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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Baumstam - On Tour (1975)

 

Costumamos atribuir ao krautrock como a cena rock mais emblemática da Alemanha. E essa informação se confirma dado o seu pioneirismo, a sua importância, a sua representatividade não só para o aspecto musical, mas para a contracultura germânica que ainda recolhia seus cacos da Segunda Grande Guerra Mundial.

O Kraut, embora tenha sido um nome pejorativo dado pela imprensa britânica trouxe bandas do naipe de Can, Kraftwerk, Tangerine Dream, Amon Duul II, entre tantas outras que tingiram a cena de um experimentalismo como nenhuma outra o fez, com uma simplicidade minimalista que trazia à tona uma complexidade de interpretação a sons, ruídos, entre outras viagens lisérgicas e ácidas que podemos comparar a versão alemã da psicodelia que estava em voga no mundo na segunda metade dos anos 1960.

O Krautrock teve seu ápice entre os anos de 1967 e 1972, aproximadamente, onde os grandes álbuns do estilo se eternizaram, mas muitas bandas trafegaram no ostracismo, na obscuridade flertando com outras sonoridades que ia do jazz rock, que também traziam doses cavalares de jam section, com muitas experimentações a versões do rock mais pesadas, inclusive e que não tiveram tanto acesso aos tocadores de som dos aficionados pelo rock germânico.

Claro que essas bandas, como disse, caíram no mais profundo esquecimento ou pelo menos grande parte delas e sem sombra de dúvida trouxeram músicas significativas para a história, para os primórdios do rock alemão e podemos, de imediato, citar bandas como Birth Control, por exemplo, que até hoje, com mais de cinquenta anos de estrada, grava material inédito para o mundo testemunhar que o kraut não se resume a experimentalismos e viagens lisérgicas e ácidas.

Temos o jazz rock, temos o hard rock que surgiram, mais ou menos, nesse mesmo período em que o kraut reinou na Alemanha e que corrobora a diversidade sonora que brotou neste país na transição dos anos 1960 para os anos 1970. E a banda que eu falarei hoje surgiu um pouco depois dessa fase mais prolífica do kraut e seu minimalismo, mas trouxe consigo a pedra fundamental da música pesada na Alemanha. Falo do BAUMSTAM.

Baumstam

Certamente você, meu bom amigo leitor, nunca tenha ouvido falar dessa banda em sua vida ou conheça, porém nunca tenha visto ou ouvido, em uma conversa de amigos apreciadores do rock setentista, o nome dessa banda em algum momento. É claro! A banda é pouco conhecida e tida pelos especialistas como muito rara. Sendo ou não rara, o fato é que o Baumstam não figura entre os grandes do rock alemão dos anos 1960 ou 1970, mas tem uma relevância inominável quando se fala de pioneirismo do hard rock germânico. Como pode? Parece estranho, mas sim, ela foi importante.

E como prova irrefutável apresento o seu debut, o avassalador “On Tour”, lançado no longínquo ano de 1975, alvo de discussão no meu texto de hoje. Mas antes tentarei falar um pouco da história da banda, mas, por questões óbvias, será um tanto quanto difícil, pois a banda não gozava de tanta popularidade e infelizmente na grande rede poucas são as referências sobre ela, mas tentaremos trazer um pouco de suas raízes.

A história do Baumstam começa aqui com uma conhecida letra de Herbert Grönemeyer, que diz:

“...Nas profundezas do oeste, onde o sol está se pondo.”

Nas profundezas do oeste da Alemanha fica a região do Ruhr. E nas agitações dos fornos das minas, nas torres sinuosas das fábricas e pequenos assentamentos de trabalhadores entre Bochum e Dortmund fica a cidade de Witten, onde a banda foi formada lá pelo ano de 1972.

Como disse o início dos anos 1970 tínhamos uma hecatombe de bandas de krautrock, com sonoridades calcadas no órgão, ruídos eletrônicos e, por vezes, guitarras lisérgicas e pesadas e assim também aconteceu em Witten. E por lá os ex-amigos de escola Ulrich Klawitter e Michael Lobbe nas guitarras, Gerd Stracke na bateria e Michael Willecke no baixo fundaram uma banda, o Baumstam, com apenas um “M” no final.

