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quinta-feira, 19 de março de 2026

Jenghiz Khan - Well Cut (1971)

 

Sabe aqueles países totalmente inusitados para a cena rock n’ roll? Pois é, é para eles que eu venho mirando as minhas intenções para desbravar e, não se enganem, caríssimos leitores, há muito a encontrar por aí. As cenas podem ser incipientes em quesitos quantitativos, mas qualitativamente falando a situação muda! Há muito material de altíssima qualidade nos países pouco comentados e esquecidos pelo rock!

Então vale e muito o esforço em desbravar e conhecer tais bandas e álbuns e hoje eu pousei na Bélgica e encontrei um espetacular álbum e banda que merece a sua atenção, caro leitor. Como ela se chama? JENGHIZ KHAN! Mas são aquelas bandas que, como verdadeiros cometas, surgem, como uma força da natureza, gerando impacto, mas que, de forma efêmera, sucumbem, desaparecem.

O Jenghiz Khan surgiu, em 1970, no sul da Bélgica, a partir das cinzas do "The Tim Brean Group" e do "Les Partisans". A formação da banda consistia nos seguintes músicos: Tim Brean no piano, órgão, teclados e vocais, “Big” Frisma nas guitarras base, acústica e solo e vocais, Christian “Chris Tick” Servranckx na bateria, percussão e vocal e Pierre “Peter Raepsaet” Rapsat no baixo e vocais.

Jenghiz Khan

Rapsat foi o último músico a integrar o Jenghiz Khan. Ele veio de uma banda que acabara de lançar um álbum, de nome “Laurelie”. Nos anos 1960, Pierre havia feito parte da orquestra de dança chamado “Les Ducs”, porém em sua banda seguinte, a “Tenderfoot Kids”, onde tocou em quatro singles, revelou ser um excelente compositor.

"Laurelie" (1970)

O nome “Jenghiz Khan” foi escolhido pelo terror associado ao líder mongol e, de fato, essa banda de músicos furiosos, liderado por Friswa, teve impacto no público e incendiou as placas dos festivais onde se apresentavam.

Como todas as faixas do primeiro e único álbum do Jenghiz Khan, “Well Cut”, de 1971, já estava praticamente pronta, Rapsat ficou responsável apenas em tocar o seu instrumento, o baixo. Todos os membros da banda eram compositores, então não teve espaço para Pierre demostrar seus dotes de letrista. Mas se mostrou competente empunhando o baixo, trazendo a sonoridade da banda, algo muito atual.

Além dos músicos serem compositores o seu empresário, o conhecido jornalista de rock, da revista “Telemoustic” ou “TéléMoustique”, Pierre “Piero” Kenroll, ajudou a escrever todas as letras e uma música completa.

A capa deste único trabalho do Jenghiz Khan foi desenhada por Jamic, cartunista da TéléMoustique, apresentava as cabeças dos 4 músicos decapitados brandidas por um gigante e alcançou as melhores vendas belgas, algo que nenhuma banda local conseguia fazer há muito tempo.

E diante desse cenário, “Well Cut” foi lançado até rapidamente, pelo selo “Barclay”, com um som majoritariamente pesado, porém cheio de dinâmica, ou seja, vertentes progressivas, conferindo-lhe complexidade, mas com a capacidade única de ser orgânico, mostrando músicos competentes e técnicos, mas dando tudo de si de forma corporal!

Não sou muito afeito às comparações, mas o Jenghiz Khan, reflete muito a música de seu tempo, embora traga uma sonoridade bem atemporal, rasgando as gerações com muita destreza. Ao ouvir “Well Cut” percebe-se a sonoridade de bandas, das mais famosas, claro, como Uriah Heep, Vanilla Fudgie e Iron Butterfly. Mas como coloca-la em condições de inspirada, se esta surgiu praticamente ao mesmo tempo que as mencionadas? O sucesso de algumas diz muito sobre isso, mas não quero falar sobre isso, e sim do quão importante esse tipo de sonoridade foi nas transições das décadas de 1960 e 1970.

“Well Cut” imprime uma sonoridade que é calcada no riff pesado de guitarra e o bom e velho hammond, que muito me agrada e cativa, um heavy progressivo com pitadas psicodélicas generosas, que vai do sofisticado, complexo, sujo, primitivo e áspero. Uma música que se fazia em profusão no início dos anos 1970, mas com competência, criatividade e muita ousadia, pois não se rendiam as bandas ao estereótipo, afinal, era, diria, uma sonoridade que se descobria, se abrochava em experimentalismos e o Jenghiz Khan não fugia à regra. Era uma desbravadora de seu país, pouco conhecido na cena rock, mas que tinha um radar para o mundo.

