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sábado, 4 de abril de 2026

Grit - Grit (1972)

 

Hornsey, Inglaterra, segunda metade dos anos 1960. Das cinzas da banda Merlyn, nasceria a banda GRIT. O Grit trazia, em sua formação, Frank Martinez, na guitarra solo e vocais, Paul Christodoulou no baixo e vocais, Tom Kelly, na bateria e vocais e Jeff Ball, o vocalista principal.

A origem do nome “Grit” veio, como todas as ideias, de lampejos, de “surtos” criativos. Michael, um antigo membro da banda, estava, juntamente com Frank Martinez, andando pelas ruas de Londres e avistaram uma lixeira, onde é armazenada areia que é usada em estradas geladas, com neve e a partir daí veio o estalo: “Grit”! No dia 20 de outubro de 1970 foram ao cartório para registrar o nome.

As origens dos membros do Grit vieram, claro, de outras bandas. O início da carreira musical de Martinez foi com um teste para Joe Meek em seu estúdio na Holloway Road. Mais tarde ele também tocou com uma banda chamada Grand Union, que abriu para o Pink Floyd em 1968 e com membros da John Dummer Band. O baterista Tom Kelly veio de uma banda chamada “Connexion” e Paul Christodoulou tocou no Merlyn juntamente com Frank, essa trazia a espinha dorsal do Grit. Além de Paul e Frank, a formação do Merlyn trazia George Panteli, na guitarra, John Stevens, nos teclados.

A formação definitiva do Grit nasceu quando Frank e Paul convenceram Tom Kelly a se juntar a eles. Foi difícil, no início, mas ele cedeu quando assistiram a um show da banda escocesa Nazareth. O vocalista Jeff foi o último a se juntar à banda quando esta colocou um anúncio na Melody Maker.

Grit

Diferente do que muitos pensavam à época o Grit não era um “power trio”. De fato, a banda, efetivamente, estava em três músicos, pois Jeff Ball, o vocalista principal, foi o último a entrar. Mas não se podia negligenciar a importância dos irmãos Russell para o Grit. John era um ótimo apoiador da banda, embora não tocasse nenhum instrumento, sempre ajudou no que fosse possível. Porém teve de se afastar quando se casou. Jimmy, seu irmão, assumiu o lugar de John, tornando-se roadie e técnico do Grit.

Agora com essa formação o próximo passo da banda seria, como todas as outras, ensaiar, compor material próprio e gravar um álbum para divulgar e viver da sua arte, da sua música. Cabe aqui uma curiosidade acerca do guitarrista Frank Martinez, já que mencionei sobre viver de música: Martinez, apelidado de "Spider", estudou eletrônica no Southgate Technical College e trabalhou na Nolan Amps e construiu um amplificador PA de 100W (chamado de Spider PA) e duas pilhas de alto-falantes, que mais tarde se tornariam parte do equipamento do Grit.

A gravação, realizada na SWM Studios, foi feita na hora, sem ensaios, apenas configurada e pronta, afinal, a banda não tinha grana para pagar por um longo tempo no estúdio. Eles fizeram isso pouco antes do natal, na véspera de natal e o engenheiro de som, no ritmo das festas natalinas, não se aplicou bem ao trabalho e reza a lenda que estava bêbado. Resumo: além do pouco tempo que o Grit tinha, praticamente concebeu o álbum sem amparo técnico. 

Nos LP's, a banda conseguiu encaixar todas as músicas de um lado, o engenheiro reduziu o nível do baixo. As fitas estavam de acordo. As músicas foram escritas pela banda, exceto "Mineshaft" (Tom), "Child and the Drifter" (Paul), "What do you see in my Eyes" (Frank) e "I wish I was" (Paul). Outra faixa escrita por Tom foi "Surrounded by Four Grey Walls" (não gravada).

“Grit”, o álbum ou melhor um rato acetato ou EP como foi lançado à época, basicamente traz um envenenado hard rock, aquele típico, mas inconfundível, hard rock dos anos 1970, porém com reminiscências do rock psicodélico, com guitarras lisérgicas e pesadas, com uma bateria furiosa, baixo pulsante e um vocal forte e direto. Um álbum do seu tempo, mas ainda assim não deixa de entregar grandes surpresas. Um álbum pesado, forte, volumoso, cheio de vida que nasceu e não ganhou o mundo, como tantos outros que, sem nenhum suporte, perece, não vinga. A falta de estrutura, de uma produção adequada, apenas realçou a volúpia de seu som, mostrando-se cru, arrogante e pesado.

