Mostrando postagens com marcador Suécia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Suécia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Gandalf - Gandalf (1977)

 

A cena progressiva da Suécia foi prolífica, foi grandiosa em qualidade e quantidade. Inúmeras bandas surgiram, algumas caíram na obscuridade e no ostracismo, outras gozaram de certa fama. As questões políticas limitavam um pouco, afinal grande parte dessa cena, predominantemente underground, se posicionavam, criticavam por intermédio de suas letras o status quo e os governos censuravam ou as gravadoras, por medo, não gravavam ou engavetavam certos projetos musicais com esse teor, digamos, revolucionário ou anárquico. E, muito em virtude desse cenário desolador, florescia a música sueca comercial “rivalizando” com o prog rock local.

Mas ainda assim o rock progressivo sueco teve um impacto significativo nas forças socioculturais e também, claro, nas políticas que se mostravam antagônicas a essa cena. O prog sueco versava sobre amor, paz e felicidade. As pessoas viviam em coletivos, mudavam-se para o interior e cultivavam suas próprias colheitas. E muitas bandas começaram nessas comunidades e as manifestações foram influenciadas pelo movimento de esquerda.

E, diante desse cenário, os primeiros passos da carreira desses músicos e bandas foram dados em um ambiente pela escassez financeira. Muitos eram jovens e surgiam, em alguns casos, de forma despretensiosa, apenas pelo amor à música, em espaços escolares. E assim foi com uma banda extremamente rara: GANDALF.

Gandalf

Meu bom e fiel amigo leitor, você deve estar a pensar: mais uma banda com o nome Gandalf? Sim, são algumas bandas com esse nome, mas o Gandalf sueco certamente é o menos conhecido. E não se engane, a origem do nome da banda se deu exatamente por conta do famoso e misterioso mago de “O Senhor dos Anéis”. Então a banda achou interessante ter tal nome, pois o personagem era envolto em mistério.

E por falar em banda, vamos aos jovens que formaram o Gandalf: Per-Åke Persson na bateria, Lars Linell no baixo, Mats Ågren no vocal, guitarra e piano, Michael Schlömer na flauta e Johan von Feilitzen no vocal, guitarra e piano.

E quando falamos em influência e movimento progressivo na Suécia, o Gandalf, claro, tiveram as suas referências sonoras e contava com as grandes bandas daquele país, cujos destaques são, entre outras:  Bandas suecas influentes incluíram Hoola Bandoola Band, Nynningen, Kebnekajse, Ola Magnell, Ensamma Hjärtan, Motvind, Coste Apetrea, Zamla Mammas Manna, Mobben, Kaipa, Nationalteatern e Norbottensjärn, Rekyl. E evidente que as bandas internacionais também foram determinantes para a sonoridade do Gandalf, como: Focus, Pink Floyd, Ekseption, Gentle Giant, Frank Zappa e Deep Purple.

O Gandalf, lá no final dos anos 1970, decidiu lançar seu primeiro álbum, de forma privada. Tentaram contatar algumas gravadoras, sendo, claro, em pleno final dos anos 1970, onde bandas pop e comerciais como ABBA eram a oportunidade de mercado das gravadoras, além do punk que florescia para este mesmo mercado, negado. Por isso a decisão dos jovens músicos do Gandalf lançar o álbum, homônimo, em 1977, de forma bem “artesanal” e privada (Gandalf Skivprod), em um total limitado de 378 cópias. Eles tiveram o apoio financeiro principalmente dos seus amigos da escola. Eles eram tão jovens!

Inclusive, convém trazer à tona uma parte desse momento da história do Gandalf. O primeiro e único álbum da banda estava planejado para ser lançado por um selo comunista de nome Oktober, mas quando ouviram a faixa inaugural “Plastisk Svensson”, os empresários do selo consideraram “anti-classe trabalhadora demais”. Ficaram com medo e decidiram cancelar o lançamento.

Já que estamos falando do único álbum do Gandalf, convém tecer alguns comentários acerca de sua sonoridade que flerta com várias vertentes do rock, não apenas o progressivo sueco, que tem, como base, o prog sinfônico, mas também de um boogie-rock, com alguns solos pesados de guitarra, que tendem para o hard rock, além de uma pegada bluesy, um blues rock. A banda não tinha rótulos e experimentava todos os sons que reinaram no rock nos anos 1970. E esse som pouco estereotipado e por vezes de garagem, fez com que, em 1977, mais precisamente, com o seu lançamento tímido e limitado em cópias, não ganhasse o interesse de selos conservadores.

Antes de falar de cada música deste álbum pouco usual para ouvidos mais ortodoxos, convém falar um pouco do retrato vivido pelo Gandalf da percepção do público pela mesma, bem como as suas primeiras apresentações ao vivo. A banda, oriunda de uma cidade chamada Uppsala, começaram a tocar, graças a sua boa relação com outras instituições de ensino, fizeram alguns shows em outras escolas. E conseguiram tocar para 25.000 pessoas nos arredores de Estocolmo em um salto mais ousado da banda, no “Hagafesten”. Um dia fantástico de verão com um uma grande plateia. E dividir o palco com tantas outras bandas, algumas já experientes e outras surgindo, foi, no mínimo, incrível para os jovens músicos do Gandalf.

O álbum é inaugurado com a faixa “Plastisk Svensson” que traz um hard rock com o destaque para riffs e solos de guitarra que a torna pesada e animada. E essa energia da música também se revela em uma pegada mais dançante lembrando um rockabilly. Também se percebe uma lisergia, um beat que se “entrelaça” com o rockabilly. Segue com “Morgon Dimman” que começa pastoral, viajante, com dedilhados lisérgicos de guitarra e uma flauta doce, delicada. E assim a música é conduzida, entre solos ácidos de guitarra e a flauta. E ainda assim, traz uma melodia com nuances, como um prog rock.

