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domingo, 20 de fevereiro de 2022

Jumbo - "Vietato Ai Minori di 18 Anni?" (1973)


Sempre percebi, sempre observei que o rock n’ roll tinha e ainda tem, oportunismos mercadológicos à parte, um papel social e comportamental, de contestação, de abalar o status quo. É claro que há vertentes de composições, de letras voltadas para vários assuntos: festa, sexo, hedonismos em geral, mas sempre apreciei e me identifiquei com o rock protesto, aquele que coloca o dedo na ferida mesmo.

E sempre se atribuiu a isso ao punk rock, aos moleques que, como diz a letra de um exímio exemplar da cena, Richard Hell, com o seu “Blank Generation” que, na década de 70 para a de 80 se viram perdidos, sem perspectivas de uma vida digna ou coisa que o valha, mas não somente. Temos exemplos vívidos e plenos no rock progressivo! Rock progressivo? Que só fala de temas exotéricos, sobrenaturais? Não!

Encontramos bandas, poucas, é bem verdade que abordaram temas palpáveis, inquietos e difíceis. Verdadeiros tabus que nunca encontraram barreiras ou eras cronológicas para existirem, mas apenas o medo, a ojeriza daqueles conservadores em tratar sobre determinados assuntos ou aqueles que sempre tiveram medo de “comprar” a ideia de que tais temas fossem personificados, materializados, manifestados, artisticamente falando.

Que tal falar sobre sexo, masturbação, estupro, prostituição, drogas, religião e alienação social? Vilipêndio? Na certa! Tema nojento para se falar na mesa de uma “família perfeita”? Claro! Não se pode falar de temas como esse para não expor os puritanos que se escondem em um domo de ilibado estado de “acima do bem e do mal” e que certamente esconde seus lados mais podres.

E surgiu uma banda na Itália que teve a coragem de expor esses temas em 1973, sim, amigos leitores, há 49 anos, 1973, surgida na cidade de Milão, na Itália, tendo como o seu referencial o vocalista Álvaro “Jumbo” Fella, que se chamava JUMBO com o seu álbum, notoriamente, mais arrojado, de sua curta, mas significativa carreira discográfica, o “Vietato Ai Minori Di 18 Anni?” ou em tradução livre: “Vetado para menores de 18 anos?” Até o título do álbum, mesmo para quem não o conhece, traz aquela curiosidade, mas que deixa, meio que explícito temas desconcertantes para os conservadores de plantão.

Antes de falar sobre o terceiro e mais arrojado álbum, não só pelos temas abordados, mas também pelo fator sonoro, embarquemos na história do grande e obscuro Jumbo. A banda foi formada em 1969 e tinha no vocalista Álvaro Fella, a figura central, tanto que o nome da banda vem de seu apelido, Álvaro “Jumbo” Fella. Fella era baixista de uma banda de pouco nome quando foi notado por produtores de uma gravadora, assinando contrato em 1970.

Álvaro "Jumbo" Fella

Gravou uma música chamada “Due Righe Da Te” e dois covers. No primeiro single tocou com gente do naipe de Franz Di Cioccio e Flavio Premoli, ainda componentes do Quelli, depois passando a se chamar Premiata Forneria Marconi, e Mario Lavezzi, mais tarde tocando no Il Volo.

Já em outra gravadora, de mais renome, a Phillips, gravou em 1972 o primeiro álbum com a ajuda dos músicos que teriam constituído a primeira formação da banda, tais como: Daniele Bianchini na guitarra, Sergio Conte nos teclados e vocais, Dario Guidotti na flauta, violão, gaita e percussão, Vito Balzano na bateria e percussão e o baixista Alberto Agazzi, mas sendo substituído logo por Aldo Gargano. 

Um belo álbum, muito influenciado pelo blues, um pouco acústica na sua concepção, com muito instrumento de sopro e percussão e o destaque fica com o vocal de Fella, excepcional, potente, de grande alcance, um rosnado ameaçador, sem dúvida um dos melhores vocalistas que eu vi e ouvi até o momento. Mas a grande mudança do Jumbo e a mais significativa, pois levaria como identidade até o fim, seria no álbum “DNA” também lançado em 1972. Mudança essa que se daria devido a um trabalho simbiótico e de grande parceria entre os seus integrantes. A resenha deste clássico obscuro pode ser lida aqui.