Logo quando o Baumstam foi formado começou a tocar em casas de shows razoavelmente grandes e em shows ao ar livre e a fazer também turnês conjuntas com bandas como Franz K. e Faithful Breath. Sua sonoridade era pesada, rústica, garageira tendo a guitarra dupla, a guitarra fuzz como o cerne dessa sonoridade que à época não era comum, não era cotidiano e que causou entusiasmo entre os fãs nos shows, por isso que logo na sua formação recebeu muitas ofertas de shows importantes e grandes, se tornando inovador para a história do hard rock alemão, diria para o rock e todas as suas vertentes naquele país.

Mas como acontece com a esmagadora maioria das bandas o Baumstam teve baixas, teve saídas de integrantes e o primeiro a abandonar o barco foi Michael Willecke que deixou a banda em 1974, sendo substituído por Volker Wobbe, no baixo. A bateria foi assumida pelo Gerhard (Gerd) Meyer von Stracke.

Depois de algum tempo de formada, cerca de três anos finalmente a hora do Baumstam de lançar oficialmente um álbum novo havia chegado e o anos era 1975. A banda se reuniria Knöterich Studio de Lothar Simmsheuser em Witten-Annen e as nove faixas para o LP foram gravadas, pasmem, em apenas um final de semana, afinal, os jovens músicos não tinham grana para alugar, por um longo tempo, um estúdio. Um pedal de distorção “Schaller” e uma velha guitarra “Framus Deluxe”, o som da banda estava pronto.

Eu não sou um profundo conhecedor dos instrumentos musicais, da sua parte técnica, mas, optei por colocar essa informação no meu texto, após as minhas pesquisas, na web, sobre a banda, para enfatizar a essência da sonoridade do Baumstam e a importância que esta teve para a história do rock alemão nos anos 1970.

O álbum, que se chamaria “On Tour”, foi distribuído em seu próprio selo BMF, como o número de catálogo BS 6232 855. Atualmente um vinil original de “On Tour” pode ser disputado a tapas por colecionadores de raridades e pode chegar a um valor na bagatela de mais 600 euros! Sim, prezados leitores, um álbum de caráter cult e que hoje é uma verdadeira pérola, um ouro raro e caro para se adquirir.

“On Tour” centraliza sua performance nas suas notas de guitarras distorcidas, com um toque áspero, sujo, garageiro, com um som nem um pouco polido e que pode agredir aos ouvidos que preza por um som mais limpo e sofisticado. Para muitos poderia ser considerado como um álbum psicodélico e pessoalmente não discordo, mas o psych, com guitarras lisérgicas, é um tempero ao som pesado calcado no velho hard rock e que poderia, ainda, remeter ao som mais atual que é o stoner rock. Guitarras distorcidas, sujas, ásperas, sem dúvidas traz à mente o stoner, o doom metal tão em voga nos dias de hoje. O Baumstam definitivamente foi singular no seu tempo, estando muito a frente dele. O som curto era bem estruturado, fazendo das faixas de “On Tour” extremamente atraente. Então vamos a elas?

O álbum é inaugurado com a faixa título, “On Tour” que já entrega a guitarra distorcida e lisérgica, cheia de peso e groove. Sim, ela tem um groove forte e torna-se inevitável que faça com que você balance a cabeça freneticamente. A interação entre as duas guitarras é incrível, significativa. O vocal, rouco e áspero, se encaixa perfeitamente com o som. Essa é a porta de entrada para o “mundo” de “On Tour” e o Baumstam.

"On Tour"

Segue com “Lucky Strike” que, se passasse despercebido, poderia ser considerada como uma sequência se não fosse pela parte do verso mais silencioso. Mas a sonoridade, de alguma forma, se mantém na proposta da faixa anterior, com o peso das guitarras duplas, com solos sujos e pesados, um baixo mais pulsante e uma bateria, igualmente pesada, porém marcada.

"Lucky Strike"

“Hold Me” foge um pouco à regra das faixas iniciais e começa de forma mais acústica e até calma. Ela é tocada em um ritmo mais lento e apenas na parte do meio surge a guitarra mais distorcida e rápida, dando-lhe um pouco mais de peso. A faixa traz ainda uma “pitada” mais de blues, mais dramática a música. Até o vocal fica um tanto quanto melódico.

"Hold Me"

A próxima faixa é “Jazz Break” e tem relativamente pouco a ver com jazz. Começa com uma pegada meio groove, mas aumenta o tom no seu decorrer para um típico krautrock, baseado em uma guitarra solo distorcida e pesada, calcada em tonalidades psicodélicas.