"Plastisk Svensson"

“Verklig Heten” explode em um hard rock volumoso, solos intensos de guitarra, bateria forte e com uma batida agressiva e marcada. O baixo é pulsante, a “cozinha” é extremamente competente. Mas ainda há mudanças de andamento, momentos de balada, conduzidas por um vocal cantado em sueco. O solo de guitarra no meio da faixa é espetacular: límpido e viajante. O lado progg é capitaneado pela flauta delicada. “Betygs Terror” começa com um piano e a flauta, novamente em destaque, construindo um prog rock com uma pegada meio jazzística. As mudanças de andamento são perceptíveis e a bateria conduz cada mudança com maestria.

"Verklig Heten"

“Den Vita Snov” começa com uma pegada psicodélica, com dedilhados de guitarra lisérgica e solos que me remetem ao The Doors e Iron Butterfly. Bateria lentamente executada, lembrando um blues rock, baixo no mesmo ritmo. Simples e agradável essa faixa! Viajante com solos de guitarra. “Miljo Forstoring” segue a mesma proposta da faixa anterior, um beat psicodélico bem dançante, mas com uma pitada comercial, algo mais palatável, com um boogie com muita animação entre tudo isso.

“Vanderingar Om Skolan” traz a versão blues rock do Gandalf. Sedutor, envolvente, assim se conduz a música, com o piano no destaque, mas alterna com uma pegada mais hard rock e assim se desenvolve, entre o peso do hard rock e a sedução do blues rock cantado, de uma forma inusitada, em sueco. “Balladen Om Fyristorg” continua com a pegada bluesy, mas agora inteiramente com o blues rock pesado, com riffs pegajosos de guitarra. E fecha com “The Spoon” começa com uma balada com o piano e vocal quase que à capela. Entra, em seguida, a bateria, marcada e um solo voltado para o blues que deixa a sonoridade dessa faixa versátil como todo o álbum.

"Balladen Om Fyristorg"

A dissolução do Gandalf ocorreu de forma muito precoce, afinal o cenário era desfavorável para esses jovens e audaciosos músicos que, em pleno final dos anos 1970, onde o punk estava no auge mercadológico, bem como a new wave e a disco music, tornaria difícil a “concorrência”. Era o início dos anos 1980 e o Gandalf, sem apoio e suporte financeiro adequado para difundir sua arte, pereceu, sumiu da cena prog que já não estava mais no auge comercial.

Mas nem tudo era ruim, a luz no fim do túnel escuro e negro se fez e o Gandalf teve o tão aguardado e esperado álbum homônimo relançado, com toda a pompa e circunstância pelo selo PQR-Disques Plusqueréel. No estilo da verdadeira ressureição, as vibrações carregadas de prog sinfônico, hard rock, blues e até mesmo um rock psych repleto de ácido desperta a alma de quem ouve esse belo e intrigante trabalho, os transportando para as florestas encantadoras onde os sonhos hippies se entrelaçam com as estrelas. Eram as origens dessa cena ganhando visibilidade novamente por intermédio do Gandalf.

O vinil, acompanhado por um livreto de 12 páginas, com letras originais e fotos da banda inéditas, destaca uma cena prolífica personificada pelo único trabalho do Gandalf, oferecendo a mistura pouco ortodoxa de psicodelia, progressivo, hard rock, com estilos emergentes e experimentais da sua época.

Os anos 1970 trouxeram sonoridades em caráter experimental e esses novos sons, de fato testaram a capacidade de ousar muitas gravadoras no que diz respeito ao apoio a essas bandas que são igualmente ousadas, em criar um som totalmente novo e arrojado, diante de músicas plastificadas e óbvias, clacadas em um pop digerível e de fácil assimilação.

Hoje as bandas gozam dessa caminhada tortuosa e difícil de seus predecessores, além de ter tantas formas de audição e de alcance a essas sonoridades, tantas formas digitais de escolher, as redes sociais que difundem as novas bandas e solidifica, mesmo que em um ambiente underground, mas forte, de sonoridades que se dão ao luxo de ainda ganhar novos “braços” sonoros, sempre se renovando.

Por mais que o Gandalf tenha perecido na obscuridade nos seus primórdios foi, como tantas outras bandas de sua época, importante para a pavimentação de uma música tão poderosa e original que, sem dúvida, faz do rock sueco ainda muito criativo e vivo, poderoso e cheio de vida, de uma vida longa e próspera. O cantor e guitarrista Johan von Feilitzen mais tarde fundou a banda comercial de pop rock Hansa Band, uma banda sem mérito e com ainda menos qualidades prog.





A banda:

Johan von Feilitzen no vocal, guitarra e piano

Per-Åke Persson na bateria

Lars Linell no baixo

Mats Ågren no vocal, guitarra e piano

E Michael Schlomer na flauta

 

Faixas:

1- Plastisk Svensson

2- Morgon Dimman

3- Verklig Heten

4- Betygs Terror

5- Den Vita Snov

6- Miljo Forstoring

7- Vanderingar Om Skolan

8- Balladen Om Fyristorg

9- The Spoon 




"Gandalf" (1977)



























sábado, 8 de fevereiro de 2025

Plebb - Yes It Isn’t It (1979)

 

O rock sueco definitivamente não está no mainstream, sobretudo as bandas dos anos 1970. Atualmente algumas bandas gozam de algum sucesso, elevando, diria homenageando, as bandas antigas, como por exemplo o Ghost que hoje conseguiu a proeza de levar para grandes arenas e eventos comerciais da música, o occult rock.

