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quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Caixão - Da Porta ao Sumiço (2020)

 

Nessa minha fantástica caminhada de desbravar as grandes bandas que trafegam nas sombras das obscuridades, me peguei em algumas boas e salutares discussões acerca das condições que a sua sonoridade se relaciona, digamos assim, com o público. Uma delas é: um projeto musical pode ser considerado uma banda?

Pode parecer uma pergunta um tanto quanto desproporcional e boba, sem contexto algum, mas quando me vi refletindo sobre, quando essa questão me veio por um bom amigo leitor, me coloquei a pensar. Será que um projeto que, em tese, tem início, desenvolvimento e fim, pode ser considerada como uma banda constituída, haja vista que, quando se tem uma banda, presume-se que os seus músicos queiram a sua longevidade.

Projetos vem e vão, bandas também vem e vão, fãs idem, cenas também, mas a música, quando é relevante para os seus ouvidos e alma, sem dúvida alguma prevalecerá, passará pelos tempos e modismos, incólume, viva e jovial. Independente de como ela, a música, é concebida, ela é música e precisa ser apreciada, “degustada” como tal.

E essa banda, ou melhor, projeto é digno de reverências, dada a sua originalidade e também a sua sonoridade que nos remete aos prolíficos anos 1970, mas sem soar datado ou algo pasteurizado com a intenção de atingir a determinados nichos ou cenas de cunho saudosistas. Falo da banda ou projeto brasileiro, oriundo do Ceará, chamado CAIXÃO.

Caixão

E que orgulho, ufanismos à parte, dizer que se trata de um trabalho brasileiro, de material original e de contundência sendo feito em um país que privilegia as músicas frívolas, sem sentido e oca em sua concepção, mas essas tocam nas rádios, nas emissoras de massa, em tudo quanto é lugar, chega a ser leviano fazer essas pífias comparações. A Caixão já começa a ser underground e pouco “ortodoxo” com o seu nome.

E foi com o seu nome que, quando o conheci, lá pelos anos caóticos da crise sanitária da COVID-19, que realmente me chamou a atenção (risos)! São as maravilhas do mundo do underground e também os meus apreços e predileções musicais. E diante de tanto lixo musical que nos chega sem sequer pedirmos, torna-se urgente filtrar, para não cair na asneira de ouvir porcarias.

O projeto começou, em 2018, com o baterista Ítalo Rodrigo, conhecido pela banda seminal de crossover Damn Youth e também no Echoes of Death. Ítalo trouxe à tona a Caixão com o intuito de ser um projeto, porque, além de ser a sua concepção, ele pincela os músicos que o acompanha na sua empreitada sonora. Ítalo é a Caixão, pelo menos por enquanto, porque tudo indica que o projeto poderá vir a ganhar contornos de banda. Pode parecer estranho essa condição, afinal, a Caixão é uma banda constituída, independentemente de sua essência.

Lançou, em abril de 2019, um single, de nome “Pássaro Holograma” e um EP, com 5 músicas, também no mesmo mês e ano, de nome “Caixão”. Em setembro do mesmo ano gravou um “Split”, ou seja, um álbum com outra banda, chamado “Candelabro”, com a banda Abismo. O ano de 2019 foi bem agitado para a Caixão! Porém somente em outubro de 2020, em pleno auge da pandemia do COVID-19, lançou seu primeiro álbum chamado “Da Porta ao Sumiço”, cujo selo é a Abraxas, conhecida por ter em seu cast bandas de stoner, doom e occult rock da atualidade. E o cenário do caos sanitário também trouxe um formato um tanto quanto atípico na concepção do álbum sob o aspecto da gravação e sem sombra de dúvida na composição das letras. E será esse álbum alvo do texto de hoje.

EP lançado em 2019

“Da Porta ao Sumiço” foi concebido pela seguinte formação: além de Ítalo Rodrigo, na guitarra, o “dono” do projeto, trouxe Mirelle Sampaio, também na guitarra, Renato Alves, no baixo, Jardel Reis na bateria, com a participação no vocal e na letra de Ângelo Sousa, na música “Vulto”. A arte da capa contou com Fernanda JFL.

O processo de criação do álbum se deu de uma forma bem usual, apesar dos tempos temerosos da pandemia, tendo as ideias vindo em momentos totalmente inusitados, tendo como ponto central as músicas surgirem a partir de um riff. O trabalho foi todo feito em casa, afinal, o caos pandêmico exigiu um distanciamento social, o que certamente deve ter impactado o talentoso Ítalo a conceber as faixas que compunham esse álbum. Usaram para fazer a captação, sendo gravado em caixinhas de guitarra, que inclusive o baixo também foi gravado na caixa de guitarra. A mixagem e masterização ficou por conta de Guilherme Mendonça, amigo de Ítalo.

