Muito se fala em bandas
“cult”, atribuindo tal termo, principalmente às bandas que tiveram um impacto
significativo na história de seu gênero, de seu estilo, de sua sonoridade, de
sua cena. Geralmente decretam bandas cult aquelas mais famosas, que atingiram
uma faraônica credibilidade no rock n’ roll.
Não quero, prezados e estimados leitores, com isso demonizar tais bandas que
trafegam no mainstream, pois merecem sua condição de cultuadas, a sua
importância para catapultar tais cenas e tudo mais, porém gostaria de trazer à
tona a importância também de algumas bandas que foram ou se colocaram em uma
condição de marginalização da cena e discutir se podem ou não serem
consideradas “cult”.
O que acham, nobres leitores?
É possível atribuir-lhes tal título, mesmo que que tenham sido relegadas ao
ostracismo? É difícil ou inconsistente coloca-las, por exemplo, em uma condição
de pioneirismo dentro de seu estilo? O que realmente isso, efetivamente,
importa para tais bandas?
Talvez seja um assunto deveras
desnecessário, mas tendo em vista a razão de ser deste reles e humilde blog que
visa, majoritariamente, difundir as bandas raras e obscuras, uma faísca desse
assunto pode ganhar uma explosão de linhas, evidenciando um surto passional
deste que vos fala ou melhor, escreve.
Em alguns textos meus, caso
vocês, leitores, acompanhem, sempre venho com esse assunto e geralmente, dada,
provavelmente as suas variáveis tão complexas, não consigo chegar a uma
conclusão, mas tento efetivá-las trazendo o que sempre faço neste blog:
histórias de bandas e seus álbuns. Creio que as suas histórias dizem mais do
que mil argumentos e hipóteses acerca do tema espinhoso da representatividade
dessas bandas no universo das cenas rock.
Então para não perder o
costume vou trazer mais um aporte, ou pelo menos tentar, às minhas difusões da
importância de trazer essas bandas a um patamar de importância para as cenas
rock: E quando digo que vou tentar é porque, mais uma vez e, por razões óbvias,
essa banda que falarei hoje, não goza de tantas informações para encorpar tais
hipóteses e fundamentações. Que se dane, ao falar dela, já será um ponto
preponderante para disseminar a sua história. Falo do P2O5.
Essa banda, de curioso e
inusitado nome, alemã foi fundada em 1970, em Wendelstein, perto de Nuremberg e
trazia, na sua base sonora, o que muitas bandas traziam naquela época,
principalmente de transição entre as décadas de 1960 e 1970: rock progressivo,
hard rock e também um belo e poderoso rock n’ roll. E muitos desses estilos,
convém ressaltar, ainda eram embrionários, ainda estavam crescendo, ganhando
contornos, o que pode se atribuir em importância, sobretudo na Alemanha, para o
P2O5, apesar de ter uma profusão de bandas, naquele país, que tocavam tais
vertentes. Era o tempo do auge do krautrock germânico.
Os membros da banda, que a fundou e traziam Wolfgang Burkhard nos teclados, Rainer Häuser na guitarra, Helmut Hiebel, no baixo e vocais e Edwin Lotter, na bateria, foram colegas de escola lá por Wendelstein e Nuremberg e foi nos bancos escolares que a inspiração, para o nome da banda, surgiu: “P2O5”, mais precisamente nas aulas de Química.
Para aqueles que fugiram das
aulas de Química no passado, “P2O5” é a nomenclatura do pentaóxido de difsforo
ou óxido de fósforo ou ainda como se dizia, em tempos mais remotos, anidrido
fosfórico, que vem a ser um componente fundamental na fotossíntese vegetal. Rezava
a lenda, a boca miúda, de que tal fórmula era para explosivo, o que não
confere. Acalmem-se, estimados leitores, não darei aula de Química, até porque,
se o fizesse, seria um completo desastre. Vamos à música que já está de bom
tamanho!
E por falar em explosivos, o
que se pode afirmar era que seus shows eram explosivos e chamativos, apelando
para algo cênico, teatral, caraterizados por apresentações pirotécnicas, além
de figurinos e rostos pintados, tochas acesas, cruz de mármore entre outros
apetrechos. E contar que começaram a ensaiar em vestiários, quartos, porão e
alguns pontos dentro das escolas onde estudavam.
Os primeiros shows foram
realizados em 1971, a maioria, localmente, em Wendelstein e, claro, também em
Nuremberg. E, graças as suas performances, a fama da banda cresceu, a ponto de
tocarem, naquele mesmo ano, em um concerto para a UNICEF. E com isso ofertas de
shows maiores vieram em Tischenreuth, Amberg, Schweinfurt,
Aschaffenburg e repetidas vezes em Wendelstein. Um dos destaques foi participar
de uma competição, entre bandas, ao vivo do SWR (Südwestfunk) uma conhecida
rádio alemã, em Baden-Baden, onde a banda conquistou um incrível segundo lugar.
