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quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Pandora - Measures of Time (1974)

 

Quando leio alguns textos sobre determinadas bandas ou álbuns observo, nitidamente, que as pessoas buscam algo inovador. Claro que, quando temos um primeiro contato com uma banda, buscamos algo que nos arrebate, perfeitamente natural ter, ou melhor sentir isso. Mas percebo que o nível de exigência tem sido demasiadamente alto a ponto de rejeitar e criticar determinadas bandas e trabalhos por elas produzidas.

A crítica e a rejeição também fazem parte do processo da aceitação ou não de determinados trabalhos, mas penso que buscar sempre algo inovador é demasiado exigir demais de determinadas bandas e principalmente de si mesmo quanto ao seu nível de aceitação e rejeição de determinados trabalhos.

As cenas musicais chegam a níveis de saturação, com um número enorme de bandas que surgem. Percebo isso em movimentos musicais de hoje e do passado e com o rock progressivo não foi diferente, principalmente na primeira metade dos anos 1970, quando viveu sua ebulição criativa, embora nunca tenha sido uma cena palatável e tanto aceita pela indústria fonográfica. E que fique claro que a sua ebulição criativa foi na primeira metade dos anos 1970, mas não significa que em outros tempos não tenha sido.

E, diante desse cenário, que penso ter acontecido, muitas bandas surgiram, algumas viram a luz do sucesso, enchendo arenas, estádios e participando de festivais faraônicos e muitas outras caíram no limbo do esquecimento, vagando pelas sombras obscuras do underground.

E essas últimas sofreram e sofrem com uma investida pesada de ultrajantes cópias das bandas famosas, de sucesso. Evidente que não tirarei os méritos dos medalhões do prog rock que conquistaram suas condições de pioneiras e inovadoras, mas qual o motivo de taxar as obscuras de plagiadores? Qual o motivo de pontuá-las como farsantes ou coisa que o valha?

Essa defesa veemente da minha parte, caros leitores, se dá por uma questão óbvia, afinal, esse reles e humilde blog fala de bandas obscuras, mas não se enganem que a defesa seja cega e alienada. Aqui há espaço para críticas, mas principalmente, modéstia à parte, para grandes álbuns e bandas.

E a banda de hoje eu conheci recentemente em uma dessas incursões, às vezes, confesso, aleatórias na grande rede na caça de álbuns obscuros e quando a ouvi simplesmente adorei, porque alia um progressivo sinfônico, com uma pegada mais pesada, um hard mais acessível, com uma sonoridade, diria, comercial, mas de qualidade. Falo da banda sueca PANDORA.

Pandora

Quando levantei referências para este texto que você, fiel e bom amigo leitor, li algumas críticas pesadas, desconstruindo a sonoridade da banda, dizendo que era cópia de ícones como Uriah Heep, Genesis, entre outras bandas de sucesso. Ao ouvir o único álbum lançado pela banda, há cinquenta anos, em 1974, chamado “Measures of Time”, não se percebe, de fato, nada de inovador, era o que se fazia na primeira metade dos anos 1970, na cena progressiva, mas se trata de um trabalho excepcional, muito agradável de se ouvir e é isso que importa aos ouvidos e a alma.

E falando em referências lamentavelmente pouco encontrei sobre a história do Pandora na web, sobre as suas origens, então vai as minhas famigeradas licenças poéticas acerca de sua história obscura. O nome da banda te remete a conhecida “Caixa de Pandora” com a sua história de que os deuses gregos colocaram todas as desgraças do mundo, entre as quais a guerra, a discórdia, as doenças do corpo e da alma em uma caixa. Talvez a inspiração para o nome da banda seja a música como uma manifestação irrestrita de esperança. Há muito a se falar da “Caixa de Pandora”, mas não entrarei em pormenores.

