Mostrando postagens com marcador 1981. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1981. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Quarto Crescente - Quarto Crescente (1981)

 

Uma de minhas grandes alegrias durante esse período em que produzo textos de bandas e álbuns obscuros, esquecidos pela mídia, pelo tempo e até pelos fãs de rock n’ roll é desbravar, conhecer coisas novas, independente do período em que foram concebidos.

Essa busca incessante pelos músicos e bandas que amamos, essa avidez rumo a desconhecidos caminhos que nossos músicos fizeram em sua trajetória musical é digno de um prazer imensurável. Apenas os fãs pela música obscura saberão descrever isso com requintes de detalhes.

É claro que são projetos esquecidos não apenas pelos fãs ou desconhecidos, mas negligenciado pelos próprios músicos, algo feito que fugiria, diria, de uma “normalidade” discográfica desse músico.

E vou exemplificar um que considero um dos expoentes da música pesada no Brasil. Um cara que deixou, de forma indelével, a sua marca no hard, no heavy e que merece, por todo sempre, ser reverenciado: Falo do grande Percy Weiss.

Percy Weiss

Aos que acompanha o rock brasileiro, sobretudo dos anos 1970, Weiss conquistou notoriedade tocando em bandas seminais como Made in Brazil, tida hoje como a banda mais antiga em atividade no Brasil e certamente uma das mais influentes desse país. Sua estreia foi com o excelente “Jack, o estripador”, de 1975, o segundo trabalho da banda.

Percy teve a difícil responsabilidade de substituir outro grande vocalista do rock brasileiro, o teatral e influente Cornelius Lucifer que se notabilizou pela sua estética subversiva e extravagante. Ele ficou conhecido por gravar o debut do Made in Brazil, que completou 50 anos em 2024, conhecido pelo “Disco da banana”, de 1974. Percy sofreu com as comparações com Cornelius no início, mas, com seu carisma e presença de palco, além, é claro, de sua potente voz, acabou conquistando seus fãs.

Percy com o Made in Brazil

Weiss participaria do seminal e censurado álbum “Massacre”, gravado em 1975, mas podado pela infame Ditadura Militar sendo engavetado, proibido de ser lançado, vendo a luz apenas em 2005. Weiss deixaria a banda em 1979 para tocar em outra importante banda do cenário rock brasileiro chamado Patrulha do Espaço substituindo outro seminal vocalista, que fez sucesso nos Mutantes, o Arnaldo Batista. 

Percy tocaria junto com músicos excepcionais como os já falecidos guitarristas Dudu Chermont e Walter Baillot e do baixista Cokinho, além, claro, do baterista Rollando Castello Junior. Um cara com esse currículo musical não poderia deixar de ganhar adeptos, seguidores fieis, verdadeiros apreciadores, do genuíno rock brasileiro da melhor década, a de 1970.

Mas esse grande vocalista, como tantos outros, começou sua carreira em bandas totalmente, diria, atípicas e diferentes, em termos sonoros, do que ele se notabilizaria. Para se ter uma noção, ele iniciaria a sua trajetória musical em bandas de baile, o que, de certa forma, era comum, na transição dos anos 1960 para os anos 1970 no Brasil. 

E a primeira era a U.S. Mail e, para variar, as bandas tinham nomes em inglês e cantava músicas igualmente em inglês nas domingueiras do Clube Banespa, em São Paulo, cidade que adotou desde os cinco anos de idade. Mas o que verdadeiramente me chamou a atenção foi ouvir a voz inconfundível e poderosa de Percy Weiss em uma banda chamada Quarto Crescente, que passou pela vida do grande vocalista antes do Made in Brazil e Patrulha do Espaço, em 1973.

E um dos grandes momentos de se conhecer bandas obscuras é ter a alegria, não só de desbravar os escombros empoeirados do rock nacional, vilipendiado pela grande mídia e indústria, mas também possibilita navegar nos mares selvagens e intocáveis das carreiras de músicos emblemáticos, como Percy, por exemplo.

Mas não enganem, caros e estimados leitores, que o Quarto Crescente, que Percy Weiss tocou nos anos 1970 é a banda QUARTO CRESCENTE que irei falar neste texto, aquela, igualmente obscura e desconhecida do início dos anos 1980, mas prometo explicar com requintes de detalhes.