O álbum começa com a faixa “Pain” que, um vocal, à capela, dá a introdução para a “cozinha” impor seu ritmo pesado, bateria marcada, agressiva, batida poderosa, baixo pulsante, hammond cheio de vivacidade, riffs de guitarra psicodélicos, mas que dá lugar ao violão e a uma balada. Seus quase oito minutos de duração entrega uma sonoridade repleta de mudanças rítmicas, mostrando o heavy prog muito bem executado. Na metade da música os riffs são mais agressivos e sujos, talvez o momento mais pesado da faixa, que logo se sucedem com solos mais pesados ainda. Música de tirar o fôlego!

"Pain"

Segue com a curta “Campus A”, mas que anima pela pegada meio bluesy, um blues rock bem solar com um vocal cadenciado e, por vezes, um pouco rasgado. É tão somente a guitarra e voz. Simples! Para dar entrada para a próxima faixa, “The Moderate” que inicia com um hammond um tanto quanto sombrio, mas que irrompe em um belicoso som de guitarra e bateria bem agressiva. O baixo dá o groove, o balanço e a cadência. Essa música mostra um Jenghiz Khan mais sofisticado, mas não menos pesado e arrogantemente agressivo. Aqui o vocal é mais potente e gritado e conduz a faixa ao que realmente entrega: peso, mas um peso aliado ao balanço, beira o dançante. Faixa animada!

"The Moderate"

Segue com “Campus B” que, entregando a continuação de “Campus A” traz o blues mais eletrificado, com uma pegada mais gospel evocando os primórdios do rock na sua versão mais primitiva. Não podemos negligenciar, claro, a veia blues rock. “The Lighter” começa acústica, dedilhados de violão torna algo mais pastoral, viajante, dando lugar ao hammond e uma bateria mais vagarosa. Eis uma balada com uma característica inteiramente psicodélica, mostrando um produto de seu tempo, verdadeiramente. O trabalho de vocalização me remete ao Uriah Heep nos seus primórdios e também o Vanilla Fudgie. E finaliza com o lindo e direto solo de guitarra!

"The Lighter"

“Hard Working Man” introduz com um solo de bateria e que já denunciaria o peso que viria pela frente! Um solo de guitarra flamejante, mas que logo cadencia, continuando a bateria como profundo destaque. Aqui nesta faixa o hard rock dá o tom, é o carro chefe. Direta, poderosa, intensa, riffs de guitarra se misturam ao toque cavalar como o baixo é conduzido. Traz a “cama” para a sonoridade acontecer, ser tão evidentemente característica.

"Hard Working Man"

Segue com “Mad Lover” que, mais uma vez, inicia, em uma pegada meio flamenca, acústica, meio folk. Aqui percebo que a banda volta aos anos 1960 com um beat psicodélico. O trabalho de vocalização se faz presente e é bem feito. A guitarra, já no fim da faixa, traz uma sonoridade estranha e experimental.

"Mad Lover"

E fecha com a épica “Trip to Paradise” que começa, mais uma vez, com o belo trabalho de vocalização e uma camada soturna de teclados que traz as lembranças psicodélicas. Mas logo termina, porque a explosão do hard rock se faz vivo e latente! Bateria com a já famosa batida pesada, o baixo com aquele groove arrebatador, galopante, por vezes, sem contar com o hammond que me lembrou algo mais sinfônico. Nessa faixa, no auge de seus mais dez minutos, traz de volta o heavy prog, e se mostra capaz de atrair o ouvinte com as inúmeras mudanças de andamento. É no mínimo catártico ouvir essa música. Hard rock, psicodélico e progressivo em um caldeirão de ingredientes misturados, sem nenhuma cerimônia em se rotular. A criatividade ditou as regras que, sem dúvida, faz dessa faixa uma das melhores do álbum! O final, com o solo de guitarra, é simplesmente de tirar o fôlego!

"Trip to Paradise"

Em sua história relativamente curta, o Jenghiz Khan construiu uma boa reputação de banda ao vivo, tocando em muitos festivais e shows. Podemos destacar, como os mais importantes quando dividiram o palco com: "Wallace Collection" (Puzzle P em junho de 1970), "Black Sabbath" (Rock Bilzen em agosto de 1970), "Yes" (Pop Hot Show Huy em 5 de setembro de 1970), "Stray" (Festival de Ghent em 28 de novembro de 1970), "The Tremelous" (Grand Place Ciney em 11 de julho de 1971) e "Genesis" no Festival de Jemelle em 8 de agosto de 1971.

