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sábado, 12 de abril de 2025

Satan - Satan (1975 - 2016)

 

Julien Thomas era um pequeno francês de 4 anos de idade e já tinha contato com o rock n’ roll. As lembranças, embora antigas, estavam vivas em sua memória, das bandas e músicas que ouvia em casa ou até mesmo no banco de trás de carro de sua família. E uma banda, em especial, lhe marcou e muito. Esquecida, pouco conhecida, obscura na cena musical francesa. Era o SATAN!

Dentre tantas bandas que Julien, tão jovem, ouvia, o SATAN era a que mais ouvia em sua casa. E ele ganhou, na realidade os seus pais, o único álbum da banda, gravado em um K7 simples pelo tecladista Jérôme Lavigne, um dos membros da banda e que nela esteve de 1972 até 1976, ano em que foi extinta.

E foi com essa cópia que, décadas depois, o Satan viveria a sua redenção! Na década de 1990, aquele garotinho, que ouvia as músicas do Satan, entre outras bandas, no banco de trás do carro dos seus pais, tornou-se um estudante do ensino médio e descobriu as grandes bandas da cena progressiva mundial, como King Crimson, Magma, Genesis, Pink Floyd etc.

Mas o que estava na mente dele, era aquela banda, cujas músicas estavam gravadas naquele K7 simples, aquela banda de nome tenebroso, mas de uma sonoridade cativante e envolvente: Satan! Em uma galáxia musical, mais precisamente nos anos 1990, tomada por Gun’s N’ Roses, música eletrônica, grunge e a Eurodance, para um jovem avesso à essas sonoridades, a incompreensão reinava em sua percepção de música.

Se colocou a pesquisar sobre o Satan, buscou onde podia referências sobre ela em toda a parte: bibliotecas de mídias, enciclopédia do rock francês... Nada! Nada! A difusão da internet veio, talvez com ela Julien conseguisse buscar informações sobre a obscura banda, mas nada mudou. Não se tinha vestígios daquela sonoridade que embalou a sua infância por tanto tempo. Será que teria salvação para o Satan?

Chegou a óbvia conclusão de que teria que fazer o exaustivo trabalho sozinho de reparar uma injustiça histórica e trazer à luz o rock obscuro do Satan e tentar colocar a banda na história do rock francês. O que teria acontecido com os jovens músicos do Satan nos anos 1970? Ingenuidade, idealismo, a indústria fonográfica? O que o tornaram anônimos?

Fundada em 1968, por estudantes da école Normal du Mans sob o nome de “Heaven Road”, a começou, como tantas outras, tocando covers de Colosseum, The Who, Jethro Tull, Soft Machine entre outras que faziam sucesso na segunda metade dos anos 1960. Depois de um tempo decidiram compor material próprio, explorando camadas experimentais e atmosféricas, musicando poemas de Verlaine, Soleils, Couchants, por exemplo.

Depois de pouco mais três anos, os futuros e promissores funcionários públicos deixaram de lado suas carreiras emergentes como professores e as promessas de estabilidade no emprego para se dedicarem integralmente à música. Em uma França no auge das revoltas estudantis e dos movimentos sociais, parecia ser bem revolucionário sair da “École Normale”.

E assim o foi. Os jovens músicos, na faixa dos seus vinte anos, se estabeleceram em uma comunidade no interior de Sarthe e passaram a viver a utopia do rock n’ roll. Uma vida ditada pela moda, pela convicção, talvez não seja utopia...

Satan

Distante da civilização, em uma espécie de “bolha impermeável”, a banda desenvolve sua identidade, por um método peculiar de composição, com alicerce na “ilustração sonora”. E Macson, ao conceder uma entrevista, explicou esse processo:

"Sempre construímos nossas músicas a partir de um roteiro, um pouco como um filme. Primeiro escrevemos uma história e adaptamos músicas e textos para ela".

A banda tinha uma ambição latente e real de transmitir imagens e história por intermédio das músicas que compunham e ainda tinha outro detalhe importante, outra característica marcante que a banda tinha e que ficou exposta nas músicas que continham em seu único álbum: texturas sonoras, mas bastante simples e pouco se fazia isso na cena progressiva francesa! Talvez o Ange pudesse imprimir esse tipo de sonoridade, mas o único talvez.

Apesar das dificuldades financeiras da banda, da precária condição de vida e dos seus instrumentos musicais, eles, com muita persistência, começaram a conquistar uma reputação séria no palco e foi notado várias vezes durante as suas apresentações no Golf Drouot, um templo parisiense do pop e do rock. O Heaven Road, o antigo Satan, se tornou o “rei” do local, tornando-se o queridinho do dono da casa de show, Henri Leproux.

Se aproximaram do produtor Jacky Chalard, baixista da banda Dymasty Crisis, que na época abria para Michel Polnareff. Com um pé no show-biz, o Heaven Road seguiu o conselho de seus patrocinadores e decidiu adotar um nome francês para adequar ao mercado fonográfico local, mais comerciável à época, com a esperança de galgar degraus, buscar a fama. A lista submetida a eles se resumiu em dois nomes: “Sarah”, que parecia algo meio glam ou andrógeno e “Satan”. A segunda opção foi escolhida no verão de 1973. Macson, o guitarrista, argumentou o seguinte, em uma entrevista:

"Bem, nós gostamos e então, como na época havia Ange que estava indo bem, pensamos que isso poderia tornar possível fazer a troca".

