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sábado, 5 de abril de 2025

Medusa - Medusa (1973 - 2018)

 

A cena rock do México era dominada pelo produto inglês e norte americano. Embora o rock, em língua espanhola tenha começado em 1957, as gravadoras, demasiadamente “globalizadas”, faziam capas de álbuns de bandas sem considerar a importância das composições originais que foram feitas desde então. Eram os covers e as músicas “internacionalizadas” que tinham potencial de mercado. A música era segundo ou terceiro plano.

Nos anos 1970, a cena rock mexicana começou, mesmo que timidamente, a ganhar contornos próprios, quando começaram a gravar suas composições próprias, suas músicas autorais, porém em inglês. Ficou conhecido como a “Onda Chicana”, porque as pessoas, conhecidas como “Chicanos” são descentes de americanos, mas de pais mexicanos.

E nesse caldeirão cultural e musical o rock mexicano foi sendo construído nos anos 1970 e foi se tornando popular e mesmo com as bandas compondo em inglês, elas se tornaram famosas e, então, a infraestrutura como programas de TV, mídia impressa e falada começaram a se desenvolver, e as bandas passaram a fazer turnês melhores e mais extensas e até mesmo no cinema, as bandas e a música começou a figurar em curto espaço de tempo.

E esse cenário foi propiciando o surgimento de festivais, muito inspirado também em icônicos eventos de músicas clássicos, tais como o Woodstock, Isle of Wight Festival, na Inglaterra, Festival Pop de Monterey, nos Estados Unidos e alguns menos conhecidos, como Varadero '70, em Cuba, Festival de Ancón na Colômbia, Festival Buenos Aires Rock, na Argentina entre outros.

Todos tinham, como base cultural e comportamental, o movimento hippie, estudantil, de jovens cansados do status quo e da onda pesada do conservadorismo que permeava em todos os setores da sociedade. O México, no que tange aos festivais, não ficou de fora e um, em especial, foi único na história não só daquele país, como de toda a América Latina, conhecido como Rock y Ruedas de Avándaro.

O festival ocorreu nos dias 11 e 12 de setembro de 1971, nas margens do Lago Avándaro, perto do Valle de Bravo e surgiu em um contexto político extremamente conservador, ditatorial e repressor e a oposição estudantil e juvenil, como em várias partes da América Latina e do mundo eram a oposição a esse governo, usando tais festivais de música como a força motriz para lutar contra esse regime opressor. Esse ativismo político dos jovens, ligado à música, ao rock n’ roll, como ponte de transgressão, queriam democracia, liberdade política e respeito a diversidade, direito dos trabalhadores e acesso a saúde e educação, entre outros pleitos.

E nesse contexto de opressão, de intolerância de todas as formas, a música rock mexicana e os seus músicos foram construídas. E um jovem foi, de certa forma, impactado por esses movimentos e, diria, foi parte integrante, um agente importante desse movimento. Falo do Victor Moreno, baterista e um dos fundadores de uma das bandas mais emblemáticas da cena hard rock do México: MEDUSA.

Medusa

Aos 17 de idade Moreno foi roadie do El Ritual, tida como uma das melhores bandas de rock do México (A resenha sobre seu único álbum pode ser lida aqui!) e, com essa brutal experiência, ele foi nomeado como gerente de palco do Festival Avándaro. Não precisamos dizer o quão gratificante deve ter sido para o Victor Moreno esse momento, vivendo, na pele, toda essa efervescência cultural que certamente serviu como arcabouço musical.

A Medusa surgiu neste contexto e foi um projeto, iniciado por Moreno e seu amigo Javier Plascencia, que era vocalista e baixista. Eles se conheceram na escola em 1968, em plenos ano estudantil com o embate ideológico com o governo opressor. Eles faziam parte, inclusive, do movimento estudantil do México que resultou no massacre de Tlatelolco que deixou muitas mortes e prisões de jovens estudantes. E diante desse cenário começaram a escrever músicas quando começaram a tocar em 1972.

A banda surgiu em meados de 1972 com a ideia de apresentar um heavy rock original e visceral ao estilo Blue Cheer, Cactus, Black Sabbath e outras bandas similares que serviram de referência para o estilo na transição dos anos 1960 para os anos 1970. Mas apesar de ser influenciada por essas bandas a Medusa trouxe originalidade ao heavy rock mexicano.

Os membros originais, além dos amigos Victor Moreno na bateria e Javier Plascencia Amoróz nos vocais e baixo respectivamente, trazia Luis Antonio Urguiza Zanella, na guitarra e mais tarde entraria, em 1982, Jaime García se juntou à banda, tocando guitarra e sintetizador. Devido a amizade de Moreno e Plascencia nos primórdios de suas carreiras, tiveram primeiro com Armando Nava e os Dug Dug’s e depois com bandas como Peace & Love, El Ritual, Náhuatl e Super Mama, entre outras bandas de Tijuana, pensou-se que Medusa também era dessa região prolífica do rock n’ roll mexicano, mas não, a banda não era, apesar também do estilo sonoro da banda e do apelo estético também.

A cena rock mexicana, apesar dos entraves políticos, foi bem recebida e, claro, Medusa estava no rol das bandas que tocaram nas rádios e isso fazia com que o som da banda, claro, ganhasse visibilidade e alguma credibilidade, até porque a sua sonoridade áspera e pesada, poucos faziam naquela época. A banda sempre cantou em espanhol, nunca fez música em inglês para atingir o mercado externo, nunca tocou covers também, apenas música autoral.