"Jumbo" (1972)

"DNA" (1972)

Mas em 1973 veio ao mundo o álbum “Vietato ai minori di 18 anni?” com os seus temas fortes, expondo, trazendo à tona a podridão de uma sociedade hipócrita e pseudo moralista e que são traduzidas em oito monumentais faixas, umas de texturas sonoras mais complexas, outras mais raivosas, diretas. Assim é basicamente o álbum: intenso, agudo, visceral, mas com os seus temas meticulosamente conectados em uma estrutura conceitual bem definida e tratados de forma veemente, sem metáfora e alegorias. Temas abertos e sem filtros.

O Jumbo sofreu com a censura e foi excluído das rádios, dos programas de televisão da época. A banda teve sérias dificuldades de divulgar o seu trabalho e não é para menos: a natureza humana sendo escancarada a plenos pulmões de Álvaro Fella. 

E falando nos vocais de Fella, não há como negligenciá-lo neste trabalho do Jumbo. Sua voz, apesar de peculiar, esteve mais dramática neste álbum, mais cênica para expor a verdade dos temas nele proposto, mais poderosa, rasgada, somando a uma camada mais intensa dos instrumentos, com riffs de guitarra mais dilacerantes, teclados nervosos, um rock progressivo sinfônico complexo, mais denso, mais urgente.

Em “Vietato ai minori di 18 anni?” a banda soa mais forte, um pouco mais pesada. O grau de sofisticação se faz presente também, como nos seus trabalhos anteriores, a pitada blues rock progressivo também, mas se faz mais sofisticado pela energia aumentada com um trabalho instrumental mais diversificado: mellotron e sintetizadores são adicionados, com a participação especial de Franco Battiato, junto com o sixtro, um instrumento de cordas renascentista e algumas percussões traz um caldeirão de temperos sonoros.

E por falar em participações especiais, vamos elencar o time que entregou ao mundo esse petardo sonoro necessário: Alvaro "Jumbo" Fella nos vocais, piano, órgão e saxofone, Daniele "Pupo" Bianchini na guitarra, Sergio "Samuel" Conte nos teclados, Dario Guidotti na flauta, harpa, guitarra acústica, sixtro e vocais, Aldo Gargano no baixo, Mellotron e sixtro e Tullio Granatello na bateria, entrando no lugar de Vito "Juarak" Balzano. Além das ilustres participações de: Lino "Fats" Gallo na guitarra slide, Franco Battiato no sintetizador VCS3, Angelo Vaggi no sintetizador Minimoog e Lino "Capra" Vaccina na percussão.

Jumbo

O álbum é inaugurado com a excelente faixa “Specchio” já com o vocal rasgado de Álvaro Fella, já botando o pé na porta, cantado de forma áspera e urgente, sombria. Tem várias mudanças de compasso, entre pianos nervosos e riffs de guitarra, cobrindo e corroborando o “ódio” vocal de Fella, mas que, em dados momentos traz a suavidade da flauta, e vai mudando para solos de guitarra e delicados toques de violinos. Complexo!

"Specchio"

"Come Vorrei Essere Uguale A Te" começa meio acústica, baixa, despretensiosa, até o vocal de Fella aparecer. Solos de guitarras meio lisérgicas dão o ar da graça, algo meio Jethro Tull em seu início meio blues, o blues tão evidente nos primeiros álbuns do Jumbo também. O vocal de Fella vai ficando mais alto, os instrumentos seguem a proposta, vão aparecendo. Irrompe em uma explosão instrumental com bateria marcada, meio jazzy, solos desconcertantes de guitarra, a música atinge uma velocidade considerável, vai ficando mais dramática e intensa. Instrumentos de sopro aparecem, uma orquestra se faz presente, mas a mudança de compasso sonoro muda novamente, piano e um vocal mais melódico de Álvaro é ouvido. Lindo!

"Come Vorrei Essere Uguale a Te"

“Il Ritorno Del Signor K” traz algo meio de jam section, de improvisações, meio acústica, meio folk, me fez lembrar um pouco de Gentle Giant. “Via Larga” me fez lembrar os álbuns anteriores do Jumbo, trazendo a voz peculiar de Fella e um discreto instrumental trazendo um violão acústico de fundo e uma camada de teclado entregando uma atmosfera sombria, tendo eventuais solos curtos de guitarra, imprimindo relativo peso à música que logo se revela com o vocal rasgado de Fella e fechando como começou. Agrupa belos elementos sinfônicos italianos misturados com porções bonitas e transgressoras, mas o início experimental é bastante desafiador.

