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domingo, 1 de maio de 2022

Guru Guru - Live Essen (1970)

 

O ano era 1968, Alemanha Ocidental. A cena contracultural alemã conhecida como “Krautrock”, que antes da música eram grupos de hippies insatisfeitos com a sociedade germânica conservadora no pós guerra e seus comportamentos e que logo buscaram na cultura musical minimalista a sua forma de comunicar-se e traduzir as suas mensagens começava a se manifestar.

Bandas começaram a surgir dessas comunidades, a cena era um embrião. Bandas como Kraftwerk, Can e Amon Duul II eram os expoentes, os precursores, com as suas músicas experimentais, psicodélicas, lisérgicas e de difícil digestão para uma sociedade que ouvia basicamente os enlatados pop dos Estados Unidos.

Mas o miolo de outra grande banda que representaria, com maestria, a cena krautrock na Alemanha viria com a reunião de dois amigos, o baterista Mani Neumeier e o baixista Uli Trepte que se conheceram em 1963 e se juntaram a uma banda de jazz que se chamava Irene Schweizer Trio, da pianista suíça Irene Schweizer.


Irene Schweizer Trio com o álbum "Jazz Meet India", de 1967

Em 1968 quando Irene seguiu seu próprio caminho e o Trepte mudou para o baixo o “Guru Guru Groove” foi formado calcado nas experimentações e improvisações jazzísticas que aprenderam no passado com a banda da pianista suíça Irene Schweizer mais o vigor e o peso do rock n’ roll e algumas pirotecnias oriundo da energia do baterista Mani e o talento de Tepte.

Com o conceito formatado e algumas mudanças na formação eles se juntaram ao ex-guitarrista do Agitation Free, Ax Genrich e definiram que essa era a formação ideal para um tipo de apresentação ao vivo pautado na energia no palco e que Genrich correspondia plenamente e o nome da banda foi encurtado para GURU GURU.

Guru Guru

Seu primeiro contrato com uma gravadora já, claro, com o intuito de registrar o seu primeiro trabalho foi com a gravadora Ohr que à época era conhecida por recrutar bandas e músicos com uma sonoridade de vanguarda, entrando aí a cena krautrock.

E foi assim que surgiu o debut do Guru Guru chamado “UFO”, de 1970. O nome do álbum é uma clara alusão a sonoridade incomum da banda que trazia uma sonoridade selvagem, forte, eloquente, calcada na guitarra com efeitos eletrônicos arrojados, como pedais de wah wah, tendo a psicodelia como ponto forte e um hard rock intenso para a época, além da inventividade de Neumeier e do baixista Trepte.

Guru Guru - "UFO", de 1970

As apresentações eram intensas e indulgentes, beirando a agressividade, a potência e a energia de seus integrantes e tido como uma aberração entre até mesmo entre os colegas de outras bandas, sem contar que tinha manifestações políticas e filosóficas, típicos da cena kraut, pois os músicos faziam parte da União Socialista Alemã de Estudantes e fizeram muitos shows nas universidades, divulgando bem “UFO”.

E diante desses vários shows em universidades, em faculdades e também em eventos estudantis, o álbum do Guru Guru, o “UFO”, alçou voos, com o perdão da analogia, ganhando alguma credibilidade e visibilidade. Esse reconhecimento se deu com um convite que a banda recebeu para tocar no 3º Pop & Blues Festival de Gruga-Halle, realizado em Essen, na Alemanha, entre os dias 22 e 25 de outubro de 1970. O Guru Guru tocaria no último dia do festival, 25 de outubro.

Festival de Essen, Alemanha, de 1970

Certamente esse foi o primeiro e mais representativo show do jovem Guru Guru e que traria muita publicidade para os meninos da banda que tocaria nada menos com bandas do naipe de Taste, Fotheringay, East Of Eden e Tyrannosaurus Rex no palco principal, no mesmo dia, mas não no mesmo palco, mas tocaria, em um palco pequeno lateral, com as bandas alemãs como Frumpy, Embryo. Já era muito! 

