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sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Valhalla - Valhalla (1969)

 

1969 foi o auge da psicodelia com o Woodstock, um festival de música que afirmou não só beat e a lisergia do rock n’ roll, mas um comportamento de uma população, sobretudo jovem, que vislumbrava a paz e o amor e a busca do desprendimento do conservadorismo que permeava na sociedade da época. Mas a horrenda guerra do Vietnã era a pauta de algumas bandas famosas da época. Todos ou grande parte eram contra, achavam uma aberração e de fato o era.

Era a liberdade, era o hipismo. E a música, bem como as drogas orgânicas e industrializadas, ajudava ou personificavam tal fenômeno sociológico, eram as portas da percepção abertas para sensações transcendentais. Na música, nas bandas de rock n’ roll, predominavam o experimentalismo, as improvisações, as músicas lisérgicas dançantes que hipnotizavam os expectadores ávidos por experiências psicodélicas.

Algumas gozavam de certo peso na sonoridade como o Experience de Hendrix, o Cream, o Vanilla Fudge, Yardbirds etc, mas tinham muito do psicodelismo pujante na época ainda em suas músicas. Contudo, ainda nessa época, tínhamos bandas que ousavam e causavam certo furor pelo fato de tocar mais pesado, de forma mais visceral, mais direta, tais como exemplos tinham Led Zeppelin, Grand Funk Railroad, Blue Cheer, Black Sabbath, The Stooges, entre outras bandas.

Essas bandas foram as primeiras desbravadoras do embrionário hard rock que no final da década de 1960 e início dos anos 1970, onde eclodiu uma grande quantidade de bandas que passaram a se tornar referência para o estilo, dando fim definitivo ao “flower power”.

Mas tivemos outras bandas que facilmente podem ser inseridas neste rol de baluartes do hard rock, que executava um rock com temática mais pesada e que infelizmente não teve os holofotes para difundir a sua música e colher os louros do pioneirismo, mas que, graças a abnegados como nós, amantes incondicionais do estilo e ferramentas como a internet, trazem à luz as bandas que caíram na implacável malha do esquecimento, nos porões esquecidos e obscuros do rock n’ roll.

E diante de uma quantidade razoável de bandas, conheci uma que, a primeira audição, me gerou uma completa surpresa positiva mesclada a um espanto por uma sonoridade arrojada e revolucionária no longínquo ano de 1969. Falo de uma banda chamada VALHALLA e seu único álbum lançado, de nome “Valhalla”.

O Valhalla foi uma banda norte americana que fazia uma mescla de hard rock ácido e visceral com o uso de hammond. Em alguns momentos fica muito orquestral e até sinfônico e até passagens jazzísticas, com pitadas progressivas. Era uma época de transição, ou seja, do psicodelismo para o rock pesado, mas o Valhalla já mostrava uma considerável queda pelo peso, pelo heavy rock e lembra um pouco o começo do Deep Purple e também o Uriah Heep.

E falando em começo o Valhalla, como tantas outras bandas, das famosas e obscuras, comercialmente falando, tinham os porões, as garagens, com o mínimo de estrutura para tocar os seus primeiros acordes. Não tiveram sessões em estúdios ou estruturas adequadas, eram espaços ínfimos, pequenos e muitas vezes nas casas dos pais, onde era o terror da vizinhança pouco simpática a uma sonoridade, digamos, pouco ortodoxa.

Eram muito jovens quando formaram o Valhalla, nunca tinham tocado em outras bandas anteriormente, em Long Island, apesar de ter alguma cena rock nessa região. E tudo girava em uma mentalidade antiautoritária, as agitações civis estimulavam o surgimento de bandas, de jovens que queriam expressar as suas insatisfações com o status quo pela arte, pela música e claro não foi diferente com os meninos do Valhalla.

Mas eram tempos difíceis para as bandas que pouco tinha no que se refere a oportunidades para gravar e difundir a sua música. Mas o selo “United Artists” contatou o tecladista, vocalista e pianista da banda, Mark Mangold, oferecendo um contrato ao Valhalla, após ter visto a banda tocar em um clube. A banda era forte, era visceral ao vivo e certamente colaborou para a gravadora convoca-los para a gravação de seu único álbum, “homônimo”, em 1969.

Mesmo com um contrato debaixo do braço a banda, formada por Mangold nos teclados, vocal e piano, Rick Ambrose no baixo e vocal, Dom Krantz na guitarra, Eddie Livingston na bateria e Bob Huling no vocal e percussão, teve dificuldades para conceber seu álbum, afinal pouca verba foi liberada para os caras trabalharem e entregarem um álbum com uma qualidade na sua produção.

