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domingo, 10 de julho de 2022

Witchfynde - Give 'Em Hell (1980)

 

A Nova Onda do Heavy Metal Britânico de fato foi uma onda, um modismo que atingiu em cheio o mainstream com bandas fazendo shows faraônicos, em estádios lotados de degenerados jovens sem futuros e amaldiçoados pela própria sorte, com bandas gozando de estruturas de produção de palco jamais vista naquela época.

Mas não se enganem caros e dignos leitores havia o submundo, bandas esquecidas, vilipendiadas, marginalizadas. E não apenas pela temática de suas músicas e pelos coturnos, roupas pretas ou quaisquer coisas relacionadas ao comportamento não, mas relegadas, talvez, pela própria sorte, não se sabe dizer o real motivo: talvez por mero capricho da indústria fonográfica, pelas emissoras de músicas, pelas rádios ou pela incapacidade de gerenciamento dos músicos para com as suas bandas mesmo.

Mas o heavy metal que explodiu na década de 1980 deixou a sua indelével marca, sim, não temos dúvida, mas, como toda cena, toda geração, deixou também suas injustiças, suas dúvidas de originalidade e comunhão, esquecendo alguns de seus rebentos para trás.

A banda de hoje, que abrilhantará, diante da escuridão de sua história, da obscuridade de sua trajetória, foi, digamos, “inserida” na NWOBHM e por quê digo inserida? É uma das peculiaridades desses momentos da música, no rock n’ roll: colocar no “saco” algumas bandas nas cenas que estão em evidência ou que, mesmo diante de sua veste underground ou do mainstream mesmo.

É claro que é demasiado chato, às vezes, ficar “analisando” uma vertente sonora de uma banda, é se deixar escravizar por estereótipos, rótulos que mascaram a razão-mor de tudo isso: a música propriamente dita. Mas essa banda é bem peculiar, pois flerta com o hard rock setentista, puro e genuíno e também com umas pitadas, diria, generosas, de heavy metal, afinal, ambos se complementam. Falo da banda britânica WITCHFYNDE.

O Witchfynde é uma daquelas bandas que navegou em várias vertentes, diria ser um híbrido entre bandas como Judas Priest, Black Sabbath e até algo do Thin Lizzy e algo de heavy metal e Thrash metal. Foi uma banda que foi influenciada e influenciou, por isso o flerte com o hard setentista e o heavy oitentista é evidente em sua sonoridade.

E essa dualidade era caracterizada também, além da sonoridade, na questão estética, nas letras de suas músicas que ia de um punk rock ao estilo pub, tipicamente londrino, às composições conceituais de um rock progressivo, com algumas baladas soturnas, com pegada, inclusive, lisérgica, psicodélica.  

As origens da banda é de Nottinghamshire, na Inglaterra, sendo formada em 1974 pelo baixista Richard Blower e o vocalista Neil Harvey e, como várias bandas tiveram suas mudanças intensas na sua formação o que certamente influencia, de certo modo, na textura sonora da banda.

Blower descobriu o guitarrista Montalo (Trevor Taylor) em uma banda chamada Atiofel. Quando Richard deixou a banda, em 1975, os remanescentes reformularam o Witchfynde com o guitarrista Montalo, o baixista Andro Coulton e o baterista Gra Scoresby, e logo recrutaram o vocalista Steve Bridges.

E neste entra e sai, mesmo com a formação da banda em meados dos anos 1970 Bridges, Montalo Coulton e Scoresby não conseguiram gravar absolutamente nada, oficialmente, até o lançamento do seu single, “Give ‘Em Hell”, em 1979, além de outra faixa a “Gettin Heavy”. O Witchfynde, como muitas bandas, sofreu muito com alguns contratos desfavoráveis e gravadoras mal gerenciadas.

Ouvindo essas faixas inaugurais da história discográfica do Witchfynde nota-se o pioneirismo, uma sonoridade arrojada e versátil que lançara a “pedra fundamental” do que se convencionou de occult rock ou ainda occult metal que descamba para o proto black metal (será?), mas não nos deixemos, completamente, seduzir pelos estereótipos da música, mas a sonoridade do Witchfynde é no mínimo uma entrega desejável à esse tipo de discussão.