E essa apresentação teve um registro e que foi lançada apenas em 2003 pela abnegada gravadora Garden of Delights com o título de “Guru Guru – Live at Essen 1970” e é esse álbum que será alvo de resenha hoje. Vale dizer também que a criação da Garden of Delights foi feita com a reincidência de alguns executivos da Ohr que havia gravado o primeiro álbum de estúdio do Guru Guru. Nem tudo é coincidência ou destino!

A qualidade sonora de “Live Essen” é muito boa, pois, como reza a lenda que as músicas, a apresentação foi gravada diretamente da mesa de som do show, sendo o álbum gravado e registrado por intermédio dessa gravação.

A Garden of Delights tem um histórico de gravar shows e/ou pequenas apresentações das bandas alemãs e esse show do Guru Guru em especial traz um caráter de bootleg, mas que, de alguma forma, entrega toda uma estrutura técnica de gravação e de lançamento oficial, sobretudo nos dias de hoje que muitas bandas estão lançando seus materiais antigos para fugir das piratarias.

“Live Essen” é histórico por ter sido um dos primeiros shows do Guru Guru com a formação original, que gravou o seu primeiro álbum, “UFO”, o que torna esse registro memorável e importante, uma das primeiras aparições ao vivo de uma das mais emblemáticas bandas da cena kraut, do rock alemão, o Guru Guru.

O registro ao vivo conta com apenas três músicas, mas músicas com aquele estilo que fez do Guru Guru importante na cena, com muita improvisação instrumental, com faixas longas e uma energia incomum para as bandas da época que pautavam na introspecção do experimentalismo. O Guru Guru era intenso, era forte e trouxe ao kraut o prog com viés hard e “Live Essen” entregava definitivamente.

O álbum é inaugurado com a faixa do álbum “UFO”, “Stone In” que já começa lisérgica aliado a um peso calcado na bateria firme de Mani Neumeier e a guitarra dilacerante de Genrich com uma textura distorcida e perturbadora. É o momento em que a banda está solta para liberar seu processo produtivo e criativo, estavam no auge e essa faixa diz tudo. Repleta de viradas sensacionais e momentos rítmicos pesados e leves. Incrível!

Guru Guru - "Stone In", Live Essen 1970

Na sequência tem a clássica, também do álbum “UFO”, “Der LSD-Marsch”. Ela começa obscura, intimista, ameaçadora. Um exemplar típico de psicodelia totalmente experimental e minimalista que remete, com fidelidade sonora, ao conceito do krautrock. Pode-se notar também “pitadas” generosas de space rock dado as grandes doses dos efeitos da guitarra, mas que, gradativamente vai ficando pesada, intensa e agressiva graças a, mais uma vez, a bateria de Mani e os solos e riffs de guitarra de Genrich.

Guru Guru - "Der LSD Marsch", Live Essen 1970

E fecha com a até então faixa nova, que seria lançada um ano depois desse show, em 1971, com o clássico segundo álbum do Guru Guru, a fantástica e animada “Bo Diddley”, do excelente “Hinten”, cuja resenha pode ser lida aqui. Essa começa com a porradaria na bateria de Neumeier e também aquela dose de humor sarcástico que notabilizou na Alemanha o Guru Guru. E entra o baixo pulsante fazendo da “cozinha” uma sinergia sonora perfeita, dando o tempero com a guitarra rosnando em riffs poderosos e agressivos. Definitivamente um exemplar de proto metal, dada a intensidade em que a música foi executada ao vivo, ganhando vida maior.

Guru Guru - "Bo Diddley", Live Essen 1970

“Live Essen” corrobora, em minha humilde opinião a melhor fase do Guru Guru, o power trio que era caracterizado por Tepte, Genrich e Neumeier, a formação que construiu a “era” gloriosa da banda, mais calcada no peso lisérgico, no hard progressivo, aliado a despretensão, a energia, a atmosfera agressiva e por vezes experimental, com o space rock protagonizando. Foi nessa fase que o Guru Guru construiu a sua discografia mais representativa, com “UFO”, “Hinten” e, mais tarde, o excepcional “Kanguru”, lançado em 1972. 