O álbum é introduzido com a matadora faixa de “Mineshaft” que, como um trovão, começa com riffs pegajosos e pesados de guitarra que me remete a um heavy metal, um proto metal poderoso, com um vocal alto, gritado, em alguns momentos e até rouco. Bateria em uma batida forte, intensa, baixo pulsante, galopante. Os solos de guitarra se mostra psicodélico, ácido, mas logo se apura, fica mais alto e límpido trazendo aos tempos do hard rock dos anos 1970. Não há como ficar parado a essa hecatombe sonora.

"Mineshaft"

Segue com “The Child and the Drifter” que inicia mais discreta, com dedilhados de guitarra, mas foi por pouco tempo, a bateria anuncia mais uma força da natureza que varre tudo que está em sua frente. Ela é pesada, marcada, mas cheia de agressividade que encorpa a música, a deixando poderosa, pesada e totalmente despretensiosa. E tudo isso é confirmado pelos riffs de guitarra. Os vocais aqui estão mais contidos, mais discretos, mais apurados. Solos de guitarra variam entre o peso do hard rock e a lisergia do psicodélico. O que dizer do final? Pesada, um doce caos!

"The Child and The Drifter"

“What Do You See in my Eyes/I Wish I Was” começa atípica para o que se ouviu nas duas faixas iniciais. Guitarras dedilhadas, lembrando The Doors, vocais doces e baixos. Ao ouvi-la me remete imediatamente aos tempos do “flower power” dos anos 1960, com uma pegada meio folk, inclusive. Mas não se enganem, caros leitores, porque, logo irrompe em uma explosão de hard rock, mais uma vez, com destaque para a bateria pesada. A proposta da música é trazer variâncias rítmicas, pois, logo se ouve um belíssimo solo de guitarra com uma vibe mais blues, curto, mas viajante e lindo, mostrando que a banda é sim competente. O final é vibrante, intenso, revelando, ainda mais, a competência instrumental de seus músicos. O hard rock é o protagonista no derradeiro e espetacular final dessa faixa.

"What Do I See in My Eyes / I Wish, I Was"

“1000 Miles” começa pesada, a bateria é forte, intensa e caótica. A música, quando ganha velocidade, ganha corpo, peso, se mostra, se revela um verdadeiro proto metal. As arestas da heavy metal estão nas arestas sonoras, na melodia, na dramaticidade de seus instrumentos. Vocais gritados corroboram tal condição. Em determinados momentos ela se torna arrastada, agora percebe-se o proto doom, a sujeira do som. Espetacular!

"1000 Miles"

Segue com “Across the Windowsill” que é a faixa bônus do álbum, em virtude do seu relançamento. Essa faixa foi concebida quando a banda se chamava Merlyn e traz uma pegada mais garageira, com “pitadas” evidentes de uma psicodelia ácida e pesada, com riffs grudentos, mas pesados de guitarra, que confirmam a lisergia. Na sequência do relançamento do álbum traz a já citada por aqui, “What Do You See In My Eyes/ I Wish I Was” e fecha com a pesadíssima, e também já citada faixa que inaugura o álbum original, “Mineshaft”, aqui chamada de “Down in the Mine”. Para registro histórico vale e muito a pena a audição, sobretudo da avassaladora “Mineshaft”.

"Across The Windwsill"

O Grit, munido de seus acetatos de 12", gravadas em um lado só,  visitou alguns agentes musicais e selos em Londres, para tentar lançar seu material e partir para a turnê em divulgação de sua música, mas ninguém se interessou. Contudo enquanto procurava, um gerente, eles encontraram uma empresa que lhes garantiu uma turnê pela Grécia. Era a chance que precisavam, diante de um cenário de total descaso com a sua música. Eles tinham anunciado o seu álbum na famosa “Melody Maker” e essa empresa grega viu e decidiu entrar em contato.

Era a Mantas Production, do grego Kon Mantas! A banda aceitou a oferta e seguiu viagem para a Grécia em 23 de abril de 1973. Foi uma verdadeira aventura e a chance de que o Grit precisava para deslanchar a sua música. E a aventura já se deu na viagem! Cruzaram boa parte da Europa dentro de uma van e, claro, os problemas mecânicos com o carro apareceriam. Se perderiam também no caminho, mas, enfim chegaram.



Em Atenas a banda finalmente conhece Kon Mantas. Era um cara legal, mas não tinha tanta experiência como empresário ou nenhuma experiência. Colocou a banda em um apartamento. Ficaram bem instalados, mas não demorou muito para entrar em atrito com os moradores do prédio, por conta dos ensaios, e logo foram visitados pela polícia e intimados a sair do local. Mantas decidiu, diante disso, instalá-los em um hotel.