Mas essa onda de surfar na notoriedade da banda carro-chefe da cena rock da França e torcer o nariz para ela e seu nome não seria, claro, bem recebida. Esse nome, em breve, seria uma bola de ferro acorrentada em seus pés. E o gerente que os acompanhou por alguns meses fez um grande alarde disso, fomentando sessões de fotos em cemitérios, por exemplo, para personificar esteticamente o nome sombrio da banda adotado recentemente. Fora outros detalhes sórdidos, como kits impressos descrevendo “o mestre do inferno se expressando através da violência”, entre outros detalhes subversivos.

Mas esse não era o desejo da banda de buscar sucesso, tanto que, com a saída de seu gerente, os jovens músicos insistiram mais nas noções de imaginação, devaneio e mistério, tema esses já presentes em suas composições. E com isso sua produção de palco muda também, com os caras subindo neste escuro, com apenas as lâmpadas dos amplificadores e seus pregos fosforescentes como fontes de luz. As “peças” são apresentadas como pinturas, apoiadas por projeção de vídeo. Eram verdadeiros shows multimídia antes de seu tempo. E com isso, de volta ao Golf Drouot, em dezembro de 1973, eles foram coroados com o curioso título de “melhor banda semiprofissional francesa”.

Apesar das satisfatórias incursões em Paris, o Satan decidiu manter-se a distância desse glamour e volta a se isolar em sua fazenda. Porém na primavera de 1974 eles embarcaram em uma turnê com a banda Caravan, que já gozava de uma pequena notoriedade no embrionário “underground” da época. Mas a turnê se tornou um fracasso para ambas as bandas. Em Orléans o show foi boicotado por uma história sombria de rivalidade entre os organizadores, ocasionando a interrupção da turnê e o retorno à Inglaterra do Caravan, além da volta do Satan à Sarthe.

Levados ao limite e sem fôlego, financeiramente falando, André “Macson” Beldent, guitarrista, Jerome Lavigne, tecladista, Christian Savigny, baterista e Richard Fontaine, baixista, os membros do Satan, criaram o “Ciel d'été”, um projeto paralelo que tinha a intenção primordial de trazer dinheiro. E surtiu efeito! O Ciel d'été foi tão bem-sucedido no oeste da França que os músicos acumularam dinheiro o bastante para comprar equipamentos e, um ano depois, fazer uma residência de um mês no “Studio 20”, em Angers. É nesse momento que o trabalho do Satan seria concebido.

Ciel D'Été antes e atualmente

Ciel D'Été - "Father of Night, Fight of Day"

Cinco dias por semana os músicos trabalharam incansavelmente, fazendo e refazendo tomadas até obter o resultado desejado. E finalmente com o rolo debaixo do braço, com as suas músicas prontas o Satan retorna à Paris para oferecer seu álbum para as gravadoras. Sem sucesso! Tentaram os relacionamentos que construíram, mas nada! Questionaram, indagaram para si mesmos se as pessoas que receberam as cópias de seu álbum realmente ouviram, mas logo se entediaram e, depois de mais três ou quatro recusas, ainda com o projeto “Ciel d'été”, a banda deu o seu último suspiro, em 1976.

O álbum que foi esquecido do Satan trazia um “prog rock envenenado”, repleto de recursos sonoros, com uma vibe jazzística e pegada pesada, lembrando, por vezes um hard rock. Um limiar entre peso, prog, simplicidade, envolto em um som orgânico e complexidade, devido a tamanha ousadia em trazer esses elementos e tirar deles uma massa sonora incandescente e solar.

O álbum é inaugurado com a faixa “Le Voyage” que tem como destaque as texturas de teclado que acompanham uma seção rítmica frenética e solar, com solos diretos e pesados de guitarra, tudo isso envolto uma atmosfera sideral, uma pegada space rock ao estilo Pink Floyd. Uma faixa viajante e estilosa.

"Le Voyage"

Segue com a faixa “OS” que inicia com um vocal falado, mas logo entrega um teclado sombrio e depois mais sinfônico, mostrando uma incrível versatilidade em um curto espaço de tempo na música. As viradas rítmicas não param por aí: percebe-se uma vibe jazzística, uma pegada mais hard, depois contemplativa, algo pastoral, depois fica mais experimental e soturno. O vocal retorna com risadas doentias e paranoicas. Definitivamente é uma faixa sombria e estranha.

“Le Robot” começa com riffs mais pesados de guitarra com teclados tendendo para o progressivo sinfônico e que me remeteu imediatamente ao krautrock e o rock progressivo britânico. Pode parecer uma “mistura” improvável, mas essa é a percepção. O vocal entra e uma pegada mais viajante e estranha se faz ouvida. Essa proposta mais viajante se une aos riffs mais pesados de guitarra e formam um contraste envolvente e intrigante, ao mesmo tempo. Uma das melhores faixas do álbum.

"Le Robot"

“La Nuit Des Temps”, a faixa mais longa do álbum, começa com um ruído meio sideral e sombrio, mas logo fica solar e deslumbrante com um lindo e límpido solo de guitarra, mas não por muito tempo. Os teclados tornam a música mais experimental e minimalista, com a “cozinha” rítmica ditando o humor da música. Bateria delicada e bem executada, baixo pulsante. Entre momentos mais soturnos e solares, a música se revela versátil e cheia de mudanças de tempo. Excelente!

"Las Nuits des Temps"

E fecha com a faixa “L’Aigle” que inicia com uma pegada folk, ao estilo pagão de ser, uma pegada celta, com uma atmosfera sombria e ameaçadora, mas logo é “encorpada” com o progressivo sinfônico e depois algo mais psicodélico, um beat que nos remete aos anos 1960. Inacreditável como a versatilidade aliado à simplicidade se faz presente nesta e nas demais músicas do único álbum do Satan.