“Live Essen” é a personificação dos anos dourados do Guru Guru, o ápice da representatividade do krautrock menos ortodoxo e extremamente versátil e diverso. Há quem diga que a última faixa, “Bo Diddley” foi cortada, talvez por algum problema técnico ou de ordem organizacional do festival, mas o fato que isso não influencia negativamente em nada o registro mágico de uma banda espetacular ao vivo em pouco menos de 40 minutos. Altamente recomendado!



A banda:

Ax Genrich na guitarra

Mani Neumeier na bateria e vocal

Uli Trepte nos vocais e baixo


Faixas:

1 - Stone In

2 - Der LSD-Marsch

3 - Bo Diddley

 

























sábado, 25 de dezembro de 2021

Guru Guru - Hinten (1971)

 


Meus amigos, hoje eu estou em um clima mais hard, mais fiquem calmos, estou em um clima mais hard e progressivo também e desde já falarei de uma banda seminal, poderosa e se não foi pioneira do hard progressivo, foi àquela banda que aperfeiçoou o subgênero, sem sombra de dúvida. Falo do grande GURU GURU e de seu freak, louco e poderosíssimo álbum “Hinten" e sua capa no mínimo inusitada, de 1971. 


Guru Guru sem dúvida foi uma banda inovadora e apesar de ter bebido da fonte do krautrock, um filho da cena, foi além do kraut e inseriu mais peso ao seu som, aliado ao rock progressivo com muita jam sectionO miolo do Guru Guru viria com a reunião de dois amigos, o baterista Mani Neumeier e o baixista Uli Trepte que se conheceram em 1963 e se juntaram a uma banda de jazz que se chamava Irene Schweizer Trio, da pianista suíça Irene Schweizer.


Irene Schweizer Trio com o álbum "Jazz Meets India" (1967)

Em 1968 quando Irene seguiu seu próprio caminho e o Trepte mudou para o baixo o “Guru Guru Groove” foi formado calcado nas experimentações e improvisações jazzísticas que aprenderam no passado com a banda da pianista suíça Irene Schweizer mais o vigor e o peso do rock n’ roll e algumas pirotecnias oriundo da energia do baterista Mani e o talento de Tepte.

Com o conceito formatado e algumas mudanças na formação eles se juntaram ao ex-guitarrista do Agitation Free, Ax Genrich e definiram que essa era a formação ideal para um tipo de apresentação ao vivo pautado na energia no palco e que Genrich correspondia plenamente e o nome da banda foi encurtado para Guru Guru.

Guru Guru

Seu primeiro contrato com uma gravadora já, claro, com o intuito de registrar o seu primeiro trabalho foi com a gravadora "Ohr" que à época era conhecida por recrutar bandas e músicos com uma sonoridade de vanguarda, entrando aí a cena krautrock.

E foi assim que surgiu o debut do Guru Guru chamado “UFO”, de 1970. O nome do álbum é uma clara alusão a sonoridade incomum da banda que trazia uma sonoridade selvagem, forte, eloquente, calcada na guitarra com efeitos eletrônicos arrojados, como pedais de wah wah, tendo a psicodelia como ponto forte e um hard rock intenso para a época, além da inventividade de Neumeier e do baixista Trepte, além de Ax Genrich, adicionado a banda para tocar guitarra.

"UFO" (1970)

As apresentações ao vivo eram intensas e indulgentes, beirando a agressividade, a potência e a energia de seus integrantes e tido como uma aberração até mesmo entre os colegas de outras bandas, aguçavam as manifestações políticas e filosóficas, botando, ainda mais, lenha na fogueira. Os músicos faziam parte da União Socialista Alemã de Estudantes e fizeram muitos shows nas universidades, divulgando bem “UFO”.

