gravar um álbum e as suas músicas, até que o selo Edigsa decidiu gravar, em 1971, o primeiro single do Tapiman, com duas músicas, "Hey, You!" e "Sugar Stone", duas grandes canções que seriam o prelúdio do que viria mais tarde com seu primeiro álbum.

E o destaque fica para “Sugar Stone” que apresenta um hard rock puro, potente, vigoroso, tido, por muitos, como uma das músicas pioneiras da música pesada na Espanha e que tinha alusões claras, em sua letra, a temas psicodélicos, fruto ainda de uma fase no rock onde a lisergia reinava ou pelo menos, lá pelos idos de 1971, terminava seu reinado.

Fica o destaque também em dizer que o Tapiman foi o primeiro “power trio” da história do rock espanhol e nitidamente mostrava influências de bandas como Black Sabbath que à época estava iniciando a sua trajetória com a sua trinca pesada de álbuns seminais e pesados, além de Jimi Hendrix e, claro, Cream, o primeiro “power trio” da história do rock. Outra novidade para o rock espanhol era o baterista como vocalista também, mesmo que Tapi tivesse certa barreira com o idioma inglês, compensava com potência e por vezes um vocal rasgado que harmonizava perfeitamente com a sonoridade do Tapiman.

Naquele mesmo ano, 1971, o Tapiman lançaria outro single, agora com as músicas “Love Country” e “Walking All Along the Life”, porém com outro guitarrista. Seria a primeira baixa da banda, saindo o grande guitarrista fundador, Miguel Ángel, devido ao serviço militar obrigatório. Tapi não demorou muito para encontrar um novo guitarrista para compor a banda e este foi outro exímio “guitar man” chamado Max Sunyer, outra lenda viva que também havia tocado no Vértice e que já era um guitarrista profissional experiente.

Vale, como registro histórico, que, pouco antes disso, Tapi, juntamente com três dos músicos do Vértice, além de ter colaborado com os singles que a banda lançou, gravaria, em 1970, um álbum de nome “Rock n’ Roll Music”, de um rock muito poderoso e com tendências muito progressivas que incluíram versões de John Mayall e Ray Charles. Este álbum foi lançado com uma tiragem muito curta. Esse projeto é um claro avanço do que viria mais tarde a ser o Tapiman.

"I Want a Boogie"

Para alguns críticos da época e fãs também esse segundo single lançado pelo Tapiman perderia a força do anterior lançado, sendo um passo em falso considerando o que viria no ano seguinte com o seu primeiro álbum, mas para outros a adição de Sunyer foi preponderante para o crescimento sonoro da banda. Independentemente de qualquer coisa, a chama estava acesa, a força do Tapiman ainda estava lá com seu DNA explosivo calcado no blues e hard rock.

O início dos anos 1970 foram confusos para a Espanha, dada a sua instabilidade social e política. Em 1971, antes do Tapiman lançar o primeiro álbum, participaria do festival permanente do Iris Hall de Barcelona. Juntamente com o Tapiman estavam bandas como Smash, Sisa, Pan, Alcaçuz entre outras.

Dado o clima de revolta que ainda enfileirava após os chamados processos de “Burgos”, a polícia se dedicou a bater, sem dó, nos apreciadores de rock n’ roll que saída do festival, pelo fato de serem “cabeludos”. O Tapiman também participaria, em Madrid, de um festival de rock progressivo que no ano anterior não pôde ser realizado por causa de uma batalha campal entre estudantes e roqueiros. Mas, apesar dessa instabilidade política e da atmosfera de violência, também foram dias de grande emoção e diversão.

E assim surgiria para o mundo, graças ao olhar do selo Edigsa, que confiou no trabalho arrojado e louco do Tapiman, o álbum homônimo, em 1972, tendo como base no que foi lançado no primeiro single, que contava ainda com Miguel Ángel à frente da guitarra na banda. Mas claro que teve a assinatura de Max Sunyer dada a sua já experiência no universo da música. A capa, marcante, com uma caveira rosa, foi concebida por Guillem Paris, membro do Pan e Licorice, bandas que compartilharam palcos e a cena no início dos anos 1970.