"L'Aigle"

Voltando a Julien e já adulto ele relatou, também em entrevista que concedeu, que o Satan tomou o caminho ao contrário:

"...porque quando uma banda chamava a atenção, a gravadora primeiro a confiava a um diretor artístico que orientava o trabalho, que procedia com uma espécie de formatação para que fosse mais assim ou aquilo, para que pudesse ser tocada no rádio, etc. Eles gravaram primeiro, era arriscado. E então, talvez devamos reconhecer uma falta de combatividade da parte deles, em comparação com uma indústria que já havia feito o suco desse tipo. Basicamente, havia o Ange que vendia muito e então todas as gravadoras tinham sua banda progressiva como Magma ou Mona Lisa..., mas atrás deles, as portas estavam fechadas. Você também tem que lembrar que bandas como Magma ou Gong estavam morrendo de fome na época! Comercialmente, o gênero estava em declínio e Satan chegou no final da onda, no momento em que o negócio estava começando a mudar para a onda rock/punk que veria o surgimento de artistas como Little Bob, Bijou, Starshooter, Téléphone, Asphalt Jungle... A cena estava mudando e eles realmente chegaram à dobradiça”.

De acordo com o baterista da banda, Christian “Kicks” Sauvigny, que mais tarde faria carreira como produtor e programador musical no rádio (Chérie FM, Europe 2, Nostalgie...), o “máster” original do álbum foi colocado em segurança em um cofre de banco. O que resta saber é: Em qual banco? Em qual cidade? Ninguém sabe, ninguém soube de absolutamente nada! O carretel, com as gravações da música nunca ressurgiu. Os demais membros da banda não tinham mais uma cópia, nem mesmo o Studio 20, em Angers, onde foram gravadas as músicas, não tinha nada arquivado.

O baterista Savigny tinha uma cópia, a única conhecida, até então. Foi ele quem falou sobre o Satan pela primeira vez para Serge Vincendet, dono da loja de discos e gravadora de Paris, a Monster Melodies, especializada nesse tipo de pequenos “tesouros” perdidos, obscuros. Mas a fita estava em condições precárias, praticamente destruídas.

Mas é nesse momento que entra na história Julien. Julien, com seu antigo K7, agora digitalizado no estúdio, feito no início dos anos 2000, tentou se aproximar de algumas marcas especializadas, principalmente na França e na Itália. Mas o risco financeiro parecia demais para ele, afinal uma banda virtualmente desconhecida da qual ninguém tinha ouvido falar. Uma coisa levando a outra e o encontro finalmente aconteceu, em outubro de 2015, entre Julien, aquele ex-adolescente fã de Satan e o chefe da Monster Melodies.

A famosa cópia que o menino Julien ouvia na casa dos pais, no banco de trás de seu carro foi usada para a gravação do álbum no formato vinil. Com uma tiragem de 1.000 cópias, o LP do Satan, homônimo, que apresenta cinco das sete faixas gravadas em 1975, foi distribuído em lugares distantes da França, como Espanha, Alemanha, Holanda, Itália e até mesmo os Estados Unidos.

A persistência e os encontros fizeram com que algo, totalmente perdido e improvável para ganhar a luz, veio a vida quarenta anos depois de sua concepção. Um belo consolo para o fundador do Satan, o guitarrista André “Macson” Beldent que, até hoje, ainda vive uma vida intensa de rock n’ roll, no auge dos seus quase 75 anos de idade, com sua banda de blues tocando todo fim de semana em bares.

Como esperar um efeito positivo, no que tange ao seu lançamento, quarenta anos depois, de uma música que pouco se encaixaria atualmente, mas que ganhou, mesmo que tardiamente a sua redenção tardia, embora a banda jamais iria tirar proveito de seu verdadeiro valor sonoro. Richard “Sam” Fontaine se afastou da música e as últimas informações que pude obter, buscando na web sobre a banda, é de que estaria muito doente. Quanto o tecladista Jérôme Lavigne, seu fim foi trágico. O mesmo se suicidaria em 1987, alguns anos após ter entregado a cópia, o K7, ao jovem Julien que possibilitou livrar o Satan do “purgatório” e do esquecimento eterno. 

Se você quiser ouvir o álbum na íntegra com mais duas faixas que não entraram no lançamento pelo selo Monster Melodies, clique aqui. Há também um show da banda, de 1974, que pode ser ouvido aqui. Há reportagens também do Satan, afinal esse é o canal do YouTube de Julien Thomas.




A banda:

André “Macson” Beldent na guitarra

Jérôme Lavigne nos teclados

Christian Savigny na bateria

Richard “Sam” Fontaine no baixo e vocal


Faixas:

1 - Le Voyage

2 - O.S.

3 - Le Robot

4 - La Nuit Des Temps

5 - L'aigle

 



"Satan" (1975 - 2016)


























quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Triode - On n' a Pas Fini D'Avour Tout Vu (1971)

 

A cena progressiva da França não goza de muita popularidade, não sendo muito respeitada, ficando, por conta disso, aquém do que realmente representa, em termos de qualidade, para a cena progressiva global.

E não se enganem, caros amigos leitores, a França entrega um punhado de grandes bandas, não apenas do prog rock, mas do rock n’ roll em todas as suas vertentes.

Infelizmente fatores mercadológicos impactam nesse triste cenário, sem sombra de dúvida, haja vista que a França não está no centro da música progressiva como a Inglaterra, Alemanha e até mesmo a Itália. Talvez fatores culturais que se “aplicam” na música, mas acredito, este último, se tratar de meras especulações sem nenhuma sustentação.

