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sábado, 24 de janeiro de 2026

Grupo Um - Marcha Sobre a Cidade (1979)

 

A segunda metade dos anos 1970 a música instrumental estava passando por uma série de mudanças mercadológicas e estéticas, principalmente diante de um cenário em que o punk, a música “disco” e a new wave começava a ganhar tendência entre os jovens e que logo se revelaria em uma onda modista que ganharia o cerne das atenções.

Mas no Brasil estava começando uma abertura por intermédio de lançamentos independentes. Na Europa existia um movimento em torno da gravadora ECM Records, que lançava álbuns de jazz com uma estética própria. Nos Estados Unidos existiam várias tendências, desde o radicalismo tradicionalista até o experimentalismo eletrônico que se desdobrava em vários novos “formatos” sonoros. E nesse contexto que, apesar do sucesso comercial do punk, da “disco” e da “new wave”, que a música instrumental estava ganhando novas roupagens.

E a banda brasileira chamada GRUPO UM surgiria exatamente nessa efervescência. A banda nasceria, embrionariamente, em 1976, período em que Zé Eduardo Nazário, bateria e percussão, Lelo Nazário, pianos e teclados e Zeca Assumpção formava a banda “Cozinha Paulista”, de Hermeto Pascoal. Durante os períodos em que Hermeto se ausentava para algum trabalho fora do Brasil ou quando não tinha shows agendados, o trio se reunia na casa de Zé Nazário, na Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, para ensaiar, para tocar.

Grupo Um com Hermeto Pascoal no MAM (1976)

Em julho de 1976, ao lado de Luiz Roberto Oliveira, dos irmãos Nazário (Zé e Lelo), o Grupo Um realizou o seu primeiro show e com um sintetizador eletrônico, um ARP 2600), um dos primeiros que se tinha notícia no Brasil à época. A instrumentação contava com piano acústico e elétrico, fita pré-gravada (lançada a partir de um gravador), bateria e percussão, o que incluía, entre outras coisas, objetos diversos que eram quebrados dentro de uma enorme bacia, constatando uma incrível capacidade de improvisação, experimentalismo e minimalismo musical. No show teve até a pausa para o café!

Grupo Um

Nesse período o grupo Um gravou trilhas sonoras para filmes (longas-metragens e científicos) e até mesmo música para balé, como o “Transformations”, do coreógrafo japonês Takao Kusuno. Em 1977, quando a banda deixou efetivamente de seguir com os shows com Hermeto Pascoal, o Grupo Um fez a sua primeira sessão de estúdio, no “Vice-Versa B”, que pertencia ao maestro Rogério Duprat, já contando com a participação de Roberto Sion, no sax soprano e Carlinhos Gonçalves, na percussão.

A gravação era feita em poucas tomadas, com todos tocando juntos e em um espaço bastante limitado, simultaneamente, sem “play back”, como manda a tradição. A banda gostou muito do resultado e o próximo passo era levar o material gravado para às gravadoras. Os músicos perderam meses, recebendo sempre respostas negativas. Mas seguiram com seus ensaios e realizando algumas apresentações.

O trabalho com Egberto Gismonti, que se iniciou em 1977, obrigou o Zé Eduardo Nazário a abandonar o projeto do Grupo Um por algum tempo, muito em função das viagens, ensaios e gravações. Ao retornar da turnê “Tropical Jazz Rock”, em maio de 1979, se desligou finalmente do “Academia de Danças” e voltou a trabalhar com Lelo e Zeca no Grupo Um, organizando nova sessão de gravação no mesmo estúdio “Vice-Versa B”, pequeno e sem a estrutura adequada, afinal era tudo que o dinheiro dos músicos podia pagar.

Gismonti com Grupo Um 

Mauro Senise, saxofonista, foi convidado, Carlinhos Gonçalves, percussionista, foi mantido e dessa sessão, entre 26 e 27 de setembro de 1979, registrada quase que efetivamente “ao vivo”. Assim surgia o primeiro álbum, lançado oficialmente, naquele mesmo ano “Marcha Sobre a Cidade”, conhecido como o primeiro trabalho de música instrumental independente no Brasil que se tenha notícia, em uma tiragem de 1.000 cópias. Vale como registro histórico que o lado “A” inteiro foi gravado em uma única tomada, afinal, não tinha estrutura e dinheiro para longas e longas sessões.