Vamos ao pouco da história do Pandora, a banda. A banda foi formada na cidade de Norrkoping, no sul da Suécia, em 1971 pelo baterista Bertil Jonsson e pelo guitarrista Urban Gotling. Após algumas mudanças na formação a banda gravou o já informado debut, na realidade único trabalho, “Measures of Time”, de 1974. Com a saída de Gotling, a formação que concebeu esse álbum tinha, além de Jonsson, na bateria, Leif Hellquist e Åke Rolf na guitarra, Peter Hjelm, no vocal principal, Janne "Flojda" Dockner no piano e sintetizador e Björn Malmqvist no baixo.

“Measures of Time”, lançado pelo selo sueco SMA, no formato vinil, traz uma música bem executada, com excelentes arranjos e melodias com uma roupagem progressiva sinfônica, com teclados agradáveis e vocais bem envolventes, com uma textura mais pesada, tendendo para o hard rock que harmoniza muito bem com os sintetizadores e a pegada sinfônica, fazendo de sua sonoridade versátil e que pode certamente agradar aos apreciadores de progressivo e hard rock, além de um viés mais comercial, porém bem executado.

Nuances psicodélicas são percebidas também que te faz remeter naquela transição dos anos 1960 para os anos 1970, que se percebe uma sonoridade que tenta deixar o experimentalismo e a pegada beat indo para algo mais complexo e bem trabalhado. Assim o é “Measures of Time”. Não para por aí: ainda se percebe um blues progressivo e calorosas pegadas de krautrock. A sonoridade do Pandora é bem globalizada e se afasta um pouco do som das bandas suecas meio exóticas e pouco ortodoxas do início dos anos 1970.

O álbum é inaugurado pela faixa título “Measures of Time” que começa meio operística, piano e baixo em total sinergia entregando um progressivo sinfônico com riffs pesados de guitarra e um vocal melódico cheio de dramaticidade. E tudo isso ganha vivacidade e emoção com solos lindos de guitarra que logo tem a companhia do piano dando uma cadenciada e “rivalizando” com a guitarra. É a faixa que define bem o trabalho do Pandora.

"Measures of Time"

Segue com “Dusty Ledger” que também ganha vida com o piano na introdução e baixo trazendo uma textura mais misteriosa o que é corroborado pelo vocal mais fechado e introspectivo. O baixo fica mais pulsante, a música ganha mais corpo, os riffs de guitarra trazem uma roupagem hard rock, bateria é marcada e bate mais forte, o vocal segue a proposta com alcances maiores, os teclados dão um tom mais sinfônico, solos de guitarra são de tirar o fôlego. Não há como negar que a faixa se revela complexa e repleta de mudanças rítmicas.

"Dusty Ledger"

“The Queen” segue com a proposta mais sinfônica com uma introdução de piano, mas dessa vez foi rápida, porque ela já começa animada, enérgica e agitada. Vocais mais nervosos, mas não menos melódico, o que sempre me agrada, riffs de guitarra dão o tom mais solar, bateria as vezes pesada ou com uma discreta pegada jazzística, o piano mais frenético entrega o peso, o baixo pulsante e dançante, solos mais acessíveis de guitarra. Sem dúvida a mais animada faixa do álbum.

"The Queen"

“Life is Good, Life is Bad” começa com uma salutar “rivalidade” entre piano e a guitarra com seus riffs, tendo uma textura rítmica mais dançante, graças, claro, ao baixo mais pulsante e bateria marcada. Vocal, como sempre, em destaque, sempre melódico e agora em um tom mais dramático. As mudanças rítmicas também é a tônica da faixa, trazendo à tona passagens mais sinfônicas. Na sequência tem “Tailor” com o piano em destaque. A roupagem mais progressiva ganha força nessa faixa e os teclados confirmam essa condição com aquela pegada típica do sinfônico, que logo irrompe nos indefectíveis solos de guitarra sempre bem executada.

E fecha com “Mind of Confusion” traz à tona novamente o hard prog, o peso dos riffs e solos da guitarra e as mudanças rítmicas são arrebatadoras e extremamente solares. E nessas mudanças rítmicas não podemos negligenciar o vocal, destacando-o conduzindo perfeitamente os “humores” da faixa. Traz alcances vocais poderosos a sussurros.