A Medusa, graças a essa visibilidade, logo após a sua fundação começou a realizar as suas primeiras gravações logo em 1973 na “Discos Raff” patrocinada pelos amigos da banda Náhuatl. Naquele ano lançaram um single com a música “Tan solo lo Haemos”, no lado A e Autodestructión" no lado B. No ano seguinte foi concluída a gravação de um EP, em 1974, com essas duas músicas mais duas novas faixas chamadas “Tratando de Olvidar”, composta em colaboração com Omar Jasso, tecladista da banda Polvo e posteriormente do Náhuatl e “Después De La Tristeza”. Devido a algumas políticas equivocadas da gravadora “Discos Raff”, Medusa deixou o cast do selo em 1975 juntamente com outras bandas em ascensão como Ciruela e Three Souls, adiando a gravação de um álbum, embora as gravações estivessem finalizadas.

Em 1977 a banda assinou contrato com a Orfeón para gravar o álbum. Será que dessa vez o sonho da Medusa se realizaria? Não ainda! O projeto fracassou novamente porque os executivos da gravadora queriam modificar substancialmente a essência de sua música, bem como de suas letras, porque consideravam pesadas, de cunho agressivo e pouco “comercial”. A Medusa, claro, não cedeu a esse assédio e, mais uma vez, a gravação do tão sonhado álbum não aconteceu e a gravadora deixou a banda na “geladeira”, congelando o contrato com a Medusa até o fim da gravadora depois. No entanto as músicas foram registradas na editora “Orfeón House” que até hoje detém os direitos das faixas.

“Medusa” entrega um volumoso e potente hard rock que pode, perfeitamente, ser considerado como um dos primórdios do hoje tão famoso e diria, saturado, stoner rock, com peso, guitarras lisérgicas, toques discretos de psicodelia e até mesmo um proto metal de muita qualidade e de fazer frente a muita banda oitentista da cena “New Wave of British Heavy Metal”.

O álbum começa com a faixa “Autodestruccion” que de imediato já traz aquele riff de guitarra sujo, arrastado, lembrando um indefectível doom metal, mas logo depois descamba para um proto metal, já com aquela também típica velocidade que notabilizou o estilo, com vocal gritado e alto. Segue com “Caminando Rumbo al Cementerio” introduz com riffs mais tipicamente setentista, ao estilo Sabbath, com uma pegada mais soturna, obscura e uma seção rítmica que corrobora tal condição. Vai ficando mais pesado, veloz, cadenciado e assim alterna. Nessa faixa a Medusa produz algo mais complexo em sua sonoridade.

"Autodestruccion" (Live)

“Crepusculo” começa introspectiva, mas logo entra o peso e a agressividade da bateria seguido por um baixo pulsante e intenso e solos lisérgicos de guitarra, mostrando um hard rock com pegadas psych que hoje conhecemos por stoner rock. Sim! Mais um atributo da Medusa mostrando sua referência sonora. “Despues de la Tristeza” começa flamejante com solos altos e poderosos de guitarra personificando o lado efetivo do hard rock típico setentista com um trabalho impecável, mais uma vez, da “cozinha” ditando o ritmo. Parece ser uma faixa ao vivo.

"Después de la Tristeza"

“Genes de Maldad”, que também parece ser ao vivo, traz, mais uma vez, o destaque na guitarra. Riffs de guitarra de um embrionário heavy metal faz dessa faixa, logo no início, vibrante, confirmando com bateria potente e rasgada, baixo pulsante e uma velocidade que entrega o “tempero” necessário aos apreciadores do heavy metal oitentista, por exemplo. Solos de tirar o fôlego confirmam o peso e traz ainda mais energia à faixa. “La Sombra de Nietzsche” dá mais uma contundente prova de que o proto metal pautou a música da Medusa em seu seminal álbum. A guitarra potente em seus riffs abre a faixa, trazendo à tona de um thrast metal envolto por notas de teclado que te remete a viagens mais contemplativas. É possível? Parece que com a Medusa sim! Heavy rock, proto thrash, prog rock. Essa faixa instrumental é um arrasa quarteirão!

"La Sombra de Nieztche"

“Medita Sinceridad” já começa com o pé na porta! Bateria marcada e pesada, riffs pegajosos e poderosos de guitarra, vocal rasgado e alto. O hard rock ganha força nessa faixa. Cadencia para uma pegada meio jazzy na bateria que logo irrompe em um solo avassalador de guitarra. “Momentos en la Vida” retorna ao som arrastado e pesado capitaneado pela guitarra em uma textura ao estilo doom metal. Sonoridade introspectiva e soturna faz é o tema central da melodia dessa música.

“Noche” começa a um delicado som de pássaros cantando e teclado meio sinfônico. Talvez um prenúncio de uma música progressiva, afinal a faixa conta com nada menos do que longos doze minutos de duração. Mas não necessariamente. O estrondo pesado do hard rock se manifesta com bateria pesada, baixo pulsante e guitarras lisérgicas. Mas o progressivo, com a sua maior característica, se revela, com várias mudanças de andamento, de ritmo, são perceptíveis na música. A textura do teclado traz uma pegada mais leve que característica a veia progressiva da música.

