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sábado, 5 de abril de 2025

Medusa - Medusa (1973 - 2018)

 

A cena rock do México era dominada pelo produto inglês e norte americano. Embora o rock, em língua espanhola tenha começado em 1957, as gravadoras, demasiadamente “globalizadas”, faziam capas de álbuns de bandas sem considerar a importância das composições originais que foram feitas desde então. Eram os covers e as músicas “internacionalizadas” que tinham potencial de mercado. A música era segundo ou terceiro plano.

Nos anos 1970, a cena rock mexicana começou, mesmo que timidamente, a ganhar contornos próprios, quando começaram a gravar suas composições próprias, suas músicas autorais, porém em inglês. Ficou conhecido como a “Onda Chicana”, porque as pessoas, conhecidas como “Chicanos” são descentes de americanos, mas de pais mexicanos.

E nesse caldeirão cultural e musical o rock mexicano foi sendo construído nos anos 1970 e foi se tornando popular e mesmo com as bandas compondo em inglês, elas se tornaram famosas e, então, a infraestrutura como programas de TV, mídia impressa e falada começaram a se desenvolver, e as bandas passaram a fazer turnês melhores e mais extensas e até mesmo no cinema, as bandas e a música começou a figurar em curto espaço de tempo.

E esse cenário foi propiciando o surgimento de festivais, muito inspirado também em icônicos eventos de músicas clássicos, tais como o Woodstock, Isle of Wight Festival, na Inglaterra, Festival Pop de Monterey, nos Estados Unidos e alguns menos conhecidos, como Varadero '70, em Cuba, Festival de Ancón na Colômbia, Festival Buenos Aires Rock, na Argentina entre outros.

Todos tinham, como base cultural e comportamental, o movimento hippie, estudantil, de jovens cansados do status quo e da onda pesada do conservadorismo que permeava em todos os setores da sociedade. O México, no que tange aos festivais, não ficou de fora e um, em especial, foi único na história não só daquele país, como de toda a América Latina, conhecido como Rock y Ruedas de Avándaro.

O festival ocorreu nos dias 11 e 12 de setembro de 1971, nas margens do Lago Avándaro, perto do Valle de Bravo e surgiu em um contexto político extremamente conservador, ditatorial e repressor e a oposição estudantil e juvenil, como em várias partes da América Latina e do mundo eram a oposição a esse governo, usando tais festivais de música como a força motriz para lutar contra esse regime opressor. Esse ativismo político dos jovens, ligado à música, ao rock n’ roll, como ponte de transgressão, queriam democracia, liberdade política e respeito a diversidade, direito dos trabalhadores e acesso a saúde e educação, entre outros pleitos.

E nesse contexto de opressão, de intolerância de todas as formas, a música rock mexicana e os seus músicos foram construídas. E um jovem foi, de certa forma, impactado por esses movimentos e, diria, foi parte integrante, um agente importante desse movimento. Falo do Victor Moreno, baterista e um dos fundadores de uma das bandas mais emblemáticas da cena hard rock do México: MEDUSA.

Medusa

Aos 17 de idade Moreno foi roadie do El Ritual, tida como uma das melhores bandas de rock do México (A resenha sobre seu único álbum pode ser lida aqui!) e, com essa brutal experiência, ele foi nomeado como gerente de palco do Festival Avándaro. Não precisamos dizer o quão gratificante deve ter sido para o Victor Moreno esse momento, vivendo, na pele, toda essa efervescência cultural que certamente serviu como arcabouço musical.

A Medusa surgiu neste contexto e foi um projeto, iniciado por Moreno e seu amigo Javier Plascencia, que era vocalista e baixista. Eles se conheceram na escola em 1968, em plenos ano estudantil com o embate ideológico com o governo opressor. Eles faziam parte, inclusive, do movimento estudantil do México que resultou no massacre de Tlatelolco que deixou muitas mortes e prisões de jovens estudantes. E diante desse cenário começaram a escrever músicas quando começaram a tocar em 1972.

