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sexta-feira, 21 de março de 2025

Orchid - Capricorn (2011)

 

Quando eu comecei a ouvir as bandas de stoner rock em meados da primeira década dos anos 2000, eu sempre achei que as bandas que eu ouvia, em especial, era uma espécie de resposta nostálgica dos fãs aos anos 1970 e todas as suas manifestações culturais e/ou comportamentais.

Mesmo assim continuei a ouvir desbravar os sons dessa nova cena que, mesmo sem apoio da indústria fonográfica, e de alguns fãs de rock mais “conservadores”, e fui percebendo, ao ouvir álbuns e bandas, que não era apenas lembranças, reminiscências do passado, mas eram sons mais arrojados, mais destemidos, sonoramente falando.

Muitas bandas começaram a aglutinar sonoridades psicodélicas, de blues e até mesmo de rock progressivo. As viagens sonoras se tornaram mais chapadas e até mesmo sofisticadas, o que pode parecer impossível com o stoner rock, tido como um som mais duro, mais rústico e, por vezes, sujo e despretensioso.

E uma banda, em especial, me apresentou a essa nova cena e não me fez querer sair mais. A banda se chama ORCHID! E quando eu falei que essa cena dos anos 2000, começou a flertar com outros elementos sonoros do rock n’ roll, entre outros o psych rock, o Orchid foi formado em uma das cidades mais importantes para a cena psicodélica dos anos 1960, São Francisco, nos Estados Unidos. Tem algo a ver? Não sei dizer se tem, foi apenas um dado sem muita relevância.

Mas coincidências à parte, a história do Orchid inicia em 2008, aproximadamente com o vocalista Theo Mindell, quando estava construindo, em sua mente, uma ideia do que viria ser o Orchid. Ele não estava tocando em banda nenhuma à época e há muito tempo. Estava cansado do que estava acontecendo nas cenas daquela época e começou a compor, na guitarra, naquele mesmo ano.

Ele tinha tocado em uma banda com o guitarrista Mark Thomas Baker, isso muito anos antes de se juntarem ao Orchid! Theo sabia que Mark era o único cara que poderia materializar o seu projeto, que era capaz de trazer o Orchid à vida. E o incomodou, de forma incansável e determinada, para convencer Mark a participar de sua empreitada, até que finalmente ele aceitou.

Theo Mindell

O próximo passo era buscar mais músicos para compor a banda e a busca foi longa e difícil, principalmente para a escolha de um baixista. Foram muitos baixistas que fizeram audição e muitos que não se encaixavam na proposta da nova banda, alguns entraram na banda, mas ficaram por pouco tempo. Até que Keith Nickel foi escolhido e em seguida entraria na banda o baterista exímio Carter Kennedy. Esse foi o começo do Orchid.

As origens do nome da banda, “Orchid”, claro, veio do título da música do Black Sabbath, do excelente álbum, de 1972, “Vol.4”. A ideia de Theo era um nome que não soasse tão clichê dessas bandas de heavy metal. Ele queria um nome que evocasse sentimentos de psicodelia do final dos anos 1960 e início dos anos 1970 e o Sabbath foi lembrado. Talvez se fosse um nome sombrio ou mau teria soado algo fingido ou forçado.

A ideia de Theo e os demais caras da banda era um nome ambíguo que desse a eles algum espaço para crescer musicalmente e comercialmente falando. E Orchid era ideal, eles sempre gostaram da maneira como o nome da banda estava atrelado a eles.

E, com isso, vem também algumas comparações, um tanto quanto maldosas, com o próprio Sabbath. Mas encaro, bom amigo leitor, como apenas uma influência inevitável. E deixo com os senhores uma declaração do próprio Theo Mendell, em uma entrevista concedida para um blog chamado “Temple of Perdition”, que diz:

“Quanto às comparações com o Sabbath? Eu realmente não me preocupo com isso. Eu amo o Sabbath. Eles têm sido uma das minhas bandas favoritas desde que eu era criança. Eu não sei como eu poderia escrever músicas de rock pesado sem esse som ou identidade. É apenas o que eu acho legal. Eu acho que há muitas outras influências que estão bastante presentes no som do Orchid também. Mas as pessoas sempre pegarão o caminho mais curto para um destino, mesmo que seja prendendo algum tipo de "etiqueta de roubo" em você. Se esse é o pior crachá que eu já tive que usar na minha vida musical, vou usá-lo com orgulho”.