Sem muito trabalho, Kon Mantas começou a buscar outras alternativas para trazer um mínimo de renda para si e também para manter o Grit no hotel, pagando as suas diárias. A banda, consequentemente estava com dificuldades de descolar alguns shows. Mas não deixaram de se esforçar na incessante busca de shows, de apresentações e conseguiu alguns shows com as principais bandas de psych rock da Grécia, como Sócrates e Peloma Mpoklou em grandes festivais. Tocaram em um show pop diante de três mil pessoas. Era o auge para o Grit ou melhor do "Bomba", como ficou conhecida a banda em terras gregas. Tocaram também em um show, ao ar livre, no Palais des Sports Festival, Thessalonica. Eram sete mil pessoas. Estava indo bem, apesar de que, neste último show, o promotor não tenha feito o pagamento do cachê à banda. Mas pelo menos conseguiram se apresentar e mostrar a banda a uma multidão.

Apareceram na TV desta vez, no “Top of the Pops”. Um programa famoso e que muitas bandas emergentes tocaram. Os diretores pediram ao Grit para se posicionarem devidamente no palco, era um programa em que as bandas faziam “playback”, mas o Grit não obedeceu e pularam por todo o lugar. Tiveram alguma publicidade na revista “Fantasia”. Apareceram em outro programa de TV chamado “Golden Shot”, onde também tocaram “playback”. Foram quatro aparições na TV do Grit, no total.

Mas tudo tem um fim! O guitarrista e vocalista Frank Martinez recebeu a notícia, de sua mãe, que o seu pai estava gravemente doente. Ele precisava deixar a Grécia para voltar para Londres, mas a banda precisava conversar sobre isso e como no momento não estavam fazendo shows e consequentemente estavam sem dinheiro para se manter na Grécia. Então decidiu retornar à Inglaterra e os demais da banda retornariam duas semanas depois. A aventura durou de maio a julho de 1973. E no final de julho daquele mesmo ano o Grit optou por se separar. Esse era o fim da banda!

Frank Martinez

Martinez deixaria a música em 1974. Mudou-se para a Espanha e decidiu dedicar-se à eletrônica, no que estudou no passado, como autônomo, e com essa profissão aposentou-se. Ao se aposentar voltou a tocar novamente. O baterista Tom Kelly e o baixista Paul Cristodoulou, que tocaram juntos no Merlyn, formaram a banda “Kelly” e depois fizeram uma pausa e, nos anos 1980, Tom se juntaria à banda de heavy metal “Mean Machine”.

Tom se mudaria para Bournemouth e se concentrou na pintura. Ele ainda tem uma bateria em seu estúdio e toca praticamente todos os dias. Paul está atualmente no Chipre tocando com a banda “Reggae Rockers”. O vocalista Jeff continua sua carreira em Benidorm em uma banda de tributo aos Bee Gees.

As gravações e fitas do único álbum do Grit, de 1972, estavam prontas para serem descartadas pela família de Frank Martinez. Ninguém realmente queria aquelas coisas antigas ocupando espaço. Mas antes que isso acontecesse Frank mostrou seu LP, em 2019, para um amigo, fanático por rock e vinis, e ele recomendou que publicasse uma foto e as gravações no Facebook e na internet. O fez de forma totalmente despretensiosa, gostou de compartilhá-lo nas redes sociais, ferramenta esta que não era tão próximo.

E para a sua surpresa veio o primeiro contato da Alemanha comentando que havia comprado um dos acetatos do Grit em um mercado de pulgas e perguntou se poderia usar o material. Martinez não hesitou e autorizou que os usasse. Algum tempo depois um representante da gravadora Guerssen entrou em contato interessado em relançar o álbum. Dessa vez de forma oficial, depois de quase cinquenta anos de sua gravação. Que sorte Martinez não ter descartado as gravações! Então esta foi cedida para o selo que o relançou em 2020. A outra cópia do acetato original, pode ser encontrada em “7001 Record Collector Dreams”, de Hans Pokora, com um ponto máximo dado por raridade. Afinal havia apenas duas cópias pressionadas! Convém lembrar também que tal trabalho foi relançado por selo brasileiro Hellion Records em 2023.

Uma história cheia de aventuras, repleta de obstáculos e muito amor à música, digna de cinema e que mostra uma música forte, intensa, pesada. Uma joia escondida do rock n’ roll que depois de quase meio século na mais pura e genuína obscuridade ganha luz para deleite daqueles que desbravam o lado underground da música de que tanto amamos.





A banda:

Frank Martinez na guitarra e vocal

Paul Christodoulou no baixo e vocal

Tom Kelly na bateria e vocal

Jeff Ball no vocal

 

Faixas:

1 – Mineshaft

2 – The Child and The Drifter

3 – What Do You See In My Eyes / I Wish I Was

4 – 1000 Miles

5 – Across The Windowsill (Merlyn) – Bonus Track

6 - What Do You See In My Eyes / I Wish I Was – Bonus Track

7 – Down In The Mine (Mineshaft) – Bonus Track




"The Grit" (1972)





 




































quinta-feira, 19 de março de 2026

Jenghiz Khan - Well Cut (1971)

 

Sabe aqueles países totalmente inusitados para a cena rock n’ roll? Pois é, é para eles que eu venho mirando as minhas intenções para desbravar e, não se enganem, caríssimos leitores, há muito a encontrar por aí. As cenas podem ser incipientes em quesitos quantitativos, mas qualitativamente falando a situação muda! Há muito material de altíssima qualidade nos países pouco comentados e esquecidos pelo rock!

