Uma banda envolta em sombras!
Um álbum produzido de forma artesanal, com um número incipiente de cópias!
Assim se faz uma banda obscura! Ou melhor: aqui, neste reles e humilde blog,
não se faz, mas dissemina, difunde! Bandas como a que eu tentarei contar a
história, jamais ganharia, com exceção de um valoroso nicho de abnegados, as
redes sociais ou os canais de comunicação e/ou a geração de conteúdos de quem
quer que seja.
O rock n’ roll é desconhecido
pelos seus ditos apreciadores. E nesse momento em que podemos dizer, com certo
risco, que as bandas não são tão somente obscuras, mas as tornam obscuras. O
mercado fonográfico tendência e é tendencioso, o modismo é a arma que segmenta,
trazendo cenas e bandas, muitas vezes, manipuladas pelo marketing, por
empresários, pseudo empreendedores da música, onde a música, a arte, é
pincelada por melodias acessíveis, de fácil assimilação, com potencial de
“venda”.
E assim simula e projeta as
percepções de um mercado que, de joelhos, segue, como uma ovelha, o pastor
fonográfico, que decide os nossos gostos musicais. Mas ainda há abnegados,
persistentes que, em um nível de resistência, segue na contramão do status quo
sonoro e trazem bandas como essa que, modéstia à parte, somente este e poucos
blogs, podem trazer. Qual é a banda? MUTHA GOOSE.
O Mutha Goose foi uma
raríssima e esquecida banda norte-americana, formada em Indiana que, dada a sua
arrojada e pouco ortodoxa música, foi relegada ao ostracismo e, evidentemente,
pouco se sabe dela e a grande web, tida como democrática, na difusão, em
profusão, de tantas informações, reduz-se a poucas linhas para essa banda.
Foi uma banda que sequer
atingiu sucesso em Indiana, mas, ainda assim conseguiu, de forma, como disse,
artesanal e limitada, gravar apenas um álbum, em 1975, chamado de “I”, pelo
selo Alpha Omega, gravadora de Indiana que atuou no mercado entre as décadas de
1960 e 1970. Claro que pouco se sabe quantas cópias foram lançadas, mas, diante
de cenário de total obscuridade e ostracismo, reza a lenda que foi um
lançamento privado, com cerca de 50 cópias, apenas, que provavelmente circulou
apenas a amigos e pessoas próximas aos integrantes da banda.
A névoa densa da desinformação
também circunda entre os seus integrantes que é sabido os seus nomes, mas pouco
se sabe quais instrumentos tocavam. A pouco informação pode ser um entrave,
mas, preciso admitir que, lá no íntimo do meu ser, a obscuridade, tema central
deste reles blog, é um ponto deveras sedutor. A banda trazia Jeff Cefali que,
pelo que pude apurar, em minhas pesquisas, era baixista, Dave Limeberry,
bateria e Mark Hardy e Herb Hagenwald que desconheço quais instrumentos
tocavam.
Em algumas fontes, apurei que
Herb, além de ter sido bem ativo nas composições das cinco faixas do álbum,
também foi responsável pela produção deste, ganhando certo protagonismo na sua
concepção. Nessa mesma fonte pude observar que o “Copyright”, ou seja, que, por
definição, é o direito exclusivo do autor de reproduzir sua obra, geralmente
utilizado em obras literárias e científicas, traz o nome de “Mutha Goose
Productions”, o que reforça a característica bem artesanal na produção desse
álbum, único lançado pela banda.
A sonoridade de “I” traz riffs
pesados e fuzz, seja de baixo, como principalmente de guitarra, com bordas
duras, sujas e alucinantes de órgãos, incluindo ainda o uso de flautas e piano.
Nele se percebe, se ouve um hard rock, com temperos psicodélicos que se
entrelaçam com arestas de garage rock e floreios progressivos, com destaque
para jams estendidos e vocais lisérgicos. A sonoridade do único álbum do Mutha
Goose entrega uma energia crua underground de algumas bandas obscuras dos anos
1970, com a tipicidade do Meio Oeste estadunidense, de sua, claro, ala mais
underground.
Aos apreciadores de música
pesada e pouco estereotipada, bem como os bons “degustadores” do prog rock com
teclados em profusão, irá se deleitar com o trabalho do Mutha Goose. É fato que
muito se explica também pela condição desse álbum, pois mostra um resultado que
não se rotula, trafegando por várias vertentes, tendo como espinha dorsal, o
hard e o prog.