“Da Porta ao Sumiço” é um álbum que remete às sonoridades setentistas, que vai do hard rock ao psych. Passa pelo progressivo também, nuances mais discretas dessa vertente, mas também com um pé em sonoridades mais contemporâneas, como o stoner rock, por exemplo. O som da Caixão não é, com isso, datado, talvez homenagens às bandas de occult rock dos anos 1970 relegadas ao ostracismo, mas que soa com muito frescor, pois evoca o contemporâneo e a capacidade de se mostrar muito diversificada e difícil de se rotular.

É, sem dúvida, um registro contemporâneo, com referências do passado. É tão diversificado e complexo o som da Caixão neste trabalho que eles conseguem ser solares e introspectivos em uma única música, repetindo-se, em outras faixas. É inegável que, ao ouvir “Da Porta ao Sumiço”, não se consiga cativar pelas melodias envolventes e cheia de personalidade, sem contar com os riffs poderosos de guitarra que traz a versão pesada às músicas, propiciando os diversos andamentos distintos nelas, causando ao ouvinte um arrebatamento sonoro.

Como o próprio nome sugere, bem como a sua sonoridade, a Caixão dignifica, por intermédio de seu debut, uma roupagem, como disse, diversificada e calcada nos anos 1970, com viés atualizado trazendo o peso do stoner rock, tudo isso envolto em uma textura bem interessante de occult rock que beira, inclusive, a uma trilha sonora de um filme de terror. Me trouxe à tona até bandas como a italiana Goblin, por exemplo, que sempre explorou o cinema fazendo trilhas para o icônico cineasta Dario Argento.

"Hora de Ir"

“Corrente” segue agora com uma veia mais hard rock com riffs mais pesados de guitarra que, em determinados momentos, fica mais cadenciado, mas nunca leve ou introspectiva. É pesada! A “cozinha” é eficiente. Bateria pesada e marcada, baixo galopante, teclados enérgicos, mas ainda assim, sombrios.

"Corrente"

“Die in the Flame they Created” traz à memória algo de Blue Oyster Cult mais dançante, aquela fase mais comercial da banda dos anos 1980, mas que não negligencia de forma alguma sua pegada occult rock. O stoner se faz presente, o peso e os riffs de guitarra entregam essa vertente na faixa. “And Now Look At the Size of the Damage” segue basicamente a mesma proposta da faixa anterior, dando um caráter mais pop e comercial ao occult rock que permeia na música.

"Die in the Flame they Created"

“Mariposa” traz de volta o peso do stoner rock, capitaneado pelos riffs pegajosos e pesados de guitarra. A seção rítmica segue o conceito da música, se mostrando engenhosa e igualmente pesada. A bateria bate forte sem piedade alguma, mas ainda assim, temos algumas mudanças rítmicas. Bela música!

"Mariposa"

Segue com “Vulto” e a proposta pesada ainda paira sob esse momento do álbum e o hard continua pleno, os riffs de guitarra continuam em destaque, a bateria é pesada, porém cheia de viradas emocionantes. Percebo uma pegada mais heavy metal nesta faixa. A energia e a fluidez nessa música são deveras perceptíveis.

"Vulto"

“Poeira na Luz do Sol” chega mais sombria, mais introspectiva, com uma pegada pesada, porém arrastada, cadenciada, um stoner mesclada a um discreto doom metal. O baixo ganha destaque nessa faixa. É vívido, tocado alto, de forma galopante. A bateria basicamente segue marcada e os riffs de guitarra torna a faixa mais pesada. “Passeio no Céu” traz, mais uma vez, uma textura mais sombria, como na faixa anterior, algo mais introspectiva e soturno. Junto a isso uma pegada mais lisérgica envolve toda a proposta da faixa. A fala ao final da música é um trecho do filme “Compasso de Espera”, de 1973, dirigido por Antunes Filho.

"Poeira na Luz do Sol"

E fecha com “Goodbye Sanity” que se mostra com uma roupagem mais comercial, mais pop e bem dançante. Um conceito em voga entre as bandas atuais de occult rock que mescla o comercial com o occult rock que não é nada original, mas que atualmente é bem difundido nas músicas das bandas que compõe a cena hoje.

"Goodbye Sanity"

 “Da Porta ao Sumiço” pode ser considerado um álbum conceitual, afinal, as músicas, antes de qualquer coisa, se conectam, sonoramente falando. E o significado do nome do álbum também “amarra” esse conceito, pois o sumiço pode ser tanto para dentro quanto para fora, a partir da porta. Significa sumir de si ou dos outros. As faixas trazem esse ambiente de dúvidas, de fraquezas, de medos.

A banda lançou, em março de 2024, o single “Luz Estranha em Quixadá” e recentemente, em julho do mesmo ano outro single de nome “Bloodstains”. Esta última serviu como prenúncio para o lançamento do seu segundo álbum chamado “Entre o Velho Tempo Futuro”, previsto para ganhar luz em setembro. Remessas, no formato vinil, serão disponibilizados a partir de outubro.

"Luz Estranha em Quixadá" (2024)

O que nos resta, enquanto apreciadores do bom e velho occult rock, é aguardar ansiosamente por este tão aguardando novo álbum para ter de volta a Caixão despontando nos palcos e destilando suas músicas carregadas em hard rock, stoner, psicodelia e progressivo. E que o projeto se torne uma banda oficial e longeva. Se a música for o peso determinante não tenha dúvida de que isso logo acontecerá.




