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sábado, 6 de setembro de 2025

Vermilion Sands - Water Blue (1987)

 

É preciso cuidado para com certas bandas no que tange às suas inspirações e principalmente influências. Diria melhor: é preciso separar os dois quesitos mencionados. Afinal qual banda não tem as suas influências que inspiram as suas músicas? Tais manifestações não podem ser consideradas, penso, como plágio ou cópia!

Casos como esse, diante de um cenário onde as redes sociais podem se tornar um fator destrutivo, pode pôr em xeque a história de uma banda, relegar ao fim muitas trajetórias de bandas e músicos que buscam um lugar ao sol no mundo da música.

Não quero advogar pelas bandas que vem sofrendo com essas especulações, mas o fato discussões como essa se tornam totalmente inviáveis quando se tem a música, primordialmente a música, como a mais prazerosa das discussões. E quando se tem bandas que efetivamente lembram aquelas que estão em um patamar de pioneirismo, não se pode minimizar, pelo contrário, mas enaltecer tais lembranças.

E eu preciso trazer à tona uma grande banda, pouco conhecida, é verdade, afinal esse é o cerne do blog que lê, caro leitor, que veio do Japão, mais precisamente de sua capital, Tóquio, que se chama VERMILION SANDS. A banda foi formada em meados dos anos 1980, mais precisamente em 1986 e começou, como tantas outras, tocando covers de seus ídolos, como Renaissance, Illussion, Sandrose etc.

A banda, inicialmente formada por Yoko Royama, nos vocais e Masahiro Yamada, nos teclados, como músicos fundadores, além de Masumi Sakaue, nas guitarras, Kenji Ota, no baixo, Takafumi Yamazaki, na bateria e Hiroyuki Tanabe, nas flautas e teclados, tocava covers dessas bandas famosas em vários festivais ao vivo de bandas amadoras, cuja intenção era para recrutar bandas com potencial de sucesso e parece que as portas se abririam para esses jovens músicos.

Vermilion Sands em sua primeira formação

Algum empresário os viu tocar e não se sabe ao certo se era um empresário de gravadoras ou produtores musicais, o fato é que eles tiveram a oportunidade de estrear como uma banda profissional tocando em um espaço, em uma casa de shows muito importante para a cena progressiva de Tóquio, chamada “Silver Elephant”. Foi o momento ideal para eles começarem a compor material autoral e quem sabe, no futuro próximo, gravá-los em um novo álbum. A banda estava animada e fazendo muitos planos.

A banda escolhe um nome, afinal, seu novo caminho exigia um nome e veio Vermilion Sands. A banda recebe algumas grandes ofertas de shows e começou a construir, pouco a pouco, a sua reputação em uma cena que ainda era prolífica no Japão, a do rock progressivo. A banda se apresentaria no “Progressive Rock Festival”, como disse, realizado no Silver Elephant e outros eventos como o “Made in Japan”.

Como em muitos casos, o Vermilion Sands passaria por mudanças em sua formação, talvez pela necessidade de se construir uma identidade sonora e que dela pudesse personificar nas apresentações, nas futuras gravações, entrando Hisashi Matoba, na bateria, Ryoji Ogasawara, no baixo, após a saída de Tanabe, Yamazaki e Ota. Com uma nova formação a banda lançaria, finalmente, o seu debut, em 21 de dezembro de 1987, chamado “Water Blue”, alvo de minha nova resenha.

Vermilion Sands com a formação que gravou "Water Blue"

Ao ouvir esse primeiro trabalho do Vermilion Sands é notório as semelhanças com a banda icônica britânica Renaissance, mas percebe-se também, além da sua sonoridade sofisticada e agradável e, por vezes, suave, traz também um teclado cheio de energia e quente que remete a bandas como Camel e até mesmo Genesis. Tais reminiscências faz você, enquanto ouvinte e apreciador do rock progressivo, se sentir nostálgico, afinal uma sonoridade calcada no prog genuíno, em pleno anos 1980, é fantástico e ousado por parte da banda.

Então, meu bom e estimado leitor, ao ouvir o Vermilion Sands, com o seu álbum “Water Blue”, permita-se abrir a mente e deixar de lado possíveis posturas pré-concebidas e ouvir uma sonoridade rica, orgânica, sofisticada e muito diversificada trazendo uma diversidade de sons dentro do rock progressivo. É um exemplo vivo e latente de uma sonoridade pautada no rock sinfônico e pastoral, com um vocal limpo, delicado, cristalizado que remete também a Annie Haslam, vocal, claro, do Renaissance.

