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domingo, 12 de abril de 2026

Triade - 1998: La Storia di Sabazio (1973)

 

A influência do britânico Emerson, Lake & Palmer para o rock progressivo italiano é notório! Não falo de plágio ou que a Itália progressiva se deita na fama sonora do ELP para construir o seu som. É perceptível! Mas ainda assim a Itália, mesmo com a forte influência, e assim devemos chamar, soube edificar a sua sonoridade com qualidade e originalidade.

Os teclados, as texturas sinfônicas baseadas na música clássica serviram e ainda servem de sustentáculo para o prog italiano. A maioria das bandas clássicas da Itália traz essas nuances de forma latente, viva. As bandas progressivas italianas, principalmente aquelas que atingiram o status de pioneirismo, foram movidas pelo teclado, pelas notas sinfônicas, com um forte toque de dramaticidade tipicamente italiano.

E a banda que falarei hoje indica a forte influência do Emerson, Lake & Palmer, mas, claro, assume também uma história calcada no mistério e na escassez de informações. Assim deve ser, afinal, essa é a razão de ser deste humilde e reles blog que você, estimado leitor, lê. A banda se chama TRIADE.

O Triade era é uma banda que foi concebida na cidade de Florença, na Itália, no início dos anos 1970 e, como o ELP, era um trio que, por décadas, não se sabia seus nomes. Sim, já começa por aqui! No seu único álbum, lançado em 1973, de nome “1998: La Storia di Sabazio”, o selo de Milão, Derby, não creditou seus nomes no vinil. Na realidade apenas seus sobrenomes apareciam como créditos na arte gráfica do álbum. E isso fomentou a aura sombria que pairava na história da banda.

Mas de certa forma isso era comum entre os jovens músicos italianos de rock progressivo na década de 1970 onde se usava nomes “fantasmas” ou pseudônimos para evitar problemas legais, pois a maioria não eram membros da Siae, a italiana Riaa.

Somente anos mais tarde, por intermédio de um árduo trabalho, o historiador de Rock Progressivo Italiano, Augusto Croce e o músico Enrico Rosa descobriram o mistério e a história foi revelada. O tecladista Vincenzo Coccimiglio (que tinha apenas 18 anos na época) conheceu o baixista Agostino "Tino" Nobile em um clube de Rock. Os dois se deram bem e cada um escreveu um lado do material no álbum. Demorou algum tempo, mas eles finalmente encontraram um baterista bom o suficiente para lidar com o que eles escreveram: Giorgio Sorano.

As origens do Triade, no início dos anos 1970, surgiram a partir da banda “Noi Ter”, onde Agostino tocou com Franco Falsini, do Sensations Fix e Paolo Tofani, do I Califfi e, posteriormente, do Area. Ele trabalhou então no Space Electronic, em Florença, onde conheceu Vicenzo. Começaram a tocar juntos e, como disse, compuseram cada um deles, um lado do álbum e com a adição de Sorano formaram finalmente o Triade.

A origem do nome "Triade", poderia ser usada em vários contextos. Talvez religioso, as três divindades, os três músicos ou ainda musicais, um acorde com três notas. O fato é que a nomenclatura tem origem, gira em torno do número "3". A tríade é um termo que se refere a um conjunto de três elementos, pessoas ou coisas. A palavra vem do grego, "trias" que significa "três". O fato é que a origem do nome, sem dúvida, gira em torno do número "3". E já que falei da arte gráfica, o belo trabalho da capa do álbum, foi de responsabilidade da namorada do baterista que era design gráfica.

Triade

Eles foram contratados pelo produtor Elio Gariboldi (um famoso produtor italiano, mais conhecido por ter feito parte da banda italiano “Squallor”) e também contratado, de forma imediata, pelo selo Derby. Em 1973 “1998: La Storia di Sabazio” foi gravado no Rossi Studio, em Milão, e teve a arte, bem interessante e enigmática, desenhada pela esposa de Sorano. Convém lembrar que o selo Derby já havia produzido muitos álbuns de Toquinho ou Gianni Bella, uma gravadora que nada tinha a ver com rock progressivo.

“1998: La Storia di Sabazio” apresentava uma obra conceitual, pequenas “peças” progressivas de no máximo dois ou três minutos cada, explorando diferentes progressões e arranjos instrumentais, tendo o teclado como ponto central de sua música. Tal construção me remete e muito o estilo “Tarkus”, clássico do Emerson, Lake & Palmer”, com os teclados em destaque, sobretudo na primeira faixa, “Sabazio”, que é dividida em quatro partes instrumentais.