"Jazz Break"

Semelhante à faixa título, a próxima música, “Dusty Road”, atravessa os canais auditivos e faz também as cabeças tremerem freneticamente por todo o tempo. É pesada, é intensa, é rústica, é poderosa. A faixa ao vivo “Girl I Want To Stay Into Your Fire” segue a sua jornada na sua crueza sem filtros, pesada, intensa, sem cortes, cheia de groove e guitarras fuzz e lisérgicas.

"Dusty Roads" (Live)

“Last Letter” tem o violão que toca os acordes rítmicos e a guitarra elétrica que vibra no topo com o vocal principal que soa melancólico. Uma mudança até bem-vinda em relação às faixas que predomina com o peso e a aspereza.

"Last Letter"

Mas tudo volta a ficar mais rápido com “Fifteen Years Old Mary”, onde o “fuzz” age novamente e de forma impiedosa, a guitarra dupla, cheia de distorção, ganha vida novamente nessa faixa. Percebe-se, ouso dizer, que essa faixa se adequaria a um heavy metal de vanguarda, um proto metal respeitável. A banda mostra o seu pioneirismo nessa faixa.

"Fifteen Years Old Mary"

E “On Tour” finalmente é fechado com a faixa “He's A Liar” e traz algo atípico, até então, para o álbum, uma pegada mais progressiva, mas sem deixar de lado o seu peso, os riffs de guitarra sujos e despretensiosos. Mas aqui você ouve um Baumstam mais sofisticado, mais arrojado, mas ainda assim, hard e poderoso.

Após o lançamento de “On Tour” o Baumstam não teve falta de oportunidades de se apresentar. Muitas ofertas de shows surgiram e a banda continua a fazer shows em casas importantes. A bela produção do LP fez com que as grandes gravadoras mantivessem seus radares ligados para gravar a banda e divulgar “On Tour” com uma turnê maior, com mais estrutura que a banda merecia. Mas

Mas os músicos não conseguiram chegar a um acordo sobre um contrato de gravação oferecido pela Deutsche Grammophon, motivando a separação do Baumstam em 1977 e o capítulo da história inicial da banda se fecharia de forma precoce, porém não em definitivo. Para Ulrich Klawitter e Gerd Stracke, no entanto, a música não havia acabado naquela época, eles continuaram a tocar, independentemente um do outro, nas bandas de Witten, tocando localmente.

E o reencontro do Baumstam se deu graças ao relançamento de “On Tour”, em 2004, pelo selo “Amber Soundroom”. Os velhos amigos de banda se reencontrariam e juntos redescobriram que poderiam tocar novamente. Grande parte da velha magia que os moviam no passado ainda estava viva, flamejando e que necessitava ser reacendida por música.

E eles não se resumiram a apenas divulgar o relançamento de seu debut e gravaram o segundo álbum de inéditas com o sugestivo nome de “Dreams of Yesterday”, em 2005. A formação de Baumstam, para este álbum, trazia Klawitter, Strake e Volker Wobbe. Para Michael Lobbe, o filho de Ulli, Adrian "Adi" Klawitter na guitarra e teclados, e Anna Weigand nos vocais e flauta se juntaram à banda. Como 30 anos antes, o engenheiro de gravação e proprietário do estúdio do Fanton Studios envolvido era o conhecido Lothar Simmsheuser.


"Dreams of Yesterday" (2004)

O até então novo álbum, do próprio selo Schöne Töne, traz a marca registrada do Baumstam e com esse trabalho surgiram shows por toda a Alemanha e até a França. Anna deixaria o Baumstam em 2006, mas mesmo com essa baixa, a banda ganharia e muito com a adição de Adi Klawitter que renovou o som da banda trazendo novas influências, de modo que a próxima gravação já estaria prevista para 2007.

“Moment”, terceiro álbum do Baumstam, ganharia luz em 2007 e novamente dois anos depois um álbum ao vivo seria adicionado a sua discografia, oriunda da turnê de nome “Dusty Roads”, gravada em junho de 2009 no WerkStadt em Witten e lançada sob o mesmo nome de Moment e Dreams of Yesterday pelo selo Schöne Töne. A propósito clique aqui para ver algumas fotos da turnê do Baumstam no ano de 2008.