"Noche"

Segue com “Rompesuenos” que traz um “duelo” entre teclados e guitarra, que promove uma interação interessante entre peso e suavidade. Uma música mais diversificada. “Tan Solo lo Hagamos” volta ao proto doom pesado e arrastado. Baixo pesado, pulsante, bateria marcada, riffs sujos de guitarra. O típico peso do proto doom metal. E fecha com “Tratando de Olvidar” começa lenta, ao som de violões dedilhados acusticamente. A guitarra aos poucos aparece, a sonoridade ganha corpo, a balada rock se configura, mas o som continua acessível aos ouvidos.

"Tan Solo lo Hagamos"

Desde 1972, quando surgiu para a cena rock n’ roll mexicana, a Medusa dividiu o palco com a maioria das grandes bandas mexicanas que fizeram sucesso à época, que tinham destaque, com exceção em um período de grande hiato, de inatividade da banda que aconteceu entre 1984 e 1994, sendo que dois anos antes, em 1982, a Medusa deixou de ser um “power trio” tendo a entrada de Jaime Garcia, que tocava guitarra e teclado. Era uma nítida demonstração de que a Medusa queria modificar um pouco a sua sonoridade, o que culminou com o seu sumiço, em 1984. A banda estava desgastada.

Mas esse período, entre 1972 e 1984, a banda foi tocada nas rádios, fez várias apresentações em pequenos e grandes palcos, naqueles mais conhecidos aos mais simplórios, tocou em programas de TV mexicanas como “El Rock en la Cultura” e “La Hora Cero”, pelo famoso canal Televisa, além de inúmeras entrevistas para rádios e revistas especializadas como Pop, México Canta, Notitas Musicales, Dimensíon, Conecte, Banda Rockera e jornais como Excélsior, el Heraldo, el Universal e até el Alarma.

Medusa com Armando Nava e a banda Enigma (1977)

Em 1994 a Medusa finalmente se reúne novamente, a formação original, o velho “power trio’ estava na ativa novamente! Jaime Garcia não estava disponível para essa reunião até 1996, ano este que decidiu também retornar à banda, fazendo dela um quarteto. Mas aquele assédio que a Medusa tinha nos primórdios já não era o mesmo e a banda passou fazer shows de forma esporádica em alguns locais como Andy Bridges de Naucalpan, La librería El Sótano de Coyoacán, La Plaza central de Coyoacán, El Monumento a la Revolución, La Alameda Central y Masivos en Tlalnepantla, Valle de Chalco entre outros locais.

Mas faltava gravar, de forma oficial, seu primeiro álbum, o tão sonhado primeiro álbum que há décadas estava hibernando. E a gravadora não surgia, o contrato não surgia de jeito nenhum. Então decidiram refugiar-se no estúdio britânico de Jaime Garcia onde gravou algumas demos entre 1998 e 2000.

Victor Moreno e Frankie Bareno (2000)

Depois disso a Medusa continuou se apresentando, de forma esparsa. Mas tiveram bons momentos como a gravação de mais algumas músicas no estúdio de Carlos “Bozzo” Vásquez. E isso reacendeu a chama da banda. Bozzo também os ajudou a se apresentar nos programas de televisão mexicana, o que não faziam também um bom tempo. Se apresentaram no “Mi Vida es um Rock and Roll” que foi transmitida pelo canal 4 da Televisa, em 2006.

Infelizmente a Medusa teve uma baixa em sua formação. Antonio Urquiza sairia da banda e fez com que ela se tornasse um trio novamente, embora um de seus fundadores tenha saído da banda. Os problemas pareciam não cessar! Então a Medusa teria Victor Moreno na bateria, Javier Plascencia no baixo e Jaime Garcia na guitarra e continuaram a fazer alguns shows.

Medusa em 2008

A ideia era lançar o que tinham produzido nos estúdios de Jaime e as demos que gravou nos estúdios de Bozzo, mas não deu certo. Tudo indica, reza a lenda, que Bozzo era um golpista e permitia que as bandas gravassem em seus estúdios e depois virava as costas para a maioria delas e a Medusa não teria sido diferente, não concretizando o sonho dos experientes músicos de lançar oficialmente um álbum. Diante desse difícil cenário, em junho de 2015, a Medusa fez seu último show saindo definitivamente da cena rock mexicana.

Em 2018 foi lançado o CD, por uma gravadora não identificada ou de forma irregular (pirata) o álbum da Medusa, com as músicas do EP, de 1974, e das músicas gravadas quando a banda retornou às atividades nos estúdios de Jaime e de Bozzo Vásquez. Não se tem informações de tiragens ou quem esteve à frente deste lançamento. No CD não consta o nome do selo, mas há apenas a informação de que a tiragem teria sido limitada. Provavelmente se trata de um lançamento pirata.

Alguns dos membros da Medusa se dedicaram a outros projetos. Jaime Garcia se envolveu com o rock progressivo, tocando com bandas como “El Retorno de los Brujos”, Victor Moreno tocou guitarra em colaborações com diversos músicos como o próprio Bozzo Vásquez, Miguel “El Gallo” Esparza (Dug Dug’s) e Miguel Morales (Tinta Blanca). Já Javier Plascencia dedicou-se a composição de músicos e montou seu próprio estúdio de gravação.

As agruras, os obstáculos, as dificuldades, as inexperiências e a difícil capacidade da convivência fizeram do futuro comercial da Medusa bem aquém do que se esperava, mas, ainda assim, deixaram uma marca indelével na história, não apenas do rock mexicana, mas de toda a América Latina, das Américas, servindo de referência para a música pesada dos anos 1970 e até hoje para aqueles jovens músicos que desejam enveredar para esse caminho. A Medusa pavimentou um caminho para que hoje muitas bandas construíssem uma sonoridade que até hoje segue forte, mesmo sem apoio.




