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terça-feira, 18 de novembro de 2025

Warpig - Warpig (1972)

 

Muitas histórias desfilaram e certamente desfilarão neste reles e humilde blog. Eu confesso em dizer que aprecio as histórias que permeiam no rock n’ roll, pois penso que estas personificam, desenham as linhas sonoras dos álbuns aqui dissecados. São exemplos de luta, de persistência e principalmente de músicos promissores que, por diversos motivos, fracassam sob o aspecto comercial, perecendo, caindo no mais profundo ostracismo.

Mas o fracasso não obscurece o talento e o talento, ainda que com muita dificuldade, em algum momento, vem à luz por intermédio de abnegados fãs de rock obscuro, de selos alternativos que, graças às redes sociais e outras ferramentas de comunicação, fazem que essas bandas ganhem vida de novo por conta de seus álbuns.

E eu, em minhas incursões e garimpos pela grande rede, descobri uma banda canadense, da região de Ontário, que trazia um nome que muitos conhecem pela música, clássica, do Black Sabbath: WARPIG. Pois é, caros leitores, o Canadá não vive apenas do grande Rush. Há uma infinidade de bandas que compõe o lado esquecido de uma cena rock aquecida e forte.

E o Warpig é uma daquelas inúmeras bandas promissoras que trafegaram, silenciosamente, pelos anos 1960 e que, apesar de produzirem pouco, deixou um trabalho de muito talento e que, de alguma forma, inaugurou, mesmo que na mais profunda obscuridade, um estilo, uma sonoridade que viria a florescer nos anos 1970: o hard rock.

Mas apesar das dificuldades na sua gênese o Warpig ganhou certa repercussão graças as suas inúmeras apresentações ao vivo, como muitas bandas que não tiveram apoio da mídia, das rádios, das gravadoras. Muitos shows, o tempo inteiro na estrada.

Trazendo à tona a história do Warpig, teve a sua formação construída da mesma forma que tantas outras bandas de Ontário, mais precisamente da região de Woodstock, em meados dos anos 1960. O Warpig evoluiu do “Mass Destruction”, uma banda de garagem, também de Woodstock, com o vocalista e guitarrista Rick Donmoyer e o baixista Terry Brett.

Donmoyer tocou antes em várias bandas, como “The Turbines” e “The Kingbees”, também conhecido como “The Wot”. No final de 1966 Donmoyer se viu procurando um novo projeto e se juntou ao “Mass Destruction” que trazia o já mencionado baixista Terry Brett, Dana Snitch, tecladista e guitarrista e o baterista Terry Hook, todos, como disse também, nativos de Woodstock. Isso foi em 1968.

O Mass Destruction começou a ensaiar no porão da casa de Hook, como o início de tantas outras jovens bandas de outros tantos jovens músicos, e logo a banda mudaria o nome para “Warpig”. E do ensaio a nova banda começou a se apresentar ao vivo e conseguiu construir alguma reputação por suas avassaladoras performances e carismáticas, trazendo consigo um número considerável de seguidores, conseguindo chamar a atenção também de alguns executivos de gravadoras e críticos de rock n’ roll.

Enquanto o Warpig se apresentava ao vivo, gravava seu material autoral, fugindo um pouco dos covers de bandas que a inspiraram a construir a sua sonoridade e, graças a essa virada em sua história e também graças às suas apresentações, acabou por chamar a atenção do dono da gravadora Fonthill Records que assistia ao show e imediatamente assinou com o Warpig no final de 1968.

Isso estimulou, ainda mais, os jovens músicos a continuar compor músicas autorais e, enquanto escreviam seu próprio material, deixando de lado sua dependência dos covers, a trajetória do Warpig mudaria completamente em 1969, quando o Led Zeppelin se envolveu em sua turnê massiva que conquistaria o Canadá. Esse frenesi do Zeppelin em terras canadenses infundiria bandas emergente, como o próprio Warpig, com uma sensação de novo impulso energético e vitalidade.

O hard rock estaria na moda e isso traria a audiência de fãs jovens ávidos por novidades, mas infelizmente, não deixaria de trazer à tona as dificuldades dessas bandas, incluindo o próprio Warpig, a financiar suas próprias despesas de gravação. E continuou a revezar o seu trabalho de estúdio com as suas apresentações ao vivo, ganhando espaço também na cena independente de Toronto.

A banda, já que falei de processo de gravação, entrou em estúdio em 1970, juntamente com os produtores Robbie Irving e Jim Croteau, e entregou uma mistura única de sons que levou em consideração todos os sons contemporâneos da época, em uma sopa sonora inacreditavelmente inusitada. Com uma variedade de sons que misturavam tudo, do proto metal ao blues rock, juntamente com o surf rock, sons psicodélicos, prog rock. O Warpig, com seu álbum, provou criar uma diversidade de sons que fizeram outras bandas locais empalidecer em comparação.

O álbum da banda, simplesmente chamado de “Warpig”, teve o término da gravação na primavera de 1970, mas teria que esperar alguns anos para ser lançado devido ao fato de que a gravadora Fonthill havia sido adquirida pela London Records, em 1971, que acabou por renegociar o contrato e, para variar, atrasou o lançamento real do álbum até 1972!