Então vale e muito o esforço em desbravar e conhecer tais bandas e álbuns e hoje eu pousei na Bélgica e encontrei um espetacular álbum e banda que merece a sua atenção, caro leitor. Como ela se chama? JENGHIZ KHAN! Mas são aquelas bandas que, como verdadeiros cometas, surgem, como uma força da natureza, gerando impacto, mas que, de forma efêmera, sucumbem, desaparecem.

O Jenghiz Khan surgiu, em 1970, no sul da Bélgica, a partir das cinzas do "The Tim Brean Group" e do "Les Partisans". A formação da banda consistia nos seguintes músicos: Tim Brean no piano, órgão, teclados e vocais, “Big” Frisma nas guitarras base, acústica e solo e vocais, Christian “Chris Tick” Servranckx na bateria, percussão e vocal e Pierre “Peter Raepsaet” Rapsat no baixo e vocais.

Jenghiz Khan

Rapsat foi o último músico a integrar o Jenghiz Khan. Ele veio de uma banda que acabara de lançar um álbum, de nome “Laurelie”. Nos anos 1960, Pierre havia feito parte da orquestra de dança chamado “Les Ducs”, porém em sua banda seguinte, a “Tenderfoot Kids”, onde tocou em quatro singles, revelou ser um excelente compositor.

"Laurelie" (1970)

O nome “Jenghiz Khan” foi escolhido pelo terror associado ao líder mongol e, de fato, essa banda de músicos furiosos, liderado por Friswa, teve impacto no público e incendiou as placas dos festivais onde se apresentavam.

Como todas as faixas do primeiro e único álbum do Jenghiz Khan, “Well Cut”, de 1971, já estava praticamente pronta, Rapsat ficou responsável apenas em tocar o seu instrumento, o baixo. Todos os membros da banda eram compositores, então não teve espaço para Pierre demostrar seus dotes de letrista. Mas se mostrou competente empunhando o baixo, trazendo a sonoridade da banda, algo muito atual.

Além dos músicos serem compositores o seu empresário, o conhecido jornalista de rock, da revista “Telemoustic” ou “TéléMoustique”, Pierre “Piero” Kenroll, ajudou a escrever todas as letras e uma música completa.

A capa deste único trabalho do Jenghiz Khan foi desenhada por Jamic, cartunista da TéléMoustique, apresentava as cabeças dos 4 músicos decapitados brandidas por um gigante e alcançou as melhores vendas belgas, algo que nenhuma banda local conseguia fazer há muito tempo.

E diante desse cenário, “Well Cut” foi lançado até rapidamente, pelo selo “Barclay”, com um som majoritariamente pesado, porém cheio de dinâmica, ou seja, vertentes progressivas, conferindo-lhe complexidade, mas com a capacidade única de ser orgânico, mostrando músicos competentes e técnicos, mas dando tudo de si de forma corporal!

Não sou muito afeito às comparações, mas o Jenghiz Khan, reflete muito a música de seu tempo, embora traga uma sonoridade bem atemporal, rasgando as gerações com muita destreza. Ao ouvir “Well Cut” percebe-se a sonoridade de bandas, das mais famosas, claro, como Uriah Heep, Vanilla Fudgie e Iron Butterfly. Mas como coloca-la em condições de inspirada, se esta surgiu praticamente ao mesmo tempo que as mencionadas? O sucesso de algumas diz muito sobre isso, mas não quero falar sobre isso, e sim do quão importante esse tipo de sonoridade foi nas transições das décadas de 1960 e 1970.

“Well Cut” imprime uma sonoridade que é calcada no riff pesado de guitarra e o bom e velho hammond, que muito me agrada e cativa, um heavy progressivo com pitadas psicodélicas generosas, que vai do sofisticado, complexo, sujo, primitivo e áspero. Uma música que se fazia em profusão no início dos anos 1970, mas com competência, criatividade e muita ousadia, pois não se rendiam as bandas ao estereótipo, afinal, era, diria, uma sonoridade que se descobria, se abrochava em experimentalismos e o Jenghiz Khan não fugia à regra. Era uma desbravadora de seu país, pouco conhecido na cena rock, mas que tinha um radar para o mundo.