Não sei, confesso, o motivo pelo qual o rock sueco não tenha se destacado, sob o aspecto comercial, ao longo dessas décadas, mas talvez seja pelo fato de trazer a cultura de seu país, a questão folclórica aliado ao prog rock, ao hard rock entre outras vertentes. E quando a cultura é arraigada seja difícil realizar uma espécie de intercâmbio.

Mas é inegável, principalmente para os apreciadores do rock underground e obscuro, como eu, que há uma profusão de bandas suecas admiráveis que até hoje precisam ser desbravadas e descobertas. Graças aos recursos tecnológicos que nos conceberam algumas ferramentas de comunicação, muitas bandas têm surgido e vem nos encantando mesmo que tenham feito músicas que tenha mais de quarenta ou até cinquenta anos de existência.

É incrível que bandas como essas, oriundas da Suécia, ainda consigam trazer algo arrojado e espetacular e são capazes de absorver as músicas britânicas e americanas e fundir com aspectos peculiares de sua cultura, fazendo de sua arte algo espetacular e com um inigualável frescor.

E a banda que falarei hoje eu descobri recentemente, nessas incursões pelo obscuro, pelo desconhecido, pela selva intocável e selvagem que é o rock n’ roll e quando a ouvi, fui arrebatado de tal forma que me estimulou a escrever essas linhas que você, estimado leitor, lê agora. Falo da banda PLEBB.

Não sei se vocês já ouviram falar do Plebb, não sei se já ouviram essa banda, mas se a conhece, felicitarei, pois trata-se de mais uma banda rara, obscura que não ganhou o mundo e limitou-se a sua terra natal, se tornando, como tantas, aquelas bandas locais que as redes sociais se encarregam, como este simples e humilde blog, de difundir. Para a nossa sorte, para a nossa alegria.

E já que falei de bandas locais, falemos um pouco dos primórdios do Plebb, bem, tentarei, afinal, como tantas outras bandas esquecidas, não possuem tantas referências sobre a suas histórias, apenas a sua potente música, mas tentaremos falar dela, valorizando-a e ajudando a edificar um legado para as outras gerações, afinal sua música é de fazer reverência aos fãs, principalmente dos fãs do bom e velho hard rock dos anos 1970.

O Plebb foi fundado em 1976, em uma época em que o hard rock estava em declínio sob o aspecto comercial, afinal, bandas gigantes como Black Sabbath, Led Zeppelin e Deep Purple, por exemplo, ou estava finalizando a sua trajetória, ou tinha integrantes se afundando nas drogas e álbuns gravados aquém do que se esperava. O punk estava seguindo para o apogeu.

Mas o Plebb foi construído, em uma cidade, no sudeste da Suécia, chamada Mönsterås, que sequer tinha tradição para o rock, apenas com algumas poucas bandas. Nos seus primeiros anos a banda consistia em Ronnie “Balder” Nilsson (bateria), Leif Bergqvist (guitarra), Per-Martin “Pemce” Petersson (guitarra) e Tommy Gustavsson (baixo). No verão de 1977 Leif Bergqvist teve que deixar a banda devido a uma doença e Peter Martinsson o substituiria na guitarra. Leif apareceria, mais tarde, na banda “Ictus”.

E como curiosidade a origem do nome da banda, “PLEBB”, vem das iniciais de seus músicos: O "P" de "Pemce", de Per-Martin Petersson, "LeB" para "Leif Bergqvist" e o último "b" para "Balder".

Com a entrada de Peter o Plebb começou a se desenvolver e a escrever as suas próprias músicas, pois, nos seus primórdios, como tantas bandas, o Plebb tocava, para se apresentar nas casas de shows, covers de seus ídolos. Mas antes de se apresentar, ensaiaram muito e os locais escolhidos eram os mais inusitados possíveis. Outra curiosidade: a música “First Day In Roxy” é em homenagem a um local, um pouco melhor em termos de estrutura, que eles escolheram, o cinema Roxy, em Mönsterås.

Em 1978 uma fita foi gravada, em circunstâncias, diria, primitivas, sem o mínimo de estrutura e recurso, sendo gravada pelos próprios músicos que eram muito jovens, alguns deles estavam na adolescência, entre 16 e 18 anos de idade, com poucas músicas e apenas 40 cópias foram produzidas, sendo distribuídas na sua cidade natal a poucos fãs que também haviam recentemente conhecido a banda.

Não é que deu certo? Conseguiram uma boa base de fãs que, ávidos por mais e mais músicas de sua banda favorita, clamavam por um álbum novo, com mais músicas e que motivasse uma turnê de divulgação, de shows, então eles precisavam retornar ao estúdio para gravar um novo álbum.

E assim na virada do ano novo de 1978 para 1979, mais especificamente em 1979, nasceria o seu primeiro e único trabalho chamado “Yes It Isn’t It” e que foi gravado nas mesmas condições que a sua fita, sem nenhuma estrutura e condições, com aparelhagens simples, sem nenhum orçamento. E detalhe: não foi um estúdio, foi algo improvisado e foram dois locais escolhidos: o sótão de um clube de motociclistas local e uma escola, em Blomstermåla.

O álbum foi produzido pelo baixista Tommy Gustavsson e apenas 485 cópias foram prensadas na própria gravadora da banda chamada de “Plebb Records” e vendidas localmente para amigos e fãs mais próximos e ardorosos. Pois é, caros amigos leitores, os tempos eram outros e não tinham redes sociais e a internet para difundir a sua música. Tiveram também algumas poucas lojas de músicas para divulgar e vender seus álbuns.

O processo de gravação, como disse, bem rudimentar, era uma tecnologia que chamada “som sobre som” (“Sound on Sound”), o que significa que o fundo foi registrado pela primeira vez e a música e os preenchimentos de guitarra foram adicionados reproduzindo o plano de fundo e gravando as novas partes juntos com o fundo na outra fita gravadora.

