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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Medusa - Calling You (1977)

 

Nessa minha saga desbravando os “escombros” empoeirados do rock n’ roll, por intermédio deste reles e humilde blog que você, caríssimo leitor, tem lido e que eu eternamente agradecerei pela audiência e credibilidade, tenho feito algumas loucas, estranhas e doces descobertas.

Porque a minha atual realidade, ou melhor, a minha realidade há anos nas minhas audições é exatamente trazer algo mais arrojado e pouco usual para a minha vida “sonora”. Não é tão somente a complexidade sonora que me cativa mais, mas a loucura despretensiosa e nitidamente suja. Sabe aquelas produções “artesanais” repletas de defeitos? É isso!

E mesmo diante disso tudo, ainda consigo ouvir e apresentar, em meu blog, as sonoridades de que sempre apreciei e “degustei”, como prog rock, hard rock, psych, stoner rock, entre tantos outros. É possível “harmonizar” todas essas vertentes ao que estou desbravando? Sim, caros leitores! E consegue com um prog rock, por exemplo, tido como uma sonoridade tão sofisticada? Sim, porém com nuances mais, digamos, underground, garageira mesmo.

E hoje eu gostaria de apresentar a todos os amigos leitores algo totalmente inusitado, louco e pouco, pouquíssimo normal para a realidade pasteurizada e previsível do rock, logo raro, muito rara, afinal, como que uma sonoridade como essa pode ser encarada como algo potencialmente “consumível” para um público ortodoxo do rock, de um mercado conservador. Falo da banda alemã MEDUSA.

Essa obscura banda germânica eu descobri recentemente e que, como disse, me trouxe uma doce loucura calcada na liberdade criativa e totalmente desprendida de uma projeção mercadológica. E é mais uma “Medusa”, diante de tantas outras que surgiram na mesma condição que esta banda: obscura e que, diante desse cenário, pereceram todas precocemente. Por aqui neste blog há algumas “Medusas”, como a norte americana e mexicana que valem a pena conferir.

E como tantas outras bandas raras e obscuras, o Medusa alemão percorreu um caminho no ostracismo, na escuridão e com uma caminhada efêmera e um fim esquecido e triste, mas são essas histórias fracassadas, comercialmente falando, que entregam os melhores e mais pitorescos episódios.

E como tal poucas são as informações disponíveis sobre as suas origens e sua história, mas tentarei arduamente trazer o máximo que posso sobre o Medusa. A banda, formada na segunda metade dos anos 1970, surgiu em Nordrhein-Westfalen; Parte dos músicos vieram de Wuppertal e de outras cidades mais próximas, como Velbert.

E falando nos músicos a sua formação original trazia Peter Bolling, no baixo, Detlev Orthey, na bateria e percussão, Nobert Labgensiepen, na guitarra, Ingo Klich nos teclados e Volker Kappelmann nos vocais e guitarra.

Em janeiro de 1977 o Medusa lançaria o seu primeiro e único trabalho chamado “Calling You” em uma prensagem privada e extremamente limitada, pelo selo Schnecke Records.

“Calling You” traz uma miscelânea sonora extremamente incomum e arrojada, com influências, pasmem, de punk rock e krautrock e rock progressivo, além de elementos claros de hard rock com discretas pitadas de blues rock. Um tecido psicodélico cobre toda essa sopa sonora com guitarras lisérgicas e batidas beat e pesadas.

Talvez estejam, bons e estimados leitores, se perguntando como pode ser provável ter o rock progressivo e punk rock juntos em um mesmo álbum? Bem não negarei a loucura disso, mas não nego também que é no mínimo atraente ter ouvido “Calling You”!

Claro, o ano de lançamento, 1977, era o período emergente do punk e, como toda banda alemã que se preze, tem de ter um “tempero” prog rock e krautrock e esses caras tiveram a audácia de fundir essas vertentes sonoras e fazer desse álbum estranho, louco e incomum. O prog rock não traz aquela complexidade e sofisticação, mas o que importa? É muito bom ter descoberto e feito a audição dessa sopa bem nutrida de sons arrojados e sem nenhum tipo de carimbo ou rótulo.

Então já que trouxe um pouco do que significa o álbum do Medusa, “Calling You”, vamos trazer um pouco do que cada música oferece? Vamos a elas! E começa com a faixa “Go Kids Go” que já começa com a louca mistura entre punk ou até diria um pré-punk, proto punk com um psych, bem veloz e sujo. O peso se entrelaça com o órgão, com a gaita, com a guitarra eletrificada e vocal meio gritado. O que dizer da gaita no meio do peso, do frenesi da música, dando uma cadência...?

"Go Kids Go"

Mas tudo muda um pouco, ou diria muito, com a faixa seguinte: “The Change”. A música mais longa do álbum, que conta com pouco mais de onze minutos de duração, traz um rock psicodélico, com discretas passagens de krautrock e que mostra algo mais bem elaborado, musicalmente falando, com uma introdução, embora breve, bem linda de guitarra com um solo bem viajante, mas que logo fica pesado com uma bateria marcada e agressiva com um órgão enérgico. Mas logo fica tudo mais introspectivo, trazendo também as variâncias rítmicas do rock progressivo. Há um toque épico nessa música e faz dela o destaque do álbum. É lírico, é vibrante, é viajante.

