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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Electric Funeral - The Wild Performance (1970 - 1991/2019)

 

Uma pergunta parece ecoar na minha cabeça desde que esse reles, humilde e famigerado blog nasceu! E para variar, bons amigos leitores, a farei de novo, porque essa banda se adequa aos meus devaneios febris: Pode uma banda obscura, rara, que se não lançou álbum de forma oficial em sua época, ser considerada pioneira ou uma das precursoras da música pesada?

Será que esse tipo de pergunta, que parece atormentar a minha vida, me acompanhar como a minha sombra, pode ser tida como importante para mudar a história do rock pesado, para a construção de um movimento, de uma cena?

A história! Essa palavra mágica que permeia a essência desse esquecido blog que faz questão de dissecar, com requintes de detalhes, as histórias esquecidas do rock n’ roll, das bandas marginais, marginalizadas, que caíram no mais profundo ostracismo por uma série de situações que levaríamos uma vida e centenas de páginas para contar.

Mas comecemos por essa banda que descobri recentemente e que me cativou, confesso, pelo nome que, quando revelar, vocês entenderão! Uma banda da Suíça que não conseguiu, lá pelos anos 1970, não conseguiu lançar nenhum trabalho oficialmente e que pereceu de forma precoce. Falo da ELECTRIC FUNERAL.

Conseguiu associar a clássica música do gigante inglês do heavy rock, o Black Sabbath, saída de seu segundo e icônico álbum, “Paranoid”, de 1970? Pois é, essa banda suíça traz em seu nome, a música do Sabbath e torna-se inevitável a pergunta, aquelas que ecoam nos confins da nossa cabeça e mente: Qual “Electric Funeral” veio primeiro: o da banda rara e obscura da Suíça ou a do Sabbath?

Bem eu não consigo cruzar as datas, mas o fato é que o álbum, embora não tenha sido lançado no período em que as suas músicas foram concebidas, foram gravadas no mesmo ano em que o Black Sabbath lançou seu debut e “Paranoid”, ou seja, em 1970.

Diante desse cenário podemos dizer que Electric Funeral e Black Sabbath que são bandas contemporâneas e que, de certa forma, são as pedras fundamentais do estilo! Será? Não quero cair nessa discussão difícil de pioneirismo, mas o fato é que não podemos negligenciar a importância do Electric Funeral para a música pesada, pelo menos na Suíça. Mas aqui, com o devido respeito, não há espaço para o gigante Sabbath, mas para as “fracassadas” bandas obscuras. Então vamos de Electric Funeral!

“The Wild Performance”, nome dado a essas músicas oriundas de fitas privadas de apresentações ao vivo e ensaios, como disse, gravadas em 1970, com exceção de uma música, chamada “My Destiny”, gravada em 1973, foram lançadas, pela primeira vez, em 1991, pelo selo Vandisk, como um LP muito limitado, com tiragem, pasmem, de 200 cópias numeradas, porém hoje muito procurado e, sem dúvida, se estiver sendo vendido, deve estar a preços astronômicos, teve uma reedição expandida e caprichada com som remasterizado e quatro faixas bônus, retiradas de rolos e fitas encontrados nos arquivos do Electric Funeral.

A sonoridade de “The Wild Performance” é crua, sujo e pesado e o nome faz jus às músicas lançadas finalmente de forma oficial. O lançamento de 1991, como disse, não foi tão caprichado, mas também existe a precariedade pela qual tais faixas foram concebidas originalmente. Porém o relançamento de 2019, no formato CD e também LP, pelo selo Sommor (Guerssen), está um pouco melhor, porém, o “charme” da sujeira e da selvageria dessas músicas, ainda estão lá, intactas.

O Electric Funeral foi formado no final dos anos 1960, para algumas poucas fontes, a banda teria existido entre os anos de 1970 e 1973 e foi formado por Edi Hirt, na bateria, Pierrot Wermeille, no baixo, Alain Christinaz, na guitarra e Dominique Bourquin nos vocais. Poucas, como disse, são as informações da banda, mas reza a lenda de que o Electric Funeral era avassalador nos palcos, com apresentações poderosas e tocando alto, muito alto e que ainda tocavam atrás de pilhas gigantes de amplificadores Marshall. O som era tão pesado que nenhuma gravadora tradicional ofereceu um contrato a banda.

Electric Funeral

“The Wild Performance” é pesado demais para a sua época e não posso negligenciar a informação de que se não fosse pela falta de qualidade do som, da produção do som, poderia se extrair muito mais desse material, mas, por outro lado, é inegável, principalmente para este que vos escreve, que é um charme ouvir esse som cru, sujo e até mesmo brutal, esse hard rock áspero, com pitadas de psych e proto metal que lembra o belo Edgar Broughton Band em algumas partes. Definitivamente é para se ouvir esse som no ápice do volume! Então vamos falar de cada faixa!

O álbum começa com “People” com uma introdução de bateria pesada e riffs e solos de guitarra sujas, que te remete a um psych rock, com uma pegada hard rock aliado a uma lisergia. A faixa vai ganhando em velocidade e assume uma carcaça proto metal muito bem definida trazendo um vocal gritado. “War Funeral Song” me remete ao som sujo e arrastado do doom e que vai mudando o andamento, com dedilhados de guitarra ácida, mas logo vai ficando mais alto, agressivo, personificado por uma guitarra pesada, com bateria espancada e baixo frenético e pulsante. Mas depois volta a ficar arrastado! Diria ser um protótipo de metal progressivo!