Mauro, Zeca, Felix, Lelo e Zé

A estreia do novo trabalho foi no Teatro Lira Paulistana, a “meca” das bandas independentes, fazendo história no Brasil durante os anos 1980. “Marcha Sobre a Cidade” recebeu ótimas críticas, vide os recortes de jornais e revistas que foram publicadas à época e foi apresentado ao público em várias regiões brasileiras, nas suas principais capitais.

 

Grupo Um em ação no Lira Paulistana (1981)

O reconhecimento foi considerável a ponto de ganhar terras europeias e em 1983 o álbum foi lançado na França, pelo selo Syracuse, com uma capa bem diferente do original. O Grupo Um realizou uma turnê naquele país e visitando também a Suíça, tendo participado do Festival de Jazz de Grenoble e nas cidades de Toulose, Montpellier e Pari, onde gravou um show no “Studio 106”, da Raio France e se apresentou na conhecida casa de jazz “New Morning”, além de ter gravado com o cantor e compositor francês Frederic Pagés o álbum “Chansons Mètisses”, finalizando a turnê em Genebra. A banda estava no seu auge!

“Marcha Sobre a Cidade” é calcado primordialmente no jazz, no jazz fusion, com experimentações e improvisações rítmicas e melódicas incríveis, estimulantes e até mesmo intrigantes, com construções que trazem referências do rock n’ roll, a música brasileira e música africana, graças ao seu trabalho ousado na percussão. O debut do Grupo Um definitivamente é para quem aprecia um som ousado e pouco usual, que entrega um minimalismo ao extremo, que lembra o krautrock germânico, com texturas experimentais e variações e desafios sonoros.

O primeiro álbum do Grupo Um estava longe de ser maçante, por conta das inúmeras improvisações e experimentalismos. Ele dispunha de uma estimulante pulsação, porque trazia o conceito regional muito acentuado, texturas tipicamente brasileiras e africanas, um genuíno “beat” brasileiro, um legítimo e solar free jazz brasileiro.

O álbum é inaugurado com a faixa “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]” que já começa com o excelente trabalho de percussão ao estilo música brasileira, a brasilidade mesclada a jazz rock, com um trabalho, igualmente excelente, do sax, melódico e dançante. Assim é a faixa: dançante, cheia de energia, animada. Entre solos rápidos de bateria e de sax, a música vai ficando mais encorpada, um jazz fusion com a cara do Brasil, o balanço do baixo, o frenesi dos teclados. Uma música incendiária para abrir o álbum.

 “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]”

Segue com “Sangue De Negro” que traz um caráter, uma textura mais experimental, com solos de bateria, trazendo um jazz mais “root”, mas por outro lado percebe-se algo mais minimalista, que me remete a um krautrock, com pitadas psicodélicas. Porém, ao longo da música, vai ganhando mais corpo com a bateria mais pesada, um fusion novamente, mas logo retoma o experimentalismo kraut.

"Sangue de Negro"

A faixa título, “Marcha Sobre A Cidade”, se revela mais a cara do álbum, um jazz contemporâneo, com a pegada fusion, a pitada mais pesada. Por vezes contemplativa e viajante, graças a linda execução do sax. É progressiva, cheia de viradas rítmicas, é psicodélica, é lisérgica, é experimental, é viva, é latente. Se mostra complexa, versátil. Aqui a banda está em nível criativo e de improvisação únicos. Sem dúvida uma das melhores faixas do álbum.

"Marcha Sobre a Cidade" - Ao vivo (1980)

“A Porta do ”Sem Nexo” mescla o free jazz, com a sonoridade experimental bem evidente, trazendo uma versão mais kraut, experimental, com ruídos, sons mais introspectivos, diria algo soturno, sombrio. Flautas, percussão, teclados, tudo trazendo texturas minimalistas e ousadas para a sua época. Definitivamente “Marcha Sobre a Cidade” é um álbum à frente do seu tempo.