O único álbum do Triade é, como disse, fortemente influenciado por Emerson, Lake & Palmer, isso é inevitável, mas não se pode afirmar plágio ou cópia, mas a forte influência britânica na música progressiva italiana. Assim como suas inspirações inglesas, a música do Triade focava em um jogo intenso entre teclados, claro, e seções rítmicas marcadas. E assim se percebia no primeiro lado do álbum, composto por Vincenzo Coccimiglio. Um som instrumental, curtas faixas, influências clássicas, prog com psych em várias partes, um som suave nada intrincado, mas com o toque requintado das teclas de Vincenzo, mostrando virtuosidade.

O segundo lado do álbum, continua no rock progressivo, mas com forte viés melódico e sinfônico, onde Agostino Nobile, compositor das faixas, surge com violão acústico, em vez do baixo, acompanhando os teclados. Aqui, neste lado, traz à memória o Le Orme, mas também traz toques evidentes do ELP, mesclando partes instrumentais, acústicas e vocais, intercaladas com teclados e sintetizadores, sempre dentro da linha progressiva um pouco mais melódica e sinfônica. E o violão lembra os sets de Greg Lake quando esteve à frente do Emerson, Lake & Palmer. Essas nuances, um tanto quanto distintas, entre os lados do álbum ganhou críticas não muito agradáveis, por conta dessas abordagens sonoras, mas penso ser exageradas, pois, apesar de contarem com compositores únicos e diferentes, percebe-se, apesar de tudo, uma base calcada no prog italiano que se praticava na primeira metade dos anos 1970.

O álbum começa com a suíte “Sabazio” que é dividida por quatro partes, com pouco mais de três minutos cada, são elas: 1- “Nascita”, 2- “Il Viaggio”, 3- “Il Sogno” e 4- “Vita Nuova”. A parte 1 traz um som mais suave, mais pastoral e viajante, quase contemplativo, com um órgão flutuante. A parte 2 já traz um órgão mais pulsante, com a seção rítmica mais enérgica, o baixo e bateria em uma sinergia interessante. A parte 3 apresenta tambores, algo mais percussivo, órgão também pulsante e latente, com energia, além da inclusão de violoncelo. Ao longo da música vai ficando mais poderosa, um pouco mais pesado. A parte 4 traz a predominância de teclados duplos, a prog rock aqui é mais evidente. “Sabazio” é o sonho para qualquer amante de música clássica e progressiva, graças ao órgão, ao piano, violoncelo, com elementos de rock como o baixo e a bateria. Uma sonoridade, embora simples, se revela atraente e elegante o que é incrível para músicos tão jovens à época.

"Sabazio - Nascita" (Parte 1)

"Sabazio - Il Viaggio" (Parte 2)

"Sabazio - Il Sogno" (Parte 3)

"Sabazio - Vita Nuova" (Parte 4)

Segue para o outro lado do álbum com a faixa “Il Circo” que traz uma batida mais voltada para o rock, com uma pegada mais hard, pesada, com um órgão igualmente pesado e enérgico. Aqui as teclas se destaca, com a bateria, marcada e pesada, também protagoniza.

"Il Circo"

“Espressione” soa mais como um típico rock progressivo italiano com sintetizadores, acústico, com pianos doces e vocais calorosos e agradáveis. Aqui percebe-se, de forma nítida, o lado mais suave e romântico da Itália progressiva. Um ótimo trabalho de piano e acústico agradável. Traz um pouco de sinfônico com sintetizadores já para o final da música.

"Espressione"

“Caro Fratello” é parecido com Il Circo, por ser um rock mais acelerado com órgão, mas se expande por incluir mellotron, violão acústico e vocais mais suaves. O destaque fica logo no começo com órgão, bateria e baixo em uma ótima jam, extremamente animado, solar. Aqui também traz, claro, destaque para o órgão, que divide momentos mais animados e enérgicos, com momentos mais intimistas e dramáticos.

"Caro Fratello"

E fecha com “1998 (Millenovecentonovantotto)” começa com uma onda de dedilhados acústicos, com vocais suaves e melódicos, com um baixo bem tocado. A bateria surge dando “corpo” a faixa. Fica mais edificante com sintetizadores alegres e vibrantes, sobretudo em seus momentos finais. As seções acústicas, bem tocadas, se misturam com bons teclados. Se revela uma música com boas camadas e animada.

"1998 (Millenovecentonovantotto)"

Com a mudança do produtor Gariboldi para Munique, na Alemanha, o novo produtor, de nome Lombroso, assume a produção do Triade. A primeira exigência dele foi que a banda voltasse ao estúdio e gravar um álbum mais comercial. A banda imediatamente recusou a proposta. Aqui seria o começo do fim do Triade. Mas não foi apenas a discordância entre produtor e banda, com relação às novas tendências sonoras, que fez com que o Triade findasse, tão precocemente, a sua trajetória.