A banda:

Ítalo Rodrigo na guitarra

Mirelle Sampaio na guitarra

Renato Alvez no baixo

Jardel Reis na bateria

 

Com

 

Ângelo Sousa no vocal e letra de “Vulto”

 

Faixas:

1 – Hora de Ir

2 – Corrente

3 – Die in the Flame they Created

4 - ...And now look at the Size of the Damage

5 – Mariposa

6 – Vulto

7 – Poeira na Luz de Sol

8 – Passeio no Céu

9 – Goodbye Sanity (Bônus)



"Da Porta ao Sumiço" (2020)


"Entre o Velho e o Tempo Futuro" (Novo álbum de 2024)




 


 


























sexta-feira, 16 de junho de 2023

Magia Nera - Montecristo (2020)

 

Há alguns trabalhos que subvertem o tempo. O tempo e as suas modas, fases e conveniências que somos obrigados a seguir para se adequar, para se sentir parte dos grupos sociais. E quando testemunhamos alguns abnegados, os marginais que defendem, a todo custo, a verdade da sua música e quando há um grupo que compra a ideia, faz com que nunca saia da moda, haja vista que modismos traz consigo a imposição e arte, quando bem construída e revolucionária, não tem idade, não sucumbe ao tempo, a sua cronologia, pelo contrário, se renova a cada dia, tornando-se contundente para a vida de quem a consome, de quem se identifica com a sua manifestação.

E o rock n’ roll que, para alguns, está morto, revela-se vivo, pleno e altivo quando vemos que aqueles que subvertem a ordem ainda conseguem trazer verdadeiras personificações do estilo sem soar datado ou piegas, aquele clichê travestido de cópias. Algumas bandas que atravessam o tempo, mesmo com todas as adversidades que se materializam no seu caminho, conseguem se reerguer, se fortalecer, sobreviver, viver por intermédio de sua obra, que impactam decisivamente nas vidas de quem ouve seus álbuns.

O álbum conceitual que parecia ter sucumbido ao tempo e sido enterrado nos áureos tempos do rock progressivo dos anos 1970 é um exemplo de que a sua proposta torna eloquente o viés cultural e que esmurra o status quo de forma impiedosa, nos fazendo refletir, entender e agir diante de cenários tão opressores e pasteurizados que vivemos em dias atuais.

As sombras da arte de tais álbuns conceituais nos trazem a luz necessária para enxergar quem somos, o que nos tornamos e para onde vamos e para quem acha ou associa o rock a apenas festas regadas a drogas e bebidas, não, o rock nos incita a pensar, a romper tabus que ainda insistem em nos deixar de joelhos inoperantes e vulneráveis.

E uma banda que, em minhas viagens garimpais, descobri quase que de forma ocasional, retornara a cena rock com um álbum ousado, magnífico e que se volta para o passado para refletir o presente, projetando um futuro, um futuro menos tóxico e destrutivo da alma e do corpo. Uma banda que superou todas as adversidades de uma indústria fonográfica que deveria enaltecer, mas que marginaliza, que corrompe e é corrompida e décadas depois, como a fênix, ressurge das cinzas e protagoniza a sua qualidade sonora de forma contundente, décadas e décadas depois.

As dificuldades, as agruras, o precoce fim pelos infortúnios do ostracismo fez com que essa banda se tornasse forte, invencível e mesmo que aquém ao glamour que deforma, sobreviveu e vive divinamente por intermédio de sua arte, da forma mais genuína e pura que se pode esperar ao observar a proposta que defende no seu estilo de música que, para muitos que tem dificuldade de entender a sua dimensão, rejeita veementemente.

O hard rock, o dark prog tão solenemente executado pela excelente banda italiana MAGIA NERA retornou com um audacioso trabalho, o seu segundo rebento, o seu segundo filho, concebido de uma forma tão delicada e complexa, mas ao mesmo tempo tão orgânico, imponente e cheio de si. Falo de “Montecristo”, de 2020. O título denuncia que o álbum é baseado na obra icônica do igualmente icônico escritor Alexandre Dumas, o “Conde de Montecristo”.

Magia Nera em 1972

“Conde de Montecristo” é um romance de aventura francês que foi concluído, por Dumas, em colaboração com Auguste Maquet, em 1844. Inicialmente publicado como folhetim, de 1844 a 1846 e foi baseada na vida de Pierre Picaud onde o marinheiro Edmond Dantès é preso injustamente. Na prisão tem amizade com um abade, que lhe indica uma misteriosa fortuna, iniciando assim uma trajetória de vingança.

É considerado, juntamente com “Os Três Mosqueteiros”, uma das mais populares obras de Dumas, e é frequentemente incluída nas listas de livros mais vendidos de todos os tempos. O nome do romance surgiu quando Dumas a caminho da Ilha Monte-Cristo, com o sobrinho de Napoleão, disse que usaria a ilha como cenário de um romance.