"The Change"

A sequência traz a faixa “Hey Rock 'n Roll”, já traz, até o fim do álbum, em um total de três músicas, uma pegada mais voltada para o hard rock e blues rock, além do inusitado punk rock também. E nessa música começa com o órgão dando uma camada mais sombria que logo fica mais sinfônico e depois surgem os riffs de guitarra e a bateria pesada e marcada e tudo se funde em uma psicodelia lisérgica e pesada, um hard psych cheio de voluptuosidade. E quando surge o vocal, este traz uma pegada mais proto punk. É espetacular essa faixa, porque mostra arrojo e a vocação dessa banda contra o estereótipo!

"Hey Rock and Roll"

“Medusa´s Calling You” começa com dedilhados de guitarra que me remete a uma balada de heavy metal, algo sombrio, soturno, mas, no decorrer da música, vai ganhando corpo e assumindo seu “lado hard rock”, com a bateria mais agressiva, o órgão mais energético, o baixo mais pulsante...Aqui o hard rock é mais heavy e punk, mas também progressivo, é também repleto de variâncias rítmicas, mostrando um Medusa mais encorpado, mais contundente, musicalmente falando. Mesmo com um álbum despretensioso e por vezes inocente em sua sonoridade, revelou-se complexo e arrojado. As teclas, de uma energia cativante, vão mostrando seu lado mais kraut, com alguma introspecção. O que dizer dessa faixa? Louca e vibrante!

"Medusa's Calling You"

E fecha com “QQ 10” que traz a introdução, cheia de ruídos, ao estilo hawkwind, meio psicodélico, meio space rock, que logo se mistura ao peso lisérgico, com bateria marcada e pesada, com riffs de guitarra mais sujos e viscerais e um baixo mais rasgados e potentes. Mas o peso dá lugar também a viagem progressiva do teclado mais pastoral e contemplativo, mas logo retorna ao peso que alia hard, punk e lisergia. Loucura sonora!

"QQ 10"

O Medusa, ainda em 1977, mais precisamente falando na segunda metade daquele ano lançaria um single, em maio, no Horst Burghardt – Tonstudio - Engelsmann & Burghardt em Castrop-Rauxel, com as faixas “Ocean Dream” e “Freedom”, pelo selo Life Records, da Alemanha, mas muito difícil de achar para audição.


E com essa nova gravação a banda traria também uma nova formação, trazendo a vocalista Njoschi Weber, o baterista Gerd Elsner, o guitarrista base e vocalista Peter Eckert, o baixista Pi Klein e o único membro da formação original Volker Kappelmann. A intenção era trazer novos tempos para o Medusa e gravar um novo álbum, mas não conseguiram seguir e pereceram de forma precoce.

Não se sabe se tiveram relançamentos, pouco consegui apurar a respeito dessa obscura banda, mas é informação de que a prensagem original de 1977 é disputado a tapas pelos colecionadores de vinis raros e que reza a lenda de que alguns foram colocados à venda na bagatela dos 600 euros, pasmem! O fato é que a sua sonoridade é arrojada, inusitada e louca, um doce e original loucura que é digna de audição.




A banda:

Peter Bölling no baixo

Detlev Orthey na bateria e percussão e sinos tubulares

Norbert Langensiepen na guitarra

Ingo Klich nos teclados

Volker Kappelmann na guitarra solo, vocais e gaita

 

Faixas:

1 - Go Kids Go

2 - The Change

3 - Hey Rock 'n Roll

4 – Medusa’ s Calling You

5 - QQ 10 



"Calling You" (1977)














 











sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Gandalf - Gandalf (1977)

 

A cena progressiva da Suécia foi prolífica, foi grandiosa em qualidade e quantidade. Inúmeras bandas surgiram, algumas caíram na obscuridade e no ostracismo, outras gozaram de certa fama. As questões políticas limitavam um pouco, afinal grande parte dessa cena, predominantemente underground, se posicionavam, criticavam por intermédio de suas letras o status quo e os governos censuravam ou as gravadoras, por medo, não gravavam ou engavetavam certos projetos musicais com esse teor, digamos, revolucionário ou anárquico. E, muito em virtude desse cenário desolador, florescia a música sueca comercial “rivalizando” com o prog rock local.

Mas ainda assim o rock progressivo sueco teve um impacto significativo nas forças socioculturais e também, claro, nas políticas que se mostravam antagônicas a essa cena. O prog sueco versava sobre amor, paz e felicidade. As pessoas viviam em coletivos, mudavam-se para o interior e cultivavam suas próprias colheitas. E muitas bandas começaram nessas comunidades e as manifestações foram influenciadas pelo movimento de esquerda.

E, diante desse cenário, os primeiros passos da carreira desses músicos e bandas foram dados em um ambiente pela escassez financeira. Muitos eram jovens e surgiam, em alguns casos, de forma despretensiosa, apenas pelo amor à música, em espaços escolares. E assim foi com uma banda extremamente rara: GANDALF.