Isso foi realmente ruim para a banda, porque o Warpig entregou um álbum de hard rock por excelência em 1970, na época em que o rock psicodélico dos anos 1960 estava se metamorfoseando no hard dos anos 1970 e no prog rock também dos anos 1970. O Warpig ainda tinha a capacidade de criar composições progressivas mais complexas, capturando, como disse, várias sonoridades que estavam embrionárias nos anos 1970. Então, por conta de questões contratuais, o Warpig poderia assumir um protagonismo histórico e rivalizar com a tríade fantástica da música pesada da Inglaterra: Deep Purple, Led Zeppelin e Black Sabbath, pois, digo, sem medo de errar, que o Warpig trafegou nos estilos sonoros praticados por essas famosas bandas.

Adicione isso a acidez lisérgica de influências do Cream e Jimi Hendrix, a uma fúria juvenil marcada por experimentalismos, com uma eficácia habilidosa e comovente, sendo estes os ingredientes certos para uma banda de rock atingir o ápice do sucesso comercial e mundial, mas o desfecho provaria o contrário. Alia-se a isso negligência de divulgação da gravadora, músicas não tocadas nas rádios, falta de gerenciamento adequado, negligência total, que é capaz de causar uma perda de todo o ímpeto de jovens músicos ávidos por ganhar o mundo. Mas antes de trazer o fim, falemos de suas músicas.

O álbum é inaugurado com a faixa “Flaggit” que já entrega, de imediato, o lado blues rock e hard rock do álbum. É pesada e direta, rápida, que nos remete, juntamente com riffs grudentos de guitarra, uma porção proto metal. Solos mais diretos de guitarra corroboram a sua condição de um hard rock com pitadas blueseiras de excelente qualidade. Não podemos negligenciar também a bateria pesada, marcada, com um baixo pulsante e vivo.

"Warpig"

“Tough Nuts” começa com aquele teclado psicodélico, que remete ao The Doors, repleto de lisergia, mas depois irrompe em uma explosão hard, cheia de peso, que lembra um doom metal sujo e arrastado e nisso fica uma inusitada “rivalidade” entre a pegada pesada e lisérgica. O destaque também fica para a bateria pesada, destruindo tudo, arrasando com tímpanos suaves e delicados. É pesada, é psicodélica, é intensa!

"Tough Nuts"

Segue com “Melody with Balls” que traz uma introdução arrasadora de um riff pesado e sujo que remete ao Sabbath e a fase mais dura do Zeppelin e que logo fica meio cadenciada, dançante, mas não menos pesada, porque a bateria, com uma batida pesada, e os solos de guitarra, faziam questão de deixá-la mais voltada para o hard rock. Mas não fica apenas no peso, mas depois assume um lado mais experimental, viajante, remetendo ao psicodelismo, porém por pouco tempo, porque os riffs de guitarra voltariam para mantê-la pesada.

"Melody with Balls"

“Advance Am” (Advance in A Minor) inaugura o lado progressivo do álbum. A sua introdução tem nos teclados o destaque, trazendo uma sonoridade calcada no beat, no psicodélico também, me remetendo às bandas como Iron Butterfly, por exemplo. Uma sonoridade viajante, contemplativa, sombria, estranha, em alguns momentos. Mas o peso vai ganhando corpo, graças a bateria que bate forte, uma batida seca, porém intensa, um baixo forte e pulsante, a seção rítmica ganha destaque nesse momento da faixa de sete minutos e meio de duração. E assim ela vai tendo mudanças de andamento bem interessante, mostrando um Warpig bem complexo e até mesmo sofisticado.

"Advance Am (Advance in a Minor)"

“Rock Star” traz de volta o hard rock veloz e pesado, mas um pouco mais dançante e com uma pegada inicial meio jazzístico, a bateria ajuda muito para essa percepção. Um “fusion hard” cheio de energia e peso e muito solar. É animada e corrobora com solos bem dedilhados de guitarra. O vocal ganha destaque nessa faixa também, variando da limpidez a momentos mais gritados e potentes.

"Rock Star"

“Sunflight” começa meio familiar, com uma guitarra ao estilo Yes, mas só por alguns instantes em sua fase inaugural, porque logo irrompe para uma explosão de peso sonoro, capitaneados por riffs e solos de guitarra pesados e bateria marcada. Mas esse peso e contrabalanceado por um vocal límpido, transparente, quase cristalino que traz leveza à música. Os solos vão se intensificando, cada vez mais altos, mesclados aos riffs grudentos e pesados. 

"Sunflight"

“U.X.I.B.” começa pagã, sonoridades folk, lisérgicas, psicodélica, torna a faixa introspectiva, sombria, estranha. Mas esse momento mais introspectivo dá lugar a solos lindos de guitarra, de tirar o fôlego, com a bateria arrogantemente pesada, baixo galopante e cheio de groove, isso tudo com um tecido de guitarra que cobria todo esse aparato instrumental. Sem dúvida mais uma faixa hard progressiva, repleta de mudanças rítmicas de tirar o fôlego.

"U.X.I.B"

E finalmente fecha com “The Moth” que lembra, mais uma vez, The Doors, com um duplo destaque, com bateria cheia de groove e teclados dançantes e animados. Depois ganha uma camada meio jazzística em um fusion nervoso e envenenado, com solos de bateria, de teclados. Aqui a banda foge um pouco do hard rock que se mostrou predominante em todo o álbum e constrói uma música com uma pegada mais comercial, mas sem soar ruim ou vazia.