Voltando ao Magia Nera e a sua jovem discografia que nasce, resultado de um hiato de quase cinquenta anos, o segundo álbum geralmente traz à tona ou prova a qualidade da banda ou a ausência de tais predicados o que geralmente acontece, mas percebemos visíveis nuances de um crescimento, de uma maturidade sonora.

A banda se afasta declaradamente do hard rock mais incisivo que marcou o seu debut, “L'ultima danza di Ophelia”, lançado em 2017, revelando um álbum com tendências progressivas mais evidentes reforçadas no tema que circunda a proposta deste belo trabalho. “Montecristo” exorciza aqueles temíveis medos das bandas de sucumbir, perecer aos seus primeiros trabalhos, quando lançam seu segundo trabalho. 

Com o Magia Nera não há o que temer, há apenas espaço para dimensionar o seu trabalho, a sua discografia sob um aspecto amplo, versátil, visando apenas e simplesmente a sua criatividade que, definitivamente tem se expandido, comparando os dois álbuns inaugurais da banda.

“Montecristo” é audacioso, mas nem um pouco pretensioso e indulgente. Traz elementos tradicionais do rock progressivo dos anos 1970, com pitadas discretas de hard rock, mas que goza linhas modernas, melodias cativantes e arranjos que embora apresente estruturas simples, mas que quando seus fragmentos se conectam para narrar a história do Conde de Montecristo entrega uma complexidade de sons que extrapolam a qualidade e a irreverência desta banda que, mesmo calcada em períodos longínquos, dita linguagens sonoras arrojadas e contemporâneas.

E falando em longínqua história, cabe aqui tecer um pouco da história de perseverança do Magia Nera que traduz, em tempos atuais, por intermédio de seus trabalhos, a força motriz necessária para a capacidade incrível de resistência e amor à música que praticam.

O Magia Nera (Magia Negra, em italiano), surgiu na província de La Spezia, na região de Ligúria, Foi formada no ano de 1969 e tinha o nome de La Nuova Esperienza, mudando, no mesmo ano o nome para Magia Nera, inspirada em um nicho dentro do rock n’ roll que tinha uma proposta no oculto, no sombrio e em filmes e personagens de terror e, claro, em bandas como Black Sabbath, Coven, Uriah Heep etc.

La Nuova Esperienza

Começou a tocar covers, caminho natural que toda banda costuma seguir e depois começou a compor material próprio. Em 1970 a banda começou a despertar o interesse do público, da cena local, em sua região que, apesar de pequena, trazia a banda à expectativa de seguir com a sua história e gravar um material novo. Participou, com algum sucesso, de alguns festivais de música, como o Free Festival Pop de Bottagna.

Matéria de jornal sobre o Free Festival Pop de Bottagna

A gravadora Magma Records demonstrou um grande interesse em colocar o Magia Nera em estúdio, mas surgiu um infortúnio, a precariedade, a dificuldade de se fazer turnê, as dificuldades da estrada trouxeram um revés a banda, onde a sua van pegou fogo com todas as suas fitas, com todas as suas músicas gravadas para o seu álbum de estreia, tudo virou cinza. A banda ficou muito desanimada porque eles não teriam tempo hábil para regravar as músicas a tempo e entregar a gravadora para lançar o álbum. O Magia Nera, em 1973, decide se separar, dando fim a banda.

Em 2017, 44 anos depois, o Magia Nera, com quase todos os seus membros originais decide se reunir para trazer à tona as suas músicas levadas pelo fogo, graças também ao selo independente Akarma Records, distribuído pela Black Widow Records.

Emilio Farro (vocais), Pino Fontana (bateria), Lionello Accardo (baixo) e Bruno Cencetti (guitarra), além de Andrea Foce (teclados), que substituiu Orazio Colotto lançaram “L'ultima danza di Ophelia”, em 2017.

O "novo" Magia Nera

O som da banda, em “L'ultima danza di Ophelia”, traz aquela camada soturna, sombria, aliado ao peso, uma “cadência” assustadora, ameaçadora, perigosa. Um hard rock clássico, vintage, mas novo, rejuvenescido, embora tenham regravado todo o material como eram nos anos 1970.

"L'Ultima Danza di Ophelia" (2017)

Avançando no tempo e retornando ao seu segundo álbum, “Montecristo”, é inacreditavelmente audacioso, ambicioso. E embora seja uma missão quase que impossível, pelo menos para mim, de comentar com maestria e competência técnica, obras clássicas literárias que são transpostas para a música, nota-se com as variâncias rítmicas que o seu principal compositor, o guitarrista Bruno Cencetti, queria e conseguiu traduzir com a ajuda do rock progressivo, os momentos mais importantes do romance de Dumas, da forma como ele, Bruno Cencetti, desejava. 

Bruno Cencetti

Cada peça, cada fragmento, cada momento da história de Dumas, foi retratado, traduzido com um aura diferente e que harmonizou fantasticamente com cada momento, em uma simbiose excepcional entre som e a projeção de uma imagem daqueles ouvintes que leram ou viram as adaptações desta obra para o cinema, para aqueles que tem minimamente a capacidade de imaginar, de deixar, de permitir a imaginação fluir.