Gandalf

Meu bom e fiel amigo leitor, você deve estar a pensar: mais uma banda com o nome Gandalf? Sim, são algumas bandas com esse nome, mas o Gandalf sueco certamente é o menos conhecido. E não se engane, a origem do nome da banda se deu exatamente por conta do famoso e misterioso mago de “O Senhor dos Anéis”. Então a banda achou interessante ter tal nome, pois o personagem era envolto em mistério.

E por falar em banda, vamos aos jovens que formaram o Gandalf: Per-Åke Persson na bateria, Lars Linell no baixo, Mats Ågren no vocal, guitarra e piano, Michael Schlömer na flauta e Johan von Feilitzen no vocal, guitarra e piano.

E quando falamos em influência e movimento progressivo na Suécia, o Gandalf, claro, tiveram as suas referências sonoras e contava com as grandes bandas daquele país, cujos destaques são, entre outras:  Bandas suecas influentes incluíram Hoola Bandoola Band, Nynningen, Kebnekajse, Ola Magnell, Ensamma Hjärtan, Motvind, Coste Apetrea, Zamla Mammas Manna, Mobben, Kaipa, Nationalteatern e Norbottensjärn, Rekyl. E evidente que as bandas internacionais também foram determinantes para a sonoridade do Gandalf, como: Focus, Pink Floyd, Ekseption, Gentle Giant, Frank Zappa e Deep Purple.

O Gandalf, lá no final dos anos 1970, decidiu lançar seu primeiro álbum, de forma privada. Tentaram contatar algumas gravadoras, sendo, claro, em pleno final dos anos 1970, onde bandas pop e comerciais como ABBA eram a oportunidade de mercado das gravadoras, além do punk que florescia para este mesmo mercado, negado. Por isso a decisão dos jovens músicos do Gandalf lançar o álbum, homônimo, em 1977, de forma bem “artesanal” e privada (Gandalf Skivprod), em um total limitado de 378 cópias. Eles tiveram o apoio financeiro principalmente dos seus amigos da escola. Eles eram tão jovens!

Inclusive, convém trazer à tona uma parte desse momento da história do Gandalf. O primeiro e único álbum da banda estava planejado para ser lançado por um selo comunista de nome Oktober, mas quando ouviram a faixa inaugural “Plastisk Svensson”, os empresários do selo consideraram “anti-classe trabalhadora demais”. Ficaram com medo e decidiram cancelar o lançamento.

Já que estamos falando do único álbum do Gandalf, convém tecer alguns comentários acerca de sua sonoridade que flerta com várias vertentes do rock, não apenas o progressivo sueco, que tem, como base, o prog sinfônico, mas também de um boogie-rock, com alguns solos pesados de guitarra, que tendem para o hard rock, além de uma pegada bluesy, um blues rock. A banda não tinha rótulos e experimentava todos os sons que reinaram no rock nos anos 1970. E esse som pouco estereotipado e por vezes de garagem, fez com que, em 1977, mais precisamente, com o seu lançamento tímido e limitado em cópias, não ganhasse o interesse de selos conservadores.

Antes de falar de cada música deste álbum pouco usual para ouvidos mais ortodoxos, convém falar um pouco do retrato vivido pelo Gandalf da percepção do público pela mesma, bem como as suas primeiras apresentações ao vivo. A banda, oriunda de uma cidade chamada Uppsala, começaram a tocar, graças a sua boa relação com outras instituições de ensino, fizeram alguns shows em outras escolas. E conseguiram tocar para 25.000 pessoas nos arredores de Estocolmo em um salto mais ousado da banda, no “Hagafesten”. Um dia fantástico de verão com um uma grande plateia. E dividir o palco com tantas outras bandas, algumas já experientes e outras surgindo, foi, no mínimo, incrível para os jovens músicos do Gandalf.

O álbum é inaugurado com a faixa “Plastisk Svensson” que traz um hard rock com o destaque para riffs e solos de guitarra que a torna pesada e animada. E essa energia da música também se revela em uma pegada mais dançante lembrando um rockabilly. Também se percebe uma lisergia, um beat que se “entrelaça” com o rockabilly. Segue com “Morgon Dimman” que começa pastoral, viajante, com dedilhados lisérgicos de guitarra e uma flauta doce, delicada. E assim a música é conduzida, entre solos ácidos de guitarra e a flauta. E ainda assim, traz uma melodia com nuances, como um prog rock.

"Plastisk Svensson"

“Verklig Heten” explode em um hard rock volumoso, solos intensos de guitarra, bateria forte e com uma batida agressiva e marcada. O baixo é pulsante, a “cozinha” é extremamente competente. Mas ainda há mudanças de andamento, momentos de balada, conduzidas por um vocal cantado em sueco. O solo de guitarra no meio da faixa é espetacular: límpido e viajante. O lado progg é capitaneado pela flauta delicada. “Betygs Terror” começa com um piano e a flauta, novamente em destaque, construindo um prog rock com uma pegada meio jazzística. As mudanças de andamento são perceptíveis e a bateria conduz cada mudança com maestria.