"The Moth"

A compra da Fonthill Records pela London Records, em 1971, além de ter adiado o lançamento oficial do álbum homônimo do Warpig e complicado um pouco a vida dos seus músicos, que fez com que revissem o contrato, lançando o trabalho em 1972, veio junto com um abandono de divulgação da banda pela London Records.

Faltou apoio e difusão do trabalho da banda, porém, ainda assim, em 1973, o álbum foi relançado e reeditado pela London, com uma nova capa e duas faixas regravadas no Toronto Sound com Terry Brown, produtor icônico das grandes bandas do rock canadense, são elas: "Flaggit" e " Rock Star". Inclusive a versão regravada do single “Rock Star” chegaria às paradas, finalmente, e ficou por sete semanas.

Essa nova capa, relançada pelo selo London Records, traz uma foto de uma vela acesa ao lado de um ankh, o símbolo egípcio da chave da vida em jogo americano carmesim. A contracapa mostra uma imagem com a vela apagada. A capa interna tem uma foto vermelha da banda em um bosque profunda e há uma nota final nos créditos do álbum que diz: “Para melhor resposta, este disco deve ser tocado alto!”

O Warpig continuou se apresentando ao vivo, fazendo shows e revezando, gravando material novo no estúdio quando tinha um tempo vago. Mas o que deveria ser o segundo álbum da banda foi arquivado quando eles não conseguiram encontrar um distribuidor. Se viram obrigados a interromper o projeto praticamente pela metade.

Snitch deixou a banda por diferenças musicais e um tanto quanto irritado com a gestão da banda, bem como o caminho sem luz no fim do túnel que o Warpig estava seguindo. Não demorou muito que os demais integrantes da banda também debandarem. A separação completa da banda ocorreu pouco tempo depois, no final de 1973. Todos passaram a fazer projetos externos e suas próprias coisas, Donmoyer continuou na música por mais alguns anos, principalmente fazendo turnê com a banda Ash Mountain, sediada em Toronto.

Em 2003 o Warpig reaparece quando algumas cópias de seu álbum de estreia, piratas, começaram a atrair preços altos no Ebay, no mercado negro. A banda, aproveitando esse momento, foi reformulada, trazendo a sua formação original. Eles se reuniram para ver o que aconteceria e, desde então, concentraram suas energias nos ensaios em tempo praticamente integral.

"Warpig atualmente"

Finalmente seu álbum autointitulado foi oficialmente relançado em 2006, agora pela Relapse Records, embora muitas versões piratas em CD e vinil continuassem a aparecer e serem comercializadas.

O álbum foi remasterizado digitalmente por Peter Moore (Cowboy Junkies) e contou com um novo layout de arte criado pelo artista Orion Landau. A versão em CD de “Warpig” foi lançada pela Relapse em outubro de 2006.


A banda:

Rick Donmoyer nos vocais e guitarra

Terry Hook na bateria

Dana Snith nos teclados e vocais

Terry Brett no baixo

 

Faixas:

1 - Flaggit

2 - Tough Nuts

3 - Melody with Balls

4 - Advance Am

5 - Rock Star

6 - Sunflight

7 - U.X.I.B.

8 - The Moth




"Warpig" (1970)




 


 










 













 








sábado, 26 de julho de 2025

Starchild - Children of the Stars (1978)

 

Quando você pensa e fala do rock canadense o que te lembra de imediato? Claro! RUSH! Com o devido merecimento, afinal, a banda não colecionou ou coleciona, até hoje, uma legião de fãs aleatoriamente, há um fundamento simples e capital para isso: a sua vanguardista sonoridade.

Mas como este simples, humilde e reles blog fala sobre bandas raras, esquecidas, vilipendiadas e obscuras, trarei o “lado oculto” do rock daquele país, corroborando que sim, o Canadá tem uma profusão de bandas sejam elas comerciais ou undergrounds.

E eu falarei de uma que me cativou e me arrebatou por seu som potente, pesado e extremamente arrojado e sofisticado. Falo da banda STARCHILD. A banda foi formada em 1975 em Cambridge, Ontário, quando Bob Sprenger, Rick Whittier e Neil Light, que tocavam em uma banda chamada “Gaslight”, decidiram reformular a sua sonoridade, algo mais pesado.

Mas não apenas as mudanças na música que aconteceram, o nome também foi modificado, passando a se chamar “Starchild”. A inspiração para este nome veio da Trilogia “Starchild”, escrita por Frederik Pohl e Jack Williamson. A maioria dos membros da banda eram fãs de ficção científica, e quando o seu produtor, Greg Hambleton, que também assinou com o SteelRiver para a sua gravadora, a Tuesday Records, queria algo mais futurista do que o nome anterior, “Thorne”. Sim, entre “Gaslight” e “Starchild” teve outro nome que durou pouco tempo, porque quando optaram por “Starchild” o desejo foi unânime.

Ainda faltava algo: um baterista! Porque depois de passar por alguns bateristas, eles decidiram contratar Greg “Fritz” Hinz que, quando assumiu de fato o posto, o Starchild caiu na estrada para uma longa turnê. Apenas para perfilar os demais integrantes e suas funções no Starchild, Rick era vocalista, um belo vocalista, diga-se de passagem, Neil era baixista e Bob era um belíssimo guitarrista.

