Mostrando postagens com marcador Bélgica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bélgica. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de março de 2026

Jenghiz Khan - Well Cut (1971)

 

Sabe aqueles países totalmente inusitados para a cena rock n’ roll? Pois é, é para eles que eu venho mirando as minhas intenções para desbravar e, não se enganem, caríssimos leitores, há muito a encontrar por aí. As cenas podem ser incipientes em quesitos quantitativos, mas qualitativamente falando a situação muda! Há muito material de altíssima qualidade nos países pouco comentados e esquecidos pelo rock!

Então vale e muito o esforço em desbravar e conhecer tais bandas e álbuns e hoje eu pousei na Bélgica e encontrei um espetacular álbum e banda que merece a sua atenção, caro leitor. Como ela se chama? JENGHIZ KHAN! Mas são aquelas bandas que, como verdadeiros cometas, surgem, como uma força da natureza, gerando impacto, mas que, de forma efêmera, sucumbem, desaparecem.

O Jenghiz Khan surgiu, em 1970, no sul da Bélgica, a partir das cinzas do "The Tim Brean Group" e do "Les Partisans". A formação da banda consistia nos seguintes músicos: Tim Brean no piano, órgão, teclados e vocais, “Big” Frisma nas guitarras base, acústica e solo e vocais, Christian “Chris Tick” Servranckx na bateria, percussão e vocal e Pierre “Peter Raepsaet” Rapsat no baixo e vocais.

Jenghiz Khan

Rapsat foi o último músico a integrar o Jenghiz Khan. Ele veio de uma banda que acabara de lançar um álbum, de nome “Laurelie”. Nos anos 1960, Pierre havia feito parte da orquestra de dança chamado “Les Ducs”, porém em sua banda seguinte, a “Tenderfoot Kids”, onde tocou em quatro singles, revelou ser um excelente compositor.

"Laurelie" (1970)

O nome “Jenghiz Khan” foi escolhido pelo terror associado ao líder mongol e, de fato, essa banda de músicos furiosos, liderado por Friswa, teve impacto no público e incendiou as placas dos festivais onde se apresentavam.

Como todas as faixas do primeiro e único álbum do Jenghiz Khan, “Well Cut”, de 1971, já estava praticamente pronta, Rapsat ficou responsável apenas em tocar o seu instrumento, o baixo. Todos os membros da banda eram compositores, então não teve espaço para Pierre demostrar seus dotes de letrista. Mas se mostrou competente empunhando o baixo, trazendo a sonoridade da banda, algo muito atual.

Além dos músicos serem compositores o seu empresário, o conhecido jornalista de rock, da revista “Telemoustic” ou “TéléMoustique”, Pierre “Piero” Kenroll, ajudou a escrever todas as letras e uma música completa.

A capa deste único trabalho do Jenghiz Khan foi desenhada por Jamic, cartunista da TéléMoustique, apresentava as cabeças dos 4 músicos decapitados brandidas por um gigante e alcançou as melhores vendas belgas, algo que nenhuma banda local conseguia fazer há muito tempo.

E diante desse cenário, “Well Cut” foi lançado até rapidamente, pelo selo “Barclay”, com um som majoritariamente pesado, porém cheio de dinâmica, ou seja, vertentes progressivas, conferindo-lhe complexidade, mas com a capacidade única de ser orgânico, mostrando músicos competentes e técnicos, mas dando tudo de si de forma corporal!

Não sou muito afeito às comparações, mas o Jenghiz Khan, reflete muito a música de seu tempo, embora traga uma sonoridade bem atemporal, rasgando as gerações com muita destreza. Ao ouvir “Well Cut” percebe-se a sonoridade de bandas, das mais famosas, claro, como Uriah Heep, Vanilla Fudgie e Iron Butterfly. Mas como coloca-la em condições de inspirada, se esta surgiu praticamente ao mesmo tempo que as mencionadas? O sucesso de algumas diz muito sobre isso, mas não quero falar sobre isso, e sim do quão importante esse tipo de sonoridade foi nas transições das décadas de 1960 e 1970.

“Well Cut” imprime uma sonoridade que é calcada no riff pesado de guitarra e o bom e velho hammond, que muito me agrada e cativa, um heavy progressivo com pitadas psicodélicas generosas, que vai do sofisticado, complexo, sujo, primitivo e áspero. Uma música que se fazia em profusão no início dos anos 1970, mas com competência, criatividade e muita ousadia, pois não se rendiam as bandas ao estereótipo, afinal, era, diria, uma sonoridade que se descobria, se abrochava em experimentalismos e o Jenghiz Khan não fugia à regra. Era uma desbravadora de seu país, pouco conhecido na cena rock, mas que tinha um radar para o mundo.

