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sábado, 8 de fevereiro de 2025

Plebb - Yes It Isn’t It (1979)

 

O rock sueco definitivamente não está no mainstream, sobretudo as bandas dos anos 1970. Atualmente algumas bandas gozam de algum sucesso, elevando, diria homenageando, as bandas antigas, como por exemplo o Ghost que hoje conseguiu a proeza de levar para grandes arenas e eventos comerciais da música, o occult rock.

Não sei, confesso, o motivo pelo qual o rock sueco não tenha se destacado, sob o aspecto comercial, ao longo dessas décadas, mas talvez seja pelo fato de trazer a cultura de seu país, a questão folclórica aliado ao prog rock, ao hard rock entre outras vertentes. E quando a cultura é arraigada seja difícil realizar uma espécie de intercâmbio.

Mas é inegável, principalmente para os apreciadores do rock underground e obscuro, como eu, que há uma profusão de bandas suecas admiráveis que até hoje precisam ser desbravadas e descobertas. Graças aos recursos tecnológicos que nos conceberam algumas ferramentas de comunicação, muitas bandas têm surgido e vem nos encantando mesmo que tenham feito músicas que tenha mais de quarenta ou até cinquenta anos de existência.

É incrível que bandas como essas, oriundas da Suécia, ainda consigam trazer algo arrojado e espetacular e são capazes de absorver as músicas britânicas e americanas e fundir com aspectos peculiares de sua cultura, fazendo de sua arte algo espetacular e com um inigualável frescor.

E a banda que falarei hoje eu descobri recentemente, nessas incursões pelo obscuro, pelo desconhecido, pela selva intocável e selvagem que é o rock n’ roll e quando a ouvi, fui arrebatado de tal forma que me estimulou a escrever essas linhas que você, estimado leitor, lê agora. Falo da banda PLEBB.

Não sei se vocês já ouviram falar do Plebb, não sei se já ouviram essa banda, mas se a conhece, felicitarei, pois trata-se de mais uma banda rara, obscura que não ganhou o mundo e limitou-se a sua terra natal, se tornando, como tantas, aquelas bandas locais que as redes sociais se encarregam, como este simples e humilde blog, de difundir. Para a nossa sorte, para a nossa alegria.

E já que falei de bandas locais, falemos um pouco dos primórdios do Plebb, bem, tentarei, afinal, como tantas outras bandas esquecidas, não possuem tantas referências sobre a suas histórias, apenas a sua potente música, mas tentaremos falar dela, valorizando-a e ajudando a edificar um legado para as outras gerações, afinal sua música é de fazer reverência aos fãs, principalmente dos fãs do bom e velho hard rock dos anos 1970.

O Plebb foi fundado em 1976, em uma época em que o hard rock estava em declínio sob o aspecto comercial, afinal, bandas gigantes como Black Sabbath, Led Zeppelin e Deep Purple, por exemplo, ou estava finalizando a sua trajetória, ou tinha integrantes se afundando nas drogas e álbuns gravados aquém do que se esperava. O punk estava seguindo para o apogeu.

Mas o Plebb foi construído, em uma cidade, no sudeste da Suécia, chamada Mönsterås, que sequer tinha tradição para o rock, apenas com algumas poucas bandas. Nos seus primeiros anos a banda consistia em Ronnie “Balder” Nilsson (bateria), Leif Bergqvist (guitarra), Per-Martin “Pemce” Petersson (guitarra) e Tommy Gustavsson (baixo). No verão de 1977 Leif Bergqvist teve que deixar a banda devido a uma doença e Peter Martinsson o substituiria na guitarra. Leif apareceria, mais tarde, na banda “Ictus”.

E como curiosidade a origem do nome da banda, “PLEBB”, vem das iniciais de seus músicos: O "P" de "Pemce", de Per-Martin Petersson, "LeB" para "Leif Bergqvist" e o último "b" para "Balder".

Com a entrada de Peter o Plebb começou a se desenvolver e a escrever as suas próprias músicas, pois, nos seus primórdios, como tantas bandas, o Plebb tocava, para se apresentar nas casas de shows, covers de seus ídolos. Mas antes de se apresentar, ensaiaram muito e os locais escolhidos eram os mais inusitados possíveis. Outra curiosidade: a música “First Day In Roxy” é em homenagem a um local, um pouco melhor em termos de estrutura, que eles escolheram, o cinema Roxy, em Mönsterås.