O fruto completo das atividades de estúdio do Witchfynde veio com o “álbum cheio” da banda também chamado de “Give ‘Em Hell”, um ano depois, em 1980, alvo da resenha de hoje. A banda assinou com o selo Rondolet Records no início de 1980, que à época era uma gravadora que tinha em seu cast apenas bandas punks que estava no auge comercial, sendo o Witchfynde a primeira banda de hard/heavy rock.

Com o contrato assinado eles rapidamente, sem pestanejar, seguiram com um álbum, na concepção gráfica, com um debochado baphomet na capa, que evidentemente não passaria despercebido em uma loja de discos à época, assumindo de vez a sua postura satânica sem medir nenhum tipo de consequência e, teatro ou não, não temos dúvidas que essa arte, linda ou não, foi o pilar, sobretudo nesse aspecto, para o conceito de muitas, inúmeras bandas de thrash metal, de black metal e até mesmo aquele álbum clássico do Venom, o “Black Metal”, lançado em 1982, tido como referência para os estilos que culminaria em sua notoriedade nos anos 1990 na fria Noruega.

A produção de “Give ‘Em Hell” é crua, não se sabe ao certo se a banda tinha um baixo orçamento para a gravação do álbum, inclusive foram os caras que produziram o álbum, talvez a inexperiência nessa área tenha complicado as coisas, mas o fato é que prejudicando ou não, trouxe um sentido underground distinto, personificando o seu significado, dando uma atmosfera densa, suja à proposta do álbum, de suas letras.

“Give ‘Em Hell” não é um disco de black metal genuíno, que conhecemos hoje, não é um álbum de heavy metal, não é um álbum de punk rock ao estilo Pistols, não tem evidente um psych rock, não é um álbum (que bom!) a se rotular, a se colocar, para antigos, em uma seção sonora em uma loja de discos, por isso que é válida a discussão de que não se deve levantar a bandeira do estilo que o Witchfynde defende, embora o coloque no “saco” da NWOBHM. Eu arriscaria dizer que este debut da banda traz uma salada, uma mescla bem delineada de todas essas vertentes e o fez, creio, intencionalmente, mas sombrio, denso, ameaçador, perigoso para fazer valer as intenções de suas letras.

O álbum é inaugurado com a faixa “Ready to Roll” e de cara já começa metendo o pé na porta, uma porrada sonora toma conta dos ouvidos e de todo o corpo com uma pegada mais heavy, agressiva, agitada, com doses balanceadas de peso, marcada e um ritmo mais contido, menos sujo e até mais complexa. Percebe-se também algo de um hard rock setentista resgatado e adicionado ao temperado de um heavy bem elaborado. A letra tem um quê de celebração.

“Happy inside can't you see we're reelin'

There's somethin' comin' and it's getting' near

Must be that heavy stuff you've been dealin'

We're flyin' high we've got nothin' to fear”

"Ready to Roll"

“The Divine Victim” já traz a característica mais marcante do heavy metal oitentista, graças ao riff mais simples, direto e pesado de guitarra, beirando, diria algo relacionado ao punk rock, dada a sua versão suja, direta e pesada. A letra fala sobre Joana D’Arc queimada em praça pública ao ser acusada de heresia e feitiçaria por um tribunal eclesiástico inglês e francês. Na época, ela tinha somente 19 anos.

“Joan of Ark

Warrior queen

Loved herself

Witch”

"The Divine Victim"

“Leaving Nadir” o Witchfynde decide tirar o pé do freio, decide tirar um pouco do peso da música do início ao fim, mas fazendo alternâncias, variações rítmicas bem solares (se é possível) entre passagens mais intensas e amenas, lembrando, em dado momento, uma música progressiva bem elaborada e versátil. A música fala de um ritual.

"Leaving Nadir"

“Gettin’ Heavy” traz à tona novamente o heavy rock pesadão mesclado ao hard rock setentista que capitaneou basicamente o álbum inteiro, com riffs de guitarra bem agressivo e melosos, com bateria marcada e pesada, um baixo pulsante. Enfim uma música de banda onde todos os músicos participam intensamente e mesmo grau de importância.