Com o lançamento de “Water Blue”, o Vermilion Sands intensificaria as suas apresentações, tocando em várias casas de shows, isso entre 1988 e 1989 e, com isso a banda reunia uma base interessante de fãs, ganhando alguma repercussão. Inclusive, em 1989, sairia uma coletânea chamada “Symphonic Rock Collection”, com músicas de várias bandas de rock progressivo que estavam em evidência no Japão, pelo selo Made in Japan Records e uma das músicas do Vermilion Sands seria incluída.

“Ashes of the Time” é a faixa. Mas a versão incluída nesta coletânea foi a versão original, então isso acabou motivando os músicos do Vermilion Sands a gravar uma nova versão dessa música. Naquele mesmo ano de 1989, a banda lançaria “Water Blue” novamente, porém no formato “CD”, por isso que existe uma dúvida com relação ao seu ano de lançamento. 1987 foi o primeiro lançamento em “LP” e, como disse, outro lançamento ocorre em 1989, em “CD”.

O álbum é inaugurado pela faixa “My Pagan Love” que começa com um vocal estupendo e límpido de Yoko Royama, tudo isso com um suporte espetacular dos instrumentos, mostrando destreza e competência, em uma mescla envolvente entre sofisticação e um trabalho orgânico. Essa faixa é de uma tradicional cultura irlandesa do século XIX, do Condado de Donegal.

"My Lagan Love"

Segue com “Ashes of the Time” que te remete a um pouco de prog com um pouco de new wave, mas tendendo para algo mais experimental. É nítido o trabalho de neo prog nessa faixa com mais de 12 minutos de duração. As guitarras vêm mais forte, com notas um pouco mais pesadas, com um vocal mais operístico de Yoko. E com isso entra teclados mais enérgicos, a bateria mais intensa, onde a faixa ganha em uma textura mais hard rock com pitadas bem generosas de sofisticação. É incrível as mudanças rítmicas percebidas nessa música. Vale a audição do início ao fim!

"Ashes of the Time"

Segue com “In Your Mind” que abre melódica, tendo tal textura amparada pela voz de Yoko, com guitarras solares, solos atraentes, com uma seção instrumental avassaladora e de tirar o fôlego. A execução de seus instrumentistas é espetacular. O neo progressivo se faz presente nessa faixa novamente, mostrando que o álbum, como um todo, é sim uma ode aos clássicos progressivos, porém com um olhar no que se fazia de novo em meados dos anos 1980. Não se pode negligenciar, já que falamos de instrumentos, dos solos poderosos de guitarra.

"In Your Mind"

"Coral D - The Cloud Sculptors" abre com acordes de guitarra potentes e inspiradoras, com sintetizadores bem tocados e com alguma energia. As mudanças de andamento continuam constatando a qualidade sonora que varia da guitarra, do bandolim, solos do órgão, vocais pastorais e, com isso, um frenesi sonoro se constitui, mostrando, mais uma vez, um trabalho instrumental invejável.

"Coral D - The Cloud Sculptors"

"Kitamoto" começa com guitarras que fornece uma trama de fundo para Yoko cantar que, logo depois entra um sintetizador com um solo viajante e solar, ao mesmo tempo. Logo entra piano, baixo e bateria se juntam a segunda parte da música, com destaque para o baixo, por vezes, pulsante, juntamente com agora uma guitarra suave, dando um pano de fundo.

"Kitamoto"

"Living in the Shiny Days" traz, como destaque, o prog folk, mas com pitadas mais comercial, diria, algo mais pop, radiofônico, mas sem soar frívolo, lembrando um pouco de Yes, creio. E fecha com “The Poet” que, sem dúvida, é uma das melhores faixas, trazendo um lindo cruzamento entre prog clássico e neo prog, mostrando a versatilidade do Vermilion Sands, com guitarras tocadas de forma magistral, com potência. Os vocais cada vez mais límpidos traz o operístico ao som da banda.

"The Poet"

Em 1989 o Vermilion Sands é sondado pela famosa gravadora francesa “MUSEA” para a gravação de um álbum, digamos, globalizado, ou seja, com músicas de várias bandas, de vários países. O Vermilion Sands representaria o rock progressivo japonês. O nome do álbum? “7 Days of a Life”, um trabalho conceitual que seria lançado em 1993. É um álbum de bandas de sete países, onde cada uma delas contaria uma história sobre uma vida, com uma analogia de sete dias. O nome da música do Vermilion Sands se chama “The Love in the Cage”. Essa música seria incluída, como bônus track, além de versões ao vivo de “Water Blue”, na reedição deste álbum, feita, exatamente pelo selo Musea Records, em 1999.