E falando em grandes centros da música progressiva, bem como em peculiaridades sonoras que variam de país para país, a banda que escolhi para falar ou melhor escrever traz uma sonoridade bem típica da Inglaterra, por exemplo, celeiro de bandas que executavam, flertavam com o jazz rock, o prog rock entre outros sons pagãos bem interessantes. Falo do TRIODE.

O Triode, como tantas bandas de sua geração e flerte sonoro, teve um precoce fim, um desfecho anormal quando se trata de qualidade de música, gravando apenas um álbum, no longínquo ano de 1971, chamado “On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu”.

A banda foi formada na “capital luz”, em Paris, no início de 1970 e teve seu álbum lançado pelo selo “Futura Records” com uma tiragem mínima de cópias. Algo que intriga é que “On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu” não possui um teclado, o que surpreende em se tratando de um álbum que traz, na sua base sonora, o prog rock e o jazz rock.

Talvez a palavra certa a se usar não seja “intriga”, mas “ousadia”, afinal uma banda de rock progressivo não ter em sua formação um tecladista e ainda assim soar com uma imensa qualidade, é digno de reverências.

E falando em formação, o Triode, quando gravou “On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu”, tinha o já exímio Michel Edelin na flauta, Pierre Chereze na guitarra, Pierre Yves Sorin no baixo e Didier Hauck na bateria. Edelin apesar de ser responsável apenas por tocar a flauta, é dono de uma importância grande, afinal a alma da banda passa por seu instrumento.

O Triode imprimiu em seu único trabalho lançado, além da já mencionada veia progressiva com generosas pitadas picantes de jazz rock, traz nuances bem evidentes de psicodelia, lisergia graças ao trabalho extremamente versátil de Edelin e claro, dos demais integrantes.

Ao buscar referências da banda pela “web” observei que muitos analisavam ou melhor, comparavam o Triode ao Jethro Tull, por conta do protagonismo da flauta em seu álbum. Mas ao ouvir “On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu é nítido que essa comparação, além de ser um tanto quanto perniciosa, é equivocada, penso. Trata-se de uma comparação carregada de estereótipos, somente pelo fato do Tull trazer também na flauta de Ian Anderson o protagonismo que no Triode também possui. Evidente que, por conta do uso do instrumento, algumas similaridades são percebidas, mas o Triode tem o que o Jethro Tull quase não tem: o jazz rock.

“On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu” é enérgico, solar, um álbum vivo, pleno e intenso. É totalmente instrumental o que evidencia tal questão. E convém ressaltar que, além da forma fascinante de tocar flauta de Michel Edelin, que harmoniza perfeitamente com o seu psicodélico, lisérgico da guitarra de Pierre Cherez, além da seção rítmica totalmente descolada e envolvente de Didier Hauck e Pierre-Yves Sorin.

O álbum é acelerado, em boa parte de sua execução, nenhuma faixa é fraca ou, digamos, enfadonha, traz uma musicalidade de extrema qualidade, mostrando músicos em excepcional sinergia e ainda assim permaneceram tão esquecidos, desconhecidos, envoltos em uma obscura bolha, inclusive nos circuitos do prog rock ficaram no mais puro ostracismo, sem contar com a linda arte gráfica que já nos convida a ouvir o seu conteúdo.

E foi exatamente assim que me aproximei do álbum do Triode: em minhas incursões, desbravando o mundo encantado da obscuridade que, confesso não lembrar como, cheguei ao álbum desta banda francesa. A arte gráfica foi mesmerizante e, claro, logo me pus a ouvir e o resultado e de total frenesi que relato neste texto.

Trata-se um álbum versátil ou que se convencionou de “eclectic rock” e confesso que, apesar de ser um tanto quanto reticente com esses “rótulos musicais”, esse realmente se encaixa, se adequa ao estilo de som do Triode: um jazzy prog com interlúdios quentes de flauta, com a guitarra ácida, lisérgica e uma “cozinha” competente e audaciosa, dando a textura ideal para a sua vertente sonora.

"Magic Flower"

“Misomaque” de imediato se percebe que é mais acelerada que a música anterior e quem dita esse ritmo é a bateria, mostrando-se mais dinâmica e enérgica, logo depois vem o baixo pulsante e solos rápidos e diretos de guitarra dando mais peso ao conjunto. Uma sopa sonora intensa e dançante!

"Misomaque"

“Moulos Grimpos” já começa contemplativo, com uma pegada mais psicodélica, graças também ao instrumento percussivo. A flauta entra nos momentos mais leves da música, com guitarras dedilhadas e baixo e bateria, mais uma vez, em extrema e competente harmonização. Solos de guitarra limpas e lindas se ouvem e me remete algo meio bluesy.

"Moulos Grimpos"

Segue com “Blahsha” que é a síntese do jazz rock! Bateria swingada e frenética, em alguns momentos, a flauta “duela” com os riffs de guitarra. O todo logo se mostra único com peso e irreverência. Nota-se ao fundo gritos de êxtase, a música é envolvente e plena, texturas pesadas com solos lisérgicos de guitarra. Sem dúvida uma das melhores músicas deste belo álbum. Baixo pulsante de forma louca, bateria pesada, flauta rasgando. Tudo nessa música é intensa!

"Blahsha"

“Lilie” é uma faixa em que se corrobora a qualidade da flauta, tendo o apoio da seção rítmica, baixo e bateria apoiam firmemente, deixando a música mais dançante. A flauta cede lugar ao solo jazzy de guitarra que, embora simples, é extremamente emocional e igualmente dançante. Mas a flauta logo retoma a sua condição de protagonista.