"A Porta do Sem Nexo" - Ao vivo (1980)

“54754-P(4)-D(3)-0” segue com um jazz fusion mais puro e genuíno. Aqui é a música mais nervosa, um sax mais frenético e cheio de energia e até mesmo desconcertante, poderoso. A bateria segue batendo forte também, em um “duelo” mais do salutar com o sax. As teclas não ficam atrás, cheio de energia!

“54754-P(4)-D(3)-0”

E fecha com “Dala” que linda, viajante e contemplativa, segue, reinando absoluta durante toda a música, com um piano ao fundo que, em uma textura acústica, estica o tapete vermelho para o protagonismo do sax.

"Dala"

“Marcha Sobre a Cidade”, mesmo sendo um dos primeiros ou o primeiro álbum de música instrumental concebido de forma independente no Brasil, atingiu, de forma inacreditável, um sucesso que parecia, diante desse cenário, inimaginável. Era como se tivesse passado pelo buraco de uma agulha, trazia luz a um caminho escuro e completamente tortuoso que era do jazz fusion, da música experimental e instrumental em um país, em um mundo onde reinava o punk, a “disco music” e a new wave.

Era a possibilidade de abrir um caminho, com a sua luz, sendo um farol para tantas outras bandas que quisessem seguir a trilha, uma nova estrada para lograr um objetivo maior. Este lugar, ainda não explorado, situava-se além da fronteira do permitido, que era fortemente guardada pelos “baluartes” e “arautos” do colonialismo provinciano, que só abriam as portas para os que chegassem do exterior, mesmo que tivessem saído daqui, voltando depois com o selo de “importado”, para que pudessem ser “legalizados” e aceitos no meio artístico e no show business, principalmente em se tratando de música instrumental.

Os anos 1980 entraram e foram frutíferos para o Grupo Um. Foram gratificantes porque os músicos mostraram suas caras com seus próprios nomes, sem a tutela de quem quer que fosse, sendo músico, empresário ou produtor. Eles estavam conseguindo mostrar a sua música “louca” para o máximo de pessoas possível, mesmo que trafegando na zona underground. Estavam ganhando visibilidade, tanto que Carlinhos Gonçalves recebeu um convite para tocar na Austrália, sendo sucesso por muitos anos. Zeca Assumpção optou por mudar-se para o rio de Janeiro, em vistas das boas propostas de trabalho que surgiram. Em seu lugar ficou seu melhor aluno, que acompanhava de perto as apresentações do Grupo Um, esse era Rodolfo Stroeter que permaneceu na banda até a sua dissolução, em 1984.

Outro que se juntaria ao Grupo Um era Felix Wagner, nascido na Alemanha e vivendo, desde adolescente no Brasil. Paralelamente ele integrou com Lelo e Rodolfo o “Symmetric Ensemble”, uma banda composta por dois pianos e um baixo!

Em 1981 o Symmetric Ensemble faria uma turnê importante para a Europa cabendo a Zé Eduardo Nazário continuar com o Grupo Um. Além de Mauro Senise, participaram o pianista Nelson Ayres e os baixistas Evaldo Guedes em algumas oportunidades e Paulinho Soveral em outras, mantendo a banda em atividade, fazendo alguns shows.

Quando o resto da banda retornou dessa viagem à Europa, decidiram se reunir para iniciar o trabalho do segundo álbum, com novas composições que que Lelo vinha desenvolvendo. Assim nasceria para o mundo “Reflexões sobre a Crise do Desejo”, lançado em 1981, nos estúdios JV, dos músicos Vicente Sálvia e Edgard Gianullo, em São Paulo, que tinha um bom equipamento e contava com um excelente técnico, Sérgio Kenji Okuda (Shao-Lin), jovem, mas com bastante experiência e atento às nossas necessidades para colher o melhor resultado possível. O álbum foi considerado pela revista Manchete um dos dez melhores de 1981, além de conquistar elogios em resenhas dos mais conceituados críticos de música da época, colocando a produção independente no mais destacado patamar até então atingido por qualquer músico ou banda instrumental no Brasil.