A crítica também não foi muito gentil com a banda. Os acusou de serem pouco originais, principalmente por não enfatizar tanto, segundo os críticos, a essência do rock progressivo italiano, absorvendo sonoridades britânicas, principalmente do Emerson, Lake & Palmer. Evidente que o único álbum do Triade não soa original e traz influências do ELP, afinal, penso que as raízes progressivas italianas vêm dos britânicos, principalmente do Emerson, Lake & Palmer e nota-se, de forma evidente, a meu ver, uma sonoridade simples, quase inocente, sim, mas muito talhado para o rock progressivo italiano.

“1998: La Storia di Sabazio” talvez não represente totalmente a pureza do rock progressivo italiano que foi se construindo ao longo dos anos 1970, mas é um resultado, como todas bandas que surgiriam no cenário italiano, das influências daquele país, absorvendo ainda as características marcantes da sua sonoridade, as suas peculiaridades.

Após a formação da Triade, quando o baterista Giorgio Sorano entrou por último na banda, surgiu a chance, e foi tudo muito rápido, de se reunir com o produtor Elio Gariboldi. E deve-se a ele por ajudar os jovens músicos à época, a lapidar seu som, produzindo resultados lucrativos, sob o aspecto sonoro, com “1998: La Storia di Sabazio”, que incluíam equipamentos, instrumentos de ponta, como mellotron e um gonue gigante, além de um tempo considerável em um estúdio com um engenheiro de som. E assim surgiu o único álbum do Triade.

“1998: La Storia di Sabazio” entrou na cena prog italiana com um grande destaque, devido às performances ao vivo enérgicas e até extravagantes da banda. Os garotos do Tríade estavam no auge da criatividade e físico e o mundo parecia ser o limite. Logo abriram shows para as grandes bandas da época, como Banco, Premiata Forneria Marconi e Franco Battiato e até conseguiram alguns shows como atração principal, mas apesar da exposição que a banda vinha conquistando, o álbum não emplacava, não correspondendo às expectativas de vendas.

A corrida do ouro do progressivo italiano, nos anos 1970, para muitos virou simplesmente um latão desvalorizado e frustrante e com o Triade não foi diferente. As baixas vendas de seu álbum e o tímido apoio da gravadora fez com a banda cessasse as suas atividades precocemente, como tantas outras que seguiram sua trajetória na mais profunda obscuridade e ostracismo.

“1998: La Storia di Sabazio” teve alguns relançamentos. Em 1974, um ano após seu lançamento, o selo Derby o relançou na Itália, no formato LP e cassete. Em 1993 foi lançado no Japão pelos selos Nexus International e King Records no formato LP. Em 1987 novo relançamento no Japão no formato CD, pelo selo Nexus e outro relançamento, em 1993, também em CD, pelo selo CGD. Em 1993 foi a Coréia do Sul. Entre 1994 e 2020 foram vários relançamentos, em CD e LP, alternando entre a Itália e o Japão.





A banda:

Vincenzo Coccimiglio nos teclados

Agostino Nobile no baixo, violão e vocal

Giorgio Sorano na bateria

 

Faixas:

1 - Sabazio: Nascita

2 - Sabazio: Il Viaggio

3 - Sabazio: Il Sogno

4 - Sabazio: Vita Nuova

5 - Il Circo

6 - Espressione 



"1998: La Storia di Sabazio" (1973)



























 


sábado, 6 de dezembro de 2025

Apoteosi - Apoteosi (1975)

 

O rock progressivo em família! A família italiana em prol do rock progressivo dos anos 1970! A cultura do prog naquele país é tão grande que famílias se reúnem para tocá-lo. Músicos são talhados para tocar essa vertente do rock tão vivo e presente até os dias atuais. A história que vou apresentar hoje nesse texto inevitavelmente se depara com uma situação única e particular.

Particular e única por ser uma banda que trazia três irmãos e um pai como produtor, mas que não traz novidades em se tratando de sua precocidade. Mais uma daquelas “one-shot-bands” italianas negligenciadas, esquecidas e que, como um sonho, surgiu e passou rápido, tal como também um desses cometas. Falo da banda APOTEOSI.

Outro ponto particular e peculiar foi o local de surgimento do Apoteosi, na região de Palmi, na Calábria, tida como pouco conhecida no que se refere ao rock n’ roll, no rock progressivo. A cena era insipiente, poucas bandas surgiram nessa parte da Itália. Além de particular, o Apoteosi se tornou importante, praticamente se tornando a única ou uma das poucas a terem, mesmo que discretamente, um surgimento e carregando, consequentemente, o rock progressivo da Calábria.

E o Apoteosi, quando lançou seu álbum, em 1975, que, neste ano de 2025 completou cinquenta anos de lançamento, se tornou importante e um referencial não apenas pelo fato de ter sido uma das poucas bandas da Calábria, mas por ter construído um álbum conceitual, tendo a cidade natal desses músicos, como cerne, um verdadeiro hino à sua terra, uma espécie de hino de esperança para o despertar desse pequeno pedaço da Itália esquecido pelo rock progressivo.

