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sábado, 16 de maio de 2026

Laser - Vita Sul Pianeta (1973)

 

Certos temas e assuntos, com o passar do tempo, vão se tornando clichês, se estereotipam, até. Mas é preciso ser mencionado, pela urgência do tema e/ou se especializa em dizer certos assuntos ou melhor, se decide desbravar por certos temas. A razão de ser, por exemplo, deste reles e humilde bolg é falar de bandas obscuras, que trafegam ou trafegaram no underground e que, por algum motivo, que geralmente são inúmeros, dada a sua complexidade, sucumbiram.

A ideia central é trazer à tona as suas histórias, aqui neste site o fracasso compensa enaltecer. E não se enganem, nobres leitores, em associar fracasso a incapacidade musical, como, por exemplo, a trabalhos ruins ou coisas que o valham. Não! Há e muito a se aproveitar, com o digno garimpo, nas obscuridades, no underground!

E, quando me pus a refletir sobre isso, procurei buscar uma banda e um álbum que personificasse esses temas, essas questões e trazer aqui, porque, como disse, a ideia central é contar e disseminar histórias e álbuns que possa arrebatar ouvidos e corações sedentos por algo que fuja do usual, mas, sempre trazendo a qualidade como mote.

Claro que a questão da qualidade pode ser relativa, afinal, as percepções e gostos podem ser diametralmente diferentes uns dos outros. Isso não é nenhuma novidade, evidentemente. Mas acalmem-se, estimados leitores, tentarei dizer onde quero chegar dizendo com isso.

Quando eu ouvi o único álbum dessa banda pela primeira vez eu vi, ou melhor, li algumas poucas críticas acerca deste trabalho e digo que todas ou quase todas foram negativas. A rejeição foi grande, diria. Alguns atribuíram a incapacidade dos músicos, a produção aquém etc. Ouvi algumas vezes mais para tentar “achar” tais deficiências e algumas, de fato, foram notadas por mim, como a produção. Contudo, mesmo diante de alguns reveses, eu adorei esse álbum. Sim! Adorei! São percepções, são opiniões distintas e isso é salutar para a vida!

Então esse texto seria uma espécie de me posicionar contrário ao que a maioria disse a respeito dessa banda e álbum. Mas não é tão somente isso! É um texto para expor o meu apreço por este álbum e banda, afinal, neste blog irá figurar apenas o que este reles dono gostar. Sem mais delongas falarei do LASER.

As poucas referências, sobretudo da Itália, país de origem da banda, dão conta e isso me parece óbvio, é de que a mesma é considerada como obscura. Mas confesso que, ao ler isso, me encheu de alegria, pois se até em seu país é tida como obscura, merece figurar nesse blog.

Os protagonistas do Laser, um quinteto, eram nascidos entre Roma, Formello e Campagnano e eram: Riccardo Paolucci (vocais, guitarra), Valentino D'Agostino (vocais, teclados), Loris Cardinali (guitarra), Adalberto Sbardella (baixo) e Antonello Musso (bateria). O único álbum lançado pela banda foi “Vita Sul Pianeta”, de 1973.

A banda em 1973

Os primórdios do Laser, à época de sua formação, no final dos anos 1960, o nome era bem mais longo, sendo chamado de "Il Laser, di Elvezio Sbardella". Este foi, por um certo período cantor e letrista da banda. Nessa primeira formação havia um tecladista de nome Gino.

Fizeram as primeiras 45 RPM no ano de 1972, para uma pequena gravadora, de nome Mantra, que ficava em Bolonha. Os singles se chamavam "Dove Andremo" e "Lacrime di Ragazzo", sendo, claro, muito raro e feito com uma distribuição local, lançado apenas com uma capa branca genérica.

Single

No ano seguinte, 1973, após a formação ser definida, com a saída do tecladista Gino e o nome da banda abreviado para “Laser”, os cinco músicos foram contratados pelo selo Car Juke Box, de Carlo Alberto Rossi, que tinha, em seu cast, bandas icônicas como Le Orme, decidiu investir em novas bandas, em novos talentos em boa companhia com I Nuovi Corvi e o excelente músico de jazz Paolo Tomelleri. Tudo isso sob a égide tanto do Maestro Mario Bertolazzi (maestro da Rai) quanto de Renato Pareti, dos Nuovi Angeli.

"Vita Sul Pianeta" ou, em inglês, “Life on the Planet” (“Vida no Planeta”) era uma obra conceitual sobre a evolução da vida, do homem, no planeta. Uma parábola existencial do homem na Terra em forma narrada, com finais dramáticos e mensagens fortes e de grande urgência. A sonoridade da banda era principalmente a mescla do hard rock, com predominância, protagonismo dos seus guitarristas, com o rock progressivo, com interessantes mudanças de andamento.

Mas não para por aí. Neste único trabalho do Laser é perceptível o blues rock, pitadas de psych e até mesmo, muito em virtude dos primórdios do rock italiano, do beat, do pop macarrônico do país da bota. Embora traga nuances de progressivo, as faixas são curtas e em alguns momentos, mais básicas, porém viciantes e que cativa a todos os gostos que variam, claro, do hard ao prog. Acredito que o fato de ter, acerca desse álbum, certa rejeição, pelo fato de fugir um pouco do que se ouvia, à época, auge do progressivo italiano, mais voltado para o sinfônico e coisas mais complexas de bandas mais consagradas.

Mas é inegável observar que tais músicas trazem melodias cativantes, animadas, solares e muito daquele espírito do rock italiano, que absorveu o seu ápice e os seus primórdios, sem dúvida. Esse, posso dizer, sem quaisquer constrangimentos e medo, álbum do Laser traz, em sua essência sonora, a cultura underground, marginalizando-se do que se praticava na primeira metade dos anos 1970. E o interessante que até mesmo nas letras dessas músicas, dada a sua questão conceitual, também entrega elementos mais underground, diria até mais hippie.