O primeiro registro, a primeira gravação da Starchild foi uma demo de duas músicas, a “Party of the Toads” e “Tough Situation” e que foi produzida e projetada por um jovem chamado Daniel Lanois, no porão da casa de sua mãe, em Ancaster, no ano de 1976! Para título de curiosidade Lanos viria, no futuro, a produzir gigantes do rock como U2, Peter Gabriel, Brian Eno, entre tantos outros figurões do mercado da música.

O primeiro trabalho do Starchild, “Children of the Stars”, foi gravado em Toronto, no outono de 1977 e lançado oficialmente na primavera de 1978. Levou certo tempo para lançar um tão sonhado álbum, depois da quase artesanal gravação de suas fitas demo lá no ano de 1976. Após o lançamento o Starchild tornou a volta para a sua turnê, abrindo shows de grandes bandas da época, como Triumph, Goddo, Moxy entre outras.

O álbum teve um recebimento positivo e moderado em todo o Canadá, graças as aparições ao vivo da banda, afinal foram muitos shows e aberturas de shows de bandas grandes e famosas que, de certa forma, acaba gerando certa visibilidade, mas suas músicas não ganharam as paradas musicais. Claro, uma sonoridade calcada no hard rock e rock progressivo, pode não ser muito palatável para os empresários da música sempre ávidos por músicas mais radiofônicas e acessíveis. E precisamos pensar também que era virada dos anos 1970 para os anos 1980, com o punk rock um pouco mais em evidência e a new wave.

“Children of the Stars” mostra uma banda com muito potencial, embora seja um álbum sendo concebido por músicos jovens que, até então, nunca tiveram contato com um estúdio, apenas com apresentações ao vivo. Ainda assim são faixas agitadas e os esforços de complexidade sonora são relevantes e extremamente apreciáveis, mesmo com uma produção simples. E tal esforço se personificou em uma música calcada no hard rock com investidas progressivas.

E falando na banda, nada mais merecedor apresenta-los, agora mostrando também a importância de cada um na construção do seu som: tinha Bob Sprenger na guitarra, Richard Whittier, nos vocais, Gregory Hinz, na bateria, o último a entrar na banda e fechando trazia, no baixo, Neil Light. Essa foi a formação responsável por trazer à tona “Children of the Stars”.

O álbum é inaugurado com a faixa “Long Shot” e o típico riff poderoso e grudento de guitarra introduz a música, a pegada genuína do hard rock dos anos 1970, que nos remete ao Scorpions em transição da década de 1970 para os anos 1980. O vocal é elegante, limpo, de ótimo alcance já se mostrando como tendência para a cena do heavy metal que florescia no fim dos anos 1970. A “cozinha” rítmica dá o tom, o groove, tornando a música mais dançante.

"Long Shot"

“Groove Man” entra animada, com os riffs de guitarra e baixo bem ritmados, juntamente com a bateria marcada e pesada. O hard rock mais solar, o rock de “festa” se revela na faixa, certamente traz uma roupagem mais comercial. Solos de guitarra e baixos mais pulsantes na metade da faixa a deixa mais pesada e veloz, trazendo uma versão mais heavy rock. É versátil!

"Groove Man"

Em “Wizard Woman” o vocal ganha destaque, mas o instrumental não fica atrás. Aqui as mudanças de andamento são a tônica, com um viés mais voltado para o hard progressivo, com pegadas mais pesadas, graças aos riffs de guitarra elétrica e momentos mais acústicos, mas intimistas, com alguns solos mais viajantes e espaciais. Momentos de space rock também são percebidos e nos traz percepções mais contemplativas.

"Wizard Woman"

“No Time for Fools” já inicia com solos mais solares de guitarra que emendam em riffs mais pesados, baixo pulsante e bateria pesada, quase surrada! Aqui o heavy rock assume a dianteira, novidades do heavy metal são percebidas, com velocidade e muito peso. O momento mais sujo e despretensioso do álbum.

"No Time for Fools"

“Worlds in Which We Live” vem também pesada e agressiva! Baixo galopante, pesado, cheio de groove, “rivaliza” com riffs de guitarra mais pesado, vocais de grande alcance, gritados e rasgados, já tendendo, com sucesso, para o heavy metal. Não podemos negligenciar o solo de guitarra que é simplesmente de tirar o fôlego! A sequência mais pesada se revela neste momento do álbum.

"Worlds in Which We Live"

“Wooden Steaks and Mash Potatoes” começa com groove, com balanço, mas sem deixar de lado o peso que ostenta todo o álbum, representado pelos riffs indefectíveis de guitarra que logo entregam a destreza de um solo extremamente pesado e solar. O hard rock se mostra vivo e latente nessa faixa, com alguns momentos mais suaves, em que o vocal, limpo e transparente, se revela competente e orgânico.

"Wooden Steaks and Mash Potatoes"

E fecha com a faixa título, “Children of the Stars”, que segue predominantemente com o hard rock, capitaneado pelo riff de guitarra, e por uma típica velocidade que a torna pesada. Em dado momento percebe-se uma cadência no verso na música, que faz da faixa mais dançante e animada. Embora não traga traços de rock progressivo na faixa, se mostra versátil e repleta de mudanças de andamento.