O primeiro trabalho do Orchid sairia em 2009, mas não seria um álbum, mas um EP e, convenhamos, começaram, ainda assim, muito bem, com o “Through the Devils Doorway”. Eram quatro músicas de uma banda avassaladora, que trazia o conceito de hard rock muito fortemente, mas trazia também pegadas de storner, psych e até mesmo de um doom metal. Um começo à altura das ambições desses jovens músicos que queriam fazer música dos anos 1970 com um pé nos anos 2000 e com muito recurso sonoro.

"Through the Devil's Doorway" (2009)

Mas o melhor estava por vir, o tão esperado debut do Orchid e, apesar de ter demorado um pouco, ele viria e com força e impacto na cena stoner underground e o nome dele? “Capricorn”, de 2011. O conceito, a proposta era basicamente a mesma de seu EP, lançado há dois anos antes, mas veio com uma excelente produção, com arranjos e melodias bem-feitas. Era um álbum diversificado, não era datado, o hard rock, o heavy rock, o stoner e o psych rock eclodia a cada nota musical. Se você, bom amigo leitor, aprecia Black Sabbath e aquele som arrastado e sombrio, verá em “Capricorn” a melhor das audições.

Theo Mendell assinaria a arte gráfica de “Capricorn”, bem como também no EP que abriu a história discográfica do Orchid. Nada mais do que natural, haja vista que de Theo que surgiu a concepção da banda e nada mais interessante que o próprio fizesse o trabalho estético e gráfico da banda, o que aconteceu. E é com “Capricorn” que falaremos nessa resenha.

A produção de “Capricorn”, já que comentei sobre o belo trabalho, ficou sob a responsabilidade de Will Storkson e ele foi determinante para a construção sonora desse álbum e lançado pelo selo Nuclear Blast. Há relatos, ainda na entrevista concedida para o blog “Temple of Perdition”, de Theo Mendell onde fala sobre as influências da banda para a concepção de seu debut:

“Se eu fosse deixado por conta própria, nossos discos poderiam acabar soando como uma mistura de Stooges Raw Power e Sabbath Bloody Sabbath ... Eu adoraria, mas pode parecer muito ensopado. Vou continuar empilhando fuzz e reverb até que você não consiga ouvir nada”.

Will ajudou e foi preponderante na produção de “Capricorn” e o fez com um radar direcionado aos longínquos anos 1970, mas sem negligenciar as tendências da contemporaneidade. Quanto ao teor das letras, suas temáticas trafegam no occult rock, mas também em temas sociais e comportamentais.

O álbum é inaugurado com a faixa "Eyes Behind the Wall" que já entrega o ouvinte um estrondoso e poderoso riff de guitarra, um trovão sonoro e potente. Bateria pesada, marcada, batida forte, baixo pulsante. A “cozinha” realmente se destaca e dá o tom, o ritmo, não é à toa que é a seção rítmica. E para aqueles que aprecia o hard dos anos 1970, perceberá uma espécie de gravação “vintage”, com nuances antigas. Sem dúvida a banda e o produtor conceberam a música e todo álbum assim intencionalmente.

"Eyes Behind the Wall"

Segue agora com a faixa título, “Capricorn” e a percepção de que voltamos aos anos 1970 é nítida. A batida cadenciada, tendendo para uma levada meio jazzística é adorável e dançante. O vocal é ameaçador, sombrio e segue também com um timbre cadenciado. Mas logo ela irrompe em uma hecatombe pesada, um volumoso hard rock. O vocal ganha mais alcance, mais potência, a música fica mais rápida, mas logo fica mais lenta e assim alterna, mostrando a capacidade instrumental da banda.

"Capricorn" (Clipe oficial)

“Black Funeral” surge vagarosa, lenta, uma bateria ao fundo, com seus pratos, mas logo depois, por pouco tempo explode em um heavy metal com guitarra tocada ao extremo e bateria igualmente pesada. Logo volta ao clima soturno, sombrio e perigoso, com o vocal dando a tônica. Um occult rock com linhas de heavy metal e pitadas discretas de doom metal.