Após o lançamento de “Measures of Time” o Pandora teve alguns bons e importantes shows dando a perceber que a banda vingaria, seguiria o seu curso na história. Abriu banda para bandas mais famosas da Suécia como Kaipa e Trettioariga Kriget, entre outras, isso entre 1975 e 1977, durando até 1981, quando a banda se desfez por diferentes razões, de relacionamento a percepções musicais, sendo que alguns músicos já tinham, inclusive, saído do Pandora para outros projetos.

“Measures of Time” permaneceu como uma total raridade até que a Tachika Records o relançou em mini LP. O selo em questão é um tanto quanto nebuloso, pois seu catálogo está na loja virtual “Syn-Phonic”, mas nem eles sabem se totalmente legalizado, apontando um vínculo com outras empresas como a “Progressive Line” e a coreana “Won Sin”, mas o que vale é a qualidade do lançamento e de que o álbum ganhou alguma repercussão, embora pequena. Teve outro relançamento, agora em vinil e CD, pelo selo alemão Press Alemanha, em 2015 e desde então não se tem notícias sobre um novo relançamento deste belíssimo álbum.

Independente se é ou não inovador, o único trabalho do Pandora, “Measures of Time”, é saboroso de ouvir, é agradável e traz uma complexidade em sua sonoridade muito democrática que faz com apreciadores de progressivo e hard rock se junte e ouça esse trabalho da banda sueca. O mais importante das discussões sobre vertentes do álbum e o bom alimento a alma que a boa música pode nos proporcionar.




A banda:

Björn Malmqvist no baixo

Bertil Jonsson na bateria

Leif Hellquist na guitarra

Åke Rolf na guitarra

Peter Hjelm nos vocais

Janne "Flojda" Dockner no piano e sintetizador

  

Faixas:

1 - Measures Of Time

2 - Dusty Ledger

3 - The Queen

4 - Life Is Good, Life Is Bad

5 - Tailor

6 - Mind Of Confusion 



"Measures of Time" (1974




 


 















quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Epizootic - Daybreak (1976)

 

Por que os anos 1970 é o melhor período do rock n’ roll em termos de qualidade sonora? Tudo bem, estimados leitores, que essa frase, essa pergunta tem um caráter de opinião, afinal há de ter outras pessoas que contestarão dizendo que os anos 1960 foram prolíficos ou ainda os anos 1980.

Mas é inegável que a década de 1970 deixou uma marca indelével para o rock n’ roll descortinando vertentes tão especiais para os nossos ouvidos e alma, como hard rock, rock progressivo, jazz rock, blues rock entre tantos outros.

A resposta? Era a capacidade de algumas grandes bandas de flertar, com grande facilidade, com várias vertentes sonoras em um álbum ou mais arrojadamente ainda, em uma música. Tantas nuances, tantas mudanças de ritmo que confesso me arrebatamento a cada audição desse tipo.

E aí eu preciso retomar a importância dessa década para o rock! Somente ela foi capaz de nos proporcionar esse momento singular. Os estilos estavam nascendo, eram embrionários, as doses de experimentalismo eram cavalares, não havia, ouso dizer, nomenclaturas identificando tais vertentes, não havia rótulos, nada.

As bandas ousavam, experimentavam, a criatividade era latente, não havia receios, medos, o que comandava as pretensões musicais era pura e simplesmente o amor pela música, a verdade que ela trazia personificadas nos músicos e primordialmente, a criatividade. A subserviência era por ela, sem preocupações com o mercado fonográfico.

E muitas dessas bandas padeceram pelo simples fato de não sucumbirem ao glamour e facilidades do sucesso comercial e suas músicas plásticas com prazo de validade. Não é à toa que essas muitas bandas caíram no limbo do esquecimento, nos escombros da obscuridade, mergulhadas em um fracasso comercial. Mas são únicas, singulares, importantes para um nicho de fãs que sempre apreciaram tais músicas de vanguarda.