O álbum começa com a faixa “Pain” que, um vocal, à capela, dá a introdução para a “cozinha” impor seu ritmo pesado, bateria marcada, agressiva, batida poderosa, baixo pulsante, hammond cheio de vivacidade, riffs de guitarra psicodélicos, mas que dá lugar ao violão e a uma balada. Seus quase oito minutos de duração entrega uma sonoridade repleta de mudanças rítmicas, mostrando o heavy prog muito bem executado. Na metade da música os riffs são mais agressivos e sujos, talvez o momento mais pesado da faixa, que logo se sucedem com solos mais pesados ainda. Música de tirar o fôlego!

"Pain"

Segue com a curta “Campus A”, mas que anima pela pegada meio bluesy, um blues rock bem solar com um vocal cadenciado e, por vezes, um pouco rasgado. É tão somente a guitarra e voz. Simples! Para dar entrada para a próxima faixa, “The Moderate” que inicia com um hammond um tanto quanto sombrio, mas que irrompe em um belicoso som de guitarra e bateria bem agressiva. O baixo dá o groove, o balanço e a cadência. Essa música mostra um Jenghiz Khan mais sofisticado, mas não menos pesado e arrogantemente agressivo. Aqui o vocal é mais potente e gritado e conduz a faixa ao que realmente entrega: peso, mas um peso aliado ao balanço, beira o dançante. Faixa animada!

"The Moderate"

Segue com “Campus B” que, entregando a continuação de “Campus A” traz o blues mais eletrificado, com uma pegada mais gospel evocando os primórdios do rock na sua versão mais primitiva. Não podemos negligenciar, claro, a veia blues rock. “The Lighter” começa acústica, dedilhados de violão torna algo mais pastoral, viajante, dando lugar ao hammond e uma bateria mais vagarosa. Eis uma balada com uma característica inteiramente psicodélica, mostrando um produto de seu tempo, verdadeiramente. O trabalho de vocalização me remete ao Uriah Heep nos seus primórdios e também o Vanilla Fudgie. E finaliza com o lindo e direto solo de guitarra!

"The Lighter"

“Hard Working Man” introduz com um solo de bateria e que já denunciaria o peso que viria pela frente! Um solo de guitarra flamejante, mas que logo cadencia, continuando a bateria como profundo destaque. Aqui nesta faixa o hard rock dá o tom, é o carro chefe. Direta, poderosa, intensa, riffs de guitarra se misturam ao toque cavalar como o baixo é conduzido. Traz a “cama” para a sonoridade acontecer, ser tão evidentemente característica.

"Hard Working Man"

Segue com “Mad Lover” que, mais uma vez, inicia, em uma pegada meio flamenca, acústica, meio folk. Aqui percebo que a banda volta aos anos 1960 com um beat psicodélico. O trabalho de vocalização se faz presente e é bem feito. A guitarra, já no fim da faixa, traz uma sonoridade estranha e experimental.

"Mad Lover"

E fecha com a épica “Trip to Paradise” que começa, mais uma vez, com o belo trabalho de vocalização e uma camada soturna de teclados que traz as lembranças psicodélicas. Mas logo termina, porque a explosão do hard rock se faz vivo e latente! Bateria com a já famosa batida pesada, o baixo com aquele groove arrebatador, galopante, por vezes, sem contar com o hammond que me lembrou algo mais sinfônico. Nessa faixa, no auge de seus mais dez minutos, traz de volta o heavy prog, e se mostra capaz de atrair o ouvinte com as inúmeras mudanças de andamento. É no mínimo catártico ouvir essa música. Hard rock, psicodélico e progressivo em um caldeirão de ingredientes misturados, sem nenhuma cerimônia em se rotular. A criatividade ditou as regras que, sem dúvida, faz dessa faixa uma das melhores do álbum! O final, com o solo de guitarra, é simplesmente de tirar o fôlego!

"Trip to Paradise"

Em sua história relativamente curta, o Jenghiz Khan construiu uma boa reputação de banda ao vivo, tocando em muitos festivais e shows. Podemos destacar, como os mais importantes quando dividiram o palco com: "Wallace Collection" (Puzzle P em junho de 1970), "Black Sabbath" (Rock Bilzen em agosto de 1970), "Yes" (Pop Hot Show Huy em 5 de setembro de 1970), "Stray" (Festival de Ghent em 28 de novembro de 1970), "The Tremelous" (Grand Place Ciney em 11 de julho de 1971) e "Genesis" no Festival de Jemelle em 8 de agosto de 1971.

Um segundo álbum estava sendo escrito, mas problemas surgiriam para a banda, culpa de uma cena belga muito restrita, que não permitia que seus músicos ganhassem vida com sua música, bem como também da onda “glam” que varreu o mundo, com furacões como David Bowie, T-Rex, Salde, Sweet entre outros. E o inevitável aconteceu: o fim do Jenghiz Khan, em 1972. Se há resquícios de composição musical que possa ser gravado em um futuro próximo, não sabemos. O fato é que precisamos esperar uma grande novidade a esse respeito! Quem sabe...?