Um segundo álbum estava sendo escrito, mas problemas surgiriam para a banda, culpa de uma cena belga muito restrita, que não permitia que seus músicos ganhassem vida com sua música, bem como também da onda “glam” que varreu o mundo, com furacões como David Bowie, T-Rex, Salde, Sweet entre outros. E o inevitável aconteceu: o fim do Jenghiz Khan, em 1972. Se há resquícios de composição musical que possa ser gravado em um futuro próximo, não sabemos. O fato é que precisamos esperar uma grande novidade a esse respeito! Quem sabe...?

O baixista Pierre Rapsat lançou uma bem-sucedida carreira solo, em 1973. Ele gravou vários álbuns de ouro e platina, transitando entre o rock e a chanson, mas a maioria de suas músicas era cantada em sua língua nativa, o francês. Rapsat faleceu em 21 de abril de 2002, precocemente aos 53 anos de idade.

O vocalista e tecladista Tim Brean juntou-se a banda “The Pebbles”, tocando teclado com eles de 1974 a 1976, enquanto compunha muitas músicas a pedido do selo “Barclay”. Mais tarde tentou a sorte com uma carreira solo sob o nome de “Tim Turcksin”, mas conseguiu lançar apenas algumas músicas em álbuns de compilação.

O guitarrista e vocalista “Big” Frisma juntou-se a banda “Wallace Collection”, fazendo sucesso, posteriormente, com uma banda pop chamada “Two Man Sound”, lançando também dois singles solo. O primeiro, em especial, onde trabalhou novamente Pierre “Piero” Kenroll, recebeu boas críticas. O lado B, chamado “Big Friswa” era uma ótima faixa de rock. Se suicidou em 1988.

O Jenghiz Khan, com seu único trabalho, lançado em 1971, “Well Cut” traz nas raízes, bem como, claro, no teor de suas letras, temas históricos e belicosos, assim como tantas outras bandas de proto metal de sua época. Sim, Jenghiz Khan emulou o som que se fazia em sua época, lá pelos idos dos anos 1970, mas refletiu, com galhardia e competência, aquele rock n’ roll que, das transições das décadas de 1960 e 1970, mostrou-se criativo e catártico.

“Well Cut” teve alguns relançamentos. Além de seu lançamento original, pelo selo Barclay, em 1971, teve lançamento, pelo mesmo selo e ano, no Canadá e na França. Em 1994, teve um relançamento na Coréia do Sul, pelo selo Won-Sin Music Company, outro, dez anos depois, em 2004, pela gravadora Second Life, na Rússia. Mais dois relançamentos, em 2011, na Bélgica, pelo selo Philmarie, um novo relançamento na Coréia do Sul, pela Won-Sin Music Company e vários outros relançamentos por alguns selos europeus.




A banda:

Tim Brean no piano, órgão, teclados e vocais

“Big” Frisma nas guitarras base, acústica e solo e vocais

Christian “Chris Tick” Servranckx na bateria, percussão e vocal

Pierre “Peter Raepsaet” Rapsat no baixo e vocais

Com:

Pierre “Piero” Kenroll nas composições

 

Faixas:

1 - Pain

2 - Campus A

3 - The Moderate

4 - Campus B

5 - The Lighter

6 - Hard Working Man

7 - Mad Lover

8 - Trip To Paradise 



"Well Cut" (1971)






















 




sábado, 19 de julho de 2025

The Norman Haines Band - Den of Iniquity (1971)

 

1965, Birmigham, Inglaterra. A banda “Kansas City Seven”, como o nome sugere, tinham inacreditáveis sete músicos! O único músico conhecido, que tinha algum status, era o tecladista e flautista Chris Wood. Mas não era tanto, afinal, todos, inclusive Wood, eram jovens músicos na época. Para levar a sua música mais longe, alcançar o sucesso, eles decidem mudar o nome da banda para “The Locomotive”. E até conseguem alguma reputação com belas apresentações, de jazz rock, ao vivo.

Mas quando a banda estava começando a decolar, eis que surge a baixa mais considerável! Chris Wood optou por sair do The Locomotive para se juntar ao Traffic, juntamente com Jim Capaldi, Steve Winwood e Dave Manson, e o resto da banda, perdida com o impacto da saída de Wood, decide seguir, um por um, seus caminhos. Apenas Jim Simpson permanece na banda original e coube, claro, a ele, reformular o The Locomotive.

Então ele reúne nomes como Norman Haines e Jo Ellis para continuar com o The Locomotive. A banda lança alguns singles conceituados, que se tornaram conhecidos, figurando em paradas de sucesso no Reino Unido e logo lançam o álbum “We Are Everything You See”, em 1970. A banda entra em colapso, não conseguiu dar sequência a sua jornada e, dessa vez, teve decretado o seu triste fim.