"Reflexões Sobre a Crise do Desejo" (1981)

Em 1982 iniciaria a fase mais “colorida” do trabalho da banda, a começar pela capa do terceiro álbum do Grupo Um, “A Flor de Plástico Incinerada”. Esse LP foi gravado em outubro, época que marcou o início de uma transição nas carreiras dos jovens e talentosos músicos, sendo a eles oferecido o custeio da gravação e da produção gráfica do novo disco pelo selo “Lira Instrumental”, criado por um acordo entre o Teatro Lira Paulistana em parceria com a gravadora Continental e artistas que vinham apresentando trabalhos com regularidade na programação do teatro localizado à Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, São Paulo.

"A Flor de Plástico Incinerada" (1983)

Isso se devia ao notável crescimento das bandas de música instrumental, que passaram a ser vistos como um “filão” comercialmente explorável. Nesse mesmo pacote foi oferecido a zé Eduardo Nazário também o custeio da gravação e produção gráfica de seu primeiro álbum solo, “Poema da Gota Serena”, que foi realizada no mesmo estúdio (J.V.) e no mesmo período em que foram feitas as gravações de “A Flor de Plástico Incinerada”. Além disso, foram oferecidas também as passagens para a turnê europeia do Grupo Um, onde seria lançada a versão francesa do LP “Marcha sobre a Cidade” pela gravadora parisiense “Syracuse”.

Grupo Um no aniversário de São Paulo (1983)

A banda faria uma pausa em 1984 e que se tornaria um hiato por mais de trinta anos quando decidem retornar em 2015, gravando um registro ao vivo chamado “Uma Lenda ao Vivo”, em 2016. O show, gravado no dia 20 de agosto de 2015, no Teatro Sec Pompeia, foi diante de uma plateia atenta e afetuosa e é um registro da noite memorável que marcou a volta do Grupo Um aos palcos e que assinalaria outro fato marcante: os 40 anos da fundação da banda.

Grupo Um - SESC Instrumental Brasil (Ao Vivo)

"Uma lenda Ao Vivo" (2015)

As incursões pelo free jazz; pelo primitivismo étnico; pelo abstracionismo da música impressionista; pela fragmentação da música minimalista; pelos ruídos pelas células harmônicas e melódicas da música contemporânea; bem como pelas harmonias complexas da música brasileira; além das inúmeras experiências atonais do jazz contemporâneo, projetam o Grupo Um para além do música plástica e careta e muito próximo do experimentalismo e das improvisações livres de qualquer coisa modista e sempre “escravo” da criatividade sem arestas. “Marcha Sobre a Cidade” lançado de forma independente em 1979, com segunda edição pelo selo Lira Paulistana. Lançado na França pelo selo Syracuse em 1983. Reeditado em CD pela Editio Princeps em 2002.




A banda:

Zé Eduardo Nazario na bateria e percussão

Zeca Assumpção no baixo (Piano na Faixa 6)

Lelo Nazário no piano

Carlinhos Gonçalves na percussão

Com:

Roberto Sion no sax soprano (Faixa 8 – Bônus track)

Mauro Senise na flauta, sax alto e soprano (Faixas de 1 a 7, esta última Bônus Track)

 

Faixas:

1 - [B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]   

2 - Sangue De Negro        

3 - Marcha Sobre A Cidade         

4 - A Porta Do ''Sem Nexo''          

5 - 54754-P(4)-D(3)-0        

6 – Dala

 

Bônus Tracks:         

7 - N'daê      

8.1 - Festa Dos Pássaros 

8.2 - C(2)/9-0.74-K.76



"Marcha Sobre a Cidade" (1979) - Audição aqui!






























































sábado, 8 de fevereiro de 2025

Plebb - Yes It Isn’t It (1979)

 

O rock sueco definitivamente não está no mainstream, sobretudo as bandas dos anos 1970. Atualmente algumas bandas gozam de algum sucesso, elevando, diria homenageando, as bandas antigas, como por exemplo o Ghost que hoje conseguiu a proeza de levar para grandes arenas e eventos comerciais da música, o occult rock.