O álbum começa com a faixa “Pain” que, um vocal, à capela, dá a introdução para a “cozinha” impor seu ritmo pesado, bateria marcada, agressiva, batida poderosa, baixo pulsante, hammond cheio de vivacidade, riffs de guitarra psicodélicos, mas que dá lugar ao violão e a uma balada. Seus quase oito minutos de duração entrega uma sonoridade repleta de mudanças rítmicas, mostrando o heavy prog muito bem executado. Na metade da música os riffs são mais agressivos e sujos, talvez o momento mais pesado da faixa, que logo se sucedem com solos mais pesados ainda. Música de tirar o fôlego!

"Pain"

Segue com a curta “Campus A”, mas que anima pela pegada meio bluesy, um blues rock bem solar com um vocal cadenciado e, por vezes, um pouco rasgado. É tão somente a guitarra e voz. Simples! Para dar entrada para a próxima faixa, “The Moderate” que inicia com um hammond um tanto quanto sombrio, mas que irrompe em um belicoso som de guitarra e bateria bem agressiva. O baixo dá o groove, o balanço e a cadência. Essa música mostra um Jenghiz Khan mais sofisticado, mas não menos pesado e arrogantemente agressivo. Aqui o vocal é mais potente e gritado e conduz a faixa ao que realmente entrega: peso, mas um peso aliado ao balanço, beira o dançante. Faixa animada!

"The Moderate"

Segue com “Campus B” que, entregando a continuação de “Campus A” traz o blues mais eletrificado, com uma pegada mais gospel evocando os primórdios do rock na sua versão mais primitiva. Não podemos negligenciar, claro, a veia blues rock. “The Lighter” começa acústica, dedilhados de violão torna algo mais pastoral, viajante, dando lugar ao hammond e uma bateria mais vagarosa. Eis uma balada com uma característica inteiramente psicodélica, mostrando um produto de seu tempo, verdadeiramente. O trabalho de vocalização me remete ao Uriah Heep nos seus primórdios e também o Vanilla Fudgie. E finaliza com o lindo e direto solo de guitarra!

"The Lighter"

“Hard Working Man” introduz com um solo de bateria e que já denunciaria o peso que viria pela frente! Um solo de guitarra flamejante, mas que logo cadencia, continuando a bateria como profundo destaque. Aqui nesta faixa o hard rock dá o tom, é o carro chefe. Direta, poderosa, intensa, riffs de guitarra se misturam ao toque cavalar como o baixo é conduzido. Traz a “cama” para a sonoridade acontecer, ser tão evidentemente característica.

"Hard Working Man"

Segue com “Mad Lover” que, mais uma vez, inicia, em uma pegada meio flamenca, acústica, meio folk. Aqui percebo que a banda volta aos anos 1960 com um beat psicodélico. O trabalho de vocalização se faz presente e é bem feito. A guitarra, já no fim da faixa, traz uma sonoridade estranha e experimental.

"Mad Lover"

E fecha com a épica “Trip to Paradise” que começa, mais uma vez, com o belo trabalho de vocalização e uma camada soturna de teclados que traz as lembranças psicodélicas. Mas logo termina, porque a explosão do hard rock se faz vivo e latente! Bateria com a já famosa batida pesada, o baixo com aquele groove arrebatador, galopante, por vezes, sem contar com o hammond que me lembrou algo mais sinfônico. Nessa faixa, no auge de seus mais dez minutos, traz de volta o heavy prog, e se mostra capaz de atrair o ouvinte com as inúmeras mudanças de andamento. É no mínimo catártico ouvir essa música. Hard rock, psicodélico e progressivo em um caldeirão de ingredientes misturados, sem nenhuma cerimônia em se rotular. A criatividade ditou as regras que, sem dúvida, faz dessa faixa uma das melhores do álbum! O final, com o solo de guitarra, é simplesmente de tirar o fôlego!

"Trip to Paradise"

Em sua história relativamente curta, o Jenghiz Khan construiu uma boa reputação de banda ao vivo, tocando em muitos festivais e shows. Podemos destacar, como os mais importantes quando dividiram o palco com: "Wallace Collection" (Puzzle P em junho de 1970), "Black Sabbath" (Rock Bilzen em agosto de 1970), "Yes" (Pop Hot Show Huy em 5 de setembro de 1970), "Stray" (Festival de Ghent em 28 de novembro de 1970), "The Tremelous" (Grand Place Ciney em 11 de julho de 1971) e "Genesis" no Festival de Jemelle em 8 de agosto de 1971.