"War Funeral Song"

“Black Pages” me traz a lembrança de um hard rock com pitadas de occult rock. Uma sonoridade sombria e aterrorizadora que descortina um Deep Purple em “In Rock” (Odeio comparações!), com baixo pesado e desafiador, bateria marcada e agressiva e riffs de guitarra abafados e de textura ácida! “Rock Ba Rock” também segue uma proposta mais arrastada, uma balada rock com solos de guitarra mais longos e até mesmo mais trabalhados, soando, em alguns momentos, mais sujo e cru, até mesmo selvagem.

"Black Pages"

“To Be One” tem grunhidos, tem gritos altos e um groove ótimo, riff de guitarra grudento e pesado e um baixo pulsante e arrastado. Lá pela metade da faixa ganha em velocidade, mais peso, o baixo é esmurrado, os riffs de guitarra ficam mais pesados e velozes. Espetacular! “We're Gonna Change The World” é o típico hard rock dos anos 1970, com uma pegada cadenciada que entrega riffs grudentos de guitarra, baixo potente e pulsante com solos de tirar o fôlego! Verdadeiramente traz uma energia contagiante.

"To be One"

“Fly Away” é o puro e genuíno heavy metal! Vocais gritados, aos berros, guitarras com riffs pesados e altos, bateria pesada ao extremo. A faixa, certamente uma das melhores, é veloz e agressiva e festiva! “My Destiny” segue a mesma pegada, com uma veia pesada e agressiva, solos e riffs de guitarra pesados e animados, pura energia, com um baixo cavalar lembrando uma banda famosa por aí...

"My Destiny"

“I Don't Know” começa com um riff de guitarra poderoso e vocal, mais uma vez, gritado, bateria com uma batida intensa e agressiva. Após os estridentes gritos do vocalista, o tom fica engraçado, algo pastelão, mas que mostra o tamanho do rock de garagem dessa e todas, na realidade, faixas desse álbum. “You Can Help” já traz algo um tanto quanto atípico para um álbum que, até então, trazia hard rock. Essa faixa tem traços visíveis de proto punk que lembra MC 5 e Stooges, certamente. E fecha com outra versão para “To Be One”, que se revela mais veloz e frenética.

"To be One (Alternative Version)"

Pega-se os amplificadores Marshall, aumenta o volume no máximo, no máximo que puder e aí está o Electric Funeral: sujo, potente, despretensioso! Um hard rock dos anos 1970 como deve ser! Essas músicas foram gravadas em um ou em uns shows ao vivo da banda. Não se tem informações do local ou dos locais, mas provavelmente na parte francófona da Suíça (Romandia). O Electric Funeral deve ser mencionado ao lado de seus contemporâneos de bandas pesadas da Suíça como Toad, Haze, After Shave e Pacific Sound. A versão remasterizada de “The Wild Performance”, lançada pelo selo Sommor Records, teve uma tiragem de 500 cópias.




A banda:

Edi Hirt, na bateria

Pierrot Wermeille, no baixo

Alain Christinaz, na guitarra

Dominique Bourquin nos vocais

 

Faixas:

1- People

2- War Funeral Song

3- Black Pages

4- Rock Ba Rock

5- To Be One

6- We're Gonna Change The World

7- Fly Away

8- My Destiny

9- I Don't Know

10- You Can Help

11- To Be One (Alternate Version)




"The Wild Performance (1970 - 1991/2019)












 


sábado, 5 de abril de 2025

Medusa - Medusa (1973 - 2018)

 

A cena rock do México era dominada pelo produto inglês e norte americano. Embora o rock, em língua espanhola tenha começado em 1957, as gravadoras, demasiadamente “globalizadas”, faziam capas de álbuns de bandas sem considerar a importância das composições originais que foram feitas desde então. Eram os covers e as músicas “internacionalizadas” que tinham potencial de mercado. A música era segundo ou terceiro plano.

Nos anos 1970, a cena rock mexicana começou, mesmo que timidamente, a ganhar contornos próprios, quando começaram a gravar suas composições próprias, suas músicas autorais, porém em inglês. Ficou conhecido como a “Onda Chicana”, porque as pessoas, conhecidas como “Chicanos” são descentes de americanos, mas de pais mexicanos.

E nesse caldeirão cultural e musical o rock mexicano foi sendo construído nos anos 1970 e foi se tornando popular e mesmo com as bandas compondo em inglês, elas se tornaram famosas e, então, a infraestrutura como programas de TV, mídia impressa e falada começaram a se desenvolver, e as bandas passaram a fazer turnês melhores e mais extensas e até mesmo no cinema, as bandas e a música começou a figurar em curto espaço de tempo.

E esse cenário foi propiciando o surgimento de festivais, muito inspirado também em icônicos eventos de músicas clássicos, tais como o Woodstock, Isle of Wight Festival, na Inglaterra, Festival Pop de Monterey, nos Estados Unidos e alguns menos conhecidos, como Varadero '70, em Cuba, Festival de Ancón na Colômbia, Festival Buenos Aires Rock, na Argentina entre outros.

Todos tinham, como base cultural e comportamental, o movimento hippie, estudantil, de jovens cansados do status quo e da onda pesada do conservadorismo que permeava em todos os setores da sociedade. O México, no que tange aos festivais, não ficou de fora e um, em especial, foi único na história não só daquele país, como de toda a América Latina, conhecido como Rock y Ruedas de Avándaro.

O festival ocorreu nos dias 11 e 12 de setembro de 1971, nas margens do Lago Avándaro, perto do Valle de Bravo e surgiu em um contexto político extremamente conservador, ditatorial e repressor e a oposição estudantil e juvenil, como em várias partes da América Latina e do mundo eram a oposição a esse governo, usando tais festivais de música como a força motriz para lutar contra esse regime opressor. Esse ativismo político dos jovens, ligado à música, ao rock n’ roll, como ponte de transgressão, queriam democracia, liberdade política e respeito a diversidade, direito dos trabalhadores e acesso a saúde e educação, entre outros pleitos.

