Mons, Bélgica, início dos anos
1970. O que parecia e, convenhamos, de fato, foi a contida cena daquela pequena
localidade belga, uma esquecida paisagem sonora, eclodia uma força flamejante
que anunciava um som, uma banda que simplesmente desafiou, sobretudo, no
longínquo ano de 1971, qualquer definição, de qualquer estereótipo conhecido
dentro do rock n’ roll.
Antes de que se convencionou
de punk, heavy metal ou quaisquer desses gêneros codificados, surgia uma banda
avassaladora que, mesmo com o pouco que produziu entregou, nas pequenas e
famigeradas casas de shows locais, uma emoção crua, tresloucada e de uma
intensidade que, àquela época, pouco se via ou melhor se ouvia. O nome da
banda? BLAST!
Poucas foram as “testemunhas” de sua suja sonoridade, dentro de uma tímida cena local, que viram o Blast se apresentar, eletrificando todas as casas de shows pelas quais passaram, como uma das mais famosas de Mons, “The Chinchin. A energia que foi capturada nesses shows é algo que beira o animalesco, porém arrebatador, catártico mesmo.
Era despojado, sujo, rápido, veloz, pesado e era perceptível sons como punk, speed metal, thrash metal, hard rock, heavy metal, hardcore, tudo! É demasiadamente insano perceber toda essa sonoridade em uma época em que gêneros estavam ainda em total criação, em uma espécie de “tubo de ensaio”, onde poucas bandas como MC5 e Stooges, ousaram em fazer essa sonoridade arrasa quarteirão em plena época do “flower power”.
Liderado pelos vocais
viscerais de e baixo estridente de Antoni Cucchiara, pelos riffs de guitarra
sobrenaturais de Tony Colonius e pela bateria feroz de Michel Jacobs, Blast
incorporava a pura rebeldia sonora. Tanto que o produtor Michel Chevalier,
completamente hipnotizado pelo poder da música deles, decidiu chamá-los de
“Blast” que, em tradução livre significa “explosão”. Não poderia ter batizado
por um nome melhor, porque, basicamente, assim podemos conceituar o som dessa
seminal banda. Eram uma verdadeira “granada” auditiva!
A jornada do Blast começou na
École Technique de Hornu, onde Tony e Antoni se conheceram e a química foi
imediata, se juntando pela primeira vez. Inicialmente enraizados na British
Invasion e nas influências folk como Sixty-Toes e depois The Oaks, logo se
aproximaram do rock pesado e blues rock vindo dos EUA. Com a chegada de Michel
Jacobs em 1971, a formação estava completa.
Em 1972, mais precisamente em
agosto, a banda entrou nos estúdios D.E.S, em Bruxelas para imortalizar a sua
ferocidade, os seus petardos. Em uma sessão intensa e louca de duas horas, eles
capturaram um som cru e implacável que simplesmente desafiou as convenções e a
ortodoxia do rock n’ roll à época. O resultado foi uma pequena prensagem, de
1973, pela Majestic Records, de duas faixas chamadas “Damned Flame” e “Hope”.
Sim, nobre e amigos leitores, apenas duas faixas registradas pelo Blast em sua
ínfima e famigerada história. Praticamente um single, diria!
As letras exploravam a
indiferença social, lutas existenciais e visões proféticas da vida plastificada
e mecanizada. “Damned Flame" também foi pioneira no ritmo frenético
"d-beat", antecedendo sua popularização por anos.
"Damned Flame" é
personificação do proto punk, com uma pegada heavy, com uma velocidade incrível
que nos remete ao thrash metal, ao speed metal, com um estilo sujo e despojado,
com a bateria e o baixo, a “cozinha” rítmica no centro das atenções. É tudo,
nessa faixa, demasiadamente caótico, tenso e intenso. Percebe-se, pelo fato de
ser despojado, ser algo bagunçado, beirando o ingênuo, mas penso, ao ouvi-la
que tudo, apesar do que é ouvido, é meticulosamente pensado. Eles sabiam o que
estava fazendo com essa música!
“Hope” é, se é que podemos
dizer assim, mais “comedida”, focando, basicamente no hard rock, mas a pegada
suja e grosseira estava lá, como se fora uma assinatura, um DNA mapeado do
Blast. A guitarra entrega riffs grudentos, pesados. Aqui a sonoridade se
adequa, um pouco mais, ao que se praticava nos idos dos anos 1970, o hard rock.
Mas é o hard com o “tempero” do heavy dando um sabor totalmente carregado e
encorpado. É de se deleitar com “Hope”!
Esse “single” não teve mais do
que 500 cópias prensadas, provavelmente muito menos, afinal, poucas são as
informações fidedignas que circulam na grande rede a respeito do único registro
do Blast. Na reedição, de 2015, da Death Vault, consta tal informação e consta
também, um curioso depoimento do baixista e vocalista Antoni que diz:
“Nosso público teve reações diferentes. Primeiro, eles ficaram surpresos. Para algumas pessoas, não éramos descolados o suficiente, para outras, o que fizemos foi genial."
Porém
antes dessa reedição a banda foi, digamos, redescoberta, graças aos blogs de
bandas obscuras que, em 2008, aproximadamente, estavam em seu auge e, mais
tarde, replicaram no YouTube fazendo com que fomentasse o Blast como uma banda
cult. Mas ainda assim, pouco se conhecia e ainda pouco se conhece, de fato,
sobre a história do Blast, bem como o motivo que levaram o seu fim e o futuro
de seus integrantes.
Questionou-se, inclusive, à
época, se o material difundido na web era de fato real ou não, tamanho era a
obscuridade que a envolvia. Mas se confirmava a sua existência, quando alguns
desbravadores da música obscura teimavam em flertar, visitar alguns sebos de
vinis e, ocasionalmente, encontravam uma cópia original do Blast jogado e
esquecido.
Embora o Blast tenha se separado em 1974, sua breve existência deixou uma marca indelével. O lançamento de 1973 e as apresentações ao vivo deles permanecem artefatos preciosos de um momento inovador na história do heavy rock, do punk rock, do hardcore e do thrash metal.
A banda:
Antoni Cucchiara no vocal e no
baixo
Tony Colonius na guitarra
Michel Jacobs na bateria
Faixas:
1 - Damned Flame
2 - Hope