A banda, muito jovem e pouco rodada no show bussiness, teve que contar inteiramente com o seu produtor, acontecendo tudo muito rápido, ou seja, uma ou talvez duas tomadas no máximo, basicamente sem overdubs. O álbum foi feito na “raça”! Tanto que se nota, na mixagem, a bateria um pouco baixa, mas que não comprometeu no resultado final, muito pelo contrário.

Nunca se soube exatamente quantas cópias foram feitas para este álbum, possivelmente poucas cópias o que infelizmente “ajudou” para a banda não conseguir êxito comercial. A capa do disco, um navio viking, que queima e naufraga, revela com força o nome da banda. Valhala, na mitologia escandinava, era o palácio onde as almas dos guerreiros mortos em combate eram recebidas para servir ao deus Odin. Era uma espécie de santuário onde só entravam os mortos com honras. Era o paganismo nórdico a favor do rock n’ roll, daí se explica a sua essência. O nome do artista que concebeu a arte gráfica era Remo Bramanti.

Quando o álbum foi lançado o Valhalla não fez grandiosas turnês, foram apenas apresentações locais, basicamente em faculdades, clubes e alguns poucos festivais pelos Estados Unidos. Era desejo de a banda divulgar o seu trabalho novo, até então, pela Europa, o que nunca aconteceu. Mas a banda conquistou alguma fama na região onde foi formada e arredores, graças as suas explosivas apresentações.

Na concepção da criação, todas as faixas foram compostas, foram criadas no piano com alguma improvisação ou em ensaios e grande parte dessas músicas tiveram inspiração em posturas anti-guerra ou questões comportamentais. Era uma época de descoberta, sombria, então formas de pensar velhas e antiquadas estavam na “pauta” dos jovens do Valhalla. Tudo isso era inspiração para compor e não tinha como fugir daquelas “tendências”.

“Valhalla” trazia a potência e o vigor do hard rock, mesclado a um proto prog, algo como um progressivo sinfônico graças a uma orquestra que ajudou no processo de composição e concepção do álbum, com músicas repleta de mudanças de ritmo e melodias complexas, mas muito orgânicas, cheias de vivacidade e visceralidade.

E ele é inaugurado com a faixa “Hard Times” que traz uma fusão avassaladora de riffs de guitarra e teclados frenéticos, as misturas de proto metal e rock psicodélico são evidentes, com guitarras pesados e vocais ásperos e poderosos complementados pelo hammond.

"Hard Times"

“Conceit” começa mais devagar e suave, mas gradualmente se desenvolve, tornando-se uma faixa psicodélica mais pesada e fantástica no final. A melodia dos versos é cativante!

"Ela levou uma vida protegida desde o amor de cachorro para ser minha esposa"!

O solo de guitarra no fim da faixa assume contornos de distorção e com efeitos de “wah-wah” incríveis.

"Conceit"

O peso das duas faixas anteriores desaparece com a linda balada “Ladies in Waiting”, a faixa mais lenta do álbum e trabalhada lindamente no piano. A melodia é delicada e o vocal é excelente nesta faixa. A letra provavelmente não seria tão popular nos dias de hoje:

"Mãe de nada, os frutos do seu ventre foram em vão."

"Ladies in Wainting"

“I’m Not Askin” traz o estilo psicodélico ácido e pesado e fica um pouco mais progressivo em alguns momentos, com uma seção estendida de solo de guitarra avassaladora e um pouco também com a bateria, tendo a textura do hammond que traz a “cereja” do bolo. Não podemos deixar de destacar a força pulsante do baixo que trouxe mais peso a faixa. Percebi também uma levada bluesy nesta música, além do vocal gritado e rasgado. Lindo!

"I'm not Askin"

“Deacon” é uma música tipicamente “flower power”, com a orquestra como pano de fundo trazendo a noção de algo voltado para o proto prog, talvez um progressivo sinfônico.

"Deacon"

“Heads are Free” traz aquela sonoridade meio psicodélica, resquício de rock lisérgico, um pouco comercial e acessível, traz também um limpo e belo solo de guitarra. Lembra um pouco The Doors.