Outro ponto de muita crítica acerca de “Vita Sul Pianeta” está nos vocais e na produção muito abaixo que, para muitos, colaborou negativamente para o resultado final deste álbum. Há uma rotação nos vocais entre três músicos: nos dois guitarristas e tecladista. De fato, as vozes podem não ser convincentes, estupendas vozes, mas compensa pelos alcances altos, em alguns momentos mais altos e gritados, o que traz algo pouco ortodoxo para a realidade dos trabalhos progressivos. Nos momentos pesados das faixas é extremamente atraente!

O álbum é inaugurado com a faixa título, “Vita Sul Pianeta” que começa com uma narração, mas logo traz uma atmosfera sombria, soturna, com os teclados psicodélicos e sinfônicos que é entrelaçado por riffs de guitarra e solos lisérgicos curtos. A bateria é marcada e pesada, baixo pulsante, o ritmo, cadenciado, tende para o hard rock e pitadas progressivas. Vocais altos e agudos entregam uma música mais pesada e me remetem, por um instante, o norte-americano Vanilla Fudgie. O final já revela aquele progressivo mais sinfônico tipicamente italiano. Música de muitos recursos!

“Non Vede La Gente” já começa cativante com uma pegada meio beat, meio psicodélica, com o hard rock dando o “tempero”. É inegável que aqui percebe-se o hard prog em sua mais fiel essência. O peso dos riffs de guitarra e as mudanças de andamento, faz da música interessante e atraente.

Non Vede La Gente

“Sconosciuto Amico” traz o vocal, praticamente à capela, apenas com um piano e teclado ao fundo, mostra a voz mais apurada, melódica e tipicamente dramática do rock italiano. Uma balada prog bem legal vai se revelando aos poucos. Uma sonoridade contemplativa e viajante que mescla o progressivo e o rock psicodélico. Backings vocals femininos me remetem a um clássico floydiano dos anos 1970. Mas quando se encaminha para o final, algo meio King Crimson se percebe com saxofone e uma pegada experimental.

“Dove Andremo” segue basicamente a mesma pegada da faixa anterior: vocal mais soturno, urgente, introspectivo e uma bateria, meio percussiva ao fundo. Mas conforme o vocal ganha alcance, a sonoridade vai ganhando mais corpo e irrompe em uma explosão de riffs e teclados enérgicos em um hard rock potente e volumoso. Mas logo retorna ao som mais sombrio do início. As mudanças de andamento, mais uma vez, se mostram evidentes, trazendo a veia progressiva que permeia todo esse trabalho.

"Dove Andremo"

“L'ultimo Canto Del Killer” introduz com a “cozinha” dando o recado: solo de bateria, baixo cheio de groove, pesado, e depois vem o peso da guitarra, de riffs mais sujos e pegajosos, entregando, de imediato, um hard rock cadenciado com o vocal gritado e rouco. Aqui se percebe também uma pegada mais bluesy, um bom blues rock com recheio progressivo, um pouco mais sutil aqui, é bem verdade. Talvez uma das mais pesadas do álbum!

"L'Ultimo Canto Del Killer

“Corri Uomo” vem trazendo o carro-chefe do álbum: o hard prog! Aqui há uma belíssima “rivalidade” entre os teclados, enérgicos, com a guitarra, em riffs pesados e solos curtos igualmente pesados. O final é de tirar o fôlego com solos de guitarra estrondosos e teclados ainda mais pesados. Pesado! “Eri Importante” já começa dançante: instrumentos de sopro animados, teclados lisérgicos, um beat solar. Vocais mais gritados e, por vezes, melódicos. A pegada pop está mais latente. O beat italiano é mais vivo nessa faixa.

E fecha com “Alla Fine Del Viaggio” já começa com o pé na porta, com uma explosão de guitarra, em um solo bem competente. O hard rock aparece aqui com veemência. A camada de teclados traz uma textura progressiva. O “duelo” entre guitarra e teclado é um espetáculo à parte e nítida sensação de um hard prog vem tocando aos ouvidos deliciosamente. Grande e derradeira faixa!

"Alla Fine Del Viaggio"

Poucas foram as cópias impressas para esse álbum, em 1973. É evidente que a produção, fruto do baixo envolvimento e investimento da gravadora para com o Laser, esteve aquém, mas não se pode atribuir a responsabilidade à banda que, mesmo contra tais adversidades, mostrou competência no que se propôs a produzir. Sim! Um som áspero, mais pesado, incomum no auge do rock progressivo italiano no início dos anos 1970 que prezava pela qualidade técnica, mas um álbum muito bom diante da sua proposta de um hard prog.

Os reveses, diante desse cenário, seriam evidentes para a trajetória do Laser. A sua trajetória foi curta, precoce e a banda, lamentavelmente, se desfez logo após o lançamento de “Vita Sul Pianeta”, em 1973. Culminou, também, com a saída do tecladista Valentino D'Agostino que foi obrigado a prestar o serviço militar. A banda se reúne, décadas depois, em 2019.

"L'Ultimo Canto Del Killer (Live, 2019)

“Vita Sul Pianeta” teve alguns relançamentos ao longo dos anos. Em 2000 o selo Akarma o relança, no formato LP. Em 2012 foi a vez do selo AMS/BTF relançar, também no formato LP. Já no formato CD o primeiro relançamento foi em 1992 pelo icônico selo Mellow. Akarma também relançou em 2000, bem como a gravadora AMS/BTF.

Capa de relançamento

Um clássico incompreendido! Um clássico obscuro marginalizado, que caiu no mais profundo ostracismo que o tempo, quem sabe, se encarregará de trazer justiça pela forma arrojada como foi concebido. Produção pobre? Inocência sonora? As percepções são variadas, mas uma coisa é fato: é único por ser simplesmente diferente.