"Children of the Stars"

Embora o álbum tenha recebido certa visibilidade, suas músicas não figuraram nas paradas musicais e sequer foram tocadas nas rádios, afinal, como que um álbum calcado no hard rock e progressivo, em uma época em que o punk rock, a disco music e a new wave tinham a prioridade do mercado e da indústria fonográfica? Definitivamente o Starchild estava “descolada” do seu tempo, com as suas músicas.

E para variar o contrato com a Axe Records foi encerrado porque a gravadora queria que o Starchild mudasse seu visual e sonoridade para o new wave. A banda não aceitou essa condição e decidiu seguir uma direção mais voltado para o heavy metal, sendo influenciado por bandas como Judas Priest e Iron Maiden. Definitivamente o Starchild não estava inserido no seu tempo, sonoramente falando.

O término do contrato com a gravadora não foi o único entrave que o Starchild teve. O baixista Neil Light deixaria a banda, em 1979, por motivos familiares, sendo substituído por Bill Mair e mais tarde Wayne Brown, nativo de Toronto. E ainda teve mais! Hinz, o baterista, também sairia da banda. Ele saiu para se juntar à banda Helix alguns meses depois e foi substituído por Dixie Lee.

Depois dessas mudanças tão radicais, o Starchild continuou a fazer turnês pelo Canadá e, embora a banda nunca tenha chegado à Europa, seus álbuns venderam melhor lá do que no Canadá, inclusive o single “No Control for Rock n’ Roll”, que não entrou originalmente no álbum, foi regravada por uma banda holandesa na década de 1980.

"No Control for Rock n' Roll"

No início de 1982 o Starchild entrou no Metalworks Studios, de propriedade de Gil Moore, da banda Triumph, e gravou uma demo tape de duas músicas (“Steamroller Rock” e “I Need a Woman Tonight”), mas não teve progressos para gravar um novo trabalho, um segundo álbum. Mas havia surgido uma luz no fim do túnel...

A Attic Records, com sede em Toronto, estava interessada em assinar com o Starchild, mas o cansaço da estrada, devido aos inúmeros shows que a banda estava fazendo e principalmente as divergências, cobrou seu preço e a banda se separou no verão de 1982, pouco antes de sua audição, em Toronto, para a Attic. Nos sete anos, entre a formação da banda e a sua fatídica separação, em 1982, o Starchild excursionou pelo Canadá incessantemente, constantemente.



Bob Sprenger e Neil Light formariam uma banda, de nome “Thief in the Night”, em 1985, fazendo vários shows e participando de vários festivais, mas se separaram em 1990. Sprenger gravou dois álbuns com a banda “Distant Thunder” no início dos anos 1990 e se reuniu, novamente, com o baixista Neil Light para formar a banda cover de rock “Wake the Giants”, em 2001. Com o comediante canadense Ron Pardo, na bateria e seu irmão Jason, nos vocais, bem como o novo baixista Sam Barber, que substituiria Light, em 2011, a banda fez principalmente covers, além de tocar material do álbum “Children of the Stars”, mas se separaram em 2014.

Sprenger também é guitarrista de uma vocalista e tecladista de London, Ontário, chamada Kathryn Marquis. Eles gravaram um álbum ao vivo chamado “Your Kingdo Come”, em 2011, além de um trabalho de estúdio chamado “Fire”, que inclui música por ele composta chamada “Purest Love”, sendo a sua primeira música gravada e lançada desde os dias de Starchild. O vocalista e membro fundador do Starchild, Rick Whittier, morreria em 18 de setembro de 2015, após uma longa batalha pulmonar obstrutiva crônica. Já o baterista original da banda, Greg Fritz Hinz, tmbém faleceria de câncer, em 16 de fevereiro de 2024.

Sprenger, depois de ser contatado no verão de 2023, pela gravadora grega Sonic Age/Cult Metal Classics, enviou algumas demos que o Starchild gravou no início dos anos 1980 que nunca foram lançadas para o selo. Eles as lançaram, no formato LP e CD, chamado “Steamroller”, em 2024! O álbum pode ser ouvido aqui!

"Steamroller" (2024)

O LP contém oito faixas, incluindo a demo de três músicas gravadas na Metalworks Studios”, além de cinco músicas gravadas em uma sala de ensaios alguns meses depois. O CD também contém algumas faixas bônus, incluindo um solo de bateria e baixo. De uma forma o Starchild continua, por intermédio desse álbum mais recente, vivo!


A banda:

Rick Whittier nos vocais

Bob Sprenger na guitarra

Neil Light no baixo

Greg Hinz na bateria

 

Faixas:

1 - Long Shot

2 - Groove Man

3 - Wizard Woman

4 - No Time For Fools

5 - Worlds in Which We Live

6 - Wooden Steaks and Mash Potatoes

7 - Children of the Stars


 
































domingo, 29 de junho de 2025

Heavy Cruiser - Heavy Cruiser (1972)

 

O ano era 1968, o mês era março. Após deixar a banda de Bruce Cockburn chamada “The Flying Circus”, Neil Lillie, que nasceu em Winnipeg, Canadá, se reuniu com o tecladista Ed Roth, que nasceu em Toronto e o vocalista Jimmy Livingstone, também de Toronto para formar uma nova banda. O fato era que Neil, que estava à frente dessa nova empreitada em sua carreira, queria algo novo e arrojado, por isso convocou os amigos Ed e Livingstone com quem já haviam trabalhado juntos em bandas como “The Just Us”, “The Tripp” e “Livingstone’s Tripp (que Roth e Livingstone renomearam para Livingstone’s Journey após a saída de Lillie para se juntar a Rick James, de forma breve, na versão final da banda “The Mynah Byrds”, em maio de 1967.