"Heads are Free"

“Roof Top Man” é um espetáculo à parte. Introdução jazzística na bateria, um vocal blueseiro e uma pegada hard faz dessa música uma das melhores do álbum, sem dúvida. Traz também uma guitarra “fuzz” lembrando os primórdios do Iron Butterfly.

"Roof Top Man"

Em seguida tem a faixa "JBT" que significa algo como "July Building Thunderstorm" ou “formação de tempestades de julho”. É uma música mais suave que descreve poeticamente uma construção e uma tempestade que se aproxima. Começa com uma guitarra limpa e um som de órgão mais suave, mas perto do final muda um pouco.

"JBT"

“Conversation” também pega leve, como a faixa “Deacon”, se revelando uma linda balada com a predominância do piano dando-lhe a camada necessária para a música.

"Conversation"

O álbum fecha com “Overseas Symphony” que é um tanto quanto épico trazendo a combinação de heavy psych com a orquestra. A música com pouco menos de seis minutos e meio se revela complexa e rica, cheia de mudanças rítmicas com solos de guitarras lindas, vocais emotivos e de grande alcance e transições com uma leve e doce flauta, aquela faixa extravagante entre peso e prog rock.

"Overseas Symphony"

O único membro do Valhalla que teve uma carreira musical mais longeva foi o tecladista Mark Mangold que foi, após o fim do Valhalla, foi para o American Tears e lá ajudou a banda a gravar três álbuns de estúdio, além de ter gravado alguns trabalhos solo.

O Valhalla lamentavelmente não durou muito tempo, mas deixou uma marca indelével em um período de grandes transições para o rock n’ roll onde esta música conheceria, na virada dos anos 1960 para os anos 1970, grandes vertentes como hard rock, rock progressivo e que estavam impressos na música da banda.

Um hard potente, verdadeiros petardos de guitarra e teclados caóticos, vocais ao estilo heavy rock... Um álbum que, embora esteja nos porões do rock, certamente, ao ouvi-lo, você logo chegará a uma óbvia conclusão: É uma referência para uma toda uma cena que surgiria forte na década de 1970 e 1980.



A banda:

Rick Ambrose no baixo, vocais

Bob Huling na percussão, vocais

Don Krantz na guitarra

Eddie Livingston na bateria

Mark Mangold nos teclados, vocais

 

Faixas:

1 - Hard Times

2 - Conceit

3. Ladies in Waiting

4 - I'm Not Askin'

5 - Deacon

6 - Heads Are Free

7 - Rooftop Man

8 - JBT

9 - Conversation

10 - Overseas Symphony




"Valhala" (1969)



 





 


























 


 




quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Taste of Blues - Schizofrenia (1969)

 

Vasculhar os escombros obscuros do rock n’ roll nos possibilita encontra algumas gratas “loucuras”, que foge ao famigerado padrão, o óbvio. O rock não pode e não deve ser tratado como algo fugaz e óbvio. Nunca!

O garimpo é vida! Chega desses pasteurizados óbvios que insistem em se tornar os faróis do rock n’ roll, faróis esses que só colocam na escuridão a qualidade diversificada do estilo de que tanto amamos.

Por que digo isso? Porque, claro, em meus garimpos pela grande rede eu descobri algo que jamais pensaria encontrar: uma banda escandinava, mais precisamente da Suécia, que foge um pouco do hard rock! Mas diante disso vem a pergunta: Mas como pensar que na Suécia tem apenas hard rock? O que dizer de algumas grandes bandas progressivas?

Sim, verdade! Mas o que dizer de ouvir uma banda sueca com traços evidentes e bem delineados de krautrock? Krautrock, para os desavisados, foi um movimento social, cultural e musical que se formou na Alemanha no fim da década de 1960 e início dos anos 1970 e ajudou a moldar o rock germânico.

Mas parece que seus contornos sonoros ajudaram a desenhar a música de algumas bandas suecas, mas que, lamentavelmente caíram no ostracismo e vilipêndio da indústria fonográfica, sempre segmentária e conservadora.

E claro citarei uma que ouvi e confesso me ter feito dançar, pois me divertiu a tal ponto que me deixei envolver, em uma espécie de mesmerização plena e deliciosa que somente as bandas desse estilo minimalista e pouco compreendido até hoje entre os fãs mais exigentes do rock progressivo.

E como sempre a história é envolvente, mas que converge para todas as bandas que seguiram no caminho da obscuridade marginal: de dificuldades, de provações, de baixos orçamentos ou nenhum, entre outras adversidades.