“Yes It Isn’t It” é predominantemente um álbum do mais puro, genuíno e volumoso hard rock, com passagens espetaculares instrumentais mostrando que, apesar da pouca idade dos músicos, já entregavam muito talento e capacidade técnica, aliada a uma sonoridade orgânica. Ouso dizer ainda que, mesmo que o Plebb não tenha alçado grandes voos, a banda apresentou em sua sonoridade, o heavy metal que florescia no mundo e que teve o epicentro na Inglaterra, com a sua “New Wave of British Heavy Metal”.

Ainda em seu álbum percebe-se uma veia blues rock, com algumas passagens mais lentas, mais leves, discretas, mostrando uma banda cheia de recursos e muito, como disse, talentosa e que certamente era muito promissora. Outro detalhe importante e que convém ressaltar foi o trabalho de guitarra na banda, um trabalho impecável de “guitarras gêmeas”, que foi difundida por bandas como Wishbone Ash no início dos anos 1970 e que foi popularizada pelo Iron Maiden.

O álbum é inaugurado pela faixa “Reaggie II B” que, por mais que o álbum seja predominantemente de hard rock, tem uma introdução de reggae, daquele jeito, bem dançante, animado, porém vai encorpando, a pegada hard vem, aos poucos, aflorando, graças a riffs e solos mais pesados de guitarra, com a bateria marcada e igualmente pesada. Os solos de guitarra vão ficando mais alongados, pesados, bateria mais pesada também, quando, definitivamente, a música se revela um típico hard rock um pouco mais cadenciado. Depois volta ao ponto inicial, com a veia mais reggae. Começa bem e arrojado!

"Reaggie II B"

“Push Box” já, logo de imediato, esmurra a porta com um riff carregado, pesado de guitarra com uma “cozinha” empenhada em manter o peso mesclado a um groove incrível. Baixo pesado e galopante, bateria marcada e pesada. Alternâncias rítmicas são perceptíveis com momentos mais tranquilos, mas que logo se entregam ao peso. Ouso dizer que há momentos mais velozes, caracterizando em uma pegada mais heavy metal, afinal, o ano de 1979 traziam os primórdios da “New Wave of British Heavy Metal”, então, para uma banda pesada como a Plebb, não seria surpreende perceber tais elementos em sua música. Excelente faixa!

"Push Box"

“Rockaria” me remete ao que o Scorpions fazia nos anos 1970 com Uli Jon Roth nas guitarras. Não se pode negligenciar o trabalho de guitarra nessa faixa, com uma destreza incrível, além do trabalho da bateria também, um misto de peso e técnica, com peso e groove. Temos momentos mais dilacerantes e leves, discretos e nessa alternância a música entrega um instrumental extremamente arrojado. Uma pegada heavy rock também é percebida.

"Rockaria"

“Tankar Om Natten” começa solar, animada, tem um viés mais comercial, diria AOR, radiofônico mesmo. Mas a potência da guitarra é o grande atrativo da faixa. Em alguns momentos percebe-se uma pegada de speed metal, com destaque, mais uma vez, para seção rítmica da banda, valorizando, ainda mais, a capacidade instrumental da banda.

"Tankar Om Natten"

“Förflutet” começa quase acústica, com delicados dedilhados de guitarra, algo um tanto quanto soturno, mas, aos poucos vai se revelando uma sonoridade viajante. Uma linda balada rock com a bateria tirando o pé do freio e um baixo tocado de forma simples, mas competente. A música vai encorpando, ficando um pouco mais pesada, mas a característica se mantém firme, intacta, como uma balada. No desfecho o solo de guitarra é lindo, a música ganha o contorno típico de hard rock que povoa o álbum.

"Forflutet"

Segue com “Psst ...” que inicia com um violão acústico, algo meio latino e assim vai seguindo, leve, discreta, quebrando a predominância do hard, blues rock do álbum, corroborando, mais uma vez, o talento instrumental de seus músicos, mas sem deixar de ser orgânicos.

"Psst..."

O álbum fecha com “Fresh Fish” e, mais uma vez o trabalho de guitarra inaugura a música, trazendo reminiscências do Scorpions dos anos 1970. Uma guitarra tocada de forma competente, passional. As passagens de blues rock dão um “tempero” especial à faixa, com um vocal falado, em alguns momentos. Hard rock, blues rock e até mesmo uma pegada meio “sulista” norte americana se percebe principalmente nos vocais.

"Fresh Fish"

Pouco tempo depois a banda mudaria de nome, passando a se chamar “Purple Haze” e, diante desse nome, não precisamos nos esforçar muito para perceber de onde veio a inspiração. O Purple Haze gravaria um álbum chamado “Det Är Så Man Undrar...”, no ano de 1981. Na formação teria Tommy Gustavsson, no baixo, Leif Bergqvist e Peter Martinsson na guitarra e na bateria teria Ulf "Mini" Svensson. O único álbum com a banda neste novo nome teria lançamento pelo selo da banda, a Plebb Records. Mas não vingou, finalizando as suas atividades logo em seguida. Depois de alguns anos a banda voltaria a se reunir.

Poucos músicos do Plebb dariam sequência as suas carreiras musicais e aquele que conseguiu ser mais produtivo e assertivo foi o guitarrista Peter Martinsson. Ele formaria, em 2011, o “Peter Martinsson Group”. Um projeto dirigido, conduzido pelo próprio Peter, claro, e pelo baterista Ulf Becker. A música da banda é predominantemente instrumental e teve seu primeiro trabalho oficial lançado em 2012 chamado “Guitar State of Mind”, lançado pelo selo norte americano Grooveyard Records e que pode ser ouvido aqui.