Em 1978 uma fita foi gravada, em circunstâncias, diria, primitivas, sem o mínimo de estrutura e recurso, sendo gravada pelos próprios músicos que eram muito jovens, alguns deles estavam na adolescência, entre 16 e 18 anos de idade, com poucas músicas e apenas 40 cópias foram produzidas, sendo distribuídas na sua cidade natal a poucos fãs que também haviam recentemente conhecido a banda.

Não é que deu certo? Conseguiram uma boa base de fãs que, ávidos por mais e mais músicas de sua banda favorita, clamavam por um álbum novo, com mais músicas e que motivasse uma turnê de divulgação, de shows, então eles precisavam retornar ao estúdio para gravar um novo álbum.

E assim na virada do ano novo de 1978 para 1979, mais especificamente em 1979, nasceria o seu primeiro e único trabalho chamado “Yes It Isn’t It” e que foi gravado nas mesmas condições que a sua fita, sem nenhuma estrutura e condições, com aparelhagens simples, sem nenhum orçamento. E detalhe: não foi um estúdio, foi algo improvisado e foram dois locais escolhidos: o sótão de um clube de motociclistas local e uma escola, em Blomstermåla.

O álbum foi produzido pelo baixista Tommy Gustavsson e apenas 485 cópias foram prensadas na própria gravadora da banda chamada de “Plebb Records” e vendidas localmente para amigos e fãs mais próximos e ardorosos. Pois é, caros amigos leitores, os tempos eram outros e não tinham redes sociais e a internet para difundir a sua música. Tiveram também algumas poucas lojas de músicas para divulgar e vender seus álbuns.

O processo de gravação, como disse, bem rudimentar, era uma tecnologia que chamada “som sobre som” (“Sound on Sound”), o que significa que o fundo foi registrado pela primeira vez e a música e os preenchimentos de guitarra foram adicionados reproduzindo o plano de fundo e gravando as novas partes juntos com o fundo na outra fita gravadora.

“Yes It Isn’t It” é predominantemente um álbum do mais puro, genuíno e volumoso hard rock, com passagens espetaculares instrumentais mostrando que, apesar da pouca idade dos músicos, já entregavam muito talento e capacidade técnica, aliada a uma sonoridade orgânica. Ouso dizer ainda que, mesmo que o Plebb não tenha alçado grandes voos, a banda apresentou em sua sonoridade, o heavy metal que florescia no mundo e que teve o epicentro na Inglaterra, com a sua “New Wave of British Heavy Metal”.

Ainda em seu álbum percebe-se uma veia blues rock, com algumas passagens mais lentas, mais leves, discretas, mostrando uma banda cheia de recursos e muito, como disse, talentosa e que certamente era muito promissora. Outro detalhe importante e que convém ressaltar foi o trabalho de guitarra na banda, um trabalho impecável de “guitarras gêmeas”, que foi difundida por bandas como Wishbone Ash no início dos anos 1970 e que foi popularizada pelo Iron Maiden.

O álbum é inaugurado pela faixa “Reaggie II B” que, por mais que o álbum seja predominantemente de hard rock, tem uma introdução de reggae, daquele jeito, bem dançante, animado, porém vai encorpando, a pegada hard vem, aos poucos, aflorando, graças a riffs e solos mais pesados de guitarra, com a bateria marcada e igualmente pesada. Os solos de guitarra vão ficando mais alongados, pesados, bateria mais pesada também, quando, definitivamente, a música se revela um típico hard rock um pouco mais cadenciado. Depois volta ao ponto inicial, com a veia mais reggae. Começa bem e arrojado!

"Reaggie II B"

“Push Box” já, logo de imediato, esmurra a porta com um riff carregado, pesado de guitarra com uma “cozinha” empenhada em manter o peso mesclado a um groove incrível. Baixo pesado e galopante, bateria marcada e pesada. Alternâncias rítmicas são perceptíveis com momentos mais tranquilos, mas que logo se entregam ao peso. Ouso dizer que há momentos mais velozes, caracterizando em uma pegada mais heavy metal, afinal, o ano de 1979 traziam os primórdios da “New Wave of British Heavy Metal”, então, para uma banda pesada como a Plebb, não seria surpreende perceber tais elementos em sua música. Excelente faixa!

"Push Box"

“Rockaria” me remete ao que o Scorpions fazia nos anos 1970 com Uli Jon Roth nas guitarras. Não se pode negligenciar o trabalho de guitarra nessa faixa, com uma destreza incrível, além do trabalho da bateria também, um misto de peso e técnica, com peso e groove. Temos momentos mais dilacerantes e leves, discretos e nessa alternância a música entrega um instrumental extremamente arrojado. Uma pegada heavy rock também é percebida.

"Rockaria"

“Tankar Om Natten” começa solar, animada, tem um viés mais comercial, diria AOR, radiofônico mesmo. Mas a potência da guitarra é o grande atrativo da faixa. Em alguns momentos percebe-se uma pegada de speed metal, com destaque, mais uma vez, para seção rítmica da banda, valorizando, ainda mais, a capacidade instrumental da banda.

"Tankar Om Natten"

“Förflutet” começa quase acústica, com delicados dedilhados de guitarra, algo um tanto quanto soturno, mas, aos poucos vai se revelando uma sonoridade viajante. Uma linda balada rock com a bateria tirando o pé do freio e um baixo tocado de forma simples, mas competente. A música vai encorpando, ficando um pouco mais pesada, mas a característica se mantém firme, intacta, como uma balada. No desfecho o solo de guitarra é lindo, a música ganha o contorno típico de hard rock que povoa o álbum.

"Forflutet"

Segue com “Psst ...” que inicia com um violão acústico, algo meio latino e assim vai seguindo, leve, discreta, quebrando a predominância do hard, blues rock do álbum, corroborando, mais uma vez, o talento instrumental de seus músicos, mas sem deixar de ser orgânicos.

"Psst..."

O álbum fecha com “Fresh Fish” e, mais uma vez o trabalho de guitarra inaugura a música, trazendo reminiscências do Scorpions dos anos 1970. Uma guitarra tocada de forma competente, passional. As passagens de blues rock dão um “tempero” especial à faixa, com um vocal falado, em alguns momentos. Hard rock, blues rock e até mesmo uma pegada meio “sulista” norte americana se percebe principalmente nos vocais.

"Fresh Fish"

Pouco tempo depois a banda mudaria de nome, passando a se chamar “Purple Haze” e, diante desse nome, não precisamos nos esforçar muito para perceber de onde veio a inspiração. O Purple Haze gravaria um álbum chamado “Det Är Så Man Undrar...”, no ano de 1981. Na formação teria Tommy Gustavsson, no baixo, Leif Bergqvist e Peter Martinsson na guitarra e na bateria teria Ulf "Mini" Svensson. O único álbum com a banda neste novo nome teria lançamento pelo selo da banda, a Plebb Records. Mas não vingou, finalizando as suas atividades logo em seguida. Depois de alguns anos a banda voltaria a se reunir.

Poucos músicos do Plebb dariam sequência as suas carreiras musicais e aquele que conseguiu ser mais produtivo e assertivo foi o guitarrista Peter Martinsson. Ele formaria, em 2011, o “Peter Martinsson Group”. Um projeto dirigido, conduzido pelo próprio Peter, claro, e pelo baterista Ulf Becker. A música da banda é predominantemente instrumental e teve seu primeiro trabalho oficial lançado em 2012 chamado “Guitar State of Mind”, lançado pelo selo norte americano Grooveyard Records e que pode ser ouvido aqui.

Em 2014 o Peter Martinsson Group lançaria seu segundo álbum, porém no formato CD, que viria a se chamar “No Grey”. Foi lançada por uma editora privada com um número de cópias bem limitada. Os álbuns da banda estão sendo relançados pelo selo Plebb Records em mídia digital com a intenção de atingir o maior número de pessoas possíveis e de uma forma mais rápida.

Em 2014 o Peter Martinsson Group lançaria seu segundo álbum, porém no formato CD, que viria a se chamar “No Grey” e depois uma série de álbuns de estúdio lançaria na segunda metade da segunda década dos anos 2000, além de algumas coletâneas. Foi lançada por uma editora privada com um número de cópias bem limitada. Os álbuns da banda estão sendo relançados pelo selo Plebb Records em mídia digital com a intenção de atingir o maior número de pessoas possíveis e de uma forma mais rápida.

"Yes It Isn't It", do Plebb seria relançado pelo famoso selo Guerssen e pela gravadora Sommor, em 2021 no formato LP. Uma oportunidade em tanto para os apreciadores e amantes do mais visceral e passional hard rock dos anos 1970. Definitivamente esse trabalho do Plebb é uma pérola do estilo no fim dos anos 1970, em um período em que a disco music e o punk rock reinavam absolutos no mercado da música. O Plebb, mesmo não tendo uma sequência em sua história, mostrou que qualidade não está intimamente ligada a sucesso comercial e mostrou um talento inacreditável em um período que o hard rock estava em baixa no mercado fonográfico.

 

A banda:

Ronnie “Balder” Nilsson na bateria

Leif Bergqvist na guitarra

Per-Martin “Pemce” Petersson na guitarra

Tommy Gustavsson no baixo

 

Faixas:

1 - Reaggie II B

2 - Push Box

3 – Rockaria

4 - Tankar Om Natten

5 – Förflutet

6 - Psst ...

7 - Fresh Fish



"Yes It Isn't It" (1979)








 



 











 





domingo, 4 de junho de 2023

Bixo da Seda - Estação Elétrica (1976)

 

Lamentavelmente costumamos lembrar de nossos músicos com as suas mortes! A frase pode parecer, de fato é, forte, pesada, mas essa é a nossa triste realidade. E essa realidade nua e crua se adequa aos nossos músicos à margem do mainstream. Embora o termo soe um tanto quanto cult, no Brasil o cenário beira o perverso.

Bandas sem apoio da indústria fonográfica, sem estrutura para produzir a sua arte, para divulga-la, jogadas ao relento, ao ostracismo pelo simples fato de não ser “vendável” era a tônica nos anos 1970. E para completar costuma-se atribuir às bandas oitentistas o título de desbravadores do “rock Brasil”. E quanto as bandas dos anos 1970? Nada a dizer?

Sem “vitimismos” a realidade é essa! Mas graças ao advento da tecnologia ao universo da comunicação, com as redes sociais, canais no YouTube, blogs, sites, entre outros, algumas bandas esquecidas do passado estão ganhando vida de novo, ganhando a luz, nascendo novamente. E não podemos esquecer, claro, dos abnegados que fazem isso acontecer.

E falando em vilipêndio e afins tivemos a triste notícia de que um grande vocalista, um grande músico nos deixou precocemente: Falo de Fughetti Luz, da banda gaúcha BIXO DA SEDA. E o texto de hoje é em homenagem a esse músico e a sua banda que deixou uma indelével marca na história do rock, embora muitos se recusam a conceber isso.

Bixo da Seda

O Bixo da Seda foi uma banda formada na cidade de Porto Alegre, na segunda metade dos anos 1960, mas se chamava “Liverpool”. Não se sabe a inspiração para o nome, mas, me permitem a “licença poética” para devanear, nós tínhamos uma banda de Liverpool, na Inglaterra que era a mais famosa da época, The Beatles. Será essa a influência?

Liverpool

O Liverpool lançou, em 1969, o seu primeiro álbum chamado “Por Favor Sucesso”. Este trabalho viria ser o embrião, ou pelo menos um dos que viriam a desbravar o clássico rock nacional, embora a sua sonoridade tenha uma pegada mais para a Jovem Guarda, famosa naquela época, com pitadas de Tropicalismo que ganhava corpo no final dos anos 1960. Neste álbum traz composições de Carlinhos Harlieb e da Hermes Aquino e Laís Marques, além de faixas próprias, compostas pelos músicos.

"Por Favor, sucesso" (1969)

Algumas poucas faixas ousavam com um pouco de psicodelia e até, arriscaria dizer, de um proto progressivo bem experimental. A faixa “Voando” desse álbum é um exemplo, um “protótipo” do que viria para frente no futuro dos seus jovens músicos.

Este álbum seria alvo de relançamentos fora do Brasil recebendo alguma atenção e tornando-se um álbum “cult”, recebendo também comparações com “Os Mutantes”.

Em 1970, ainda como Liverpool, a banda lançou o álbum “Marcelo Zona Sul”. Nesse trabalho já se desenhava, mesmo que timidamente o “pré-rock” do Bixo da Seda e neste álbum pode-se destacar a faixa título que tem uma pegada meio folk, meio surf rock. Este trabalho também foi trilha sonora do filme nacional de mesmo nome e dirigido por Xavier de Oliveira. O filme fala sobre a juventude carioca dos anos 1960 se tornando um sucesso de público e crítica revelando os atores Stepan Nercessian e Françoise Forton, que faziam os papéis principais.

"Marcelo Zona Sul" (1970)



Em 1971 o contrato da banda findou e, a partir daí, decidem lançar um compacto, utilizando o nome “Liverpool Sound”, pelo selo “Polydor”, da gravadora “Phonogram” com as faixas “Hei Menina” e “Fale”, sendo que seu lado “A” faz algum sucesso nas rádios do Brasil.

"Liverpool Sound" (Compacto 1971)

Em 1972 o Liverpool se desfaz com Fughetti Luz, o vocalista e principal compositor acabou se casando e indo passar uma temporada na Europa, de forma forçada, pois se exilou em virtude da repressão da ditadura militar, e Wilmar Ignácio Seade Santana, conhecido como Peco (Pepeco), que era o baixista, viajando pelo Brasil e o resto da banda se estabelecendo por Porto Alegre.

No final do ano de 1973 os antigos integrantes do Liverpool, exceto Fughetti Luz, decidem se reunir. A ideia era retomar a banda, mas resolvem mudar o nome para “Bixo da Seda”. A ideia do nome da banda partiu do guitarrista Zé Vicente Brizola, filho do político Leonel Brizola, que fazia parte da banda juntamente com o tecladista Cláudio Vera Cruz. A inspiração surgiu da forma mais óbvia para aquela época: enquanto a banda enrolava um baseado, pensaram na utilidade do papelzinho quase transparente que envolvia a “erva”. A utilidade veio para dar nome a uma das bandas mais emblemáticas do nosso rock.

Fughetti havia voltado para Porto Alegre e formou muitas bandas que tiveram vida curta, como Laranja Mecânica, Bobo da Corte e Trilha do Sol, por exemplo. Foi então que Mimi Lessa, guitarrista, fez o convite a Fughetti para fazer parte do novo projeto, do Bixo da Seda. “Bixo” se escreve com “x” mesmo. Fughetti então aceitou a proposta e se uniu a banda.

Em 1975 se transferiram para o Rio de Janeiro e começam a fazer muitos shows, afinal, o Liverpool lhes possibilitaram a ter alguma fama. Mas não ficaram apenas no Rio de Janeiro, tocando em casas de shows em São Paulo e Belo Horizonte. Mais uma vez mudaram de cidade e com isso também tiveram mudanças na sua formação. Saem da banda Peco, Zé Vicente Brizola e Cláudio Vera Cruz, entrando na banda Renato Ladeira, um dos fundadores de outra emblemática banda, A Bolha.

Com a formação que trazia Fughetti Luz, nos vocais, Mimi Lessa, na guitarra e vocal, Renato Ladeira, nos teclados e vocais, Marcos Lessa, no baixo e vocais e Edson Espíndola, na bateria e vocais gravam o seu primeiro álbum, homônimo, mas também conhecido por “Estação Elétrica”, em 1976, lançado pela gravadora GEL, por intermédio do selo “Continental”.

Eram meados dos anos 1970! O “sonho tinha acabado” com os Beatles e o movimento hippie, com o seu “flower power” havia morrido com seus principais e mais famosos representantes, como Hendrix, Joplin e Morrison. O rock n’ roll também mudou, sobretudo em 1976, ano de lançamento de “Bixo da Seda” ou “Estação Elétrica”, onde o progressivo não era mais viável, comercialmente falando, dando espaço a um raivoso punk rock. O estilo, que sempre foi subversivo, passou a se consolidar como um movimento social, uma arma nas lutas da juventude que ansiava por mudanças no status quo.

E sob esse aspecto comportamental o álbum do Bixo da Seda foi influenciado. Nele se ouve influência do rock progressivo, sim, o rock progressivo ainda estava em evidência graças, claro, a qualidade de alguns lançamentos e do rock n’ roll mais básico, mais calcado na música dos Rolling Stones.

O álbum é inaugurado pela faixa “Vênus” e na sua introdução a sua viagem blueseira se faz, com uma pegada mais cadenciada, com alguma “latinidade” e que logo desagua para um hard rock. Um excelente instrumental já mostrando as credenciais do Bixo da Seda.

"Vênus"

A sequência traz a faixa “Já brilhou” e com um vocal mais contemplativo, traz uma tendência psicodélica, com uma abordagem mais progressiva e regional, com riffs ocasionais de guitarra e uma “cozinha” bem apurada e conectada.

"Já Brilhou"

“É Como Teria Que Ser” traz de volta a “textura” mais hard rock, com algumas pitadas mais “Classic Rock”, ao estilo Rolling Stones, com aquela música de festa.

"É Como Teria que Ser"

“Carrocel” é mais “raivosa” sobretudo no contexto da letra, mas o instrumental acompanha essa pegada, com riffs, embora pegajosos, de guitarra, traduz esse sentimento, sendo um tanto quanto agressivo, envoltos em alguns eventuais solos, mais diretos.

"Carrocel"

“Bixo da Seda”, a faixa título, traz de volta aquela música de festa, meio solar e animada ao estilo Rolling Stones, mas com uma roupagem mais brasileira, extremamente dançante e envolvente.

"Bixo da Seda"

“Sete de Ouro” retoma com a levada instrumental na sua introdução, com pitadas generosas de psicodelia tipicamente brasileira do início dos anos 1970, mas que, em alguns momentos investe em mudanças rítmicas bem interessante, com destaque para as viradas da bateria.

"Sete de Ouro"

Segue com “Gigante” que ainda mantém aquela pegada lisérgica, com um viés mais rock n’ roll, em sua versão mais clássica, com algumas viradas rítmicas bem interessantes e, diria, ousada, algo tribal, com tambores, bongô e bateria, mostrando arrojo.

"Gigante"

“Um Abraço em Brian Jones” já diz tudo, já entrega a influência latente do Bixo da Seda e do seu álbum, do Rolling Stones, homenageando seu eterno guitarrista, Brian Jones. E a música, claro, denuncia isso, música de festa, pegada blueseira, com hardão mais cadenciado.

"Um Abraço em Brian Jones"

O álbum fecha com a faixa “Trem”, e segue na mesma levada dos Rolling Stones: música solar, animada, guitarra ácida, psicodelia, com uma abordagem mais pesada, bongôs a todo o vapor.

"Trem"

Após o lançamento do álbum o Bixo da Seda realizou vários shows pelo país com casas cheias, uma boa receptividade por parte do público, entretanto, ainda assim, a banda decreta o seu fim por questões financeiras. Não tinha grana para se manter na capital fluminense.

E depois do término da banda os integrantes se reuniram para shows em diversas oportunidades, mas sempre sem a presença do vocalista Fughetti Luz, por questões de saúde. Em 2005 o álbum é relançado, fazendo com que a banda continuasse a fazer shows ocasionalmente para divulgar esse momento importante do rock nacional, o renascimento deste clássico que determinou um ponto de importância para a cena rock do Brasil.

Ao vivo em 1998 no Auditório Araújo Viana, Porto Alegre, Rio Grande do Sul

Em 2011 a banda volta aos palcos para mais e mais shows, mais ainda, infelizmente sem a presença de seu grande vocalista, frontman, Fughetti Luz, efetivando, em seu lugar, Marcelo Guimarães nos vocais e Marcelo Truda na guitarra.

Hoje os irmãos Mimi e Marcos vivem no Centro do país, participando de vários projetos voltados, claro, para a música. Edinho se tornou um dos bateristas mais requisitados e importantes do Brasil, tocando, inclusive, no Fu Wang Foo. Fughetti “apadrinhou” na década de 1980 várias bandas, entre elas a Bandaliera, para qual compunha várias músicas, e o Taranatiriça. Lançou ainda dois discos solos e morou, por muito tempo, no interior de São Paulo.

Mas, em abril de 2023, Fughetti Luz morreria. Luz era considerado como o “último hippie vivo”. Sem sombra de dúvida uma figura mítica, influente e extremamente relevante para a história do rock n’ roll e que deveria ter um pouco mais de crédito para a nossa cena em todos os tempos.

O Bixo da Seda merecia crédito por seu álbum, que, como Fughetti, que a construiu a sua imagem e semelhança, deixou uma marca indelével para a nossa cena rock. Um álbum genuíno, simples, direto e poderoso.

A banda, como muitas outras, que encenaram a prolífica década de 1970 deveria servir de compêndio para músicos e apreciadores do rock n’ roll para sempre! Altamente recomendado!





A banda:

Fughetti Luz no vocal, letras e composições.

Pecos (Wilmar Ignácio Seade Santana) Pássaro na guitarra

Mimi Lessa na guitarra

Renato Ladeira nos teclados

Marcos Lessa no baixo

Edson Espíndola na bateria

 

Faixas:

1 – Vênus

2 – Já Brilhou

3 – É Como Teria que Ser

4 – Carrocel

5 – Bixo da Seda

6 – Sete de Ouro

7 – Gigante

8 – Um Abraço em Brian Jones

9 – Trem




"Estação Elétrica" (1976)