A banda é TASTE OF BLUES e o alvo desse texto é o seu único álbum, lançado em 1969, chamado “Schizofrenia”. Mas antes de destrinchar esse álbum incrível e pouco ortodoxo (por isso que ele é especial), vamos de história porque as suas passagens história são no mínimo pitorescas e valem registro.

Taste of Blues

O Taste of Blues foi formado, como disse, na Suécia, em uma região chamada Malmö, em 1967, por Claes Ericsson (órgão e violino), Anders Stridsberg (vocal), Rolf Fredenberg (guitarra), Robert Möller (baixo) e Patrick Erixson (bateria).

E jovens como eram, lá nos anos 1960, sempre tiveram o ímpeto e a impetuosidade de queimar as suas energias tocando rock n’ roll que estava no auge graças a invasão britânica, a cena psicodélica de São Francisco e toda a subversão que o rock poderia proporcionar, tocando em várias bandas pequenas e locais.

E tocavam em clubes de jovens ao redor do condado de Skåne e o embrião do Taste of Blues estava em uma banda chamada “The Decibels”, que tinha cinco adolescentes; duas guitarras, baixo, bateria e um vocalista.

Mas da mesma forma que era comum ter bandas juvenis nascendo, também tinham bandas morrendo, que não vingavam e o “The Decibels” foi uma delas, sucumbindo bem antes de fazer shows ou coisa que o valha, apenas algo amador e totalmente despretensioso.

Quando o The Decibels dissolveu o baixista Robert Möller e o guitarrista Rolf Fredenberg sentiu a necessidade de criar uma nova banda e tentar levar o ofício a sério, ter longevidade e sucesso na música. E aconteceu! No outono de 1967 a banda estava formada!

A primeira coisa de que precisavam era de um local para ensaiar, para tocar, para começar a delinear a sua sonoridade. E conseguiram encontrar, de graça, um prédio no centro de Malmö. Um prédio abandonado, porque seria demolido. O próximo passo era buscar novos companheiros para formar a banda e usaram jornais para buscar novos integrantes.

E assim quando os caras foram integrados à banda, ela ganhou forma e um nome também: “Taste of Blues”. O primeiro show aconteceu em 11 de dezembro de 1967, mas Anders, o vocalista, abandonou o barco, em setembro de 1968, alegando que tinha que dar sequência aos seus estudos, dar prioridade aos estudos e foi aí que entrou Don Washington, um norte americano que morava em Malmö.

Don era negro e tinha 40 anos de idade, certamente o mais velho da banda e reza a lenda de que ele era alcoólatra, viciado em drogas, um ladrão condenado e desertor da Guerra do Vietnã e que se mudou ou fugiu para a Suécia em meados dos anos 1960.

Era um cara barra pesada e temido nas quebradas de Malmö que odiava brancos e que teria agredido fisicamente dois membros da banda, no entanto permaneceu no Taste of Blues graças os seus dotes de cantor ou por medo dos caras da banda, vai saber! O fato é que ganhou a vaga de vocalista do Taste of Blues.

Don Washington

Reza a lenda também que o Taste of Blues era uma banda performática e que tocava para um público pequeno, mas fiel, ávido por música psicodélica. Não era uma banda “dançante”, mas inspirava o público a interagir fortemente graças às batidas meio beat, meio soul, meio blues, com guitarras ácidas e distorcidas.

O Taste of Blues tocou em clubes, casas de shows na Suécia, Dinamarca e Noruega, fizeram um belo tour pela Escandinávia, além de alguns shows na Finlândia também. A Dinamarca foi o país mais receptivo que eles encontraram, que eles tocaram, ocasionando uma ida mais intensa naquelas frias terras.

A banda foi ganhando alguma repercussão, graças as suas apresentações teatrais e viscerais e abriram para alguns figurões como Frank Zappa and The Mothers que, dizem as boas línguas que, em um desses shows o próprio Zappa usou a guitarra do Rolf, do Taste of Blues, em sem show, além de Fleetwood Mac, no Concert Hall de Gotemburg, Jefferson Airplane, no verão de 1969 e tocar para presos em presídios pela Suécia, ou seja, indo do céu ao inferno.

Mas a banda precisava gravar, de documentar um álbum e receberam uma proposta do selo “SSR” para gravar em seus estúdios. As gravações aconteceram em novembro de 1968 e os músicos tinham que se deslocar para Estocolmo ou Gotemburgo para as gravações de seu álbum chamado de "Schizofrenia". Não se sabe ao certo quantas cópias foram prensadas desse único álbum do Taste of Blues, varia entre 500 ou 1.000 cópias desse clássico do submundo do rock sueco.