Um segundo álbum estava sendo escrito, mas problemas surgiriam para a banda, culpa de uma cena belga muito restrita, que não permitia que seus músicos ganhassem vida com sua música, bem como também da onda “glam” que varreu o mundo, com furacões como David Bowie, T-Rex, Salde, Sweet entre outros. E o inevitável aconteceu: o fim do Jenghiz Khan, em 1972. Se há resquícios de composição musical que possa ser gravado em um futuro próximo, não sabemos. O fato é que precisamos esperar uma grande novidade a esse respeito! Quem sabe...?

O baixista Pierre Rapsat lançou uma bem-sucedida carreira solo, em 1973. Ele gravou vários álbuns de ouro e platina, transitando entre o rock e a chanson, mas a maioria de suas músicas era cantada em sua língua nativa, o francês. Rapsat faleceu em 21 de abril de 2002, precocemente aos 53 anos de idade.

O vocalista e tecladista Tim Brean juntou-se a banda “The Pebbles”, tocando teclado com eles de 1974 a 1976, enquanto compunha muitas músicas a pedido do selo “Barclay”. Mais tarde tentou a sorte com uma carreira solo sob o nome de “Tim Turcksin”, mas conseguiu lançar apenas algumas músicas em álbuns de compilação.

O guitarrista e vocalista “Big” Frisma juntou-se a banda “Wallace Collection”, fazendo sucesso, posteriormente, com uma banda pop chamada “Two Man Sound”, lançando também dois singles solo. O primeiro, em especial, onde trabalhou novamente Pierre “Piero” Kenroll, recebeu boas críticas. O lado B, chamado “Big Friswa” era uma ótima faixa de rock. Se suicidou em 1988.

O Jenghiz Khan, com seu único trabalho, lançado em 1971, “Well Cut” traz nas raízes, bem como, claro, no teor de suas letras, temas históricos e belicosos, assim como tantas outras bandas de proto metal de sua época. Sim, Jenghiz Khan emulou o som que se fazia em sua época, lá pelos idos dos anos 1970, mas refletiu, com galhardia e competência, aquele rock n’ roll que, das transições das décadas de 1960 e 1970, mostrou-se criativo e catártico.

“Well Cut” teve alguns relançamentos. Além de seu lançamento original, pelo selo Barclay, em 1971, teve lançamento, pelo mesmo selo e ano, no Canadá e na França. Em 1994, teve um relançamento na Coréia do Sul, pelo selo Won-Sin Music Company, outro, dez anos depois, em 2004, pela gravadora Second Life, na Rússia. Mais dois relançamentos, em 2011, na Bélgica, pelo selo Philmarie, um novo relançamento na Coréia do Sul, pela Won-Sin Music Company e vários outros relançamentos por alguns selos europeus.




A banda:

Tim Brean no piano, órgão, teclados e vocais

“Big” Frisma nas guitarras base, acústica e solo e vocais

Christian “Chris Tick” Servranckx na bateria, percussão e vocal

Pierre “Peter Raepsaet” Rapsat no baixo e vocais

Com:

Pierre “Piero” Kenroll nas composições

 

Faixas:

1 - Pain

2 - Campus A

3 - The Moderate

4 - Campus B

5 - The Lighter

6 - Hard Working Man

7 - Mad Lover

8 - Trip To Paradise 



"Well Cut" (1971)






















 




quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Dragon - Dragon (1976)

 

Nada como fugir um pouco do óbvio, sair um pouco dos grandes centros do rock n’ roll, tais como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha etc. Há sim vida pulsante sonora em outros cantos do mundo e não se enganem, estimados leitores, há grandes pérolas obscuras nos mais improváveis recantos esquecidos do planeta.

Há países, no entanto, que há uma cena pulsando, uma boa quantidade de bandas, com muita qualidade, mas vilipendiada pelo grande público e pela indústria fonográfica que só visualiza diante dos seus olhos o lucro que os países mais conhecidos e badalados podem proporcionar.

E graças a esse blog que, a cada dia, vem me estimulando a garimpar mais e mais o que há de melhor espalhado por esse mundo e me mostrando o que, confesso, há alguns anos atrás eu não percebia: que existem bandas fora do eixo Inglaterra-EUA e grandes bandas!

A viagem tem sido intensa e proveitosa. Os textos explodem em história, as sonoridades surpreendem pela sonoridade arrojada, complexa, orgânica e que não fica em nada atrás dos grandes clássicos, a única diferença é a falta de oportunidade para que essas bandas catapultem a sua arte.