Em 2014 o Peter Martinsson Group lançaria seu segundo álbum, porém no formato CD, que viria a se chamar “No Grey”. Foi lançada por uma editora privada com um número de cópias bem limitada. Os álbuns da banda estão sendo relançados pelo selo Plebb Records em mídia digital com a intenção de atingir o maior número de pessoas possíveis e de uma forma mais rápida.

Em 2014 o Peter Martinsson Group lançaria seu segundo álbum, porém no formato CD, que viria a se chamar “No Grey” e depois uma série de álbuns de estúdio lançaria na segunda metade da segunda década dos anos 2000, além de algumas coletâneas. Foi lançada por uma editora privada com um número de cópias bem limitada. Os álbuns da banda estão sendo relançados pelo selo Plebb Records em mídia digital com a intenção de atingir o maior número de pessoas possíveis e de uma forma mais rápida.

"Yes It Isn't It", do Plebb seria relançado pelo famoso selo Guerssen e pela gravadora Sommor, em 2021 no formato LP. Uma oportunidade em tanto para os apreciadores e amantes do mais visceral e passional hard rock dos anos 1970. Definitivamente esse trabalho do Plebb é uma pérola do estilo no fim dos anos 1970, em um período em que a disco music e o punk rock reinavam absolutos no mercado da música. O Plebb, mesmo não tendo uma sequência em sua história, mostrou que qualidade não está intimamente ligada a sucesso comercial e mostrou um talento inacreditável em um período que o hard rock estava em baixa no mercado fonográfico.

 

A banda:

Ronnie “Balder” Nilsson na bateria

Leif Bergqvist na guitarra

Per-Martin “Pemce” Petersson na guitarra

Tommy Gustavsson no baixo

 

Faixas:

1 - Reaggie II B

2 - Push Box

3 – Rockaria

4 - Tankar Om Natten

5 – Förflutet

6 - Psst ...

7 - Fresh Fish



"Yes It Isn't It" (1979)








 



 











 





quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Pandora - Measures of Time (1974)

 

Quando leio alguns textos sobre determinadas bandas ou álbuns observo, nitidamente, que as pessoas buscam algo inovador. Claro que, quando temos um primeiro contato com uma banda, buscamos algo que nos arrebate, perfeitamente natural ter, ou melhor sentir isso. Mas percebo que o nível de exigência tem sido demasiadamente alto a ponto de rejeitar e criticar determinadas bandas e trabalhos por elas produzidas.

A crítica e a rejeição também fazem parte do processo da aceitação ou não de determinados trabalhos, mas penso que buscar sempre algo inovador é demasiado exigir demais de determinadas bandas e principalmente de si mesmo quanto ao seu nível de aceitação e rejeição de determinados trabalhos.

As cenas musicais chegam a níveis de saturação, com um número enorme de bandas que surgem. Percebo isso em movimentos musicais de hoje e do passado e com o rock progressivo não foi diferente, principalmente na primeira metade dos anos 1970, quando viveu sua ebulição criativa, embora nunca tenha sido uma cena palatável e tanto aceita pela indústria fonográfica. E que fique claro que a sua ebulição criativa foi na primeira metade dos anos 1970, mas não significa que em outros tempos não tenha sido.

E, diante desse cenário, que penso ter acontecido, muitas bandas surgiram, algumas viram a luz do sucesso, enchendo arenas, estádios e participando de festivais faraônicos e muitas outras caíram no limbo do esquecimento, vagando pelas sombras obscuras do underground.

E essas últimas sofreram e sofrem com uma investida pesada de ultrajantes cópias das bandas famosas, de sucesso. Evidente que não tirarei os méritos dos medalhões do prog rock que conquistaram suas condições de pioneiras e inovadoras, mas qual o motivo de taxar as obscuras de plagiadores? Qual o motivo de pontuá-las como farsantes ou coisa que o valha?

Essa defesa veemente da minha parte, caros leitores, se dá por uma questão óbvia, afinal, esse reles e humilde blog fala de bandas obscuras, mas não se enganem que a defesa seja cega e alienada. Aqui há espaço para críticas, mas principalmente, modéstia à parte, para grandes álbuns e bandas.

E a banda de hoje eu conheci recentemente em uma dessas incursões, às vezes, confesso, aleatórias na grande rede na caça de álbuns obscuros e quando a ouvi simplesmente adorei, porque alia um progressivo sinfônico, com uma pegada mais pesada, um hard mais acessível, com uma sonoridade, diria, comercial, mas de qualidade. Falo da banda sueca PANDORA.

Pandora

Quando levantei referências para este texto que você, fiel e bom amigo leitor, li algumas críticas pesadas, desconstruindo a sonoridade da banda, dizendo que era cópia de ícones como Uriah Heep, Genesis, entre outras bandas de sucesso. Ao ouvir o único álbum lançado pela banda, há cinquenta anos, em 1974, chamado “Measures of Time”, não se percebe, de fato, nada de inovador, era o que se fazia na primeira metade dos anos 1970, na cena progressiva, mas se trata de um trabalho excepcional, muito agradável de se ouvir e é isso que importa aos ouvidos e a alma.

E falando em referências lamentavelmente pouco encontrei sobre a história do Pandora na web, sobre as suas origens, então vai as minhas famigeradas licenças poéticas acerca de sua história obscura. O nome da banda te remete a conhecida “Caixa de Pandora” com a sua história de que os deuses gregos colocaram todas as desgraças do mundo, entre as quais a guerra, a discórdia, as doenças do corpo e da alma em uma caixa. Talvez a inspiração para o nome da banda seja a música como uma manifestação irrestrita de esperança. Há muito a se falar da “Caixa de Pandora”, mas não entrarei em pormenores.