Podemos elencar inúmeras bandas que se enquadram nessa condição, mas gostaria de falar de uma banda que conheci recentemente e que veio da sempre surpreendente Suécia chamada EPIZOOTIC e que, para variar, lançou apenas um álbum, em 1976, chamado “Daybreak”.

Epizootic

O nome da banda, meio doido, atípico, entrega, com seu álbum, uma sonoridade vivaz, cheia de recursos sonoros, que vai do peso do hard rock, a sofisticação do rock progressivo, a lisergia do psicodélico. Uma sonoridade arrojada, mesmo não apresentando nada de revolucionário surgia na segunda metade dos anos 1970 que estava despertando para o punk rock que, mesmo não gozando de tanta popularidade, estava atraindo olhares interessados da indústria, deixando de lado as bandas que privilegiavam uma sonoridade mais rebuscada e complexa.

As origens do Epizootic remontam de meados dos anos 1970 na cidade sueca de Gotemburgo, quando quatro garotos decidiram se juntar e formar uma banda de rock com viés sinfônico, cantando em inglês e com certas conotações pesadas, de hard rock. O desejo incondicional de jovens, ávidos por ganhar o mundo, era evidente na sonoridade do Epizootic. As letras em inglês, com a intenção de atingir o mercado externo, parece que tudo estava meticulosamente calculado para o sucesso ou será que tudo não passou de um sonho febril? Pois é, o desfecho parece revelar o segundo cenário.

“Daybreak” foi concebido de uma forma totalmente independente, por um selo que parecia pertencer aos próprios músicos, de nome “Fejl” e, apesar de ser um álbum com dez faixas complexas e arrojadas, nota-se clara falta de produção. Mas isso não parece ser nenhum demérito, pelo contrário, bandas e álbuns obscuros de “formato garageiras”, quando lançam trabalhos com essas características, passam a se um charme, algo que agrega a sua sonoridade.

Aqui cabe uma curiosidade referente ao nome da gravadora: “Fejl”. Tal termo é uma grafia sueca da palavra inglesa “fail” que significa “falha”, “falhar”. Sinceramente não conseguir interpretar o motivo pelo qual leva esse nome, mas, licenças poéticas à parte, talvez seja pelo fato do álbum não ter atingido o status de sucesso.

Não podemos negligenciar o fato de que “Daybreak” é um ambicioso trabalho, mesmo que "artesanal", por conta da produção. Ah são jovens e como tal querem ganhar o mundo, serem donos deles, custe o que custar. E não há como se render a essa crueza que entrelaça com uma complexidade e nos deixa um tanto quanto perdidos quando tentamos classificar uma sonoridade. Então, caros leitores amigos, esqueça as formalidades da nomenclatura e se deixe levar pelo som de Epizootic.

E como não apreciar essa “dúvida”: guitarra pesada, elementos de jazz fundamentado pelo tecladista e toques de música progressiva evidentes na flauta. O vocal, embora não seja um primor, dá o seu recado e mostra um trabalho de banda muito firme, coeso e complexo, porém orgânico. A formação que gravou “Daybreak” traz: Pär Ericsson nos vocais, baixo, flauta, Bengt Fischer na guitarra, Lars Liljegren no piano, sintetizadores e vocais e Lars Johansson na bateria e percussão.

“Daybreak” é um hard prog que lembra mais uma produção de porão do que uma gravação propriamente dita. Mas a música é poderosa e extremamente cativante e interessante, com excelentes ideias instrumentais, extremamente arrojadas, complexas e orgânicas. Um trabalho obscuro que merece reverências, que merece crédito pela sua sonoridade.

O álbum é inaugurado com a faixa “Epizootic”. Um som de águas agitadas no início, mas que logo irrompem em solos rápido e pesados de guitarra trazendo o prenúncio de um hard rock cadenciado com teclados em uma sequência animada, que volta a guitarra, com riffs duros, sombrios e agressivos. Segue com “Sunset, Emotion” que tem, mais uma vez, o destaque dos riffs pesados e solos curtos e diretos da guitarra. É igualmente cadenciado pelos teclados enérgicos e uma seção rítmica bem coesa, com bateria marcada e baixo pulsante. Mas o que mais estimula na faixa é a salutar “rivalidade” entre teclados e guitarra.