Mas não se enganem que toda essa engrenagem, essa força motriz que conduz a obra literária em um formato musical pareça indulgente ou arrogante. Mesmo que complexo, versátil, poderoso, é orgânico, simples e que vai direto ao assunto. Embora orgânico tem a incrível capacidade de destacar sensações, emoções que nos transporta para a França no século XIX.

”Montecristo”, por Magia Nera, não foi concebido de uma forma engessada, em uma dinâmica perfeitamente igual à do clássico literário, até por se tratar de um álbum de rock, de uma manifestação musical, Cencetti, o homem por trás da composição, do conceito sonoro, foi hábil, diria astuto e competente na adaptação e incrivelmente bem dividida, em formato de narrativa, em cada faixa, em cada música, nos transportando, à sua moda, com um formato arrojado e extremamente contemporâneo.

A primeira parte, a parte inaugural do romance, a que “constrói” a figura do Conde de Montecristo tem a prioridade do Magia Nera neste álbum-conceito, a parte mais obscura, dolorosa, mas poderosa que os outros fragmentos da história que, em até alguns momentos chega a ser solar e divertido, mostrando, claro, a arquitetura da vingança, mas também o glamour de Edmond Dantes e os frutos da riqueza que herdara.

E analisando a obra sob o aspecto sonoro, instrumental, “Montecristo” é sólido, vivaz, moderno, mesmo trazendo um álbum conceito pouco em voga em períodos onde a música se tornou pasteurizada e rasa, além de extremamente marcante e cativante.

Trata-se basicamente de um álbum de hard progressivo clássico, mas com nuances bem delineadas de frescor, de contemporaneidade, com muita técnica, habilidade e virtude de seus instrumentistas com o vocal especial, dando contorno a toda essa atmosfera. Mas não deixa de soar orgânico, afinal, são uma banda, quatro homens produzindo música!

E falando neles, a formação que concebeu “Montecristo” tinha: Emilio Farro nos vocais, Pino Fontana na bateria, Fabio D'Andrea no baixo, hammond e guitarra e Bruno Cencetti na guitarra e composição das letras das músicas. E voltando na estrutura sonora de “Montecristo”, ele traz quatro capítulos, com três partes cada, mostrando um trabalho sólido e conectado, sendo forte e intenso nas situações mais necessárias da história e na sua narrativa e não muito solene em outras situações em outras, mas vamos às faixas dissecadas!

O “primeiro capítulo” é composto por três faixas: “Il Tradimento”, “Mercedes” e “Il Primo Giorno di Prigionia”. “Il Tradimento” fala basicamente do cerne da história, do coração de todos os eventos subsequentes, da traição que Dantes sofre de seu amigo Danglars, que desejava o posto de capitão do navio que Dantès recebera por mérito, do Juiz de Villefort, filho do destinatário da carta de Napoleão, que, mesmo atestando sua inocência, quis silenciá-lo e de Fernand Mondego, catalão interessado em Mercédès, noiva de Dantès, que o invejava por ser o alvo de seu amor, tornando-se, quando Edmond foi preso, o futuro marido da catalã. A música começa decididamente tensa, em uma atmosfera sombria, “dark”, com uma fala, uma narrativa de Emilio Farro com um timbre muito ameaçador, denso, grave e que logo evolui para riffs poderosos de guitarra, tudo envolto em um ritmo envolvente que parece sintetizar a raiva de Dantès ao ser traído e preso injustamente. Um exemplo de hard prog contundente.

"Il Tradimento"

“Mercedes” é dedicado à mulher que Edmond Dantès amava e que voltara a se casar da última viagem no navio da companhia comercial para o leste em que ele estava embarcado, mas no caminho de volta o comandante adoeceu subitamente ao extremo. Antes de sua morte, no entanto, ele havia confiado o comando da embarcação a esse jovem por quem tinha grande estima e confiança e ao mesmo tempo lhe havia confiado uma tarefa arriscada, a extensão e o impacto subsequente em sua vida, Edmond certamente não podia imaginar, mas qual foi o pretexto para que seus inimigos o incriminassem. A faixa traz uma guitarra meio latina, raízes espanholas, afinal Mercèdés era catalã, com instrumentos de percussão, um bongô, em uma sonoridade sonhadora e contemplativa.

"Mercedes"

“Il Primo Giorno di Prigionia” ou “O Primeiro dia do Cativeiro” expressa o ódio pela injusta prisão de Edmond Dantès, onde por um lado representa a expressão do sentimento malévolo dirigido contra Edmond por seus inimigos e, por outro, alimenta esse mesmo veneno que está se desenvolvendo dentro dele, em vez de uma reação legítima à dor mais moral do que física que ele está sofrendo, tendo perdido não só o benefício da liberdade, dentro da prisão de segurança máxima da ilha de If, na costa de Marselha, mas também a possibilidade nada óbvia de contemplar a beleza das estrelas à noite, fora daquelas estreitas paredes da prisão, além de seu grande amor distante. E para sintetizar isso musicalmente, vem a guitarra pesada, com seus riffs baseados em um poderoso heavy rock de Cencetti, com o vocal igualmente poderoso de Farro, cantado alto e grave, quase que corroborando com o peso da guitarra, juntamente com o Hammond de D’Andrea, tocado freneticamente, sustentado por um som envolvente.