Vamos ao pouco da história do Pandora, a banda. A banda foi formada na cidade de Norrkoping, no sul da Suécia, em 1971 pelo baterista Bertil Jonsson e pelo guitarrista Urban Gotling. Após algumas mudanças na formação a banda gravou o já informado debut, na realidade único trabalho, “Measures of Time”, de 1974. Com a saída de Gotling, a formação que concebeu esse álbum tinha, além de Jonsson, na bateria, Leif Hellquist e Åke Rolf na guitarra, Peter Hjelm, no vocal principal, Janne "Flojda" Dockner no piano e sintetizador e Björn Malmqvist no baixo.

“Measures of Time”, lançado pelo selo sueco SMA, no formato vinil, traz uma música bem executada, com excelentes arranjos e melodias com uma roupagem progressiva sinfônica, com teclados agradáveis e vocais bem envolventes, com uma textura mais pesada, tendendo para o hard rock que harmoniza muito bem com os sintetizadores e a pegada sinfônica, fazendo de sua sonoridade versátil e que pode certamente agradar aos apreciadores de progressivo e hard rock, além de um viés mais comercial, porém bem executado.

Nuances psicodélicas são percebidas também que te faz remeter naquela transição dos anos 1960 para os anos 1970, que se percebe uma sonoridade que tenta deixar o experimentalismo e a pegada beat indo para algo mais complexo e bem trabalhado. Assim o é “Measures of Time”. Não para por aí: ainda se percebe um blues progressivo e calorosas pegadas de krautrock. A sonoridade do Pandora é bem globalizada e se afasta um pouco do som das bandas suecas meio exóticas e pouco ortodoxas do início dos anos 1970.

O álbum é inaugurado pela faixa título “Measures of Time” que começa meio operística, piano e baixo em total sinergia entregando um progressivo sinfônico com riffs pesados de guitarra e um vocal melódico cheio de dramaticidade. E tudo isso ganha vivacidade e emoção com solos lindos de guitarra que logo tem a companhia do piano dando uma cadenciada e “rivalizando” com a guitarra. É a faixa que define bem o trabalho do Pandora.

"Measures of Time"

Segue com “Dusty Ledger” que também ganha vida com o piano na introdução e baixo trazendo uma textura mais misteriosa o que é corroborado pelo vocal mais fechado e introspectivo. O baixo fica mais pulsante, a música ganha mais corpo, os riffs de guitarra trazem uma roupagem hard rock, bateria é marcada e bate mais forte, o vocal segue a proposta com alcances maiores, os teclados dão um tom mais sinfônico, solos de guitarra são de tirar o fôlego. Não há como negar que a faixa se revela complexa e repleta de mudanças rítmicas.

"Dusty Ledger"

“The Queen” segue com a proposta mais sinfônica com uma introdução de piano, mas dessa vez foi rápida, porque ela já começa animada, enérgica e agitada. Vocais mais nervosos, mas não menos melódico, o que sempre me agrada, riffs de guitarra dão o tom mais solar, bateria as vezes pesada ou com uma discreta pegada jazzística, o piano mais frenético entrega o peso, o baixo pulsante e dançante, solos mais acessíveis de guitarra. Sem dúvida a mais animada faixa do álbum.

"The Queen"

“Life is Good, Life is Bad” começa com uma salutar “rivalidade” entre piano e a guitarra com seus riffs, tendo uma textura rítmica mais dançante, graças, claro, ao baixo mais pulsante e bateria marcada. Vocal, como sempre, em destaque, sempre melódico e agora em um tom mais dramático. As mudanças rítmicas também é a tônica da faixa, trazendo à tona passagens mais sinfônicas. Na sequência tem “Tailor” com o piano em destaque. A roupagem mais progressiva ganha força nessa faixa e os teclados confirmam essa condição com aquela pegada típica do sinfônico, que logo irrompe nos indefectíveis solos de guitarra sempre bem executada.

E fecha com “Mind of Confusion” traz à tona novamente o hard prog, o peso dos riffs e solos da guitarra e as mudanças rítmicas são arrebatadoras e extremamente solares. E nessas mudanças rítmicas não podemos negligenciar o vocal, destacando-o conduzindo perfeitamente os “humores” da faixa. Traz alcances vocais poderosos a sussurros.

Após o lançamento de “Measures of Time” o Pandora teve alguns bons e importantes shows dando a perceber que a banda vingaria, seguiria o seu curso na história. Abriu banda para bandas mais famosas da Suécia como Kaipa e Trettioariga Kriget, entre outras, isso entre 1975 e 1977, durando até 1981, quando a banda se desfez por diferentes razões, de relacionamento a percepções musicais, sendo que alguns músicos já tinham, inclusive, saído do Pandora para outros projetos.

“Measures of Time” permaneceu como uma total raridade até que a Tachika Records o relançou em mini LP. O selo em questão é um tanto quanto nebuloso, pois seu catálogo está na loja virtual “Syn-Phonic”, mas nem eles sabem se totalmente legalizado, apontando um vínculo com outras empresas como a “Progressive Line” e a coreana “Won Sin”, mas o que vale é a qualidade do lançamento e de que o álbum ganhou alguma repercussão, embora pequena. Teve outro relançamento, agora em vinil e CD, pelo selo alemão Press Alemanha, em 2015 e desde então não se tem notícias sobre um novo relançamento deste belíssimo álbum.

Independente se é ou não inovador, o único trabalho do Pandora, “Measures of Time”, é saboroso de ouvir, é agradável e traz uma complexidade em sua sonoridade muito democrática que faz com apreciadores de progressivo e hard rock se junte e ouça esse trabalho da banda sueca. O mais importante das discussões sobre vertentes do álbum e o bom alimento a alma que a boa música pode nos proporcionar.