"Via Larga"

“Gil” tem uma levada mais psicodélica e progressiva, um experimentalismo chapante que destoa um pouco do álbum, mas não se torna nem um pouco ruim, pelo contrário. Tem o destaque de Franco Battiato com o seu sintetizador VC-3, que traz toda a aura lisérgica dessa faixa. A música gira em torno de sintetizador, violão, voz de Fella, percussão e Mellotron.

"Gil"

"Vangelo?" tem uma atmosfera misteriosa, mas linda liricamente, uma melodia espetacular com guitarras viajantes e vocais limpos. A flauta enreda todo o clima contemplativo da música, mas as variâncias rítmicas traz também o atrativo da faixa, dando um caráter mais jazzístico graças a sua bateria.

"Vangelo?"

“40 Gradi” na sua introdução soa um pouco folk, um pouco acústica, mas logo revela a face destruidora capitaneada pelo vocal de Fella, com uma veia mais hard, mais pesada. Mostra um Jumbo mais rico instrumentalmente falando, mais cheio de recursos.

"40 Gradi"

E fecha com “No!” seguindo basicamente a proposta da faixa anterior: peso e suavidade sendo tratada na medida. Uma música curta conduzida por flauta, com Mellotron, e há algumas risadas de Fella bem tenebrosas.

"No!"

O Jumbo em “Vietato ai minori di 18 anni?” trabalhou como uma unidade bem oleada: as partes de teclado bem definidas de Conte, a multifuncionalidade de Guidotti (flauta, violão, gaita) e o sólido trabalho de baixo de Gargano estabelecem um forte esquema para a música de Jumbo, dando espaço para a guitarra elétrica de Guidotti. 

Solos e a bateria guiada pelo jazz de Granatello. A fundação de uma unidade estilística em todo o repertório mostra-se eficaz e adequada, já que este é na verdade um álbum conceitual que gira em torno de alguns dos tabus mais urgentes e por isso atemporais, que são escancarados sem máscaras que não deveria ser impedido de vir à tona, sendo discutido com vista a efetivamente do tombamento das aflições e frustrações humanas, pois fazem parte do seu arquétipo físico e comportamental e o Jumbo fez a sua parte com o viés e a manifestação artísticas de tais assuntos.

A banda se desfez em 1976 e não se sabe ao certo se esse álbum acarretou o seu fim, sobretudo pelos aspectos comerciais, mas o fato é que com “Vietato ai minori di 18 anni?” o Jumbo deixou uma marca indelével para a história do rock progressivo italiano e mundial, mesmo que poucos o reconheçam como tal.




A banda:

Alvaro "Jumbo" Fella nos vocais, piano elétrico, órgão e saxofone

Daniele "Pupo" Bianchini na guitarra

Sergio "Samuel" Conte nos teclados

Dario Guidotti na flauta, harpa, violão, sixtro e vocal

Aldo Gargano no baixo, Mellotron, sinos e sixtro

Tullio Granatello na bateria


Com:

Lino "Fats" Gallo na guitarra slide

Franco Battiato no sintetizador VCS3

Angelo Vaggi no sintetizador Minimoog

Lino "Capra" Vaccina na percussão


Faixas:

1 - Specchio

2 - Come Vorrei Essere Uguale A Te

3 - Il Ritorno Del Signor K

4 - Via Larga

5 - Gil

6 - Vangelo?

7 - 40 Gradi

8 - No!



 

"Vietato Ai Minori di 18 Anni?"

 

 

 

 





























 




 

sábado, 23 de maio de 2020

Jumbo - DNA (1972)


Gosto do “inusitado” nas bandas de rock. A década de 1970 foi um “tubo de ensaio” para essas bandas, no tocante a sonoridade, definitivamente desbravadoras de vertentes que hoje dispõe de uma horda de apreciadores espalhados pelo mundo. Essas bandas trabalharam muito para edifica-los. Mas algumas bandas transcendem tal quesito e faz do inusitado seu sustentáculo, sua filosofia para todo sempre. O flerte de vários estilos, os ingredientes que, quando se misturam, explodem em manifestações criativas e músicas, como disse, atípicas, vanguardistas, únicas, por muitas vezes, incompreendidas. Uma dessas bandas, vem da Itália e se chamava Jumbo e o seu segundo álbum de estúdio chamado “DNA”, de 1972, retrata fielmente essa música sem amarras, sem padrões.