"Verklig Heten"

“Den Vita Snov” começa com uma pegada psicodélica, com dedilhados de guitarra lisérgica e solos que me remetem ao The Doors e Iron Butterfly. Bateria lentamente executada, lembrando um blues rock, baixo no mesmo ritmo. Simples e agradável essa faixa! Viajante com solos de guitarra. “Miljo Forstoring” segue a mesma proposta da faixa anterior, um beat psicodélico bem dançante, mas com uma pitada comercial, algo mais palatável, com um boogie com muita animação entre tudo isso.

“Vanderingar Om Skolan” traz a versão blues rock do Gandalf. Sedutor, envolvente, assim se conduz a música, com o piano no destaque, mas alterna com uma pegada mais hard rock e assim se desenvolve, entre o peso do hard rock e a sedução do blues rock cantado, de uma forma inusitada, em sueco. “Balladen Om Fyristorg” continua com a pegada bluesy, mas agora inteiramente com o blues rock pesado, com riffs pegajosos de guitarra. E fecha com “The Spoon” começa com uma balada com o piano e vocal quase que à capela. Entra, em seguida, a bateria, marcada e um solo voltado para o blues que deixa a sonoridade dessa faixa versátil como todo o álbum.

"Balladen Om Fyristorg"

A dissolução do Gandalf ocorreu de forma muito precoce, afinal o cenário era desfavorável para esses jovens e audaciosos músicos que, em pleno final dos anos 1970, onde o punk estava no auge mercadológico, bem como a new wave e a disco music, tornaria difícil a “concorrência”. Era o início dos anos 1980 e o Gandalf, sem apoio e suporte financeiro adequado para difundir sua arte, pereceu, sumiu da cena prog que já não estava mais no auge comercial.

Mas nem tudo era ruim, a luz no fim do túnel escuro e negro se fez e o Gandalf teve o tão aguardado e esperado álbum homônimo relançado, com toda a pompa e circunstância pelo selo PQR-Disques Plusqueréel. No estilo da verdadeira ressureição, as vibrações carregadas de prog sinfônico, hard rock, blues e até mesmo um rock psych repleto de ácido desperta a alma de quem ouve esse belo e intrigante trabalho, os transportando para as florestas encantadoras onde os sonhos hippies se entrelaçam com as estrelas. Eram as origens dessa cena ganhando visibilidade novamente por intermédio do Gandalf.

O vinil, acompanhado por um livreto de 12 páginas, com letras originais e fotos da banda inéditas, destaca uma cena prolífica personificada pelo único trabalho do Gandalf, oferecendo a mistura pouco ortodoxa de psicodelia, progressivo, hard rock, com estilos emergentes e experimentais da sua época.

Os anos 1970 trouxeram sonoridades em caráter experimental e esses novos sons, de fato testaram a capacidade de ousar muitas gravadoras no que diz respeito ao apoio a essas bandas que são igualmente ousadas, em criar um som totalmente novo e arrojado, diante de músicas plastificadas e óbvias, clacadas em um pop digerível e de fácil assimilação.

Hoje as bandas gozam dessa caminhada tortuosa e difícil de seus predecessores, além de ter tantas formas de audição e de alcance a essas sonoridades, tantas formas digitais de escolher, as redes sociais que difundem as novas bandas e solidifica, mesmo que em um ambiente underground, mas forte, de sonoridades que se dão ao luxo de ainda ganhar novos “braços” sonoros, sempre se renovando.

Por mais que o Gandalf tenha perecido na obscuridade nos seus primórdios foi, como tantas outras bandas de sua época, importante para a pavimentação de uma música tão poderosa e original que, sem dúvida, faz do rock sueco ainda muito criativo e vivo, poderoso e cheio de vida, de uma vida longa e próspera. O cantor e guitarrista Johan von Feilitzen mais tarde fundou a banda comercial de pop rock Hansa Band, uma banda sem mérito e com ainda menos qualidades prog.





A banda:

Johan von Feilitzen no vocal, guitarra e piano

Per-Åke Persson na bateria

Lars Linell no baixo

Mats Ågren no vocal, guitarra e piano

E Michael Schlomer na flauta

 

Faixas:

1- Plastisk Svensson

2- Morgon Dimman

3- Verklig Heten

4- Betygs Terror

5- Den Vita Snov

6- Miljo Forstoring

7- Vanderingar Om Skolan

8- Balladen Om Fyristorg

9- The Spoon 




"Gandalf" (1977)



























sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Lift - Caverns of Your Brain (1977)

 

A cada nova audição, independente de meras questões cronológicas, eu me surpreendo positivamente falando. Por mais que trafeguemos nas nossas vertentes sonoras prediletas, estas sempre trazem algo novo, interessante e arrojado que nos arrebatam de forma tal que faz com que o nosso espírito desbravador continue forte e resistente ao longo do tempo.

Para quem acha que o rock progressivo é algo enfadonho, chato, de músicas longas e cansativas é porque não explorou o suficiente o estilo e o seu leque diverso de sonoridades que flertam com vários subgêneros que faz com que o estilo seja rico, interessante, independente de modismos efêmeros que entregam músicas pasteurizadas.

Eu estava recentemente em minhas incursões, em minhas buscas pelo submundo do rock e descobri, quase que por acaso, uma banda norte americana muito interessante e o que chamou a atenção inicialmente foi a sua capa e principalmente o título de seu álbum, “Caverns of Your Brain” que, em tradução livre significa “Cavernas do seu Cérebro”. Um título forte, diria sombrio, não é mesmo?