E nesse contexto de opressão, de intolerância de todas as formas, a música rock mexicana e os seus músicos foram construídas. E um jovem foi, de certa forma, impactado por esses movimentos e, diria, foi parte integrante, um agente importante desse movimento. Falo do Victor Moreno, baterista e um dos fundadores de uma das bandas mais emblemáticas da cena hard rock do México: MEDUSA.

Medusa

Aos 17 de idade Moreno foi roadie do El Ritual, tida como uma das melhores bandas de rock do México (A resenha sobre seu único álbum pode ser lida aqui!) e, com essa brutal experiência, ele foi nomeado como gerente de palco do Festival Avándaro. Não precisamos dizer o quão gratificante deve ter sido para o Victor Moreno esse momento, vivendo, na pele, toda essa efervescência cultural que certamente serviu como arcabouço musical.

A Medusa surgiu neste contexto e foi um projeto, iniciado por Moreno e seu amigo Javier Plascencia, que era vocalista e baixista. Eles se conheceram na escola em 1968, em plenos ano estudantil com o embate ideológico com o governo opressor. Eles faziam parte, inclusive, do movimento estudantil do México que resultou no massacre de Tlatelolco que deixou muitas mortes e prisões de jovens estudantes. E diante desse cenário começaram a escrever músicas quando começaram a tocar em 1972.

A banda surgiu em meados de 1972 com a ideia de apresentar um heavy rock original e visceral ao estilo Blue Cheer, Cactus, Black Sabbath e outras bandas similares que serviram de referência para o estilo na transição dos anos 1960 para os anos 1970. Mas apesar de ser influenciada por essas bandas a Medusa trouxe originalidade ao heavy rock mexicano.

Os membros originais, além dos amigos Victor Moreno na bateria e Javier Plascencia Amoróz nos vocais e baixo respectivamente, trazia Luis Antonio Urguiza Zanella, na guitarra e mais tarde entraria, em 1982, Jaime García se juntou à banda, tocando guitarra e sintetizador. Devido a amizade de Moreno e Plascencia nos primórdios de suas carreiras, tiveram primeiro com Armando Nava e os Dug Dug’s e depois com bandas como Peace & Love, El Ritual, Náhuatl e Super Mama, entre outras bandas de Tijuana, pensou-se que Medusa também era dessa região prolífica do rock n’ roll mexicano, mas não, a banda não era, apesar também do estilo sonoro da banda e do apelo estético também.

A cena rock mexicana, apesar dos entraves políticos, foi bem recebida e, claro, Medusa estava no rol das bandas que tocaram nas rádios e isso fazia com que o som da banda, claro, ganhasse visibilidade e alguma credibilidade, até porque a sua sonoridade áspera e pesada, poucos faziam naquela época. A banda sempre cantou em espanhol, nunca fez música em inglês para atingir o mercado externo, nunca tocou covers também, apenas música autoral.

A Medusa, graças a essa visibilidade, logo após a sua fundação começou a realizar as suas primeiras gravações logo em 1973 na “Discos Raff” patrocinada pelos amigos da banda Náhuatl. Naquele ano lançaram um single com a música “Tan solo lo Haemos”, no lado A e Autodestructión" no lado B. No ano seguinte foi concluída a gravação de um EP, em 1974, com essas duas músicas mais duas novas faixas chamadas “Tratando de Olvidar”, composta em colaboração com Omar Jasso, tecladista da banda Polvo e posteriormente do Náhuatl e “Después De La Tristeza”. Devido a algumas políticas equivocadas da gravadora “Discos Raff”, Medusa deixou o cast do selo em 1975 juntamente com outras bandas em ascensão como Ciruela e Three Souls, adiando a gravação de um álbum, embora as gravações estivessem finalizadas.

Em 1977 a banda assinou contrato com a Orfeón para gravar o álbum. Será que dessa vez o sonho da Medusa se realizaria? Não ainda! O projeto fracassou novamente porque os executivos da gravadora queriam modificar substancialmente a essência de sua música, bem como de suas letras, porque consideravam pesadas, de cunho agressivo e pouco “comercial”. A Medusa, claro, não cedeu a esse assédio e, mais uma vez, a gravação do tão sonhado álbum não aconteceu e a gravadora deixou a banda na “geladeira”, congelando o contrato com a Medusa até o fim da gravadora depois. No entanto as músicas foram registradas na editora “Orfeón House” que até hoje detém os direitos das faixas.

“Medusa” entrega um volumoso e potente hard rock que pode, perfeitamente, ser considerado como um dos primórdios do hoje tão famoso e diria, saturado, stoner rock, com peso, guitarras lisérgicas, toques discretos de psicodelia e até mesmo um proto metal de muita qualidade e de fazer frente a muita banda oitentista da cena “New Wave of British Heavy Metal”.

O álbum começa com a faixa “Autodestruccion” que de imediato já traz aquele riff de guitarra sujo, arrastado, lembrando um indefectível doom metal, mas logo depois descamba para um proto metal, já com aquela também típica velocidade que notabilizou o estilo, com vocal gritado e alto. Segue com “Caminando Rumbo al Cementerio” introduz com riffs mais tipicamente setentista, ao estilo Sabbath, com uma pegada mais soturna, obscura e uma seção rítmica que corrobora tal condição. Vai ficando mais pesado, veloz, cadenciado e assim alterna. Nessa faixa a Medusa produz algo mais complexo em sua sonoridade.