"Lilie"

“Ibiza Flight” anuncia a excelente introdução de baixo enquanto a bateria segue apoiando e a flauta, excelente, “rivaliza” salutarmente com o pulsante baixo. A sintonia é perfeita! O solo de guitarra entra na festa e ganha as atenções, com peso, solo que me remete a um poderoso hard rock.

"Ibiza Flight"

 “Adeubis” é uma faixa mais curta com o predomínio da flauta, mas logo vem os riffs meio dançantes de guitarra, algo entre jazz rock com groove que, mesmo com simplicidade, traz todo o zelo pela riqueza instrumental.

"Adeubis"

“Come Together”, clássico dos Beatles, ficou bem interessante na versão instrumental, nada muito especial, é bem verdade, mas, para variar, é extremamente interessante ouvir a flauta substituir o vocal e a guitarra distorcida, ao estilo acid rock, conferindo a faixa um pouco mais de peso.

"Come Together"

E fecha com “Chimney Suite” é de longe a faixa mais longa, no auge de seus mais de nove minutos de duração e é basicamente conduzida pela flauta, percussão e baixo, tendo a guitarra, em uma versão mais pesada, se junta rapidamente, vindo rasgada, com solos pesados, fazendo o contraponto com a suavidade da flauta que sempre se mostra viva e presente.

"Chimney Suite"

O Triode se separou um ano após o lançamento de “On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu” se separou. O flautista Edelin lançou alguns trabalhos solos, ganhando notoriedade e um deles é o “Michel Edelin Trio/Quartet. Mais tarde Edelin iria se consagrar como uma das lendas da flauta citado, inclusive no “Dicionário do Jazz” (Laffond), como um dos “"The Great Creators of Jazz", autêntico especialista do jazz-flute e um dos quatro na lista do Jazz Hot Prize (ao lado de Dave Valentin, James Moody e Sonny Fortune).

Chereze lançou vários singles e álbuns como artista solo, enquanto Pierre-Yves Sorin tocou como “session man” ao lado de grandes nomes do jazz, se unindo com o exímio baterista Didier Hauck no Jazz Sextet.

“On n'a Pas Fini d'avoir Tout Vu” teve, ao longo do tempo, vários relançamentos com o primeiro pelo famoso selo italiano, a Mellow Records, entre 2000 e 2001, pelo Futura Records, na versão LP, em 2012, sendo que este selo foi o responsável pelo lançamento do álbum em 1971, no mesmo ano outro selo italiano, o Luna Nera Records lançaria o álbum em LP e por fim, até o momento, o selo francês “Souffle Continu Records”, o lançaria em LP.

Um álbum instrumental uniforme, com músicas de excelente qualidade, com a flauta e guitarra fuzzed que se revezam na “liderança” sonora deste obscuro trabalho, com uma seção rítmica que dão o apoio e uma textura pesada e percussiva que faz desse trabalho do Triode, mesmo não sendo uma obra-prima, mas uma pérola do jazz rock. Recomendado!


A banda:

Pierre Chereze na guitarra

Pierre Yves Sorin no baixo

Didier Hauck na bateria

Michel Edelin na flauta

 

Faixas:

1 - Flower

2 - Misomaque

3 - Moulos Grimpos

4 - Blahsha

5 – Lilie                                                                                      

6 - Ibiza Flight

7 - Adeubis

8 - Come Together

9 - Chimney Suite


Download de “On n’a Pas Fini d’Avoir Tout Vu pode ser feito aqui!


Triode - "On n'a Pas Fini d'Avoir Tout Vu" (1971)




























quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Carpe Diem - En Regardant Passer Le Temps (1976)

 

Tem certos momentos na vida que nos abraçamos a certas zonas de conforto e lá residimos de forma tão passional que esquecemos que a vida pode nos oferecer tantas coisas boas, consistentes para o nosso crescimento, para o nosso desenvolvimento pessoal. Não! Não meus queridos amigos leitores não se assustem com essas filosofias baratas! Há uma razão de dizer isso. E qual é?

Indo para a realidade do rock n’ roll e contextualizando a questão da temível e sedutora zona de conforto aliado a nossa tão amada música é ouvir, se dedicar àquelas bandas do eixo Inglaterra e Estados Unidos ou, quando falamos especificamente do rock progressivo, flertamos sempre com a Alemanha e a Itália ou ainda ouvir os medalhões sempre!

Não faço críticas a essas posturas e decisões! Claro que não há como resistir aos sons progressivos que vem da Alemanha, da Itália, do rock n’ roll que estronda nos Estados Unidos e Inglaterra, mas quando eu criei esse blog, esse humilde blog foi, basicamente, para fomentar o meu ávido interesse pelas bandas obscuras, pouco conhecidas, que não tiveram êxito comercial e, além das audições, aliar também a história que são extremamente ricas.

E assim, três anos depois de criado o blog, eu vejo que está surtindo efeito e percebo que o universo do rock é vasto e ilimitado e tem muito, muito a se explorar, a se garimpar. O rock, com suas bandas obscuras, sempre, diria isso, esteve rondando os meus pensamentos e fones de ouvido, e agora com a materialização do blog, explode em profusão de bandas.

E diante disso e fugindo um pouco, pelo menos um pouquinho, da Itália e Alemanha progressiva, do hard rock e psicodélico britânico e norte americano e vamos desembarcar na França. A França que tem sim um belo arsenal de bandas de rock n’ roll, sobretudo de bandas progressivas produzidas na década de 1970 e algumas até com certa credibilidade e popularidade como Ange, por exemplo.

Mas me foi apresentado, há algum tempo atrás, a primeira banda francesa de rock progressivo por alguns amigos tão amantes do estilo quanto eu em uma dessas reuniões despretensiosas regadas a música e muita cerveja: Essa banda se chama Pulsar. Quando ouvi, lembro-me de ter dito, com ênfase: Nossa, que bom que existe prog rock de qualidade em outros lugares do mundo! Foi arrebatador e digo que toda a sua discografia, não muito extensa, é maravilhosa e recomendo o álbum “Halloween” que escrevi uma resenha que pode ser lida aqui.

Porém não é do Pulsar que quero falar, mas sim de outra banda que descobri em meus garimpos pelas redes sociais, falo agora do CARPE DIEM. Pois é meus amigos leitores, o nome já induz a coisa boa! Carpe Diem, em latim, significa “Aproveite o dia”! E vos digo que há muito a se aproveitar com o Carpe Diem.

Carpe Diem

Não me recordo ao certo como a descobri, ou melhor, em que situação a descobri. Talvez tenha sido nas minhas garimpagens pela grande rede, ou recomendações, o fato, o mais importante é que quando a ouvi o mundo, por um instante, parou em referência ao som do Carpe Diem, a vida e o seu cotidiano para reverenciar esse som tão especial produzido por essa banda.

Mas antes de ir para as apresentações do álbum que será destrinchado, vamos contar uma breve história dos primórdios do Carpe Diem na França. A banda foi formada na Riviera, mas precisamente na bela cidade de Nice, no ano de 1969, pelo tecladista e vocalista Christian Truchi com os seus amigos de infância Claude Méchard e Roger Farhi. A banda era conhecida como "Deis Corpus".

Após alguns shows na região de Nice, a formação da banda foi recomposta em 1970 com novos músicos como Gilbert Abbenanti, na guitarra, Alain Berge no baixo. A banda, nesse período, passa a se chamar “Carpe Diem”.

Como Carpe Diem em uma nova concepção e formação a banda passa a tocar em vários clubes, como Golf Drouot e gibus, por exemplo, muito conhecidos à época, entre vários outros, construindo uma cena francesa de rock progressivo e, nesses shows, passou a apresentar suas próprias composições, tendo em Truchi o seu principal letrista.

O ano era 1974! A banda dedica-se a criação de suas próprias músicas e, com isso, novas mudanças acontecem com a entrada de dois novos músicos à banda: Alain Faraut, na bateria e Marius David, no saxofone e flauta.

Ao lado de bandas como Ange, Pulsar, Mona Lisa, Shylok entre outras foram notáveis na construção da cena progressiva francesa, sendo, entre elas, a menos conhecida, mas não menos importante no que tange a referência no estilo praticado naquele país. O Carpe Diem absorveu um pouco do prog rock que era praticado na Itália e Inglaterra, por exemplo, praticando um belíssimo e arrojado progressivo sinfônico com atmosferas jazzísticas e de space rock.

Apesar de não trazer grandes inovações na história desse segmento musical o Carpe Diem trouxe algo muito interessante que é a junção desses estilos que ajudaram a construir o rock progressivo, fazendo com maestria, com extrema competência, conectando todas essas peças musicais sem soar algo perdido, algo solto. Uma conexão incrível, com consistência, com substância e melhor: com robustez, com força, intensidade, mas, ao mesmo tempo contemplativo, viajante e por vezes soturno.

Definitivamente a música do Carpe Diem é diversificada, versátil e que, sim, pode atingir a todos os ouvidos e corações que aprecia todos os estilos, dentro do universo do rock, que vai do prog ao jazz fusion, ao space rock.

E são essas percepções que são sentidas, pelo menos para mim, no seu debut, o excelente “En Regardant Passer le Temps”, de 1976. Depois de muito tempo na ativa a banda lançaria seu primeiro trabalho oficialmente pelo pequeno selo “Arcane (WEA)”. 

Essa é a realidade de muitas bandas que não tem o apoio da indústria fonográfica e que, infelizmente não é “favorecida” pela geografia, porque simplesmente não está no eixo Inglaterra/Estados Unidos e ainda toca rock progressivo sem amarras com a música pasteurizada.

Embora se perceba em “En Regardant Passer le Temps” a presença de sons de bandas clássicas antigas como Camel, como Pink Floyd, Hawkwind e os progressivos sinfônicos das bandas italianas, percebe-se também, como disse, a junção dessas vertentes em uma massa densa, poderosa e de muita personalidade. É muito intricado, é muito complexo e construída de uma forma muito emocional, algo orgânico, vivo, pleno. É complexo, mas não é mecanizado e indulgente, isso nunca! 

As partes mais suaves desse trabalho do Carpe Diem seguem a veia mais sinfônica, tendo os teclados, o melloton, as guitarras acústicas e as flautas como protagonistas, mas também o teclado, os sintetizadores entregam a atmosfera mais voltada para a música espacial, o space rock, com a bateria e a guitarra dando o tom mais intenso, energético caracterizado pelo jazz fusion, pelo jazz rock.

A banda abusa dos instrumentos de sopro: saxofone, flauta, são os principais e isso faz com que a veia jazzística e sinfônica da banda sobressaia. Chego a conclusão de que o Carpe Diem não pode ser categorizada a um estilo, difícil ser rotulada, o que talvez em uma primeira audição venha a agradar aos que gostam dos diversos estilos que flertam, direta ou indiretamente, com o rock progressivo.

O Carpe Diem, na época do lançamento do excelente “En Regardant Passer le Temps”, era formada por Christian Truchi (teclado e vocal), Gilbert Abbenanti (guitarra), Alain Berge (baixo), Alain Faraut (bateria) e Marius David (flauta, sax soprano e percussão).

O álbum é inaugurado com a “Voyage du Non-Retour” que começa com um tiro curto, com quase e apenas quatro minutos de duração, mas que revela a beleza e diversidade sonora do Carpe Diem, com uma levada jazz rock de excelente qualidade, que vai ganhando expansão revelando um progressivo sinfônico.

"Voyage du Non-Retour"

Mas é na faixa “Réincarnation” que a banda mostra, em profusão, a essência de sua proposta sonora. Flautas viajantes, progressivo sinfônico e um rock espacial faz dessa música uma epopeia progressiva e jazzística.

"Réincarnation"

“Jeux du Siecle” lembra mais um som clássico de que propriamente de jazz fusion e sinfônico, muita rica em harmonia e com predominância do saxofone. 

"Jeux du Siecle"

E fecha o álbum a música “Publiphobie” é outra bela faixa que tem aquele híbrido, marca registrada da banda, entre sinfônico e jazz rock e cujo sax lembra e muito Van Der Graaf Generator, uma música bem animada e enérgica.

"Publiphobie"

Carpe Diem, com seu primeiro álbum, nos revela uma banda muito competente, diversificada sonoramente falando, de melodia e instrumental rico, com uma execução sólida e composições interessantes que se encaixam perfeitamente ao som produzido. 

Se você aprecia um rock progressivo sinfônico com uma riqueza instrumental intricada e complexa, mas com uma versatilidade conduzida por jazz rock, space rock e afins, encontrará em “En Regardant Passer le Temps” o destino certo para grandes audições.

E falando em grandes trabalhos e audições o Carpe Diem, no mesmo ano, em 1976, lançaria o seu segundo trabalho de estúdio chamado “Cueille Le Jour”, pelo selo "Crypto/RCA", que, para muitos, é um álbum mais bem acabado da banda em relação ao seu debut. 

Talvez seja verdade, mas o fato é que o primeiro traz a novidade de uma banda que ousou em unir os estilos mais proeminentes que construíra a estrutura, responsáveis pelo pavimento do rock progressivo, o fazendo com energia, contemplação, intimismo e um pleno desenvolvimento musical.

"Cueille Le Jour" (1976)

Em 1977 a banda tem, mais uma vez, novas mudanças na sua formação, com a entrada de Georges Ferrero, no baixo e Gérald Macia, na guitarra e violino e em 1978 se reúnem para a gravação do seu terceiro álbum de estúdio, mas a ausência de apoio e de distribuição, de um trabalho mais intensivo de divulgação da banda, o Carpe Diem se separou em 1979, mesmo com cerca de 400 shows realizados!

“En Regardant Passer le Temps” teve alguns relançamentos em 1977, por outro selo francês, “Crypto”, outro canadense, “Sterling”, também em 1977 e em 1994, foi relançado pelo selo “Musea”, pela primeira vez no formato CD e pelo selo “Belle Antique” em 2007. Com esses relançamentos felizmente há uma luz ao rock obscuro, sobretudo para o grande Carpe Diem que merecia um pouco mais de visibilidade, sobretudo pela banda e pela obra que tem.

Porém a persistência e o amor pela música desses caras fizeram com que, quase quarenta anos depois, a banda retornasse aos palcos, graças a iniciativa do tecladista e vocalista Christian Truchi em 2015, lançando, no mesmo ano, o seu terceiro álbum chamado “Circonvolutions”.

"Circonvolutions" (2015)

Carpe Diem atualmente

E a torcida fica para que o Carpe Diem venha a lançar mais e mais álbuns para que se perpetue na história do rock progressivo mundial como uma grande banda que é. Altamente recomendado!


Agradeço pelo grande tecladista, vocalista e compositor Christian Truchi que, quando mandei o texto sobre o "En Regardant Passer Le Temps" para a página do Carpe Diem no Facebook, me respondeu carinhosamente desejando um lindo futuro a página "Luz ao Rock Obscuro", fazendo também algumas correções históricas e me mandando detalhes fantásticos dos primórdios da banda que, claro, inseri em meu humilde texto, para incrementá-lo.

Ouso dizer que nenhum texto ou resenha sobre a banda produzida no Brasil e quiçá no mundo tenha tamanhas e relevantes informações sobre o Carpe Diem! 

Obrigado Mousieur Truchi pelo carinho, por ter lido e enviado detalhes da biografia do grande Carpe Diem. E obrigado, sobretudo, por criar essa grande banda progressiva para nosso deleite sonoro, para deleite da nossa alma. Merci!


A banda:

Gilbert Abbenanti na guitarra

Christian Trucchi nos teclados e vocais

Claude-Marius David na flauta, saxophone e percussão

Alain Bergé no baixo

Alain Faraut na bateria e percussão


Faixas:

1 - Voyage du non-retour

2 - Reincarnation

3 - Jeux du siècle

4 - Publiophobie


Carpe Diem - "En Regardant Passer Le Temps" (1976)






 





 





 




 














 


sexta-feira, 1 de maio de 2020

Pulsar - Halloween (1977)


Um dos grandes erros no rock é restringir em poucos países a sua importância e protagonismo e um dos argumentos é a questão quantitativa, o argumento de quem tem mais bandas surgindo nos Estados Unidos, Itália, Alemanha, Inglaterra, levando-se em conta, a música progressiva, por exemplo. O mercado fonográfico segue essas “tendências”, consolidando-as, em detrimento de outros tantos países que, apesar de apresentar desvantagens quantitativas não ficam atrás no quesito qualidade. 

Mas uma das poucas vantagens que se atribui aos dias contemporâneos que essa máxima, aos poucos, está caindo por terra, pois ferramentas de comunicação, tais como as redes sociais e internet faz com que as bandas obscuras e de centros poucos tradicionais surjam graças a abnegados fãs que as disseminam. É preciso globalizar a cena, principalmente a do rock progressivo, que não é tão popular atualmente, trazendo à tona bandas de países que não estão no topo da moda, as fronteiras não devem existir nesse caso. 

Então a próxima parada é na França com uma das bandas mais legais de rock progressivo daquele país chamada PULSAR. A banda foi formada em Lyon, em 1971 e o seu som, nos primórdios, tinha uma vertente mais psicodélica, experimental, bem viajante, que lembra o Pink Floyd e King Crimson. 

A formação original tinha os seguintes músicos: Jacques Roman (órgão, piano, sintetizador), Victor Bosch (bateria, percussão), Gilbert Gandil (guitarra, voz) e Philippe Roman (baixo), mas faltava algo, então eles recrutaram o flautista e músico de cordas Roland Richard. 

Pulsar

Em 1974 foi lançado seu debut, o belo álbum “Pollen”. Foi aclamado pela crítica especializada, apesar das baixas vendas e traz essa proposta que marcou a sua fundação. A visibilidade veio com o segundo álbum, “The Strands Of The Future”, tendo mais sucesso, com vendas superiores a 40.000 cópias, mas que seguia basicamente a proposta do primeiro álbum. 

"Pollen" (1975)

"The Strands of Future" (1976)

Mas a virada veio com o terceiro álbum, alvo desta resenha, chamado “Halloween”, de 1977. A banda passou a cantar em inglês com a nítida intenção de ganhar mais e novos mercados e mostrou um Pulsar mais maduro, com uma sonoridade mais particular e própria, arrojada, ousada, um rock progressivo sinfônico atípico, mais sombrio, soturno, obscuro, levando em conta que a presença da influência do Floyd e Crimson ainda esteja em evidência, mas com a cara e a concepção do Pulsar. 


A banda ainda estava em turnê divulgando o ótimo álbum “The Strands Of The Future” quando começaram a desenhar a concepção de “Halloween”. Apesar do sucesso de vendas de “The Strands of The Future”, o seu contrato com o selo Kingdom Records foi expirado e o mesmo não fora renovado.

Então assinaram contrato com a CBS, que logo incentivou a banda a escrever o material novo, nascendo o “Halloween”. Portanto, a banda trocou seu baixista, assumindo o instrumento Michel Masson e em seguida se mudando para uma fazenda nas montanhas da região de Savoy, onde a maior parte de seu trabalho fora escrito. 


Foram para o Aquarius Studios em Genebra com o ex-Yes Patrick Moraz ajudando na produção de “Halloween". É notório que este álbum foi o trabalho mais audacioso e ambicioso do Pulsar, tornando-o um dos mais importantes da história do rock progressivo francês e diria do mundo, sem dúvida alguma.

A formação da banda neste álbum consistia em: Jacques Roman no sintetizador, teclado e mellotron, Victor Bosch na batería e percussão, Gilbert Gandil na guitarra e vocal, Roland Richard no piano e flauta e Michel Masson no baixo. 

O álbum abre com "Halloween Parte I" com cerca de vinte minutos de duração abre com a voz de um menino muito aguda, introduzindo o ouvinte a uma música viajante e extremamente visceral no que tange a sua beleza, com ondas de mellotron, flautas e violão tocado delicadamente em uma atmosfera hipnótica e bela. Sons melancólicos, sintetizadores ao som de space rock e levadas sinfônicas são ouvidas nessa faixa, nos remetendo a abordagens floydianas e do velho King Crimson, sem contar com a viagem orquestral dirigida pelo mellotron. Excelente faixa!

"Halloween Part I"

“'Halloween Parte II'” tem mais ou menos a duração da faixa anterior. A diversidade sonora ainda se faz presente nesta faixa com adição de saxofone, violino e flauta, oferecendo também a levada space rock mesclado a um sinfônico bem elaborado e marcado. Percebem-se também linhas melódicas e harmônicas excepcionais tendo o vocal um grande destaque. 

"Halloween Part II"

“Halloween” mostra o ápice de uma banda que, a cada álbum que lançou, foi ganhando corpo e substância sonora, apresentando neste trabalho uma linha melódica incrível se tornando um álbum altamente recomendável. Um álbum introspectivo, cênico, com viés assustador, sombrio, mas deliciosamente sereno. 





A banda:

Jacques Roman no sintetizador, teclado e mellotron,
Victor Bosch na batería e percussão,
Gilbert Gandil na guitarra e vocal
Roland Richard no piano e flauta
Michel Masson no baixo

Com:

Sylvia Ekström (voz da criança na introdução da primeira faixa)
Jean-Louis Rebut  no vocal
Jean Ristori no cello e engenheiro
Xavier Dubuc nas congas


Faixas:

1 - Halloween Part I:

A - Halloween Song
B - Tired Answers
C - Colours of Childhood
D - Sorrow in My Dreams

2 - Halloween Part II:

A - Lone Fantasy
B - Dawn Over Darkness
C - Misty Garden of Passion
D - Fear of Frost
E - Time




"Halloween" (1977)