Apoteosi

Bem já que falamos de família, vamos tecer detalhes da história do Apoteosi que, como disse, tem fundações enraizadas no conceito familiar, na família Idà. São eles: Silvana Idà nos vocais, Massimo Idà, na guitarra e vocal, Federico Idà, no baixoe flauta, juntamente com os “forasteiros” Franco Vinci, na guitarra e vocais e Marcello Surace na bateria.

E regendo tudo isso vinha o pai, o patriarca do prog na família Idà, o Salvatore Idà que, além de pai de Silvana, Federico e Massimo, desempenhou o papel de produtor e compondo uma das músicas do único álbum da banda. Pode parecer algo pouco usual um pai incutir na mente de seus filhos o conceito do rock progressivo e ajuda-los a montar uma banda e financiá-los, mas a cultura do prog rock na Itália, apesar de todos os problemas e turbulências políticas nos anos 1970, era forte e não podemos negligenciar a veia musical dos jovens músicos.

Os irmãos Idà

E quando falo jovens músicos é porque são efetivamente jovens mesmo, onde a maioria dos Idà sequer chegaram à adolescência quando formaram a banda e lançaram o seu autointitulado álbum, em 1975. Para se ter uma ideia o Massimo tinha apenas quatorze anos de idade quando gravou o álbum juntamente com seus irmãos e Franco Vinci tinha apenas dezessete anos quando tocou em sua primeira banda, “The Green Age”. Muito dessa referência dos irmãos se deu também pelo estúdio que o seu pai tinha e ter sido também o homem forte, o que comandava o selo Said Records. O álbum foi editado pelo próprio Massimo Idà, em um processo que não gerou nenhum cachê, afinal, tudo estava em família.

Sobre o álbum do Apoteosi, embora tenha sido concebido em família e em uma região italiana pouco visível para o rock progressivo na Itália, não teve a repercussão que se esperava a começar pela baixa distribuição e exposição desse álbum e muito se atribuiu também, à época, por conta das semelhanças com a já famosa banda Premiata Forneria Marconi, que tendia evidentemente para o progressivo sinfônico, primordialmente.

E falando em lançamento, a tiragem foi limitada e quase que caseira, diria “artesanal”, tendo ainda uma distribuição local, se tornando, claro, entre os aficionados pelo vinil, cópias muito raras. Mas se o Apoteosi tem certa visibilidade hoje, nem tanto, se deve aos relançamentos, às abnegadas gravadoras, mas também a “web”, as redes sociais e os produtores de conteúdo e que bom, caros leitores, que esse trabalho esteja figurando neste reles e humilde blog.

Mas por mais que não se vislumbre no único álbum do Apoteosi a tal da originalidade, não podemos deixar de comentar a incrível capacidade e habilidade de seus músicos, mesmo que na mais tenra idade. E o que dizer também de suas habilidades composicionais? Não podemos, de forma alguma, negligenciar isso desta banda da Calábria.

E as referências evidentes em PFM, Banco del Mutuo Soccorso talvez se evidencia pela pouca idade de seus músicos que, mesmo habilidosos com seus instrumentos, eram muito jovens e isso não se pode esquecer, eles, ainda assim, estavam em uma fase de construção de sua identidade musical.


Mas ver como Massimo, o tecladista, um menino no auge dos seus quatorze anos de idade, toca piano, Hammond e ainda editando o álbum é algo no mínimo assombroso de tão incrível. A sua irmã, a vocalista Silvana Idà, um pouco mais velha que ele, mas trazendo uma voz linda e extremamente versátil, que vai da psicodelia, progressivo ao folk rock, mesmo que ainda dependesse de um pouco mais de estrutura, altivez, mas penso que isso se deva a questão da maturidade, afinal, ela também era muito jovem e estava em fase de desenvolvimento musical, como todos os demais músicos.

Diante desse, digamos, problema vocal, a banda deitou-se em um terreno seguro para demonstrar toda a sua capacidade nos seus instrumentos. Além de Massimo Idà dando espetáculo com as suas teclas, tinha também a seção rítmica formada por Federico, no baixo e Marcello Surace na bateria, mostrando-se sólidos e harmoniosos. As guitarras são enérgicas e, além de trazer as indefectíveis nuances sinfônicas, nos remete também a algo mais pesado, um hard rock. É isso que faz desse único álbum do Apoteosi especial: versátil, inusitado, com pitadas folk, psicodélicas e mais pesadas destacadas pelos riffs de guitarra, além de um toque de inocência, pelo fato de termos jovens ainda descobrindo o seu DNA sonoro.