A banda:

Riccardo Paolucci nos vocais e guitarra

Valentino D'Agostino nos vocais e teclados

Loris Cardinali na guitarra

Adalberto Sbardella no baixo

Antonello Musso na bateria

 

Faixas:

1 - Vita Sul Pianeta

2 - Não Vede La Gente

3 - Sconosciuto Amico

4 - Dove Andremo

5 - L'ultimo Canto del Killer

6 - Corri Uomo

7 - Eri Importante

8 - Alla Fine Del Viaggio 



"Vita Sul Pianeta" (1973)






 

















sábado, 28 de março de 2026

Mutha Goose - I (1975)

 

Uma banda envolta em sombras! Um álbum produzido de forma artesanal, com um número incipiente de cópias! Assim se faz uma banda obscura! Ou melhor: aqui, neste reles e humilde blog, não se faz, mas dissemina, difunde! Bandas como a que eu tentarei contar a história, jamais ganharia, com exceção de um valoroso nicho de abnegados, as redes sociais ou os canais de comunicação e/ou a geração de conteúdos de quem quer que seja.

O rock n’ roll é desconhecido pelos seus ditos apreciadores. E nesse momento em que podemos dizer, com certo risco, que as bandas não são tão somente obscuras, mas as tornam obscuras. O mercado fonográfico tendência e é tendencioso, o modismo é a arma que segmenta, trazendo cenas e bandas, muitas vezes, manipuladas pelo marketing, por empresários, pseudo empreendedores da música, onde a música, a arte, é pincelada por melodias acessíveis, de fácil assimilação, com potencial de “venda”.

E assim simula e projeta as percepções de um mercado que, de joelhos, segue, como uma ovelha, o pastor fonográfico, que decide os nossos gostos musicais. Mas ainda há abnegados, persistentes que, em um nível de resistência, segue na contramão do status quo sonoro e trazem bandas como essa que, modéstia à parte, somente este e poucos blogs, podem trazer. Qual é a banda? MUTHA GOOSE.

O Mutha Goose foi uma raríssima e esquecida banda norte-americana, formada em Indiana que, dada a sua arrojada e pouco ortodoxa música, foi relegada ao ostracismo e, evidentemente, pouco se sabe dela e a grande web, tida como democrática, na difusão, em profusão, de tantas informações, reduz-se a poucas linhas para essa banda.

Foi uma banda que sequer atingiu sucesso em Indiana, mas, ainda assim conseguiu, de forma, como disse, artesanal e limitada, gravar apenas um álbum, em 1975, chamado de “I”, pelo selo Alpha Omega, gravadora de Indiana que atuou no mercado entre as décadas de 1960 e 1970. Claro que pouco se sabe quantas cópias foram lançadas, mas, diante de cenário de total obscuridade e ostracismo, reza a lenda que foi um lançamento privado, com cerca de 50 cópias, apenas, que provavelmente circulou apenas a amigos e pessoas próximas aos integrantes da banda.


A névoa densa da desinformação também circunda entre os seus integrantes que é sabido os seus nomes, mas pouco se sabe quais instrumentos tocavam. A pouco informação pode ser um entrave, mas, preciso admitir que, lá no íntimo do meu ser, a obscuridade, tema central deste reles blog, é um ponto deveras sedutor. A banda trazia Jeff Cefali que, pelo que pude apurar, em minhas pesquisas, era baixista, Dave Limeberry, bateria e Mark Hardy e Herb Hagenwald que desconheço quais instrumentos tocavam.

Em algumas fontes, apurei que Herb, além de ter sido bem ativo nas composições das cinco faixas do álbum, também foi responsável pela produção deste, ganhando certo protagonismo na sua concepção. Nessa mesma fonte pude observar que o “Copyright”, ou seja, que, por definição, é o direito exclusivo do autor de reproduzir sua obra, geralmente utilizado em obras literárias e científicas, traz o nome de “Mutha Goose Productions”, o que reforça a característica bem artesanal na produção desse álbum, único lançado pela banda.

A sonoridade de “I” traz riffs pesados e fuzz, seja de baixo, como principalmente de guitarra, com bordas duras, sujas e alucinantes de órgãos, incluindo ainda o uso de flautas e piano. Nele se percebe, se ouve um hard rock, com temperos psicodélicos que se entrelaçam com arestas de garage rock e floreios progressivos, com destaque para jams estendidos e vocais lisérgicos. A sonoridade do único álbum do Mutha Goose entrega uma energia crua underground de algumas bandas obscuras dos anos 1970, com a tipicidade do Meio Oeste estadunidense, de sua, claro, ala mais underground.

Aos apreciadores de música pesada e pouco estereotipada, bem como os bons “degustadores” do prog rock com teclados em profusão, irá se deleitar com o trabalho do Mutha Goose. É fato que muito se explica também pela condição desse álbum, pois mostra um resultado que não se rotula, trafegando por várias vertentes, tendo como espinha dorsal, o hard e o prog.

O álbum é inaugurado pela faixa “You Said Goodbye” que introduz em dedilhados viajantes de piano e uma flauta doce, dando um clima pastoral à música, mas vai ganhando corpo, consistência sonora, os riffs mais pesados e pegajosos de guitarra capitaneiam essa transição do acústico ao peso do hard rock. O vocal não pode ser negligenciado, pois, nessa transição é participante de destaque, do melódico ao quase rasgado, ao grito. É a típica faixa progressiva, repleta de mudanças rítmicas, tendo o órgão catártico, energético e que desemboca em um solo frenético de guitarra, com a camada de teclados igualmente poderosos. Uma música organicamente caótica e complexa.

"You Said Goodbye"

“I Think It's You” chega dançante, uma pegada mais sinfônica e cristalina aos ouvidos. O vocal é extremamente limpo e melódico. A faixa é solar, o piano traz o balanço, mas não se engane, a música prega uma peça e se mostra dinâmica, com riffs pesados de guitarra que a coloca em um patamar pesado típico do hard rock e que logo se revela mais acústica, com as flautas trazendo de volta um clima de balada rock mais acessível aos ouvidos. A “cozinha rítmica” ganha destaque no final da faixa, baixo galopante, bateria pesada, guitarra estridente. Excelente!