Mas ambas as bandas, de mesmo nome, eram bandas totalmente desconhecidas, claro, por isso figuram aqui neste reles e humilde blog, mas o Quarto Crescente oitentista contava com músicos tarimbados, a começar pelo próprio Percy, que à época quando foi convidado, já gozava de fama, bem como Babalu, nome artístico de Antônio Medeiros Junior, também conhecido como Tony Babalu, que também, como Percy, chegou a gravar alguns álbuns com o Made in Brazil.

Não podemos esquecer de que Percy Weiss foi o frontman de bandas como Chave do Sol, mostrando que era um músico de versatilidade, não se limitando ao hard rock e heavy metal. E foi exatamente por isso, além, claro, da admiração que tenho pelo seu trabalho, que me chamou a atenção, essa versatilidade. E o que dizer, já que falamos do heavy metal, de sua participação na banda dos anos 1980, o Harppia?

Percy com o Harppia

Gravou talvez um dos mais influentes trabalhos, não apenas da banda, mas de toda uma cena pesada underground daquela década, o “7”, de 1987. Weiss foi convidado quando o vocalista original, Jack Santiago, se recusou a continuar no projeto de retomar a banda, após sua dissolução precoce, saindo da banda. Embora o Harppia não tenha respirado os ares do sucesso, “7” se tornou referência no estilo, afinal ter, em sua formação, Weiss no vocal, Tibério Luthier na bateria, Cláudio Cruz no baixo, Fillippo Lippo e Flávio Gutok nas guitarras, não poderia ser diferente.

Mas o assunto é o Quarto Crescente, o Quarto Crescente dos anos 1980. “Quarto Crescente”, o álbum, nasceu do desejo do baterista Horácio Malanconi Neto, de gravar um trabalho de estúdio, com músicas autorais. Nos primórdios da banda, os jovens músicos começaram como uma banda de bar e utilizaram o curioso nome de “Cadela”, mas quando decidiram que iriam levar a sério o projeto de gravar um álbum, optaram por um nome, digamos, menos impactante ou, para alguns, melhor.

Os jovens músicos, a “ala” menos conhecida da formação que gravou o único trabalho do Quarto Crescente, quando convidou Percy Weiss para o cargo de vocalista da banda, lembraram que Weiss havia tocado, lá em 1973, em uma banda chamada “Quarto Crescente” e perguntaram ao vocalista se poderiam usar o nome, já que a banda não existia mais, Percy autorizou e a partir daí, surgiria a nova e mais arrojada “versão” do Quarto Crescente, porém com o Percy novamente como frontman.

O álbum, como acontece com várias bandas undergrounds, foi concebido em tempo recorde, levando, pasmem, uma semana para gravar, mixar e masterizar o trabalho. A produção e a direção dos arranjos são dos próprios músicos, o que corrobora a condição das bandas independentes no Brasil e no mundo também. Completava a banda, além de Horácio, Percy e Babalu, Tigueis no baixo.

“Quarto Crescente” tinha tudo para ser sucesso comercial, afinal tinha um já Percy e Babalu que gozavam de alguma reputação e experiência, além de trazer músicas lentas, algumas boas baladas de apelo comercial, mas muito bem-feitas. O álbum trazia um rock n’ roll voltado para o hard rock, o classic rock, música brasileira e umas discretas pitadas de rock progressivo e até mesmo um blues rock.

O álbum é inaugurado com a faixa “Bicicleta” que é envolvida por uma belíssima balada blues, sustentada pelo lindo e melódico vocal de Percy Weiss, mostrando versatilidade. Solos de guitarra breves, mas viajantes, contemplativos, com uma entrosada e linda seção rítmica entregando uma textura mais comercial. A letra personificação a condição sonora.

"Bicicleta"

“Serra Pelada” vem com uma pegada totalmente distinta. Algo de country rock é evidente. Uma faixa solar e animada, e a gaita ganha destaque, fazendo da música um pouco mais dançante, mas a letra traz um cenário meio apocalíptico daqueles tempos e dos atuais também.