A banda surgiu em meados de 1972 com a ideia de apresentar um heavy rock original e visceral ao estilo Blue Cheer, Cactus, Black Sabbath e outras bandas similares que serviram de referência para o estilo na transição dos anos 1960 para os anos 1970. Mas apesar de ser influenciada por essas bandas a Medusa trouxe originalidade ao heavy rock mexicano.

Os membros originais, além dos amigos Victor Moreno na bateria e Javier Plascencia Amoróz nos vocais e baixo respectivamente, trazia Luis Antonio Urguiza Zanella, na guitarra e mais tarde entraria, em 1982, Jaime García se juntou à banda, tocando guitarra e sintetizador. Devido a amizade de Moreno e Plascencia nos primórdios de suas carreiras, tiveram primeiro com Armando Nava e os Dug Dug’s e depois com bandas como Peace & Love, El Ritual, Náhuatl e Super Mama, entre outras bandas de Tijuana, pensou-se que Medusa também era dessa região prolífica do rock n’ roll mexicano, mas não, a banda não era, apesar também do estilo sonoro da banda e do apelo estético também.

A cena rock mexicana, apesar dos entraves políticos, foi bem recebida e, claro, Medusa estava no rol das bandas que tocaram nas rádios e isso fazia com que o som da banda, claro, ganhasse visibilidade e alguma credibilidade, até porque a sua sonoridade áspera e pesada, poucos faziam naquela época. A banda sempre cantou em espanhol, nunca fez música em inglês para atingir o mercado externo, nunca tocou covers também, apenas música autoral.

A Medusa, graças a essa visibilidade, logo após a sua fundação começou a realizar as suas primeiras gravações logo em 1973 na “Discos Raff” patrocinada pelos amigos da banda Náhuatl. Naquele ano lançaram um single com a música “Tan solo lo Haemos”, no lado A e Autodestructión" no lado B. No ano seguinte foi concluída a gravação de um EP, em 1974, com essas duas músicas mais duas novas faixas chamadas “Tratando de Olvidar”, composta em colaboração com Omar Jasso, tecladista da banda Polvo e posteriormente do Náhuatl e “Después De La Tristeza”. Devido a algumas políticas equivocadas da gravadora “Discos Raff”, Medusa deixou o cast do selo em 1975 juntamente com outras bandas em ascensão como Ciruela e Three Souls, adiando a gravação de um álbum, embora as gravações estivessem finalizadas.

Em 1977 a banda assinou contrato com a Orfeón para gravar o álbum. Será que dessa vez o sonho da Medusa se realizaria? Não ainda! O projeto fracassou novamente porque os executivos da gravadora queriam modificar substancialmente a essência de sua música, bem como de suas letras, porque consideravam pesadas, de cunho agressivo e pouco “comercial”. A Medusa, claro, não cedeu a esse assédio e, mais uma vez, a gravação do tão sonhado álbum não aconteceu e a gravadora deixou a banda na “geladeira”, congelando o contrato com a Medusa até o fim da gravadora depois. No entanto as músicas foram registradas na editora “Orfeón House” que até hoje detém os direitos das faixas.

“Medusa” entrega um volumoso e potente hard rock que pode, perfeitamente, ser considerado como um dos primórdios do hoje tão famoso e diria, saturado, stoner rock, com peso, guitarras lisérgicas, toques discretos de psicodelia e até mesmo um proto metal de muita qualidade e de fazer frente a muita banda oitentista da cena “New Wave of British Heavy Metal”.

O álbum começa com a faixa “Autodestruccion” que de imediato já traz aquele riff de guitarra sujo, arrastado, lembrando um indefectível doom metal, mas logo depois descamba para um proto metal, já com aquela também típica velocidade que notabilizou o estilo, com vocal gritado e alto. Segue com “Caminando Rumbo al Cementerio” introduz com riffs mais tipicamente setentista, ao estilo Sabbath, com uma pegada mais soturna, obscura e uma seção rítmica que corrobora tal condição. Vai ficando mais pesado, veloz, cadenciado e assim alterna. Nessa faixa a Medusa produz algo mais complexo em sua sonoridade.