"Sunset, Emotion"

“Eye Ball” os teclados inauguram a faixa e remete a uma pegada mais progressiva sinfônica aliada ao hard rock que se mostra presente do início ao fim do álbum. O vocal é mais rasgado, direto. Os riffs de guitarra são destaque e traz uma textura mais pesada e suja à música. E a doce “rivalidade” entre a guitarra e o teclado, mais uma vez, ganha destaque também e no meio termo, o baixo fica mais galopante ainda. “Fantacy” começa mais branda, mais leve. Dedilhados de guitarra e vocais mais doces trazem uma balada, com momentos mais pesados protagonizados por riffs de guitarra e assim vai alternando com um solo mais elaborado da guitarra no meio.

"Eye Ball"

O álbum segue com a faixa título, “Daybreak”, instrumental, ganha, mais uma vez, protagonismo a guitarra. Solos pesados, arrastados, em alguns momentos, e outros com uma pegada hard blues, tendo a “cozinha” dando uma textura mais bluesy também, sem deixar de lado, o agora discreto teclado. “What Mercy is This” já começa intensa, pesada! Os riffs de guitarra são pesados, agressivos, mas que ficam cadenciados com a bateria, cheia de groove e o baixo vívido e igualmente pesado. É extremamente animado a “batalha” entre os solos de guitarra e os teclados.

"What Mercy is This"

“Indian Reservation” começa introspectiva, contemplativa. Os dedilhados de guitarra reaparecem. Os vocais sussurrados, mas o peso já assume a dianteira da música. Bateria agressiva, os pratos parecem fazer a música levitar. Os teclados tocados com uma energia incrível, o baixo é esmurrado! Todo esse roteiro pesado logo devolve o posto para o ambiente anterior, de balada, com flautas. Repleta de recursos sonoros, de mudanças rítmicas. “Pictures of an Ordinary Life” começa pesado. A bateria dá o tom, o ritmo com os teclados em uma pegada sinfônica, mas descamba para uma sonoridade curiosamente radiofônica, meio dançante, inclusive. As flautas aparecem ao estilo Jethro Tull, com vivacidade. Mais uma faixa cheia de mudanças rítmicas mostrando a versatilidade da banda.

"Indian Reservation"

A penúltima faixa se chama “Pluto” que inicia curiosamente com um riffs que me remeteu ao heavy metal, pesado e rápido! O típico, porém, ousado, hard rock com uma evidente pegada heavy metal que ainda era embrionário. Mas as ousadias do Epizootic não param por aí. O peso inaugural dá lugar, mais uma vez, a flauta que, juntamente com a seção rítmica entrega um groove, algo dançante, mas que logo dá lugar ao peso capitaneado pela guitarra. E fecha com “Sinbad” já começa revelando o que foi o álbum: riffs agressivos de guitarra “rivalizando” com o teclado. Mas essa música retrata também o que foi o álbum na reta final: músicas pesadas e muito mais agressivas.

"Sinbad"

Embora o Epizootic não tenha atingido o sucesso comercial o seu único álbum ganhou “nove estrelas”, uma classificação de raridade na "Enciclopédia da Música Progressiva Sueca". São esses fatos que fazem de determinadas bandas e álbuns atingiram o status de “cult”, ou seja, um nome bonitinho para esquecemos de você no passado e envergonhados decidimos atribuir um status de importância para você.

E falando em sucessos e fracassos, após a experiência curta e precoce com o Epizootic o vocalista e baixista Pär Ericson e o guitarrista Bengt Fischer alcançaria o sucesso com a famosa banda de heavy metal EF Band, durante os anos 1980, quando se mudaram para o Reino Unido, gravando uma boa quantidade de álbuns. Infelizmente, em 2001 Fischer morreria devido a complicações com o câncer. O pianista Lars Liljegren mais tarde tocaria com Ragnarök e Triangulus. 