“Tapiman” surgiu como uma bomba do hard rock muito à frente do seu tempo, um álbum cru, sujo e forte, totalmente despretensioso. Pepe e Tapi fazem uma seção rítmica bem entrosada, com a bateria que é uma verdadeira delícia e que deixa um bom terreno para Max implantar todas as suas habilidades na guitarra. Apesar da energia do álbum, não se destacam propriamente por serem muito pesados ou muito progressivos, têm uma personalidade muito marcada e inconfundível e um trabalho importante e realizado nas partes mais psicodélicas.

Apesar de ser um álbum similar ao que estava se fazendo na Europa e nos Estados Unidos, com o viés do peso, do hard rock e até mesmo pegada progressiva e blueseira, o que tornava, também, o debut do Tapiman especial e único é a sua veia psicodélica e principalmente uma camada proto heavy que, certamente, serviria de referência para a cena metal da Espanha e da Europa nos anos 1980 e nas gerações de músicos mais à frente.

O álbum é bem recebido à época e teve boas críticas na também escassa imprensa que atuava na área musical nos longínquos anos 1970. Mas ainda assim não foi considerado como o melhor álbum de hard rock gravado na Espanha, essa parte é plenamente discutível, pois temos, de fato, bons trabalhos lançados no início dos anos 1970, mas “Tapiman” definitivamente foi o melhor de sua época! Ah já que falamos de melhores álbuns, destaco, da mesma cena espanhola de Barcelona, um trabalho magnífico, lançado anos mais tarde, em 1979, do álbum “La Bruja”, da banda Rockcelona, cuja resenha pode ser lida aqui.

Abre com a faixa “Wrong World” que já entrega, em sua introdução, um riff que deixaria bem claro o que vamos ouvir em todo o trabalho do Tapiman: um hard rock volumoso, pesado, agressivo, potente, com uma jam enérgica e viva. A sequência traz "Gosseberry Park" que me remete a uma veia mais pop, mas que não entra em conflito com a proposta do álbum. O resultado é uma música elegante, cativante e amigável para o rádio.

"Wrong World"

Segue com “Don't Ask Why” que revela um blues progressivo portentoso que traz a sensação de que você nunca sabe como vai continuar, mas não se torna excessivo, indigesto ou ainda enfadonho, porque a guitarra soa melhor, uma sonoridade mais rebuscada e o final é apoteótico. “Practice” não foge à regra e traz um festival de riffs de guitarra pesados e agressivos com uma bateria marcada e extremamente pesada. É de tirar o fôlego!

"Don't Ask Why"

“Paris” é um belo instrumental que soa melancólico acompanhado por um órgão Hammond, onde a guitarra de Sunyer se torna o destaque, que chora suavemente e que me remete, em parte, a um blues antigo. “No Chance” começa com a guitarra mais viajante e uma sonoridade mais calcada no psych, um psicodélico mais pesado, que traz à memória Cream e Hendrix.

"No Chance"

“Moonbeam” é outra faixa instrumental muito bem executada, mostrando a destreza dos músicos com seus respectivos instrumentos e traz à mente, em sua base rítmica, o rock andaluz da época. “No Control” traz de volta o peso sujo do álbum, uma guitarra arrastada, agressiva e densa, ao mesmo tempo, que me remeteu ao doom metal oitentista. Vocal rouco e rasgado também é o destaque.

"No Control (Álbum: "Hard Drive")

Eis que surge “Jenny”, a balada do álbum. Mas em vez de cair no brega previsível tem uma atmosfera sombria e, claro, psicodélica deslumbrante. Viajante! E fecha com a música mais complexa e longa do álbum, “Driving Shadow (Pepe’s Song”). Essa faixa alterna entre partes brutais de hard rock poderoso, psicodelia, um solo de bateria e os inevitáveis solos de guitarra, uma das marcas registradas desse álbum. Uma música brutal e complexa que raramente é feita nos dias de hoje.