"Black Funeral"

“Masters of It All” inicia com dedilhados de guitarra ao estilo Sabbath de tocar bem interessantes. Ela é responsável por colocar lenha na fogueira, porque, aos poucos, a faixa vai “encorpando”, ganhando camadas mais pesadas. A bateria é tocada com um pouco mais de agressividade e assim alterna, voltando para os dedilhados de guitarra. Os vocais ficam mais altos no clímax hard.

"Master of it All"

“Down into the Earth” traz um baixo dedilhado ao estilo Sabbath e explode para riffs grudentos e pesados de guitarra te remetendo ao heavy metal. A bateria bem marcada, tocada com técnica, mas orgânica. Riffs de guitarra, na metade da música, são percebidas com uma pegada mais doom, mais suja e despretensiosa.

"Down Into the Earth"

“He Who Walks Alone” é, sem dúvidas, uma das melhores faixas do álbum, pois traz uma mescla de passado e presente com uma incrível sinergia. Te remete ao hard rock dos anos setenta, com o peso e a cadência e o doom metal dos anos 1980, que traz a parte mais suja e arrastada. É agitada, enérgica, animada, encantadora e, claro, pesada. Aqui o Sabbath, juntamente com bandas do naipe de Saint Vitus são devidamente percebidas.

"He Who Walks Alone"

Segue com “Cosmonaut of Three” que começa aterrorizante, um estilo sombrio e ameaçador que parece ser uma trilha sonora de um final de terror. A “cozinha” se destaca novamente. A bateria segue marcada, mas pesada e o baixo pulsa feito um coração em um momento dramático e tenso de pavor. Há riffs de guitarra que corroboram essas condições dando uma camada interessante à música. Uma atmosfera perigosa e que dá aula de occult rock.

"Cosmonaut of Three"

“Electric Father” segue basicamente a mesma proposta sonora de sua antecessora, explodindo em um temperamento de doom metal, mesclado ao heavy rock e o hard rock com pegadas setentistas. Aqui os sintetizadores ganham algum destaque e dão um tom mais sombrio à faixa, além de um solo rápido, direto, mas competente de guitarra que traz mais peso.

"Electric Father"

E fecha com “Albatross” que foge um pouco do tom e da vibe das faixas anteriores. Começa com uma pegada mais viajante e chapante, te remetendo a coisas mais experimentais e psicodélicas. O vocal continua com aquele tom mais ameaçador e soturno, enquanto, aos poucos, a bateria vais surgindo um pouco mais forte e discretos dedilhados de guitarra. Os teclados entregam a condição mais viajante da faixa. E fecha, de forma espetacular e inspiradora, com solos de guitarra lisérgicas. O prog psych se faz presente nessa última faixa de “Capricorn”.

"Albatross"

Em 2012, um ano depois do lançamento de “Capricorn” o Orchid lançaria mais uma EP, o seu segundo, chamado “Heretic”, com quatro faixas, sendo que uma delas era uma faixa de seu debut, “He Who Walks Alone” e, no ano seguinte, em 2013 lançaria outro EP, com três músicas e que se chamou “Wizard of War”.

"Heretic" (2012)

"Wizard of War" (2013)

E finalmente o tão aguardado segundo álbum sairia, intitulado “The Mouths of Madness”, em 2013. A banda, neste novo trabalho, me soou mais polida, a produção mais bem acabada e uma banda nitidamente mais experiente e ciente da sua proposta sonora que não, não mudou em relação ao seu debut, “Capricorn”. A sonoridade poderosa, calcada no hard rock setentista, com pegadas atualizadas de stoner e doom metal, tendo a concepção do occult rock dominando as ações, mostra uma banda coesa e muito competente e coerente no que vinha, até então, fazendo. O álbum pode ser ouvido aqui!

"The Mouths of Madness" (2013)

Naquele mesmo ano, de 2013, a banda lançaria a sua primeira coletânea, “The Zodiac Sessions”, com o que há de melhor nos seus primeiros trabalhos. Atualmente a banda está um tanto quanto parada, não tem realizado lançamentos, mas há informações de que um novo trabalho virá e quando o Orchid se propõe a fazer um novo álbum, aguardem, pois há muita coisa boa pela frente!