A banda:

Victor Moreno na bateria

Javier Plascencia Amoróz nos vocais e baixo

Luis Antonio Urquiza Zanella na guitarra

 

E mais tarde:

Jaime Garcia na guitarra e sintetizador


 

Faixas:

1 – Autodestruccíon

2 – Caminando Rumbo al Cementerio

3 – Crepusculo

4 – Despues de la Tristeza

5 – Genes de Maldad

6 – La Sombra de Nietzsche

7 – Medita Sinceridad

8 – Momentos em la Vida

9 – Noche

10 – Rompesuenos

11 – Tan Solo lo Hagamos

12 – Tratando de Olvidar


Download do álbum aqui!


"Medusa" (1973 - 2018)






 















 







sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Baumstam - On Tour (1975)

 

Costumamos atribuir ao krautrock como a cena rock mais emblemática da Alemanha. E essa informação se confirma dado o seu pioneirismo, a sua importância, a sua representatividade não só para o aspecto musical, mas para a contracultura germânica que ainda recolhia seus cacos da Segunda Grande Guerra Mundial.

O Kraut, embora tenha sido um nome pejorativo dado pela imprensa britânica trouxe bandas do naipe de Can, Kraftwerk, Tangerine Dream, Amon Duul II, entre tantas outras que tingiram a cena de um experimentalismo como nenhuma outra o fez, com uma simplicidade minimalista que trazia à tona uma complexidade de interpretação a sons, ruídos, entre outras viagens lisérgicas e ácidas que podemos comparar a versão alemã da psicodelia que estava em voga no mundo na segunda metade dos anos 1960.

O Krautrock teve seu ápice entre os anos de 1967 e 1972, aproximadamente, onde os grandes álbuns do estilo se eternizaram, mas muitas bandas trafegaram no ostracismo, na obscuridade flertando com outras sonoridades que ia do jazz rock, que também traziam doses cavalares de jam section, com muitas experimentações a versões do rock mais pesadas, inclusive e que não tiveram tanto acesso aos tocadores de som dos aficionados pelo rock germânico.

Claro que essas bandas, como disse, caíram no mais profundo esquecimento ou pelo menos grande parte delas e sem sombra de dúvida trouxeram músicas significativas para a história, para os primórdios do rock alemão e podemos, de imediato, citar bandas como Birth Control, por exemplo, que até hoje, com mais de cinquenta anos de estrada, grava material inédito para o mundo testemunhar que o kraut não se resume a experimentalismos e viagens lisérgicas e ácidas.

Temos o jazz rock, temos o hard rock que surgiram, mais ou menos, nesse mesmo período em que o kraut reinou na Alemanha e que corrobora a diversidade sonora que brotou neste país na transição dos anos 1960 para os anos 1970. E a banda que eu falarei hoje surgiu um pouco depois dessa fase mais prolífica do kraut e seu minimalismo, mas trouxe consigo a pedra fundamental da música pesada na Alemanha. Falo do BAUMSTAM.

Baumstam

Certamente você, meu bom amigo leitor, nunca tenha ouvido falar dessa banda em sua vida ou conheça, porém nunca tenha visto ou ouvido, em uma conversa de amigos apreciadores do rock setentista, o nome dessa banda em algum momento. É claro! A banda é pouco conhecida e tida pelos especialistas como muito rara. Sendo ou não rara, o fato é que o Baumstam não figura entre os grandes do rock alemão dos anos 1960 ou 1970, mas tem uma relevância inominável quando se fala de pioneirismo do hard rock germânico. Como pode? Parece estranho, mas sim, ela foi importante.

E como prova irrefutável apresento o seu debut, o avassalador “On Tour”, lançado no longínquo ano de 1975, alvo de discussão no meu texto de hoje. Mas antes tentarei falar um pouco da história da banda, mas, por questões óbvias, será um tanto quanto difícil, pois a banda não gozava de tanta popularidade e infelizmente na grande rede poucas são as referências sobre ela, mas tentaremos trazer um pouco de suas raízes.

A história do Baumstam começa aqui com uma conhecida letra de Herbert Grönemeyer, que diz:

“...Nas profundezas do oeste, onde o sol está se pondo.”

Nas profundezas do oeste da Alemanha fica a região do Ruhr. E nas agitações dos fornos das minas, nas torres sinuosas das fábricas e pequenos assentamentos de trabalhadores entre Bochum e Dortmund fica a cidade de Witten, onde a banda foi formada lá pelo ano de 1972.

Como disse o início dos anos 1970 tínhamos uma hecatombe de bandas de krautrock, com sonoridades calcadas no órgão, ruídos eletrônicos e, por vezes, guitarras lisérgicas e pesadas e assim também aconteceu em Witten. E por lá os ex-amigos de escola Ulrich Klawitter e Michael Lobbe nas guitarras, Gerd Stracke na bateria e Michael Willecke no baixo fundaram uma banda, o Baumstam, com apenas um “M” no final.

Logo quando o Baumstam foi formado começou a tocar em casas de shows razoavelmente grandes e em shows ao ar livre e a fazer também turnês conjuntas com bandas como Franz K. e Faithful Breath. Sua sonoridade era pesada, rústica, garageira tendo a guitarra dupla, a guitarra fuzz como o cerne dessa sonoridade que à época não era comum, não era cotidiano e que causou entusiasmo entre os fãs nos shows, por isso que logo na sua formação recebeu muitas ofertas de shows importantes e grandes, se tornando inovador para a história do hard rock alemão, diria para o rock e todas as suas vertentes naquele país.