"Autodestruccion" (Live)

“Crepusculo” começa introspectiva, mas logo entra o peso e a agressividade da bateria seguido por um baixo pulsante e intenso e solos lisérgicos de guitarra, mostrando um hard rock com pegadas psych que hoje conhecemos por stoner rock. Sim! Mais um atributo da Medusa mostrando sua referência sonora. “Despues de la Tristeza” começa flamejante com solos altos e poderosos de guitarra personificando o lado efetivo do hard rock típico setentista com um trabalho impecável, mais uma vez, da “cozinha” ditando o ritmo. Parece ser uma faixa ao vivo.

"Después de la Tristeza"

“Genes de Maldad”, que também parece ser ao vivo, traz, mais uma vez, o destaque na guitarra. Riffs de guitarra de um embrionário heavy metal faz dessa faixa, logo no início, vibrante, confirmando com bateria potente e rasgada, baixo pulsante e uma velocidade que entrega o “tempero” necessário aos apreciadores do heavy metal oitentista, por exemplo. Solos de tirar o fôlego confirmam o peso e traz ainda mais energia à faixa. “La Sombra de Nietzsche” dá mais uma contundente prova de que o proto metal pautou a música da Medusa em seu seminal álbum. A guitarra potente em seus riffs abre a faixa, trazendo à tona de um thrast metal envolto por notas de teclado que te remete a viagens mais contemplativas. É possível? Parece que com a Medusa sim! Heavy rock, proto thrash, prog rock. Essa faixa instrumental é um arrasa quarteirão!

"La Sombra de Nieztche"

“Medita Sinceridad” já começa com o pé na porta! Bateria marcada e pesada, riffs pegajosos e poderosos de guitarra, vocal rasgado e alto. O hard rock ganha força nessa faixa. Cadencia para uma pegada meio jazzy na bateria que logo irrompe em um solo avassalador de guitarra. “Momentos en la Vida” retorna ao som arrastado e pesado capitaneado pela guitarra em uma textura ao estilo doom metal. Sonoridade introspectiva e soturna faz é o tema central da melodia dessa música.

“Noche” começa a um delicado som de pássaros cantando e teclado meio sinfônico. Talvez um prenúncio de uma música progressiva, afinal a faixa conta com nada menos do que longos doze minutos de duração. Mas não necessariamente. O estrondo pesado do hard rock se manifesta com bateria pesada, baixo pulsante e guitarras lisérgicas. Mas o progressivo, com a sua maior característica, se revela, com várias mudanças de andamento, de ritmo, são perceptíveis na música. A textura do teclado traz uma pegada mais leve que característica a veia progressiva da música.

"Noche"

Segue com “Rompesuenos” que traz um “duelo” entre teclados e guitarra, que promove uma interação interessante entre peso e suavidade. Uma música mais diversificada. “Tan Solo lo Hagamos” volta ao proto doom pesado e arrastado. Baixo pesado, pulsante, bateria marcada, riffs sujos de guitarra. O típico peso do proto doom metal. E fecha com “Tratando de Olvidar” começa lenta, ao som de violões dedilhados acusticamente. A guitarra aos poucos aparece, a sonoridade ganha corpo, a balada rock se configura, mas o som continua acessível aos ouvidos.

"Tan Solo lo Hagamos"

Desde 1972, quando surgiu para a cena rock n’ roll mexicana, a Medusa dividiu o palco com a maioria das grandes bandas mexicanas que fizeram sucesso à época, que tinham destaque, com exceção em um período de grande hiato, de inatividade da banda que aconteceu entre 1984 e 1994, sendo que dois anos antes, em 1982, a Medusa deixou de ser um “power trio” tendo a entrada de Jaime Garcia, que tocava guitarra e teclado. Era uma nítida demonstração de que a Medusa queria modificar um pouco a sua sonoridade, o que culminou com o seu sumiço, em 1984. A banda estava desgastada.

Mas esse período, entre 1972 e 1984, a banda foi tocada nas rádios, fez várias apresentações em pequenos e grandes palcos, naqueles mais conhecidos aos mais simplórios, tocou em programas de TV mexicanas como “El Rock en la Cultura” e “La Hora Cero”, pelo famoso canal Televisa, além de inúmeras entrevistas para rádios e revistas especializadas como Pop, México Canta, Notitas Musicales, Dimensíon, Conecte, Banda Rockera e jornais como Excélsior, el Heraldo, el Universal e até el Alarma.

Medusa com Armando Nava e a banda Enigma (1977)

Em 1994 a Medusa finalmente se reúne novamente, a formação original, o velho “power trio’ estava na ativa novamente! Jaime Garcia não estava disponível para essa reunião até 1996, ano este que decidiu também retornar à banda, fazendo dela um quarteto. Mas aquele assédio que a Medusa tinha nos primórdios já não era o mesmo e a banda passou fazer shows de forma esporádica em alguns locais como Andy Bridges de Naucalpan, La librería El Sótano de Coyoacán, La Plaza central de Coyoacán, El Monumento a la Revolución, La Alameda Central y Masivos en Tlalnepantla, Valle de Chalco entre outros locais.

Mas faltava gravar, de forma oficial, seu primeiro álbum, o tão sonhado primeiro álbum que há décadas estava hibernando. E a gravadora não surgia, o contrato não surgia de jeito nenhum. Então decidiram refugiar-se no estúdio britânico de Jaime Garcia onde gravou algumas demos entre 1998 e 2000.

Victor Moreno e Frankie Bareno (2000)

Depois disso a Medusa continuou se apresentando, de forma esparsa. Mas tiveram bons momentos como a gravação de mais algumas músicas no estúdio de Carlos “Bozzo” Vásquez. E isso reacendeu a chama da banda. Bozzo também os ajudou a se apresentar nos programas de televisão mexicana, o que não faziam também um bom tempo. Se apresentaram no “Mi Vida es um Rock and Roll” que foi transmitida pelo canal 4 da Televisa, em 2006.