A banda de hoje vem da Bélgica! Sim, a Bélgica! As improbabilidades existem e excitam por ser tão plenas e vivas. A pungência dessa banda surpreende e nos faz chegar a óbvia confirmação de que as fronteiras não deveriam existir para a música, os muros da desconfiança e do preconceito, a cada audição, estão ruindo. E essa banda traz essa grata sensação!

O nome dela é DRAGON! Não se enganem, não se trata de uma HQ, um personagem de desenho animado ou coisa que o valha, mas a síntese do que há de mais genuíno do rock progressivo bem tocado, bem elaborado, complexo, mas orgânico, porque é vivo e sincero a sua música. E a descoberta se deu de uma forma totalmente ocasional, mas sempre planejada, pois quando nos permitimos a garimpar a intenção é sempre achar algo.

Originalmente chamado de Burning Light, esta banda da região de Ath foi formada em 1970 pelos irmãos Georges e Jea Vanaise, tendo dois vocalistas, além do multi-instrumentista Jean-Pierre Houx.

Inicialmente o Dragon teve muitas aparições em festivais, fazendo alguns shows locais e com isso foi ganhando alguma repercussão. Eles costumavam, no seu início, a tocar usando máscaras, maquiagens e máquinas de fumaça nos palcos, elevando a qualidade visual e teatral nas suas apresentações.

Em 1976 o Dragon se juntou ao tecladista e saxofonista Christian Duponcheel, que havia tocado no Lagger Blues Machine e finalmente gravaram seu primeiro álbum, auto-intitulado nos estúdios Acorn, alvo desta resenha de hoje. A banda também contou, na guitarra, com Bernard Callaert.

São poucas as informações sobre a gravação de “Dragon”, em 1976. Reza a lenda que ele foi gravado no Reino Unido, mas, como muitos casos, fora engavetado, esquecido pela indústria, até que, em 1989, o selo Muséa Records o tirou dos escombros do esquecimento e o lançou em um formato CD.

Por outro lado, há informações de que a banda teria lançado, de uma forma totalmente alternativa, pelo selo Gamma Records, uma quantidade baixíssima de cópias, cerca de 1.500, uma prensa privada distribuída principalmente pela banda e pelo referido selo. Mais alternativa do que isso não há!

A arte gráfica denuncia esse trabalho quase que artesanal e manufatureiro do Dragon com o seu primeiro trabalho, embora bonito, parece ter sido desenhado a mão, tornando-o obscuro, pouco conhecido. O Dragon era o tipo de banda para quem a palavra “obscura” foi definitivamente inventada.

“Dragon” revela um som “descolado” do seu tempo, afinal eles entraram em estúdio em 1976, pois combina uma dinâmica arrojada, com mellotron em profusão em uma levada extremamente jazzística e em algum momento entrega estranhos e intrigante sonoridade solar e repletos de humor surreal, com alguma impetuosidade, algum peso e ambições que levam o álbum a uma complexidade que nos remetem aos primórdios do rock progressivo.

Por isso que fiz questão de enaltecer a situação de estar “descolado” no tempo, afinal 1976, apesar do prog rock ainda estivesse em alguma evidência, já não gozava de tanta popularidade, como na realidade, convenhamos, nunca esteve.

Você percebe, neste debut do Dragon, um som complexo e arrojado, mas por outro lado, é genuíno por ser deveras orgânico, intenso e vivo. A sua sonoridade definitivamente é, diria, ingênua! Como? Explico: é encantador, é envolvente, pois não se preocuparam com tendências, não se entregando a elas, envolvendo-se com a sua verdade musical, independente das urgências do tempo em que o álbum fora concebido.

Isso torna “Dragon” original, charmoso corroborando a sua atemporalidade, atribuindo-lhes uma originalidade, uma veracidade de sua arte. A ingenuidade a qual me refiro traz a sua verdade, sem amarras, por isso que a banda sucumbiu sob o aspecto comercial, sendo sequer apoiada pela oportunista indústria fonográfica.

Resumidamente “Dragon” evoca o progressivo sinfônico britânico com algum tempero psicodélico e muita vivacidade, atingindo tal plenitude com um pouco de peso, sintetizado em belos riffs de guitarra e bateria marcada. 

A formação da banda, quando gravou “Dragon”, tinha: Bernard Callaert na guitarra e backing vocals, Christian Duponcheel nos teclados, sintetizadores e mellotron, Jean-Pierre Houx no baixo, sintetizadores, trombone, paino e backing vocals, Georges Venaise na bateria e flauta e Jean Venaise nos vocais e guitarra.