Então ele reúne nomes como Norman Haines e Jo Ellis para continuar com o The Locomotive. A banda lança alguns singles conceituados, que se tornaram conhecidos, figurando em paradas de sucesso no Reino Unido e logo lançam o álbum “We Are Everything You See”, em 1970. A banda entra em colapso, não conseguiu dar sequência a sua jornada e, dessa vez, teve decretado o seu triste fim.

The Locomotive - "We Are Everything You See" (1970)

Coube agora a Norman Haines a dar um norte na banda, fazendo, contudo, mudanças drásticas. Na realidade Haines protagonizou um início a outro projeto, recrutando o guitarrista Neil Clarke, o vocalista e baixista Andy Hughes e o baterista Jimmy Skidmore formando o “The Sacrifice Ensemble”. Mas antes de entrar na história do The Sacrifice Ensemble, convém tecer algumas linhas sobre Norman Haines.

Norman, tecladista e vocalista, começou a sua carreira profissional em uma banda beat, em 1966, chamada “The Brumbeats”, de Birmingham. Quando a banda se separa, Haines torna-se membro do The Locomotive, em 1967, ajudando a Jim Simpson a reformulá-la, pois também sofrera com a debandada de todos os seus músicos e logo assumiu o protagonismo na banda. Tanto que, quando o Locomotive sofreu com a saída da maioria dos seus músicos, teve a competência de reformular e criar um projeto, o The Sacrifice Ensemble.

Então voltando ao The Sacrifice, esta agradou tanto que logo ganharia um contrato com o selo Parlophone Records, em 1970. Esse contrato de gravação custaria o nome da banda, porque os executivos de marketing da gravadora mostraram-se descontentes com o nome da mesma e quando lançaram os singles de estreia da banda, “Daffodil” e “Autumn Mobile”, mudaram, unilateralmente, o nome para “THE NORMAN HAINES BAND”. Sim! Deu o protagonismo para Haines até no nome da banda.

The Norman Haines Band

A banda então, com o seu novo nome e novas expectativas de alcançar o tão almejado sucesso, se reúne no mítico Abbey Road Studios, em 1971, para gravar seu primeiro álbum com essa formação e nome novos. E eis que surge “Den of Iniquity”, naquele mesmo ano. Perfilando o The Norman Haines Band temos, além de Haines no teclado, piano e vocais, Neil Clark na guitarra, Andy Hughes no baixo e vocal e Jim Skidmore na bateria e percussão.

Embora os singles não tenham feito tanto sucesso, à época do seu lançamento, a Parlophone decidiu financiar o álbum. “Den of Iniquity” traz traços da banda The Locomotive, com uma música chamada “Everything You See (Mr. Armageddon)”, que esteve no álbum desta última banda, mas com uma versão mais arrojada e sofisticada, mais bem acabada sob o aspecto da produção e das melodias. Apesar do álbum do The Locomotive e do The Norman Haines Band tenham sido lançados em um curto espaço de tempo, nota-se, com evidência, que o último é bem melhor em vários aspectos.

Podemos considerar, sem dúvidas, que “Den of Inquility” traz um progressive hard rock ou ainda como heavy progressive rock. É um álbum tão versátil e pouco estereotipado que pode, por conta disso, parecer um pouco disperso para ouvidos mais pasteurizados em determinadas vertentes sonoras, mas é um deleite a diversidade.

É impulsionado pela combinação de voz e teclados empolgantes de Haines e a fantástica guitarra de Clarke com resultados espetaculares de hard rock afiado, blues-rock e movimentos mais comerciais. Mas por mais que tenhamos neste trabalho essas vertentes, podemos perceber nuances mais sombrias entregando uma versão dark prog e occult rock também.

O álbum é inaugurado com a faixa título, “Den of Inquility” que, de imediato, te remete a um clássico do hard rock. Essa música explode com um riff de órgão e bateria que bate forte e pesada ao fundo. A guitarra vem seguindo o órgão antes de assumir o seu protagonismo com riffs potentes e cheios de wah wah. O seu solo é matador, avassalador e as “curvas” de wah wah ao fundo são extremamente sedutoras. Um hard rocker matador!

"Den of Iniquity"

Segue com “Finding My Way Home” que lembra um jam vibrante, solar, cheia de força e presença, com destaque indiscutível dos vocais e da guitarra com riffs pesados e solos bem elaborados. A faixa seguinte, a versão retrabalhada de “Everything You See (Mr. Armageddon)”, que foi do The Locomotive, ganha corpo com o protagonismo da guitarra. Ela, inicialmente, tem um início mais lento, mas a guitarra de Neil Clarke se redime totalmente na segunda metade da música. Ele praticamente sola até o final e cada segundo dessa parte da faixa é simplesmente espetacular. Uma verdadeira progressão de acordes que traz o prog rock na sua versão mais arrojada e encorpada.