"Moment" (2007)

Em 2012, o aniversário de quarenta anos da banda, precisava contar, em tom de comemoração, com um novo trabalho de estúdio para homenagear o aniversário, mas as baixas aconteceriam. Volker Wobbe foi substituído por Jens Gubert no baixo e Rex Dehnhardt se juntou a Baumstam nos teclados. O trabalho de aniversário foi intitulado com a equação 72 – 12 = 40. O significado por trás disso é simplesmente ... 1972 a 2012 = 40 anos de Baumstam.

O trabalho foi lançado pelo selo Green Tree, que já havia sido relançado várias vezes na turnê, e contém onze novas músicas. A turnê do 40º aniversário levou Baumstam por várias cidades da Alemanha. Era o Baumstam no seu melhor lugar, no palco, tocando magistralmente ao vivo.

No início de 2014, Gerd Stracke deixou a banda, de modo que outra mudança de formação foi necessária. Adi Klawitter agora assumiu a bateria e Baumstam continuou como um quarteto desde então. As mudanças na sua formação foram uma constante desde os seus primórdios, mas sempre tiveram a capacidade de manter intacta a sua sonoridade, mantendo-se extremamente fiel e consolidada.

“On Tour” tiveram relançamentos antes de 2004 que motivou a reunião de seus músicos. E isso foi ainda nos anos 1990, com a primeira, no formato CD, em 1990 e em 1994 pela CRC Records. Tais relançamentos, sobretudo as do formato em vinil, em LP, foram em tiragens bem limitadas fomentando o quesito de raridade desse trabalho, sendo essas cópias atingindo os três dígitos de tão caro, mas disputado a tapas pelos colecionadores de vinis.

A banda sempre esteve à margem da popularidade, trafegou nos submundos do rock, esteve longe do glamour e mesmo citada em alguns períodos de rock como uma referência para a música pesada na Alemanha, é pouco lembrada pelos fãs. Mas até os dias de hoje as músicas de “On Tour” ainda são tocadas em algumas rádios dos Estados Unidos, claro, de música underground e é tida, com alguma razão, como um dos pilares do stoner rock, da música pesada alemã.





A banda:

Ulrich Klawitter na guitarra solo, vocais

Michael Lobbe na guitarra acústica, 2ª guitarra elétrica

Volker Wobbe no baixo

Gerhardt Meyer na bateria, percussão

 

Faixas:

1 - On Tour

2 - Lucky Strike

3 - Hold Me

4 - Jazz Break

5 - Dusty Roads

6 - Girl I Want To Stay Into Your Fire

7 - Last Letter

8 - Fifteen Years Old Mary

9 - He's A Liar



"On Tour - Versão original" (1975)


"On Tour - Versão estendida" (1975)



 


 












 








 






 


 




sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Valhalla - Valhalla (1969)

 

1969 foi o auge da psicodelia com o Woodstock, um festival de música que afirmou não só beat e a lisergia do rock n’ roll, mas um comportamento de uma população, sobretudo jovem, que vislumbrava a paz e o amor e a busca do desprendimento do conservadorismo que permeava na sociedade da época. Mas a horrenda guerra do Vietnã era a pauta de algumas bandas famosas da época. Todos ou grande parte eram contra, achavam uma aberração e de fato o era.

Era a liberdade, era o hipismo. E a música, bem como as drogas orgânicas e industrializadas, ajudava ou personificavam tal fenômeno sociológico, eram as portas da percepção abertas para sensações transcendentais. Na música, nas bandas de rock n’ roll, predominavam o experimentalismo, as improvisações, as músicas lisérgicas dançantes que hipnotizavam os expectadores ávidos por experiências psicodélicas.

Algumas gozavam de certo peso na sonoridade como o Experience de Hendrix, o Cream, o Vanilla Fudge, Yardbirds etc, mas tinham muito do psicodelismo pujante na época ainda em suas músicas. Contudo, ainda nessa época, tínhamos bandas que ousavam e causavam certo furor pelo fato de tocar mais pesado, de forma mais visceral, mais direta, tais como exemplos tinham Led Zeppelin, Grand Funk Railroad, Blue Cheer, Black Sabbath, The Stooges, entre outras bandas.

Essas bandas foram as primeiras desbravadoras do embrionário hard rock que no final da década de 1960 e início dos anos 1970, onde eclodiu uma grande quantidade de bandas que passaram a se tornar referência para o estilo, dando fim definitivo ao “flower power”.