Outra lenda ronda a banda no processo de gravação de "Schizofrenia". As gravadoras, mesmo com alguma visibilidade que o Taste of Blues estava ganhando, não estava interessadas em gravar a banda em estúdio e alguns americanos que moravam na Suécia decidiram financiar a gravação do álbum em estúdio, talvez por causa da presença do Don Washington, também americano, dando ao Taste of Blues algum crédito.

E talvez, me permitam a licença poética, seja verdade essa história, pois na capa do álbum, muito legal, diga-se de passagem, traz o nome da banda com o nome de Don em destaque. Talvez pelo fato do mesmo ser americano ou porque tenha sido uma exigência do “investidor” dar destaque ao vocalista estadunidense. 

Mas a história pode não ser verídica, pois a banda teria recebido o convite da gravadora “SSR” para gravar seu álbum, ou também pode ter sido paga para liberar aos músicos para tocarem em seus estúdios. Histórias à parte "Schizofrenia" foi concebido em 1969.

A história do álbum "Schizofrenia" gira em torno da sua faixa título em que a banda tocava em seus shows em verdadeiras sagas improvisadas, com muita psicodelia, lisergia e peso, em alguns momentos, com tantas variações, por isso ganhou 17 minutos de duração, que ocupou um lado inteiro no LP e que recebeu esse nome que, em português significa “Esquizofrenia” porque a música tem partes muito distintas, ganhando as tais variações rítmicas e que juntas tudo acontece, como um bolero, por exemplo, e me desculpem pela comparação.

Então a formação do Taste of Blues quando gravou “Schizofrenia" tinha: Don Washington nos vocais, Rolf Fredenberg na guitarra, Claes Ericsson no órgão e violino, Robert Moller no baixo e Patrik Erixson na bateria.

            Don Washington e Claes Ericsson

            
            Robert Moller e Rolf Fredenberg

              
               Patrick Erixson

Os lados, falando sobre o aspecto do formato LP, são um tanto quanto distinto, mas o cerne sonoro não foge a regra de um inusitado e maravilhoso krautrock com viagens experimentais, baseados em sons minimalistas, com flautas, saxofones e guitarras ácidas, aqui e ali, sobretudo na primeira faixa, tendo no lado “B” uma sonoridade mais dançante, com solos de guitarras mais pesadas com um viés blueseiro, tendo como cerne o tripé kraut-blues-rock e tendo ainda aquela atmosfera, aquela aura psicodélica, aquele beat dançante e hipnótico.

Abrimos então com a faixa título, “Schizofrenia” que já falamos alguma coisa e que basicamente serviu de base estrutural para a concepção do álbum e traz o lado mais krautrock e experimental da banda. O lado lisérgico, improvisado e cheio de recursos sonoros, com as tais variações que faz da música e álbum, uma verdadeira “loucura”. Flautas, saxofones, guitarras com riffs ácidos e bateria marcada que faz lembrar o Can são destaques nessa peça pouco ortodoxa para o rock naquela época.

"Schizofrenia"

A sequência tem “A Touch Of Sunshine” inaugura a fase mais direta do álbum, com um blues rock tendo a guitarra como cerne da música, mais ainda com evidências firmes de um bom e velho psicodelismo, mas bem convencional, mas nem um pouco ruim, pelo contrário. Don escreveu a letra e nesta música também inaugura o seu vocal, Claes, o tecladista, apresentou a música e traz aquele estilo tradicional de blues que lembra um pouco o Doors e Cream.

"A Touch of Sunshine"

“On The Road To Niaros” inicia com aquele teclado sombrio e que ganha um pouco de peso com a bateria tocada velozmente e logo os teclados voltam alternando. O vocal de Don é imperioso, altivo, bem executado e a “cozinha” dá o ritmo, bateria blueseira, baixo pulsante. Lindo! Aqui cabe uma curiosidade acerca da letra da música: ela foi composta ônibus a caminho de Trondheim na Noruega. “Nidaros” é um nome antigo da Era Viking.

"On The Road To Niaros"

“Another Kind Of Love” é uma música tributo ao John Mayall e traz uma salutar “batalha” entre riffs de guitarra e órgão com o vocal poderoso de Don sobressaindo. Traz um blues mesclado a hard rock mais cadenciado e indulgente. E tudo isso desemboca em um solo simples, mas avassalador.