Não sei, confesso, o motivo pelo qual o rock sueco não tenha se destacado, sob o aspecto comercial, ao longo dessas décadas, mas talvez seja pelo fato de trazer a cultura de seu país, a questão folclórica aliado ao prog rock, ao hard rock entre outras vertentes. E quando a cultura é arraigada seja difícil realizar uma espécie de intercâmbio.

Mas é inegável, principalmente para os apreciadores do rock underground e obscuro, como eu, que há uma profusão de bandas suecas admiráveis que até hoje precisam ser desbravadas e descobertas. Graças aos recursos tecnológicos que nos conceberam algumas ferramentas de comunicação, muitas bandas têm surgido e vem nos encantando mesmo que tenham feito músicas que tenha mais de quarenta ou até cinquenta anos de existência.

É incrível que bandas como essas, oriundas da Suécia, ainda consigam trazer algo arrojado e espetacular e são capazes de absorver as músicas britânicas e americanas e fundir com aspectos peculiares de sua cultura, fazendo de sua arte algo espetacular e com um inigualável frescor.

E a banda que falarei hoje eu descobri recentemente, nessas incursões pelo obscuro, pelo desconhecido, pela selva intocável e selvagem que é o rock n’ roll e quando a ouvi, fui arrebatado de tal forma que me estimulou a escrever essas linhas que você, estimado leitor, lê agora. Falo da banda PLEBB.

Não sei se vocês já ouviram falar do Plebb, não sei se já ouviram essa banda, mas se a conhece, felicitarei, pois trata-se de mais uma banda rara, obscura que não ganhou o mundo e limitou-se a sua terra natal, se tornando, como tantas, aquelas bandas locais que as redes sociais se encarregam, como este simples e humilde blog, de difundir. Para a nossa sorte, para a nossa alegria.

E já que falei de bandas locais, falemos um pouco dos primórdios do Plebb, bem, tentarei, afinal, como tantas outras bandas esquecidas, não possuem tantas referências sobre a suas histórias, apenas a sua potente música, mas tentaremos falar dela, valorizando-a e ajudando a edificar um legado para as outras gerações, afinal sua música é de fazer reverência aos fãs, principalmente dos fãs do bom e velho hard rock dos anos 1970.

O Plebb foi fundado em 1976, em uma época em que o hard rock estava em declínio sob o aspecto comercial, afinal, bandas gigantes como Black Sabbath, Led Zeppelin e Deep Purple, por exemplo, ou estava finalizando a sua trajetória, ou tinha integrantes se afundando nas drogas e álbuns gravados aquém do que se esperava. O punk estava seguindo para o apogeu.

Mas o Plebb foi construído, em uma cidade, no sudeste da Suécia, chamada Mönsterås, que sequer tinha tradição para o rock, apenas com algumas poucas bandas. Nos seus primeiros anos a banda consistia em Ronnie “Balder” Nilsson (bateria), Leif Bergqvist (guitarra), Per-Martin “Pemce” Petersson (guitarra) e Tommy Gustavsson (baixo). No verão de 1977 Leif Bergqvist teve que deixar a banda devido a uma doença e Peter Martinsson o substituiria na guitarra. Leif apareceria, mais tarde, na banda “Ictus”.

E como curiosidade a origem do nome da banda, “PLEBB”, vem das iniciais de seus músicos: O "P" de "Pemce", de Per-Martin Petersson, "LeB" para "Leif Bergqvist" e o último "b" para "Balder".

Com a entrada de Peter o Plebb começou a se desenvolver e a escrever as suas próprias músicas, pois, nos seus primórdios, como tantas bandas, o Plebb tocava, para se apresentar nas casas de shows, covers de seus ídolos. Mas antes de se apresentar, ensaiaram muito e os locais escolhidos eram os mais inusitados possíveis. Outra curiosidade: a música “First Day In Roxy” é em homenagem a um local, um pouco melhor em termos de estrutura, que eles escolheram, o cinema Roxy, em Mönsterås.