"Gettin' Heavy"

Já a faixa título “Give ‘Em Hell” tem a cara, o DNA do heavy metal, com riffs de guitarra matadores, veloz, pesado, agressivo, típico dessa música, com o vocal rasgadão, mais despretensioso.

"Give'Em Hell"

A faixa “Unto The Ages of The Ages” muda totalmente o sentido das coisas no álbum trazendo uma faixa totalmente progressiva, diria um dos primórdios do metal progressivo está nesta música. Nela se percebe uma aposta em alternância das dinâmicas e uma estrutura mais intrincada, complexa, mas o peso está lá com lindos solos de guitarra e vocais mais inspirados.

"Unto The Ages of the Ages"

E finaliza com “Pay Now Love Later” de forma empolgante, com uma mescla que permeou por todo o álbum: do hard rock com o heavy metal. Pesada, animada, solos desconcertantes de guitarra, a cozinha mandando muito bem, tudo conspirou a favor nessa faixa que encerra “Give ‘Em Hell”.

"Pay Now Love Later"

“Give ‘Em Hell” não teve grande repercussão, não foi um sucesso comercial do Witchfynde, mas a banda atingiu os status de cult sobretudo pela sua condição de precursora do estilo, sobretudo pela sua miscelânea sonora, explorando o hard setentista, cuja cena fez parte também, haja vista que fora formada em 1974. Alguns críticos consideram “Give ‘Em Hell”, do Witchfynde, como uma pedra fundamental do heavy metal, apesar de bandas mais famosas como Motorhead e Judas Priest terem a coroa do pioneirismo.

Embora alguns contemporâneos como Venom e Angel Witch ecoassem esse estilo mais pesado aliando ao occult rock, o Witchfynde traz, em suas composições “fetiches” ao rock progressivo e ao rock psicodélico, o que não é, de fato, uma grande novidade, haja vista que muitas bandas já faziam isso, como o Rush, por exemplo. Um álbum de 1980 com vertentes clamorosas de hard rock, rock progressivo, rock psicodélico, com uma manta de heavy metal. Esse é o “Give ‘Em Hell”!

A banda ganhou, apesar do fracasso das vendas de seu debut, certa exposição quando fez, na Inglaterra, uma turnê com o Def Leppard em 1980, mas ainda assim caiu no ostracismo da indústria fonográfica não entrando no rol das grandes bandas que ostentaram o sucesso comercial.

As mudanças na formação aconteceram de novo após o lançamento de “Give ‘Em Hell” saindo Andro Coulton e entrando Peter Surgey em seu ligar. Apesar de todos esses entraves o Witchfynde conseguiu lançar um segundo álbum, um pouco mais experimental, chamado “Stagefright”, mas isso já outra história.




A banda:

Steve Bridges no vocal

Montalo na guitarra

Andro Coulton no baixo

Gra Scoresby na bateria

 

Faixas:

1 - Ready to Roll

2 - The Divine Victim

3 - Leaving Nadir

4 - Gettin' Heavy

5 - Give 'em Hell

6 - Unto the Ages of the Ages

7 - Pay Now Love Later


 

"Give 'Em Hell" (1980)


























 




quinta-feira, 11 de junho de 2020

Pythagoras - Journey To The Vast Unknown (1980)


Não sou apreciador da música eletrônica, sobretudo com essa proposta dos dias atuais. Sou adepto da música “orgânica”, com os músicos em palco mostrando todo o seu esforço em elaborar a sua musicalidade com os seus instrumentos, extraindo deles o seu melhor. 

Talvez seja um argumento um tanto quanto ortodoxo ou convencional, mas essa é a minha concepção sobre música. Essa banda que abordarei é conhecida por executar um progressivo eletrônico com o pilar sonoro baseado em sintetizadores, teclados e bateria. 

Não sou o mais adequado para tecer comentários técnicos sobre música, sou movido por emoções que a música me provoca, e dessa forma falo sobre elas, mas não consigo ouvir na música da banda holandesa PYTHAGORAS em seu primeiro álbum, chamado “Journey To The Vast Unknown”, de 1980, como progressivo eletrônico. 