Mas claro a minha inquietude, mesclada a uma imensa curiosidade, me pus a fazer uma audição com toda a atenção que o título apresentava. As faixas tocavam em meus ouvidos, mas era o coração que absorvia tudo com um arrebatamento jamais imaginado. Era um prog rock vigoroso, potente, repleto de jams sessions, uma ode a um instrumental exuberante, que trazia um hard rock, a sofisticação, claro, do progressivo, a animação do sinfônico, tudo isso em uma panela cujo tempero era de deixar você de joelhos maravilhados com um paladar sonoro delicioso. Qual a banda? LIFT!

E o mais legal de tudo é que a banda surgiu nos Estados Unidos, um país em que o prog rock não é tão popular, mas que, ainda assim goza de uma cena prolífica de bandas espetaculares, principalmente às obscuras e que o Lift, sem sombra de dúvida, pode e deve ser incluída neste seleto rol.

Mas antes de falar do seu único álbum, lançado em 1977, gostaria, evidente, como manda a tradição deste blog, falar um pouco dos primórdios, da história dessa seminal banda que soube, mesmo com apenas um trabalho lançado, dignificar o prog rock com maestria. Falemos do Lift.

O Lift foi formado em 1972 em New Orleans e o seu núcleo inicial era o tecladista Chip Gremillion, o baxista Cody Kelleher e o baterista Chip Grevemberg, todos músicos que já tinham certa experiência na cena rock e que estavam buscando um lugar ao som tocando em várias outras bandas. Depois de alguns meses recrutariam o guitarrista Chris Young e o vocalista Courtenay Hilton-Green, de Pensacola, Flórida. Mas Young não ficaria muito tempo e daria lugar, em definitivo, a Richard Huxen.

Courtenay teve, além do talento, a sua entrada na banda porque já conhecia Chip Gremillion que, claro, facilitou a sua entrada na banda. Mas não apenas conhecia, mas já haviam trabalhado juntos em outra banda. Já Young, mesmo tendo uma rápida passagem na banda deixou a sua marca compondo "Simplicity" e co-escrevendo a letra de "Caverns" com Chip Gremillion e Courtney Hilton-Green.

Com essa formação, no final de 1972 e início de 1973, o Lift ganharia alguns fãs graças às suas apresentações em diferentes áreas do sul dos Estados Unidos, especialmente com shows em várias universidades, abocanhando fãs mais jovens ávidos por músicas mais arrojadas. No ano de 1973 a banda ganharia não só o respeito de fãs ardorosos, mas também da crítica musical local, fazendo com a sua visibilidade na cena só aumentasse.

Mas nesse início o Lift tocava muito covers de bandas famosas como The Beatles, Led Zepellin, Uriah Heep, ELP, Yes, King Crimson entre outras. Reza a lenda que a banda iniciava seus shows a música do Genesis, chamada “Watcher of the Skies” e isso fazia com o que o público se animasse e passasse a amar as apresentações do Lift. Mas gradualmente a banda passou a introduzir o seu material autoral, conforme as músicas eram compostas.

No verão de 1974 o produtor Sonny Fox colocou o Lift em um estúdio e gravou quatro músicas: "Simplicity", "Caverns", "Buttercup Boogie" e "Tripping Over the Rainbow". A maioria dos músicos não tinha sequer 19 anos de idade. Eram muito jovens, porém talentosos e promissores. A banda ganhava popularidade e com quatro faixas produzidas e gravadas e um material promocional nas mãos, lançadas com 500 cópias, Sonny sugeriu à banda que fosse para Atlanta para alçar novos voos. A sugestão foi aceita pela banda e no final do outono de 1975 a banda se muda para Atlanta.

Mas nem tudo foi um mar de rosas para o Lift nesta nova fase da banda. As turbulências viriam a todo vapor. A banda viajou para a Filadélfia para gravar uma nova versão de "Simplicity" e "Tripping Over the Rainbow", além de registrar uma nova composição instrumental. Gravaram tudo rapidamente e retornaram para Atlanta, aguardando o material ficar pronto e ser enviado, o que não aconteceu.

Entre o fim de 1975 e o começo de 1976, Cody Kelleher e Courtenay Hilton-Green deixaram a banda. Os remanescentes passaram cerca de sete meses procurando substitutos. Foi um período complicado, afinal encontrar substitutos à altura não é nada fácil. Encontraram uma vocalista de nome Laura “Poppy” Pate, uma cantora que trabalhava em uma loja de música e que ao ouvir o som dos caras, já foi logo entrando na banda rapidamente. A banda foi reformulada, ficando da primeira formação Chip Grevemberg, Chip Gremillion e Richard Huxen, entrando Mike Mitchell, Tony Vaughn e Laura.

Nos seis meses seguintes à entrada de Laura e com uma nova formação, o Lift compôs mais cinco faixas e adaptou as músicas gravadas de outrora à nova formação. O produtor britânico Michael Stewart se interessou pelo som da banda e já trabalhava em Atlanta com a banda de hard rock Hydra. Michael percebeu um grande potencial do Lift.