Infelizmente a Medusa teve uma baixa em sua formação. Antonio Urquiza sairia da banda e fez com que ela se tornasse um trio novamente, embora um de seus fundadores tenha saído da banda. Os problemas pareciam não cessar! Então a Medusa teria Victor Moreno na bateria, Javier Plascencia no baixo e Jaime Garcia na guitarra e continuaram a fazer alguns shows.

Medusa em 2008

A ideia era lançar o que tinham produzido nos estúdios de Jaime e as demos que gravou nos estúdios de Bozzo, mas não deu certo. Tudo indica, reza a lenda, que Bozzo era um golpista e permitia que as bandas gravassem em seus estúdios e depois virava as costas para a maioria delas e a Medusa não teria sido diferente, não concretizando o sonho dos experientes músicos de lançar oficialmente um álbum. Diante desse difícil cenário, em junho de 2015, a Medusa fez seu último show saindo definitivamente da cena rock mexicana.

Em 2018 foi lançado o CD, por uma gravadora não identificada ou de forma irregular (pirata) o álbum da Medusa, com as músicas do EP, de 1974, e das músicas gravadas quando a banda retornou às atividades nos estúdios de Jaime e de Bozzo Vásquez. Não se tem informações de tiragens ou quem esteve à frente deste lançamento. No CD não consta o nome do selo, mas há apenas a informação de que a tiragem teria sido limitada. Provavelmente se trata de um lançamento pirata.

Alguns dos membros da Medusa se dedicaram a outros projetos. Jaime Garcia se envolveu com o rock progressivo, tocando com bandas como “El Retorno de los Brujos”, Victor Moreno tocou guitarra em colaborações com diversos músicos como o próprio Bozzo Vásquez, Miguel “El Gallo” Esparza (Dug Dug’s) e Miguel Morales (Tinta Blanca). Já Javier Plascencia dedicou-se a composição de músicos e montou seu próprio estúdio de gravação.

As agruras, os obstáculos, as dificuldades, as inexperiências e a difícil capacidade da convivência fizeram do futuro comercial da Medusa bem aquém do que se esperava, mas, ainda assim, deixaram uma marca indelével na história, não apenas do rock mexicana, mas de toda a América Latina, das Américas, servindo de referência para a música pesada dos anos 1970 e até hoje para aqueles jovens músicos que desejam enveredar para esse caminho. A Medusa pavimentou um caminho para que hoje muitas bandas construíssem uma sonoridade que até hoje segue forte, mesmo sem apoio.




A banda:

Victor Moreno na bateria

Javier Plascencia Amoróz nos vocais e baixo

Luis Antonio Urquiza Zanella na guitarra

 

E mais tarde:

Jaime Garcia na guitarra e sintetizador


 

Faixas:

1 – Autodestruccíon

2 – Caminando Rumbo al Cementerio

3 – Crepusculo

4 – Despues de la Tristeza

5 – Genes de Maldad

6 – La Sombra de Nietzsche

7 – Medita Sinceridad

8 – Momentos em la Vida

9 – Noche

10 – Rompesuenos

11 – Tan Solo lo Hagamos

12 – Tratando de Olvidar


Download do álbum aqui!


"Medusa" (1973 - 2018)






 















 







quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Moses - Changes (1971)

 

Ecos de um longínquo passado, tão distante que parece soar primitivo em determinadas sonoridades. Datado? Talvez! Fora de moda! Moda vem e vai, modismos transparecem para mim algo tão vazio e frívolo que sequer possa interessar aos que gozam de mínima personalidade.

Mas parece a fusão do blues e o rock foi um processo de extrema revolução nos idos de 1967, 1968, com a profusão de bandas que aliou criador e criatura em um caldeirão fervilhante, intenso e de uma plenitude sonora bem interessante. O Cream, juntamente com Jimi Hendrix, trouxe a potência do rock e a melancolia sombria do blues, eletrificando, tornando pesado uma vertente que traria outras tantas e tantas bandas seminais fazendo jus aos criadores.

O que dizer de Led Zeppelin ou ainda do underground Blue Cheer ou de John Kay com seu Steppenwolf? Referências que se confundiram com o blues rock, mesclados ainda ao hard e o psych que também estavam pairando pela cena rock na transição dos anos 1960 e 1970.

As bandas seminais e famosas ganharam o mundo, levaram seu nome para o mais alto patamar e excelência do bom e velho rock n’ roll e estão no rol dos clássicos indiscutíveis. Mas e as bandas obscuras? Não podemos discuti-las? Não podemos coloca-las no mesmo patamar de importância?

Bem esse blog que você, estimado leitor, está navegando, traz as bandas obscuras, raras e undergrounds a um nível de protagonismo, mesmo no ápice de seus fracassos comerciais e, aproveitando o ensejo da cena blues rock, que muito me cativa, gostaria de trazer uma banda, surgida na fria Dinamarca, que entrega uma sonoridade quente e diversificada e se chama MOSES.

Moses

Quando busquei referências de pesquisa para construir esse texto que você, bom amigo leitor, está lendo, li alguns comentários do tipo: “Nossa, é um álbum fraco”! “Um álbum básico demais”! “Uma cópia barata do Ten Years After”! Evidente que não quero entrar no mérito das opiniões, afinal, são pessoais e precisam ser respeitadas, mas o “básico”, penso, não pode ser assimilado a algo ruim. Muito pelo contrário, é a essência do rock, a gênese de um estilo.