Além, claro, do lançamento original de "Daybreak", em 1976, pelo selo sueco, dos próprio músicos, Fejl, há alguns poucos relançamentos, como um de 1999, no formato CD, na Alemanha provavelmente não oficial e outro, no formato LP, pelo selo germânico "Long Hair", de 2020. O fato é se tratar de um clássico obscuro!





A banda:

Pär Ericsson nos vocais, baixo, flauta

Bengt Fischer na guitarra

Lars Liljegren no piano, sintetizadores e vocal

Lars Johansson na bateria e percussão

 

Faixas:

1 - Epizootic

2 - Sunset, Emotion

3 - Eye Ball

4 - Fantacy

5 - Daybreak

6 - What Mercy is This

7 - Indian Reservation

8 - Pictures of an Ordinary Life

9 - Pluto

10 - Sinbad



"Daybreak" (1976)




 



 

















 


sábado, 25 de fevereiro de 2023

Il Tempio delle Clesside - Il Tempio delle Clesside (2010)

 

O flerte entre o passado e o presente no rock progressivo italiano pulsa, faz do futuro algo mais consistente, relevante, novo e seguro. A cena respira o frescor da contemporaneidade, a história é celebrada a cada banda que surge, a cada fã que a reverencia, o ciclo da riqueza sonora parece se renovar contemplando o clássico, a essência não está inerte, é viva e se renova a cada dia.

Os desbravadores e persistentes músicos e bandas dos anos 1970 deixaram um legado de verdade sonora muito eloquente e foram responsáveis por entregar o leme do barco da cena progressiva italiana para os jovens que, munidos da proposta e embebidos dela, navegaram por mares bravios, sim, mas domados fazendo da atual cena mais forte, mais intensa, vívida, plena, com bandas com uma sonoridade calcada nos tempos de outrora, mas olhando para as tendências dos novos tempos.

E quando esses tempos, essas “eras” se fundem? Seria possível gerações se darem as mãos e entregarem trabalhos consistentes e interessantes para o público? Diante do discurso acima seria fácil e, convenhamos que é fácil sim, principalmente quando falamos do rock progressivo italiano. O velho e o novo que, em muitas situações da vida, são tratados como água e vinho, de uma forma tão separada e divergente, se convergem quando a Itália progressiva é a pauta. E temos um exemplo emblemático para a história dessa cena. Um case de sucesso, de crítica e público, que se atende pelo nome de IL TEMPIO DELLE CLESSIDE.

Il Tempio delle Clesside

Definitivamente a banda Il Tempio delle Clesside  é um grande e bem sucedido exemplo do casamento entre o novo e o clássico. A banda foi formada em Gênova no ano de 2006 por dois jovens músicos, a tecladista Elisa Montaldo e o baixista Gabriele Guidi Colombi, estes oriundos da banda Hidebehind.

Elisa convidou para o posto de vocalista nada menos do que Stefano “Lupo” Galifi, da clássica banda obscura Museo Rosenbach. A ideia original era tocar o debut do Museo, “Zarathustra” ao vivo com seu original vocalista com novos arranjos, tanto que o nome da banda vem de uma das partes da suíte da faixa deste álbum clássico, “Zarathustra”, “Il Tempio dele Clessidre”.

Stefano "Lupo" Galifi

Uma verdadeira homenagem a década de 1970 com novas roupagens. Em 2007 algumas performances ao vivo começaram a acontecer com belos shows, a química parecia ser muito grande, a banda estava entrosada, então decidiram compor músicas novas, um material novo para um novo álbum.

Então, em setembro de 2010, o álbum autointitulado foi lançado pelo selo emblemático “Black Widow Records”. Um trabalho ambicioso, importante e com altas dosagens de aventura, uma aventura sonora que, repleto de audácia, porque trazia, de forma intencional, além de propostas setentistas, uma música mais contemporânea, moderna.