Juntou-se a esse novo projeto o guitarrista David Kindred e o baterista Gary Hall e a nova banda, que inicialmente se chamaria “New King Boiler”, começou, como muitas bandas no início de sua história, a ensaiar no porão da avó de Lillie, em maio de 1968. Mas não demorou muito para ter a primeira baixa na sua formação, onde Kindred saiu, dando lugar a Dave Burt, nascido em Hamilton, Ontário, que tinha sido guitarrista da banda “Fraser Loveman Group”.

A avó de Lillie era muito simpática e se envolveu com o início da banda de seu neto e se simpatizou com os companheiros de banda dele e apelidou, carinhosamente de “Coffee” Gary Hall que bebia café de forma quase que compulsória e os demais integrantes, para fazer uma galhofa, decidiu chamá-lo de “Coffi”.

A banda mudou de nome, passando a se chamar “Heather Merryweather”, em homenagem a uma música que a banda tocou, cujas letras foram escritas por uma amiga dos caras chamada June Nelson, a banda logo encurtaria, em nova mudança, para “Merryweather”. Depois de gravar uma única faixa inédita, “Heather Merryweather”, no outono, a banda foi para Los Angeles, com a intenção, claro, de gravar oficialmente o seu trabalho, mas Livingstone desistiu de seguir com seus amigos antes que a banda assinasse contrato com a Capitol Records, na primavera de 1968. Pouco antes do lançamento do álbum de estreia, produzido por John Gross, Lillie mudaria seu sobrenome e se tornou Neil Merryweather.

O segundo álbum duplo da banda foi gravado em Los Angeles com a mesma formação do seu debut (Merryweather, Roth, Hall e Burt), mas também contou com a ajuda de Steve Miller, Barry Goldberg e Charlie Musselwhite, o ex-guitarrista do Traffic, Dave Mason, o guitarrista Howard Roberts e o violinista Bobby Notkoff. 

A banda, após o lançamento de seu álbum, foi anunciada como atração da famosa casa de shows Whisky a Go Go, em West Hollywood, com a icônica banda Mountain em 29 de julho de 1969. Merryweather se apresentaria ainda no Thee Experience, em Los Angeles, em 21 e 23 de dezembro de 1969 e apareceu também no Balboa Stadium, em San Diego com os psicodélicos do Country Joe & The Fish, Poco, Chicago e Framework, em 12 de outubro de 1969. 

"Merryweather" (1969)

A banda estava engrenando, o sucesso parecia evidente, mas surgiram mais baixas na sua formação e dessa vez foi em dose tripla. Burt, Hall e Roth sairiam da banda para unir forças com Rick James em uma banda chamada “Salt and Pepper”. Neil Merryweather ficou atônito com essas baixas, até porque a banda estava indo muito bem, mas precisava reagir, já que queria seguir com a sua carreira de músico e estar em bandas. Voltou para Toronto para recrutar novos músicos.

Os escolhidos foi o ex-baterista do Ugly Ducklings, Robin Boers e o guitarrista John Richardson, do Nucleus e antes disso “Lords of London". Retornou para Los Angeles para gravar um álbum para o selo de blues, “Kent”, no início de 1970. O trabalho foi creditado a Neil Merryweather, John Richardson e Boers, negligenciando, sabe-se lá o porquê, a presença, a participação do ex-membro do 48th Parallel, JJ Velker, nos teclados e sintetizadores.

Eram novos caminhos a serem traçados, mas após o lançamento do álbum, não atraiu o interesse de muita gente, a um público bem limitado, mas a banda, com a adição de Goldberg, Musselwhite e a namorada de Neil, a ex-vocalista do “CK Strong”, Lynn Carey, gravou “Ivar Avenue Reunion” e depois, sem Goldberg e Musselwhite, metade de “Vacuum Cleaner”, para o selo RCA. Este último trabalho foi completado com uma nova formação com o guitarrista Kal David e um retorno de Roth e Hall e lançado como Merryweather/Carey.

A banda evoluiu e seguiu seu caminho gravando mais quatro álbuns, porém com um novo nome, “Mama Lion”, sempre tendo à frente a dupla Neil Merryweather e a sua namorada Lynn Carey. A banda evoluiria sim, mas sempre tendo, na sua trajetória, as mudanças na sua formação e quando o Mama Lion foi concebido, tiveram dois recém-chegados, são eles: o guitarrista Rick Gaxiola e o tecladista James Newton Howard, sim, ele mesmo, o famoso músico que se notabilizaria com um excelente compositor de trilha sonora de filmes. Eles assinariam com a Family Records, a recém-criada gravadora de Artie Ripp. Seu debut sairia em 1972 e se chamaria “Preserve Wildlife”.

Mama Lion

"Preserve Wildfire" (1972)

Uma informação precisa ser trazida à tona, pois o Mama Lion gravaria quatro álbuns, mas simultaneamente com outro nome também, o HEAVY CRUISER. A realidade era que Neil levou os caras do Mama Lion para o estúdio para fazer umas demos de algumas músicas. Gravaram meia dúzia de músicas e, alguns dias depois, o Mama Lion saiu em turnê e que acabou em Nova Iorque para tocar no Central Park com Billy Preston. Dessas demos Neil chamou de “Heavy Cruiser”. Mas o Mama Lion não seria totalmente esquecido.