"The Love in the Cage"

Mas antes desse lançamento do álbum “7 Days of a Life”, o Vermilion Sands entraria em um hiato, mais precisamente em 1990, isso depois de um belíssimo show que fizeram em Tóquio, em maio. Os integrantes deram prioridade para seus projetos solos e bandas cover. Eles tocaram, tendo Yoko como pilar, em uma banda chamada, já que falei em bandas cover, Renaissence of Dreams, tocando músicas do britânico Renaissance, até 1994. Convém lembrar que o nome da banda, lá pelos anos 1982 até 1985 se chamava pelo sugestivo nome de “Scheherazade”. Porém, antes disso, Yoko Royama, lançaria, em 1991, seu primeiro álbum solo, chamado “Sunny Days”.

"Sunny Days" (1991)

Em 1996 Royama e Yamada retomam apresentações ao vivo do Vermilion Sands com novos integrantes: Hideki Kurosawa, no baixo, Shin Yoshimune, na guitarra, Genta Kudo, ex-baterista do De-Já-Vu. Posteriormente se juntariam a Akihisa Tsuboi, no violino e Yasuyuki Hirose, no baixo, ex-Providence. Mas foram shows esporádicos apenas para relembrar a fase do Vermilion Sands.

Apresentações esporádicas e, logo, um tempo curto, pois entrariam em um novo hiato, principalmente por conta da gestação de Yoko que deu à luz ao seu bebê, em 1997. Infelizmente, em 23 de agosto de 2004, Yoko Royama morreria deixando um pequeno, mas significativo legado pela sua voz e seu amor à música progressiva. Em 2013 seria lançado, claro, sem Yoko, o segundo álbum do Vermilion Sands, “Spirits of the Sun”, que pode ser ouvido aqui, mas sem a chama do primeiro trabalho que definitivamente marcou um período importante da história do rock progressivo japonês.

"Spirits of the Sun" (2013)




A banda:

Yoko Royama nos vocais e flauta

Masahiro Yamada nos teclados

Hisashi Matoba na bateria e guitarra acústica

Kenji Ota no baixo

Takafumi Yamasaki na bateria

Hiroyuki Tanabe na flauta e teclados

 

Faixas:

1 - My Lagan Love

2 - Ashes of the Time

3 - In Your Mind

4 - Coral D - The Cloud Sculptors

5 - Kitamoto

6 - Living in the Shiny Days

7 - The Poet 



Ouça "Water Blue", de 1987, aqui!




































domingo, 2 de abril de 2023

Speed, Glue & Shinki - Eve (1971)

 

Eu sou um apreciador de projetos, desses supergrupos que nascem no rock n’ roll. É a oportunidade de muitos músicos se permitirem ousar em suas carreiras, alçar voos distintos, sob o aspecto sonoro, claro.

E esse conceito de projetos de bandas não são de hoje, embora tenha tido uma ebulição nesses últimos anos. Podemos exemplificar com talvez uma das melhores que surgiram neste universo: o Cream. Seus músicos, quando se juntaram para formá-la, tinham já carreiras razoavelmente estabelecidas e gozavam de certa experiência e credibilidade no show business.

E a que eu falarei hoje vem de um dos maiores mercados consumidores do universo do rock n’ roll: Falo do Japão! Independentemente das questões culturais ou coisa que o valha, o público nipônico sempre apreciou a diversidade que o estilo proporciona: sempre viajaram entre os acordes do prog rock, do hard rock, do heavy rock e a banda que escolhi vem dos empoeirados anos 1970, mas que, com a sonoridade que edificou é perfeitamente cabível, “harmonizável” com as tendências e cenas atuais que estão se estabelecendo em contemporâneos dias. A banda é SPEED, GLUE & SHINKI.

Speed, Glue & Shinki

O Speed, Glue & Shinki, como todas as outras que se enquadram no requisito de supergrupos, foi concebida a partir da dissolução da banda FoodBrain, quando o guitarrista Shinki Chen decidiu debandar da banda após o lançamento do álbum de psych jazz chamado “A Social Gathering”. O cara era conhecido como o “Hendrix japonês” e, evidentemente já gozava de certa credibilidade no meio musical.

Já que Chen era conhecido como um exímio guitarrista naquela época, no início dos anos 1970, claro que teria interesse de algum magnata da música em querer colocá-lo em algum audacioso projeto e não demorou em acontecer. O selo “Atlantic Records” japonesa, com a supervisão do produtor Ikuzo Orita, decide formar uma banda com Chen no front.