"I Think It's You"

“Exodus” traz a introdução voltada mais para o psych prog, algo mais experimental, baixo potente, vívido, bateria marcada, pesada, o órgão te manda para mares progressivos e psicodélicos. A lisergia encontra a sofisticação do progressivo. Mas o hard rock, personificado pelo riffs pesado e sujo de guitarra, traz o inusitado, a sopa sonora. Solos ácidos, lisérgicos, garageiros são ouvidos. O complexo em um casamento com o despretensioso.

"Exodus"

“Freak – Hitchhicker” me remete ao minimalismo do krautrock germânico, uma simplicidade carregada de peso, de um hard psicodélico repleto de lisergia e um experimentalismo que beira a jams sections totalmente desprovida de bons modos. É sujo, é garageiro, é louco e pouco ortodoxo. Riffs de guitarra e solos deixam a música ainda mais pesada e é nesse momento que o hard rock, típico, domina. A simplicidade se revela dura e pesada.

"Freak-Hitchhiker"

E fecha com “Being Her Friend” que traz uma introdução mais soturna, diria sombria, com um vocal distante, abafado. Algo dramático, em tom de dramaticidade traz uma camada estranha para essa música. Flautas, suaves notas de teclados corroboram a sua condição soturna e reflexiva. Mas eis que surge a surpresa: A guitarra traz um riff mais dançante, o baixo segue com um groove animado e a bateria, em uma batida marcada e pesada entrega uma pegada distinta a música e assim termina, de forma mais animada e solar.

"Being Her Friend"

A qualidade dessa sonoridade é definitivamente sólida, do seu começo ao fim, um som estranho, por vezes, sombrio, mas muito inventivo e que não se prende a rótulos e estereótipos, fazendo dele uma obra excelente de hard prog, com uma pegada garageira e suja. E quando trazemos à tona essas nuances a um álbum que tem o progressivo, pode parecer, aos ouvidos mais conservadores, improvável, mas sim, é possível associar, claro, de forma arrojada o rock de garagem, por exemplo, ao prog rock.

A edição original, pelo que pude apurar também, por intermédios das escassas fontes disponíveis, é até agora a única deste álbum e, por ter tido uma baixa tiragem, é muito difícil de conseguir, não tendo, como disse, reedições disponíveis, o que faz do único álbum do Mutha Goose e, consequentemente da banda, obscura, rara. Não duvido que esse trabalho, se tem disponibilidade de venda, deve ter cifras estratosféricas, o que faz dessa banda e álbum sedutores dentro de seu universo obscuro. Mas não é apenas por isso, também pela sua sonoridade arrojada e de profunda personalidade criativa.


A banda:

Jeff Cefali no baixo

Dave Limebery na bateria

Mark Hardy ?

Herb Hagenwald ?

 

Faixas:

1 - You Said Goodbye

2 - I Think It's You

3 - Exodus

4. Freak - Hitchhicker

5. Being Her Friend




"I" (1975)

 


















sábado, 8 de novembro de 2025

Tapiman - Tapiman (1972)

 

Costumo associar ou comparar algumas bandas, principalmente aquelas de vida efêmera, com uma estrela cadente, como são conhecidos, popularmente, como meteoros. São fugazes, são manifestações naturais, que, quando surgem, são fugazes e, dependendo de sua magnitude, destroem tudo o que veem pela frente.

Não há comparação melhor com as bandas obscuras e que surgem na escuridão, na obscuridade, vivem uma vida curta, desaparecem sem deixar rastros, mas, ainda assim, conseguem servir de referência para suas vertentes sonoras, mas não gozando de sucesso e popularidade.

E como estrelas fugazes podem ser apreciados por poucos, afinal tem de estar com os seus telescópios, seus olhares voltados para o lugar certo e no momento certo. E repararam quando presenciamos tais fenômenos nos sentimos privilegiados? Pois é, caros leitores, isso se aplica também às bandas que surgem, vivem e perecem obscuramente.

Por isso que costumo dizer que nasci no “tempo errado”. O tempo é relativo, porque temos a sorte de termos gravadoras undergrounds abnegadas e dispostas em trazer à tona bandas e álbuns esquecidos e jogados no fundo do baú empoeirado do rock n’ roll e que podemos ouvir e perceber, definitivamente que, os anos 1970, foram os mais prolíficos para o rock.

Então falemos de uma excepcional banda catalã, surgida, claro, em Barcelona, que abalou com as estruturas sônicas daquela proeminente cena rock trazendo um hard rock potente calcado ainda no blues rock e no que convencionaríamos, no futuro, de heavy metal. A banda? TAPIMAN.

Tapiman

As origens do Tapiman vêm do exímio baterista Josep María Vilaseca "Tapi", que era uma lenda do rock espanhol, tido, inclusive como o melhor baterista de seu tempo. Reza a lenda de quem o conheceu, de que ele era um menino e mais a frente um jovem a frente de seu tempo, que gostava de beber e se divertir. Tapi era uma maravilha com as baquetas na mão. Parecia levitar com seu instrumento, quando se apresentava.

E a sua trajetória no rock se fez com a banda Vértice e em 1969 ingressaria no Maquina!, uma referência do rock catalão na transição das décadas de 1960 para a de 1970. Com a dissolução do Maquina!, Tapi decidiu alçar novos voos e contou com o excelente guitarrista Miguel Ángel Núñez para formar o Tapiman, lá pelo ano de 1970. A origem do nome “Tapiman” vem do nome “Tapi” de Josep e a contração do nome do guitarrista Miguel (MAN). Se juntaria, logo após, à banda o baixista Pepe Fernández, que tocou também no Vértice com Tapi. Vale dizer também que “Tapi” era o nome artístico de Josep, porque ele morava rua Tapioles (Tapi / oles), na Chinatown de Barcelona.

O “power trio” estava formado. E eles de fato trouxeram algo novo, arrojado ao rock n’ roll espanhol. E com um punhado de músicas no braço os jovens músicos foram em busca de algum produtor, empresário ou gravadora para materializar seu sonho de gravar um álbum e as suas músicas, até que o selo Edigsa decidiu gravar, em 1971, o primeiro single do Tapiman, com duas músicas, "Hey, You!" e "Sugar Stone", duas grandes canções que seriam o prelúdio do que viria mais tarde com seu primeiro álbum.