"Jenny"

Embora, como eu disse, “Tapiman” tenha sido bem recebido pelos fãs e pela crítica e ter tido todos os predicados de seu pioneirismo, o álbum não foi bem sucedido nas vendas. Claro, porque, olhando para trás com perspectiva, pode-se perceber o quão estranho, arrojado e original foi este álbum. E como costuma acontecer, surgiriam os primeiros conflitos entre os integrantes do Tapiman.

Um dos primeiros problemas vieram com relação a seriedade com que os músicos não estavam levando no que diz respeito a condução da banda e isso, além de conflitos criativos, culminaram com a dissolução da banda no mesmo ano em que seu álbum foi lançado, em 1972. Max, por ser um músico mais experiente, vivia da música e exigia um nível de trabalho que Pepe e Tapi, aparentemente, não estavam dispostos a dar. Uma passagem, uma existência precoce e surgiu como um fenômeno da natureza.

Mas a história não terminaria em 1972. Em 2017, a abnegada gravadora Guerssen Records lançaria algumas gravações esquecidas de material restante e inacabado da primeira fase, diria da fase inaugural, do Tapiman, em 1971, resgatado pelo jornalista Alex Gómez Font, após localizar Miguel Ángel Nuñez, vocalista original da banda.

O álbum, intitulado “Hard Drive”, nos traz uma série de músicas com uma qualidade de gravação um tanto quanto precária, mas que só realçam, mais uma vez, a crueza e agressividade que fez do Tapiman a banda que foi: pesada e agressiva, trazendo a despretensiosidade ao seu DNA sonoro e que materializou em seu álbum lançado em 1972.

"Hard Drive" (1971 - 2017)

No final dos anos 1970 o Chapa Discos decidiu revitalizar o rock espanhol, materiais de bandas esquecidos pelo tempo, dos pioneiros do rock daquele país. Foram várias as bandas e, claro, o Tapiman não ficou de fora. Surgiria “Em Ruta”, em 1979. Um álbum ao vivo que foi reeditado e que trazia, além de Tapi, na bateria e vocal e Pepe Fernández no baixo e na guitarra, com mudança, teria Javier Moreno, ex Hot Panotxa.

Tapiman em 1979

“En Ruta” mostrou um Tapiman ainda vivo, mostrando seu habitual peso, seu hard rock potente e volumoso, mas faltou um pouco mais de atenção à banda por parte da equipe que o geria, bem como as intensas instabilidades que insistiram em rondar a vida da banda, muito graças a vida louca de Josep Tapi.

"En Ruta" (1979)

O primeiro álbum do Tapiman não é muito elaborado, porque é direto e cru, a síntese perfeita do que convencionamos de hard rock na sua gênese. O “power trio” espanhol sem dúvida foi um dos pioneiros do hard rock espanhol e serviu de referência para o rock espanhol, para a música pesada daquele país e ouso dizer de toda a Europa! Em 1994, Josep Tapi morreria deixando um legado de despretensiosidade do rock n’ roll e uma chama viva personificada no grande Tapiman.

“Tapiman” teve alguns relançamentos. Em 1993, no formato CD, na Espanha pelo selo PDI. Em 2003 foi lançado pela Guerssen Records e PDI, no formato LP. Em 2005 mais relançamentos na Espanha, novamente com a Guerssen e PDI: dois lançamentos no formato CD. E o mais recente, em 2012, no formato CD, pelo selo Picap, também na Espanha.





A banda:

Josep María Vilaseca "Tapi" na bateria e vocal

Max Sunyer na guitarra

Pepe Fernández no baixo

Com a minha menção honrosa ao fundador da banda, Miguel Ángel Nuñez, guitarrista.