Shinki Chen

Embora Shinki Chen fosse uma figura marcada na cena rock japonesa o que uniu o mesmo a Orita foi um trabalho anterior, um álbum solo de Chen chamado “Shinki Chen and Friends” apresentando outros músicos importantes da cena como George Yanagi e Masayoki Kabe. Atualmente esse trabalho é tido como clássico, como “cult” e faz parte da série “Naked Line”, da Universal Music de reedições remasterizadas digitalmente legítimas. E depois desse trabalho Orita assumiria a divisão japonesa da Atlantic Records, acontecendo o convite ao Shinki Chen para a concepção desse projeto.

"Shinki Chen & Friends" (1971)

Então convocaram para a empreitada o companheiro de Chen no seu trabalho solo, o baixista franco-chinês Masayoshi “Glue” Kabe e o baterista filipino Joey “Speed” Smith e assim a banda foi formada em 1970. Cabe uma curiosidade. Smith foi descoberto por Shinki enquanto tocava em um shopping center. Ele atraiu a atenção dos demais músicos pelo talento, claro, na bateria e também por seu visual um tanto quanto “exótico”.

Masayoshi Kabe, antes desse projeto musical, bem como Joey Smith começaram a sua carreira como músicos de rua e bandas pequenas e pouco conhecidas, consumindo, de forma desbravada, anfetaminas e outras drogas psicodélicas.

O nome da banda veio dos apelidos dos seus músicos e reza a lenda que é oriundo também da apreciação e uso de anfetaminas e demais psicotrópicos pelos músicos e talvez faça sentido pois o apelido do baixista Masayoki Kabe, “Glue”, em tradução livre significa “cola”. Inclusive era viciado em “Marusan Pro Bond”, um produto usado em unhas. Eram os anos 1970, os experimentos psicodélicos também se estendiam aos usos das drogas e não apenas às músicas.

Há quem diga que ambos se complementavam, as drogas influenciavam inclusive no processo de composição das músicas e com o Speed, Glue & Shinki não foi diferente, vide o título da primeira faixa do seu primeiro álbum, intitulado “Eve”, de 1971: “Mr. Walking Drugstore Man”, sem contar com guitarras ácidas, lisérgicas e altamente pesada que também seguia basicamente o que se praticava em termos de cena ao redor do mundo na transição das décadas de 1960 e 1970.

“Eve”, alvo do texto de hoje, traz um trabalho extremamente orgânico e visceral de rock psicodélico, com nuances bem evidentes de blues rock e também de um eloquente hard rock e pitadas avant-garde de um heavy rock envolvente e instigante. A impressão que se tem ao ouvi-lo é de um álbum totalmente despretensioso sem floreios e indulgências na sua produção/concepção.

“Eve”, quando lançado, gerou críticas mistas, bem divididas, e as críticas negativas deram conta de um álbum “americanizado”, totalmente descaracterizado, não trazendo nada de novo e com as características tão pesadas e viscerais gerou uma rejeição por ser exatamente pouco ortodoxo. Mas “Eve” é um produto do seu tempo, simplesmente, e não um mais do mesmo, uma réplica e atualmente ganhou o status de desbravadores do estilo no Japão.


O álbum começa com “Mr. Walking Drugstore Man” e revela um estupendo blues rock poderoso, travestido de um visceral hard rock sobre uma bateria trovejante e solta, enquanto os “lamentos” da guitarra dá o tom pesado e arrogante à música, com linhas de baixo extremamente swingantes dentando um rock pesado e indulgente.

"Mr. Walking Drugstore Man"

Segue com “Big Headed Woman” que também imprime um blues distorcido e sujo que entra em uma incrível convergência com o bumbo possante da bateria, sucedendo-se em algo bem desenvolvido, bem coeso mesmo. A guitarra entra com muita lisergia e distorção transformando a faixa em um exibicionismo psicodélico.

"Big Headed Woman"

“Stoned Out of My Mind” é bem peculiar e traz uma versão de proto stoner com a predominância do mais puro e genuíno hard rock setentista. A “cozinha” bem entrosada, guitarra trazendo o tempero do peso e baixo vivo, latente e pulsante traz uma atmosfera subversiva e perigosa.

"Stoned Out of My Mind"

“Ode to the Bad People” é o canto dos cisnes para o hard rock! Batidas pegajosas e pesadas de baixo, guitarra ostensiva e agressiva, com viés lisérgico, mostrando uma banda no seu momento mais poderoso e intenso que flerta no hard psych com maestria, personificando o seu tempo.