Vejo e ouço um trabalho arrojado e desafiador que entrega uma verdadeira sinergia sonora, capitaneada pelas teclas dos sintetizadores, que é basilar do mais puro e genuíno rock progressivo. Não podemos confundir música eletrônica com recursos eletrônicos extraídos de instrumentos, como é o caso do PYTHAGORAS.

É evidente que bandas como Tangerine Dream e Kraftwerk, por exemplo, trouxe o pioneirismo do uso dos sintetizadores à música, mas o Pythagoras trouxe mais sensibilidade a proposta, mais complexidade, mais dramaticidade. 

“Journey To The Vast Unknown” traz o protagonismo dos teclados e dos sintetizadores, mas também enaltece, com qualidade, o rock progressivo e o space rock, em todas as suas concepções. Assim se prossegue o álbum. É belo, é viajante, mostrando que, apesar de ter sido lançado no primeiro ano da década de 1980, considerada, mercadologicamente falando, um período sombrio para o rock progressivo. 

A formação do Pythagoras se inicia em uma loja de discos na Holanda, na cidade de Haia, chamada Moonlight Records, no final dos anos 1970. O proprietário era o baterista Bob de Jong que havia tocado em bandas locais como Key, Pine-Apple e também era baterista de estúdio da gravadora holandesa Phongram. 

Um dos visitantes assíduos da loja era o tecladista René de Haan, que sempre comentava de ambiciosos projetos de fazer música com base nos sintetizadores. Seu quarto, na casa de seus pais, era o seu QG (Quartel General) e estava repleto de instrumentos musicais como o Korg MS 20 e o sintetizador “trilogy”, um piano digital Roland, um conjunto de cordas Solina e um sequenciador digital Firstman 1024. 

Rene de Haan e Bob de Jong

Bob ficou animado e se deixou levar pelo sonho do jovem René, de apenas 19 anos, levando ao lançamento do álbum “Journey To The Vast Unknown”, de 1980, alvo da resenha de hoje. Teve, à época, uma prensagem privada de  apenas 500 cópias. Bob enviou alguns LPs promocionais para alguns DJs conhecidos como Wim Van Putten, Skip Voogd e Frits Spits. 

Em pouco tempo, a novidade: Sua caixa de correio estava cheia de cartas de todo o país de interessados e fãs pela sua música de sintetizador. “Journey To The Vast Unknown” começa com a faixa título, uma suíte, dividida em quatro fragmentos, totalizando pouco mais de 18 minutos: uma música complexa, introspectiva, melódica, convincente, hipnotizante, viajante com suaves e lentos conjuntos de sintetizadores, com a vivacidade da bateria, a simbiose entre sintetizadores, mellotron e bateria é algo maravilhoso nesta faixa, um prog rock com space rock elevado à potência cósmica e de muita qualidade. 

"Journey to the Vast Unknown Part I and II"

"The Journey to the Vast Unknown Part III and IV"

Na sequência tem “In To The In” traz uma introdução mais soturna e contemplativa, claro, dos sintetizadores, entrando o teclado em uma espécie de prog sinfônico mais introspectivo, com a bateria trazendo uma base mais densa. 

E finalmente fecha com a excelente “When It Comes” que parece fazer com sua alma se desprenda do corpo e se põe a vagar, a voar sem destino. Um coro se faz ouvir, o único e breve momento em que se ouve vocais, com teclados delicados e poderosos, ao mesmo tempo, que te estimula a assobiar instintivamente seguindo o ritmo. 

Tudo conspirava a favor: piano, teclados, sintetizadores e a bateria, entrando em seguida, vagarosa, soft, lenta. Linda faixa para fechar um álbum fantástico, emocionante e que entrega ao público a corroboração de que música precisa de músicos inspirados e arrojados, a música orgânica com recursos eletrônicos que se complementam em uma convergência sonora. 

“Journey To The Vast Unknown” foi relançado  algumas vezes e, em alguns momentos, vendidos por cerca de 5.000 cópias, o que é incrível para uma proposta pouco ortodoxa, como o uso predominante de sintetizadores.