 

Faixas:

1 - Wrong World

2 - Gosseberry Park

3 - Don't Ask Why

4 - Practice

5 - Paris

6 - No Chance

7 - Moonbeam

8 - No Control

9 - Jenny

10 - Driving Shadow (Pepe's Song)


 


"Tapiman" (1972)


























 


 










sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Rockcelona - La Bruja (1979)

 

A música na transição das décadas de 1970 e 1980 estava sofrendo algumas mudanças, sendo impactadas por ebulições em todos os aspectos, propriamente sonoros e comerciais, principalmente. Embora algumas vertentes do rock n’ roll, por exemplo, sofria com o ostracismo, como o progressivo, com alguns figurões sumindo do mapa e outras bandas revendo sua música, outras padeciam com egos inflados de seus músicos e o uso demasiado de drogas que estavam decretando os finais de algumas icônicas bandas de hard rock.

O punk rock, subjugado e relegado aos guetos periféricos de Nova Iorque e outros punhados em Londres, ganhava, no final dos anos 1970, alguma notoriedade, graças a bandas “cabide” como o Sex Pistols, tendo os seus poucos anos de fama. O heavy metal já não tinha aquela visibilidade como em meados dos anos 1980, sob o aspecto sonoro, claro, dando lugar a uma cena andrógina do glam metal que proliferava em Los Angeles.

Apesar de algumas mudanças nas principais cenas rock terem acontecido, independentemente do período da história que o cerca, há sempre aquelas bandas marginalizadas que lutam contra o tempo, contra os modismos impostos pela indústria fonográfica, a principal mantenedora dessas mudanças, que, com a mola propulsora do marketing dissemina regras, dita “conceitos” também nos cenários musicais.

Bandas marginalizadas, mas que defendem, com unhas e dentes a verdade da sua música e desafiam a doutrina do tempo e mesclam com a dignidade da sua originalidade vertentes que, a priori, seria impossível para os “padrões” conservadores que permeiam no universo do rock há tempos. Os seus fracassos, para uma horda de alienados, podem parecer algo relacionado a capacidades dessas bandas de produzirem grandes trabalhos, mas a realidade é que não se curvam aos modismos e vai na contramão das tais famigeradas regras marqueteiras das grandes gravadoras e mais atualmente dos pasteurizados das redes sociais.

E um bom exemplo vem de Barcelona, na Espanha e se chama ROCKCELONA. Pois é, que raios de nome é esse? Ainda temos a intolerância, o escárnio dos idiotas atrofiados cognitivamente falando, que, em suas temíveis zonas de conforto, fazem galhofa dos nomes das bandas, de suas capas de disco e tudo o que valha, para depreciar o trabalhar e continuar nas suas mesmices existenciais. Mas o Rockcelona veio ao mundo em um período em que o hard rock estava meio em baixa, com bandas figuronas perecendo, mergulhadas em pendências judiciais entre seus rockstars ou estes mergulhados em drogas.

E nesse panorama nasce o Rockcelona. O seu nome pode ser a junção do rock n’ roll com parte do nome da região em que foi concebida. A banda foi formada em 1977, vindo mais precisamente de  L'Hospitalet de Llobregat, pelo vocalista Alfredo Valcárcel.

Rockcelona

E, como muitas bandas obscuras vindas da Espanha, o Rockcelona restringiu-se ao que costumo chamar ao “regionalismo”, que para o azar do mundo, não ganhou sucesso global. A banda lançou apenas um álbum, em 1979, chamado “La Bruja”, pelo selo “Columbia/Private Records” e tinha as suas arestas fincadas no voluptuoso e incendiário hard rock tipicamente do início dos anos 1970, mas que abraçou também algumas vertentes em voga na sua época como o punk rock. Diria sem medo que “La Bruja” é tão indulgente e sujo quanto alguns clássicos do punk ou até mais, ouso dizer.

O álbum é explosivo, é intenso, é volumoso, é pesado e pode ser comparado a bandas de seu país que surgiram e lançaram seus trabalhos muito antes do Rockcelona, tais como Leño, Asfalto, Burning ou ainda o The Storm. Sabe aquele típico “hardão setentista” lançado entre 1972 e 1974? Assim é “La Bruja”.

Aquele hard rock fuzzed, misturadas com guitarras ácidas, meio psicodélicas, em alguns momentos, outros momentos distorcidas e pesadas, com letras igualmente incendiárias, cantadas predominantemente em castelhano, bem como algumas em inglês.