Stewart mesmo percebendo que a banda poderia voar alto com a sua música achou que o material até então gravado não era tão representativo e levou os caras novamente para o estúdio. Foram sessões de fotos, frisson de cast locais, selos interessados em lançar a banda etc. E o Lift passou a ser a banda oficial de abertura da maior casa de espetáculos de Atlanta, a Alex Cooley’s Electric Ballroom. Certamente com esse show viriam muitos representantes de gravadoras olhar a sua apresentação e ver a banda tocar e quem sabe rolaria um contrato. O sucesso viria dessa vez?

Duas semanas antes do show vem outra bomba que cairia impiedosamente no Lift! Laura informaria a banda que estava saindo por motivos pessoais e isso motivaria também a saída de Richard Huxen que logo em seguida sairia do Lift. “Caverns of Your Brain”, um álbum oriundo das sessões de 1974, foi lançado em forma de “bootleg” pelo famoso selo alemão Brain, traz um vigoroso rock progressivo, com pegadas pesadas de hard rock e um envolvente e atraente prog sinfônico, tudo envolto em uma atmosfera sombria, porém solar, vívido e poderoso.

O som instrumental dá o tom e tudo estava centralizado em vibrantes notas de teclados, guitarras flamejantes e uma “cozinha” que se mostra invejável com sessões rítmicas de tirar o fôlego. As quatro faixas são definitivamente poderosas, que tem a marca do hard rock, prog rock e rock sinfônico, são esses os pilares sonoros deste trabalho.

O álbum é inaugurado com a faixa “Simplicity” que traz um número alegre, solar, que tem como destaque de imediato o baixo que impõe sonoridades siderais com um instrumental que beira o transcendental, entregando um som rápido, ousado, altivo, potente. Me traz também a impressão de uma sonoridade simples, mas eficaz sob o aspecto instrumental, fazendo da banda complexa e pragmática, ao mesmo tempo.

"Simplicity"

Segue com “Caverns” que traz um clima mais solene em um ritmo mais lento, sombrio, diria. Há muito espaço para um hipnotizante sintetizador e camadas deliciosas de mellotron que parecem estabelecer um ritmo majestoso para riffs e solos de guitarra etéreas que traz sofisticação e algo mais voltado para o experimentalismo, ao mesmo tempo.

"Caverns"

"Buttercoop Boogie" chega com um embalo devastador de uma pegada percussiva em um boogie rock meio que intergaláctico, envolto em um blues rock executado nos teclados e exibido em uma pegada frenética e potente. Mas o prog rock ganha destaque também nessa faixa com trabalhos majestosos de guitarra e teclado com um baixo pulsante e uma bateria sendo executada de forma precisa e pesada.

"Buttercoop Boogie"

E finaliza o álbum com a épica “'Trippin' Over the Rainbow” que se mostra complexa, ao longo de seus pouco mais onze minutos de duração. Tem passagens que alterna entre mais sereno e o mais pesado em uma engrenagem ousada, complexa, repleta de mudanças rítmicas de tirar o fôlego. O destaque, claro, é na faixa instrumental, especialmente no mellotron e sintetizadores que traz a nítida sensação orquestral e sinfônica da música o tempo todo. É definitivamente uma faixa muito pulsante e viva e que está longe de ser tediosa.

"Trippin' Over the Rainbow"

Os últimos seis meses após a saída da vocalista Laura, Chip Gremillion, Mike Mitchell, Chip Grevemberg e Tony Vaugn convidaram vários músicos para ensaiar na tentativa de recriar as capacidades criativas do Lift, mas nada dava certo e os músicos que foram testados não entraram na banda. No entanto, o quarteto que restou percebeu que eram capazes de produzir uma boa música. E foi nesse período que alguns materiais foram compostos, cerca de seis e sete músicas foram compostas e curiosamente foram essas músicas que poderiam trazer um potencial de sucesso comercial. Mas o Lift pereceu e se desfez em fevereiro de 1979.

Em 1990, o selo norte-americano Syn-Phonic contatou o tecladista Chip Gremillion para relançar, a partir das fitas originais da sessão de 1974, o álbum “Caverns of Your Brain”, da mesma maneira que a promo lançada pela banda. Em 1992 saiu a compilação “Past, Present & Future”, incluindo material adicional inédito das sessões de 1977 quando a banda estava em Atlanta. Em 2001 sairia uma nova compilação chamada “The Momento of Hearing Lift” trazendo todo o material registrado em Atlanta, além das quatro faixas de “Caverns of Your Brain”, totalizando oito faixas.

“Caverns of Your Brain” foi lançado em uma época em que o punk rock estava em evidência, o prog, que nunca foi popular, estava em pouquíssima evidência em 1977, mas sem sombra de dúvida é um álbum indispensável para quem aprecia rock progressivo, pois se trata de uma pérola perdida nos submundos do rock obscuro.