Mas como acontece com a esmagadora maioria das bandas o Baumstam teve baixas, teve saídas de integrantes e o primeiro a abandonar o barco foi Michael Willecke que deixou a banda em 1974, sendo substituído por Volker Wobbe, no baixo. A bateria foi assumida pelo Gerhard (Gerd) Meyer von Stracke.

Depois de algum tempo de formada, cerca de três anos finalmente a hora do Baumstam de lançar oficialmente um álbum novo havia chegado e o anos era 1975. A banda se reuniria Knöterich Studio de Lothar Simmsheuser em Witten-Annen e as nove faixas para o LP foram gravadas, pasmem, em apenas um final de semana, afinal, os jovens músicos não tinham grana para alugar, por um longo tempo, um estúdio. Um pedal de distorção “Schaller” e uma velha guitarra “Framus Deluxe”, o som da banda estava pronto.

Eu não sou um profundo conhecedor dos instrumentos musicais, da sua parte técnica, mas, optei por colocar essa informação no meu texto, após as minhas pesquisas, na web, sobre a banda, para enfatizar a essência da sonoridade do Baumstam e a importância que esta teve para a história do rock alemão nos anos 1970.

O álbum, que se chamaria “On Tour”, foi distribuído em seu próprio selo BMF, como o número de catálogo BS 6232 855. Atualmente um vinil original de “On Tour” pode ser disputado a tapas por colecionadores de raridades e pode chegar a um valor na bagatela de mais 600 euros! Sim, prezados leitores, um álbum de caráter cult e que hoje é uma verdadeira pérola, um ouro raro e caro para se adquirir.

“On Tour” centraliza sua performance nas suas notas de guitarras distorcidas, com um toque áspero, sujo, garageiro, com um som nem um pouco polido e que pode agredir aos ouvidos que preza por um som mais limpo e sofisticado. Para muitos poderia ser considerado como um álbum psicodélico e pessoalmente não discordo, mas o psych, com guitarras lisérgicas, é um tempero ao som pesado calcado no velho hard rock e que poderia, ainda, remeter ao som mais atual que é o stoner rock. Guitarras distorcidas, sujas, ásperas, sem dúvidas traz à mente o stoner, o doom metal tão em voga nos dias de hoje. O Baumstam definitivamente foi singular no seu tempo, estando muito a frente dele. O som curto era bem estruturado, fazendo das faixas de “On Tour” extremamente atraente. Então vamos a elas?

O álbum é inaugurado com a faixa título, “On Tour” que já entrega a guitarra distorcida e lisérgica, cheia de peso e groove. Sim, ela tem um groove forte e torna-se inevitável que faça com que você balance a cabeça freneticamente. A interação entre as duas guitarras é incrível, significativa. O vocal, rouco e áspero, se encaixa perfeitamente com o som. Essa é a porta de entrada para o “mundo” de “On Tour” e o Baumstam.

"On Tour"

Segue com “Lucky Strike” que, se passasse despercebido, poderia ser considerada como uma sequência se não fosse pela parte do verso mais silencioso. Mas a sonoridade, de alguma forma, se mantém na proposta da faixa anterior, com o peso das guitarras duplas, com solos sujos e pesados, um baixo mais pulsante e uma bateria, igualmente pesada, porém marcada.

"Lucky Strike"

“Hold Me” foge um pouco à regra das faixas iniciais e começa de forma mais acústica e até calma. Ela é tocada em um ritmo mais lento e apenas na parte do meio surge a guitarra mais distorcida e rápida, dando-lhe um pouco mais de peso. A faixa traz ainda uma “pitada” mais de blues, mais dramática a música. Até o vocal fica um tanto quanto melódico.

"Hold Me"

A próxima faixa é “Jazz Break” e tem relativamente pouco a ver com jazz. Começa com uma pegada meio groove, mas aumenta o tom no seu decorrer para um típico krautrock, baseado em uma guitarra solo distorcida e pesada, calcada em tonalidades psicodélicas.

"Jazz Break"

Semelhante à faixa título, a próxima música, “Dusty Road”, atravessa os canais auditivos e faz também as cabeças tremerem freneticamente por todo o tempo. É pesada, é intensa, é rústica, é poderosa. A faixa ao vivo “Girl I Want To Stay Into Your Fire” segue a sua jornada na sua crueza sem filtros, pesada, intensa, sem cortes, cheia de groove e guitarras fuzz e lisérgicas.

"Dusty Roads" (Live)

“Last Letter” tem o violão que toca os acordes rítmicos e a guitarra elétrica que vibra no topo com o vocal principal que soa melancólico. Uma mudança até bem-vinda em relação às faixas que predomina com o peso e a aspereza.

"Last Letter"

Mas tudo volta a ficar mais rápido com “Fifteen Years Old Mary”, onde o “fuzz” age novamente e de forma impiedosa, a guitarra dupla, cheia de distorção, ganha vida novamente nessa faixa. Percebe-se, ouso dizer, que essa faixa se adequaria a um heavy metal de vanguarda, um proto metal respeitável. A banda mostra o seu pioneirismo nessa faixa.