"Il Primo Giorno di Prigionia"

O “segundo capítulo” inicia com a faixa “Ricordi” ou “Memórias” que traz um transborde de emoções que Dantès sofre na prisão, o ódio fomentado pela vingança, a sua privação de liberdade, embora traga alguma boa recordação, porque representa o seu último contato com o mundo exterior que logo rivaliza com a sua atual realidade de prisão, injustiça e dor. A guitarra limpa de viajante de Cencetti retrata esses momentos e lembranças de Dantès que logo irrompe em peso com a “cozinha” em plena sinergia, baixo pulsante e bateria marcada, para personificar o sentimento de vingança e raiva de Edmond.

"Ricordi"

“Tempo” denuncia o momento emocional de Dantès resgatando, até com certa ternura, os seus bons momentos com a sua amada e o seu trabalho à borda de seu navio, comandando toda a sua dinâmica pelo mar, mas também é carregado por um tom de melancolia, sobretudo quando lembra que ainda está preso e o tempo parece não passar. E o acordeão que introduz a música traz esse momento de melancolia e lembrança, alimenta a imaginação da condição do nosso herói, e quando sugere algum peso na sonoridade, ela se desenvolve de forma simples, mas nem um pouco banal, soando bela, contemplativa, mas ainda assim soa também um tanto quanto “dark”, definitivamente melancólica.

"Tempo"

Mas o rock n’ roll mais pesado e intenso volta com “Voci Nella Mente” ou “Vozes na mente” que, com uma sonoridade pesada e agressiva, sintetiza a loucura e irracionalidade em que Dantès vem sofrendo na prisão. O vocal incrivelmente entrega essa condição mental do protagonista, quase paranoica e doentia, diria. A segunda parte da faixa traz a evidência do hammond e violão, alternando entre o peso pulsante.

"Voci Nella Mente"

O “Terceiro Capítulo” (“La Fuga”) chega com “La Galleria” com uma sinergia incrível entre o hammond e a guitarra com riffs fortes, bem trabalhados e altivos. Mas quando o vocal de Cencetti entra traz mais peso, mais força e de uma textura mais arrojada e até delicada nos instrumentos irrompe em um hard rock poderoso e até, por vezes, agressivo.

"La Galleria"

“Requiem Per L’abate Faria” personifica a amizade mais forte e desenvolvida entre Dantes e o abade devido aos longos anos de clausura e dessa amizade forte será fonte da fuga de Dantès e também “sofrerá” uma forte carga cultural que o elevaria do ponto de vista moral e intelectual. A introdução traz um riff de guitarra sombrio, soturno, mas contemplativo.

"Requiem Per L'Abate Faria"

“Il Salto Nel Sacco” conta a ousada e arriscada fuga de Edmond Dantès da prisão. Começa com uma guitarra cativante e baixo encorpado, pulsante e, em um hard rock cadenciado e de tendências pop, a música segue em sua levada dançante e narra, em música, a fuga para um horizonte vazio de mar que o conduz para a liberdade.

"Il Salto Nel Sacco"

O quarto e último capítulo inicia com a faixa título, “Montecristo”, trazendo uma clara ambientação clássica, com um viés evidente do flerte do rock com o progressivo. Mas de um abre alas clássico e austero, irrompe em uma poderosa guitarra anunciando um hard rock potente e visceral e a partir daí é revelado uma música “coletiva” com uma intensa e competente participação de todos os integrantes da banda. O momento que Dantès “Encorpora” Montecristo e, diante de si, ergue-se a “Ilha de Montecristo”, a sua mãe segura e generosa.

"Montecristo"

“Il Duello” traz o momento em que Dantes, o Conde de Montecristo, começa a arquitetar o seu desejo de vingança e a libertação de um pesadelo que durou 15 longos anos. A música é introduzida com um belo, cativante e hábil riff de guitarra, com um baixo pulsante e percussivo, com um hammond que dá uma textura interessante a toda a música.

"Il Duello"

E encerra, finalmente, o álbum com “La Fine” que entrega uma sonoridade totalmente reconfortante, branda e tranquila com o dedilhar de um violão que logo se encontra com um lindo e limpo solo de guitarra. O que certamente denota o fim de uma “guerra”, a vingança de Dantès está completa, mas, como toda guerra, deixa sequelas, algum estrago, algumas feridas que, às vezes, é difícil de cicatrizar. Mas encontra a paz ao lado de sua amada, Mercedes, que por um momento achava que não conseguiria mais amar.

"La Fine"

“Montecristo” não é apenas mais um álbum conceitual, mas o grande álbum conceitual que, em tempos de músicas descartáveis e pobres, aquelas pasteurizadas, mostra que ainda há esperança de proporcionar, além do prazer, mas também cultura resgatando um clássico da literatura mundial.