"Another Kind of Love"

“Another Man’s Mind” traz um vocal mais limpo e melódico, mas soa sombrio, estranho, talvez pela letra, com teclados mais soturnos e perigosos que irrompe em um solo de guitarra ácido, intenso e que logo transforma a faixa em um verdadeiro hardão, com peso e até com certa dose agressiva.

"Another Man's Mind"

E fecha com “What Kind Of Love Is That” que traz um som mais solar, um blues mais animadão, que induz o ouvinte a dançar, a se mexer, algo bem orgânico, uma música simples, mas muito comercial, uma “queda” meio radiofônica talvez.

O Taste of Blues continuou com alguns shows e eles fizeram uma amizade muito forte com o Jefferson Airplane, e que ofereciam alguns psicotrópicos aos “meninos” do Taste of Blues. Os caras não aceitavam, não usavam drogas, mas bebiam após os shows até mesmo para socializar com os fãs e tentar vender seus álbuns e fazer aquele merchandising de seus shows futuros.

Infelizmente as vendas dos álbuns foram pífias, pequenas, as rádios não queriam promover o Taste of Blues, a sua música estava muito a frente do seu tempo e algumas rádios não queriam destruir as suas reputações com músicas tão experimentais à época. 

Mas a banda conseguiu, mesmo que a duras penas, conquistar um público em sua terra natal, na Suécia, mais especificamente em Estocolmo. Inclusive o último grande show do Taste of Blues foi em Estocolmo, em uma casa de shows como banda residente.

Quando o Taste of Blues foi dissolvido o violinista e tecladista Claes Ericsson integraria a banda Lotus, mas depois se juntaria ao baterista Patrik Erixson para formar a banda de hard prog Asoka, bem conhecida na cena rock sueca.

"Schizofrenia" foi relançado em 1992 pelo selo sueco “Garageland”, no formato vinil e em CD, no ano de 2010 pela gravadora “Transubstans Recordsem”. Um clássico obscuro, uma pérola mais do que recomendada e necessária. 

Uma banda que definitivamente construiu a cena rock da Suécia com primor e arrojo, mesmo contra um ostracismo por parte do mercado conservador, mas que deixou gravada na história daquele país um conceito inovador e subversivo que tanta se almeja no bom e velho rock n’ roll.



A banda:

Don Washington nos vocais

Rolf Fredenberg na guitarra

Claes Ericsson nos teclados e violinos

Robert Moller no baixo

Patrik Erixson na bateria

 

Faixas:

1 - Schizofrenia

2 - A Touch Of Sunshine

3 - On The Road To Niaros

4 - Another Kind Of Love

5 - Another Man’s Mind

6 - What Kind Of Love Is That

 

 

Taste of Blues - Schizofrenia (1969)






 






















 




domingo, 20 de março de 2022

Plus - The Seven Deadly Sins (1969)

 


Muitos trabalhos, muitos álbuns se perderam nos anos 1960 e 1970, sejam pela incompreensão de sua música, muitas delas nessas épocas, embrionárias e logo de difícil digestão, e consequentemente a rejeição pela indústria fonográfica. O número de bandas parece ser interminável, muitas caem na obscuridade, são esquecidas, trafegam no ostracismo, tendem a desaparecer, não vingam.

Mas não se enganem caros leitores que questões como essa são de ordem da qualidade, ou melhor, da falta de qualidade. Claro que temos bandas ruins nesse rol, mas acredite que os álbuns e as bandas são incríveis, o som revolucionário, de vanguarda, por isso esse blog existe: para tentar difundir a história e, sobretudo o som dessas bandas vilipendiadas.

E a banda de hoje é o exemplo fiel e contundente do esquecimento, por conta da incompreensão de sua textura sonora e do consequente esquecimento. Chama-se PLUS e surgiu na Inglaterra na transição dos anos 1960 e 1970, férteis para o rock n’ roll e suas vertentes mais importantes e significativas.

A sua história, a formação da banda, quase tudo está envolta em uma camada nebulosa, escura, obscura mesmo, misteriosa, o que aguça ainda mais o interesse, admito. Eles lançaram apenas um álbum. Eles nunca fizeram um show, nunca se apresentou em lugar algum, não há registro disso, pelo menos. 

Não tocaram em nenhuma rádio à época, não tiveram nenhum tipo de publicidade, na imprensa, absolutamente nada. Então se pode dizer que não teria longevidade, sobretudo por este aspecto mais comercial.