"Fifteen Years Old Mary"

E “On Tour” finalmente é fechado com a faixa “He's A Liar” e traz algo atípico, até então, para o álbum, uma pegada mais progressiva, mas sem deixar de lado o seu peso, os riffs de guitarra sujos e despretensiosos. Mas aqui você ouve um Baumstam mais sofisticado, mais arrojado, mas ainda assim, hard e poderoso.

Após o lançamento de “On Tour” o Baumstam não teve falta de oportunidades de se apresentar. Muitas ofertas de shows surgiram e a banda continua a fazer shows em casas importantes. A bela produção do LP fez com que as grandes gravadoras mantivessem seus radares ligados para gravar a banda e divulgar “On Tour” com uma turnê maior, com mais estrutura que a banda merecia. Mas

Mas os músicos não conseguiram chegar a um acordo sobre um contrato de gravação oferecido pela Deutsche Grammophon, motivando a separação do Baumstam em 1977 e o capítulo da história inicial da banda se fecharia de forma precoce, porém não em definitivo. Para Ulrich Klawitter e Gerd Stracke, no entanto, a música não havia acabado naquela época, eles continuaram a tocar, independentemente um do outro, nas bandas de Witten, tocando localmente.

E o reencontro do Baumstam se deu graças ao relançamento de “On Tour”, em 2004, pelo selo “Amber Soundroom”. Os velhos amigos de banda se reencontrariam e juntos redescobriram que poderiam tocar novamente. Grande parte da velha magia que os moviam no passado ainda estava viva, flamejando e que necessitava ser reacendida por música.

E eles não se resumiram a apenas divulgar o relançamento de seu debut e gravaram o segundo álbum de inéditas com o sugestivo nome de “Dreams of Yesterday”, em 2005. A formação de Baumstam, para este álbum, trazia Klawitter, Strake e Volker Wobbe. Para Michael Lobbe, o filho de Ulli, Adrian "Adi" Klawitter na guitarra e teclados, e Anna Weigand nos vocais e flauta se juntaram à banda. Como 30 anos antes, o engenheiro de gravação e proprietário do estúdio do Fanton Studios envolvido era o conhecido Lothar Simmsheuser.


"Dreams of Yesterday" (2004)

O até então novo álbum, do próprio selo Schöne Töne, traz a marca registrada do Baumstam e com esse trabalho surgiram shows por toda a Alemanha e até a França. Anna deixaria o Baumstam em 2006, mas mesmo com essa baixa, a banda ganharia e muito com a adição de Adi Klawitter que renovou o som da banda trazendo novas influências, de modo que a próxima gravação já estaria prevista para 2007.

“Moment”, terceiro álbum do Baumstam, ganharia luz em 2007 e novamente dois anos depois um álbum ao vivo seria adicionado a sua discografia, oriunda da turnê de nome “Dusty Roads”, gravada em junho de 2009 no WerkStadt em Witten e lançada sob o mesmo nome de Moment e Dreams of Yesterday pelo selo Schöne Töne. A propósito clique aqui para ver algumas fotos da turnê do Baumstam no ano de 2008.

"Moment" (2007)

Em 2012, o aniversário de quarenta anos da banda, precisava contar, em tom de comemoração, com um novo trabalho de estúdio para homenagear o aniversário, mas as baixas aconteceriam. Volker Wobbe foi substituído por Jens Gubert no baixo e Rex Dehnhardt se juntou a Baumstam nos teclados. O trabalho de aniversário foi intitulado com a equação 72 – 12 = 40. O significado por trás disso é simplesmente ... 1972 a 2012 = 40 anos de Baumstam.

O trabalho foi lançado pelo selo Green Tree, que já havia sido relançado várias vezes na turnê, e contém onze novas músicas. A turnê do 40º aniversário levou Baumstam por várias cidades da Alemanha. Era o Baumstam no seu melhor lugar, no palco, tocando magistralmente ao vivo.

No início de 2014, Gerd Stracke deixou a banda, de modo que outra mudança de formação foi necessária. Adi Klawitter agora assumiu a bateria e Baumstam continuou como um quarteto desde então. As mudanças na sua formação foram uma constante desde os seus primórdios, mas sempre tiveram a capacidade de manter intacta a sua sonoridade, mantendo-se extremamente fiel e consolidada.

“On Tour” tiveram relançamentos antes de 2004 que motivou a reunião de seus músicos. E isso foi ainda nos anos 1990, com a primeira, no formato CD, em 1990 e em 1994 pela CRC Records. Tais relançamentos, sobretudo as do formato em vinil, em LP, foram em tiragens bem limitadas fomentando o quesito de raridade desse trabalho, sendo essas cópias atingindo os três dígitos de tão caro, mas disputado a tapas pelos colecionadores de vinis.

A banda sempre esteve à margem da popularidade, trafegou nos submundos do rock, esteve longe do glamour e mesmo citada em alguns períodos de rock como uma referência para a música pesada na Alemanha, é pouco lembrada pelos fãs. Mas até os dias de hoje as músicas de “On Tour” ainda são tocadas em algumas rádios dos Estados Unidos, claro, de música underground e é tida, com alguma razão, como um dos pilares do stoner rock, da música pesada alemã.