O álbum é inaugurado pela
faixa “You Said Goodbye” que introduz em dedilhados viajantes de piano e uma
flauta doce, dando um clima pastoral à música, mas vai ganhando corpo,
consistência sonora, os riffs mais pesados e pegajosos de guitarra capitaneiam
essa transição do acústico ao peso do hard rock. O vocal não pode ser
negligenciado, pois, nessa transição é participante de destaque, do melódico ao
quase rasgado, ao grito. É a típica faixa progressiva, repleta de mudanças
rítmicas, tendo o órgão catártico, energético e que desemboca em um solo
frenético de guitarra, com a camada de teclados igualmente poderosos. Uma
música organicamente caótica e complexa.
“I Think It's You” chega
dançante, uma pegada mais sinfônica e cristalina aos ouvidos. O vocal é
extremamente limpo e melódico. A faixa é solar, o piano traz o balanço, mas não
se engane, a música prega uma peça e se mostra dinâmica, com riffs pesados de
guitarra que a coloca em um patamar pesado típico do hard rock e que logo se
revela mais acústica, com as flautas trazendo de volta um clima de balada rock
mais acessível aos ouvidos. A “cozinha rítmica” ganha destaque no final da
faixa, baixo galopante, bateria pesada, guitarra estridente. Excelente!
“Exodus” traz a introdução
voltada mais para o psych prog, algo mais experimental, baixo potente, vívido,
bateria marcada, pesada, o órgão te manda para mares progressivos e
psicodélicos. A lisergia encontra a sofisticação do progressivo. Mas o hard
rock, personificado pelo riffs pesado e sujo de guitarra, traz o inusitado, a
sopa sonora. Solos ácidos, lisérgicos, garageiros são ouvidos. O complexo em um
casamento com o despretensioso.
“Freak – Hitchhicker” me
remete ao minimalismo do krautrock germânico, uma simplicidade carregada de
peso, de um hard psicodélico repleto de lisergia e um experimentalismo que
beira a jams sections totalmente desprovida de bons modos. É sujo, é garageiro,
é louco e pouco ortodoxo. Riffs de guitarra e solos deixam a música ainda mais
pesada e é nesse momento que o hard rock, típico, domina. A simplicidade se
revela dura e pesada.
E fecha com “Being Her Friend”
que traz uma introdução mais soturna, diria sombria, com um vocal distante,
abafado. Algo dramático, em tom de dramaticidade traz uma camada estranha para
essa música. Flautas, suaves notas de teclados corroboram a sua condição
soturna e reflexiva. Mas eis que surge a surpresa: A guitarra traz um riff mais
dançante, o baixo segue com um groove animado e a bateria, em uma batida
marcada e pesada entrega uma pegada distinta a música e assim termina, de forma
mais animada e solar.
A qualidade dessa sonoridade é
definitivamente sólida, do seu começo ao fim, um som estranho, por vezes,
sombrio, mas muito inventivo e que não se prende a rótulos e estereótipos,
fazendo dele uma obra excelente de hard prog, com uma pegada garageira e suja.
E quando trazemos à tona essas nuances a um álbum que tem o progressivo, pode
parecer, aos ouvidos mais conservadores, improvável, mas sim, é possível
associar, claro, de forma arrojada o rock de garagem, por exemplo, ao prog
rock.
A edição original, pelo que pude apurar também, por intermédios das escassas fontes disponíveis, é até agora a única deste álbum e, por ter tido uma baixa tiragem, é muito difícil de conseguir, não tendo, como disse, reedições disponíveis, o que faz do único álbum do Mutha Goose e, consequentemente da banda, obscura, rara. Não duvido que esse trabalho, se tem disponibilidade de venda, deve ter cifras estratosféricas, o que faz dessa banda e álbum sedutores dentro de seu universo obscuro. Mas não é apenas por isso, também pela sua sonoridade arrojada e de profunda personalidade criativa.
A banda:
Jeff Cefali no baixo
Dave Limebery na bateria
Mark Hardy ?
Herb Hagenwald ?
Faixas:
1 - You Said Goodbye
2 - I Think It's You
3 - Exodus
4. Freak - Hitchhicker
5. Being Her Friend