Mas ao ouvir “The Seven Deadly Sins”, lançado em 1969, entrega uma joia, uma pérola, de uma singularidade sonora, complexa, flertando com inúmeros estilos que no final da década de 1960 eram apenas maquetes, estavam começando, sendo construída. Definitivamente o Plus foi um fracasso comercial, estava de fato fadado a esse fim, mas ainda assim esteve muito a frente do seu tempo por conta deste clássico obscuro.


Mas os mistérios não terminam por aí. Até mesmo a formação da banda traz dúvidas. Não há fotos dos músicos e parece que nem todos foram creditados no álbum. Conta com os irmãos Newman, Tony, na guitarra e Mike, na bateria, além de Max Simms no baixo. 

A única parte conhecida dessa história obscura é o ex-baixista e produtor do The Yardbirds, Simon Napier-Bell que apadrinhou os músicos mencionados e que também ajudou a compor metade do álbum, cerca de seis músicas, aproximadamente, além de Ray Singer, este último foi um cantor de bandas nos anos 1960, e mais tarde ajudou a iniciar as carreiras de pessoas como David Sylvian, Japan e Joan Armatrading. Napier-Bell foi e é um empresário que gerenciou The Yardbirds, Marc Bolan e T Rex, Ultravox, Wham! , e, por um tempo o Asia.

Simon Napier-Bell

Ouvindo algumas faixas de “The Seven Deadly Sins” nota-se a presença de vocalistas, um coro inteiro, às vezes, além de piano, órgão, violinos, violoncelos etc. levando a crer que se trata mais de um trabalho dos produtores, do Napier-Bell e Ray Singer do que da própria banda, embora os irmãos Newman sejam creditados com alguma importância, tendo criado a outra metade das músicas contidas no álbum.

“The Seven Deadly Sins” é um álbum conceitual e como o título sugere (tradução literal significa: “Os Sete Pecados Capitais”), fala claro, sobre os pecados capitais. Isso está evidente também na arte gráfica. A capa do disco é gritante nesse sentido com a cruz ao centro e sete pessoas com indumentárias denotando um forte viés religioso sinalizando uma missa católica.

Gravura "Os sete pecados capitais" de Flamengo Frans Huys

“The Seven Deadly Sins” foi concebido, inspirado na peça homônima de Bertolt Brecht e também diante de um cenário um tanto quanto badalado, do interesse renovado do público para com a religião ligado ao rock n’ roll ou algo mais, diria, arrojado, desse conceito, sobretudo devido a peça teatral “Jesus Christ Superstar” e do álbum do Electric Prunes chamado “Mass in F. Minor”.

E quando falamos em obscuridade, mas trazendo uma revolução sonora, carregada de vanguardismo, é porque “The Seven Deadly Sins” é um álbum conceitual baseado nos setes pecados capital com um toque sombrio, obscuro, estranho, docemente estranho e que, em 1969 era uma novidade, afinal poucas bandas se aventuravam nessa proposta de construção de álbum. Poucos foram lançados, como “Tommy”, do The Who, por exemplo.

“The Deadly Seven Sins” traz uma variedade sonora, um mix de sons que faz deste trabalho único e importante, onde podemos destacar uma lisergia psicodélica, no ápice em 1969, com seções de hard rock envolto em uma camada bem experimental, com temperos de jazz rock e blues. Um álbum versátil, complexo e poderoso.

O disco começa com a faixa Introit: "Twenty Thousand People" que soa como algo soturno e distante, um feitiço evocado por um padre de uma belíssima estranheza. Traz um vocal melancólico e comercial, algo melódico e marcante aos ouvidos com uma bela sequência de piano e um solo de guitarra com muita personalidade, diria até mesmo pesada.

Introit: "Twenty Thousand People"

Na sequência temos “Gloria In Excelsis: Toccata” começa com "Toccata i fugą d-mol" de Bach, que depois de um tempo se transforma suavemente em uma melodia simples, um rock direto e que evolui para uma entonação coral dos pecados capitais, escrita por Napier-Bell e Singer, que pode ser ouvida em uma igreja local. O texto foi ligeiramente atualizado para se adequar ao tema abrangente.

Gloria In Excelsis: "Toccata"

Escrita pelos irmãos Newman, Avarice: "Daddy's Thing" abre com interessantes sons clássicos de viola, mas quando os teclados e a guitarra aparecem, a faixa se transforma em um hard rock intenso e viril. Ao ouví-la me faz lembrar uma faixa mais acessível, mais comercial, pop, diria, dos anos 1960, tais como Beatles, por exemplo.