Mas tivemos outras bandas que facilmente podem ser inseridas neste rol de baluartes do hard rock, que executava um rock com temática mais pesada e que infelizmente não teve os holofotes para difundir a sua música e colher os louros do pioneirismo, mas que, graças a abnegados como nós, amantes incondicionais do estilo e ferramentas como a internet, trazem à luz as bandas que caíram na implacável malha do esquecimento, nos porões esquecidos e obscuros do rock n’ roll.

E diante de uma quantidade razoável de bandas, conheci uma que, a primeira audição, me gerou uma completa surpresa positiva mesclada a um espanto por uma sonoridade arrojada e revolucionária no longínquo ano de 1969. Falo de uma banda chamada VALHALLA e seu único álbum lançado, de nome “Valhalla”.

O Valhalla foi uma banda norte americana que fazia uma mescla de hard rock ácido e visceral com o uso de hammond. Em alguns momentos fica muito orquestral e até sinfônico e até passagens jazzísticas, com pitadas progressivas. Era uma época de transição, ou seja, do psicodelismo para o rock pesado, mas o Valhalla já mostrava uma considerável queda pelo peso, pelo heavy rock e lembra um pouco o começo do Deep Purple e também o Uriah Heep.

E falando em começo o Valhalla, como tantas outras bandas, das famosas e obscuras, comercialmente falando, tinham os porões, as garagens, com o mínimo de estrutura para tocar os seus primeiros acordes. Não tiveram sessões em estúdios ou estruturas adequadas, eram espaços ínfimos, pequenos e muitas vezes nas casas dos pais, onde era o terror da vizinhança pouco simpática a uma sonoridade, digamos, pouco ortodoxa.

Eram muito jovens quando formaram o Valhalla, nunca tinham tocado em outras bandas anteriormente, em Long Island, apesar de ter alguma cena rock nessa região. E tudo girava em uma mentalidade antiautoritária, as agitações civis estimulavam o surgimento de bandas, de jovens que queriam expressar as suas insatisfações com o status quo pela arte, pela música e claro não foi diferente com os meninos do Valhalla.

Mas eram tempos difíceis para as bandas que pouco tinha no que se refere a oportunidades para gravar e difundir a sua música. Mas o selo “United Artists” contatou o tecladista, vocalista e pianista da banda, Mark Mangold, oferecendo um contrato ao Valhalla, após ter visto a banda tocar em um clube. A banda era forte, era visceral ao vivo e certamente colaborou para a gravadora convoca-los para a gravação de seu único álbum, “homônimo”, em 1969.

Mesmo com um contrato debaixo do braço a banda, formada por Mangold nos teclados, vocal e piano, Rick Ambrose no baixo e vocal, Dom Krantz na guitarra, Eddie Livingston na bateria e Bob Huling no vocal e percussão, teve dificuldades para conceber seu álbum, afinal pouca verba foi liberada para os caras trabalharem e entregarem um álbum com uma qualidade na sua produção.

A banda, muito jovem e pouco rodada no show bussiness, teve que contar inteiramente com o seu produtor, acontecendo tudo muito rápido, ou seja, uma ou talvez duas tomadas no máximo, basicamente sem overdubs. O álbum foi feito na “raça”! Tanto que se nota, na mixagem, a bateria um pouco baixa, mas que não comprometeu no resultado final, muito pelo contrário.

Nunca se soube exatamente quantas cópias foram feitas para este álbum, possivelmente poucas cópias o que infelizmente “ajudou” para a banda não conseguir êxito comercial. A capa do disco, um navio viking, que queima e naufraga, revela com força o nome da banda. Valhala, na mitologia escandinava, era o palácio onde as almas dos guerreiros mortos em combate eram recebidas para servir ao deus Odin. Era uma espécie de santuário onde só entravam os mortos com honras. Era o paganismo nórdico a favor do rock n’ roll, daí se explica a sua essência. O nome do artista que concebeu a arte gráfica era Remo Bramanti.

Quando o álbum foi lançado o Valhalla não fez grandiosas turnês, foram apenas apresentações locais, basicamente em faculdades, clubes e alguns poucos festivais pelos Estados Unidos. Era desejo de a banda divulgar o seu trabalho novo, até então, pela Europa, o que nunca aconteceu. Mas a banda conquistou alguma fama na região onde foi formada e arredores, graças as suas explosivas apresentações.

Na concepção da criação, todas as faixas foram compostas, foram criadas no piano com alguma improvisação ou em ensaios e grande parte dessas músicas tiveram inspiração em posturas anti-guerra ou questões comportamentais. Era uma época de descoberta, sombria, então formas de pensar velhas e antiquadas estavam na “pauta” dos jovens do Valhalla. Tudo isso era inspiração para compor e não tinha como fugir daquelas “tendências”.