"Ode to the Bad People"

“M Glue” traz também o destaque no baixo, com batidas lisérgicas, em um clima extremamente mesmerizante ao ouvinte, com riffs de guitarras pesados, com bateria marcada, mostrando que, por mais que o viés instrumental seja sujo e despretensioso, mostra uma sinergia entre seus músicos, fazendo da sonoridade singular.

“Keep It Cool” é uma verdadeira e beligerante bomba sonora que explode com os solos de guitarra chorões de Chen que entre uma escala e outra vai alternando, mostrando alternâncias rítmicas.

"Keep It Cool"

E fecha com “Someday We’ll All Fall” que inverte totalmente a proposta sonora da banda, com uma versão acústica, uma balada rock que remete a caminhos psicodélicos, entregando ao ouvinte uma viagem sem precedentes.

"Someday We'll All Fall"

Joey Smith voltou para as Filipinas e formou o power trio Juan de La Cruz Band, Masayoshi Kabe ganharia fama com a banda Pink Cloud, enquanto Shinki Chen se aposentou do mundo da música.

A banda gravaria o seu segundo álbum, em 1972, autointitulado. Trouxe também um pouco do peso e da visceralidade do seu antecessor, porém não tão inspirado quanto o debut.  Mas a banda não conseguiu, com os dois trabalhos, atingir êxito comercial, decretando o fim da banda logo após o lançamento do segundo álbum.

"Speed, Glue & Shinki" (1972)

“Eve” é um álbum autodestrutivo, com uma produção crua, nua e totalmente despojada quanto o nome da banda. É animalesco, bárbaro com apenas guitarra, baixo, vocal e bateria, nada mais. A produção é seca, contundente e caótica, tudo isso sob o verniz das drogas, se tornando este trabalho um agente desafiador dos modos e bons costumes, uma música literalmente subversiva. Assim é Speed, Glue & Shinki.


A banda:

Shinki Chen na guitarra

Masayoshi Kabe no baixo

Joey Smith na bateria e vocal

 

Faixas:

1 - Mr. Walking Drugstore Man

2 - Big Headed Woman

3 - Stoned Out of My Mind

4 - Ode to the Bad People

5 - M Glue

6 - Keep It Cool

7 - Someday We'll All Fall Down

 

Speed, Glue & Shinki - "Eve" (1971)


Versão download de "Eve", clique aqui!





































sexta-feira, 3 de junho de 2022

Cosmos Factory - And Old Castle Of Transylvania (1973)

 

Há quem diga que os japoneses são demasiadamente “comportados” para gostarem de rock n’ roll. O maldito caso do estereótipo dando conta de que para apreciar rock tem de ser sujo, mal-encarado, de comportamento “beligerante” e drogado. Coisas de uma sociedade politicamente correta e hipócrita, para variar.

Digo que os japoneses são ávidos por rock, são consumidores natos do estilo! Tanto que podemos corroborar com o tamanho do mercado e a sua importância para tal música, diante dos vários registros ao vivo clássicos que são lançados em terras nipônicas, bem como formatos de álbuns de estúdio que são exclusivamente lançados para o mercado japonês, com bônus tracks, arte gráficas etc.

Muitas e muitas bandas, independentemente do estilo, fazem questão de tocar por lá, sobretudo as bandas de heavy metal e de rock progressivo, a demanda é grande porque a oferta é imensa!

Então não confundamos a coisa com uma questão cultural. É de profundo respeito de seu povo quando está, diante de show, elétrico, intenso, em silêncio, sem se movimentar tanto. Mas essa já não é uma máxima. O Japão é um país diverso, sob todos os aspectos e também, claro, pelo fator comportamental.

Há a disciplina que construiu a sua tradição, mas há também aqueles jovens cosmopolitas que gritam, se esgoelam quando diante de seus ídolos. Esse é o atual Japão: rico pela sua diversidade cultural, mas calcado na sua tradição, que, fielmente seguem, geração após geração.

Mas se há um público ávido e que consomem as bandas internacionais, também possui uma cena prolífica, forte, viva e que atravessa os tempos, as gerações, as décadas entregando grandes e seminais bandas, algumas fazendo sucesso e ultrapassando a barreira geográfica e fazendo certo sucesso em outros países, mas há aquelas grandes bandas obscuras, que fazem ou fizeram pouco sucesso, mas que esquentaram ou esquentam a cena, tendo um público vivo que fazem da cena, clara, plena.