O álbum é inaugurado com a faixa “Introduction” (Insects) com um órgão meio espacial, menos circense, mais introspectivo, algo místico, diria, que me remete a linhas de Pink Floyd e Novalis com um hammond provendo um ritmo de textura simples, mas eficiente com uma melodia sinuosa de guitarra que tece seu caminho dando fomento a esse redemoinho cósmico, de space rock. E um adorável piano ao fim.

"Introduction (Insects)"

“Lucifer” é um verdadeiro passeio selvagem, frenético e poderoso, uma verdadeira força da natureza. Com uma introdução descontraída e contemplativa de pássaros e oceanos, uma guitarra limpa ao estilo blueseiro se faz aparecer com baixo pulsante e pesado com vocais estridentes, despretensiosos quase humorísticos, com solos de guitarra trazendo o contexto, em uma camada hard. Mas as variâncias rítmicas, claro, se fazem presente e, diante dessa parte mais pesada e animada, surge um trecho instrumental calcado no space rock com espessa nuvem de sintetizadores e flautas.

"Lucifer"

“Leave Me With Tears” tem letras sombrias, mas emocionantes, com um adorável Mellotron choroso e um expressivo solo de guitarra apoiado por um piano de cauda no final. É uma música emocional, com um nível alto de dramaticidade.

"Leave Me With Tears"

“Gone In The Wind” traz uma faixa bem rock com trabalho matador de guitarra e uma melodia extremamente cativante, mas com uma levada pop, diria comercial e radiofônica com rajadas absurdas de mellotron no refrão da música. Trata-se de uma música cheia de vida e cheia de vida!

"Gone In The Wind"

“In The Blue” começa com alguns efeitos eletrônicos que remetem, em algum momento, com a cena minimalista germânica krautrock, com uma atmosfera sombria com algumas experimentações, trazendo interessantes e intrigantes solos de guitarras viajantes e teclados cintilantes e agradáveis que te faz voar ao ouvir, com inclusive as trompas, o bom trompete azeitando todas as instrumentações. Uma faixa muito bem construída com prolongados solos de guitarras e teclados que evoca o psicodelismo dos anos 1960.

"In The Blue"

E fecha com “Crystal Ball” basicamente traz a mesma proposta da faixa anterior, quase, diria, uma continuação dela com um vocal mais lento, discreto, introspectivo, algo caótico, atormentado, com golpes pesados e intensos do órgão e guitarra e os sintetizadores se revelando espaciais, uma levada space rock. As paredes sonoras do mellotron e riffs de guitarra termina a música de forma sombria.

"Crystal Ball"

O Dragon viria gravar, em 1977, o seu segundo trabalho chamado “Kalahen” nas mesmas condições que seu debut, "Dragon”, sem apoio e sem gravadora. Em 1992 o selo Mellow Records o trouxe a luz em um formato CD. “Dragon” também ganhou um novo lançamento, em 2012, em formato LP com belo e arrojado encarte, pelo selo Golden Pavillion.

"Kalahen (1977)"

Por mais que o Dragon tenha se descolado do tempo em que concebeu os seus álbuns, suas composições, dando-lhe o caráter de banda ingênua e até mesmo amadora, traz ideias sonoras inventivas e interessantes, algo extremamente instigante que realmente impressionam. E o que chama a atenção é o contraste de momentos sombrios e soturnos com momentos alegres, edificantes e solares. O que fascina e enaltece a cena progressiva, são essas nuances rítmicas que faz do som complexo e fascinante, ao mesmo tempo.

O Dragon mostrou potencial, mostrando ter sido uma grande banda de rock progressivo, digna e excitante, em alguns momentos. Uma pena não terem produzido mais, ter tido uma longevidade discográfica e terem saído de cena. 

Bem pelo menos é o que parece ser, pois pouco se tem de informação sobre o paradeiro de seus integrantes e que destino teriam rumado dentro da música. O fato é que, como um cometa, deixou alguma marca pela sua verdade sonora registrado em seus álbuns simples, mas significativos. Recomendado!



A banda:

Bernard Callaert na guitarra e backing vocals

Christian Duponcheel nos teclados, sintetizadores, mellotron

Jean-Pierre Houx no baixo, piano, sintetizadores, trombone e backing vocals

Georges Venaise na bateria e flauta

Jean Venaise nos vocais e guitarra

 

Faixas:

1 - Introduction (Insects)

2 - Lucifer

3 - Leave Me with Tears

4 - Gone In the Wind

5 - In the Blue

6 - Crystal Ball

 

 

"Dragon" (1976)