"Serra Pelada"

“Aves Noturnas” traz outra vibe do álbum e agora é o hard rock que ganha protagonismo. Guitarras mais pesadas, baixo mais pulsante, bateria com mais pegada, com mais peso e agressividade, com vocal mais pungente, vivo e alto. A potência vocal de Weiss nos remete ao Made in Brazil de um passado não muito distante em sua carreira. Essa faixa trouxe uma discussão polêmica. Para muitos há uma semelhança desta com a música do Made in Brazil chamada “Me Faça Sonhar”, do álbum “Minha Vida é o Rock n’ Roll”, de 1981. A questão do plágio foi levantada, mas a polêmica é: quem plagiou? O Quarto Crescente ou o Made in Brazil? Ambos os álbuns foram gravados em 1981!

Mas tudo indica que não ocorreu plágio e tentarei explicar, caros leitores: pouco antes da separação de Percy com o Made in Brazil, ele e Oswaldo Vecchione haviam começado a trabalhar uma nova música que ficou inacabada. E os dois tiveram a ideia de terminar a faixa inacabada para o projeto que estavam desenvolvendo, daí a aparição de algumas frases em comum nas duas músicas.

"Aves Noturnas"

A faixa seguinte traz um medley intitulado “Jovem Guarda” com parte das faixas “Gênio”/”Pica Pau”/”Parei na Contra Mão”/”Rua Augusta”/”O Bom”/”Splish/Splash”/”Você me Acende”. É bem divertido, animado, mas fica nisso. A banda decidiu lembrar um pouco do popular movimento musical que dominou as paradas de sucesso de meados dos anos 1960.

"Jovem Guarda"

Segue com “Mercado Modelo” retoma a pegada mais pesada do álbum, sendo animada, pesada, que já começa com solos curtos, pesados e diretos de guitarra e que remete um pouco dos anos 1960 do rock no Brasil, sendo bem dançante, algo um pouco voltado também para o rockabilly. Certamente uma das melhores faixas do álbum e que retrata com fidelidade dos comportamentos da sociedade à época em sua letra.

"Mercado Modelo"

“Boa Garota” traz de volta as baladas do álbum, mas com um toque mais “apimentado”, mais pesado. A presença dos riffs de guitarra corrobora esse detalhe picante. Os vocais, mais uma vez, cheio de sedução e balanço de Weiss se destaca, bem como a presença da flauta contrabalanceando o peso, mas executado com personalidade.

"Boa Garota"

Segue com “Regue Fajuto” e, como sugere o nome, traz a pegada reggae, mas com uma levada um tanto quanto new wave e um apelo radiofônico e letra romântica que corrobora esse apelo comercial. Não podemos negligenciar, contudo, o trabalho de baixo de Tigueis que é fabuloso, cheio de groove e ritmo. Cabe aqui, já que mencionei em Tigueis, não podemos comparar ou lembrar do Tigueis da banda Chave do Sol, mas não é. O Tigueis do Quarto Crescente Antonio Carlos Lopes e é conhecido por seu trabalho de luthier e seu registro ao lado do grupo Cão Fila.

"Regue Fajuto"

“Fique Frio” resgata a sonoridade do Made in Brazil, mas não se caracteriza como plágio, afinal, Percy trazia um pouco do DNA da banda por ter feito parte dela em seu ápice musical e criativo. Mas em “Fique Frio”, além do hard rock, traz aquela pegada dançante que me remete, como em “Boa Garota” aos anos 1960.

"Fique Frio"

E fecha com “Triste Cidade” da mesma forma como começou o álbum, com uma faixa voltada para o blues rock, mas nesta a veia blueseira me parece mais viva, evidente e pesada. O trabalho da guitarra é muito mais apurado nesse sentido e a gaita ganha mais protagonismo trazendo o balanço do velho blues. Solos de guitarra mais elaborados, a “cozinha” entregando um groove legal. Fechou em grande estilo!

"Triste Cidade"

A minha reverência com o gigante e inesquecível Percy Weiss me possibilitou desbravar o lado obscuro de sua brilhante trajetória musical me fazendo descobrir o Quarto Crescente e a sua faceta mais despojada, livre e consequentemente versátil. Um Percy blues rock, blueseiro, MPB, rockabilly. Um múltiplo músico que merece todas as reverências eternas. Quarto Crescente entregou ao mundo um álbum sem pompas, simples, cru em sua concepção, simples, um som sincero feito com a verdade de quatro músicos que só queriam produzir música dignamente no Brasil dominado por pseudo músicas pasteurizadas para atender a efêmeras necessidades de mercado.