"Daddy's Thing"

“Pride: Pride” soa como uma balada também ao mesmo estilo Beatles, com um viés mais acessível aos ouvidos, mas com um caráter mais soturno, mais desafiador nesse quesito, um som belíssimo, mas extremamente obscuro.

Sloth: "Open Up Your Eyes" é outra faixa de rock com um baixo forte de Simms, super pulsante, que traz uma pegada meio funk, meio dançante diria, com pitadas experimentais e um dos melhores solos de guitarra de Tony Newman.

Sloth: "Open Up Your Eyes"

“Wrath: Gemegemera” traz de volta o peso e algo um tanto quanto perturbador remetendo aos primórdios da música pesada com o choro de uma criança e os gritos de torcedores de futebol, com um baixo poderoso e esmagador que entrega o tempero da música com a cozinha poderosa e a bateria dando o ritmo também.

"Wrath: Gemegemera"

Uma voz maníaca gritando "Vire seus olhos!" é precedido por um curto canto gregoriano, e então The Secrets: "Devil's Hymn" se transforma em uma música pitoresca com a uma atmosférica jazzística, é definitivamente sublime e diabólica, ao mesmo tempo, é de sentir arrepios e faz com o conceito harmonize plenamente com a música.

The Secrets: "Devil's Hymn"

“Lust: Maybe You're The Same” soa como aquelas músicas sessentistas do The Who, cheia de toques pop, mas com muito brilho, força e intensidade e ótimas harmonias vocais. Uma bela faixa!

Envy: "I'm Talking As A Friend" é outra joia! Excelente faixa que introduz com uma atmosfera meio experimental, um som meio minimalista mas que irrompe em uma balada pop ao som de um violão acústico tocado magistralmente.

Envy: "I'm Talking As A Friend"

“Gluttony: Something To Threaten Your Family” inicia um som dissonante do violino trazendo uma atmosfera sombria que nos faz lembrar um filme de terror em seu ápice de sustos e mortes, mas a guitarra acústica e boas harmonias vocais contrabalanceiam com o som apocalíptico em uma balada rock.

“The Dismissal: Twenty Thousand People” fecha o álbum com uma proposta experimental aliado ao peso do hard rock, com viagens psicodélicas e progressivas e sintetiza a proposta complexa e versátil do álbum.

“The Seven Deadly Sins” criada em seu tempo, mas que rompeu com todos os seus paradigmas, foi algo arrojado, singular, espetacular. A música é impressionante, apesar de esquecida e obscura, cercada de mistério e fatores desconhecidos. A seção rítmica é enérgica, intensa, eclética, em um período de experimentalismo e ode à criatividade. 

Eis aqui neste álbum um exemplo sincero da precursão do rock progressivo que conhecemos hoje. É inusitado, é interessante, pois colocou o rock n’ roll, meio que em voga nesta fase transitória de décadas, em um patamar popular e de construção do conceito de sua música valorizando a letra, as composições, a história.

O que era pouco digerível na época, talvez seja esse um dos fatores do seu ostracismo, “The Seven Deadly Sins” conseguir trafegar no obscuro e pop com uma ponte experimental como poucos conseguiram produzir à época. Os músicos sumiram, a banda finalizou, deixou de existir, mas talvez ela tenha surgido com um tempo de vida já determinado, com um fim estipulado, um projeto talvez. 

Porém, pela sua representatividade sonora, ganhou a eternidade e a referência para várias vertentes sonoras de que tanto amamos hoje. Segundo informações, 30 anos depois de seu lançamento o álbum fora relançado, mas não há registros de que isso tenha sido de fato verdade. Altamente recomendado!



A banda:

Tony Newman na guitarra

Mike Newman na bateria

Max Simms no baixo


Faixas:

1 - Introit: Twenty Thousand People

2 - Gloria In Excelsis: Toccata

3 - Avarice: Daddy's Thing

4 - Pride: Pride

5 - Sloth: Open Up Your Eyes

6 - Wrath: Gemegemera

7 - The Secrets: Devil's Hymn (instrumental)

8 - Lust: Maybe You're The Same

9 - Envy: I'm Talking As a Friend

10 - Gluttony: Something To Threaten Your Family

11 - The Dismissal: Twenty Thousand People

 

Plus - "The Seven Deadly Sins" (1969)