Definitivamente “La Bruja” é um pilar do hard rock de sua época e, por conta disso, se configurou para o que era conhecido à época por “rock urbano”, com aquela guitarra suja, afiada, linhas de baixo marcadas e bateria pesada e muito, mas muito louca.

A formação do Rockcelona que concebeu “La Bruja” tinha, além do vocalista Alfredo “Freddy” Valcárcel, Alberto ”Albert” Balsells, na guitarra principal, Antonio “Tony” Cruz, na guitarra base, Javier A. Latorre (Javi) no baixo e Francisco “Kiko” Aparicio na bateria.

O álbum é inaugurado pela faixa título, “La Bruja” e já esfrega na cara do ouvinte riffs sujos e pegajosos de guitarra ao estilo proto doom, extremamente denso, com vocais de bom alcance. Logo ganha velocidade, ao estilo heavy rock e já com o vocal gritado e assim permanece até explodir um catártico solo de guitarra extremamente pesado, mudando ritmicamente, ficando mais arrastado o som, mas logo tornando a ficar veloz e poderoso. Não há como negar que a faixa “La Bruja” seria o farol para toda a estrutura sonora do álbum.

"La Bruja"

“Lovespell”, a segunda faixa, é a primeira do álbum cantada em inglês, e começa um tanto quanto bluesy, uma pegada meio blueseira, um blues rock, mas sem nenhuma pretensão de parecer tão blues assim, afinal a “veia” sonora do álbum está calcada no hard rock. Mas o destaque fica para a faixa mais cadenciada, com a bateria ditando o ritmo, concedendo tal textura a música, com um vocal mais límpido, mais melodioso. Solos de guitarra se estendem de forma competente, complexa, mas poderosa.

"Lovespell"

“Colt 45” retorna à proposta do álbum, com a introdução de riffs pesados de guitarra, bateria pesada e marcada, com baixo pulsante, fazendo uma “cozinha” extremamente entrosada e pesada. Mais uma vez solos de guitarra são destaque, trazendo mais e mais peso ao contexto sonoro da música.

"Colt 45"

A sequência traz “Magbalino” que não foge à regra, entregando os famosos e famigerados riffs de guitarra que abrem alas diretamente para solos de guitarra elegantes e potentes. A faixa é inteiramente instrumental e corrobora a destreza de seus músicos, com mais uma vez a “cozinha” destroçando em qualidade e sinergia. A faixa traz algumas mudanças de ritmo, mas sempre flertando com o bom e velho hard rock.

"Magbalino"

“Hombre Triste” segue com os já vivos e intensos riffs de guitarra, mas essa faixa traz uma curiosa e intensa pegada “punk”, sendo mais pesado, despretensioso e sujo, típico desta vertente. Uma mescla interessante e explosiva de hard rock e punk rock que muitas bandas praticariam nos anos seguintes ganhando, inclusive, notoriedade. A música é veloz, intensa e solar. Os solos de guitarra personificam essa condição. É verdadeiramente poderoso!

"Hombre Triste"

“La Tierra de Fuego” traz uma faixa cadenciada, ao estilo Black Sabbath, um genuíno hard rock, com pegada heavy rock, de atmosfera densa e soturna, que se assemelharia a uma dessas faixas de occult rock do início dos anos 1970 facilmente. O destaque aqui fica para o vocal que está mais cristalino, diria dramático, melancólico. A “cozinha”, mais uma vez, dá o seu recado, com baixo pulsante e bateria pesada, com solos de guitarra diretos, mas eficientes.

"La Tierra de Fuego"

“Buscándote Rock and Roll” soa atípico, tal como uma balada. O Rockcelona tira literalmente o pé do acelerador, mas os riffs de guitarra, sujos, meio doom metal, continuam lá, para certificar o DNA da sua sonoridade. Mas eis que logo assume o peso costumeiro que permeia o álbum, com aquela velocidade típica do heavy metal, com vocais gritados. É inacreditável o quanto, em apenas uma música, a banda flerta em vários estilos, sem soar deslocado ou fragmentado.