"Autodestruccion" (Live)

“Crepusculo” começa introspectiva, mas logo entra o peso e a agressividade da bateria seguido por um baixo pulsante e intenso e solos lisérgicos de guitarra, mostrando um hard rock com pegadas psych que hoje conhecemos por stoner rock. Sim! Mais um atributo da Medusa mostrando sua referência sonora. “Despues de la Tristeza” começa flamejante com solos altos e poderosos de guitarra personificando o lado efetivo do hard rock típico setentista com um trabalho impecável, mais uma vez, da “cozinha” ditando o ritmo. Parece ser uma faixa ao vivo.

"Después de la Tristeza"

“Genes de Maldad”, que também parece ser ao vivo, traz, mais uma vez, o destaque na guitarra. Riffs de guitarra de um embrionário heavy metal faz dessa faixa, logo no início, vibrante, confirmando com bateria potente e rasgada, baixo pulsante e uma velocidade que entrega o “tempero” necessário aos apreciadores do heavy metal oitentista, por exemplo. Solos de tirar o fôlego confirmam o peso e traz ainda mais energia à faixa. “La Sombra de Nietzsche” dá mais uma contundente prova de que o proto metal pautou a música da Medusa em seu seminal álbum. A guitarra potente em seus riffs abre a faixa, trazendo à tona de um thrast metal envolto por notas de teclado que te remete a viagens mais contemplativas. É possível? Parece que com a Medusa sim! Heavy rock, proto thrash, prog rock. Essa faixa instrumental é um arrasa quarteirão!

"La Sombra de Nieztche"

“Medita Sinceridad” já começa com o pé na porta! Bateria marcada e pesada, riffs pegajosos e poderosos de guitarra, vocal rasgado e alto. O hard rock ganha força nessa faixa. Cadencia para uma pegada meio jazzy na bateria que logo irrompe em um solo avassalador de guitarra. “Momentos en la Vida” retorna ao som arrastado e pesado capitaneado pela guitarra em uma textura ao estilo doom metal. Sonoridade introspectiva e soturna faz é o tema central da melodia dessa música.

“Noche” começa a um delicado som de pássaros cantando e teclado meio sinfônico. Talvez um prenúncio de uma música progressiva, afinal a faixa conta com nada menos do que longos doze minutos de duração. Mas não necessariamente. O estrondo pesado do hard rock se manifesta com bateria pesada, baixo pulsante e guitarras lisérgicas. Mas o progressivo, com a sua maior característica, se revela, com várias mudanças de andamento, de ritmo, são perceptíveis na música. A textura do teclado traz uma pegada mais leve que característica a veia progressiva da música.

"Noche"

Segue com “Rompesuenos” que traz um “duelo” entre teclados e guitarra, que promove uma interação interessante entre peso e suavidade. Uma música mais diversificada. “Tan Solo lo Hagamos” volta ao proto doom pesado e arrastado. Baixo pesado, pulsante, bateria marcada, riffs sujos de guitarra. O típico peso do proto doom metal. E fecha com “Tratando de Olvidar” começa lenta, ao som de violões dedilhados acusticamente. A guitarra aos poucos aparece, a sonoridade ganha corpo, a balada rock se configura, mas o som continua acessível aos ouvidos.

"Tan Solo lo Hagamos"

Desde 1972, quando surgiu para a cena rock n’ roll mexicana, a Medusa dividiu o palco com a maioria das grandes bandas mexicanas que fizeram sucesso à época, que tinham destaque, com exceção em um período de grande hiato, de inatividade da banda que aconteceu entre 1984 e 1994, sendo que dois anos antes, em 1982, a Medusa deixou de ser um “power trio” tendo a entrada de Jaime Garcia, que tocava guitarra e teclado. Era uma nítida demonstração de que a Medusa queria modificar um pouco a sua sonoridade, o que culminou com o seu sumiço, em 1984. A banda estava desgastada.

Mas esse período, entre 1972 e 1984, a banda foi tocada nas rádios, fez várias apresentações em pequenos e grandes palcos, naqueles mais conhecidos aos mais simplórios, tocou em programas de TV mexicanas como “El Rock en la Cultura” e “La Hora Cero”, pelo famoso canal Televisa, além de inúmeras entrevistas para rádios e revistas especializadas como Pop, México Canta, Notitas Musicales, Dimensíon, Conecte, Banda Rockera e jornais como Excélsior, el Heraldo, el Universal e até el Alarma.

Medusa com Armando Nava e a banda Enigma (1977)

Em 1994 a Medusa finalmente se reúne novamente, a formação original, o velho “power trio’ estava na ativa novamente! Jaime Garcia não estava disponível para essa reunião até 1996, ano este que decidiu também retornar à banda, fazendo dela um quarteto. Mas aquele assédio que a Medusa tinha nos primórdios já não era o mesmo e a banda passou fazer shows de forma esporádica em alguns locais como Andy Bridges de Naucalpan, La librería El Sótano de Coyoacán, La Plaza central de Coyoacán, El Monumento a la Revolución, La Alameda Central y Masivos en Tlalnepantla, Valle de Chalco entre outros locais.

Mas faltava gravar, de forma oficial, seu primeiro álbum, o tão sonhado primeiro álbum que há décadas estava hibernando. E a gravadora não surgia, o contrato não surgia de jeito nenhum. Então decidiram refugiar-se no estúdio britânico de Jaime Garcia onde gravou algumas demos entre 1998 e 2000.

Victor Moreno e Frankie Bareno (2000)

Depois disso a Medusa continuou se apresentando, de forma esparsa. Mas tiveram bons momentos como a gravação de mais algumas músicas no estúdio de Carlos “Bozzo” Vásquez. E isso reacendeu a chama da banda. Bozzo também os ajudou a se apresentar nos programas de televisão mexicana, o que não faziam também um bom tempo. Se apresentaram no “Mi Vida es um Rock and Roll” que foi transmitida pelo canal 4 da Televisa, em 2006.

Infelizmente a Medusa teve uma baixa em sua formação. Antonio Urquiza sairia da banda e fez com que ela se tornasse um trio novamente, embora um de seus fundadores tenha saído da banda. Os problemas pareciam não cessar! Então a Medusa teria Victor Moreno na bateria, Javier Plascencia no baixo e Jaime Garcia na guitarra e continuaram a fazer alguns shows.

Medusa em 2008

A ideia era lançar o que tinham produzido nos estúdios de Jaime e as demos que gravou nos estúdios de Bozzo, mas não deu certo. Tudo indica, reza a lenda, que Bozzo era um golpista e permitia que as bandas gravassem em seus estúdios e depois virava as costas para a maioria delas e a Medusa não teria sido diferente, não concretizando o sonho dos experientes músicos de lançar oficialmente um álbum. Diante desse difícil cenário, em junho de 2015, a Medusa fez seu último show saindo definitivamente da cena rock mexicana.

Em 2018 foi lançado o CD, por uma gravadora não identificada ou de forma irregular (pirata) o álbum da Medusa, com as músicas do EP, de 1974, e das músicas gravadas quando a banda retornou às atividades nos estúdios de Jaime e de Bozzo Vásquez. Não se tem informações de tiragens ou quem esteve à frente deste lançamento. No CD não consta o nome do selo, mas há apenas a informação de que a tiragem teria sido limitada. Provavelmente se trata de um lançamento pirata.

Alguns dos membros da Medusa se dedicaram a outros projetos. Jaime Garcia se envolveu com o rock progressivo, tocando com bandas como “El Retorno de los Brujos”, Victor Moreno tocou guitarra em colaborações com diversos músicos como o próprio Bozzo Vásquez, Miguel “El Gallo” Esparza (Dug Dug’s) e Miguel Morales (Tinta Blanca). Já Javier Plascencia dedicou-se a composição de músicos e montou seu próprio estúdio de gravação.

As agruras, os obstáculos, as dificuldades, as inexperiências e a difícil capacidade da convivência fizeram do futuro comercial da Medusa bem aquém do que se esperava, mas, ainda assim, deixaram uma marca indelével na história, não apenas do rock mexicana, mas de toda a América Latina, das Américas, servindo de referência para a música pesada dos anos 1970 e até hoje para aqueles jovens músicos que desejam enveredar para esse caminho. A Medusa pavimentou um caminho para que hoje muitas bandas construíssem uma sonoridade que até hoje segue forte, mesmo sem apoio.




A banda:

Victor Moreno na bateria

Javier Plascencia Amoróz nos vocais e baixo

Luis Antonio Urquiza Zanella na guitarra

 

E mais tarde:

Jaime Garcia na guitarra e sintetizador


 

Faixas:

1 – Autodestruccíon

2 – Caminando Rumbo al Cementerio

3 – Crepusculo

4 – Despues de la Tristeza

5 – Genes de Maldad

6 – La Sombra de Nietzsche

7 – Medita Sinceridad

8 – Momentos em la Vida

9 – Noche

10 – Rompesuenos

11 – Tan Solo lo Hagamos

12 – Tratando de Olvidar


Download do álbum aqui!


"Medusa" (1973 - 2018)






 















 







quarta-feira, 25 de setembro de 2024

El Ritual - El Ritual (1971)

 

Mais uma banda de países pouco celebrados no que tange ao rock n’ roll! Mas não se enganem, caros leitores, o país desta banda que escrevo trata o rock n’ roll de uma forma muito visceral, apaixonada e conta com uma cena ativa, plena, interessada, com inúmeras bandas que flertam com estilos que vai desde o rock progressivo, blues rock, hard rock, jazz fusion, até o punk rock e o heavy metal. Falo do México!

Talvez não tenha a visibilidade que mereça por ser tratar de um país que está em uma margem, digamos, periférica, sob o ponto de vista econômico, mas nada ofusca ou pelo menos deveria ofuscar a cena que pulsa naquelas terras.

E confesso que, com base nessa premissa de total vilipêndio a cena rock mexicana, não conhecer a fundo as bandas que a compõe, mas, passo a passo, vagarosamente, venho descobrindo as pérolas, principalmente, obscuras que ajudaram e ainda ajudam, pois cresce vertiginosamente em novas bandas, na construção da cena por lá.

E com o pouco que tenho desbravado no rock mexicano percebo, observo que o melhor das bandas que florescem naquela cena, sobretudo surgidas nos anos 1970, é que têm abordagens do heavy psych, no blues rock e também no hard rock. Traz algo de inocente, genuíno, puro em suas sonoridades, algo também de garageiro, talvez pela estrutura ínfima de produção, mas que entrega efetivamente, no fim das contas, o que propõem. Não esquecer também das bandas progressivas, os mexicanos amam o prog rock, mas parece não importar o quão progressiva as bandas se apresentem, sempre estarão enraizados na “pureza” de seu som.

Claro que, em alguns momentos, percebe-se que emulam as bandas americanas, não com a intenção do plágio, mas porque a inspiração, admitamos, de muitas bandas vem dos Estados Unidos e também da Inglaterra, afinal, além da inspiração, são referências.

 E a banda de hoje sintetiza claramente essas percepções sonoras que pairam e tingem a cena rock mexicana dos anos 1970, mas também terei de confessar que me equivoquei em alguns pontos sobre essa banda. Falo do EL RITUAL com o seu único álbum lançado, em 1971, simplesmente chamado de “El Ritual”.

El Ritual

E quanto ao equívoco ele se deu logo de cara com o nome da banda e a sua “rústica” arte gráfica. O contato visual me surpreendeu, pois achava que fosse encontrar um suntuoso hard rock típico, pesado com um quê de proto metal, mas não. Trazia uma “sopa sonora” que ia de progressivo, jazz rock ao heavy psych com uma textura ácida, lisérgica e extremamente indulgente.

E a isso adicione alguns personagens típicos da cultura mexicana como “Machete” ou ainda "Perdita Durango". Tente entrar na situação com a audição de seu álbum e terás essa percepção dignamente louca. Alguns hippies mal-encarados, aqueles rockers mexicanos sujos e perigosos do fim dos anos 1960 e acrescente a isso tudo fortes doses de occult rock, com aquela atmosfera sombria. Pronto! Temos o álbum de El Ritual, de 1971.

A banda é oriunda da região periférica de Tijuana e seu único trabalho, o que é uma pena, é definitivamente uma maravilha colossal. Sua presença e música são atos singulares, espetaculares da cena psicodélica mexicana, encabeçando, com maestria, uma horda de músicos obscuros, alternativos e que não se curvava às tendências pasteurizadas do mainstream. E para entender um pouco a concepção de “El Ritual” é preciso conhecer a sua história e como aqui, neste humilde e relés blog, a história tem protagonismo, vamos a ela.

O El Ritual inicialmente, em seus primórdios, era formado por Frankie Barreño no vocal, guitarra e flauta, Martín Mayo nos teclados, Gonzalo Chalo Hernández no baixo e Abelardo Barceló na bateria. Uma conjunção mágica de músicos que estavam em perpétuo estado de inspiração, deixando se levar pela sua criatividade nua e crua.

Todos eles já tinham alguma experiência, já estavam no cenário do rock mexicano há algum tempo, como era o caso de Martín Mayo e Abelardo Barcelo, que faziam parte de uma banda chamada Graveyard, uma banda de Tijuana que executavam um poderoso rock psicodélico underground sendo um dos expoentes do estilo na região.

Após a saída dos dois do Graveyard, de uma forma um tanto quanto tempestuosa, Martín Mayo tocou em várias bandas de Tijuana e Lalo Barcelo esteve com a banda Peace & Love por um tempo, mas também saiu de uma forma traumática e, com o perdão da analogia, não tinha tanta paz e amor na banda.

E foi assim que Lalo se juntou com “El Diablo” Alejandro Villegas, Gonzalo Chalo Hernández e Frankie Barreño, formando o que seria a primeira encarnação do El Ritual à qual Martín Mayo seria, mais para frente, adicionado. Pronto! A banda estava formada. A banda trabalhou, seguiu com boa aceitação por cerca de um ano, até que Lalo Bracelo e Frankie Barreño se juntaram ao Dug Dug’s de Armando Nava. E o El Ritual findaria.

Por volta de 1970, já na capital, Cidade do México, os Dug Dug’s se separariam devido a problemas de relacionamento entre Franky e Lalo e a tira colo foi o Armando Nava. Já o El Ritual foi reformulado e dessa vez com a seguinte formação: Oscar Alegre no baixo, Frankie Barreño na guitarra e Lalo na guitarra.

O trio começou a se apresentar em pequenas casas de shows e tudo indicaria que iria vingar o novo projeto, mas novos problemas surgiram e essa formação não durou muito tempo, já que Alegre saiu rapidamente e os seus ex-colegas se juntariam ao El Ritual: Martín Mayo e Gonzalo Chalo Hernández. E essa formação finalmente gravaria o primeiro é único álbum da banda em 1971: “El Ritual” pelo selo “Raff”, no qual, após uma audição por recomendação da banda Peace & Love, obtiveram a aprovação dos diretores da gravadora.

“El Ritual” é um álbum que se assemelha a tantas bandas e álbuns, mas ao mesmo tempo é algo tão único, singular. Nele se percebe Deep Purple, Arthur Brown, Black Widow, Coven, o som de Canterbury, as bandas psicodélicas pesadas estadunidenses e ainda assim traz algo tão original e revolucionário em sua música.

Trata-se de um álbum corajoso, arrojado em que se baseia em todos os substratos de rock possíveis e imagináveis, onde qualquer apreciador da música, em todas as suas nuances e flertes sonoros, pode se enamorar pela banda e seu único trabalho.

Aqui vale uma curiosidade acerca da trajetória, curta, mas significativa do El Ritual: A banda, quando foi para a Cidade do México, isso em 1971, participou de alguns festivais e o primeiro fora o histórico Festival Avandaro, do qual nada deu certo, pois enfrentaram sérios problemas de áudio e iluminação, típico de bandas obscuras, que não gozavam de estrutura para apresentar a sua arte.

O “Rock and Wheels Festival” realizado em 1971, em Avándaro, no México, foi uma espécie de Woodstock mexicano, um histórico show realizado nos dias 11 e 12 de setembro, próximo ao Avándaro Golf Club, no Estado do México. O festival tinha como emblema a celebração à vida, paz, amor, a ecologia, as artes e as drogas experimentais e foi comparado ao Woodstock exatamente por isso, além, claro, das apresentações de bandas psicodélicas, a arte contracultural, o uso de drogas e o amor livre. Estima-se que entre os dois dias que durou o festival, o público ficou entre 100.000 e 500.000 pessoas.

O álbum abre com a faixa “Mujer Facil” ou como queiram “Prostituta”, inclusive o nome da música era “Puta”, mas por razões óbvias, o nome foi proibido pela gravadora para evitar “confusões”. Sua sonoridade varia do Guess Who ao Grand Funk Railroad, com foco nos órgãos e na flauta trazendo uma abordagem mais rock, um pouco mais pesada e enérgica, mas com o toque e complexidade do progressivo. Muito dessa música traz à tona a fase do Dug Dugs na época em que Frankie Barreño e Lalo Barcelo fizeram parte desta banda. Tem muito de Armando Nava, líder do Dug Dugs graças aos arranjos e flauta, inclusive este foi um dos primeiros a introduzir a flauta transversal no rock mexicano por volta de 1967-1968.

"Mujer Facil"

Segue com “La Tierra de que te Hablé” que começa com um tema interessante de folk psicodélico, acompanhado de um violino que traz uma sonoridade lúgubre, linda, melancólica, dramática, sombria. Mas o melhor estar por vir com a guitarra acústica que abre alas para uma espécie de jazz rock bem animado, bem solar.

"La Tierra de que te Hablé"

A sequência traz uma das faixas mais intensas, complexas do álbum: “Bajo el Sol y Frente a Dios”, com uma balada de folk psicodélico meio jazzístico de uma insólita finesse que entrega certa semelhança com o King Crimson em sua fase mais experimental, a fase inaugural. Uma faixa com uma melodia rica, bem estrutura em textura experimentais, lisérgicas e progressivas, mas orgânica, garageira e intensa, ao mesmo tempo.

"Bajo el Sol y Frente a Dios"

“Satanas” já traz o acid rock, a lisergia ao nível máximo com uma pegada bem experimental e garageira, com toques mais voltados também para o hard rock e que remete aos momentos psicodélicos de Iron Butterfly em “In a Gadda da Vida”. É indulgente, é sombrio, com texturas densas, em uma atmosfera nebulosa e perigosa.

"Satanas"

“Peregrinación Satánica” é provavelmente a faixa que mais se adequa, que mais se envolve com os terrenos do rock progressivo britânico, mais precisamente com o som da cena de Canterbury, com elementos excessivos, complexos, cênicos e teatrais típicos do rock progressivo da Inglaterra. Excelente faixa!

"Peregrinación Satánica"

“Conspiración” é uma balada psicodélica um tanto quanto dramática e emocional com solos de teclados e órgãos extremamente intensos e enérgicos, poderosos e solares, que traz um peso que lembra o Vanilla Fudge e os primeiros trabalhos do Deep Purple.