A banda:

Björn Malmqvist no baixo

Bertil Jonsson na bateria

Leif Hellquist na guitarra

Åke Rolf na guitarra

Peter Hjelm nos vocais

Janne "Flojda" Dockner no piano e sintetizador

  

Faixas:

1 - Measures Of Time

2 - Dusty Ledger

3 - The Queen

4 - Life Is Good, Life Is Bad

5 - Tailor

6 - Mind Of Confusion 



"Measures of Time" (1974




 


 















quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Epizootic - Daybreak (1976)

 

Por que os anos 1970 é o melhor período do rock n’ roll em termos de qualidade sonora? Tudo bem, estimados leitores, que essa frase, essa pergunta tem um caráter de opinião, afinal há de ter outras pessoas que contestarão dizendo que os anos 1960 foram prolíficos ou ainda os anos 1980.

Mas é inegável que a década de 1970 deixou uma marca indelével para o rock n’ roll descortinando vertentes tão especiais para os nossos ouvidos e alma, como hard rock, rock progressivo, jazz rock, blues rock entre tantos outros.

A resposta? Era a capacidade de algumas grandes bandas de flertar, com grande facilidade, com várias vertentes sonoras em um álbum ou mais arrojadamente ainda, em uma música. Tantas nuances, tantas mudanças de ritmo que confesso me arrebatamento a cada audição desse tipo.

E aí eu preciso retomar a importância dessa década para o rock! Somente ela foi capaz de nos proporcionar esse momento singular. Os estilos estavam nascendo, eram embrionários, as doses de experimentalismo eram cavalares, não havia, ouso dizer, nomenclaturas identificando tais vertentes, não havia rótulos, nada.

As bandas ousavam, experimentavam, a criatividade era latente, não havia receios, medos, o que comandava as pretensões musicais era pura e simplesmente o amor pela música, a verdade que ela trazia personificadas nos músicos e primordialmente, a criatividade. A subserviência era por ela, sem preocupações com o mercado fonográfico.

E muitas dessas bandas padeceram pelo simples fato de não sucumbirem ao glamour e facilidades do sucesso comercial e suas músicas plásticas com prazo de validade. Não é à toa que essas muitas bandas caíram no limbo do esquecimento, nos escombros da obscuridade, mergulhadas em um fracasso comercial. Mas são únicas, singulares, importantes para um nicho de fãs que sempre apreciaram tais músicas de vanguarda.

Podemos elencar inúmeras bandas que se enquadram nessa condição, mas gostaria de falar de uma banda que conheci recentemente e que veio da sempre surpreendente Suécia chamada EPIZOOTIC e que, para variar, lançou apenas um álbum, em 1976, chamado “Daybreak”.

Epizootic

O nome da banda, meio doido, atípico, entrega, com seu álbum, uma sonoridade vivaz, cheia de recursos sonoros, que vai do peso do hard rock, a sofisticação do rock progressivo, a lisergia do psicodélico. Uma sonoridade arrojada, mesmo não apresentando nada de revolucionário surgia na segunda metade dos anos 1970 que estava despertando para o punk rock que, mesmo não gozando de tanta popularidade, estava atraindo olhares interessados da indústria, deixando de lado as bandas que privilegiavam uma sonoridade mais rebuscada e complexa.

As origens do Epizootic remontam de meados dos anos 1970 na cidade sueca de Gotemburgo, quando quatro garotos decidiram se juntar e formar uma banda de rock com viés sinfônico, cantando em inglês e com certas conotações pesadas, de hard rock. O desejo incondicional de jovens, ávidos por ganhar o mundo, era evidente na sonoridade do Epizootic. As letras em inglês, com a intenção de atingir o mercado externo, parece que tudo estava meticulosamente calculado para o sucesso ou será que tudo não passou de um sonho febril? Pois é, o desfecho parece revelar o segundo cenário.

“Daybreak” foi concebido de uma forma totalmente independente, por um selo que parecia pertencer aos próprios músicos, de nome “Fejl” e, apesar de ser um álbum com dez faixas complexas e arrojadas, nota-se clara falta de produção. Mas isso não parece ser nenhum demérito, pelo contrário, bandas e álbuns obscuros de “formato garageiras”, quando lançam trabalhos com essas características, passam a se um charme, algo que agrega a sua sonoridade.

Aqui cabe uma curiosidade referente ao nome da gravadora: “Fejl”. Tal termo é uma grafia sueca da palavra inglesa “fail” que significa “falha”, “falhar”. Sinceramente não conseguir interpretar o motivo pelo qual leva esse nome, mas, licenças poéticas à parte, talvez seja pelo fato do álbum não ter atingido o status de sucesso.

Não podemos negligenciar o fato de que “Daybreak” é um ambicioso trabalho, mesmo que "artesanal", por conta da produção. Ah são jovens e como tal querem ganhar o mundo, serem donos deles, custe o que custar. E não há como se render a essa crueza que entrelaça com uma complexidade e nos deixa um tanto quanto perdidos quando tentamos classificar uma sonoridade. Então, caros leitores amigos, esqueça as formalidades da nomenclatura e se deixe levar pelo som de Epizootic.

E como não apreciar essa “dúvida”: guitarra pesada, elementos de jazz fundamentado pelo tecladista e toques de música progressiva evidentes na flauta. O vocal, embora não seja um primor, dá o seu recado e mostra um trabalho de banda muito firme, coeso e complexo, porém orgânico. A formação que gravou “Daybreak” traz: Pär Ericsson nos vocais, baixo, flauta, Bengt Fischer na guitarra, Lars Liljegren no piano, sintetizadores e vocais e Lars Johansson na bateria e percussão.