Em “Quarto Crescente” tiveram alguns músicos convidados fazendo percussão, gaita, flauta, mas não consegui encontrar nenhuma referência com os seus nomes para aqui elencar. Um trabalho atípico, mas extremamente palatável a vários ouvidos, dos mais exigentes até aqueles que apreciam a verdadeira música popular.


A banda:

Percy Weiss nos vocais

Tony Babalu na guitarra

Horácio na bateria

Tigueis no baixo

 

Faixas:

1 - Bicicleta

2 - Serra Pelada

3 - Ave Noturna (Rock n Roll)

4 - Jovem Guarda: Gênio / O Pica Pau / Parei Na Contramão / Rua Augusta / O Bom / Splish Splash) / Você Me Acende

5 - Mercado Modelo

6 - Boa Garota

7 - Regue Fajuto

8 - Fique Frio

9 - Triste Cidade


"Quarto Crescente" (1981)


Download de "Quarto Crescente" aqui




















 















terça-feira, 25 de julho de 2023

Vôo Livre - Vôo Livre (1981)

 

Sabe aquelas percepções que você tem e que parece não fazer sentido nenhum dentro de um contexto, digamos, real, racional? Algo que percebe no universo da música e que não ter a mínima sustentação?

Tudo bem caríssimos leitores, eu explico, eu explico! Eu sempre tive a percepção de que bandas e músicos, embora não sejam conhecidos, não tenha conquistado status de algo dentro de sua cena, a desbravou de alguma forma, fez parte da sua história, de sua construção e, inclusive, a ajudou a se popularizar ou minimamente se fazer possível servindo de referência para outras bandas surgirem.

Mas como atribuir tal façanha a bandas que sequer conquistou sucesso e fama? A história, a história contada que sacramenta, que corrobora a sua importância, a sua colaboração para o rock n’ roll! E não se enganem, a sua importância não se mensura apenas para fama e os milhões de álbuns vendidos somente.

Fracasso e sucesso não se mensura pelo aspecto comercial apenas. Sucesso também é entendido e percebido quando uma banda subverte o tempo, ousa com sua música vanguardista e arrojada para o seu tempo e edifica um conceito que servirá de inspiração para o surgimento de outras tantas bandas posteriormente.

E uma banda brasileira, mais precisamente da cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, creio se adequar a esses quesitos, mesmo não sendo famosa, muito pelo contrário, extremamente obscura, rara, mas que praticamente se tornou pioneira no rock n’ roll gaúcho tão respeitado nos dias de hoje. Falo do VÔO LIVRE.

O Vôo Livre, quando ainda a palavra “vôo” era acentuada, foi formada já no final dos anos 1970, mais precisamente em 1979, em um período em que algumas vertentes do rock n’ roll estavam em declínio comercial, tais como o hard rock e o rock progressivo, dando lugar para o punk rock em uma abordagem mais suja e direta, entre outras músicas mais pasteurizadas e “animadas” que não flertavam com o rock.

O cenário não era nem um pouco favorável para o Vôo Livre que construiu a sua sonoridade com base exatamente no hard e prog rock! Mais um entrave que fez com que a banda não atingisse o sucesso comercial, caindo em um profundo ostracismo.

Mas falemos dos seus primórdios, antes de dissecar o seu único álbum lançado em 1981, homônimo. O Vôo Livre teve início a partir da reunião entre o guitarrista Luís Bento e o baterista Luís Vieira. Os caras estavam entusiasmados para fazer algo novo, queriam ousar para variar e formam a banda “Palha Mágica”, em 1979.

Mas precisavam, claro, como toda banda em seu início, de compor material para quem sabe gravar um álbum e cair na estrada para divulgar a sua arte. Pouco tempo depois o baixista Chico Castro se junto à banda, completando a formação clássica de power trio.

Os ensaios se intensificaram e com isso foram se entrosando cada vez mais e as suas influências musicais se fizeram presentes, moldando a sonoridade da banda, construindo uma identidade e que variava do Deep Purple ao Genesis, Rush e até mesmo o King Crimson. 

A banda flertava em várias vertentes dentro do rock deixando a sua criatividade aflorar sem amarras, o que lamentavelmente se torna um fator determinante para se tornar uma banda pouco conhecida, pois costumam não se adequar aos modismos da indústria fonográfica.

Eram vertentes que não estavam mais na “moda”. O punk e o heavy metal oitentista, a década está batendo na porta, estavam aflorando como as novas propostas sonoras do rock, mas os jovens músicos decidem seguir as suas verdades na música, contra tudo e todos.