E já que falei da predileção desse povo pelo rock progressivo é claro que há sim grandes bandas da vertente por lá e que, lamentavelmente não gozaram do sucesso comercial, mas que produziram grandes petardos sonoros dignos de audição, mas que, graças as redes sociais e alguns veículos virtuais de comunicação e, claro, de abnegados amantes do prog rock, ganharam o mundo.

E gostaria de falar de uma, em especial, que conheci, quase que ocasionalmente ou diria que em uma de minhas incursões aos garimpos pela grande rede, que de fato me causou um arrebatamento que há tempos não tinha. Falo da banda COSMOS FACTORY.

Não confundir com o clássico álbum da banda norte americana Creedence Clearwater Revival, de 1969, de mesmo nome, mas com uma grande e competente banda nipônica que merece uma audição, merece uma atenção. E para firmar uma máxima de que mencionei mais acima, infelizmente há poucas menções na grande rede, sobre a banda, a sua biografia, tratando-se de músicos pouco conhecidos na cena progressiva mundial, mas tentaremos textualizar cada detalhe de sua história, nada pode passar despercebido quando se fala do Cosmos Factory e de sua curta, mais significativa história discográfica.

A banda foi formada em 1968, originalmente pelo seu tecladista, Tsutomu Izumi, na cidade de Nagoya, sob o nome de “The Silencer”. A banda mudou o nome quando lançaram sem primeiro álbum, em 1973, chamado “An Old Castle of Transylvania”. E esse será o álbum a ser resenhado nesse texto.

Eles tiveram que se mudar para a capital, Tóquio, para tentar realizar seu sonho de gravar um álbum e, com alguma dificuldade, conseguiram chamar a atenção de um empresário que também era um crítico de rock e começaram a trabalhar nas suas primeiras composições que conceberia no “An Old Castle of Transylvania"

A formação da banda neste álbum contou com Tsutomu Izumi (teclados, sintetizador Moog, vocais), Hisashi Mizutani (guitarra, vocais), Toshkazu Taki (baixo, vocais), Kazuo Okamoto (bateria e percussão) e Misao no violino.

Cosmos Factory

Não há como não se encantar com o som multifacetado da banda neste seu primeiro trabalho. Trafegam claro, no rock progressivo, com um forte viés no rock psicodélico mais lisérgico, mais pesado, inclusive, trazendo à lembrança bandas como Vanilla Fudgie, explorando e muito os teclados com muita intensidade como bandas do naipe do Uriah Heep.

Não sou muito adepto às comparações, mas, como se trata de uma banda pouco conhecida, talvez as temíveis comparações possam trazer um norte a quem não conhece o Cosmos Factory.

Esse rock n’ roll diversificado, que traz o peso do hard rock, a complexidade do prog rock e a lisergia do rock psicodélico definitivamente traz ao álbum e a banda algo especial e pouco ortodoxo, fazendo desta uma referência para a cena rock japonesa.

O álbum é inaugurado com a faixa “Soundtrack 1984” com uma introdução linda da “cozinha”, do baixo e da bateria, trazendo a textura caudalosa do mellotron, mostrando uma forte interação instrumental da banda, que completa com os riffs e solos curtos da guitarra.

“Maybe” vem em seguida, pesada, intensa, com o órgão enérgico, forte, vibrante com vocais de excelente qualidade contrastando com o peso dos instrumentais, com seções mais calmas e, logo em seguida, vem a guitarra abrangendo, com sua presença em riffs e solos, todo o conjunto da música. Belíssima faixa!

"Maybe"

“Soft Focus” vem para “quebrar” a sequência de peso e vibe elétrica e enérgica do álbum até o momento: Uma balada protagonizada por harpas e teclados contemplativos e vocais melosos e pausados, corroborando o clima da música.

"Soft Focus"

“Fantastic Mirror” traz o protagonismo nos sons do teclado que faz lembrar um pouco do rock progressivo italiano com uma vibe muito grande do progressivo sinfônico, com aquele tom de dramaticidade.

"Poltergeist" é animada, solar com teclados pulsantes e com bateria marcada e há a presença do violino que rivaliza, de forma salutar, com o órgão trazendo certa complexidade à faixa.

"Poltergeist"

O álbum é finalizado magistralmente com a faixa título, uma verdadeira saga sonora, uma epopeia digna de viajar sem destino, se deixar levar, abrir a mente e voar, voar e voar. “An Old Castle of Transylvania” tem longos 20 minutos de duração e traz uma mistura louca, alucinante de psicodelia e progressivo com grandes construções em sua estrutura melódica e harmônica, com grandes passagens rítmicas, tendo uma textura enérgica e contemplativas, ao mesmo tempo. A interação entre a guitarra e órgão é incrível, onde o primeiro é cortante, pesada e o segundo é suntuoso.