"Buscendote Rock and Roll"

E finalmente o álbum fecha com “Queen, Friend and Dread”, mais uma faixa cantada em inglês, que inicia, para variar, com aquela pegada hard com riffs de guitarra sujos e despretensiosos, com a velocidade do heavy metal e a indulgência do punk rock. E depois de um solo de guitarra de tirar o fôlego, a pegada veloz retoma com os riffs pegajosos novamente e assim a banda vai flertando com vertentes que revelam as distintas passagens rítmicas fazendo de som rico e cheio de recursos.

"Queen, Friend and Dread"

O Rockcelona teria uma precoce vida, de cerca de dois anos, mas realizou alguns shows apenas em Barcelona se tornando uma banda regional. Tocou no Instituto Jose María de Calasanz, ainda em 1977, ano de sua fundação com bandas como Elektra e Mortimer e também nas 12 horas de Rock de Barcelona, no Centro Juvenil Meridiana, em 1978, com bandas como Zen, Detonation, Calocha, Hermaneys, Krisis, Mitgdia, Stigma, Ekber e Fruint.

Após o lançamento do seu único álbum, “La Bruja”, a banda se desfez misteriosamente. Talvez o seu som estivesse deslocado no tempo, um tempo que já não era interessante para a indústria fonográfica o hard rock, para o público que, como uma ovelha que segue, alienada, as tendências geridas pelo marketing perverso, estava interessado em outras vertentes. O fato é que o Rockcelona pereceu mas deixou um álbum que, por ser raro e ter caído no ostracismo, não ter sido referência, mas que pode e deve servir de ponto fundamental para a música pesada em todas as suas vertentes.

Atualmente ou melhor, desde sempre, sobretudo nessas últimas duas décadas, com o ressurgimento do interesse pelos discos de vinil, o álbum original lançado pelo Rockcelona, lá em 1979, está em uma condição de raríssimo artigo que hoje está em uma faixa de 30.000 pesetas (180 euros). Entretanto há informações que dão conta de que “La Bruja” trafega no mercado consumidor na faixa dos 300 a 400 euros! É a condição que fomenta o status de banda “cult”.




A banda:

Alfredo “Freddy” Valcárcel nos vocais

Alberto ”Albert” Balsells na guitarra principal

Antonio “Tony” Cruz na guitarra base

Javier A. Latorre (Javi) no baixo

Francisco “Kiko” Aparicio na bateria

 

Faixas:

1 - La Bruja

2 - Lovespell

3 - Colt 45

4 - Magbalino

5 - Hombre Triste

6 - La Tierra de Fuego

7 - Buscándote Rock and Roll

8 - Queen, Friend and dread


Versão para download aqui





























domingo, 26 de julho de 2020

Crack - Si Todo Hiciera Crack (1979)


O final da década de 1970 não foi das melhores para as bandas de rock progressivo, sobretudo as bandas tidas como medalhonas, as consagradas, claro, não foi melhor sob o aspecto comercial. O punk rock estava no seu apogeu mercadológico, graças a “bandas cabides” como o Sex Pistols, por exemplo, que tinha mais apelo estético do que propriamente talento sonoro e as bandas progressivas estavam perdendo espaço, bem como as bandas de hard rock também, muitas delas com seus integrantes imersos em drogas pesadas, tornando seus ambientes ainda mais instáveis, fora, é claro, o ego, inflado pelo sucesso e dinheiro. 

Não que a cena progressiva sempre tenha gozado de popularidade, afinal, poucas foram as bandas que atingiram notoriedade e o estilo não era lá tão palatável assim, mas teve o seus “15 minutos de fama”, entre 1972 e 1975, aproximadamente. 

A derrocada progressiva não foi que fique claro, criativo, mas mercadológico. Além do punk tinha a disco music que enchia estádios com shows de Gloria Gaynor, Bee Gees, entre outros, com aquelas músicas dançantes e com passinhos marcados em boates cheios de cor e neon. 