“Valhalla” trazia a potência e o vigor do hard rock, mesclado a um proto prog, algo como um progressivo sinfônico graças a uma orquestra que ajudou no processo de composição e concepção do álbum, com músicas repleta de mudanças de ritmo e melodias complexas, mas muito orgânicas, cheias de vivacidade e visceralidade.

E ele é inaugurado com a faixa “Hard Times” que traz uma fusão avassaladora de riffs de guitarra e teclados frenéticos, as misturas de proto metal e rock psicodélico são evidentes, com guitarras pesados e vocais ásperos e poderosos complementados pelo hammond.

"Hard Times"

“Conceit” começa mais devagar e suave, mas gradualmente se desenvolve, tornando-se uma faixa psicodélica mais pesada e fantástica no final. A melodia dos versos é cativante!

"Ela levou uma vida protegida desde o amor de cachorro para ser minha esposa"!

O solo de guitarra no fim da faixa assume contornos de distorção e com efeitos de “wah-wah” incríveis.

"Conceit"

O peso das duas faixas anteriores desaparece com a linda balada “Ladies in Waiting”, a faixa mais lenta do álbum e trabalhada lindamente no piano. A melodia é delicada e o vocal é excelente nesta faixa. A letra provavelmente não seria tão popular nos dias de hoje:

"Mãe de nada, os frutos do seu ventre foram em vão."

"Ladies in Wainting"

“I’m Not Askin” traz o estilo psicodélico ácido e pesado e fica um pouco mais progressivo em alguns momentos, com uma seção estendida de solo de guitarra avassaladora e um pouco também com a bateria, tendo a textura do hammond que traz a “cereja” do bolo. Não podemos deixar de destacar a força pulsante do baixo que trouxe mais peso a faixa. Percebi também uma levada bluesy nesta música, além do vocal gritado e rasgado. Lindo!

"I'm not Askin"

“Deacon” é uma música tipicamente “flower power”, com a orquestra como pano de fundo trazendo a noção de algo voltado para o proto prog, talvez um progressivo sinfônico.

"Deacon"

“Heads are Free” traz aquela sonoridade meio psicodélica, resquício de rock lisérgico, um pouco comercial e acessível, traz também um limpo e belo solo de guitarra. Lembra um pouco The Doors.

"Heads are Free"

“Roof Top Man” é um espetáculo à parte. Introdução jazzística na bateria, um vocal blueseiro e uma pegada hard faz dessa música uma das melhores do álbum, sem dúvida. Traz também uma guitarra “fuzz” lembrando os primórdios do Iron Butterfly.

"Roof Top Man"

Em seguida tem a faixa "JBT" que significa algo como "July Building Thunderstorm" ou “formação de tempestades de julho”. É uma música mais suave que descreve poeticamente uma construção e uma tempestade que se aproxima. Começa com uma guitarra limpa e um som de órgão mais suave, mas perto do final muda um pouco.

"JBT"

“Conversation” também pega leve, como a faixa “Deacon”, se revelando uma linda balada com a predominância do piano dando-lhe a camada necessária para a música.

"Conversation"

O álbum fecha com “Overseas Symphony” que é um tanto quanto épico trazendo a combinação de heavy psych com a orquestra. A música com pouco menos de seis minutos e meio se revela complexa e rica, cheia de mudanças rítmicas com solos de guitarras lindas, vocais emotivos e de grande alcance e transições com uma leve e doce flauta, aquela faixa extravagante entre peso e prog rock.

"Overseas Symphony"

O único membro do Valhalla que teve uma carreira musical mais longeva foi o tecladista Mark Mangold que foi, após o fim do Valhalla, foi para o American Tears e lá ajudou a banda a gravar três álbuns de estúdio, além de ter gravado alguns trabalhos solo.

O Valhalla lamentavelmente não durou muito tempo, mas deixou uma marca indelével em um período de grandes transições para o rock n’ roll onde esta música conheceria, na virada dos anos 1960 para os anos 1970, grandes vertentes como hard rock, rock progressivo e que estavam impressos na música da banda.

Um hard potente, verdadeiros petardos de guitarra e teclados caóticos, vocais ao estilo heavy rock... Um álbum que, embora esteja nos porões do rock, certamente, ao ouvi-lo, você logo chegará a uma óbvia conclusão: É uma referência para uma toda uma cena que surgiria forte na década de 1970 e 1980.