"Finding My Way Home"

“When I Come Down” é outro hard rock típico e cheio de potência e peso, carregado de wah wah, com um pouco de órgão distorcido que corrobora a sua condição de peso. Essa música, aqui vale uma curiosidade, foi usada como demo, pela outra banda do antigo empresário Jim Simpsons, “Earth”, que naquela época havia mudado seu nome para simplesmente “Black Sabbath”.

"When I Come Down"

O clima dá uma guinada suave com a balada “Bourgeois”, interpretada e cantada pelo guitarrista Clarke. Ele exibe, orgulhosamente, as suas raízes folk, mas com muita personalidade. Segue agora com a robusta e longa, de 13 minutos, a faixa “Rabbits” que lembra uma jam sólida e estendida. Nessa música as raízes progressivas estão fincadas nas tecituras instrumentais, mostrando várias mudanças rítmicas, cheias de nuances sofisticadas, mas muito orgânicas.

"Rabbits"

O fim do álbum entrega a faixa, de 8 minutos, chamada “Life is so Unkind”, que traz uma hecatombe instrumental liderado pelo órgão, piano elétrico e um pouco de guitarra que, embora não traga destaque, como as teclas, leva o álbum a um final, diria, deliciosamente catártico, fantasticamente ameaçador.

"Life Is So Unkind"

Quando o The Norman Haines Band apresentou o produto, incluindo a grotesca capa do álbum, digno hoje para muitas bandas de heavy metal dos anos 1980, a gravadora se recusou a lançá-lo, tanto que a banda finalizou as gravações no final de 1970, mas a Parlophone só lançou “Den of Inquility” em agosto de 1971.

A capa também gerou repulsa por parte dos varejistas britânicos, e muitas lojas estocaram poucos álbuns e esse termômetro dos vendedores, das lojas, determinou as diretrizes da gravadora que pouco o promoveu e apoiou, gerando poucas cópias, resultando em um lançamento bastante escasso e que atualmente, por ser um trabalho cult e raro, é vendido por até 2.000 euros no mercado de discos. E já que mencionei a capa do álbum do The Norman Haines Band, o autor da linda capa é Heinrich Kley, um famoso e controverso desenhista alemão da cidade de Munique.

“Den of Iniquity” foi lançado, no formato LP, na França e no Uruguai pelo selo Odeon Records, em 1972 e diz que, por intermédio da verificação com a gravadora, foi inacreditável distribuir e vender este álbum no Uruguai naquela época, levando em consideração a frágil economia daquele país e o número consequente limitado de pessoas que comprariam esse trabalho.

Em 1993 a Shoesstring Records lançou no Reino Unido, no formato CD, contendo mais cinco composições e uma edição limitada de 1.000 cópias. Em 1994 esta mesma gravadora lançou, agora no formato LP, também no Reino Unido, contendo mais duas composições e uma edição limitada de 500 cópias.

Em 2002 a Progressive Line lançou, em CD, com mais cinco músicas, uma versão não licenciada. Em 2004 a Radioactive Records lançou discos e vinis pelo Reino Unido também com versões não licenciadas, bem como a Sunrise Records que lançou, em CD, na Alemanha, versões não licenciadas.

Em 2011, a Esoteric Records lançou um álbum, em CD, no Reino Unido, com mais seis músicas. Porém, mais versões não licenciadas foram lançadas entre 2014 e 2021, incluindo selos como Acid Nightmare, a Ethelion Records, a Magic Box Records e a Prog Records.

Com o escasso apoio da gravadora e a rejeição dos donos de lojas em vender um álbum com uma capa, para eles, grotesca e nojenta, o The Norman Haines Band iria decretar o seu fim, ainda em 1971, ano do lançamento de seu único álbum. Norman tentou a última sacada, em 1972, e gravou algumas demos, que acabou, diante desses relançamentos, por serem incluídas em “Den of Iniquity”, como “Give It To You Girl" e “Elaine”. "Give It To You Girl", uma melodia pop matadora liderada por sua voz brilhante e piano elétrico. Isso mostra o crescente gosto de Norman pela percussão latina e nos dá uma amostra do que poderia ter vindo a seguir.

Norman caiu na estrada usando o nome “The Locomotive”, porque ele estava muito endividado e precisava de grana para pagar as suas dívidas e nada como usar o nome “The Locomotive” que te trouxe algum sucesso na música, apesar de tão efêmero. Mas de nada adiantou! Desiludido e revoltado com o mundo da música se retirou melancolicamente, recusando, inclusive, uma proposta de entrar na jovem e promissora Black Sabbath, sumindo do mercado da música.