O Mama Lion teria Carey e o Heavy Cruiser não teria a presença da vocalista e a vertente sonora das duas encarnações seriam bem distintas, pois com o Mama Lion funcionaria como um veículo para a voz e a presença de palco de Lynn Carey, já o Heavy Cruiser assumiria uma postura mais pesada, com um heavy rock e hard rock mais proeminente. E é com o Heavy Cruiser que falarei na resenha de hoje.


Heavy Cruiser

O Heavy Cruiser lançou seu debut, autointitulado, em 1972, pelo selo Family Productions, nos Estados Unidos e Philips na França, Alemanha e Espanha, álbum este que falarei também. Este álbum apresenta composições de Merry Weather, Howard e até mesmo da namorada de Neil, Lynn Carey, mesmo ausente desse projeto do Heavy Cruiser.

“Heavy Cruiser” foi gravado no Hollywood Spectrum e Paramount Studios, de Los Angeles. O álbum foi produzido pelos engenheiros Bruce Albertine, que trabalhou com James Brown e Siouxsie and the Banshees) e John La Salle. A imagem recortada e colada na contracapa mostra a banda como velejadores armados à deriva em terreno montanhoso contra um cenário lunar gigante. Eles foram fotografados por maria Del Ré.

O debut do Heavy Cruiser traz, como disse anteriormente, um caráter muito experimental e não pensem, distintos leitores, que é aquela coisa viajante, cheia de ruídos ou algo do tipo, mas algo literal mesmo, onde os caras entraram em estúdio e fizeram algo totalmente despretensioso, sem a intenção de gravar e lançar. Nada neste álbum é polido, bem produzido, porém não é, em momento algum, ruim ou descartável, pelo contrário, o charme deste álbum está exatamente nessa definição!

É um álbum empolgado, com guitarras fuzz, distorcidas e em até determinados momentos com uma pegada bem lisérgica, o que faz dele não totalmente pesado, do início ao fim, até porque percebe-se claramente o brilho dos órgãos que o torna também meio sombrio. É perceptível também o talento de Neil e companhia, mostrando certa inquietude criativa, produzindo materiais distintos entre Mama Lion e Heavy Cruiser, mesmo se tratando da mesma banda, exceto Lynn Carey que esteve ausente na formação da segunda banda.

Hard rock, psych rock, músicas breves, curtas, mas inspiradas, sujas, perigosas, intensas. As faixas covers são um destaque à parte, embebidas de ácido, pesadas, fazendo desse primeiro trabalho do Heavy Cruiser um alento e tanto para os apreciadores da velho hardão setentista.

E por falar em covers o álbum já começa com um clássico absoluto, “C'mon Everybody”, de Eddie Cochran e J. Capehart. E começa pesadona, intensa, cheio de riffs de guitarra pesados, duros, agressivos e bateria pesada e marcada. Aos que não conhecem Heavy Cruiser e fizer uma “audição às cegas” perceberia um punk rock ao estilo Ramones, mas um pouco pesado. Os vocais de Neil são ásperos, gritados, sem nenhum apuro técnico. 

"C'mon Evereybody"

“My Little Firefly”, composição de Neil, já traz uma vibe mais blues rock. A guitarra “chorona” de Gaxoila é magnífica, mesmo em dedilhados simples. O vocal já é mais melódica e segue o ritmo da guitarra. Uma balada bluesy competente que tem a “cozinha” eficiente e que faz o seu papel de dar o groove e o ritmo mesmo em uma pegada mais leve. Solos diretos e viajantes de guitarra dão um tempero muito agradável à faixa.

"My Little Firefly"

“Don't Stop Now” já tem o destaque dos teclados que, de forma solar, encorpa a música juntamente com os solos de guitarra que, em uma espécie de batalha faz da música pesada, mas dançante. Não aprecio comparações, mas me remete ao Deep Purple, porém menos sofisticado e cool. E o jeito Heavy Cruiser de ser que faz da banda singular até aqui na terceira faixa.

"Don't Stop Now"

“Wonder Wheel” é uma faixa de tiro curto, mas que tem potência e presença. Algo de rockabilly em uma versão mais explosiva com o vocal, mais uma vez, rasgado e potente. “Outlaw” foge um pouco da proposta do álbum e tem uma levada mais acústica, o vocal mais melódico, arriscaria dizer que lembra até mesmo um folk rock, o que realmente foge ao que a banda se propôs a fazer com o seu debut, porém é bem agradável.

"Wonder Wheel"

Segue com “Let Your Rider Run” que até assusta no início, com piano e voz que lembra Elton John. Eu arriscaria dizer ainda que aquela proposta arrojada e suja do Heavy Cruiser cairia por terra aqui com essa faixa, porque me parece ser bem radiofônica e com um belo arranjo. A banda vem mostrando nessa segunda metade do seu debut um pouco mais de repertório sonoro.

"Let Your Rider Run"

A sequência traz outro cover clássico, “Louie Louie”. O indefectível riff de guitarra introdutório não tem como deixar o ouvinte parado. É dançante, animada, solar. E o Heavy Cruiser não a altera tanto, talvez com o intuito de manter a essência da faixa e Neil, novamente, se destaca com o vocal alto, gritado, mas com um pouco mais de qualidade. Ah o destaque fica para o solo de guitarra e teclados, com aquela batalha que todo mundo fomenta.