"The Zodiac Sessions" (2013)

Theo Mindell, ainda em uma entrevista que concedeu para o blog “Temple of Perdition”, disse não fazer ou pelo menos não ter nenhuma intenção, com a sua música, com o Orchid, de estar em uma cena musical, mas apenas compor as músicas que amam. Mas o fato é que o Orchid, com a sua sonoridade que flerta com o tempo ou com “vários tempos”, trouxe uma nova perspectiva para o rock no início dos anos 2000, o rock como ele era, vivo e genuíno, marginalizado.


A banda:

Mark Thomas Baker na guitarra e sintetizadores

Keith Nickel no baixo

Carter Kennedy na bateria e percussão

Theo Mindell nos vocais, percussão e sintetizadores

 

Faixas:

1 - Eyes Behind the Wall

2 - Capricorn

3 - Black Funeral

4 - Masters of It All

5 - Down into the Earth

6 - He Who Walks Alone

7 - Cosmonaut of Three

8 - Electric Father

9 - Albatross 



"Capricorn" (2011)



















 


























quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Caixão - Da Porta ao Sumiço (2020)

 

Nessa minha fantástica caminhada de desbravar as grandes bandas que trafegam nas sombras das obscuridades, me peguei em algumas boas e salutares discussões acerca das condições que a sua sonoridade se relaciona, digamos assim, com o público. Uma delas é: um projeto musical pode ser considerado uma banda?

Pode parecer uma pergunta um tanto quanto desproporcional e boba, sem contexto algum, mas quando me vi refletindo sobre, quando essa questão me veio por um bom amigo leitor, me coloquei a pensar. Será que um projeto que, em tese, tem início, desenvolvimento e fim, pode ser considerada como uma banda constituída, haja vista que, quando se tem uma banda, presume-se que os seus músicos queiram a sua longevidade.

Projetos vem e vão, bandas também vem e vão, fãs idem, cenas também, mas a música, quando é relevante para os seus ouvidos e alma, sem dúvida alguma prevalecerá, passará pelos tempos e modismos, incólume, viva e jovial. Independente de como ela, a música, é concebida, ela é música e precisa ser apreciada, “degustada” como tal.

E essa banda, ou melhor, projeto é digno de reverências, dada a sua originalidade e também a sua sonoridade que nos remete aos prolíficos anos 1970, mas sem soar datado ou algo pasteurizado com a intenção de atingir a determinados nichos ou cenas de cunho saudosistas. Falo da banda ou projeto brasileiro, oriundo do Ceará, chamado CAIXÃO.

Caixão

E que orgulho, ufanismos à parte, dizer que se trata de um trabalho brasileiro, de material original e de contundência sendo feito em um país que privilegia as músicas frívolas, sem sentido e oca em sua concepção, mas essas tocam nas rádios, nas emissoras de massa, em tudo quanto é lugar, chega a ser leviano fazer essas pífias comparações. A Caixão já começa a ser underground e pouco “ortodoxo” com o seu nome.

E foi com o seu nome que, quando o conheci, lá pelos anos caóticos da crise sanitária da COVID-19, que realmente me chamou a atenção (risos)! São as maravilhas do mundo do underground e também os meus apreços e predileções musicais. E diante de tanto lixo musical que nos chega sem sequer pedirmos, torna-se urgente filtrar, para não cair na asneira de ouvir porcarias.

O projeto começou, em 2018, com o baterista Ítalo Rodrigo, conhecido pela banda seminal de crossover Damn Youth e também no Echoes of Death. Ítalo trouxe à tona a Caixão com o intuito de ser um projeto, porque, além de ser a sua concepção, ele pincela os músicos que o acompanha na sua empreitada sonora. Ítalo é a Caixão, pelo menos por enquanto, porque tudo indica que o projeto poderá vir a ganhar contornos de banda. Pode parecer estranho essa condição, afinal, a Caixão é uma banda constituída, independentemente de sua essência.

Lançou, em abril de 2019, um single, de nome “Pássaro Holograma” e um EP, com 5 músicas, também no mesmo mês e ano, de nome “Caixão”. Em setembro do mesmo ano gravou um “Split”, ou seja, um álbum com outra banda, chamado “Candelabro”, com a banda Abismo. O ano de 2019 foi bem agitado para a Caixão! Porém somente em outubro de 2020, em pleno auge da pandemia do COVID-19, lançou seu primeiro álbum chamado “Da Porta ao Sumiço”, cujo selo é a Abraxas, conhecida por ter em seu cast bandas de stoner, doom e occult rock da atualidade. E o cenário do caos sanitário também trouxe um formato um tanto quanto atípico na concepção do álbum sob o aspecto da gravação e sem sombra de dúvida na composição das letras. E será esse álbum alvo do texto de hoje.