Quando ouvi, pela primeira vez, o primeiro álbum do Moses, “Changes”, de 1971, foi tão arrebatador que me fez, com o perdão das famigeradas comparações, lembrar as estreias de bandas do naipe de Black Sabbath e Blue Cheer, por exemplo. Uma sonoridade tão primitiva e básica, calcada no peso, em um blues rock elétrico, distorcido e agressivo. A trinca guitarra, baixo e bateria traz uma pegada, além da já comentada, pegada pesada, traz um despojado, algo tão despretensioso, que beira até a inocência de seus músicos, sem contar que o vocal lembra de um bebedor inveterado.

Se para muitos isso possa trazer a noção de amadorismo, para esse que vos escreve é o charme de todo o conteúdo, seja ele intencional ou não. “Changes” é fantástico por isso! Guitarras wah-wah cheia de distorções e lisergia, hard rock, aquele blues eletrificado, tantos atrativos mesmo para um álbum tão básico. É louco, não acha? Ainda encara o básico como ruim? Sugiro rever os conceitos...

Mas antes de destrinchar o único rebento do Moses, “Changes”, vamos tentar falar um pouco dos primórdios da banda. Já digo, amigo leitor, de antemão que, por se tratar de uma banda obscura, pouco se sabe sobre, poucas foram as referências encontradas, mas as linhas desse texto precisam se fazer existir.

O Moses foi formado em uma cidade chamada Esbjerg, na Dinamarca. E o conceito de seu estilo vem muito do passado de dois de seus integrantes, são eles: Jørgen Villadsen e Søren Højbjerg, vocais e baixo e guitarrista, respectivamente, que tocaram em uma banda de blues chamada Fresh Boiled, em 1968. Na realidade essa banda seria o esboço do Moses. Henrik Laurvig, o baterista, tocou em diferentes e várias bandas locais e juntou-se a Jørgen e Søren quando a banda mudou seu nome para Moses, no início de 1969.

A partir daí o Moses excursionou sem parar durante o ano de 1969 e por toda a sua precoce existência e, em 1970, estava em contato com uma gravadora underground chamada Spectator Records. O selo estava muito interessando em gravá-los, contratá-los, mas precisava ver os shows dos caras para ter a certeza de que eram bons o suficiente ao vivo para ter o melhor resultado em estúdio e no verão daquele mesmo ano gravaram, por incríveis dois dias, “Changes” no Spectator Record Studio, em Ålborg, na Dinamarca, porém o álbum só foi lançado em 1971.

A responsabilidade da distribuição ficou a cargo da Spectator Records e teve uma reduzida tiragem, pasmem, de apenas 500 cópias, tornando-o hoje um produto muito valorizado nos sites de vendas de vinis, como acontece frequentemente com muitos desses tesouros obscuros e perdidos dos anos 1970. E como poucos teriam acesso a esse vinil por conta do alto valor, a sorte de nós, pobres mortais, é de que temos alguns canais no YouTube, abnegados, que difundem o álbum, bem como blogs e sites que trazem, além da sonoridade, a história de bandas como o Moses.

E como a banda durou meros três anos ou um pouco mais, ou seja, uma curta existência e trajetória, a formação que gravou “Changes” trazia, como já mencionados: Søren Højbjerg na guitarra, Jørgen Villadsen no vocal, baixo e Henrik Laurvig na bateria. E como também já comentado trazia um hard rock com generosas pitadas de blues e um tempero saboroso de acid rock, com muita lisergia. O peso, aliado ao despojado de sua sonoridade era o charme e fazia da música algo bastante característico, apesar de não trazer nada de revolucionário.

O álbum é inaugurado com a faixa título “Changes” e já escancara com um proto metal configurado em riffs potentes e pegajosos de guitarra com uma levada bluesy. O som é arrastado e pesado, mas traz uma pitada sombria, soturna, diria. Solos de guitarras lisérgicas, ácidas são ouvidas, o peso é corroborado pela “cozinha”, com baixo pulsante e bateria marcada. Mas logo volta ao estágio arrastado que iniciou a faixa. O vocal é um destaque à parte, bem despretensioso. Não hesitaria em dizer que essa faixa trafega entre o stoner e o doom.

"Changes"

A sequência tem “I’m Coming Home” que abre com um baixo dançante e com algum groove. A sonoridade me remete ao psych rock com as já perceptíveis pitadas de blues rock. Solos pesados de guitarra rasgam a faixa em um estrondo hard rock tipicamente setentista e logo retoma ao baixo dançante com pegada ácida. 

"I'm Coming Home"

“Everything is Changed” já começa rasgando com riffs arrogantes e agressivos de guitarra. Aqui o hard rock se faz vivo e pleno, mas as bases trazem o psych rock, a lisergia igualmente presente em toda a estrutura sônica do álbum. Os solos de guitarra aparecem e trazem a certeza do peso dessa faixa. A sessão rítmica também seu destaque e cadencia a camada hard da faixa.

"Everything is Changed"

Segue com “Beginning” que abre com um solo curto e direto de bateria, com algumas viradas interessantes e logo irrompe em riffs e solos desconcertantes de guitarra e um baixo muito pulsante e vivo. A destreza instrumental nesta faixa é escancaradamente vibrante e excitante! Um volumoso e potente hard rock que conta ainda, já para o final da música, com um poderoso e arrasador solo de bateria.

"Beginning"

“Skæv” segue na linha hard rock e é cantada em dinamarquês. Um hard rock arrastado, mesclado ao psych rock e um proto stoner invejável. Certamente uma das mais pesadas faixas do álbum, com um trabalho excelente de guitarra. E quando se junta a forma mais agressiva ainda da bateria, a música assume uma roupagem mais de proto metal. Incrível!