O baixista Pierre Rapsat lançou uma bem-sucedida carreira solo, em 1973. Ele gravou vários álbuns de ouro e platina, transitando entre o rock e a chanson, mas a maioria de suas músicas era cantada em sua língua nativa, o francês. Rapsat faleceu em 21 de abril de 2002, precocemente aos 53 anos de idade.

O vocalista e tecladista Tim Brean juntou-se a banda “The Pebbles”, tocando teclado com eles de 1974 a 1976, enquanto compunha muitas músicas a pedido do selo “Barclay”. Mais tarde tentou a sorte com uma carreira solo sob o nome de “Tim Turcksin”, mas conseguiu lançar apenas algumas músicas em álbuns de compilação.

O guitarrista e vocalista “Big” Frisma juntou-se a banda “Wallace Collection”, fazendo sucesso, posteriormente, com uma banda pop chamada “Two Man Sound”, lançando também dois singles solo. O primeiro, em especial, onde trabalhou novamente Pierre “Piero” Kenroll, recebeu boas críticas. O lado B, chamado “Big Friswa” era uma ótima faixa de rock. Se suicidou em 1988.

O Jenghiz Khan, com seu único trabalho, lançado em 1971, “Well Cut” traz nas raízes, bem como, claro, no teor de suas letras, temas históricos e belicosos, assim como tantas outras bandas de proto metal de sua época. Sim, Jenghiz Khan emulou o som que se fazia em sua época, lá pelos idos dos anos 1970, mas refletiu, com galhardia e competência, aquele rock n’ roll que, das transições das décadas de 1960 e 1970, mostrou-se criativo e catártico.

“Well Cut” teve alguns relançamentos. Além de seu lançamento original, pelo selo Barclay, em 1971, teve lançamento, pelo mesmo selo e ano, no Canadá e na França. Em 1994, teve um relançamento na Coréia do Sul, pelo selo Won-Sin Music Company, outro, dez anos depois, em 2004, pela gravadora Second Life, na Rússia. Mais dois relançamentos, em 2011, na Bélgica, pelo selo Philmarie, um novo relançamento na Coréia do Sul, pela Won-Sin Music Company e vários outros relançamentos por alguns selos europeus.




A banda:

Tim Brean no piano, órgão, teclados e vocais

“Big” Frisma nas guitarras base, acústica e solo e vocais

Christian “Chris Tick” Servranckx na bateria, percussão e vocal

Pierre “Peter Raepsaet” Rapsat no baixo e vocais

Com:

Pierre “Piero” Kenroll nas composições

 

Faixas:

1 - Pain

2 - Campus A

3 - The Moderate

4 - Campus B

5 - The Lighter

6 - Hard Working Man

7 - Mad Lover

8 - Trip To Paradise 



"Well Cut" (1971)






















 




sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Bare Sole - Flash (1969 - 2015)

 

Kingston Upon Hull, cidade portuária em East Riding of Yorkshire, Inglaterra, segunda metade dos anos 1960. A cena rock não era muito proeminente na região, apesar de ter revelado alguns músicos para o mundo, tais como Mick Ronson e Robert Palmer, porém tiveram que sair de Hull para edificar a sua carreira. Mas as bandas surgiam, afinal os anos 1960 e 1970 foram prolíficos para o rock n’ roll em termos de cena e surgimento de bandas, independente de termos cenários undergrounds e de glamour, de bandas famosas.

E de Hull surgiu uma banda chamada “The Combine”, que trazia, em sua formação o guitarrista Richard “Richie” Foster, o baterista Ron Newlove e Dave George na guitarra rítmica. Richie e Ron haviam emigrado de uma banda, no início dos anos 1960, chamada “The Mariners”, que a certa altura apresentava um jovem Mick Ronson que, à época, estava conciliando um emprego diurno com jardineiro e de, claro, guitarrista promissor.

The Combine, apesar de gozar de certa popularidade em sua cidade natal, por tocar um beat, que estava em voga nos anos 1960, decidiu mudar seu direcionamento sonoro. Então, a banda decidiu se juntar ao baixista Brian Harrison, em idos de 1968 e concretizaram as suas mudanças, a começar pelo nome. Assim nasceria o BARE SOLE.

As mudanças sonoras seriam evidentes e radicais, diria, saindo de um psicodélico, ao estilo beat e “flower power” para uma pancada proto metal e hard rock sujo, direto e despretensioso, calcado no psych e blues rock. A sonoridade, principalmente o blues rock, estava em evidência, sendo fomentado, na Inglaterra, por bandas como Cream, Led Zeppelin e Are You Experienced, de Jimi Hendrix, além dos pesos pesados do proto hard como Black Sabbath e Deep Purple, que ainda flertava com o psicodélico em seus primórdios.