"Conspiración"

“Groupie” é mais acid rock com uma pegada mais dançante, mais latinas, com instrumentos percussivos e que traz à tona um pouco da identidade cultural do seu país, da América como um todo. Um ritmo pegajoso, com uma bela interpretação vocal, bom órgão e lindos riffs de guitarra. Traz à lembrança Carlos Santana. Ótima música!

"Groupie"

“Muerte e Ido” traz seções de metais, mesclada a instrumentações mais próximas da psicodelia padrão, um híbrido interessante com guitarras fuzzeada muito boa e um órgão poderoso e pesado.

"Muerte e Ido"

E para fechar o álbum temos “Tabu”, que foi uma das músicas que se gravou nas últimas seções, mas que saiu solo em um EP em agosto de 1972 e de novo traz pegadas psicodélicas com lindos riffs de órgão que traz algum peso a música.

"Tabu"

Desde o início da confecção do álbum, no trabalho de encarte e preparação de “El Ritual” houve alguns descuidos, já que no referido encarte indica dez músicas quando na realidade tem apenas oito faixas. As duas músicas que faltam são “Tabu” e “Nuestra Gente”. O primeiro, conforme dito, apareceu anteriormente em um EP com quatro músicas. Já a segunda é uma gravação perdida porque embora tenha sido totalmente finalizada (mixagem, transferência e edição), no final não foi incluída e hoje é praticamente impossível determinar onde estava o máster.

A primeira edição de “El Ritual” foi apresentada numa capa de livro, que ao abrir incluía uma ilustração que pretendia refletir e mostrar o espírito e filosofia da banda. O estranho é que em nenhum lugar indica quem está tocando, embora nos créditos de cada música diga quem são os compositores. Obscuro, não?

Nas edições seguintes mudaram a capa do álbum e a ordem das músicas. Quando começou a ser concebido no formato CD, era da gravadora “Denver”, que também não traz nenhuma informação sobra a banda e até se aventuraram a mudar o nome de uma música; no CD “Peregrinación Satírica” agora se chama “Peregrinación Satánica”, o que é diametralmente diferente. E diante de todas essas informações transviadas reza a lenda de que havia um integrante, a participação de um tal Toby (não há maiores informações além desse perdido nome) responsável pelas percussões, mas que carece da devida confirmação.

Eles foram pioneiros no México no uso de luzes e fumaça, dando um clima teatral às músicas, bem como o uso de maquiagem e reza a lenda que faziam isso antes mesmo de bandas medalhonas como o Kiss que até hoje carrega o pioneirismo debaixo do braço. Não quero entrar no mérito da discussão, mas se olharmos pelo lado cronológico da coisa o El Ritual teria surgido primeiro com essa estética.

Teria um segundo álbum e já haviam tomado a decisão de fazê-lo em espanhol, aliás iniciaram as gravações em meados de 1972 com Luís Hernandez nos teclados que substituiu Martín. Lamentavelmente esse álbum, bem como outros projetos que estavam engatilhados não foram realizados e essas gravações também se perderam.

Em novembro de 1972 grande parte dos integrantes do El Ritual voltaram para a sua cidade natal, Tijuana, deixando para traz a Cidade do México. As mortes de Martín Mayo e Chalo Hernández em 2013 fechou definitivamente o ciclo e a possibilidade de uma reunião do El Ritual. Mas deixando uma marca indelével na história do rock mexicano, marcando um pioneirismo no occult rock daquele país.




A banda:

Gonçalo Chalo Hernandez no baixo

Alberto Lalo Barceló na bateria

Frankie Barreño nos vocais, guitarra e flauta

Martín Mayo nos teclados

 

Faixas:

1 - Mujer Fácil

2 - La Tierra De Que Te Hablé

3 - Bajo El Sol Y Frente a Dios

4 – Satanás

5 - Peregrinación Satánica

6 - Conspiración

7 - Groupie

8 - Muerto e Ido



"El Ritual" (1971)