A banda:

Bob de Jong na bateria, percussão e sinos tibetanos.
René de Haan nos sintetizadores, strings, sequencer, mellotron e piano.


Faixas:

1 - Journey to the Vast Unknown parte I
2 - Journey to the Vast Unknown parte II
3 - Journey to the Vast Unknown parte III
4 - Journey to the Vast Unknown parte IV
5 - In to the In
6 - When it Comes 



"Journey to the Vast Unknown" (1980)


quinta-feira, 21 de maio de 2020

Atomic Rooster - Live At The Marquee (1980)


O ano era 1973. A banda britânica Atomic Rooster gravava o seu último álbum de estúdio, “Nice ‘n’ Greasy”, que tinha na formação a espinha dorsal da banda e seu único fundador, o tecladista Vincent Crane, e o versátil e grandioso vocalista Chris Farlowe. 

Nesse período, considerada a de ouro da banda, entre 1970 e 1973, o "Galo Atômico" contou com muitas idas e vindas de músicos, um verdadeiro rodízio que, de certa forma, foi interessante para essa curta, mas significativa história discográfica do Atomic Rooster, pois produziu álbuns que flertou do hard rock, prog rock ao soul e blues. 

Porém, nesse período, do lançamento do “Nice ‘n’ Greasy”, a banda estava um tanto quanto cansada, descaracterizada, inclusive este último trabalho, apesar de razoável, não estava à altura dos álbuns anteriores, embora esta mesma formação tenha sido responsável pela criação do muito bom “Made in England”, de 1972, com exceção do baterista Ric Parnell que participou de “Nice ‘n’ Greasy”. Tanto que a banda parou, finalizou as suas atividades para retornar em 1980, quando Du Cann, o guitarrista, e Vicent Crane, o tecladista, decidem reestruturar a banda, após um hiato de longos sete anos. Convoca o experiente baterista Preston Heyman e grava o sexto álbum de estúdio com o nome “Atomic Rooster”, em 1980. 


Entrando na nova onda do heavy metal britânico, a New Wave of a British Heavy Metal, a banda decide tocar ainda mais pesado, com mais agressividade, mais um ponto de reinvenção da banda, capitaneado por Crane e sem sombra de dúvida o guitarrista John du Cann que traz, em seu DNA, o peso do hard rock e que provou isso no próprio Atomic Rooster, no segundo trabalho da banda: "Death Walks Behind You", de 1970.

Atomic Rooster em 1970

Claro que tais propostas sempre foi o cerne do Atomic Rooster, mas, mais uma vez, em sua inquietude criativa, Crane e Cann não se ancoraram em estereótipos, embora o ano, 1980, tenha caracterizado o "boom" do heavy metal, sobretudo londrino e o trabalho do Atomic Rooster seja fortemente inspirado no peso do heavy metal. 

O álbum também não foi tão bem recebido pela crítica e pelos fãs mais conservadores da banda, mas sim, é um grande e subestimado álbum. Contudo, essa “nova” vertente da banda não se limitou ao estúdio. O Atomic Rooster sempre, apesar dos rodízios, contou com músicos de excelente qualidade e que gozava de grande virtuosidade em suas exibições ao vivo, reproduzindo neles, a proposta concebida no estúdio quando gravou “Atomic Rooster”. 

Ainda em 1980, a banda se apresentou no lendário Marquee Club, em Londres e nele se percebe a agressividade, a nova vertente do Atomic Rooster, com clássicos setentistas de sua áurea fase sendo executada de uma forma avassaladora, poderosa e visceral. Esse registro ao vivo, alvo dessa resenha, definitivamente é um obscuro trabalho da banda e surpreende pela intensidade e força do Atomic Rooster que voltaria a todo o vapor. 

Mas nessa apresentação, como de costume, tem uma nova (velha) formação. O baterista, Preston Heyman, que participou da gravação do até então novo álbum de estúdio, sai da banda e dá lugar ao velho dono do posto, o excelente Paul Hammond. 