"An Old Castle of Transylvania"

O Cosmos Factory lançou seu segundo trabalho em 1975, depois de alguns singles e lançamentos promocionais, chamado “A Journey with the Cosmos Factory”, mais voltado para o rock progressivo mostrando que, ao longo do tempo, embora curto, desenvolveu sua sonoridade, explorando, buscando novas alternativas sonoras, buscando fugir dos estereótipos.

O primeiro álbum foi relançado em CD pela Coca/Nippon Columbia em 1991 e também relançado em CD pelo selo “Black Rose” na Alemanha. A banda finalizou as suas atividades em 1977 com o lançamento de seu último trabalho chamado “Metal Reflection” já sem a inspiração e criatividade de seus três primeiros álbuns de estúdio.

Definitivamente o Cosmos Factory foi uma das grandes bandas do rock progressivo japonês e que tem em “And Old Castle of Transylvania” como uma obra-prima incontestável, com notável originalidade na cena rock nipônica, mostrando que há potenciais sonoros em toda a parte do mundo, pois não há barreiras para o boa música e o Japão está, sempre esteve na rota das grandes e seminais bandas de rock n’ roll. Altamente recomendado!


A banda:

Tsutomu Izumi nos teclados, mellotron, sintetizadores e vocais

Hirashi Mizutani na guitarra e vocais

Toshikazu Taki no baixo e vocais

Kazuo Okamoto na bateria e percussão

Com:

Misao no violino


Faixas:

1 - Soundtrack 1984

2 - Maybe

3 - Soft Focus

4 - Fantastic Mirror

5 - Poltergeist

6 - An Old Castle of Transylvania




 

 

 

 














 


 






domingo, 7 de junho de 2020

Too Much - Too Much (1971)


Sabe quando você ouve uma banda pela primeira vez e é arrebatado por um sentimento de leveza, um estado puro de catarse? Sua alma levita, parece que sua alma sai do seu corpo e te contempla chegando a conclusão de que não somos apenas um pedaço de corpo orgânico, mas um sistema complexo de sentimentos intangíveis aos olhos, mas de emoções que te injeta adrenalinas, que te deixa em puro êxtase. 

A música tem essa capacidade: te dá o oxigênio, te dá a melhor fase de sua vida, te proporciona prazer, o psicotrópico de que precisamos para seguir em dias turbulentos de tantas incertezas. Por que digo tudo isso? Essa banda que falarei agora, que fará com que eu tenha a difícil, mas prazerosa missão, de textualizar traz uma ebulição de sentimentos e que conheci recentemente em uma busca aleatória ou talvez nem tanto, por bandas obscuras ou relegadas ao ostracismo.

Me arrebatou de tamanha maneira que no último minuto de duração do álbum, em ainda estado de pura letargia, despertei com a seguinte frase: Preciso fazer uma resenha sobre essa banda, sobre este álbum! Repetia incansavelmente: Maravilhoso, ótimo, excelente! 

E, já recuperado dessa avalanche sonora, cá estou aqui, protocolando as minhas emoções. A banda se chama TOO MUCH e vem do Japão, mais uma banda japonesa que me apaixonei perdidamente. De acordo com algumas fontes de pesquisa que reuni para a confecção do meu texto, li que o Too Much era frequentemente chamado de “Black Sabbath japonês”, o que parecia ser uma tendência graças ao que o Sabbath vinha fazendo à época, rompendo paradigmas no início dos anos 1970, mas que, nesse caso, não se parece nem um pouco com a banda inglesa. 

Too Much

O único álbum do Too Much, homônimo, lançado em 1971, tem peso, é um hard rock potente, com guitarras raivosas, cozinha poderosa, mas que para apenas por aí. “Too Much” traz algumas pitadas generosas de blues, progressivo e até instrumentos de sopro e orquestra, isso mesmo, violinos e tudo o mais. 

Um álbum extremamente versátil que absorveu tudo o que se fazia na época e que, claro, estava sendo edificado, como hard rock, prog rock etc. Mas antes de falar do álbum, darei uma pincelada na história do Too Much. 

A banda foi formada na cidade de Kobe, nos arredores do porto da cidade, de onde os membros da banda cresceram ouvindo tudo que o ocidente produzia naquela época sobretudo o psicodelismo que estava em alta como nos Estados Unidos e Inglaterra, por exemplo. 