"Louie Louie"

“As Long as We Believe” começa atípica também. Algo com um Southern Rock, com backing vocals bem eficientes e que podem corroborar essa vertente. Pianos em destaque, vocais mais discretos e legais. Mais uma música que poderia, sem dúvidas, tocar em qualquer rádio.

"As Long as We Believe"

“'Lectric Lady” retoma o peso característico do Heavy Cruiser, piano mais enérgico, bateria marcada e pesada, riffs curtos de guitarra que é o prenúncio de solos mais diretos e pesados. Vocais poderosos, melódicos e por vezes gritados. Pesada!

"'Letric Lady"

E fecha com a faixa mais longa e mais complexa da banda, a “Miracles of Pure Device” que já te entrega um solo de bateria excelente que logo ganha a companhia de teclados e um baixo mais pulsante e galopante. É uma faixa um tanto quanto atípica no contexto do álbum, um caráter mais experimental e que se desloca totalmente da proposta do debut do Heavy Cruiser. Na metade da faixa a bateria torna a ganhar protagonismo. A seção rítmica nessa faixa ganha destaque.

"Miracles of Pure Device"

Um ano após o lançamento de “Heavy Cruiser”, a banda entraria em estúdio novamente, em 1973, e gravaria o segundo álbum com o nome Heavy Cruiser e que se chamaria “Lucky Dog”, seguindo basicamente a mesma proposta do álbum inaugural. Mas mesmo com os dois álbuns desse projeto do Mama Lion, chamado “Heavy Cruiser” que estava agradando Neil e sua banda, teve seus problemas e entraves.

E aconteceu quando o Mama Lion entrou em atrito durante a sua turnê europeia. Merryweather entrou em conflito com o produtor Artie Ripp e suas práticas comerciais, rompendo com Lynn Carey e toda a banda. Neil Merryweather se juntaria a Billy Joel, em uma fita demo que acabou rendendo um contrato com a Columbia Records. Outro detalhe que incomodou Neil, quando esteve somando esforços com o Heavy Cruiser foram algumas obrigações contratuais que impediram que os nomes dos integrantes da banda não fossem creditados nos dois álbuns do Heavy Cruiser. E isso foi determinação de Artie Ripp.

"Lucky Dog" (1973)

Merryweather, com o fim do Mama Lion ou Heavy Cruiser, gravaria com uma banda chamada “The Space Rangers” e dessa reunião surtiria em dois álbuns, gravados pela Mercury: “Space Rangers” e “Kryptonite”, isso entre 1974 e 1975. Tocou também com uma banda chamada “Band of Angels”, um trio de garotas, mudando-se para a Holanda e por lá produzindo algumas músicas. Seu último álbum solo, “Differences”, foi gravado na Holanda também, em 1978, com a participação de músicos britânicos, como o baterista Clive Edwards, de Pat Travers e até mesmo o UFO. Seu último esforço em uma banda, chamada “Eyes”, lançou um único álbum em 1980. Depois dedicou-se em outra área como design e fotografia, retornando suas atividades musicais, de forma esporádica, no final dos anos 1990.

"The Space Rangers" (1974)

Howard lançou um álbum solo de instrumentais em 1974 pelo selo Kama Sutra. Em 1975 ele se juntaria à banda de apoio de Elton John. Entre 1975 e 1980, ele tocou em álbuns de Melissa Manchester, Leo Sayer, Diana Ross, Olivia Newton-John, Kiki Dee, Valerie Carter, Samantha Sang, Boz Scaggs e vários outros artistas. Ele se voltou para o trabalho de trilha sonora dos anos 1990 em diante, começando com sua trilha sonora para a comédia romântica de 1990 “Pretty Woman”. Gary "Coffi" Hall morreu repentinamente em sua casa em 4 de dezembro de 2010. Ele dirigia a banda e o coral do colégio Midway enquanto morava em Lakota, ND com seu filho de 12 anos, Collin.

“Heavy Cruiser” teve um lançamento não oficial, em CD, pelo selo Progressive Line (Austrália, 2002) e uma reimpressão, em vinil verde, pela Lucky Pig Records (Alemanha, 2013). Os alemães O-Music relançaram “Lucky Dog” em 2012 junto com os dois títulos dos Space Rangers.

Projetos efêmeros, nomes ocultos e não creditados em seus álbuns, trabalhos despojados, adicionam tempero a um período na carreira de Neil Merryweather e companhia, extremamente obscuro e com um peso colecionável para aqueles que desbravam o submundo do rock n’ roll, bem como, claro, a músicas pouco ortodoxas e marginalizadas pelo mainstream. Heavy Cruiser é essencial!




A banda:

Rick Gaxoila na guitarra

Coffi Hall na Bateria, percussões

James Newton Howard nos teclados

Neil Merryweather nos vocais, baixo, e guitarra acústica

 

Faixas:

1 - C'mon Everybody

2 - My Little Firefly

3 - Don't Stop Now

4 - Wonder Wheel

5 - Outlaw

6 - Let Your Rider Run

7 - Louie Louie

8 - As Long As We Believe

9 - 'Lectric Lady

10 - Miracles of Pure Device




"Heavy Cruiser" (1972)