A banda:

Ulrich Klawitter na guitarra solo, vocais

Michael Lobbe na guitarra acústica, 2ª guitarra elétrica

Volker Wobbe no baixo

Gerhardt Meyer na bateria, percussão

 

Faixas:

1 - On Tour

2 - Lucky Strike

3 - Hold Me

4 - Jazz Break

5 - Dusty Roads

6 - Girl I Want To Stay Into Your Fire

7 - Last Letter

8 - Fifteen Years Old Mary

9 - He's A Liar



"On Tour - Versão original" (1975)


"On Tour - Versão estendida" (1975)



 


 












 








 






 


 




quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Moses - Changes (1971)

 

Ecos de um longínquo passado, tão distante que parece soar primitivo em determinadas sonoridades. Datado? Talvez! Fora de moda! Moda vem e vai, modismos transparecem para mim algo tão vazio e frívolo que sequer possa interessar aos que gozam de mínima personalidade.

Mas parece a fusão do blues e o rock foi um processo de extrema revolução nos idos de 1967, 1968, com a profusão de bandas que aliou criador e criatura em um caldeirão fervilhante, intenso e de uma plenitude sonora bem interessante. O Cream, juntamente com Jimi Hendrix, trouxe a potência do rock e a melancolia sombria do blues, eletrificando, tornando pesado uma vertente que traria outras tantas e tantas bandas seminais fazendo jus aos criadores.

O que dizer de Led Zeppelin ou ainda do underground Blue Cheer ou de John Kay com seu Steppenwolf? Referências que se confundiram com o blues rock, mesclados ainda ao hard e o psych que também estavam pairando pela cena rock na transição dos anos 1960 e 1970.

As bandas seminais e famosas ganharam o mundo, levaram seu nome para o mais alto patamar e excelência do bom e velho rock n’ roll e estão no rol dos clássicos indiscutíveis. Mas e as bandas obscuras? Não podemos discuti-las? Não podemos coloca-las no mesmo patamar de importância?

Bem esse blog que você, estimado leitor, está navegando, traz as bandas obscuras, raras e undergrounds a um nível de protagonismo, mesmo no ápice de seus fracassos comerciais e, aproveitando o ensejo da cena blues rock, que muito me cativa, gostaria de trazer uma banda, surgida na fria Dinamarca, que entrega uma sonoridade quente e diversificada e se chama MOSES.

Moses

Quando busquei referências de pesquisa para construir esse texto que você, bom amigo leitor, está lendo, li alguns comentários do tipo: “Nossa, é um álbum fraco”! “Um álbum básico demais”! “Uma cópia barata do Ten Years After”! Evidente que não quero entrar no mérito das opiniões, afinal, são pessoais e precisam ser respeitadas, mas o “básico”, penso, não pode ser assimilado a algo ruim. Muito pelo contrário, é a essência do rock, a gênese de um estilo.

Quando ouvi, pela primeira vez, o primeiro álbum do Moses, “Changes”, de 1971, foi tão arrebatador que me fez, com o perdão das famigeradas comparações, lembrar as estreias de bandas do naipe de Black Sabbath e Blue Cheer, por exemplo. Uma sonoridade tão primitiva e básica, calcada no peso, em um blues rock elétrico, distorcido e agressivo. A trinca guitarra, baixo e bateria traz uma pegada, além da já comentada, pegada pesada, traz um despojado, algo tão despretensioso, que beira até a inocência de seus músicos, sem contar que o vocal lembra de um bebedor inveterado.

Se para muitos isso possa trazer a noção de amadorismo, para esse que vos escreve é o charme de todo o conteúdo, seja ele intencional ou não. “Changes” é fantástico por isso! Guitarras wah-wah cheia de distorções e lisergia, hard rock, aquele blues eletrificado, tantos atrativos mesmo para um álbum tão básico. É louco, não acha? Ainda encara o básico como ruim? Sugiro rever os conceitos...

Mas antes de destrinchar o único rebento do Moses, “Changes”, vamos tentar falar um pouco dos primórdios da banda. Já digo, amigo leitor, de antemão que, por se tratar de uma banda obscura, pouco se sabe sobre, poucas foram as referências encontradas, mas as linhas desse texto precisam se fazer existir.

O Moses foi formado em uma cidade chamada Esbjerg, na Dinamarca. E o conceito de seu estilo vem muito do passado de dois de seus integrantes, são eles: Jørgen Villadsen e Søren Højbjerg, vocais e baixo e guitarrista, respectivamente, que tocaram em uma banda de blues chamada Fresh Boiled, em 1968. Na realidade essa banda seria o esboço do Moses. Henrik Laurvig, o baterista, tocou em diferentes e várias bandas locais e juntou-se a Jørgen e Søren quando a banda mudou seu nome para Moses, no início de 1969.

A partir daí o Moses excursionou sem parar durante o ano de 1969 e por toda a sua precoce existência e, em 1970, estava em contato com uma gravadora underground chamada Spectator Records. O selo estava muito interessando em gravá-los, contratá-los, mas precisava ver os shows dos caras para ter a certeza de que eram bons o suficiente ao vivo para ter o melhor resultado em estúdio e no verão daquele mesmo ano gravaram, por incríveis dois dias, “Changes” no Spectator Record Studio, em Ålborg, na Dinamarca, porém o álbum só foi lançado em 1971.

A responsabilidade da distribuição ficou a cargo da Spectator Records e teve uma reduzida tiragem, pasmem, de apenas 500 cópias, tornando-o hoje um produto muito valorizado nos sites de vendas de vinis, como acontece frequentemente com muitos desses tesouros obscuros e perdidos dos anos 1970. E como poucos teriam acesso a esse vinil por conta do alto valor, a sorte de nós, pobres mortais, é de que temos alguns canais no YouTube, abnegados, que difundem o álbum, bem como blogs e sites que trazem, além da sonoridade, a história de bandas como o Moses.