O guitarrista Junio ​​Nakahara passou o fim dos anos 1960 tocando blues em uma banda chamada The Helpful Soul, uma banda de Quioto, formada em 1968 e que lançou dois álbuns. Mas a banda não estava fazendo muito sucesso, o público não estava se interessando muito então Nakahara decidiu seguir um novo caminho, saindo da banda, com a intenção de criar um projeto mais “rocker”. 


Foi a partir daí que o Too Much nasceu. A inspiração veio quando o The Helpful Soul estava abrindo o show de outra seminal banda japonesa, a então recém-formada Blues Creation que, na turnê do seu primeiro álbum, cuja resenha está aqui para leitura (Blues Creation - The Blues Creation (1969)), tocava em Kyoto e quando Nakahara viu aquilo tudo ficou excitadíssimo decidindo criar a sua nova banda. 

A turnê do Blues Creation se chamava “Too Much”, daí veio a inspiração para o nome da banda de Junio Nakahara. Com a banda formada Nakahara convida o cantor Juni Lush, mudou seu nome para Tsomu Ogawa e trouxe consigo os colegas de escola Hideya Kobayashi, na bateria e Masayuki Aoki no baixo.


Com a banda pronta e afiada foi assinado um contrato com a Atlantic Records, em 1970, nascendo para o mundo o álbum “Too Much” um ano depois. Um verdadeiro hino proto metal com doses de blues e rock progressivo. 

O álbum é inaugurado com a monstruosa “Grease it Out” com um riff pesadão, denso, sujo, lembrando um doom metal arrastado e sombrio. A base da música se faz com riffs de guitarra, fazendo dela um heavy metal de vanguarda sem sombra de dúvida, com um vocal bem forte e limpo. 

"Grease It Out"

“Love That Binds Me” é uma maravilha ao estilo bluesy, a guitarra se comunica, canta, chora aos virtuosos dedilhados de guitarra de Nakahara e do vocal mais grave de Juni. Um som com personalidade e dramaticidade. 

"Love That blinds Me"

“Love is You” traz de volta aos eixos do hard rock com sustentabilidade dos riffs de guitarra e vocal abafado e que no meio da música ganha velocidade, mais agressividade nos remetendo aos tempos que viria com o heavy metal oitentista. “Reminiscence” traz um pouco de melancolia ao álbum, uma linda e sombria balada com um belíssimo e desconcertante solo de guitarra. Viagem garantida! 

"Reminiscence"

“I Shall Be Released” continua na proposta de balada, com uma pegada mais country com o destaque para o vocal bonito e limpo de Juni Lusch e a guitarra solando de Nakahara que quase fala de tão linda. “Gonna Take You” faz o hard rock voltar a cena com, mais uma vez, riffs capitaneando, trazendo protagonismo a faixa, com destaque para a bateria forte e marcada de Aoki. Faixa vibrante e avassaladora! 

"Gonna Take You"

E o fim e algo simplesmente apoteótico com “Song For My Lady (Now I Found)”. A faixa mais progressiva do álbum que começa com a flauta e o dedilhado delicado do violão com a orquestra e violino ao fundo e com o vocal de Juni por cima com tanta intensidade e drama, fazendo o ouvinte se arrepiar dos pés a cabeça. E tudo vai ficando mais encorpado, os instrumentos em uma simbiose perfeita com a orquestra, os violinos, tudo conspira a favor de emoções que vão ficando á tona. Espetacular! 

"Song For My Lady (Now I Found)"

O estilo afro e descolado de Juni Lusch chamou a atenção dos empresários da Atlantic Records que viu no vocalista uma fonte de ganhar dinheiro e com potencial de sucesso, fazendo com que, mesmo que indiretamente (ou não), dissociasse este da banda, sendo os demais uma sombra do cantor, sendo esse o começo do fim da banda que encerrou as suas atividades, logo após o lançamento desse magnífico álbum que certamente está entre os melhores eu ouvi nos últimos anos.


A banda:

Junio Nakahara (Tsomu Ogawa) na guitarra
Juni Lusch no vocal
Hideya Kobayashi na bateria
Masayuki Aoki no baixo

Com:

Mickie Yoshino no piano e teclados
Isao Tomita no arranjo orquestral e instrumentos de sopro (flauta)

Faixas:

1 - Grease It Out
2 - Love That Binds Me
3 - Love Is You
4 - Reminiscence
5 - I Shall Be Released (Bob Dylan)
6 - Gonna Take You
7 - Song For My Lady




"Too Mucho" (1971)