Haines entraria no ramo de construção e até montou uma banda que tocava em casamentos e eventos de danças locais, o que ele ainda faz até os dias de hoje. Eu pergunto a você, estimado leitor: Será que a maioria das pessoas para quem ele e a sua banda toca hoje em dia, percebe o músico brilhante que realmente ele é? A história, que foi pouco gentil com ele, será, no futuro, a redentora de seu talento pouco aproveitado por uma série de tristes circunstâncias? O fato é que Haines e sua banda foi deveras essencial para o rock n’ roll de Birmingham no início dos anos 1970.





A banda:

Neil Clark na guitarra

Andy Hughes no baixo, vocais

Jimm Skidmore na bateria, percussão

Norman Haines no órgão, piano, vocais

 

Faixas:

1 - Den of Iniquity

2 - Finding My Way Home

3 - Everything You See (Mr Armageddon)

4 - When I Came Down

5 - Bourgeois

6 - Rabbits

        a) Sonata (For Singing Pig)

        b) Joint Effort

        c) Skidpatch

        d) Miracle



"Den of Iniquity" (1971)
























segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Alphataurus - Alphataurus (1973)

 

50 anos! O que é o tempo quando se tem a eternidade? Mensurar tempo parece ser irrelevante para definir a história de um álbum para a música, para o rock n’ roll. E o que dizer de trabalhos icônicos para bandas obscuras? A arte vence! O tempo não enferruja, não torna datado, mas atemporal na concepção sonora e de suas mensagens, o que pode ser bom ou ruim, depende do tema abordado.

O fato é que o rock progressivo italiano sempre promoveu momentos improváveis, sobretudo nos anos 1970. Como determinados álbuns foram destinados a entrar para a história e não ter tido um impacto comercial, grandes vendas e resultados de sucesso e glamour?

Parece uma combinação inviável, diria inusitada, mas a banda de hoje conseguiu tal feito, mesmo com uma trajetória calcada na precocidade de sua história que, logo ao lançar seu debut, saiu de cena da mesma forma que entrou: timidamente, sem alardes. Falo do ALPHATAURUS.

E falar do seu primeiro trabalho, homônimo, de 1973, é como falar da minha história com o rock progressivo. Não é apenas a história e a relevância desse álbum para a cena progressiva italiana e mundial, mas uma relação afetiva, pois foi com ele que a Itália progressiva descortinou-se diante dos meus olhos. E começar com essa obra prima é ter, ouvir e sentir o que o prog rock pode de melhor proporcionar a pobres mortais como eu.

O Alphataurus, nome astronômico da primeira estrela da constelação de Touro também conhecida como "Aldebaran", foi formado na cidade de Milão em 1970 a partir da reunião do tecladista Pietro Pellegrini com o vocalista Michele Bavaro, o violinista Guido Wasserman, o baixista Alfonso Oliva e o baterista Giorgio Santandrea.

Apesar da intensa atividade ao vivo, com várias apresentações em festivais importantes da Itália, como o “Davoli Pop” e o “Palermo Pop 72”, o Alphataurus nos dois anos anteriores ao lançamento de seu primeiro álbum, de 1973, permaneceu sem contrato, sem nenhuma gravadora interessada em tê-los em seu “cast”.

Mas foi exatamente no Festival Pop de Palermo que Vittorio De Scalzi, que tinha saído da icônica banda New Trolls e impressionado com nível sonoro e técnico dos músicos, os convida para praticamente inaugurar o recém-fundado selo “Magma”, fundado em conjunto com o seu irmão, Aldo.

E assim o Alphataurus começaria a fazer história, mesmo que a base de muitas adversidades, típicas de bandas undergrounds, com o seu primeiro álbum, lançado em 1973, sendo também o primeiro trabalho concebido com a ajuda da nova gravadora. Era novidade para os jovens produtores, os irmãos De Scalzi.

Vittorio de Scalzi

Como muitas das bandas italianas, “Alphataurus” tem influências do rock progressivo britânico, com destaque para o Emerson, Lake & Palmer, King Crimson, Yes e Van der Graaf Generator, porém como algumas grandes bandas do “país da bota” desenvolveram, a partir de suas influências, seu próprio estilo, sua própria proposta sonora, usando primordialmente a sua língua pátria, abrangendo também uma textura instrumental invejável, ampla, tendo a base do órgão e moog, entregando pegadas jazzísticas até ao hard rock e contemplações sinfônicas dando o caráter ao prog rock.