“Daybreak” é um hard prog que lembra mais uma produção de porão do que uma gravação propriamente dita. Mas a música é poderosa e extremamente cativante e interessante, com excelentes ideias instrumentais, extremamente arrojadas, complexas e orgânicas. Um trabalho obscuro que merece reverências, que merece crédito pela sua sonoridade.

O álbum é inaugurado com a faixa “Epizootic”. Um som de águas agitadas no início, mas que logo irrompem em solos rápido e pesados de guitarra trazendo o prenúncio de um hard rock cadenciado com teclados em uma sequência animada, que volta a guitarra, com riffs duros, sombrios e agressivos. Segue com “Sunset, Emotion” que tem, mais uma vez, o destaque dos riffs pesados e solos curtos e diretos da guitarra. É igualmente cadenciado pelos teclados enérgicos e uma seção rítmica bem coesa, com bateria marcada e baixo pulsante. Mas o que mais estimula na faixa é a salutar “rivalidade” entre teclados e guitarra.

"Sunset, Emotion"

“Eye Ball” os teclados inauguram a faixa e remete a uma pegada mais progressiva sinfônica aliada ao hard rock que se mostra presente do início ao fim do álbum. O vocal é mais rasgado, direto. Os riffs de guitarra são destaque e traz uma textura mais pesada e suja à música. E a doce “rivalidade” entre a guitarra e o teclado, mais uma vez, ganha destaque também e no meio termo, o baixo fica mais galopante ainda. “Fantacy” começa mais branda, mais leve. Dedilhados de guitarra e vocais mais doces trazem uma balada, com momentos mais pesados protagonizados por riffs de guitarra e assim vai alternando com um solo mais elaborado da guitarra no meio.

"Eye Ball"

O álbum segue com a faixa título, “Daybreak”, instrumental, ganha, mais uma vez, protagonismo a guitarra. Solos pesados, arrastados, em alguns momentos, e outros com uma pegada hard blues, tendo a “cozinha” dando uma textura mais bluesy também, sem deixar de lado, o agora discreto teclado. “What Mercy is This” já começa intensa, pesada! Os riffs de guitarra são pesados, agressivos, mas que ficam cadenciados com a bateria, cheia de groove e o baixo vívido e igualmente pesado. É extremamente animado a “batalha” entre os solos de guitarra e os teclados.

"What Mercy is This"

“Indian Reservation” começa introspectiva, contemplativa. Os dedilhados de guitarra reaparecem. Os vocais sussurrados, mas o peso já assume a dianteira da música. Bateria agressiva, os pratos parecem fazer a música levitar. Os teclados tocados com uma energia incrível, o baixo é esmurrado! Todo esse roteiro pesado logo devolve o posto para o ambiente anterior, de balada, com flautas. Repleta de recursos sonoros, de mudanças rítmicas. “Pictures of an Ordinary Life” começa pesado. A bateria dá o tom, o ritmo com os teclados em uma pegada sinfônica, mas descamba para uma sonoridade curiosamente radiofônica, meio dançante, inclusive. As flautas aparecem ao estilo Jethro Tull, com vivacidade. Mais uma faixa cheia de mudanças rítmicas mostrando a versatilidade da banda.

"Indian Reservation"

A penúltima faixa se chama “Pluto” que inicia curiosamente com um riffs que me remeteu ao heavy metal, pesado e rápido! O típico, porém, ousado, hard rock com uma evidente pegada heavy metal que ainda era embrionário. Mas as ousadias do Epizootic não param por aí. O peso inaugural dá lugar, mais uma vez, a flauta que, juntamente com a seção rítmica entrega um groove, algo dançante, mas que logo dá lugar ao peso capitaneado pela guitarra. E fecha com “Sinbad” já começa revelando o que foi o álbum: riffs agressivos de guitarra “rivalizando” com o teclado. Mas essa música retrata também o que foi o álbum na reta final: músicas pesadas e muito mais agressivas.

"Sinbad"

Embora o Epizootic não tenha atingido o sucesso comercial o seu único álbum ganhou “nove estrelas”, uma classificação de raridade na "Enciclopédia da Música Progressiva Sueca". São esses fatos que fazem de determinadas bandas e álbuns atingiram o status de “cult”, ou seja, um nome bonitinho para esquecemos de você no passado e envergonhados decidimos atribuir um status de importância para você.

E falando em sucessos e fracassos, após a experiência curta e precoce com o Epizootic o vocalista e baixista Pär Ericson e o guitarrista Bengt Fischer alcançaria o sucesso com a famosa banda de heavy metal EF Band, durante os anos 1980, quando se mudaram para o Reino Unido, gravando uma boa quantidade de álbuns. Infelizmente, em 2001 Fischer morreria devido a complicações com o câncer. O pianista Lars Liljegren mais tarde tocaria com Ragnarök e Triangulus. 

Além, claro, do lançamento original de "Daybreak", em 1976, pelo selo sueco, dos próprio músicos, Fejl, há alguns poucos relançamentos, como um de 1999, no formato CD, na Alemanha provavelmente não oficial e outro, no formato LP, pelo selo germânico "Long Hair", de 2020. O fato é se tratar de um clássico obscuro!





A banda:

Pär Ericsson nos vocais, baixo, flauta

Bengt Fischer na guitarra

Lars Liljegren no piano, sintetizadores e vocal

Lars Johansson na bateria e percussão

 

Faixas:

1 - Epizootic

2 - Sunset, Emotion

3 - Eye Ball

4 - Fantacy

5 - Daybreak

6 - What Mercy is This

7 - Indian Reservation

8 - Pictures of an Ordinary Life

9 - Pluto

10 - Sinbad



"Daybreak" (1976)