E o destaque fica para “Sugar Stone” que apresenta um hard rock puro, potente, vigoroso, tido, por muitos, como uma das músicas pioneiras da música pesada na Espanha e que tinha alusões claras, em sua letra, a temas psicodélicos, fruto ainda de uma fase no rock onde a lisergia reinava ou pelo menos, lá pelos idos de 1971, terminava seu reinado.

Fica o destaque também em dizer que o Tapiman foi o primeiro “power trio” da história do rock espanhol e nitidamente mostrava influências de bandas como Black Sabbath que à época estava iniciando a sua trajetória com a sua trinca pesada de álbuns seminais e pesados, além de Jimi Hendrix e, claro, Cream, o primeiro “power trio” da história do rock. Outra novidade para o rock espanhol era o baterista como vocalista também, mesmo que Tapi tivesse certa barreira com o idioma inglês, compensava com potência e por vezes um vocal rasgado que harmonizava perfeitamente com a sonoridade do Tapiman.

Naquele mesmo ano, 1971, o Tapiman lançaria outro single, agora com as músicas “Love Country” e “Walking All Along the Life”, porém com outro guitarrista. Seria a primeira baixa da banda, saindo o grande guitarrista fundador, Miguel Ángel, devido ao serviço militar obrigatório. Tapi não demorou muito para encontrar um novo guitarrista para compor a banda e este foi outro exímio “guitar man” chamado Max Sunyer, outra lenda viva que também havia tocado no Vértice e que já era um guitarrista profissional experiente.

Vale, como registro histórico, que, pouco antes disso, Tapi, juntamente com três dos músicos do Vértice, além de ter colaborado com os singles que a banda lançou, gravaria, em 1970, um álbum de nome “Rock n’ Roll Music”, de um rock muito poderoso e com tendências muito progressivas que incluíram versões de John Mayall e Ray Charles. Este álbum foi lançado com uma tiragem muito curta. Esse projeto é um claro avanço do que viria mais tarde a ser o Tapiman.

"I Want a Boogie"

Para alguns críticos da época e fãs também esse segundo single lançado pelo Tapiman perderia a força do anterior lançado, sendo um passo em falso considerando o que viria no ano seguinte com o seu primeiro álbum, mas para outros a adição de Sunyer foi preponderante para o crescimento sonoro da banda. Independentemente de qualquer coisa, a chama estava acesa, a força do Tapiman ainda estava lá com seu DNA explosivo calcado no blues e hard rock.

O início dos anos 1970 foram confusos para a Espanha, dada a sua instabilidade social e política. Em 1971, antes do Tapiman lançar o primeiro álbum, participaria do festival permanente do Iris Hall de Barcelona. Juntamente com o Tapiman estavam bandas como Smash, Sisa, Pan, Alcaçuz entre outras.

Dado o clima de revolta que ainda enfileirava após os chamados processos de “Burgos”, a polícia se dedicou a bater, sem dó, nos apreciadores de rock n’ roll que saída do festival, pelo fato de serem “cabeludos”. O Tapiman também participaria, em Madrid, de um festival de rock progressivo que no ano anterior não pôde ser realizado por causa de uma batalha campal entre estudantes e roqueiros. Mas, apesar dessa instabilidade política e da atmosfera de violência, também foram dias de grande emoção e diversão.

E assim surgiria para o mundo, graças ao olhar do selo Edigsa, que confiou no trabalho arrojado e louco do Tapiman, o álbum homônimo, em 1972, tendo como base no que foi lançado no primeiro single, que contava ainda com Miguel Ángel à frente da guitarra na banda. Mas claro que teve a assinatura de Max Sunyer dada a sua já experiência no universo da música. A capa, marcante, com uma caveira rosa, foi concebida por Guillem Paris, membro do Pan e Licorice, bandas que compartilharam palcos e a cena no início dos anos 1970.

“Tapiman” surgiu como uma bomba do hard rock muito à frente do seu tempo, um álbum cru, sujo e forte, totalmente despretensioso. Pepe e Tapi fazem uma seção rítmica bem entrosada, com a bateria que é uma verdadeira delícia e que deixa um bom terreno para Max implantar todas as suas habilidades na guitarra. Apesar da energia do álbum, não se destacam propriamente por serem muito pesados ou muito progressivos, têm uma personalidade muito marcada e inconfundível e um trabalho importante e realizado nas partes mais psicodélicas.

Apesar de ser um álbum similar ao que estava se fazendo na Europa e nos Estados Unidos, com o viés do peso, do hard rock e até mesmo pegada progressiva e blueseira, o que tornava, também, o debut do Tapiman especial e único é a sua veia psicodélica e principalmente uma camada proto heavy que, certamente, serviria de referência para a cena metal da Espanha e da Europa nos anos 1980 e nas gerações de músicos mais à frente.

O álbum é bem recebido à época e teve boas críticas na também escassa imprensa que atuava na área musical nos longínquos anos 1970. Mas ainda assim não foi considerado como o melhor álbum de hard rock gravado na Espanha, essa parte é plenamente discutível, pois temos, de fato, bons trabalhos lançados no início dos anos 1970, mas “Tapiman” definitivamente foi o melhor de sua época! Ah já que falamos de melhores álbuns, destaco, da mesma cena espanhola de Barcelona, um trabalho magnífico, lançado anos mais tarde, em 1979, do álbum “La Bruja”, da banda Rockcelona, cuja resenha pode ser lida aqui.

Abre com a faixa “Wrong World” que já entrega, em sua introdução, um riff que deixaria bem claro o que vamos ouvir em todo o trabalho do Tapiman: um hard rock volumoso, pesado, agressivo, potente, com uma jam enérgica e viva. A sequência traz "Gosseberry Park" que me remete a uma veia mais pop, mas que não entra em conflito com a proposta do álbum. O resultado é uma música elegante, cativante e amigável para o rádio.