EP lançado em 2019

“Da Porta ao Sumiço” foi concebido pela seguinte formação: além de Ítalo Rodrigo, na guitarra, o “dono” do projeto, trouxe Mirelle Sampaio, também na guitarra, Renato Alves, no baixo, Jardel Reis na bateria, com a participação no vocal e na letra de Ângelo Sousa, na música “Vulto”. A arte da capa contou com Fernanda JFL.

O processo de criação do álbum se deu de uma forma bem usual, apesar dos tempos temerosos da pandemia, tendo as ideias vindo em momentos totalmente inusitados, tendo como ponto central as músicas surgirem a partir de um riff. O trabalho foi todo feito em casa, afinal, o caos pandêmico exigiu um distanciamento social, o que certamente deve ter impactado o talentoso Ítalo a conceber as faixas que compunham esse álbum. Usaram para fazer a captação, sendo gravado em caixinhas de guitarra, que inclusive o baixo também foi gravado na caixa de guitarra. A mixagem e masterização ficou por conta de Guilherme Mendonça, amigo de Ítalo.

“Da Porta ao Sumiço” é um álbum que remete às sonoridades setentistas, que vai do hard rock ao psych. Passa pelo progressivo também, nuances mais discretas dessa vertente, mas também com um pé em sonoridades mais contemporâneas, como o stoner rock, por exemplo. O som da Caixão não é, com isso, datado, talvez homenagens às bandas de occult rock dos anos 1970 relegadas ao ostracismo, mas que soa com muito frescor, pois evoca o contemporâneo e a capacidade de se mostrar muito diversificada e difícil de se rotular.

É, sem dúvida, um registro contemporâneo, com referências do passado. É tão diversificado e complexo o som da Caixão neste trabalho que eles conseguem ser solares e introspectivos em uma única música, repetindo-se, em outras faixas. É inegável que, ao ouvir “Da Porta ao Sumiço”, não se consiga cativar pelas melodias envolventes e cheia de personalidade, sem contar com os riffs poderosos de guitarra que traz a versão pesada às músicas, propiciando os diversos andamentos distintos nelas, causando ao ouvinte um arrebatamento sonoro.

Como o próprio nome sugere, bem como a sua sonoridade, a Caixão dignifica, por intermédio de seu debut, uma roupagem, como disse, diversificada e calcada nos anos 1970, com viés atualizado trazendo o peso do stoner rock, tudo isso envolto em uma textura bem interessante de occult rock que beira, inclusive, a uma trilha sonora de um filme de terror. Me trouxe à tona até bandas como a italiana Goblin, por exemplo, que sempre explorou o cinema fazendo trilhas para o icônico cineasta Dario Argento.

"Hora de Ir"

“Corrente” segue agora com uma veia mais hard rock com riffs mais pesados de guitarra que, em determinados momentos, fica mais cadenciado, mas nunca leve ou introspectiva. É pesada! A “cozinha” é eficiente. Bateria pesada e marcada, baixo galopante, teclados enérgicos, mas ainda assim, sombrios.

"Corrente"

“Die in the Flame they Created” traz à memória algo de Blue Oyster Cult mais dançante, aquela fase mais comercial da banda dos anos 1980, mas que não negligencia de forma alguma sua pegada occult rock. O stoner se faz presente, o peso e os riffs de guitarra entregam essa vertente na faixa. “And Now Look At the Size of the Damage” segue basicamente a mesma proposta da faixa anterior, dando um caráter mais pop e comercial ao occult rock que permeia na música.

"Die in the Flame they Created"

“Mariposa” traz de volta o peso do stoner rock, capitaneado pelos riffs pegajosos e pesados de guitarra. A seção rítmica segue o conceito da música, se mostrando engenhosa e igualmente pesada. A bateria bate forte sem piedade alguma, mas ainda assim, temos algumas mudanças rítmicas. Bela música!