A banda:

Rick Ambrose no baixo, vocais

Bob Huling na percussão, vocais

Don Krantz na guitarra

Eddie Livingston na bateria

Mark Mangold nos teclados, vocais

 

Faixas:

1 - Hard Times

2 - Conceit

3. Ladies in Waiting

4 - I'm Not Askin'

5 - Deacon

6 - Heads Are Free

7 - Rooftop Man

8 - JBT

9 - Conversation

10 - Overseas Symphony




"Valhala" (1969)



 





 


























 


 




quarta-feira, 20 de maio de 2020

Writing on the Wall - Power of the Picts (1969)


E tudo era escuro, nada existia, até que se fez a explosão e tudo se criou, nasceu, a vida surgiu. Parece algo que já foi lido em algum lugar, uma cópia ou ainda algo relacionado à ciência do universo, a teoria do big bang. Bem, não nego que a lembrança veio da grande explosão. 

Foi o que imediatamente lembrei para falar de uma banda que, embora tenha surgido em épocas por mim não vividas, certamente, com o seu avassalador som, a sua música vanguardista nos longínquos anos 1960 para 1970, pode ser comparada a uma explosão que poderia ter varrido do mapa, se não fosse o seu auge, em pleno 1969, a cena do “paz e amor”, do “Flower Power”. 

É inacreditável como uma banda pudesse ser tão arrojada, corajosa e densamente perigosa o bastante para ameaçar, com toda a sua virilidade sonora, o status quo musical vigente à época, edificando um estilo, construindo um gênero, uma nova concepção sonora, uma nova perspectiva de encarar e ouvir o rock n’ roll. 

Falo da excelente banda escosesa WRITING ON THE WALL, que lançou um verdadeiro petardo sonoro, uma ode ao peso, aos primórdios da música pesada, a gênese do hard rock se fez presente, o heavy metal de vanguarda ditou a inspiração, a referência, independente se é ou não conhecida, obscura ou consagrada. 


O álbum “Power of the Picts”, de 1969, sintetiza, em notas musicais, tudo isso. Uma música que se comunica facilmente com qualquer época, qualquer geração, é atemporal, mesmo que denote algumas típicas características do ano a qual fora lançado, mas que certamente, em uma audição livre de pré-conceitos, fará com que balance freneticamente as cabeças ao som agressivo e denso do Writing on the Wall. 


A banda, como disse, surgiu na cidade de Edimburgo, na Escócia, em 1966 e foi fundada pela vocalista Linnie Paterson, o guitarrista Willy Finlayson, o baixista Jake Scott, o baterista Jimmy Hush e o tecladista Bill Scott, mas para ganhar mais popularidade, ter uma oportunidade, foi para Londres. 


Tinha o nome “The Jury” e tinha como base sonora a soul music, mas logo mudou o nome para “Writing on the Wall”, em 1968, bem como a sua vertente musical, talvez pela pequena, mas substanciosa cena pesada que existia em Londres a começar pelo Black Sabbath, Led Zeppelin, Cream, Deep Purple entre outras mais obscuras. 

A banda logo ganhou alguma notoriedade principalmente pelo seu estilo teatral e sonoridade pesada e agressiva. Ainda não tinha gravado o seu álbum oficialmente, mas continuava a fazer seus shows, sendo uma atração bem popular em um clube londrino chamado “London's Middle Earth Club”. 

O gerente do local e que passou a ser o gerente da banda, Brian Waldman, além de ter sido o responsável pela mudança do nome da banda, também foi responsável pela sua residência no clube onde frequentemente tocavam. 

A banda ganhou a reputação infame de assustadora e que tocava pesado e também violentamente, beligerante. Porém, em 1968, o famoso DJ, radialista, crítico musical e jornalista John Peel ficou impressionado com o som da banda quando esta gravou algumas músicas na BBC de Londres. 

Foi a catapulta que o Writing on the Wall necessitava para que o gerente do Middle Earth Club, Brian Waldman, que também tinha um pequeno selo também chamado Middle Earth, gravar o primeiro álbum da banda, “Power of the Picts”, no ano seguinte, em 1969.


Logo o Writing on the Wall se tornaria a banda principal do clube ganhando asas e ganhando relativa fama na Inglaterra, abrindo shows para Ten Years After e estreando no lendário Marquee Club, abrindo shows para o Wisbone Ash. 