É inacreditável a convergência narrativa do clássico de Dumas com a música que o Magia Nera construiu e por mais que tenha trazido construções óbvias com base no livro e na sonoridade o fez com estilo, com personalidade, aliando o classic rock, o hard rock e o prog rock, na dosagem certa, sem sobrepor os estilos, mostrando versatilidade e teatralidade.

“Montecristo” é um álbum que foi costurado, manufaturado, com requintes de detalhes, em um artesanato sonoro que há muito tempo não se via, não se ouvia no rock n’ roll na gama de seus clássicos conceituais. “Montecristo” sem dúvida pode ser considerado como um “novo clássico”.



A banda:

Bruno Cencetti na guitarra elétrica

Fabio D'Andrea no baixo e teclados

Emílio Farro no vocal

Pino Fontana na bateria

 

Faixas:          

1 - Il Tradimento

2 - Mercedes

3 - Il Primo Giorno di Prigionia

4 - Ricordi

5 - Tempo

6 - Voci nella mente

7 - La Galleria

8 - Requiem per l'abate Faria

9 - Il Salto Nel Sacco

10 - Montecristo

11 - Il Duello

12 - La Fine




"Monte Cristo" (2020)
















































 


domingo, 9 de agosto de 2020

Rafael Denardi - Adios Rick (2020)


Sabe aquele moleque, tipicamente brasileiro, que se espelha nos jogadores endinheirados e craques do futebol mundial e fala: quero ser um Neymar! Quero ganhar dinheiro e jogar no Barcelona e fazer muitos gols e fazer muito sucesso! Sim, o futebol faz parte da nossa cultura e as escolinhas de futebol espalhadas pelo Brasil é um celeiro de sonhos de crianças que querem ganhar o mundo. 

Mas, para variar, sempre há as ovelhas desgarradas que seguem o caminho mais difícil e que parece fazer questão de ser um marginal, caminhar nos subterrâneos utópicos e decide fazer música! E pior: fazer rock n’ roll sem amarras, que deixa fluir a criatividade, sem se tornar um produto pasteurizado. Assim é o multi-instrumentista RAFAEL DENARDI!

Rafael Denardi

Rafael é o exemplo do “operário do rock” fiel, na verdadeira acepção da palavra. Sofre como muitos músicos que não vivem de jabás da indústria fonográfica ou que vende a alma sonora para ter sua música nos dials radiofônicos, para mostrar a sua arte, batendo de porta em porta para viabilizar seu sonho e ter uma carreira e viver dela, da sua música. 

Trabalham de sol a sol, tem seus reveses, é pouco reconhecido. Mas segue! Segue lutando, porque acredita no que faz, é persistente porque encontra as suas verdades em cada nota musical que concebe que cria. E essa situação se reflete perfeitamente no seu segundo e belíssimo trabalho, lançado em 2020, chamado “Adios Rick”. Mas antes de falar desse EP do Rafael Denardi, é preciso voltar no tempo para explicar o Rafael músico, o Rafael moleque que, ao contrário de muitos outros que empunhavam uma bola e que queria ser um astro do futebol, ele começou a querer, desde cedo e, incentivado pelo pai e vizinho, a ser um músico. 


O rock progressivo foi a segunda vertente que ele descobriu. Claro que o garoto, além de querer ser músico, ouvia música pesada, heavy metal e afins. E, vale conferir o último trabalho do cara, também lançado em 2020, chamado “Two Handfuls of Rock”, um verdadeiro petardo que mescla hard rock setentista, stoner rock e hardcore. Tendo ainda outro álbum, o seu debut, lançado em 2014, chamado de "One".

"Two Handfuls of Rock"

O pai ouvia algumas coisas, conhecia algo aqui ou acolá, mas ele tinha um vizinho que tinha uma invejável coleção de CDs de rock progressivo, que ia de Gentle Giant até Ozric Tentacles. Então o jovem Rafael pediu ao seu vizinho para gravar algumas cópias das bandas que ele mais apreciava e ouviu até dizer chega, até os CDs ficarem gastos. 

“Adios Rick” é um resultado de suas peraltices de criança marginalizada e desgarrada que preferia ouvir rock progressivo a jogar bola nas ruas de São Caetano do Sul, onde nasceu e vive até hoje. Nas palavras do próprio Rafael Denardi: “Quis criar algo progressivo e setentista porque foi exatamente esse gênero e esse período que me tornaram um apaixonado pela música, por baixo e pelo Rickenbacker.” 

É um compilado de sua vida, de sua infância pouco ortodoxa. O EP traz influências sólidas e evidentes de bandas do submundo do hard progressivo alemão, da agressividade germânica, da complexidade pesada do Emerson, Lake & Palmer e do velho Galo Atômico, do Atomic Rooster dos tempos mais viscerais do grande vocalista e guitarrista John Du Cann! A propósito Rafael Denardi se comparou ao vocal, segundo ele, esganiçado, de Du Cann! 