"Skaev"

E fecha com “Warning” traz à tona, mais uma vez, a competência rítmica da “cozinha” da banda. Batidas fortes da bateria, o baixo pulsante, solar e dançante dá lugar a riffs pesados de guitarra. O blues rock retorna e vem pesado e intenso. Os solos de guitarra, mais uma vez, ganham destaque, e vem com a já percebida vibe psicodélica, com a lisergia como pano de fundo. E desses “fragmentos” temos uma sessão instrumental apoteótica, repleta de viradas e momentos distintos.

"Warning"

O Moses não conseguiu êxito comercial após o lançamento de “Changes”, em 1971, mas seguiu fazendo shows, se apresentando, mas não conseguiu fazer sucesso e divulgar o seu trabalho. Não teve também a estrutura ideal para tal por parte do selo que também não gozava de capital para tal investimento. Em 1972 a banda se vê obrigada a finalizar as suas atividades.

Porém seus integrantes seguiram, direta ou indiretamente, no mercado da música. Søren Højbjerg ainda está trabalhando como diretor de sua própria organização dinamarquesa de reservas e shows, SHB Agency, em Esbjerg. O baterista Henrik Laurvig continuou em diferentes bandas, a mais famosa das quais foi Mani, com quem gravou o álbum “Kontiki”, pelo selo Genlyd Records, em 1985. Junto com sua carreira musical, ele trabalhou como gerente de vendas nas gravadoras CBS Records e Warner Music, ambas da sucursal da Dinamarca. Já o baixista e vocalista Jørgen Villadsen perdeu o contato com seus antigos companheiros de banda, e atualmente não se sabe sobre seu paradeiro atual.

Um som despojado, inocente, ruim, pouco apurado em termos de melodia, fraco, divertido, atraente por ser e por ter uma sonoridade suja e teoricamente mal produzida. Tantas são as percepções, mas com uma única certeza. É pesado e, no mais puro conceito de seu som, se faz diverso e cheio de possibilidades para os mais variados “paladares” de som que flerta com o blues rock, o hard rock, com o proto stoner e doom. Mesmo básico é diverso. O conceito de tempo parece ser tão irrelevante para o Moses e seu único trabalho que a discussão de ser ou não datado, torna-se pueril. “Changes” teve um relançamento, em 2010, no formato “CD” pelo selo “Shadocks Music”.


A banda:

Jørgen Villadsen: no baixo e vocal

Henrik Laurvig: na bateria

Søren Højbjerg: na guitarra

 

Faixas:

1 - Changes    

2 - I’m Coming Home

3 - Everything Is Changed    

4 - Beginning 

5 - Skæv         

6 - Warning



"Changes" (1971)














 








quarta-feira, 15 de julho de 2020

Bang - Bang (1971)


Os porões do rock, apesar de esquecido e vilipendiado, pode nos reservar algo de suma relevância para a história do estilo. Não pode ser tratado como descartável, afinal as obscuridades podem trazer a luz do pioneirismo, do protagonismo em tempos longínquos onde tudo era nada. 

É um terreno difícil, diria arriscado trafegar em assuntos como protagonismo e pioneirismo em determinadas vertentes, tendências e estilos. Os anos 1970 foram prolíficos não somente pelo fato de que os estilos que edificaram o rock n’ roll praticamente estavam nascendo e florescendo, mas porque as bandas estavam experimentando, deixando aflorar os seus mais genuínos instintos criativos traduzindo-os em sua música. 

Torna-se difícil, pois os estilos se flertavam e, ao longo do tempo, com o “carimbo” do estereótipo, do rótulo, foi se estabelecendo entre as cenas, entre o público que estava consumindo aquelas músicas e bandas. Tem uma banda, em especial, que trafegou esquecida nos porões do rock norte americano e que infelizmente não recebeu os créditos de seu pioneirismo, de sua importância para a cena heavy rock dos Estados Unidos da América. 

Qual é essa banda? Ela se chama simplesmente BANG! O nome, embora simples, determina, com nuances sonoras, a que veio: uma explosão musical, uma bélica e avassaladora música que deveria entrar nos anais da história da música pesada e logo direi o motivo.

Bang

O Bang remonta os anos 1960, quando as fundações arquitetônicas do heavy rock estavam sendo criadas, mais precisamente em 1969, ano este que foi fundado, na cidade da Filadélfia, Pensilvânia. Os seus criadores foram: Frank Ferrara no baixo e vocal, Frank Gilcken na guitarra e Tony Diorio na bateria. 

Frank e Frankie, na época com apenas 16 anos de idade, colocara um anúncio no jornal que estava formando uma banda e a resposta foi imediata! Diorio chega um pouco mais experiente, dez anos mais velho, e assim a banda estava formada, começando logo a trabalhar em novas composições. 

O primeiro grande momento do Bang foi quando detonaram com um show do cantor Rod Stewart em Orlando em 1971, eles roubaram a cena, foram mais pesados e avassaladores, convencendo alguns promotores locais a olhar com mais carinho por eles, dando-lhes, quem sabe, uma chance. 

E não é que conseguiram uma atenção dos promotores de show? Shows aconteceram na Costa Oeste aconteceu na Costa Leste e o Bang logo começou a ganhar alguma visibilidade graças as suas energéticas performances ao vivo, se tornando um dos candidatos a banda mais pesada da cena hard rock na terra do Tio Sam, apesar da disputa ser bem grande com bandas do naipe de Sir Lord Baltimore, Blue Cheer, entre tantas outras tão obscuras quanto o próprio Bang.