Eu diria, amigos e estimados leitores, que esse álbum tem muitos rostos, a cara de cada um é impressa de forma, embora ainda inocente pela inexperiência, muito viva e plena. São composições convincentes, brilhantes, orgânicas, com destaque, como disse, no seu instrumental, na guitarra vibrante, na seção rítmica empolgante e calcada no rock progressivo sinfônico que, embora revele referências de bandas já estabelecidas na cena italiana, mostra, com evidência, a característica do prog rock da Itália.

“Apoteosi” é franco, altivo, simples, orgânico, intenso e mostra as habilidades de jovens músicos que deixaram, definitivamente, a criatividade falar por si só, sem abrir mão de suas convicções sonoras, trazendo à tona também as suas mais fiéis inspirações e referências, personificando também o que se fazia na Itália progressiva nos anos 1970.

Então vamos às faixas! O álbum é inaugurado pela faixa “Embrion” que se trata, claramente, de uma introdução que, embora curta, se revela cintilante principalmente na execução do teclado na primeira metade da música, com a banda avançando com força total. É perceptível que a ideia composicional dessa faixa era de explorar as habilidades de todos os músicos e, diante desse caos, se faz a beleza sonora. Reza a lenda que a “confusão fragmentada” desta música veio da ideia de todos e que não havia tempo para realmente discutir a construção da mesma. Então o já falado caos se fez presente na faixa.

"Embrion"

Eis que surge então a próxima música, que é uma verdadeira epopeia sonora e certamente se revela a melhor do álbum: “Prima Realta / Frammentaria Rivolta”! No auge dos seus quatorze minutos o piano começa lentamente antes da bateria, lindamente, juntamente com a flauta assumirem o controle. O ritmo logo acelera, os vocais femininos de Silvana trazem a contradição, a leveza. Definitivamente a bateria e o piano ganham destaque, com a guitarra, com alguma energia, tenta, com algum sucesso, protagonismo, sendo esta a mola propulsora do peso na música.

"Prima Realta /Frammentaria Rivolta"

"Il Grande Desumana / Oratori (Coral) / Atteca" começa com um piano que entrega algo sombrio, uma atmosfera melancólica, mas logo acelera com a bateria, que vem forte e soberba. Surgem vocais masculinos sem muito destaque, com a guitarra em seguida, com dedilhados sutis. Os vocais de Silvana são contidos, discretos, diria pastorais e com uma pegada folk. Mas logo anima novamente com uma veia jazzística órgão espectral assombroso e sóbrio e interlúdio coral.

"Il Grande Disumano, Oratorio (Chorale), Attesa"

“Dimensione Da Sogno” se torna triunfante e esperançoso com Silvana cantando com dignidade e certo espírito. Percebe-se nitidamente uma faixa audaciosa e repleta de nuances sonoras distintas, sobretudo quando se sente o prog sinfônico em voga nas variações rítmicas.

"Dimensione Da Sogno"

E fecha com a faixa título, “Apoteosi” que, lentamente vai se desenrolando, com sintetizadores brilhantes, com pitadas interessantes e intrigantes de um space rock e solos de guitarra bem sutis e contemplativas. Talvez nessa música é o que chega mais próximo de um momento psicodélico que nos remete a fase inaugural de bandas como Pink Floyd e Nektar.

"Apoteosi"

A banda, reza a lenda, que nunca se apresentou ao vivo, após o lançamento do álbum e, devido a falta de apoio e de uma estrutura que permitisse a banda difundir a sua arte e manter o mínimo de estabilidade para seguir com a sua trajetória, o inevitável se deu: o Apoteosi se desfez para dar lugar às diferentes decisões de cada um dos irmãos, ou seja, cada um seguirem com as suas carreiras e convicções sonoras. Talvez, arrisco dizer, que o Apoteosi não passou de uma espécie de tudo de ensaio para os jovens músicos testarem as suas aptidões e, a partir daí, explorarem, individualmente, as suas habilidades musicais.

Mas antes disso decidiram juntos enveredar pela música comercial, mudaram o nome para “Stress Band” e gravaram um single, em 1979, com um cover de uma música de Gino Vannelli. Mas com a inevitável dissolução, cada irmão seguiu com carreiras diametralmente distintas uma das outras.

"Stress Band"

Massimo Idà mudou-se para Roma, trabalhando como músico de estúdio e produtor de música para televisão. Atualmente ele toca em uma banda de funky disco, chamada “Frankie & Canthina Band”. Ele também produziu e se apresentou no álbum “Dylaniato”, de Tito Schipa Jr., de 1982.

Silvana Idà deixou a indústria musical para formar a sua família e continua a morar em Palmi, na Calábria, sua cidade natal. Seu filho atualmente toca em uma banda de rock n’ roll. Federico Idá, juntamente com seu irmão Massimo, fez um single como “The Zombies”. Ele faleceu em 1992.