"Wrong World"

Segue com “Don't Ask Why” que revela um blues progressivo portentoso que traz a sensação de que você nunca sabe como vai continuar, mas não se torna excessivo, indigesto ou ainda enfadonho, porque a guitarra soa melhor, uma sonoridade mais rebuscada e o final é apoteótico. “Practice” não foge à regra e traz um festival de riffs de guitarra pesados e agressivos com uma bateria marcada e extremamente pesada. É de tirar o fôlego!

"Don't Ask Why"

“Paris” é um belo instrumental que soa melancólico acompanhado por um órgão Hammond, onde a guitarra de Sunyer se torna o destaque, que chora suavemente e que me remete, em parte, a um blues antigo. “No Chance” começa com a guitarra mais viajante e uma sonoridade mais calcada no psych, um psicodélico mais pesado, que traz à memória Cream e Hendrix.

"No Chance"

“Moonbeam” é outra faixa instrumental muito bem executada, mostrando a destreza dos músicos com seus respectivos instrumentos e traz à mente, em sua base rítmica, o rock andaluz da época. “No Control” traz de volta o peso sujo do álbum, uma guitarra arrastada, agressiva e densa, ao mesmo tempo, que me remeteu ao doom metal oitentista. Vocal rouco e rasgado também é o destaque.

"No Control (Álbum: "Hard Drive")

Eis que surge “Jenny”, a balada do álbum. Mas em vez de cair no brega previsível tem uma atmosfera sombria e, claro, psicodélica deslumbrante. Viajante! E fecha com a música mais complexa e longa do álbum, “Driving Shadow (Pepe’s Song”). Essa faixa alterna entre partes brutais de hard rock poderoso, psicodelia, um solo de bateria e os inevitáveis solos de guitarra, uma das marcas registradas desse álbum. Uma música brutal e complexa que raramente é feita nos dias de hoje.

"Jenny"

Embora, como eu disse, “Tapiman” tenha sido bem recebido pelos fãs e pela crítica e ter tido todos os predicados de seu pioneirismo, o álbum não foi bem sucedido nas vendas. Claro, porque, olhando para trás com perspectiva, pode-se perceber o quão estranho, arrojado e original foi este álbum. E como costuma acontecer, surgiriam os primeiros conflitos entre os integrantes do Tapiman.

Um dos primeiros problemas vieram com relação a seriedade com que os músicos não estavam levando no que diz respeito a condução da banda e isso, além de conflitos criativos, culminaram com a dissolução da banda no mesmo ano em que seu álbum foi lançado, em 1972. Max, por ser um músico mais experiente, vivia da música e exigia um nível de trabalho que Pepe e Tapi, aparentemente, não estavam dispostos a dar. Uma passagem, uma existência precoce e surgiu como um fenômeno da natureza.

Mas a história não terminaria em 1972. Em 2017, a abnegada gravadora Guerssen Records lançaria algumas gravações esquecidas de material restante e inacabado da primeira fase, diria da fase inaugural, do Tapiman, em 1971, resgatado pelo jornalista Alex Gómez Font, após localizar Miguel Ángel Nuñez, vocalista original da banda.

O álbum, intitulado “Hard Drive”, nos traz uma série de músicas com uma qualidade de gravação um tanto quanto precária, mas que só realçam, mais uma vez, a crueza e agressividade que fez do Tapiman a banda que foi: pesada e agressiva, trazendo a despretensiosidade ao seu DNA sonoro e que materializou em seu álbum lançado em 1972.

"Hard Drive" (1971 - 2017)

No final dos anos 1970 o Chapa Discos decidiu revitalizar o rock espanhol, materiais de bandas esquecidos pelo tempo, dos pioneiros do rock daquele país. Foram várias as bandas e, claro, o Tapiman não ficou de fora. Surgiria “Em Ruta”, em 1979. Um álbum ao vivo que foi reeditado e que trazia, além de Tapi, na bateria e vocal e Pepe Fernández no baixo e na guitarra, com mudança, teria Javier Moreno, ex Hot Panotxa.

Tapiman em 1979

“En Ruta” mostrou um Tapiman ainda vivo, mostrando seu habitual peso, seu hard rock potente e volumoso, mas faltou um pouco mais de atenção à banda por parte da equipe que o geria, bem como as intensas instabilidades que insistiram em rondar a vida da banda, muito graças a vida louca de Josep Tapi.

"En Ruta" (1979)

O primeiro álbum do Tapiman não é muito elaborado, porque é direto e cru, a síntese perfeita do que convencionamos de hard rock na sua gênese. O “power trio” espanhol sem dúvida foi um dos pioneiros do hard rock espanhol e serviu de referência para o rock espanhol, para a música pesada daquele país e ouso dizer de toda a Europa! Em 1994, Josep Tapi morreria deixando um legado de despretensiosidade do rock n’ roll e uma chama viva personificada no grande Tapiman.

“Tapiman” teve alguns relançamentos. Em 1993, no formato CD, na Espanha pelo selo PDI. Em 2003 foi lançado pela Guerssen Records e PDI, no formato LP. Em 2005 mais relançamentos na Espanha, novamente com a Guerssen e PDI: dois lançamentos no formato CD. E o mais recente, em 2012, no formato CD, pelo selo Picap, também na Espanha.





A banda:

Josep María Vilaseca "Tapi" na bateria e vocal

Max Sunyer na guitarra

Pepe Fernández no baixo

Com a minha menção honrosa ao fundador da banda, Miguel Ángel Nuñez, guitarrista.

 

Faixas:

1 - Wrong World

2 - Gosseberry Park

3 - Don't Ask Why

4 - Practice

5 - Paris

6 - No Chance

7 - Moonbeam

8 - No Control

9 - Jenny

10 - Driving Shadow (Pepe's Song)


 


"Tapiman" (1972)


























 


 










sábado, 26 de julho de 2025

Starchild - Children of the Stars (1978)

 

Quando você pensa e fala do rock canadense o que te lembra de imediato? Claro! RUSH! Com o devido merecimento, afinal, a banda não colecionou ou coleciona, até hoje, uma legião de fãs aleatoriamente, há um fundamento simples e capital para isso: a sua vanguardista sonoridade.