Jumbo

E como não podemos deixar de falar de história, o Jumbo foi formado em 1969 na cidade de Milão tendo o vocalista Alvaro Fella, como figura central, tanto que o nome da banda vem de seu apelido, Álvaro “Jumbo” Fella. Fella era baixista de uma banda de pouco nome quando foi notado por produtores de uma gravadora, assinando contrato em 1970. Gravou uma música chamada “Due Righe Da Te” e dois covers. No primeiro single tocou com gente do naipe de Franz Di Cioccio e Flavio Premoli, ainda componentes do Quelli, depois passando a se chamar Premiata Forneria Marconi, e Mario Lavezzi, mais tarde tocando no Il Volo. 

Alvaro "Jumbo" Fella

Já em outra gravadora, de mais renome, a Phillips, gravou em 1971 o primeiro álbum com a ajuda dos músicos que teriam constituído a primeira formação da banda, tais como: Daniele Bianchini na guitarra, Sergio Conte nos teclados e vocais, Dario Guidotti na flauta, violão, gaita e percussão, Vito Balzano na bateria e percussão e o baixista Alberto Agazzi, mas sendo substituído logo por Aldo Gargano. O seu debut, de nome “Jumbo”, lançado em 1972 também, é um belo álbum, muito influenciado pelo blues, um pouco acústica na sua concepção, com muito instrumento de sopro e percussão e o destaque fica com o vocal de Fella, excepcional, potente, de grande alcance, um rosnado ameaçador, sem dúvida um dos melhores vocalistas que eu vi e ouvi até o momento. 

"Jumbo" (Primeiro álbum, de 1972)

Trata-se de um belo álbum, com uma bela produção, mas a grande mudança do Jumbo e a mais significativa, pois levaria como identidade até o fim, seria no álbum “DNA” também de mesmo ano. Mudança essa que se daria devido a um trabalho simbiótico e de grande parceria entre os seus integrantes. É o que disse em uma entrevista que o guitarrista Daniele "Pupo" Bianchini concedeu a um veículo de comunicação na Itália: "Eu diria que uma mudança quase natural: afinal de contas entre o primeiro e o segundo LP passou quase um ano. O tempo que passamos juntos e o trabalho duro feito por todos os membros do grupo criam as condições para se conhecerem melhor. Compreensão e confiança são coisas que precisam de tempo para amadurecer, ele se materializou em um trabalho de grupo cada vez mais unida." 


“DNA” foi realmente uma busca a uma nova identidade, mostrando uma vertente totalmente progressiva da banda, combinando um hard prog, com folk e blues, lembrando e muito o Jethro Tull, mas sem soar plágio, pelo contrário, uma banda que tem no vocal de Alvaro Fella a síntese de obscuridade e experimentalismo viajante do Jumbo. O álbum começa com a suíte de mais de vinte minutos de nome “Suite Per Il Sig. K” que combina um heavy progressivo e um blues rock com referências clássicas, com instrumentais acústicos com piano, violão e flautas para poderosos riffs de guitarra e ótimos vocais de Fella.

Jumbo - suite per il sig K, live 1995

“Miss Rand” segue com aquele "mescla sonora" que entrega um folk prog, com uma curiosa levada country que "destoa" com solos de guitarra que intensifica, encorpa a música.

Jumbo - "Miss Rand"

“È Brutto Sentirsi Vecchi” é uma faixa mais sombria, introspectiva, beirando a viagens experimentais, assinando o nível estratosférico de criatividade desta banda.

Jumbo - "É Brutto Sentirsi Vecchi", live (2017)

“DNA” fecha com a música “Hai Visto...” mostra muita delicadeza, uma bela música acústica depois ficando um pouco mais frenético. “DNA” mostra uma banda amadurecida, o marco zero de sua nova jornada progressiva que infelizmente durou até o término da década de 1970. 

Jumbo - "Hai Visto", live (2017)

O Jumbo merecia uma melhor sorte e ser reconhecido com uma grande banda do celeiro de grandes nomes do rock progressivo italiano, mas hoje é só uma pérola perdida da cena.

A banda:

Alvaro "Jumbo" Fella no vocal e guitarra acústiva
Daniele "Pupo" Bianchini na guitarra
Sergio "Samuel" Conte no órgão e teclados
Dario Guidotti na flauta e guitarra acústica
Aldo Gargano no baixo
Vito "Juarak" Balzano na bateria

Faixas:

1 - Suite Per Il Sig. K
- Sta Accadendo Qualcosa Dentro Me
- Ed Ora Corri
- Dio E'
2 - Miss Rand
3 - E' Brutto Sentirsi Vecchi
4 - Hai Visto...