"The Zombies"

O guitarrista Franco Vinci continuou tocando e continua muito ativo no blues. Seu álbum, com a banda “Bootleg”, “Boot Trip”, foi lançado em 2003. Sua banda atuaç leva seu nome e se chama “Franco Vinci Blues Band”. O baterista Marcello Surace continua tocando como músico de estúdio na Itália e na França e também faz parte da “Frankie & Canthina Band”, juntamente com Massimo Idà.

O único álbum de Apoteosi oferece rock progressivo melódico surpreendentemente acessível ao rock progressivo italiano dos anos 1970. É sim um rock progressivo por excelência, afinal todos os elementos certos estão lá: interação musical complexa, seção rítmica sólida, mudanças de tempo e assim por diante. Embora os vocais de Silvana Idà não sejam tão competentes mostram certo prazer. As entradas sinfônicas de teclado são fantásticas e maduras, flautas competentes e guitarras que vão do peso a sutileza.

Um álbum mais do que recomendado que, infelizmente, à época não recebeu a atenção que merecia, afinal, sua edição foi muito limitada, sendo um dos vinis mais procurados e cobiçados entre colecionadores, chegando a valores, quando encontrados astronômicos. Felizmente em 1993 a abnegada Mellow Records relançou o álbum em CD e fez um grande favor aos apreciadores e fãs de rock progressivo. Tiveram outros relançamentos como no Japão, em 2012, pelo selo Belle Antique, em CD, em 2015, na Itália, pelo selo AMS Records e também pelo selo dos pais dos músicos, Salvatore Idà. Entre 2022 e 2024 a AMS Records e a Belle Antique relançaram o álbum no formato CD.





A banda:

Silvana Idà nos vocais

Franco Vinci nos vocais e guitarra elétrica e acústica

Massimo Idà no piano, Hammond B3, Eminent organ, ARP Pro Soloist synthesizer

Federico Idà no baixo e flauta

Marcello Surace na bateria

Com:

Coro Alessandroni / vocais do coro (Em “Oratorio”)

 

Faixas:

1 - Embrion

2 - Prima Realta / Frammentaria Rivolta

3 - Il Grande Disumano / Oratorio (Chorale) / Attesa

4 - Dimensione Da Sogno

5 - Apoteosi



"Apoteosi" (1975)




 











 










 






sábado, 27 de setembro de 2025

Amos Key - First Key (1973)

 

É possível extrair boa música de um prog rock com peças descontraídas e repletas de improvisação e experimentação? Talvez essa pergunta não passe de um devaneio febril de minha parte, mas confesso que, a aventura pela qual estou submetido graças às histórias que tenho, a base de muita galhardia, contado neste reles blog, essa pergunta insiste em povoar os meus pensamentos.

Acredito que tais questionamentos surgem por conta de estereótipos que se constroem em certas vertentes do rock n’ roll e que, de alguma forma, nos aprisiona em determinadas questões que não tem, a meu ver, nenhuma ou mínima validade de aprofundamento: o rock é o rock e ponto final. Tudo é rock n’ roll. Evidente que nos deixamos seduzir em questionar ou abordar o que é hard rock, prog rock, blues rock, porque eles estão nas músicas das bandas, mas o fato é que tudo é rock.

Mas de um tempo para cá tenho feito essa pergunta: o prog, tido como uma música sofistica, e de fato é, pode ter uma intima ligação com uma sonoridade mais despretensiosa, improvisada, minimalista ou ainda suja? E, contando, como disse, certas histórias aqui neste simples e humilde blog, tenho desbravado alguns álbuns e bandas que, ao ouvir, me entrega um prog rock capaz de ser despretensioso, calcado em jam sessions ou até mesmo sujo.

E fazendo algumas incursões no universo da música rara e obscura eu lembrei de uma banda, claro, com essa proposta e que, de alguma forma me trouxe a resposta, ou pelo menos uma das respostas, a essa inquietante pergunta. Qual é? AMOS KEY.


Amos Key

A banda alemã Amos Key sintetiza, pelo menos em meus pensamentos, o conceito de uma banda progressiva, mas que traz uma espécie de escárnio sonoro, porque, intencionalmente, traz um som, em seu único álbum, lançado em 1973, de nome “First Key”, uma sonoridade despretensiosa, pouco arrojada, mas ao ouvi-los, percebe-se, por exemplo, referências de bandas icônicas como Emerson, Lake & Palmer e a outra alemã Triumvirat. E, convenhamos, bons amigos leitores, são bandas icônicas porque trazem sofisticação ao seu som. Porém, no caso do ELP, você percebe também, sobretudo ao vivo, uma sonoridade pesada com apresentações arrebatadoras.