Mas como este simples, humilde e reles blog fala sobre bandas raras, esquecidas, vilipendiadas e obscuras, trarei o “lado oculto” do rock daquele país, corroborando que sim, o Canadá tem uma profusão de bandas sejam elas comerciais ou undergrounds.

E eu falarei de uma que me cativou e me arrebatou por seu som potente, pesado e extremamente arrojado e sofisticado. Falo da banda STARCHILD. A banda foi formada em 1975 em Cambridge, Ontário, quando Bob Sprenger, Rick Whittier e Neil Light, que tocavam em uma banda chamada “Gaslight”, decidiram reformular a sua sonoridade, algo mais pesado.

Mas não apenas as mudanças na música que aconteceram, o nome também foi modificado, passando a se chamar “Starchild”. A inspiração para este nome veio da Trilogia “Starchild”, escrita por Frederik Pohl e Jack Williamson. A maioria dos membros da banda eram fãs de ficção científica, e quando o seu produtor, Greg Hambleton, que também assinou com o SteelRiver para a sua gravadora, a Tuesday Records, queria algo mais futurista do que o nome anterior, “Thorne”. Sim, entre “Gaslight” e “Starchild” teve outro nome que durou pouco tempo, porque quando optaram por “Starchild” o desejo foi unânime.

Ainda faltava algo: um baterista! Porque depois de passar por alguns bateristas, eles decidiram contratar Greg “Fritz” Hinz que, quando assumiu de fato o posto, o Starchild caiu na estrada para uma longa turnê. Apenas para perfilar os demais integrantes e suas funções no Starchild, Rick era vocalista, um belo vocalista, diga-se de passagem, Neil era baixista e Bob era um belíssimo guitarrista.

O primeiro registro, a primeira gravação da Starchild foi uma demo de duas músicas, a “Party of the Toads” e “Tough Situation” e que foi produzida e projetada por um jovem chamado Daniel Lanois, no porão da casa de sua mãe, em Ancaster, no ano de 1976! Para título de curiosidade Lanos viria, no futuro, a produzir gigantes do rock como U2, Peter Gabriel, Brian Eno, entre tantos outros figurões do mercado da música.

O primeiro trabalho do Starchild, “Children of the Stars”, foi gravado em Toronto, no outono de 1977 e lançado oficialmente na primavera de 1978. Levou certo tempo para lançar um tão sonhado álbum, depois da quase artesanal gravação de suas fitas demo lá no ano de 1976. Após o lançamento o Starchild tornou a volta para a sua turnê, abrindo shows de grandes bandas da época, como Triumph, Goddo, Moxy entre outras.

O álbum teve um recebimento positivo e moderado em todo o Canadá, graças as aparições ao vivo da banda, afinal foram muitos shows e aberturas de shows de bandas grandes e famosas que, de certa forma, acaba gerando certa visibilidade, mas suas músicas não ganharam as paradas musicais. Claro, uma sonoridade calcada no hard rock e rock progressivo, pode não ser muito palatável para os empresários da música sempre ávidos por músicas mais radiofônicas e acessíveis. E precisamos pensar também que era virada dos anos 1970 para os anos 1980, com o punk rock um pouco mais em evidência e a new wave.

“Children of the Stars” mostra uma banda com muito potencial, embora seja um álbum sendo concebido por músicos jovens que, até então, nunca tiveram contato com um estúdio, apenas com apresentações ao vivo. Ainda assim são faixas agitadas e os esforços de complexidade sonora são relevantes e extremamente apreciáveis, mesmo com uma produção simples. E tal esforço se personificou em uma música calcada no hard rock com investidas progressivas.

E falando na banda, nada mais merecedor apresenta-los, agora mostrando também a importância de cada um na construção do seu som: tinha Bob Sprenger na guitarra, Richard Whittier, nos vocais, Gregory Hinz, na bateria, o último a entrar na banda e fechando trazia, no baixo, Neil Light. Essa foi a formação responsável por trazer à tona “Children of the Stars”.

O álbum é inaugurado com a faixa “Long Shot” e o típico riff poderoso e grudento de guitarra introduz a música, a pegada genuína do hard rock dos anos 1970, que nos remete ao Scorpions em transição da década de 1970 para os anos 1980. O vocal é elegante, limpo, de ótimo alcance já se mostrando como tendência para a cena do heavy metal que florescia no fim dos anos 1970. A “cozinha” rítmica dá o tom, o groove, tornando a música mais dançante.

"Long Shot"

“Groove Man” entra animada, com os riffs de guitarra e baixo bem ritmados, juntamente com a bateria marcada e pesada. O hard rock mais solar, o rock de “festa” se revela na faixa, certamente traz uma roupagem mais comercial. Solos de guitarra e baixos mais pulsantes na metade da faixa a deixa mais pesada e veloz, trazendo uma versão mais heavy rock. É versátil!

"Groove Man"

Em “Wizard Woman” o vocal ganha destaque, mas o instrumental não fica atrás. Aqui as mudanças de andamento são a tônica, com um viés mais voltado para o hard progressivo, com pegadas mais pesadas, graças aos riffs de guitarra elétrica e momentos mais acústicos, mas intimistas, com alguns solos mais viajantes e espaciais. Momentos de space rock também são percebidos e nos traz percepções mais contemplativas.

"Wizard Woman"

“No Time for Fools” já inicia com solos mais solares de guitarra que emendam em riffs mais pesados, baixo pulsante e bateria pesada, quase surrada! Aqui o heavy rock assume a dianteira, novidades do heavy metal são percebidas, com velocidade e muito peso. O momento mais sujo e despretensioso do álbum.