E como a banda durou meros três anos ou um pouco mais, ou seja, uma curta existência e trajetória, a formação que gravou “Changes” trazia, como já mencionados: Søren Højbjerg na guitarra, Jørgen Villadsen no vocal, baixo e Henrik Laurvig na bateria. E como também já comentado trazia um hard rock com generosas pitadas de blues e um tempero saboroso de acid rock, com muita lisergia. O peso, aliado ao despojado de sua sonoridade era o charme e fazia da música algo bastante característico, apesar de não trazer nada de revolucionário.

O álbum é inaugurado com a faixa título “Changes” e já escancara com um proto metal configurado em riffs potentes e pegajosos de guitarra com uma levada bluesy. O som é arrastado e pesado, mas traz uma pitada sombria, soturna, diria. Solos de guitarras lisérgicas, ácidas são ouvidas, o peso é corroborado pela “cozinha”, com baixo pulsante e bateria marcada. Mas logo volta ao estágio arrastado que iniciou a faixa. O vocal é um destaque à parte, bem despretensioso. Não hesitaria em dizer que essa faixa trafega entre o stoner e o doom.

"Changes"

A sequência tem “I’m Coming Home” que abre com um baixo dançante e com algum groove. A sonoridade me remete ao psych rock com as já perceptíveis pitadas de blues rock. Solos pesados de guitarra rasgam a faixa em um estrondo hard rock tipicamente setentista e logo retoma ao baixo dançante com pegada ácida. 

"I'm Coming Home"

“Everything is Changed” já começa rasgando com riffs arrogantes e agressivos de guitarra. Aqui o hard rock se faz vivo e pleno, mas as bases trazem o psych rock, a lisergia igualmente presente em toda a estrutura sônica do álbum. Os solos de guitarra aparecem e trazem a certeza do peso dessa faixa. A sessão rítmica também seu destaque e cadencia a camada hard da faixa.

"Everything is Changed"

Segue com “Beginning” que abre com um solo curto e direto de bateria, com algumas viradas interessantes e logo irrompe em riffs e solos desconcertantes de guitarra e um baixo muito pulsante e vivo. A destreza instrumental nesta faixa é escancaradamente vibrante e excitante! Um volumoso e potente hard rock que conta ainda, já para o final da música, com um poderoso e arrasador solo de bateria.

"Beginning"

“Skæv” segue na linha hard rock e é cantada em dinamarquês. Um hard rock arrastado, mesclado ao psych rock e um proto stoner invejável. Certamente uma das mais pesadas faixas do álbum, com um trabalho excelente de guitarra. E quando se junta a forma mais agressiva ainda da bateria, a música assume uma roupagem mais de proto metal. Incrível!

"Skaev"

E fecha com “Warning” traz à tona, mais uma vez, a competência rítmica da “cozinha” da banda. Batidas fortes da bateria, o baixo pulsante, solar e dançante dá lugar a riffs pesados de guitarra. O blues rock retorna e vem pesado e intenso. Os solos de guitarra, mais uma vez, ganham destaque, e vem com a já percebida vibe psicodélica, com a lisergia como pano de fundo. E desses “fragmentos” temos uma sessão instrumental apoteótica, repleta de viradas e momentos distintos.

"Warning"

O Moses não conseguiu êxito comercial após o lançamento de “Changes”, em 1971, mas seguiu fazendo shows, se apresentando, mas não conseguiu fazer sucesso e divulgar o seu trabalho. Não teve também a estrutura ideal para tal por parte do selo que também não gozava de capital para tal investimento. Em 1972 a banda se vê obrigada a finalizar as suas atividades.

Porém seus integrantes seguiram, direta ou indiretamente, no mercado da música. Søren Højbjerg ainda está trabalhando como diretor de sua própria organização dinamarquesa de reservas e shows, SHB Agency, em Esbjerg. O baterista Henrik Laurvig continuou em diferentes bandas, a mais famosa das quais foi Mani, com quem gravou o álbum “Kontiki”, pelo selo Genlyd Records, em 1985. Junto com sua carreira musical, ele trabalhou como gerente de vendas nas gravadoras CBS Records e Warner Music, ambas da sucursal da Dinamarca. Já o baixista e vocalista Jørgen Villadsen perdeu o contato com seus antigos companheiros de banda, e atualmente não se sabe sobre seu paradeiro atual.

Um som despojado, inocente, ruim, pouco apurado em termos de melodia, fraco, divertido, atraente por ser e por ter uma sonoridade suja e teoricamente mal produzida. Tantas são as percepções, mas com uma única certeza. É pesado e, no mais puro conceito de seu som, se faz diverso e cheio de possibilidades para os mais variados “paladares” de som que flerta com o blues rock, o hard rock, com o proto stoner e doom. Mesmo básico é diverso. O conceito de tempo parece ser tão irrelevante para o Moses e seu único trabalho que a discussão de ser ou não datado, torna-se pueril. “Changes” teve um relançamento, em 2010, no formato “CD” pelo selo “Shadocks Music”.


A banda:

Jørgen Villadsen: no baixo e vocal

Henrik Laurvig: na bateria

Søren Højbjerg: na guitarra

 

Faixas:

1 - Changes    

2 - I’m Coming Home

3 - Everything Is Changed    

4 - Beginning 

5 - Skæv         

6 - Warning



"Changes" (1971)