"Mariposa"

Segue com “Vulto” e a proposta pesada ainda paira sob esse momento do álbum e o hard continua pleno, os riffs de guitarra continuam em destaque, a bateria é pesada, porém cheia de viradas emocionantes. Percebo uma pegada mais heavy metal nesta faixa. A energia e a fluidez nessa música são deveras perceptíveis.

"Vulto"

“Poeira na Luz do Sol” chega mais sombria, mais introspectiva, com uma pegada pesada, porém arrastada, cadenciada, um stoner mesclada a um discreto doom metal. O baixo ganha destaque nessa faixa. É vívido, tocado alto, de forma galopante. A bateria basicamente segue marcada e os riffs de guitarra torna a faixa mais pesada. “Passeio no Céu” traz, mais uma vez, uma textura mais sombria, como na faixa anterior, algo mais introspectiva e soturno. Junto a isso uma pegada mais lisérgica envolve toda a proposta da faixa. A fala ao final da música é um trecho do filme “Compasso de Espera”, de 1973, dirigido por Antunes Filho.

"Poeira na Luz do Sol"

E fecha com “Goodbye Sanity” que se mostra com uma roupagem mais comercial, mais pop e bem dançante. Um conceito em voga entre as bandas atuais de occult rock que mescla o comercial com o occult rock que não é nada original, mas que atualmente é bem difundido nas músicas das bandas que compõe a cena hoje.

"Goodbye Sanity"

 “Da Porta ao Sumiço” pode ser considerado um álbum conceitual, afinal, as músicas, antes de qualquer coisa, se conectam, sonoramente falando. E o significado do nome do álbum também “amarra” esse conceito, pois o sumiço pode ser tanto para dentro quanto para fora, a partir da porta. Significa sumir de si ou dos outros. As faixas trazem esse ambiente de dúvidas, de fraquezas, de medos.

A banda lançou, em março de 2024, o single “Luz Estranha em Quixadá” e recentemente, em julho do mesmo ano outro single de nome “Bloodstains”. Esta última serviu como prenúncio para o lançamento do seu segundo álbum chamado “Entre o Velho Tempo Futuro”, previsto para ganhar luz em setembro. Remessas, no formato vinil, serão disponibilizados a partir de outubro.

"Luz Estranha em Quixadá" (2024)

O que nos resta, enquanto apreciadores do bom e velho occult rock, é aguardar ansiosamente por este tão aguardando novo álbum para ter de volta a Caixão despontando nos palcos e destilando suas músicas carregadas em hard rock, stoner, psicodelia e progressivo. E que o projeto se torne uma banda oficial e longeva. Se a música for o peso determinante não tenha dúvida de que isso logo acontecerá.




A banda:

Ítalo Rodrigo na guitarra

Mirelle Sampaio na guitarra

Renato Alvez no baixo

Jardel Reis na bateria

 

Com

 

Ângelo Sousa no vocal e letra de “Vulto”

 

Faixas:

1 – Hora de Ir

2 – Corrente

3 – Die in the Flame they Created

4 - ...And now look at the Size of the Damage

5 – Mariposa

6 – Vulto

7 – Poeira na Luz de Sol

8 – Passeio no Céu

9 – Goodbye Sanity (Bônus)



"Da Porta ao Sumiço" (2020)


"Entre o Velho e o Tempo Futuro" (Novo álbum de 2024)




 


 


























quarta-feira, 27 de maio de 2020

The Devil and the Almighty Blues - The Devil and the Almighty Blues (2015)


Sou um entusiasta dessa nova (nem tanto mais) cena de bandas de stoner rock, doom metal, rock psych que vem crescendo nos últimos 20 anos, desde o início da década de 2000 e ainda mais na segunda década de 2010. 

Vem crescendo tanto que já está saturada e, como costuma acontecer nesses casos algumas bandas se tornam um tanto quanto repetitivas, uma redundância sonora inconveniente, mas ainda assim, formada por bandas, em sua maioria, consistentes e que estão resgatando as origens do rock n’ roll, genuíno, aquele que se faz com o colhão, da forma mais visceral e despretensiosa possível, sem amarras, no seu formato mais marginal, como em tempos gloriosos de outrora. 