John Du Cann

O rapaz definitivamente é muito humilde, uma humildade que se rompe pelo talento que tem. E esse talento se multiplica pelos instrumentos que toca sozinho neste trabalho. É isso mesmo: Rafael toca todos os instrumentos em “Adios Rick”! A bateria virtual, o seu melhor amigo, o baixo Rickenbacker, os teclados virtuais, assinou a produção (caseira e artesanal) e a concepção do álbum, compôs as músicas, como um trabalhador brasileiro, fez e faz tudo, sem esmorecer! 

E o seu inseparável amigo, o baixo Rickenbacker, é a razão do nome de seu EP e aqui vale a pena ler a história. Rafael perdeu seu emprego no início de março deste ano, mas tinha umas reservas monetárias que logo se foi e se viu obrigado a vender seu inseparável baixo. Que decisão terrível para um músico! Começou a procurar compradores e um cara de São Paulo deu um lance e ainda ofereceu um Giannini AEB010, a réplica nacional do 4001. 

Então, desse sentimento de perda, saiu o “Adios Rick”, daí o nome. O processo de composição e gravação de “Adios Rick” veio no começo de junho, surgindo um riff no seu baixo rapidamente. Foi adequando as ideias ao seu estilo de tocar dando contornos ao trabalho. E é assim que começa a primeira parte do álbum, a faixa inaugural, intitulada “Adios Rick Part I e II”. 

Poderoso, dinâmico, avassalador, o baixão rickenbacker pulsando forte, a bateria marcada, teclados acompanhando o ritmo e trazendo uma atmosfera progressiva e complexa ao som que, ao mesmo tempo, é passional, visceral e agressiva. Rafael quis fazer versos mais memoráveis e fáceis de digerir porque sobre eles que construiu  toda a narrativa da música, então, segundo ele, não dá para encher o ouvido do seu público de informação. “E a segunda parte, mais bagunçada e agressiva, simboliza que algo realmente mudou. O panorama econômico mudou e o único bem que poderia se desfazer e que lhe daria um conforto financeiro por um tempo era o baixo”, então era uma transição natural entre dois momentos, completou Denardi sobre esse fragmento do “Adios Rick”.


“Adios Rick Part III”, mais curta, mais pesada e agressiva, traz o personagem principal, o bom e necessário “rick”, em um solo desconcertante e pesado que, nas palavras de Rafael Denardi significa, no contexto da mensagem, um momento para expurgar sentimentos ruins e a raiva que sente com a atual situação horrível pela qual o  Brasil passa deixando sua sociedade vulnerável e de joelhos, sendo capitaneadas por boçais governamentais. Com uma bateria introdutória mais jazzística, diria. Os teclados, mais frenéticos e caóticos, torna essa percepção mais tangível, nota-se uma evidente referência de Keith Emerson por aqui.


“Adios Rick Part IV e V” traz um belíssimo desfecho, mais elaborada, com uma “queda” para um progressivo mais genuíno com influências das bandas mais pesadas da Inglaterra, com o protagonismo do teclado e bateria, tendo o baixo como mero coadjuvante, dando uma camada menos densa e mais trabalhada a faixa, de quase oito minutos de duração. Mais o baixo logo ganha destaque na metade da música, fazendo um salutar dueto com o teclado. Rafael Denardi envelopa, com resquícios de raiva, o conceito da música, do EP.


O processo de gravação foi feita parte a parte, com a bateria virtual, depois os teclados que também é virtual e depois o baixo. Denardi confessa ainda que nunca tinha feito uma composição sequer de teclado e em “Adios Rick” foram doze solos! Um verdadeiro desafio que se permitiu fazer. Um trabalho ousado para a sua história, embora curta, mas cheia de significados e momentos pouco lineares. Nesse período oficializou a venda do seu tão querido baixo rickenbacker, conseguindo adquirir uma réplica. Tudo fora gravado e mixado em sua casa, gravando os vocais em um estúdio no Centro de São Paulo. “Adios Rick” teve duas capas: uma para lançamento e promoção, que foi feita pelo próprio Rafael Denardi e a outra pela ilustradora paulistana chamada Ingrid Koritar.

Capa de "Adios Rick" criada por Rafael Denardi

Capa concebida pela ilustradora Ingrid Koritar

Um trabalho concebido, como muitos na história do rock n’ roll, em momentos de adversidade, de dificuldades, de provações, que faz colocar á prova o músico, o homem, que olha para o seu passado, ainda se delineando pelas predileções pelo rock progressivo e o músico que vem tomando forma do presente. As várias personificações do Rafael Denardi se encarando, se olhando e, diante dos desafios da vida, vai edificando a sua verdade sonora. Assim é “Adios Rick”, a sua relação com a música e todos os reveses externos que o edifica.




A banda:

Rafael Denardi nos vocais, na bateria e teclados virtuais e no baixo rickenbacker

Faixas:

1 – Adios Rick Part I e II
2 – Adios Rick Part III
3 – Adios Rick Part IV e V





Audição de “Adios Rick” no Bandcamp:


E Download: