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sábado, 27 de dezembro de 2025

Blues Addicts - Blues Addicts (1970)

 

Na transição dos anos 1960 para os frutíferos anos 1970 tínhamos muitas bandas que orientavam as suas músicas, as suas sonoridades para o rock, mais precisamente para o hard rock e o blues. Bandas como Cream, Jimi Hendrix Steppenwolf eram as que estavam no topo da pirâmide da qualidade e da visibilidade, servindo de parâmetro para muitas outras que surgiriam nos anos seguintes.

Evidente que existiam outras menos conhecidas, logo com roupagens mais ousadas e, diria, menos compreensivas pelo grande público que testemunhavam, ainda de forma embrionária, o surgimento desse som híbrido e peculiarmente espetacular, como o Blue Cheer, por exemplo. Esta banda trazia a versão “eletrificada” e pesada do blues rock, com versões agressivas e intensas que tendiam, inclusive, para o proto punk, dada a sujeira e a despretensiosidade de seu som.

Mas o Blue Cheer, ao longo dos anos, foi conquistando um público fiel e deleitado com o seu som que até hoje, principalmente em seu debut, chamado “Vincebus Eruptum”, de 1968, graças também com o advento das ferramentas de internet, como as redes sociais, canais de YouTube e afins que difundiram a sua música.

Porém, dignos e estimados leitores, ainda há bandas que percorreram o mesmo caminho do Blue Cheer nos seus primórdios, não apenas pela sonoridade, mas também pelo árduo caminho da obscuridade, da marginalidade e do ostracismo. Eu descobri recentemente uma banda que me fez rememorar não apenas essa sonoridade tão querida entre os apreciadores de rock, mas também uma porção esquecida e rara de álbuns que, ao fazer uma retrospectiva, fizeram história pelo pioneirismo e também pela ousadia em se fazer um som tão potente e latente: Falo da banda BLUES ADDICTS.

Você, meu bom amigo leitor, conhece o Blues Addicts? Diante de tantos nomes pesados qual a importância de uma banda tão rara como essa? O rock escandinavo, em especial o dinamarquês, deve reverenciar uma banda como o Blues Addicts. Certamente está entre as pioneiras do blues rock e quiçá do rock n’ roll de seu país.

Claro que não podemos negligenciar bandas, igualmente obscuras, como o conterrâneo Moses que também, com seu único álbum, homônimo, de 1972, cuja resenha pode ser lida aqui, tem o seu mérito, sua história, mas temos de admitir que o Blues Addicts, em termos temporais surgiu antes. E aproveito aqui para dizer que, por razões óbvias, pouco se tem de informação sobre a banda na web, mas tentarei, dentro do possível, falar um pouco dessa seminal banda.

O Blues Addicts foi formado em 1969 e pegou o rastro que a banda Young Flowers deixou quando eles se separaram. A banda tinha, em sua formação, Ivan Horn, na guitarra e vocal, Gibber Thomsen, cujo nome verdadeiro era Thorstein Thomsen, nos vocais e bongôs, Mick Brink, no baixo e Henning Aasbjerg na bateria.

Apesar das dificuldades inaugurais de qualquer banda que praticavam bases sonoras embrionárias e ousadas, conseguiu gravar o seu primeiro e único álbum, um ano após a sua formação, em 1970, homônimo, pelo selo underground e infame de nome “Spectator Records”, mas foi uma produção muito “artesanal”, sem o mínimo de estrutura, e isso se confirma no produto final, porém não diminui em nada na sua audição, pelo contrário, traz todo um charme, porque é um álbum ousado, mantendo um viés de garage rock, mesclado a um blues rock ácido, agressivo e pesado.

Assim o é: “Blues Addicts” é um álbum de garage rock, um blues rock pesado, um hard rock elétrico, potente, que nos remete ao Blue Cheer, porque não tem aquela, diria, complexidade na sonoridade que o Cream e o Hendrix traziam em seus sons. Era algo garageiro, sujo, despretensioso mesmo e alia isso o rock psicodélico, com aqueles riffs de guitarra lisérgico, estridentes e pesados, com momentos experimentais e viajantes. É ácido, é pesado, é intenso e, por vezes, contemplativo, dado os seus momentos experimentais. Resumo: é um álbum louco e completamente novo para a sua época.

É isso! Um álbum à frente de seu tempo, que trazia frescor e, claro, com isso um pouco de rejeição pelas gravadoras e também pelo público, mesmo que o blues rock estivesse ganhando alguns adeptos pelo mundo graças ao que o Cream, Hendrix e Jeff Beck estavam fazendo com seus instrumentos e músicas.

“Blues Addicts” nasceu escuro, obscuro, tanto que, ao ser gravado pouquíssimas foram as cópias geradas e reza a lenda que a banda, ao tê-las em mãos, as distribuiu para os seus amigos e pessoas mais próximas. Então ter essa versão original é para poucos e se esses felizardos que as receberam, lá no longínquo ano de 1970, colocassem para vender, o fariam a cifras astronômicas, sem dúvidas. Logo falarei dos relançamentos, que não foram muitos, o que colaborou e muito para o nascimento de alguns bootlegs e lançamentos não oficiais. Mas agora falemos de suas originais nove faixas.

O álbum é inaugurado com a faixa “5/4” e já começa com um pé na porta sem avisar. Pesado, riffs grudentos e pegajosos, porém pesados, de guitarra, bateria pesada, a batida intensa e agressiva, o baixo pulsante, mostrando uma “cozinha” de groove. Aqui o hard rock, em sua pureza, está mais presente do que o blues rock. Segue “Ba-Ba-Dar” que traz um balanço contagiante, o acid rock está mais latente nessa faixa. O vocal aqui é mais limpo e agradável, o solo de guitarra é mais competente e complexo, trazendo a lisergia já manjada, bem como o blues rock que dá o ar de sua presença magnânima. E, claro, não podemos negligenciar o bom hard rock por aqui também e com aquele groove que revela ser outro destaque do álbum.

"5/4"

“Bottleneck” traz uma introdução acústica, o dedilhar de guitarra e um viés mais psicodélico, um momento mais contemplativo, eu diria, mas logo surge a guitarra bluesy, o blues mais primitivo se revela na faixa, mas retorna à psicodelia. Um exemplo experimental de acid blues na sua gênese. Era algo novo, soava novo aos ouvidos e me coloco no lugar de quem a ouviu em 1970! Que maravilha! “Hailow” surge pesada, autenticamente blues rock, com pitadas extremamente bem servidas de um tempero hard rock eletrificado, trazendo à tona o Blue Cheer. É arrastada, é pesada, agressiva. Espetacular!

"Bottleneck"

“Jazzer” é curta, rápida, mas que traz uma novidade no álbum e que reflete em seu nome: o jazz rock! Sim, amigos leitores, um jazz rock envenenado, potente, com uma batida pesada e animada. Uma música definitivamente solar que mostra que o Blues Addictis, apesar de ter concebido um álbum artesanal, mostrava repertório. Segue com “Simple Expressions” que traz a essência do blues rock. A levada blueseira que lembra o Cream. Um som pesado, bem acabado, diria complexo. O vocal se mostra versátil, adequando-se ao blues ácido, pesado, latente e altivo. Solos de tirar o fôlego, bateria marcada e pesada, baixo pulsante. Sem dúvidas um dos destaques do álbum.

"Simple Expressions"

“Coward Way” começa estranha, ruídos tirados da guitarra um tanto quanto experimental, mas logo isso acaba, revelando a sua veia blueseira, um solo de guitarra puro, simples, mas bem feito, cheio de groove e peso, mas aquele peso cadenciado, o que corrobora o seu balanço inconfundível e saborosamente animado. E fica mais animado e dançante quando entra o bongô. Uma loucura experimental que só se via, ou melhor, ouvia, naqueles anos distantes de 1970. “Smukke” começa contemplativa e sombria, algo de The Doors pode ser ouvido, com um dedilhado de guitarra bem lisérgico. O peso alterna, o acid rock é latente, mas aqui se percebe o psych vivamente.

"Coward Way"

E fecha com “Electric”, a mais longa faixa do álbum, e traz um riff pesado e potente de guitarra. É sujo, é underground até a espinha e mostra uma versão arrogante e agressiva de Steppenwolf. Um acid rock com pitadas blueseiras, que mostra uma banda poderosa e incrivelmente versátil. Solos de guitarras espetaculares, de tirar o fôlego, avassaladoras, uma “cozinha” potente, vocal gritados. Eis a faixa ou uma das faixas mais legais e pesadas do álbum que é finalizado com chave de ouro.

"Electric"

O Blues Addicts, após o lançamento de seu underground álbum, em 1970, rodou toda a Europa, fazendo muito shows, muitas apresentações. Era uma banda estradeira, de turnê, mesmo que as dificuldades estruturais surgissem. E graças a sua energia nos palcos, com apresentações catárticas, conseguiu uma razoável base de fãs. Mas infelizmente as dificuldades, a falta de apoio e a inexperiência de seus jovens músicos, a banda não tardou a perecer, tendo uma vida muito curta.

Mas deixou um legado! Deixou, mesmo que desconhecidamente, um conceito de rock n’ roll mesclado ao blues que o criou lá nos anos 1950, juntamente com outros tantos estilos. Ajudou, não só a fundi-los, mas principalmente a mostrar uma alternativa de música pesada que surgiu, em profusão, no início dos anos 1970. Um álbum cru, envenenado, potente, vivo, pulsante, pesado, intenso, garageiro e sujo, totalmente sujo e despretensioso.

Pouco se sabe sobre os integrantes do Blues Addicts, mas o guitarrista e vocalista da banda, Ivan Horn, quando o Blues Addicts se separou tocou guitarra com CV Jørgensen e vários outros músicos e bandas construindo uma carreira também na cena underground dinamarquesa.

O único álbum do Blues Addicts teve alguns relançamentos. O primeiro ocorreu em 1991, pelo selo Little Wing Refugees, da Alemanha e com ele veio uma capa alternativa, além de faixas jamais lançadas e até mesmo inéditas. São elas: “Train Kept Rollin”, “Saxe” e “Kong Midas”, além de faixas lançadas na versão original, mas com tonalidades alternativas, como: “5/4”, “Ba-Ba-Dra” e “Hailow”.

Em 2006 outro selo dinamarquês, o Karma Musica, relançaria o álbum e logo depois outros relançamentos aconteceriam entre 2007 e 2008, alguns oficiais e outros não. Os “viciados em blues” deixou uma marca no rock dinamarquês e mundial, mesmo com um álbum obscuro, unindo o blues e o rock de forma poderosa, crua e original.



A banda:

Thorstein Thomsen no vocal e percussão

Ivan Horn na guitarra e vocal

Mich Brink no baixo

Henning Aasbjerg na bateria

 

Faixas:

1 - 5/4

2 - Ba-Ba-Dar

3 - Bottleneck

4 - Hailow

5 - Jazzer

6 - Simple Expressions

7 - Coward Way

8 - Smukke

9 - Electric



"Blues Addicts" - Versão original (1970)


"Blues Addicts" - Relançamento com faixas extras e inéditas (1991)

























 





quinta-feira, 12 de junho de 2025

Hair - Piece (1970)

 

A transição das décadas de 1960 e 1970 para o rock n’ roll foi extremamente importante, porque tínhamos, lá pelo ano de 1967, 1968 e 1969, o ápice do rock psicodélico e o surgimento de algumas bandas que tinham o desejo de trazer uma música mais crua, pesada e agressiva, fugindo do experimentalismo e do “beat” da psicodelia.

E quando os anos 1970 foram descortinados o hard rock estava florescendo, juntamente com a versão, digamos, mais sofisticada do psicodelismo, que era o prog rock. Eram períodos embrionários, de tendências sonoras e fim de outras cenas e muitas bandas flertavam com muitas sonoridades. Estereótipos à parte muitos álbuns que surgiram no final da década de 1960 e início dos anos 1970, mesclavam o rock psych com o hard e o prog.

Eram épocas que não se podia pontuar um álbum como majoritariamente de hard, prog ou psych, as bandas estavam delineando seu som, definindo sua sonoridade, aparando as suas arestas sonoras e se permitiam, apenas, à liberdade criativa, sem se preocupar tanto com os rótulos.

Caro leitor, avaliem, percebam ao ouvir álbuns inaugurais de grandes e famosas bandas, por exemplo, principalmente aquelas que gravaram seus primeiros álbuns nessa transição das décadas e verão que são trabalhos distintos uns dos outros ou verão ainda que essas vertentes sonoras estavam presentes em um só álbum!

E a banda que eu falarei hoje, com o seu único álbum lançado, exatamente no fim de uma década, a de 1960 e o início da outra, a década de 1970, no ano de 1970, trouxe, em seu trabalho, nuances bem definidas de hard rock, de peso, de lisergia, de psicodelia e de rock progressivo. Falo da dinamarquesa HAIR.

A banda foi formada na cidade de Copenhague, capital da Dinamarca, no auge do rock psicodélico, 1967, mas sob o nome de “Second Review”. Naquela época era um “power trio”, inspirando-se na mais famosa banda de power trio” de todos os tempos, o Cream, e tinha, em sua formação Benny Dyhr, na guitarra e vocal, Allan Sorensen, no baixo e vocal e Peter Valentin Rolnes, na bateria e vocal. Esses músicos, todos muito jovens, na faixa dos 20 anos de idade, fizeram vários shows por Copenhague e na Nova Zelândia. Foi nessa época também que eles se juntariam ao crítico musical e letrista Torben Bille.

O Second Review tocava primordialmente uma espécie de “beat progressivo”, aquela música dançante e chapante com viagens psicodélicas e progressivas, com muito experimentalismo. Era basicamente o que se ouvia à época. A banda, por mesmo sendo dinamarquesa, se inspirava na cena psicodélica norte-americana, com nuances britânicas.

Porém mudaria a sua sonoridade quando Paddy Gythfeldt, vocalista, tecladista e vocalista, entrou para a banda, tornando-se um quarteto. Mudaria também o nome da banda, passando a se chamar “Hair”. Como o “antigo” Second Review a cena vigente na Dinamarca sofreram influências do rock psicodélico dos Estados Unidos e da Inglaterra, mas com a nova concepção sonora do agora Hair, a banda passou a destoar da cena local praticando um som mais calcado no hard rock e na sofisticação do rock progressivo que nascia para o mundo lá pelo ano de 1970, aproximadamente.

Hair em 1969

E com uma nova formação, um novo nome e uma nova sonoridade, a banda partiu para o estúdio (não demorou muito) para gravar seu debut. Este foi concebido, foi gravado no “Wifos Studio”, entre abril e junho de 1970, com o nome de “Piece”. A produção de “Piece” teve, a contrário da época do Second Review, um trabalho mais ostensivo de marketing, com muitos shows e uma cobertura grande da imprensa musical e foi lançado, como disse, em 1970, pelo selo Parlophone Records.


O álbum, com isso atingiria o status da produção de rock dinamarquesa mais cara até então. Estava ganhando visibilidade. Para se ter uma noção do tamanho que a banda estava atingindo, vieram, após o lançamento de “Piece”, mais quatro singles, um dos quais, “Happy Child”, chegaria ao sétimo lugar das paradas dinamarquesas!

"Happy Child"


E falando de “Piece”, traz um excelente heavy rock com pitadas generosas de rock psych, típico da virada da década de 1960 e 1970, com toques perceptíveis de rock progressivo em algumas faixas de seu álbum, com viradas de andamento rítmico de tirar o folego, com peso na bateria, com batidas marcadas e pesadas, riffs pesados e grudentos de guitarra, em alguns momentos bem lisérgicos e em uma salutar disputa com o órgão Hammond, com destaque também para os vocais de Paddy Gythfeldt e tudo cantando na língua inglesa. Não sou um entusiasta de comparações, mas remete ao Blue Cheer, ao Iron Butterfly, Cream, entre outras bandas que aspiravam à música pesada já no fim dos anos 1960.

O álbum é inaugurado pela faixa “Coming Through” e já se apresenta animada, com riffs de guitarra mais dançantes, ao estilo soul music, que logo dá lugar a um órgão mais austero e bateria com batida cadenciada. Porém o hard rock, na metade da faixa, ganha destaque com a bateria em outra levada, mais pesada, agressiva, com os teclados ainda ditando o ritmo.

"Coming Through"

“Supermouth” entrega a pegada hard logo no início. Batida forte da bateria, riffs pesados e pegajosos de guitarra. Baixo pulsante. Não podemos negligenciar o trabalho da cozinha, da seção rítmica desta faixa excepcional. Os teclados são animados, cheios de energia.

"Supermouth"

“Dream Song” começa com dedilhados de violão, uma atmosfera acústica, diria pastoral, mas logo irrompe em riffs pesados de guitarra e retorna com a sonoridade mais suave e viajante, agora com solos, embora curtos, mas bonitos de guitarra. Nessa faixa as mudanças de andamento rítmicos ditam as regras. A pegada hard e prog se fazem presentes, além de pitadas psicodélicas. É um som encorpado, orgânico e sofisticado. Sem dúvida uma das melhores músicas do álbum.

"Dream Song"

“Everything's Under Control” começa como um trovão, uma hecatombe de riffs pesados e lisérgicos de guitarra, com bateria dura, pesada e marcada. O vocal no megafone me remete às músicas do rock dos anos 1960, porém com uma pegada mais incisiva e agressiva. Mas não deixa de ter uma pegada pop, um hard rock um pouco mais cadenciado.

"Everything's Under Control"

“Pleasant Street” mostra vocais à capela e dedilhados doces de piano iniciam a música, mas por pouco tempo, porque ela logo explode com uma bateria pesada e rápida que a deixa rude e agressiva, corroborando com riffs de guitarra. Mas o destaque realmente centraliza na batida, quase que contínua, pesada da bateria.

"Pleasant Street"

E fecha, com chave de ouro, com “Piece (Of My Heart)”, que já entrega, na sua introdução um solo direto, mas bem elaborado de guitarra com uma camada de teclados que traz uma pegada psicodélica. A realidade é que eles rivalizam salutarmente entregando um hard psych na medida, na dosagem perfeita. Uma vibe ao estilo Jefferson Airplane. Solos de guitarra, ao longo da faixa, são ouvidos com mais destreza e emoção e, com isso, a música vai assumindo contornos de hard rock. Essa música foi popularizada por Janis Joplin.

"Piece (Of My Heart)"

A banda, após o lançamento de “Piece”, não teve uma longa vida. Chegou a gravar mais singles, cerca de quatro músicas, como disse, mas se desfez em 1971. O tempo de vida muito curto e precoce, lamentavelmente, levando-se em consideração o talento de seus músicos, com uma sonoridade muito espirituosa, bem executada. Eram promissores e ficaram apenas em um único álbum. Eles chegaram a se reunir novamente para gravar as seções do segundo álbum, mas se separariam, em seguida.

Em 1972, o baixista Allan Sorensen e o baterista Peter Valentim se juntariam novamente para formar a banda RiverHorse. A título de curiosidade a origem e a inspiração para o nome da nova banda partiu de uma piada infantil dinamarquesa, que é: “O cavalo do rio tem algo ruim, então não entre”. Peter, que era baterista no Hair, queria mudar para o baixo no RiverHorse e Allan, que tocava baixo, migrou para a guitarra, como começou na sua carreira.

A banda foi muito ativa, entre 1972 e 1976, gravando cerca de 100 músicas, mas tiveram dificuldades para emplacar ofertas de gravadoras dinamarquesas, que optavam por bandas que cantassem no idioma local e em 1976 o RiverHorse sairia de cena. Mas voltaria em 1981 e desde então está na ativa até os dias atuais, produzindo álbuns, fazendo shows pela Dinamarca.

Riverhorse em 1990 e 2001

Em 2004 o selo Walhalla Records faria o primeiro relançamento, no formato CD, de “Piece”, trazendo os singles que foram lançados após o lançamento deste álbum. Teria também um relançamento, também em CD, pelo selo Frost Records, licenciado pela EMI-Medley Records. Há um livreto de 16 páginas escrito pelo crítico de rock dinamarquês Torben Bille, contando a história da banda e da época. Há, porém, um relançamento mais recente, de 2019, pela gravadora Mayfair, que vem com um LP bônus de 25 minutos de seus singles.




A banda:

Paddy Gythfeldt no Órgão, Guitarra, Vocal Principal

Benny Dyhr na Guitarra, vocal

Allan Sorensen no Baixo, vocal

Peter Valentin Rolnes na Bateria, Percussão, vocal

 

Faixas:

1 - Coming Through

2 - Supermouth

3 - Dream Song

4 - Everything's Under Control

5 - Pleasant Street

6 - Piece (Of My Heart) 




"Piece" (1970)













 






























quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Moses - Changes (1971)

 

Ecos de um longínquo passado, tão distante que parece soar primitivo em determinadas sonoridades. Datado? Talvez! Fora de moda! Moda vem e vai, modismos transparecem para mim algo tão vazio e frívolo que sequer possa interessar aos que gozam de mínima personalidade.

Mas parece a fusão do blues e o rock foi um processo de extrema revolução nos idos de 1967, 1968, com a profusão de bandas que aliou criador e criatura em um caldeirão fervilhante, intenso e de uma plenitude sonora bem interessante. O Cream, juntamente com Jimi Hendrix, trouxe a potência do rock e a melancolia sombria do blues, eletrificando, tornando pesado uma vertente que traria outras tantas e tantas bandas seminais fazendo jus aos criadores.

O que dizer de Led Zeppelin ou ainda do underground Blue Cheer ou de John Kay com seu Steppenwolf? Referências que se confundiram com o blues rock, mesclados ainda ao hard e o psych que também estavam pairando pela cena rock na transição dos anos 1960 e 1970.

As bandas seminais e famosas ganharam o mundo, levaram seu nome para o mais alto patamar e excelência do bom e velho rock n’ roll e estão no rol dos clássicos indiscutíveis. Mas e as bandas obscuras? Não podemos discuti-las? Não podemos coloca-las no mesmo patamar de importância?

Bem esse blog que você, estimado leitor, está navegando, traz as bandas obscuras, raras e undergrounds a um nível de protagonismo, mesmo no ápice de seus fracassos comerciais e, aproveitando o ensejo da cena blues rock, que muito me cativa, gostaria de trazer uma banda, surgida na fria Dinamarca, que entrega uma sonoridade quente e diversificada e se chama MOSES.

Moses

Quando busquei referências de pesquisa para construir esse texto que você, bom amigo leitor, está lendo, li alguns comentários do tipo: “Nossa, é um álbum fraco”! “Um álbum básico demais”! “Uma cópia barata do Ten Years After”! Evidente que não quero entrar no mérito das opiniões, afinal, são pessoais e precisam ser respeitadas, mas o “básico”, penso, não pode ser assimilado a algo ruim. Muito pelo contrário, é a essência do rock, a gênese de um estilo.

Quando ouvi, pela primeira vez, o primeiro álbum do Moses, “Changes”, de 1971, foi tão arrebatador que me fez, com o perdão das famigeradas comparações, lembrar as estreias de bandas do naipe de Black Sabbath e Blue Cheer, por exemplo. Uma sonoridade tão primitiva e básica, calcada no peso, em um blues rock elétrico, distorcido e agressivo. A trinca guitarra, baixo e bateria traz uma pegada, além da já comentada, pegada pesada, traz um despojado, algo tão despretensioso, que beira até a inocência de seus músicos, sem contar que o vocal lembra de um bebedor inveterado.

Se para muitos isso possa trazer a noção de amadorismo, para esse que vos escreve é o charme de todo o conteúdo, seja ele intencional ou não. “Changes” é fantástico por isso! Guitarras wah-wah cheia de distorções e lisergia, hard rock, aquele blues eletrificado, tantos atrativos mesmo para um álbum tão básico. É louco, não acha? Ainda encara o básico como ruim? Sugiro rever os conceitos...

Mas antes de destrinchar o único rebento do Moses, “Changes”, vamos tentar falar um pouco dos primórdios da banda. Já digo, amigo leitor, de antemão que, por se tratar de uma banda obscura, pouco se sabe sobre, poucas foram as referências encontradas, mas as linhas desse texto precisam se fazer existir.

O Moses foi formado em uma cidade chamada Esbjerg, na Dinamarca. E o conceito de seu estilo vem muito do passado de dois de seus integrantes, são eles: Jørgen Villadsen e Søren Højbjerg, vocais e baixo e guitarrista, respectivamente, que tocaram em uma banda de blues chamada Fresh Boiled, em 1968. Na realidade essa banda seria o esboço do Moses. Henrik Laurvig, o baterista, tocou em diferentes e várias bandas locais e juntou-se a Jørgen e Søren quando a banda mudou seu nome para Moses, no início de 1969.

A partir daí o Moses excursionou sem parar durante o ano de 1969 e por toda a sua precoce existência e, em 1970, estava em contato com uma gravadora underground chamada Spectator Records. O selo estava muito interessando em gravá-los, contratá-los, mas precisava ver os shows dos caras para ter a certeza de que eram bons o suficiente ao vivo para ter o melhor resultado em estúdio e no verão daquele mesmo ano gravaram, por incríveis dois dias, “Changes” no Spectator Record Studio, em Ålborg, na Dinamarca, porém o álbum só foi lançado em 1971.

A responsabilidade da distribuição ficou a cargo da Spectator Records e teve uma reduzida tiragem, pasmem, de apenas 500 cópias, tornando-o hoje um produto muito valorizado nos sites de vendas de vinis, como acontece frequentemente com muitos desses tesouros obscuros e perdidos dos anos 1970. E como poucos teriam acesso a esse vinil por conta do alto valor, a sorte de nós, pobres mortais, é de que temos alguns canais no YouTube, abnegados, que difundem o álbum, bem como blogs e sites que trazem, além da sonoridade, a história de bandas como o Moses.

E como a banda durou meros três anos ou um pouco mais, ou seja, uma curta existência e trajetória, a formação que gravou “Changes” trazia, como já mencionados: Søren Højbjerg na guitarra, Jørgen Villadsen no vocal, baixo e Henrik Laurvig na bateria. E como também já comentado trazia um hard rock com generosas pitadas de blues e um tempero saboroso de acid rock, com muita lisergia. O peso, aliado ao despojado de sua sonoridade era o charme e fazia da música algo bastante característico, apesar de não trazer nada de revolucionário.

O álbum é inaugurado com a faixa título “Changes” e já escancara com um proto metal configurado em riffs potentes e pegajosos de guitarra com uma levada bluesy. O som é arrastado e pesado, mas traz uma pitada sombria, soturna, diria. Solos de guitarras lisérgicas, ácidas são ouvidas, o peso é corroborado pela “cozinha”, com baixo pulsante e bateria marcada. Mas logo volta ao estágio arrastado que iniciou a faixa. O vocal é um destaque à parte, bem despretensioso. Não hesitaria em dizer que essa faixa trafega entre o stoner e o doom.

"Changes"

A sequência tem “I’m Coming Home” que abre com um baixo dançante e com algum groove. A sonoridade me remete ao psych rock com as já perceptíveis pitadas de blues rock. Solos pesados de guitarra rasgam a faixa em um estrondo hard rock tipicamente setentista e logo retoma ao baixo dançante com pegada ácida. 

"I'm Coming Home"

“Everything is Changed” já começa rasgando com riffs arrogantes e agressivos de guitarra. Aqui o hard rock se faz vivo e pleno, mas as bases trazem o psych rock, a lisergia igualmente presente em toda a estrutura sônica do álbum. Os solos de guitarra aparecem e trazem a certeza do peso dessa faixa. A sessão rítmica também seu destaque e cadencia a camada hard da faixa.

"Everything is Changed"

Segue com “Beginning” que abre com um solo curto e direto de bateria, com algumas viradas interessantes e logo irrompe em riffs e solos desconcertantes de guitarra e um baixo muito pulsante e vivo. A destreza instrumental nesta faixa é escancaradamente vibrante e excitante! Um volumoso e potente hard rock que conta ainda, já para o final da música, com um poderoso e arrasador solo de bateria.

"Beginning"

“Skæv” segue na linha hard rock e é cantada em dinamarquês. Um hard rock arrastado, mesclado ao psych rock e um proto stoner invejável. Certamente uma das mais pesadas faixas do álbum, com um trabalho excelente de guitarra. E quando se junta a forma mais agressiva ainda da bateria, a música assume uma roupagem mais de proto metal. Incrível!

"Skaev"

E fecha com “Warning” traz à tona, mais uma vez, a competência rítmica da “cozinha” da banda. Batidas fortes da bateria, o baixo pulsante, solar e dançante dá lugar a riffs pesados de guitarra. O blues rock retorna e vem pesado e intenso. Os solos de guitarra, mais uma vez, ganham destaque, e vem com a já percebida vibe psicodélica, com a lisergia como pano de fundo. E desses “fragmentos” temos uma sessão instrumental apoteótica, repleta de viradas e momentos distintos.

"Warning"

O Moses não conseguiu êxito comercial após o lançamento de “Changes”, em 1971, mas seguiu fazendo shows, se apresentando, mas não conseguiu fazer sucesso e divulgar o seu trabalho. Não teve também a estrutura ideal para tal por parte do selo que também não gozava de capital para tal investimento. Em 1972 a banda se vê obrigada a finalizar as suas atividades.

Porém seus integrantes seguiram, direta ou indiretamente, no mercado da música. Søren Højbjerg ainda está trabalhando como diretor de sua própria organização dinamarquesa de reservas e shows, SHB Agency, em Esbjerg. O baterista Henrik Laurvig continuou em diferentes bandas, a mais famosa das quais foi Mani, com quem gravou o álbum “Kontiki”, pelo selo Genlyd Records, em 1985. Junto com sua carreira musical, ele trabalhou como gerente de vendas nas gravadoras CBS Records e Warner Music, ambas da sucursal da Dinamarca. Já o baixista e vocalista Jørgen Villadsen perdeu o contato com seus antigos companheiros de banda, e atualmente não se sabe sobre seu paradeiro atual.

Um som despojado, inocente, ruim, pouco apurado em termos de melodia, fraco, divertido, atraente por ser e por ter uma sonoridade suja e teoricamente mal produzida. Tantas são as percepções, mas com uma única certeza. É pesado e, no mais puro conceito de seu som, se faz diverso e cheio de possibilidades para os mais variados “paladares” de som que flerta com o blues rock, o hard rock, com o proto stoner e doom. Mesmo básico é diverso. O conceito de tempo parece ser tão irrelevante para o Moses e seu único trabalho que a discussão de ser ou não datado, torna-se pueril. “Changes” teve um relançamento, em 2010, no formato “CD” pelo selo “Shadocks Music”.


A banda:

Jørgen Villadsen: no baixo e vocal

Henrik Laurvig: na bateria

Søren Højbjerg: na guitarra

 

Faixas:

1 - Changes    

2 - I’m Coming Home

3 - Everything Is Changed    

4 - Beginning 

5 - Skæv         

6 - Warning



"Changes" (1971)














 








segunda-feira, 1 de junho de 2020

Cinderella - Danish Progressive Rock 1970 (1990)


O frio dos países nórdicos está, felizmente, restrito ao clima. O rock n’ roll pega fogo com as bandas que lá brotam, com o perdão da analogia infame e sem criatividade. A riqueza sonora é grande, que varia do virtuosismo, complexidade à rusticidade e aspereza. 

Há para todos os gostos! Essa que tomará algumas linhas desse texto é muito rara, pouquíssima conhecida e vem da Dinamarca, da cidade de Randers, e se chama CINDERELLA. Não se enganem essa não é aquela banda de glam metal ou vulgarmente conhecida como “heavy metal farofa” que proliferou na segunda metade da década de 1980 que os músicos vestidos de mulher e com a cara repleta de maquiagens, numa androgenia que invadiu a MTV. 

O Cinderella dinamarquês, além de ter sido o original, o primeiro, surgida em 1970, tinha um som cru, pesado, agressivo e direto. Um hard rock viril, intenso e vigoroso. Embora na capa esteja estampada que o Cinderella era uma banda dinamarquesa de rock progressivo, em nada tinha de prog rock e talvez tenha usado o título de banda progressiva para ter um pouco de publicidade, haja vista que o rock progressivo estava nascendo no início daquela década e ganhando alguma notoriedade e adeptos. 


O som é pesado, com guitarras distorcidas, riffs em abundância, envolto em uma atmosfera psicodélica, ácida e chapante capaz de deixar o ouvinte mesmerizado, louco e arrebatado por uma música poderosa.