Bare Sole

Apesar da mudança radical e ousada, que requer certa coragem, o Bare Sole teve um apoio substancial de um empresário local, que injetou dinheiro aos jovens e promissores músicos, dando-lhes tudo que eles precisavam, inclusive um fluxo constante de shows, fazendo-os participar de shows e atrações com nomes de peso, como The Move, Status Quo, Family e Small Faces que, à época, trazia Rod Stewart em seu line-up.

Locais como “The Bridlington Spa” e o “Skyline Ballroom” mostraram e provaram ser uma plataforma valiosa para mostrar as grandes e famosas bandas visitantes o que Hull poderia oferecer, apesar de a cena rock no local não ser tão grande e conhecia.

A confiança entre o Bare Sole e seu novo empresário crescia depois de vários retornos das bandas famosas à Hull e o tempo de estúdio acabou sendo arranjado nos estúdios Fairview. Tudo caminhava muito bem para o Bare Sole: mudaram seu direcionamento sonoro que, apesar de não ser unânime no mercado fonográfico, em virtude do auge da psicodelia e do embrionário rock progressivo que tomava de assalto a Inglaterra, tinha o financiamento de carreira e uma gestão eficiente e já tinha a estrutura de estúdio para finalmente gravar seu novo trabalho.

O empresário até descolou um compositor jamaicano, de nome Ira George Green, que tinha talentos de composição para ajudar a banda nesta etapa que, acabou por compor uma faixa, a “Woman a Come”. E até conseguiram popularidade com a música, tanto que rendeu uma segunda versão, com Keith Herd, que aplicou um apoio de órgão dominante, como faria também com outra faixa, a “Is Not Nobory Here”. Mas logo, meus estimados leitores, falarei, com requintes de detalhes de cada faixa que o Bare Sole produziria.

As seções, que aconteceram nos estúdios Fairview, trairiam, o que seria, o primeiro álbum do Bare Sole, gravado em 1969, mas, lamentavelmente, este não seria oficialmente lançado, o que também, muito em breve contarei por aqui, caro leitor. Mas essa história, ainda assim, registrada da banda, seria marcada por um desprezo indulgente desses jovens músicos por qualquer coisa relacionado ao rock psicodélico e o rock progressivo. Para muitos tais impulsos poderia ser perdoado por entusiasmo juvenil, mas não era somente por isso, mas por conta de uma cena mais pesada que também florescia na Inglaterra.

Esse trabalho foi calcado no peso, que era diluído no psych, no blues. Uma sonoridade pouco sofisticada, sem experimentalismos, com uma sujeira garageira, um tempero underground. O hard rock ditou os caminhos sonoros desse álbum que não foi lançado na época em que fora concebido, como tantos outros obscuros e vilipendiados pelos fãs e mercado fonográfico.

O álbum, que não possuía um nome, quando foi gravado, lá pelo ano de 1969, começa com a faixa “Flash” que começa com um peso lisérgico e ácido de guitarra, riffs de guitarra bem sujos e despretensiosos, com uma bateria pesada, um baixo pulsante mostrando uma seção rítmica agressiva e sem sofisticação, o que traz o “charme” a este álbum. Mas logo vem o solo de guitarra que mantém a sua chama pesada e repleta de lisergia e psicodelia, mas com o “tempero” hard.

"Flash"

Segue com “Woman a Come” que, logo no início, traz uma peculiaridade, com uma voz, bem discreta, ao fundo, anunciando a faixa, como se fora um “take”, mostrando o caráter “artesanal” da produção deste álbum! Mais um “charme”! Começa animada, dançante. As origens do beat estão na introdução da música. Baixo cheio de groove, bateria marcada. Uma faixa solar! Mas o peso vem chegando, vagaroso, com solos de guitarra na lisergia, na pegada psych.

"Woman a Come"

O blues chega com a faixa “Soul Blues”. O nome denuncia a sua veia blues rock com pegada mais hard, mas também traz nuances das raízes do velho e bom blues. A guitarra dedilhada esconde das pretensões do guitarrista a lisergia, mostrando a sua versatilidade, apesar do som primitivo e sujo que permeia no álbum. O solo de guitarra é de tirar o fôlego e que fecha maravilhosamente a música.

“Let’s Communicate”, feita apenas em um “take”, conforme informado na gravação, chega pesada e ameaçadora. Riffs sujos, grudentos e pesados de guitarra mete, agressivamente, o pé na porta e vem, como uma força da natureza, impiedosa, varrendo tudo o que vê pela frente. Os gritos do vocalista dão o tempero ao hard psych que se apresenta na faixa. Solos de guitarra corroboram o peso e faz com que o ouvinte que, minimamente se deixa levar pela emoção que a música pode proporcionar, bata cabeça compulsoriamente. Espetacular!