A banda tinha a seguinte formação quando lançou “Power of the Picts”: Willy Finlayson na guitarra e vocal, Alby Greenhalg nos instrumentos de sopro, Jimmy Hush na bateria, Billy T. Scott nos teclados e Jake Scott no baixo e vocal. 

O Writing on the Wall, com o seu álbum debaixo dos braços, intensificou o seu apelo visual, com muita teatralidade, com os integrantes vestidos de sumo sacerdotes, caçadores de bruxas etc, mas não conseguia ter as suas músicas tocadas nas rádios e o argumento era óbvio: som pesado e pouco acessível. Ganhou um mundo marginalizado. “Power of the Picts” conta com um avassalador hard rock, com pitadas generosas de blues, psych, muita lisergia, um verdadeiro acid rock

O álbum começa com “It Came on a Sunday” com um duelo sensacional de teclado e riffs poderosos de guitarra com uma levada meio blues rock e um vocal sombrio e imperioso que lembra, bem como a faixa, um pouco o baixista e vocalista Jack Bruce e o seu Cream.
 
"It Came on a Sunday"

“Mrs Coopers Pie” vem pesada e alternando entre o sombrio patrocinado pelo teclado e solos animados de guitarra, uma música versátil. “Ladybird” é praticamente a sequência e tem o destaque frenético dos teclados e um hard bem cadenciado.

"Ladybird"

Até que surge uma das melhores e maiores, com oito minutos de duração, faixas do álbum: “Aries”. Um som sombrio, envolto em uma atmosfera densa com bateria batendo forte, teclado alto e altivo, riffs de guitarra pegajosos trazendo à tona um heavy metal vanguardista e muito, muito peso e agressividade. 

"Aries"

“Bogeyman” começa engraçada com a gaita de fole, instrumento típico de seu país, a Escócia, mas logo irrompe em um hard rock pesado e sem piedade! “Shadow of Man” começa introspectiva, ameaçadora, com um teclado sombrio e bateria leve, mas depois vem o riff metálico de guitarra, digno de qualquer aprovação de headbanger, com um hard mais psicodélico. 

"Shadow of Man" (Live)

“Taskers Successor” traz um pouco do beat e psicodelismo lisérgico dos anos 1960, mas não se enganem da ausência da batida forte também. “Hill of Dreams” traz uma balada meio folk, ao estilo Bob Dylan, mas com força, intensidade. 

"Hill of Dreams"

E fecha com “Virginia Waters” com mais um duelo entre guitarra e teclado, que, além do peso, traz velocidade, um típico heavy metal oitentista, com um vocal meio desleixado e debochado bem interessante, diria engraçado. 

“Power of the Picts” não teve sucesso fora da Escócia, a ida à Inglaterra não ajudou muito nesse sentido. Mas enquanto faziam suas apresentações, gravava músicas novas ocasionalmente, unindo, até 1973, material suficiente para gravar um novo álbum o que aconteceu, um ano antes, 1972, mas não foi lançado à época, bem como um terceiro também, mas que teve o mesmo triste fim. 

A banda se desiludiu e com o roubo de seus equipamentos causou o fim das suas atividades em 1973. Algumas compilações e reedições aconteceram desse material não lançado, mas carecem de legitimidade. 

O debut, “Power of the Picts” foi relançado em 2007 pela Orc Records com material bônus, incluindo boa parte do material de estúdio não lançado anteriormente. A vocalista Linnie Paterson foi para o Beggar's Opera, o guitarrista Willy Finlayson passou a trabalhar com as bandas Meal Ticket, Bees Make Honey e a sua própria banda, Hunters, além de uma aparição no Manfred Mann. Robert 'Smiggy' Smith juntou-se ao Blue, Alby Greenhalgh juntou-se à banda de rockabilly Flying Saucers e o baixista Jake Scott formou o obscuro grupo de jazz Xu-Xu Plesa.





A banda:

Willy Finlayson na guitarra e vocal
Alby Greenhalg  nos instrumentos de sopro
Jimmy Hush na bateria
Billy T. Scott – nos teclados
Jake Scott – no baixo e vocal


Faixas:

1 - It Came On Sunday
2 - Mrs. Coopers Pie
3 - Ladybird
4 - Aries
5 - Bogeyman
6 - Shadow Of Man
7 - Taskers Successor
8 - Hill Of Dreams
9 - Virginia Water




Para audição de "Power of the Picts" faça o download aqui