Não só as teclas ganham destaque no primeiro trabalho do Alphataurus, mas a começar pelo vocal com uma voz extremamente poderosa e original, certamente uma das mais competentes surgidas naquele longínquo ano de 1973, com uma guitarra bem cuidada e tocada com destreza e a seção rítmica criando um fundo poderoso. Não há indulgência, é um trabalho orgânico, fiel ao conceito do rock progressivo em voga naqueles anos. O álbum do Alphataurus é sofisticado? Sim, mas não caem na armadilha do pedantismo.

Mas esse resultado tem um motivo primordial: quando a banda entrou em estúdio, logo no início de 1973 para a gestação do álbum o Alphataurus ensaiava as músicas por muito e muito tempo. Reza a lenda que ficavam no estúdio por até seis horas consecutivas, podendo assim gravar as músicas e aproveitar o tempo restante para aperfeiçoar os sons, adicionar overdubs e mixar tudo também.

“Alphataurus” foi gravado nos estúdios SAAR Records e Sax Records em Milão. A linda e instigante arte gráfica, no formato LP, pode ser aberta em três partes e foi criada por Adriano Marangoni e que representa fielmente os conceitos da obra: simplesmente a perda da identidade do homem e os perigos da nascente sociedade tecnológica. Um tanto quanto atual, não acham amigos leitores? A guerra tecnológica envolta em um discurso demagógico da paz.

A faixa "Peccato d'orgoglio" sintetiza muito bem o conceito do álbum e esse tema em sua letra:

"Você já está indo em direção ao vazio sem objetivo / Não tenha medo, volte entre nós / Você experimentou tudo, uma vida inteira / Sob uma luz falsa você usou para construir sua realidade... Foi um pecado de orgulho / Lembre-se que você é um homem / Você ainda pode viver... ".

Na letra é perceptível o clima entre sonho e pesadelo, o medo da guerra nuclear e a esperança de um mundo melhor. Apesar de um tema manjado, é fato que a tratativa é perfeita entre a letra e a música.

“Alphataurus” é sombrio, pesado, intenso, poderoso, que flerta entre o rock progressivo com as suas passagens sinfônicas e o hard rock típico dos anos 1970. Guitarras pesadas e de solos contemplativos, seção rítmica contundente e teclados frenéticos e viajantes. Temos um potente heavy prog e passagens melódicas cativantes, tudo isso envolto em uma textura de arranjos garantidos pelas ótimas seções instrumentais.

São cinco músicas todas assinadas pelo tecladista Pietro Pellegrini em um total de quarenta minutos. As letras, no entanto, foram desenvolvidas por toda a banda em conjunto com Vittorio de Scalzi que usou, para os créditos no álbum, com o pseudônimo de “Funky”.

A faixa inaugural é a grande “Le Chamadere (Peccato d'Orgoglio)” no auge de seus pouco mais de doze minutos é a encarnação, creio, mais representativa do estilo que o Alphataurus imprimiu neste álbum, sendo extremamente cativante, repleta de mudanças rítmicas, com um toque orquestral que predomina, mas tocados em uma atitude hard rock e até raivosa, em alguns momentos. A guitarra e o teclado são pesados, bem como os vocais que trafega para a sensibilidade em alguns momentos. Os teclados trazem a textura sinfônica e progressiva, com o trabalho fenomenal da bateria muito arrojada com o baixo seguindo o ritmo. Mas não podemos deixar de destacar o momento acústico e contemplativo garantido pelos dedilhados do violão.

"La Chamadere (Peccato d'Orgoglio)"

Segue com a “Dopo L'Uragano” que traz a predominância destacada da guitarra em uma versão blues, um blues rock muito bem executado. As cadências entregues nos acordes básicos da guitarra acústicas e os riffs de guitarra elétrica fazem com que o protagonismo do instrumento se faça. Não se pode negligenciar os intervalos de boogie intercalados por preenchimentos fortemente efetuados pela bateria. Vale lembrar também que essa faixa retrata fielmente o humor sombrio e apocalíptico do álbum:

"À luz do sol, as sombras, o furacão é apenas passado. Volto para minha cidade, sozinho e com dor. Eu não vejo o meu povo, as estradas estão desertas, eu olho ao meu redor e vejo que a vida se esvai ..."

"Dopo L'Uragano"

A faixa instrumental “Croma” é excelente e traz alguns toques jazzísticos com a alternância de passagens de órgão encontrando um fundo perfeito nas enormes camadas de moog e riffs e solos de guitarra, que eclodem em uma explosão majestosa em seu clímax final. Não se pode negar a simbiose entre o sintetizador e a guitarra.