Conhecidos como “rock retrô”, talvez de forma pejorativa, pois trazem, além da sonoridade característica da década de 1970, tem um apelo estético muito evidente daquela época. Mas não se enganem, caros amigos leitores, pois apesar de tudo isso, da saturação e tudo mais, ela traz consigo um frescor, um odor de novidade, um toque de contemporâneo, diante de grandes entressafras criativas que costumamos ver e ouvir na cena maisntream

Tenho dada a devida atenção a essa cena, a essas bandas que fazem um som orgânico, real, sem máquinas eletrônicas que precisam apenas de botões para emitir sons desconexos para dar o título de músicos a charlatões que pregam uma pseudo revolução da música. 

Mas confesso que quando conheci o THE DEVIL AND THE ALMIGHTY BLUES, uma banda que veio da Noruega, mais precisamente da cidade de Oslo e li as suas influências musicais, tais como: doom metal, hard rock e blues, fiquei relutante e confesso que subestimei os caras. 

The Devil and The Almighty Blues

Afinal, essas referências vem de bandas como Black Sabbath e essa cena está repleta de bandas com influência do Sabbath. Pensei: Ah, mais uma que soa como o Black Sabbath! Dei uma chance e decidi ouvi-la. Uau! Como pude ter tido uma visão tão pré-concebida? 

Uma banda tão vigorosa, arrogantemente poderosa, com uma sonoridade tão crua, direta, mas dotada de tanto virtuosismo, ao mesmo tempo. Pois é, a terra do black metal pode te entregar algo além e de muito peso também e que, claro, traz influências das bandas sujas e pesadas dos anos longínquos da década de 1970, mas com o arrojo de mesclar o hard rock, o blues, o doom metal e o stoner rock, em uma sopa contemporânea, o frescor dos novos tempos com o pé no passado sem soar datado. 

A banda foi formada foi em 2015 e logo neste mesmo ano lançou o álbum, que ouvi e será alvo desta resenha, o homônimo “The Devil and the Almighty Blues” e contava com a seguinte formação: Arnt O. Andersen, nos vocais, Petter Svee e Torgeir W. Engen nas guitarras, Kim Skaug no baixo e Kenneth Simonsen na bateria. 


Um álbum impossível de ficar parado, porque é poderoso e vivaz e que começa soturno, arrastado, com o riff característico do doom metal e um baixo pulsante e marcado de "The Ghosts of Charlie Barracuda", mas que logo irrompe em um hardão alto com vocal gritado e frenético e aquele tempero bluesy para dar o sabor a comida sonora. 

"The Ghosts of Charlie Barracuda", live at Sonic Blast Moledo

“Distance” já começa dando um murro na porta, com um hard rock direto e cru, com solos de guitarra bem elaborados, um som que te remete aos anos 1970. “Storm Coming Down” começa com um riff de guitarra, algo repetitivo, mas os outros instrumentos como o baixo e uma bateria mais marcada e forte vêm sendo adicionada, uma a uma compondo uma sonoridade agressiva e pesada, aqui o doom e o stoner ganham destaque. 

"Distance"

“Root To Root” se apresenta com um doom sujo, com um riff pesadão de guitarra, um contexto instrumental ameaçador e sombrio, com o blues inserido de uma forma dilacerada e inusitadamente homenageado, assim segue a faixa seguinte, “Never Darken my Door”, mais com um pouco de groove, um pouco dançante, animada e cadenciada.

"Root to Root, live at Desertfest, Berlim, 2019

E fecha com “Tired Old Dog” com a característica introdução de um riff pesado e sujo de guitarra e com a apresentação gradativa dos outros instrumentos formando uma camada densa e soturna em uma combinação explosiva entre hard e blues em um duelo salutar em prol da música. 

"Tired Old Dog"

O The Devil and the Almighty Blues, que vem da fria Noruega, apresenta, em seu debut, o calor borbulhante do rock autêntico e sujo, que parece ter minado das profundezas do inferno fazendo jus ao seu nome. Uma pérola bruta mais do que recomendada.





A banda:

Arnt O. Andersen no vocal
Petter Svee na guitarra
Torgeir W. Engen na guitarra
Kim Skaug no baixo
Kenneth Simonsen na bateria


Faixas:

1 - The Ghosts of Charlie Barracuda
2 – Distance
3 - Storm Coming Down
4 - Root to Root
5 - Never Darken My Door
6 - Tired Old Dog




"The Devil and the Almighty Blues" (2015)


Versão do álbum para Bandcamp acesse aqui