Para este álbum de 2010, homônimo, a banda teve algumas modificações em seu line-up e contou com Stefano Galifi no vocal, Elisa Montaldo no teclado e hammond, Giulio Canepa na guitarra, Fábio Gremo no baixo e Paolo Tixi na bateria, com Antonio Fantinuoli no cello e Max Manfredi na narração, na faixa 7. Gabriele Guidi Colombi, que tinha formado, juntamente com Elisa, a banda, a deixou antes do lançamento do debut do Il Tempio delle Clesside.

Para confirmar o quanto a banda é versátil e competente, o trabalho da arte gráfica, da capa do álbum contou com Maurilio Tavormina na arte, Fabio Gremo na concepção e Elisa e Andrea Montaldo no logo da banda. Em contato com Elisa, antes da concepção desta resenha, que nos brindou com valiosas informações sobre o álbum, diz que o mesmo tem o conceito geral, a ideia do tempo: “Tempo como o elemento que domina a vida dos seres humanos (até mesmo a capa simboliza o destino e o tempo), onde os homens estão em constante luta para dominar o tempo e como ele regula os nossos aspectos da vida”.

Apesar de um projeto audacioso, Elisa disse que a gravação do álbum fora longo e complicado, pois, além dos poucos recursos disponíveis, a composição, arranjo e gravação das músicas tiveram um conceito “vintage”, mas com muita paixão e criatividade. Assim é o álbum: com referências ao metal, mas muito melódico, sinfônico, jovem, robusto, clássico, remetendo a bandas como Il Balletto di Bronzo, Yes, Gentle Giant e é claro Museo Rosenbach.

A música encontrada em “Il Tempio delle Clesside” é principalmente muito densa, pesada e altamente energética, com pausas instrumentais arrebatadoras e conduzida pelo órgão e pela guitarra, sendo tocados de maneira divertida, solar, mas sem esquecer o mellotron, mais clássico, dando um caráter “vintage”, mas sem soar datado. Trata-se de um hard rock, com pitadas generosas de um melódico com alto teor de dramaticidade capitaneado pelo vocal de Stefano “Lupo” Galifi. É denso sim, pesado também, mas de uma delicadeza singular. Em suma: este álbum é um misto de um rock mais pesado, com um prog “romântico” com sabor italiano e humores melancólicos e alegres.

Há umas citações de Elisa Montaldo, em outubro de 2010, para o emblemático e necessário site “Prog Archives” com a banda, em que ela fala sobre o processo de composição das músicas e das suas inspirações e que sintetiza perfeitamente com a concepção do álbum “Il Tempio delle Clesside”:

“Quando tenho inspiração, vou imediatamente para o piano e toco: a improvisação é a coisa mais importante para mim, componho música diretamente de minhas emoções, sonhos e ideias e tento traduzi-los em música... sons dos meus teclados para criar a cor do tom certo, e tentar emular os sons progressivos clássicos que eu amo (Mellotron, Chamberlin, órgão Hammond) As guitarras estão estritamente conectadas com os teclados em nossa música, elas são muito refinadas e versáteis, Giulio é um violonista muito bom e tem uma grande sensibilidade musical que torna os arranjos originais, bem equilibrados e em harmonia com o real sentido das composições."

Elisa Montaldo

O álbum abre com a instrumental “Verso l’Alba” apresentando o que será o álbum majoritariamente: uma sonoridade bem familiar do rock progressivo dos anos 1970, com um órgão profundo, sintetizador frenético, riffs poderosos de guitarra e um estilo marcado de bateria. “Insolita Parte Di Me” começa enérgica, contagiante, forte e abre alas em para o vocal límpido de Galifi, em uma faixa melódica. Não se pode negligenciar também as camadas de teclados incríveis de Montaldo, trazendo textura a sua sonoridade.