As bandas consagradas sim, sofreram e muito, algumas sumiram, hibernaram, outras se descaracterizaram, seguindo os modismos para não perecer, porém as bandas pouco conhecidas, obscuras que já não tinham espaço para divulgar sua arte, continuaram, claro, a duras penas, seguindo e gravando um ou outro álbum, muito deles excelentes, apesar dos entraves. 

A cena estava pulsando, ainda estava viva. E um exemplo evidente vem da Espanha que não é necessariamente o polo do rock mundial, mas que entregou ao mundo uma banda e álbum que, apesar de ter tido uma carreira discográfica curta e uma vida efêmera, foi um dos melhores trabalhos progressivos da transição da década de 1970 para a de 1980. Falo do CRACK com o seu primeiro e único álbum, lançado em 1979, chamado “Si Todo Hiciera Crack”.

Crack

O Crack foi formado em Gijon, na parte norte da Península Ibérica, no ano de 1978. E como toda banda daquela época, precisava de fazer muitos shows para ser reconhecida, para ganhar um lugar ao sol. Ao ouvir o Crack logo nos remeterá ao progressivo italiano, aos sons sinfônicos cheio de vivacidade, complexidade melódica e de harmonia, mas que não se pode negligenciar o fator regional, folclórico, mas não tão evidente como em bandas pioneiras do estilo naquele país, como o Triana, por exemplo, que tem uma forte inserção da música flamenca, típica da Espanha. 

Mas não encarem o Crack como um plágio de bandas italianas, sem nenhuma expressão ou coisa do tipo. A banda tem sim influências da cena progressiva da Velha Bota como o Premiata Forneria Marconi, mas tem características particulares, peculiares, que vai do paganismo e da música celta, inspirada nos vocais, bem como na bem executada flauta que flerta na potência a momentos mais delicados. 

A banda, no seu início e que também gravou este álbum, tinha: Alberto Fontaneda no violão, flauta e vocal, Rafael Rodriguez na guitarra, Alex Cabral no baixo, Manolo Jímenez na bateria e Mento Hevia nos teclados e vocal. 


No verão do ano de 1978, determinados em fechar com uma gravadora para lançar algumas composições já prontas, decidiram se mudar para Formentera, com a ideia de gravar seu primeiro trabalho de estúdio. E assim conseguiram, em 1979, um ano depois, lançar “Si Todo Hiciera Crack”, pelo selo “Chapa Discos” e colocado à venda no verão do mesmo ano. 


O mesmo fora gravado em Madrid nos estúdios da Audiofilm pelo engenheiro de gravação Luís Fernández Soria e apenas cinco dias de estúdio estavam disponíveis para gravação. O álbum foi originalmente lançado em formato LP. Aqui vai uma curiosidade sobre a capa do álbum: foi organizado um concurso pela Rádio Gijón para que os ouvintes enviassem suas próprias ideias de capa e a do ratinho na gaiola na capa e essa mesma vazia na contra capa foram os vencedores.

"Si Todo Hiciera Crack"

Apesar das dificuldades, afinal era o fim da ditadura de Franco e as bandas precisavam recuperar o tempo perdido, o Crack, seguindo uma razoável quantidade de bandas sinfônicas espanholas, estava conseguindo alguma visibilidade graças aos seus shows arrebatadores, com músicos, apesar de jovens, mas muito competentes, e se destacavam pelo fato de ter uma sonoridade mais voltada para o rock progressivo italiano e diria até britânico. As casas de shows, embora pequenas, sempre estavam cheias, o Crack estava conquistando seu público, com muita galhardia e, claro, muitos shows.


Foi mais de um ano e meio fazendo shows, muitos shows e, nesse ínterim, estava gravando material novo, para um segundo álbum que, infelizmente não veria a luz do dia. Era uma banda que não tinha apoio e estrutura da gravadora, afinal, era uma época em que o progressivo sinfônico não estava muito vendável. 


Mas não falemos do fim do Crack sem falar de “Si Todo Hiciera Crack”, um verdadeiro clássico obscuro espanhol. Então dissequemos o álbum! Começa com a faixa "Descenso en el Mahëllstrong" com um instrumental forte e bem emocionante, de muito qualidade, demonstrando o quão a banda era forte e talentosa. Alterna em momentos mais agitados e suaves com um lindo som de flauta.