 

A banda:

Chip Gremillion no Hammond B-3, Mellotron 400, pianos elétricos e acústicos, Moog Sonic Six, ARP Odyssey

Cody Kelleher no Baixo Rickenbacker 

Chip Grevemberg na bateria, sinos, gongos, sinos, percussão

Richard Huxen na guitarra solo, guitarras elétricas e acústicas, guitarra slide de aço

Courtenay Hilton-Green nos vocais, flauta

 

Faixas:

1 - Simplicity

2 - Caverns

3 - Buttercup Boogie

4 - Tripping Over the Rainbow




"Caverns of Your Brain" (1977) - Original







 




 


















 





quarta-feira, 3 de julho de 2024

Aleph - Surface Tension (1977)

 

Sydney, Austrália, 1974. O ano trazia grandes momentos para o rock progressivo. Grandes álbuns, grandes bandas, alguns feitos clássicos que arrebatou o mundo, mas que aconteciam em alguns “polos” tradicionais dessas vertentes, como a Inglaterra, a Itália e a Alemanha, deixando como coadjuvantes vários outros países.

E a Austrália sempre esteve nesse rol de vilipêndio por parte da indústria fonográfica, mas, por mais que o aspecto comercial ofusque esses países, nada que um bom garimpo nos proporcione gratas surpresas, com ótimas e obscuras bandas e a terra do canguru tem sim belas bandas e grandes álbuns.

E um exemplo é o ALEPH. O nome, que pode parecer inusitado e deslocado, mas entrega uma sonoridade extremamente arrojada e diria inédita, pois conseguiu a proeza de fundir o rock progressivo com uma música mais acessível, diria até mais popular.

A concepção do Aleph surge das cinzas de outra banda, baseada na cidade de Armidale, chamada Bogislav. Debandaram do Bogislav o baterista Ron Carpenter, o guitarrista e vocalista Dave Froggatt e o baixista Dave Highet. A banda tinha seis integrantes, juntando-se aos ex-integrantes do Bogislav o vocalista Joe Walmsley, a tecladista e vocalista Mary Jane Carpenter e a tecladista Mary Hansen.

Aleph

E aqui vale uma boa curiosidade histórica: Ron Carpenter, antes de ingressar no Aleph, tocou bateria, nos primórdios, no AC/DC, entre 1973 e parte de 1974, nas diversas formações da clássica banda de hard rock e heavy metal, que esteve baseada em Sydney, mas logo largou a banda dos irmãos Young para formar o Aleph, pelos idos de 1974. E cabe outra curiosidade: o Aleph e o AC/DC se encontrariam mais tarde, Sydney Haymarket, entre 1975 e 1976, em shows, dividindo o palco, inclusive.

As bandas se conheceram no estúdio, no Albert Studios, em Sydney para a gravação dos seus respectivos primeiros álbuns, em 1974, mas o AC/DC gravou e lançou seu primeiro trabalho, chamado “High Voltage”, em 1975, o Aleph demoraria cerca de três anos para lançar seu primeiro e único trabalho, acontecendo em 1977.

Intitulado “Surface Tension”, foi lançado pela Atlantic Records e oferece seis faixas de registros de rock progressivo que oscilam entre 4 e 6 minutos com exceção feita para a música “Mountaineer” que dura pouco mais de 15 minutos. O álbum entrega um esbanjado trabalho centralizado no mellotron, sintetizadores, moogs e tudo o mais, com guitarras pesadas focados em riffs pegajosos e solos enérgicos. Traz uma sonoridade complexa que nos remete ao Yes nos seus primeiros trabalhos, mas, por outro lado, é capaz de fundir uma sonoridade mais acessível, mais radiofônica, algo mais direto.

Nesse aspecto podemos, sem medo ou receio, de incluir o Aleph, mesmo que não tenha gozado de popularidade, ao rol de bandas como o Sebastian Hardie, no pioneirismo do art/prog rock australiano. E isso se confirma com a atmosfera dramática e desencantada que transparece na suíte “Mountaineer”, nela materializa o típico prog rock da Austrália e pesará também sobre o conjunto de “Surface Tension”, mesmo tendo algumas variações, bem discretas.

Não podemos negligenciar a capacidade que o Aleph teve de aliar complexidade e acessibilidade a música, trazendo os teclados e a guitarra em patamares mais alto em sua sonoridade, sendo percebida uma abordagem maior para as teclas em algumas músicas e a guitarra em outras ou ainda o protagonismo de ambos os instrumentos em algumas faixas, simultaneamente. O arranjo e a orquestração parecem, caros amigos leitores, superar o virtuosismo.

Mas o Aleph trabalhou muito antes de lançar seu “Surface Tension” e, no final de 1974, começou a fazer muitos shows em Sydney e, ao longo dos anos seguintes, conquistou alguns seguidores, alguns fãs, devido a exatamente esse nível consistentemente alto de musicalidade, o que rendeu até mesmo um contrato forte com a Warner Brothers.

E, para variar, mesmo com a reputação sendo bem construída, os primeiros anos foram, além de muito trabalho, como também difícil. Tudo parecia conspirar contra a possibilidade de um sucesso nacional. O mais grave evento foi a turnê nacional da banda em 1976, resultando em um prejuízo financeiro significativo. Esse período o seu álbum ainda não tinha sido lançado e quando “Surface Tension” também foi frustrante para a banda, no aspecto da qualidade da gravação.