"Let's Communicate"

“Jungle Beat”, foi concebida no take 2, e começa com um baixo galopante e pulsante, fazendo jus ao nome da música, mas não se engane, prezado leitor, de que o beat reina absoluta na faixa. O hard rock, mesclado ao psych também tem seu protagonismo, por intermédio de seus instrumentais tocados de forma sublime e suja. Solos de bateria te faz dançar e, sem firulas, traz uma pitada um tanto quanto tribal. 

"Jungle Beat"

“Woman a Come”, em sua versão dois, não traz muitas modificações sonoras em relação a primeira versão, a não ser com uns toques de teclados. Fecha com “Is Not Nobody Here” que começa também dançante e me parece que a intenção da banda era fechar o álbum com o beat, evidentemente com uma pegada mais pesada e lisérgica, que marcou as origens da banda no início dos anos 1960. Os teclados trazem uma camada de pura psicodelia e lisergia.

"Woman a Come (Version 2)"

O empresário do Bare Sole se esforçou e muito para catapultar a banda para o sucesso, para garantir um contrato de gravação e consequentemente sair em turnê para divulgar seu primeiro trabalho, enviando a fita demo para a Decca Records, em Londres. Mas a banda teve negada uma audição, em 1970, e o motivo, tosco, diga-se de passagem, é que não estava disposta a investir em uma banda que claramente não tinha intenções de acompanhar as mudanças na moda musical da Londres progressiva.

Bare Sole apresentava um som cru e primitivo demais para os estúdios chiques da Decca, em West Hampstead ou de De Lane Lea. Imediatamente antes de sua fita demo ser devolvida, a banda estava fazendo as malas para uma turnê pelas bases aéreas americanas na Alemanha Ocidental.

Mas o problema não viria apenas com uma fita demo rejeitada pela Decca Records. O baterista Ron Newlove estava prestes a se casar com sua namorada de longa data, o que acabou levando à sua decisão de deixar o Bare Sole durante a turnê. Newlove e a banda voltaram consternados, frustrados, após uma breve e infrutífera existência do Bare Sole, com um baterista recém recrutado. Inevitavelmente a banda se separaria, dando fim, precoce, às suas atividades, voltando, os seus integrantes, aos seus empregos diários, em meados dos anos 1970.

Embora o Bare Sole tenha durado pouco mais de um ano, com esta formação e concepção sonora, ouso dizer, por mais que não tenha lançado, de forma oficial, seu álbum e ter caído nas sombras da obscuridade, que deixou uma marca importante na história da música pesada na Inglaterra, mostrando, apesar de seu álbum sujo e despretensioso, uma versatilidade sonora arrojada, aliando o peso ao beat e ao psych, que estava em voga na sua época.

Mas nem tudo estava perdido e mesmo que o tempo pudesse ser implacável, 43 anos depois da gravação dos estúdios Fairview, em 2012, o ex-baterista do Bare Sole, Ron Newlove, juntamente com Keith Herd, que tocou teclados em uma das faixas do álbum, recuperaram as fitas originais e conseguiram salvar a maioria delas de uma deterioração de pouco mais de quatro décadas!

Em 2015 a valorosa gravadora Guerssen Records, juntamente com o selo Sommor, na Espanha, lançariam, finalmente, de forma oficial, nos formatos LP e CD, o álbum dando-lhe o nome de “Flash”. Além desse lançamento oficial, depois de 46 anos, o Bare Sole teria sua história e serviço sacramentados no site “British Music Archive” conforme pode ser acessado aqui



Além desse holofote importante para o lançamento oficial do único álbum do Bare Sole, também apareceu em “Front Room Masters”, um conjunto de arquivos de CD duplo, com um total de 42 faixas gravadas nos estúdios Fairview, de 1966 a 1973. Sua representatividade e importância musical para o rock inglês na transição das décadas de 1960 e 1970, foi finalmente eternizada, após quase cinquenta anos, provando que, por mais que o tempo possa ser implacável, a música continua inoxidável, influente e relevante para gerações que surgiram e que certamente surgirão perpetuando o rock n’ roll. Se você quiser fazer o download do álbum clique aqui.


A banda:

Richard, “Richie”, Foster no vocal e guitarra rítmica

Dave George na guitarra

Brian Harrison no baixo

Ron Newlove na bateria

 

Com:

Keith Herd nos teclados

 

Faixas:

1 - Flash

2 - Woman a Come

3 - Soul Blues

4 - Let’s Communicate

5 - Jungle Beat

6 - Woman A Come (Version Two)

7 - Ain’t Nobody Here



"Flash (1969 - 2015)"