O nível de popularidade,
claro, cresceu, a banda ganhou evidência e em 1978 o primeiro álbum do P2O5
ganhou vida, pelo selo Brutkasten, o “Vivat Progressio - Pereat Mundus”. O
álbum foi gravado em novembro, com uma tiragem muito pequena, pasmem, de 300
cópias! Mesmo com a banda em evidência, com relativo sucesso, ainda não teve o
apoio necessário na produção e disseminação e divulgação de seu álbum.
Convém, antes de falar do álbum e suas faixas, de forma dissecada, como de costume, que a banda, entre a sua formação e lançamento de seu álbum, entre 1970 e 1978, teve algumas mudanças de formações, a começar por Rainer Häuse, guitarrista, em 1972, voltando, paraum curto período, em 1975, sendo substituído por Konny Hempel que participou da gravação do álbum.
Entrou também, para a banda, o
vocalista Werner Weiss, em 1977. Então o line up que participou da gravação de “Vivat
Progressio - Pereat Mundus”, de 1978, foi: Helmut Hiebel, no baixo e vocal,
Eddy Lotter, na bateria, Konny Hempel na guitarra, Wolfgang Burkhard, nos
teclados e no vocais principais Werner Weiss.
“Vivat Progressio - Pereat
Mundus” nos entrega de bandeja faixas puras de heavy psych com aquela
tipicidade crua alemã, com o típico hard rock e viagens progressivas realizadas
com muita qualidade sonora. Ouso dizer que suas faixas, suas músicas, podem
adentrar, com relativa facilidade, em qualquer álbum de banda de heavy metal
dos anos 1980 que a torna, sem dúvida, uma referência em um estilo que, lá pelo
fim da década de 1970, estava ganhando relevância com a sua “New Wave of
British Heavy Metal” lá na Inglaterra. E ouso dizer ainda, graças a também fama
do punk rock, que o P2O5 também absorveu um pouco da simplicidade e crueza do
estilo. Ou seja, um banquete sonoro para todos os gostos!
O que há de melhor neste álbum
fica para a parte instrumental, mas o destaque centraliza-se no impecável
trabalho de guitarra de Hempel com seus riffs pesados mesclados aos trabalhos
progressivos mais viajantes que remete ao Pink Floyd e o trabalho do tecladista
Burkhard que realmente é digno de aplausos. Um sopro sonoro que vai do sombrio
ao solar em um estalar de dedos, mostrando o quão complexo e orgânico o P2O5
foi com este álbum.
O álbum é inaugurado com a
faixa “Comin' Over Again” que, logo de início, com seus grudentos riffs de
guitarra sugerem uma pega punk rock, mas as veias do hard rock estão lá, com
vocais meio roucos e ásperos, bateria pesada em uma batida frenética, um baixo
pulsante e enérgico, mostrando uma “cozinha rítmica” poderosa e solar. Traz uma
sútil, mas interessante camada de teclados, trazendo lembranças de um
progressivo mesclado ao hard rock. O solo de guitarra é tirar o fôlego e, nesse
momento, o teclado não deixa de ser tão sútil, mostrando uma atmosfera sombria.
A faixa é espetacular e fecha em uma velocidade nos remetendo a um heavy rock
volumoso!
“Morning of the Ants” foge, em
sua introdução, da volúpia sonora da faixa inaugural, trazendo certa calmaria,
uma balada que começa ao dedilhar de guitarra, mas que, ao longo do tempo, vai
ganhando corpo, a música fica encorpada, devendo a isso a batida da bateria,
marcada e pesada, mas logo retorna a balada rock. Um hard rock mais cadenciado
e que me remeteu, em alguns momentos, a algo como new wave, um pouco antes da
explosão da cena nos anos 1980 e isso, a meu ver, se revela perceptível, com o
solo de guitarra e até mesmo no seu dedilhar nos momentos mais calmos.
“I Didn't Care” também começa
discreta, uma balada mais viajante, contemplativa, um solo de guitarra típica
de bandas progressivas, com uma camada, ao estilo space rock, de teclados,
dando textura mais intimista. Aqui a estrutura sonora é sombria e psicodélica,
com temperos progressivos. Mais uma vez a bateria entrega o lado mais pesado,
mais hard rock desta faixa. O vocal colabora para o “humor” da música, trazendo
introspecção. O que dizer do solo de teclados? Mais uma faixa espetacular que
mostra, até então, uma banda extremamente versátil em sua sonoridade.
“Undumufu (All Right)” começa
pesada, riffs de guitarra pesados e grudentos, vocais raivosos e, mais uma vez,
a bateria ditando o ritmo desse hard rock com uma pegada punk. A sonoridade é
descompromissada, despretensiosa, indo meio que contra maré da versatilidade
das faixas anteriores. Aqui se percebe também a pegada new wave com
sintetizadores bem animados e dançantes. Baixo pulsante, cheio de groove, entra
em um salutar duelo com solos de guitarra. E segue assim, até o fim, com essa
pegada pesada, meio new wave.