É evidente as influências de Jimi Hendrix, Led Zeppelin entre outras bandas pesadas da transição dos anos 1960 e 1970. Era um power trio que tinha a seguinte formação: Allan Vokstrup (bateria), Henning Kragh Pedersen (guitarra, vocais) e Søren Hilligsøe (baixo, vocais). 


Poucas são as informações sobre como a banda surgiu e foi formada, bem como o histórico de seus integrantes, mas o seu primeiro álbum, de 1970, não fora lançado na época, foi apenas produzido e gravado naquele ano. Chegaram a lançar um single de nome "The Sandbox Series", em 1970, mas o álbum empacou.

Em 1972 os master tapes foram perdidos quando a gravadora Spectator Records sofreu um incêndio embargando o lançamento. Mas as tais fitas ainda existiam e foi descoberta em 1990 quando alguns jovens estudantes de música faziam uma pesquisa sobre o rock dinamarquês e as encontrou! O “Danish Progressive Rock 1970”, como foi chamado foi lançado 20 anos depois de sua gravação. Com a redescoberta deste material a própria Spectator Records lançou o álbum do Cinderella.




Este álbum não goza de boa qualidade na gravação e tudo leva a crer que foi gravado ao estilo “alive in studio” e é inaugurado com a faixa “Break Song-Red House” com um solo de bateria e um baixo pulsante, a cozinha super afiada, seguido de uma guitarra meio bluesy, com passagens jazzísticas que se alternava no hard rock. Um espetáculo instrumental transborda! Parecia-me um momento de improvisação, de libertação criativa total, sem amarras. 

"Break Song - Red House"

“Carlt” traz uma envolvente percussão, meio tribal, psicodélica, uma música cheia de candências, o peso é deixado de lado, uma sonoridade ácida, lisérgica, resquícios dos áureos momentos do flower power, mas um tanto quanto indulgente e arrogante. 

"Carlt"

“Parchman Farm”, o clássico do blues, de Mose Allison, também está no line up e que foi gravado por muita gente do rock, como o Cactus, por exemplo. Na versão do Cinderella entrega um blues mesclado a um rockabilly, algo bem dançante e solar. Ótima versão! 

"Parchman Farm"

“Sexbombe” já entrega de cara solos de guitarra arrasadores com uma bateria carregada de jazz, soa um pouco comercial, mas de grande qualidade. “Fire”, o clássico eternizado na voz de Jimi Hendrix, e que faz jus ao nome, quente, sedutora e poderosa! O Cinderella não trouxe novos arranjos, novidades, sendo fiel a original, mas a executando com precisão e qualidade. 

"Fire"

“Ana-T-Nas” começa ao estilo Cream, um proto metal, um heavy metal de vanguarda, já esmurrando a porta com bateria pesada, baixo pulsante e alto, solos distorcidos de guitarra, um verdadeiro arrasa quarteirão. A cozinha arrasa nesta faixa! Baixo e bateria em uma sinergia incrível! 

"Ana-T-Nas"

“Mr. Wild” fecha o disco, curto, com pouco mais de trinta minutos, com um solo de guitarra ao estilo surf music inaugurando a faixa, a sensação é de ser levado gentilmente pelas ondas calmas, com o vocal finalmente revelando seu valor. Parece outra banda, dada a versatilidade personificada nessa faixa que finaliza, com chave de ouro, essa pérola sonora.

"Mr. Wild"

Um álbum excelente e que graças ao acaso ganhou a luz, nasceu para o mundo há 30 anos atrás. Em 1971 um segundo álbum fora gravado na cidade de Copenhague com Pete Quaife como produtor. 

"Udkoksning I Tre Satser" (2006)

Este material permaneceu inédito na época e finalmente também viu a luz, mas apenas em 2006, e que você pode fazer o download neste link. Isso se deve a gravadora Karma Music em uma espécie de compilação, com as faixas originais de 1970 com algumas versões de músicas ao vivo recebendo o nome de “Udkoksning I Tre Satser”.Outro registro essencial que vale a audição.

Bandas obscuras, esquecidas, relegadas a própria sorte... Deem o nome que quiserem, mas o que poderia se taxado de fracasso no passado, hoje, ao ouvirmos, nos arrepiamos e chegamos a acalentadora constatação de que bandas como o Cinderella deixaram uma marca indelével para a história da música pesada em todos os tempos. Uma referência! Uma pérola perdida e altamente recomendada!





A banda:

Henning Kragh Pedersen na guitarra e vocal
Søren Hilligsøe no baixo e vocal
Allan Vokstrup na bateria


Faixas:

1 - Break Song incl. Red House
2 - Carlt
3 - Parchman Farm
4 - Sexbombe
5 - Fire
6 - Ana-T-Nas
7 - Mr. Wild




Cinderella - "Danish Progressive Rock" (1970 - 1990)