Após alguns shows mais restritos, modestos no circuito universitário de Pelotas e de regiões no entorno, os caras resolvem partir para algo mais “ousado”. Ambicionavam tocar na capital Porto Alegre. E aí decidem mudar o nome da banda, talvez inspirados pelo novo momento: passaria a se chamar “Vôo Livre”. Afinal a banda estava alçando novos e altos voos para conseguir um lugar ao sol no cenário rock gaúcho, ainda embrionário.

Mas faltava grana para esse voo alto. Luis Bento, o guitarrista, bancou praticamente sozinho com todos os custos de seu sonho e dos seus companheiros de banda. Todos os seus recursos, sem pestanejar foram investidos para esse momento importante do Vôo Livre.

No ano seguinte, em meados de 1980, o Vôo Livre atrai rapidamente a atenção do público local mais ligados às correntes de rock progressivo e fusion, bem como do hard rock, que, mesmo diante de um cenário adverso, ainda mantinha interesse em composições mais ousadas e de textura sonora mais trabalhada. A banda se ancorou nesse público que a aceitou, certamente porque não tinha uma cena encorpada desse estilo na capital gaúcha. Entendem o que falei no início desse texto?

Desde sua primeira aparição o Vôo Livre apresentou uma bela estrutura profissional de alto nível, com equipamentos modernos, P.A. próprio e, até mesmo, uma equipe de produção. Mas eles não queriam ficar apenas nos shows, precisavam logo gravar um álbum.

E diante dessa nova etapa, o Vôo Livre estabelece uma parceria com o recém-criado selo independente “Pialo”, do guitarrista Fernando Bohrer, e começam a trabalhar no disco, que viria a ser lançado em agosto de 1981. A formação, além do power trio que formou a banda, trazia, como participação especial, o tecladista Paulo Dorfman que tocou na faixa “Pôr do Sol”.

Acompanhado de muitas apresentações e até mesmo uma pequena excursão de lançamento, o novo álbum, o seu debut “Vôo Livre”, surpreendeu tanto o público quanto a crítica, tomando o rock gaúcho de assalto, elevando-o. Esse trabalho do Vôo Livre é considerado por muitos o primeiro no gênero totalmente gravado e produzido em Porto Alegre.

O álbum também é considerado pioneiro também nos novos formatos de gravação, com a introdução de técnicas de estúdio modernas e inovadoras para a época, com excelentes recursos de gravação, efeitos e percussões eletrônicas.

“Vôo Livre” entrega elementos de música progressiva, com mudanças rítmicas evidentes e o peso do hard rock, com algumas “nuances” de rock experimental, se configurando como um álbum extremamente ousado e versátil para a sua época no Brasil, que tinha no “Rock Brasil” como algo mais interessante e que estava florescendo nessa época em Brasília e no Rio de Janeiro, por exemplo com viés da new wave britânica.

O álbum é inaugurado com a faixa “Hey” e tem na estrutura sonora uma “cozinha” extremamente entrosada, com baixo pulsante e pesado e bateria bem marcada, com a veia hard rock sendo representada por riffs de guitarra com alguma distorção e um vocal bem melodioso e de bom alcance. A faixa tem a predominância do hard rock sendo mais direta.

"Hey"

A sequência traz a faixa “Visão” que já traz a proposta mais progressiva lembrando bandas icônicas como O Terço, por exemplo. A introdução traz uma atmosfera mais branda, com teclados mais viajantes e guitarras mais contemplativas. O vocal é mais dramático, diria até melancólico em alguns momentos, embora a letra traga algo solar em sua mensagem. Um belo prog rock em pleno anos 1980.

"Visão"

E falando em temas e vibes mais viajantes, a próxima faixa se chama “Viagem”, mas já traz uma abordagem mais pesada, com o baixo mais pulsante e vibrante, com solos incendiários de guitarra. A música é instrumental e tem no hard rock a sua ideia central, com algumas mudanças rítmicas bem arrojadas trazendo algo como metal progressivo, dada a velocidade da faixa. Fantástico!

"Viagem"

Segue com a faixa “Chuva Forte” que já inicia com solos de guitarra mais diretos que logo abre alas para riffs mais pesados e um baixo pulsante e poderoso com uma pegada hard predominando novamente, com algo bem heavy rock dada a velocidade que é imprimida na faixa. Hard n’ heavy de excelente qualidade!