"No Time for Fools"

“Worlds in Which We Live” vem também pesada e agressiva! Baixo galopante, pesado, cheio de groove, “rivaliza” com riffs de guitarra mais pesado, vocais de grande alcance, gritados e rasgados, já tendendo, com sucesso, para o heavy metal. Não podemos negligenciar o solo de guitarra que é simplesmente de tirar o fôlego! A sequência mais pesada se revela neste momento do álbum.

"Worlds in Which We Live"

“Wooden Steaks and Mash Potatoes” começa com groove, com balanço, mas sem deixar de lado o peso que ostenta todo o álbum, representado pelos riffs indefectíveis de guitarra que logo entregam a destreza de um solo extremamente pesado e solar. O hard rock se mostra vivo e latente nessa faixa, com alguns momentos mais suaves, em que o vocal, limpo e transparente, se revela competente e orgânico.

"Wooden Steaks and Mash Potatoes"

E fecha com a faixa título, “Children of the Stars”, que segue predominantemente com o hard rock, capitaneado pelo riff de guitarra, e por uma típica velocidade que a torna pesada. Em dado momento percebe-se uma cadência no verso na música, que faz da faixa mais dançante e animada. Embora não traga traços de rock progressivo na faixa, se mostra versátil e repleta de mudanças de andamento.

"Children of the Stars"

Embora o álbum tenha recebido certa visibilidade, suas músicas não figuraram nas paradas musicais e sequer foram tocadas nas rádios, afinal, como que um álbum calcado no hard rock e progressivo, em uma época em que o punk rock, a disco music e a new wave tinham a prioridade do mercado e da indústria fonográfica? Definitivamente o Starchild estava “descolada” do seu tempo, com as suas músicas.

E para variar o contrato com a Axe Records foi encerrado porque a gravadora queria que o Starchild mudasse seu visual e sonoridade para o new wave. A banda não aceitou essa condição e decidiu seguir uma direção mais voltado para o heavy metal, sendo influenciado por bandas como Judas Priest e Iron Maiden. Definitivamente o Starchild não estava inserido no seu tempo, sonoramente falando.

O término do contrato com a gravadora não foi o único entrave que o Starchild teve. O baixista Neil Light deixaria a banda, em 1979, por motivos familiares, sendo substituído por Bill Mair e mais tarde Wayne Brown, nativo de Toronto. E ainda teve mais! Hinz, o baterista, também sairia da banda. Ele saiu para se juntar à banda Helix alguns meses depois e foi substituído por Dixie Lee.

Depois dessas mudanças tão radicais, o Starchild continuou a fazer turnês pelo Canadá e, embora a banda nunca tenha chegado à Europa, seus álbuns venderam melhor lá do que no Canadá, inclusive o single “No Control for Rock n’ Roll”, que não entrou originalmente no álbum, foi regravada por uma banda holandesa na década de 1980.

"No Control for Rock n' Roll"

No início de 1982 o Starchild entrou no Metalworks Studios, de propriedade de Gil Moore, da banda Triumph, e gravou uma demo tape de duas músicas (“Steamroller Rock” e “I Need a Woman Tonight”), mas não teve progressos para gravar um novo trabalho, um segundo álbum. Mas havia surgido uma luz no fim do túnel...

A Attic Records, com sede em Toronto, estava interessada em assinar com o Starchild, mas o cansaço da estrada, devido aos inúmeros shows que a banda estava fazendo e principalmente as divergências, cobrou seu preço e a banda se separou no verão de 1982, pouco antes de sua audição, em Toronto, para a Attic. Nos sete anos, entre a formação da banda e a sua fatídica separação, em 1982, o Starchild excursionou pelo Canadá incessantemente, constantemente.



Bob Sprenger e Neil Light formariam uma banda, de nome “Thief in the Night”, em 1985, fazendo vários shows e participando de vários festivais, mas se separaram em 1990. Sprenger gravou dois álbuns com a banda “Distant Thunder” no início dos anos 1990 e se reuniu, novamente, com o baixista Neil Light para formar a banda cover de rock “Wake the Giants”, em 2001. Com o comediante canadense Ron Pardo, na bateria e seu irmão Jason, nos vocais, bem como o novo baixista Sam Barber, que substituiria Light, em 2011, a banda fez principalmente covers, além de tocar material do álbum “Children of the Stars”, mas se separaram em 2014.

Sprenger também é guitarrista de uma vocalista e tecladista de London, Ontário, chamada Kathryn Marquis. Eles gravaram um álbum ao vivo chamado “Your Kingdo Come”, em 2011, além de um trabalho de estúdio chamado “Fire”, que inclui música por ele composta chamada “Purest Love”, sendo a sua primeira música gravada e lançada desde os dias de Starchild. O vocalista e membro fundador do Starchild, Rick Whittier, morreria em 18 de setembro de 2015, após uma longa batalha pulmonar obstrutiva crônica. Já o baterista original da banda, Greg Fritz Hinz, tmbém faleceria de câncer, em 16 de fevereiro de 2024.

Sprenger, depois de ser contatado no verão de 2023, pela gravadora grega Sonic Age/Cult Metal Classics, enviou algumas demos que o Starchild gravou no início dos anos 1980 que nunca foram lançadas para o selo. Eles as lançaram, no formato LP e CD, chamado “Steamroller”, em 2024! O álbum pode ser ouvido aqui!

"Steamroller" (2024)

O LP contém oito faixas, incluindo a demo de três músicas gravadas na Metalworks Studios”, além de cinco músicas gravadas em uma sala de ensaios alguns meses depois. O CD também contém algumas faixas bônus, incluindo um solo de bateria e baixo. De uma forma o Starchild continua, por intermédio desse álbum mais recente, vivo!


A banda:

Rick Whittier nos vocais

Bob Sprenger na guitarra

Neil Light no baixo

Greg Hinz na bateria

 

Faixas:

1 - Long Shot

2 - Groove Man

3 - Wizard Woman

4 - No Time For Fools

5 - Worlds in Which We Live

6 - Wooden Steaks and Mash Potatoes

7 - Children of the Stars