Tanto que posteriormente o Aleph solicitou à Warner a regravação de seu álbum para aparar as arestas do problema técnico o que foi categoricamente negado, abalando a relação entre a banda e o selo que logo em 1977 viria a se desgastar e findar. Mas antes de chegarmos ao desfecho histórico da banda, vamos dissecar um pouco de “Surface Tension”.

A faixa inaugural é “Banshee” que nada mais é do que um progressivo sinfônico com “chicotadas” bem dadas de um hard rock intenso e enérgico, aquele estilo de prog rock que eu verdadeiramente aprecio. Essa definitivamente seria a essência do álbum, do início ao fim.

"Banshee"

“Man Who Fell” é digno de atenção ao seu piano e moog elétrico muito bem executado, com um timbre vocal exuberante de ótimo alcance. Não podemos negligenciar o mellotron que adorna com extrema elegância, dando uma textura altiva à faixa, sem contar com o hammond que “quebra” a música com a cumplicidade do violão. Excelente!

"Man Who Fell"

A sequência traz a majestosa “Morning”. Uma composição excepcional, mostrando que os caras têm uma capacidade incrível de aliar melodia, harmonia, letras bem encaixadas, tudo em seu devido lugar! “(You Never Were A) Dreamer” também entrega a versatilidade que é “Surface Tension”, uma faixa enérgica, o prog sinfônico se entrelaça com a pegada mais vibrante do hard rock, com pinceladas comerciais que torna mais acessível a faixa aos ouvidos mais exigentes e aqueles mais “despojados”.

"(You Never Were A) Dreamer"

"Mountaineer", a mais longa do álbum, é a síntese do rock progressivo, com viradas rítmicas, com variâncias de sons, com alto nível de complexidade, mas enérgica, com os instrumentos usados a toda prova, mostrando que seus músicos trazem também algo orgânico a sua música. Tudo construído com perspicácia e facilidade natural, afinal, essa é a marca da banda, construída neste álbum. Excelente faixa e ponto alto do álbum.

"Mountaineer"

O álbum fecha com “Heaven's Archaepelago” que traz de volta memórias, com a sua introdução ao piano, de bandas progressivas como Yes e até, em alguns momentos, o Supertramp. Não podemos deixar de lado, nesta música, o domínio do mellotron que oferece uma energia, algo solar, diria sem titubear.

"Heaven's Archaepelago"

Os problemas teimavam em testar o Aleph. Em 1978 a banda perdia o vocalista Joe Walmsley devido a uma grave doença e naquele mesmo ano teve seu PA, seus equipamentos, vendidos como resultado de uma alta dívida de cerca de  US$ 400.000. A banda foi forçada a abandonar sua turnê por vários meses depois que Ron Carpenter foi convidado para ocupar o lugar de baterista temporário do Cold Chisel. Carpenter também passou grande parte de 1979 dedicando suas energias à banda First Light, que gravou e lançou um álbum autofinanciado naquele mesmo ano.

Em 1979, Carpenter convenceu, em uma vã tentativa de salvar o Aleph, os membros restantes, bem como as suas famílias a se mudarem para Byron Bay, onde a banda posteriormente se instalou. Ao longo dos anos a formação foi reduzida de cinco integrantes para quatro integrantes e, finalmente um trio, com Carpenter eventualmente assumindo as funções de vocalista.

O Aleph, para se reerguer, foi forçado a se tornar uma banda cover com a garantia de conseguir casas lotadas e consequentemente bons cachês. Aceitaram! O que outrora fora concebida como original com o lançamento de seu álbum, se viram forçados a tocar covers variando de punk rock a new wave, de música eletrônica a rock clássico. E deu certo, o Aleph conseguiu tocar com alguma frequência e com casas cheias.

Assim foi até 1983! Embora não tenha explorado tão firmemente o seu lado criativo, produzindo músicas autorais, conseguiram lucrar o suficiente para pagar as suas dívidas contraídas em um passado não muito distante. Mas o ano de 1983 marcaria o fim das atividades do Aleph. O fato é que uma banda tão inventiva, que produziu um álbum do naipe de “Surface Tension”, não conseguiria seguir sem o mínimo de estrutura por parte de uma gravadora e reproduzindo músicas de outras bandas.

“Surface Tension” pode não ser uma obra-prima esquecida e vilipendiada, mas sem sombra de dúvida se trata de um álbum valioso, arrojado e interessante para qualquer apreciador de progressivo sinfônico, hard rock e crossover progressivo dos anos 1970. Então, caro amigo leitor, não se deixe levar para questões relacionadas a pioneirismos ou quaisquer “títulos” que esse trabalho deve ou deveria ter recebido, mas apenas ouça com muito respeito e reverência a um álbum solar, divertido. O Aleph merecia um futuro melhor! Certamente entregaria muito ao longo dos anos com uma discografia bem arrojada.



A banda:

Joe Walmsley no vocal

Dave Froggatt na guitarra e vocal

Mary Jane Carpenter nos teclados e vocal

Mary Hansen nos teclados e sintetizadores

David Highet no baixo

Ron Carpenter na bateria e percussão

 

Faixas:

1 - Banshee

2 - Man Who Fell

3 - Morning

4 - (You Never Were A) Dreamer

5 - Mountaineer

6 - Heaven's Archaepelago 



"Surface Tension" (1977)