"Chuva Forte"

“PZ4429” começa meio jazzy com alguns recursos jazzísticos tendendo para algo um tanto quanto para as improvisações, ao estilo “Jam Sections”. Logo descamba para o blues rock, corroborando a sua condição de improvisação, com a criatividade e talento aflorados.

"PZ4429"

E fecha com a faixa “Pôr do Sol” que já entrega uma abordagem mais comercial, uma pegada mais radiofônica, mas que não deprecia a sua estrutura sonora. Guitarra mais dançante, vocal mais melodioso, letras mais edificantes e hippies.

"Pôr do Sol"

Depois dessa extensa, tensa e cansativa turnê, com muito trabalho para promover o seu primeiro álbum, os músicos da banda começaram a sentir o desgaste. O ritmo intenso acaba pesando no aspecto emocional e alguns desentendimentos afloraram. Resolveram interromper as atividades justamente logo após o show comemorativo chamado “Um Ano na Estrada”.

Mas não parecia ser um fim, tudo indicava que eles precisavam de um tempo de descanso, depois dessa intensa maratona de shows. Tanto que o Vôo Livre voltaria a se reunir em 1985 para a gravação de um novo álbum e a intenção era buscar uma sonoridade ainda mais progressiva.

O álbum seria chamado de “Memórias”, teria material de arquivo registrado entre maio e agosto de 1981, com novas composições, trazendo propostas mais modernas e algumas influências eletrônicas e experimentais, tendo como base, como alicerce o rock progressivo.

Mas o mercado fonográfico não estava dando a mínima para o rock progressivo e outras vertentes mais experimentais (na realidade nunca apoiou) e o projeto do Vôo Livre com o seu segundo álbum, “Memórias”, com o perdão da famigerada analogia, não alçou voo.

As gravações sequer chegaram a ser finalizadas. Reza a lenda de que as faixas só existem as bases, e mesmo as músicas em estágio mais avançado carecem de uma mixagem adequada, fazendo com que não haja condições de se lançar hoje esse registro na íntegra, na forma de um álbum inédito e completo.

O que nos restar é esperar que a banda se reúna e consiga algum selo para bancar esse lançamento, caso ainda exista. Haja vista que atualmente temos alguns bons relançamentos que estavam perdidos no fundo do baú do rock.

Mesmo com a boa receptividade da imprensa especializada e dos pequenos, mas ávido público com o debut “Vôo Livre”, além de alguns boatos sobre reuniões, a separação do trio se revelou definitiva e seus integrantes parecem ter seguido caminhos bem distintos, dispersando-se em diferentes cidades. Tudo indica não terem mais contato entre si.

Em 2011 o raro álbum homônimo da banda, foi relançado, transcritas das fitas masters originais e cuidadosamente restauradas e remasterizadas no formato digital por Lelo Nazario, trazendo três bônus especiais: duas faixas inéditas que são “Vôo Livre” e “Chamada a Cobrar”, resgatadas e selecionadas dentre as fitas das gravações inacabadas de “Memórias”, mais uma faixa que se chama “Tempo Futuro”.

A faixa “Tempo Futuro” foi incluída originalmente na eclética coletânea de nome “Porto Alegre/Rock”, que foi lançada em 1985 pela parceria dos selos Musi’sul/Pialo e que reunia músicos e bandas remanescentes dos anos 1970, como a banda Byzarro e o exímio e saudoso cantor Fughetti Luz da grande banda Bixo da Seda e do pioneiro Liverpool a novas bandas, até então, do rock gaúcho.

Um clássico obscuro, perdido no tempo, mas que resiste bravamente, por ser, mesmo diante de entraves comerciais e modistas, uma referência para a história do rock n’ roll gaúcho tão enaltecido nos dias de hoje, por ser um centro desta vertente em todo o Brasil. Altamente recomendado!


A banda:

Chico Castro no baixo, teclados e vocal

Luís Vieira na bateria, sindrum e vocal

Luís Bento na guitarra, efeitos e vocal

 

Com participação especial:

Paulo Dorfman nos teclados na faixa “Pôr do Sol”

 

Faixas:

1 - Hey

2 - Visão

3 - Viagem

4 - Chuva Forte

5 - PZ4429

6 - Pôr Do Sol