Talvez a intenção de Crane era voltar as origens, trazer as raízes clássicas do Atomic Rooster e que foram responsáveis por entregar ao mundo uma pérola da história do heavy rock chamada “Death Walks Behind You”, de 1970, por exemplo. Claro que com Hammond esse registro ganhou em brilhantismo. 

John du Cann, John Hammond e Vincent Crane

Uma curiosidade sobre esse show é que não existiam gravações conhecidas da mesa de som ao vivo da linha de 1980, as fitas cassetes faziam parte dos arquivos pessoais de John du Cann e foi, de certa forma, com o lançamento, em um formato quase que em bootleg, dado a algumas imperfeições na qualidade da produção, responsável pelo retorno do Paul Hammond. 

E pasmem, amigos leitores, o show foi gravado por intermédio de um único microfone no palco! Inacreditável como conseguiu captar tanta energia de uma banda como o Atomic Rooster. Essas gravações foram as últimas ao vivo dessa formação clássica, com Du Cann, Crane e Hammond feitas no Marquee Club, onde tocavam regularmente. 

Era um Atomic Rooster puro, genuíno, sem filtros, energética, a versão power trio de outrora, com a roupagem heavy metal que faria, facilmente, qualquer headbanger balançar incessantemente a cabeça. Era o tecladista Vincent Crane, era o guitarrista John du Cann e o baterista Paul Hammond, afinal de contas. 

O line up trazia músicas dos primeiros trabalhos da banda e outras mais recentes à época. A começar com “They Took Control Of You” que é um verdadeiro petardo que faria qualquer banda heavy metal dizer “amém”, peso e agressividade são as palavras que definem. 

"They Took Control Of You", do álbum "Atomic Rooster", de 1980

Na sequência tem o hino “Death Walks Behind You” que, além de manter aquele clima sombrio, é encorpada por uma tensão sonora pesada e ameaçadora, mais rápida e veloz também. “Watch Out!” traz de volta a pegada heavy rock, com muita velocidade e intensidade, um show à parte no quesito instrumental. “Tomorrow Night” surge na sequência, o clássico da banda, bem viva e rejuvenescida, mas com aquela inevitável vontade de dançar.

 "Death Walks Behind You" - "Live at The Marquee", de 1980

“Seven Lonely Streets” ressuscita o Atomic Rooster setentista, um poderoso hardão. “Gershatzer” traz uma eficácia ao set, carismática e poderosa, cativa aos fãs apreciadores do estilo mais hard n’ heavy. “I Can’t Take No More”, outra clássica, segue a mesma proposta da faixa anterior, é excelente ao vivo, ganha mais força e peso, em qualquer época.


 "I Can't Take No More", live at Beat Club, 1971

“In The Shadows” é igualmente avassalador, um heavy metal vanguardista e que podemos dizer ter sido a pedra fundamental para o estilo, sem sombra de dúvida. Outro clássico que ganhou uma bela roupagem foi “Devil’s Answer” com guitarras estridentes, vocais rasgados e teclados ao nível patológico do frenesi. 

"Devil's Answer", live at Top of the Pops, 1971

Fecha com “Do You Know Who’s Looking For You?” que já entrega com um riff pesado no início e diria, sem medo, que tem uma levada punk, suja e despretensiosa. 

"Do You Know Who's Looking for You?", do registro ao vivo "Live at The Marquee"

Assim é “Live at Marquee Club”, um Atomic Rooster sujo, rasgado, agressivo, poderoso, uma, até então, nova faceta, que revelava o que sempre foi o Velho Atômico. Pesado e arrogante!

“A banda consumiu tanta energia que, imediatamente ao sair do palco, eles entraram em colapso, e que o pensamento de um bis era incapacitante”.

John du Cann




A banda:

Vincent Crane nos teclados
John du Cann na guitarra e vocal
Paul Hammond na bateria e percussão

Faixas:

1 - They Took Control Of You
2 - Death Walks Behind You
3 - Watch Out!
4 - Tomorrow Night
5 - Seven Lonely Streets
6 - Gershatzer
7 - I Can’t Take No More
8 - In The Shadows
9 - Devil’s Answer
10 - Do You Know Who’s Looking For You?