Talvez você, um dos poucos certamente, que esteja lendo esse texto deverá me achar um herege, um leviano que está ousando em associar a música do Emerson, Lake & Palmer, a algo sujo, agressivo e até despojado, apesar da sofisticação e da qualidade de seus músicos, mas há também uma liberdade criativa sonora, que propicia uma sonoridade tão diversa e pouco rotulada.

O Amos Key, com seu primeiro trabalho, pode não ter oferecido nada de novo e arrojado, mas nos ensina que é possível aliar certas coisas que, dentro da música, tão dogmatizadas, torna-se possível, embora inusitados. Mas mesmo com todo o aparato pouco ortodoxo, digamos, os instrumentos são executados de forma virtuosa e com qualidade. Sem dúvida “First Key” é um trabalho que deve ser procurado e apreciado por puristas do prog rock sofisticado e até por aqueles que gostam também de algo mais sujo e agressivo. Todo o álbum é produzido de forma clara e poderosa, não podemos negligenciar isso!

Inclusive encontrei uma citação da própria banda falando da sua música e é emblemática a forma como a aborda, descontruindo, de forma categórica, e até engraçada a sua sonoridade, aderindo ao conceito de “progressividade zero”, onde tal vertente sonora estava em voga, principalmente no ano do lançamento de seu primeiro álbum, 1973. Leiam:

"Um verdadeiro tesouro de mutilações de música clássica, fragmentos anêmicos de jazz e clichês de rock desdentados. Há uma falta de substância musical para improvisações, então você conceitua. Mas simplório, muito simplório. Não há preocupação, nem fundo ideológico. Progressividade zero."

As informações recomendam que os potenciais compradores garantam que "adquiram protetores auriculares de bom tamanho em tempo hábil".

Mas falemos ou pelo menos tentemos falar um pouco do Amos Key, porque pouco se tem de referência dessa banda na grande rede. A banda foi formada na cidade de Emmering, na Baviera, no ano de 1970 e tinha na formação um power trio: Thomas Molin (também conhecido como Thomas Müller, teclados, vocais), Andreas Gross (baixo, guitarra, vocais) e Lutz Ludwig (bateria).

Os primórdios do Amos Key foram dedicados ao rock clássico, trazendo a música clássica e a “harmonizando” com o rock n’ roll. E isso refletiu-se no seu álbum onde é notório as influências de Bach, Beethoven e Schumann, trazendo também, como disse, os clássicos do rock progressivo como ELP, Ekseption e The Nice.

“First Key” traz sim uma música complexa, mas muito acessível. São três músicos talentosos, diria arrojados e ousados e a sua sonoridade tem o baixo, bateria e primordialmente o teclado como instrumentos centrais, com a guitarra aparecendo ocasionalmente, muito discretamente. Há momentos em que a som adquire uma atmosfera sombria, com tecidos soturnos, mas a nítida sensação é de que esses caras se recusam a se levar muito a sério. Definitivamente “First Key” é um álbum despretensioso e bem divertido de ouvir, embora tenha nuances bem definidas de complexidade, com o prog sinfônico em voga, com pitadas generosas de uma música pesada.

Como disse o teclado é o cerne da música e, embora óbvio, traz qualidade à música e a surpresa fica para a seção rítmica. Certamente ao ouvinte a bateria e o baixo trarão surpresa. É uma música que flui. Os vocais podem não ser apurados, o sotaque forte e evidente e a mixagem não é das melhores, mas a quem diga que tudo isso é o “charme” da coisa e eu confesso que isso me atrai de forma arrebatadora.

O álbum é inaugurado com a faixa “Shoebread” e já mostra a banda no seu auge, dando o seu cartão de entrada. Os teclados te introduzem ao prog rock, ao prog sinfônico, os interlúdios “prog” são extremamente cativantes, mas te remetem também ao psych dos anos 1960, com uma pegada lisérgica, ácida. É inegável a seção rítmica com seu talento e arrojo, entregando uma vibe jazzística pesada e animada. As variâncias de ritmo corroboram a pegada progressiva. O que eles são capazes de fazer com uma música de pouco mais de quatro minutos!

"Shoebread"

Segue com “Ensterknickstimmstamm” que traz, de imediato, as influências de ELP, com os teclados sendo tocado de forma enérgica, intensa e extremamente vibrante, tão vibrante e intensa que chega a ser pesado e agressivo. Mais uma vez a bateria e baixo tocados ao extremo. Baixo pulsante e pesado, bateria com uma batida forte. Na metade da faixa as teclas ficam mais sombrias, pesadas, mas logo voltam ao original, enérgica e cativante. O solo de teclas é arrebatador.

"Ensterknicktimmstamm"

"Knecht Ruprecht" já me remete a bandas como Triumvirat, fazendo tal referência por esta se tratar de uma banda, digamos, um pouco mais famosa da Alemanha. Segue basicamente a proposta da faixa anterior: peso, teclados em evidência corroborando o peso da música, juntamente com o baixo e a bateria dando todo o “corpo” à música. Diria que esta faixa tem até um pouco de velocidade.