E diante desses vários shows em universidades, em faculdades e também em eventos estudantis, o álbum do Guru Guru, o “UFO”, alçou voos, com o perdão da analogia, ganhando alguma credibilidade e visibilidade. Esse reconhecimento se deu com um convite que a banda recebeu para tocar no 3º Pop & Blues Festival de Gruga-Halle, realizado em Essen, na Alemanha, entre os dias 22 e 25 de outubro de 1970. O Guru Guru tocaria no último dia do festival, 25 de outubro.


Festival de Essen, Alemanha (1970)

Certamente esse foi o primeiro e mais representativo show do jovem Guru Guru e que traria muita publicidade para os meninos da banda que tocaria nada menos com bandas do naipe de Taste, Fotheringay, East Of Eden e Tyrannosaurus Rex no palco principal, no mesmo dia, mas não no mesmo palco, mas tocaria, em um palco pequeno lateral, com as bandas alemãs como Frumpy, Embryo. Já era muito! 

E essa apresentação teve um registro e que foi lançada apenas em 2003, pela abnegada gravadora Garden of Delights, com o título de “Guru Guru – Live at Essen 1970”, cuja resenha pode ser lida aqui.

A banda voltaria para o estúdio para gravar "Hinten", em 1971. A banda neste álbum esteve certamente em seu auge criativo, um total desprendimento do mainstream que só restringe o músico e as bandas, dando asas a criatividade, sendo despretensioso em sua sonoridade. 

O álbum é o suprassumo do peso, da distorção, da viagem progressiva, uma referência do estilo, mas que, por outro lado, não atingiu a credibilidade que merecia. É referência, mesmo desconhecido, pelo fato de poucos abnegados e apreciadores do prog obscuro conhecerem este e a toda a discografia do Guru Guru e divulgarem a obra, a obra vive por causa dessas pessoas, o fã torna a obra uma referência.

“Hinten” teve como engenheiro de som o ícone do kraut Conrad Plank além de ser produzido pela própria banda, mostrando já, mesmo que no início de sua carreira, a diretriz musical que determinara para a sua história. A banda em “Hinten” era formado por: Ax Genrich na guitarra e vocal, Uli Trepte no baixo e vocal e Mani Neumeier na bateria e vocal.

Guru Guru em 1971

Conny Plank

Um power trio que fez desse álbum um petardo instrumental. Ele começa com a faixa “Electric Junk” uma porrada ao estilo Hendrix de ser, com levadas de jazz fusion e pitadas de space rock, um som apocalíptico de respeito.

"Electric Junk" 

Segue com mais um petardo com “The Meaning Of Meaning” com destaque para a bateria de Mani e os riffs e solos de guitarra de Ax Genrich. É desolador, uma pancada sonora digna de abalar qualquer estrutura certinha e enfadonha da música pop. 

"The Meaning of Meaning"

Continua com a excelente e divertida “Bo Diddley” com uma pegada mais hard do que progressiva, arrebentando tudo que vê pela frente. E fecha com “Space Ship” com uma tendência mais para o hard e space rock, mas sem a adição de sintetizador ou teclado, a sonoridade sideral é extraída da guitarra de Ax, um verdadeiro primor, um talento, uma criatividade exacerbada que mostra uma banda livre para criar, a liberdade criativa do Guru Guru fez da banda, uma das mais conhecidas da Alemanha em sua geração.

"Bo Diddley

“Hinten” é um clássico do hard prog, uma pérola que serviu de influência para bandas como Rush que é tão clássica quanto o Guru Guru e as mais atuais como Earthless por exemplo. Que bom ouvir e ver um pouco do Guru Guru nascer e viver em outras bandas. Bandas como Guru Guru e discos como “Hinten” dignificam e perpetuam o rock progressivo.



A banda:

Ax Genrich na guitarra e vocal

Uli Trepte no baixo e vocal

Mani Neumeier na bateria e vocal


Faixas:

1 - Electric Junk

2 - The Meaning Of Meaning

3 - Bo Diddley

4 - Space Ship