 "Descenso en el Mahellstrong" (TV espanhola)

“Amantes de la Irrealidad” é a primeira faixa que apresenta vocais e em espanhol e que alterna entre uma imperiosa voz masculina com vocais femininos também. É uma música mais leve, diria uma balada, suave com o destaque para o piano e violão, depois vai ganhando contornos mais viajantes, com passagens belíssimas de teclados e solos bem elaborados de guitarra.

"Amantes de la Irrealidad"

“Cobarde O Desertor” já inicia com vocais com um típico toque regional, bem espanhola, com notas de baixo que pulsa fortemente, ganhando destaque, com passagens esporádicas do teclado. 

"Cobarde o Desertor"

Já “Buenos Deseos” é uma música mais curta e direta, mas que apresenta toda a veia progressiva do álbum, com passagens magistrais de rock progressivo sinfônico, com a presença marcante dos teclados com uma bateria viva, forte e marcada. A música é contemplativa, agradável, com vocais muito bons e linhas de baixo excelentes.

 "Buenos Deseos"

“Marchanda Una del Cid” começa com um som de pessoas marchando, tambores militares e tudo o mais, mas logo entra o som da flauta descortinando um excelente trabalho instrumental com todos tendo uma participação especial, é a típica música de banda, onde todos os músicos se destacam em iguais condições e níveis. Alterna em momentos mais agitados e suaves com um lindo som de flauta e nessas alternâncias rítmicas prevalece a música sinfônica. Uma excelente composição, uma excelente música.

"Marchanda Una del Cid'

A faixa título sem sombra de dúvida é a mais elabora e complexa no auge de seus pouco mais de 10 minutos de duração. Uma música melódica, diria melancólica e também com alguns momentos mais solares, tendo, mais uma vez, destaques dos instrumentistas como o teclados que dessa vez ganha espaço para solos de tirar o fôlego e as vezes apenas “preenchendo” dando espaço para riffs e solos de guitarra mais diretos e cru. Mas também não podemos negligenciar os vocais, masculinos e femininos em um rodízio bem interessante.

"Si Todo Hiciera Crack"

E fecha com “Epillogo” e representa o que o conceito do nome da música sugere, é a parte final do álbum, fechando com um doce e proeminente som de flauta e bateria muito elegante, um fechar de cortinas desse excelente álbum.

"Epillogo"

Apesar de um início estimulante e promissor do Crack infelizmente a banda não recebeu o apoio e a estrutura ideal por parte da gravadora para continuar seguindo seu caminho. Inclusive, como já dito, a banda, entre shows e turnê, estava gravando material novo para um segundo álbum, mas que lamentavelmente não foi concretizado em um trabalho oficial. 

Foram anos difíceis, as bandas como o Crack e outras tantas contemporâneas que compunham a cena espanhola de rock progressivo também optaram por seguirem suas carreiras longe das músicas comerciais e de apelo radiofônico e ainda tinham os equipamentos precários e a falta de estrutura que culminaram com o seu derradeiro fim, a sua dissolução. 

Mas deixaram “Si Todo Hiciera Crack” que tem um momento especial em minha vida, pois foi o primeiro álbum que me fez olhar para um local que não era considerado como o polo do rock progressivo mundial, como a Inglaterra, Itália e Alemanha, por exemplo. Um álbum de excelente calibre sinfônico que definitivamente está no panteão dos clássicos obscuros de todos os tempos. Altamente obrigatória a audição!




A banda:

Rafael Rodríguez na guitarra
Alberto Fontaneda no violão, na flauta e vocais
Mento Hevia nos teclados e vocais
Alex Cabral no baixo
Manolo Jiménez na bateria

Faixas:

1 - Descenso en el Mahellstrong
2 - Amantes de le Irrealidad
3 - Cobarde O Desertor
4 - Buenos Deseos
5 - Marchanda Una del Cid (Pt. 1, 2)
6 - Si Todo Hiciera Crack
7 - Epillogo