"Knecht Ruprecht"

“Sometimes...” é sombria, é soturna e os teclados, embora mais contidos, é estranho e perigoso, com vocais mais discretos e quase anasalados. Segue com “Got the Feelin’” que retorna ao viés mais pesado e vibrante, a versão predominante da banda neste álbum. Já se percebem, finalmente, riffs de guitarra, com a seção rítmica assumindo protagonismo.

"Sometimes"

“Escape” começa com um choro de bebê e traz consigo, de volta, o prog rock em sua versão mais genuína com os teclados cheios de energia, intensos e vibrantes. As viradas rítmicas ganham força e arrebatam. Aqui, nesta faixa, é admirável o aparato instrumental. A sinergia é esplêndida entre baixo, bateria e teclado.

"Escape"

“Important Matter” começa com um solo de teclado mais austero, algo de órgão de igreja, com o baixo dando uma camada mais consensual e vai, a música, ganhando mais corpo, ficando, gradativamente mais pesada, a bateria com uma batida mais jazzy e pesada, um fusion bem interessante. O prog e o fusion se fundem em uma música solar e vívida.

"Important Matter"

“Dragon's Walk” segue com o mesmo curso musical da faixa anterior: o cerne sonoro que gira em torno dos teclados, a bateria aqui não é tão pesada e segue, em uma espécie de duelo, com os teclados, além de uma pegada jazzy com destaque para a bateria, mais uma vez. O prog se revela nas viradas de bateria, nas variâncias rítmicas muito bem executadas.

"Dragon's Walk"

E fecha com a faixa título, “First Key”, que traz, mais uma vez, aquele órgão sacro muito interessante e austero, com o destaque para o baixo, frenético e pesado, cheio de groove. A bateria é cadenciada, fazendo da faixa mais acessível e até mesmo solar.

"First Key"

Infelizmente a banda não teve uma vida e trajetória longeva, findou suas atividades em 1976. Passeou por grande parte dos anos 1970, mas sem produzir mais material e, talvez estigmatizado por comparações maldosas com o Emerson, Lake & Palmer etc. Evidente que as influências são nítidas, mas isso não desmerece o que o Amos Key produziu e nem por isso pode ser constatado como plágio ou algo do tipo.

“First Key” é divertido, pesado, despojado, despretensioso, mas profundo e complexo, por vezes e nem por isso pode e deve ser considerado como um trabalho banal. A contribuição dos músicos é espetacular e, mesmo trazendo uma sonoridade atípica, tem, muito bem definido, a sua estrutura sonora. Ludwig toca bateria de forma excelente e o baixo de Andreas Gross traz uma carga potente, vibrante e vívida ao som da banda, embora ele tenha declarado que se via um músico “inacabado” em comparação direta aos seus colegas de banda. O fato é que ele tocava de forma fresca e concisa. Mas são as teclas de Molin que molda o som da banda. É o cerne da sonoridade do Amos Key!

“First Key”, que foi lançado pelo selo Spiegelei, em 1974, teve poucos relançamentos ao longo dos anos. Ele foi lançado, pela gravadora Long Hair, em 2016, no formato LP, em 2016, na Alemanha. E naquele mesmo ano, também pelo selo Long Hair, foi relançado, no formato CD, o álbum do Amos Key.

E falando em relançamentos, em 2010, também lançado pelo selo Long Hair, foi veio ao mundo “Keynotes”, com uma apresentação do Amos Key no SWF, em Baden-Baden, sendo remasterizado por Jörg Scheuermann. Essa apresentação aconteceu antes do lançamento de seu álbum de estúdio, em 1973 e somente em 2010 ganhou luz.

"Keynotes" (1973 - 2010)

Convém lembrar que também que foi lançado um single, de forma oficial, que estava planejado para o ano de 1975. Provavelmente seria um segundo trabalho que não teve sequência. O Amos Key, quando gravou esse single, de nome “Fairy Witch”, era um quarteto e contava, além dos já músicos conhecidos que compuseram o álbum de 1974, tinha, no vocal e guitarra, Helmut Jungkunz. Em 2022 foi lançado “Third Key”: The 70 Studio Tapes” que, como o nome sugere, traziam gravações de faixas antigas da banda, dos seus primórdios. Uma banda altamente recomendada!






A banda:

Andreas Gross na guitarra, baixo e vocais

Thomas Molin nos teclados e vocais

Lutz Ludwig na bateria

 

Faixas:

1 - Shoebread

2 - Ensterknickstimmstamm

3 - Knecht Ruprecht

4 - Sometimes...

5 - Got The Feelin

6 - Escape

7 - Important Matter

8 - Dragon's Walk

9 - First Key 



"First Key" (1973)