E em apenas dois anos após o seu surgimento, o Bang lançou, pela Capitol Records, o seu primeiro álbum, o autointitulado “Bang”, em 1971, alvo da minha resenha. Considero “Bang’ como um álbum emblemático, pois, ao ouvi-lo pela primeira vez, além do arrebatamento sonoro, do peso, do poder, da agressividade e da linda melodia (sim, essa mescla é possível!), ele é sim um álbum pioneiro do doom metal, estilo que se tornaria mais conhecido no início dos anos 1980. 

Claro que a concorrência, nos anos 1970, mais precisamente em 1971 era grande: bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, Grand Funk Railroad e Black Sabbath estavam lançando clássicos atrás de clássicos e o espaço para novas bandas no estilo estava se tornando pequeno. 

E por falar em Black Sabbath, o Bang, injustamente, foi considerado como uma resposta americana a banda inglesa, um “Black Sabbath americano”! Um verdadeiro absurdo essas comparações que só desmerece o trabalho e a história que foi arrancada do Bang, da sua importância para o hard rock. 

E digo mais: o seu debut é sim um dos pioneiros, junto com o terceiro álbum do próprio Black Sabbath, “Master of Reality”, também lançado em 1971, do doom metal, dois grandes álbuns de "proto doom". E aí voltamos ao início desse texto: difícil pontuar pioneirismos no rock! Sim! 

Mas não podemos negligenciar a importância desses dois trabalhos, principalmente do álbum do Bang. Ah e aqui cabe uma curiosidade bem pertinente na história da banda: os caras gravaram algumas músicas em 1971 e que não foram lançadas naquele ano, somente em 2004, no formato CD e LP, chamado “Death of Country”. 

Foi um trabalho arquivado pela Capitol Records que foi ver a luz do dia décadas mais tarde. Outro álbum altamente recomendado, mas foi com “Bang”, lançado no mesmo ano que foi considerado como o seu primeiro trabalho oficialmente lançado.

"Death of Country", 1971

O que se ouve em “Bang” é uma senhora paulada, um petardo tipicamente setentista, poderoso. Ao ouvir o som deste power trio, percebe-se, com nitidez, sobretudo pelo riff sujo, cadenciado, denso e perigoso, uma pegada de doom metal misturado ao stoner rock, nomenclatura mais contemporânea, com pitadas generosas do já mencionado hard rock. 

Muitas dessas bandas novas que executam o que se convencionou de “rock retrô” deve ter bebido da fonte do velho e esquecido Bang. O álbum abre com a excelente “Lions, Christians” com riff ao estilo doom, com uma cadência pesada, densa em uma atmosfera obscura, sem contar os solos curtos e pesados. Uma verdadeira pedrada!

"Lions, Christians", live at Roadburn, Tilburn (2016)

“The Queen” começa com mais um riff poderoso, lembrando o Sabbath com Iommi, o rei dos riffs. A proposta segue a mesma, muito peso, solos curtos e poderosos.“Last Will” segue com uma bela balada linda ao som de violão, mostrando que o Bang tem versatilidade. “Come With Me” vem como o destaque do álbum, com muito peso e cadência e um vocal rasgado conferindo ainda mais peso. 

"The Queen", live at Burlington (2017)

“Our Home” volta com mais e mais peso, já “Future Shock” poderia ser considerada como a primeira música de doom metal lançada oficialmente na história! Será? Temos o Pentagram nascido nos EUA também, mas não tinha registrado nada oficialmente nos anos 1970, mas essa faixa do Bang é fantástica, os riffs faz você “bangear” a cabeça incontrolavelmente.

"Our Home", live at The Maryland Doomfest (2016)

E o que dizer da seguinte faixa: “Questions?” Uma música de qualidade atestada, uma porrada heavy de vanguarda, instrumental de primeira. Fecha com “Redman” que segue fielmente o hardão que é esse disco, do início ao fim.

"Questions?", live at Filadélfia (2018)

Depois de “Bang” a banda lança, em 1972, o igualmente excelente “Mother / Bow to the King”, em 1972, mas foge um pouco a proposta do seu antecessor, mas ainda assim o peso e a agressividade que é marca registrada do Bang estavam lá. 

"Mother / Bow to the King", 1972

A banda deveria ter explodido neste álbum, mas mudanças na diretoria da Capitol Records e algumas mudanças forçadas na banda, por influências externas, levaram a frustração e desestímulo por parte dos músicos o que levou seu precoce fim, mas conseguindo lançar um novo álbum em 1973, chamado “Music”. 

"Music", 1973

Em 1996 o Bang se reuniu! A banda gravou e lançou, em 1998, um novo álbum com o sugestivo nome de “Return To Zero” e logo mais tarde lançando “The Maze”, em 2004 com algumas novas versões para antigas canções como “Love Sonnet” e “Bow to the King”. 

Em 2014 a banda se preparou para shows ao vivo, ensaiando um novo retorno e com a formação original e que nas palavras do baixista e vocalista Frank Ferrara na época mostra que a força e a persistência era a tônica dessa banda: 

“Nós três percebemos que o Bang ainda era uma força musical. E, apesar de muitos anos se passarem, estávamos escrevendo músicas como se fossem ontem. O sonho está vivo e com renovada sede e amor por ele. a música, estamos retomando nossa busca”. 

A banda está mais viva do que nunca e o seu legado está sendo escrito de forma indelével! O Bang personifica, corrobora que o hard rock obscuro estadunidense é um dos mais rica da música pesada espalhada pelo planeta. 



A banda:

Frank Ferrara no baixo e vocal
Frank Glicken na guitarra e vocal
Tony D’Lorio na bateria

Faixas:

1 - Lions, Christians
2 - The Queen
3 - Last Will
4 - Come With Me
5 - Our Home
6 - Future Shock
7 - Questions
8 - Redman


Bang - "Bang" (1971)