"Croma"

“La Mente Vola” surpreende pelo arranjo muito moderno, bem executado, parece ser descolado daqueles tempos de outrora dos anos 1970. Tem uma batida sobreposta com sintetizadores, parecendo ser consensual para uma faixa forte e poderosa. Teclados exemplares, com solos de vibrafone e passagens misteriosas de moog, vocais emocionais e dramáticos, assim se resume essa música. E já que falei em vocal, não podemos deixar de destacar a poesia da letra, falando do homem que entende a importância de se falar com o divino para cessar as suas dores e sofrimentos.

"La Mente Vola"

E fecha brilhantemente com a faixa “Ombra Muta” que traz a estrutura fina e melódica com toques de guitarra elétrica e teclados mais fortes e cativantes, com aquele “tempero” sombrio que permeou todo o álbum. O baixo é pesado, contundente, os vocais altivos e de grande alcance, além de bateria marcada e moogs frenéticos e animados.

"Ombra Muta"

Logo após o lançamento de “Alphataurus”, a banda se dissolve e inclusive estavam envolvidos nas gravações de um segundo álbum. Não há informações precisas sobre o que teria ocasionado o fim da banda, talvez questões ligadas a divergências sobre a concepção do álbum ou ainda as baixas vendas do primeiro trabalho, pois lamentavelmente o trabalho não teve a divulgação necessária, haja vista que a gravadora, por ser nova, não tinha recursos necessários para um trabalho adequado de disseminação e promoção do álbum.

O projeto do segundo álbum ficou inacabado, não foi concluído, inclusive os vocais não foram inseridos nas composições. Ainda assim o material foi lançado, pela Mellow Records, intitulado “Dietro L’Uragano” (Leia texto desse álbum aqui), no ano de 1992 e digo, meus caros leitores, que mesmo sendo um projeto inacabado traz a essência e a força de uma banda seminal que é o Alphataurus.

"Dietro L'Uragano" (1992)

Após um longo período com a banda hibernando, no ano de 2009, Guido Wassermann e Pietro Pellegrini decidiram que era o momento de trazer o Alphataurus de volta à cena. O baterista Giorgio Santandrea também voltou à banda e em novembro de 2010 eles anunciaram oficialmente a reunião, após mais de trinta anos de ausência.

O Alphataurus se apresentou no “Progvention”, no mesmo ano de 2010, na sua cidade natal, Milão. A formação, que incluiu ainda o vocalista Cláudio Falcone, o tecladista Andrea Guizzetti e o baixista Fabio Rigamonti permaneceu também para outras apresentações no ano seguinte, em 2011.

Um álbum ao vivo, “Live in Bloom”, foi lançado em março de 2012, mas antes do final de 2011 o baterista Giorgio Santandrea deixaria a banda, sendo substituído por Alessandro “Pacho” Rossi. Em setembro de 2012 seu segundo álbum de estúdio, “AttosecondO”, incluindo temas revistos a partir do segundo álbum incompleto, bem como novas músicas.

Alphataurus - "Live in Bloom" (2010)

Com o retorno aos palcos o álbum “Alphataurus” ganharia maior evidência recebendo ótimas críticas e consequentemente novas reedições, com uma, no formato CD, pelo selo “Vinyl Magic”, em 1995, remasterizado pelo tecladista Pietro Pellegrini e outra, uma em 2009 pelo selor AMS/BTF e outra em 2011, também pela Vinyl Magic” no formato CD. Teve também, inclusive, uma reedição coreana feita com 1.000 cópias e uma japonesa.

Muito se questiona sobre a concepção de “Alphataurus” e a sua relação com os irmãos De Scalzi, donos de selo Magma. Atribuiria a estes os “donos” do projeto do álbum do Alphataurus, não tendo um investimento pesado em divulgação exatamente por esta questão.

Mas não percebo como tal, mas sim como um trabalho genuinamente autoral de músicos tarimbados que definitivamente sabiam do caminho que estavam seguindo, da sua capacidade, de seu repertório. 

Por mais que os envolvidos nesse álbum não possam ter tido a dimensão do tamanho desta obra para a cena progressiva, mas o fato é que, independente da ausência do sucesso comercial, o primeiro álbum do Alphataurus está nos anais da história do rock progressivo italiano e mundial. Um trabalho altamente recomendado! 




A banda:

Guido Wasserman na guitarra

Pietro Pellegrini no órgão, piano, moog, spinetta, vibrafone

Michele Bavaro no vocal

Alfonso Oliva no baixo

Giorgio Santandrea na bateria

 

Faixas:

1 - Peccato D'Orgoglio

2 - Dopo L'Uragano

3 - Croma

4 - La Mente Vola

5 - Ombra Muta



"Alphataurus" (1973)