“Smash” traz, logo de cara, o
som denso do hard rock, com um riff inaugural de guitarra, denso, pesado,
lembrando os primeiros trabalhos do Black Sabbath. Ouso dizer que nesta faixa
temos algo arrastado, sujo que lembra o doom metal. Mas curiosamente o vocal
aqui é límpido, transparente e de belíssimo alcance. Não podemos aqui
negligenciar a “cozinha” rítmica dessa faixa: bateria marcada, igualmente
cadenciada e, claro, pesada e um baixo pulsante e poderoso.
“Hangman” começa com aquela
camada de teclados trazendo reminiscências de uma psicodelia perdida e
esquecida na transição dos anos 1960 e 1970, mas que logo irrompe em uma
hecatombe pesada, do hard rock, do hard psych típico do início dos anos 1970
que ainda sofria influências do movimento psicodélico. É deliciosamente pesado
nos momentos mais “hard” e lisérgico nos momentos “psicodélicos”. Essas
mudanças rítmicas, essa gangorra sonora é excelente para os amantes de
psicodelia e hard rock dos anos 1970. Solos de guitarra competente, técnicos,
orgânicos, contrastam com a estranheza dos teclados, que mostram o lado mais
soturno da faixa.
“Step On My Face” traz de volta o lado mais heavy rock com riffs de guitarra mais pesado, mais arrastado, em alguns momentos. Mas logo traz uma pegada de hard rock mais radiofônico, até mesmo comercial, uma sonoridade mais acessível. Teclados são ouvidos de uma forma mais animada e solar, corroborando uma sonoridade mais acessível, como disse. O encerramento da faixa é de tirar o fôlego com solos de guitarra técnicos, porém orgânicos e a bateria em uma pegada mais arrojada.
E fecha com “Memories” e não
poderia fechar melhor: animada, pesada, estrondosa! Aqui o hard rock se revela
na sua essência, pesada, solar, riffs de guitarra pesados, bateria que levita
de tão latente e altiva, baixo pulsante, vivo, intenso! A faixa é veloz,
lembrando o heavy metal que estava engatinhando para o mundo. O vocal é alto,
quase gritado, corroborando a sua condição sonora. E o fim é um transborde
instrumental, teclados que lembra new prog, guitarras potentes, bateria e baixo
em uma sintonia rítmica incrível. Que música!
Mesmo com as suas
apresentações ao vivo explosivas e arrojadas, que lhe conferiu certa
visibilidade e que culminou também com a gravação de seu único rebento, o P2O5
continuou a fazer suas apresentações ao vivo, mas, foi, aos poucos se
desintegrando, enquanto banda.
Diante do entra e sai de
tantos músicos pós lançamento de álbum, o que causou um grande impacto à banda
foi definitivamente do tecladista Wolfgang Burkhard que deixou o P2O5 em 1980.
O baque foi grande, mas a banda ainda conseguiu sobreviver por dois anos mais,
decretando seu derradeiro fim em 1982.
É notório que o P2O5, com seu
único álbum “Vivat Progressio - Pereat Mundus”, esteve muito à frente do seu
tempo, sobretudo quando levamos em conta o que estava em evidência na música à
época, comercialmente falando, com o punk, a disco music e até mesmo um
prelúdio da new wave que, de alguma
forma, engatinhava.
Sem contar com as suas
apresentações teatrais, com seus cenários cheios de fantasia, com uma cruz de
mármore gigante, tochas acesas, figurinos e um som místico, sem dúvida deixaria
uma marca importante, uma pavimentação importante para as bandas de heavy metal
fazerem sucesso nos anos 1980.
Em 1993 o selo Ohrwaschl
Records lançou um álbum do P2O5 com faixas, digamos, “perdidas” e outras que
entrariam no álbum oficial da banda, gravadas entre os anos de 1975 e 1976.
Tais músicas foram concebidas antes do lançamento de “Vivat Progressio – Pereat
Mundus”, que foi lançado oficialmente em 1978. Este último poderia, até 1993,
ser considerado como o único trabalho, lançado oficialmente até então, mas,
para a alegria de todos, “P2O5” veio ao mundo recuperando faixas que certamente
estavam em algum baú empoeirado, em algum local inóspito, esperando ganhar a
luz.
“Vivat Progressio – Pereat
Mundus” não teve tantos relançamentos. O primeiro foi pelo selo Amber
Soundroom, em 2004, no formato LP. Mais tarde, em 2007, foi relançado, no
formato CD, pelo valoroso selo alemão, o Garden of Delights, , com duas faixas
bônus inéditas. A mais recente, em 2018, foi relançada, em LP, pelo Golden
Pavilion, La Pelote Records, em Portugal.
A banda:
Helmut Hiebel nos vocais e
baixo
Eddy Lotter na bateria
Konny Hempel na guitarra
Wolfgang Burkhard nos teclados
Werner Weiss no vocal
principal
Faixas:
1 - Comin' Over Again
2 - Morning Of The Ants
3 - I Didn't Care
4 - Undumufu (All Right)
5 - Smash
6 - Hangman
7 - Step On My Face
8 - Memories