"Verso I'Alba" e "Insolita Parte Di Me" (Live)

“Boccadasse” traz linhas fortes de bateria e uma levada meio jazzística dando passagem para o vocal e destaque para o teclado de Elisa trazendo a “camada sonora” que a música precisa. É complexo, pois traz o hard rock em fusão com o rock progressivo remetendo ao Uriah Heep do passado.

"Boccadasse"

“Le Due Metá Della Notte” é certamente uma das mais belas faixas do álbum com a linda introdução de piano de Elisa e o vocal contemplativo de Galifi, um pouco da tradicional música italiana. 

"Le Due Metá Della Notte"

“La Stanza Nascosta” é uma balada triste e dramática marcando uma dupla infalível entre o vocal de Stefano e o piano de Elisa. É docemente melancólico, dramático e intenso, mesmo que sombria.

"La Stanza Nascosta"

“Danza Esoterica Di Datura” traz a obscuridade, além do tema, como também no som com destaque no piano clássico aliado ao peso dos riffs de guitarra. Traz, claro, texturas ricas em mellotron que preenchem as vozes sombrias e indulgentes de Galifi. E todo esse conjunto se torna pesado, arrogante, intenso e complexo, repleto de mudanças de tempo. “Faldistorium” vem com pratos de bateria, notas contundentes de sintetizador que oscilam, que vibram em vibrações cheia de energia e intensidade e tudo isso envolto em uma trama jazzística que logo é interrompida por solos de guitarra que remete aos anos 1970. Logo depois vem mellotrons que encharcam a sonoridade com um hard rock mais veemente.

"Danza Esoterica di Natura" e "Faldistorium" (Live)

“L’Attesa” começa com um órgão muito pesado, com uma guitarra elétrica com riffs pegajosos e poderosos que logo recuam para uma seção mais suave que abre para um vocal mais apaixonado e teatral de Stefano.

"L'Attesa" (Live)

A suíte “Il Centro Sottile” é épica, com passagens rítmicas virtuosas e com ricos instrumentais, onde a bateria, o baixo e o mellotron desmentem uma pretensa simplicidade e calma em seu andamento. O piano é incrivelmente brilhante revelando uma seção intensa e delicada, corroborando a riqueza instrumental dessa faixa, fechando claro, com a seção vocal dando um acabamento mais pesado e melódico.

"Il Centro Sottile" (Live)

E fecha com “Antidoto Mentale” com uma proposta mais sinfônica, mas que, por outro lado entrega algo meio pop, radiofônico, mas muito original e competente.

"Antidoto Mentale" (Live)

Il Tempio dele Clessidre traz o presente, agradecendo ao passado, sem soar datado criando uma diretriz e um caminho para o futuro. A banda, sem sombra de dúvida, representa o que há de melhor na nova cena progressiva da Itália, porque respeito os desbravadores do passado, mas que também impõe a sua sonoridade arrojada e contemporânea. Não há fim, começo, meio, apenas música, música de qualidade.

A banda seguiu seu caminho sem o vocalista Stefano “Lupo” Galifi que deixaria o Il Tempio delle Clesside para retomar voltar a sua banda de origem, o Museo Rosenbach para a concepção de um novo projeto, um novo álbum que ganhou luz em 2013, o bom álbum “Barbarica”, de 2013. Elisa Montaldo e companhia gravaria, também em 2013, o seu segundo álbum chamado “AlieNatura” com um novo vocalista, o Francesco Ciapica e gravando, em 2017, o seu terceiro e último álbum de estúdio, o “Il-Lūdĕre”.



A banda:

Stefano "Lupo" Galifi no vocal

Giulio Canepa na guitarra

Elisa Montaldo no piano, no órgão, nos teclados e vocais

Fabio Gremo no baixo

Paolo Tixi no bateria

 

Faixas:

1 - Verso l'Alba

2 - Insolita Parte di Me

3 - Boccadasse

4 - Le Due Metà della Notte

5 - La Stanza Nascosta

6 - Danza Esoterica di Datura

7 - Faldistorium

8 - L'Attesa

9 - Il Centro Sottile

10 - Antidoto Mentale 



"Il Tempio delle Clesside" (2010)