Em 1978 uma fita foi gravada, em circunstâncias, diria, primitivas, sem o mínimo de estrutura e recurso, sendo gravada pelos próprios músicos que eram muito jovens, alguns deles estavam na adolescência, entre 16 e 18 anos de idade, com poucas músicas e apenas 40 cópias foram produzidas, sendo distribuídas na sua cidade natal a poucos fãs que também haviam recentemente conhecido a banda.

Não é que deu certo? Conseguiram uma boa base de fãs que, ávidos por mais e mais músicas de sua banda favorita, clamavam por um álbum novo, com mais músicas e que motivasse uma turnê de divulgação, de shows, então eles precisavam retornar ao estúdio para gravar um novo álbum.

E assim na virada do ano novo de 1978 para 1979, mais especificamente em 1979, nasceria o seu primeiro e único trabalho chamado “Yes It Isn’t It” e que foi gravado nas mesmas condições que a sua fita, sem nenhuma estrutura e condições, com aparelhagens simples, sem nenhum orçamento. E detalhe: não foi um estúdio, foi algo improvisado e foram dois locais escolhidos: o sótão de um clube de motociclistas local e uma escola, em Blomstermåla.

O álbum foi produzido pelo baixista Tommy Gustavsson e apenas 485 cópias foram prensadas na própria gravadora da banda chamada de “Plebb Records” e vendidas localmente para amigos e fãs mais próximos e ardorosos. Pois é, caros amigos leitores, os tempos eram outros e não tinham redes sociais e a internet para difundir a sua música. Tiveram também algumas poucas lojas de músicas para divulgar e vender seus álbuns.

O processo de gravação, como disse, bem rudimentar, era uma tecnologia que chamada “som sobre som” (“Sound on Sound”), o que significa que o fundo foi registrado pela primeira vez e a música e os preenchimentos de guitarra foram adicionados reproduzindo o plano de fundo e gravando as novas partes juntos com o fundo na outra fita gravadora.

“Yes It Isn’t It” é predominantemente um álbum do mais puro, genuíno e volumoso hard rock, com passagens espetaculares instrumentais mostrando que, apesar da pouca idade dos músicos, já entregavam muito talento e capacidade técnica, aliada a uma sonoridade orgânica. Ouso dizer ainda que, mesmo que o Plebb não tenha alçado grandes voos, a banda apresentou em sua sonoridade, o heavy metal que florescia no mundo e que teve o epicentro na Inglaterra, com a sua “New Wave of British Heavy Metal”.

Ainda em seu álbum percebe-se uma veia blues rock, com algumas passagens mais lentas, mais leves, discretas, mostrando uma banda cheia de recursos e muito, como disse, talentosa e que certamente era muito promissora. Outro detalhe importante e que convém ressaltar foi o trabalho de guitarra na banda, um trabalho impecável de “guitarras gêmeas”, que foi difundida por bandas como Wishbone Ash no início dos anos 1970 e que foi popularizada pelo Iron Maiden.

O álbum é inaugurado pela faixa “Reaggie II B” que, por mais que o álbum seja predominantemente de hard rock, tem uma introdução de reggae, daquele jeito, bem dançante, animado, porém vai encorpando, a pegada hard vem, aos poucos, aflorando, graças a riffs e solos mais pesados de guitarra, com a bateria marcada e igualmente pesada. Os solos de guitarra vão ficando mais alongados, pesados, bateria mais pesada também, quando, definitivamente, a música se revela um típico hard rock um pouco mais cadenciado. Depois volta ao ponto inicial, com a veia mais reggae. Começa bem e arrojado!

"Reaggie II B"

“Push Box” já, logo de imediato, esmurra a porta com um riff carregado, pesado de guitarra com uma “cozinha” empenhada em manter o peso mesclado a um groove incrível. Baixo pesado e galopante, bateria marcada e pesada. Alternâncias rítmicas são perceptíveis com momentos mais tranquilos, mas que logo se entregam ao peso. Ouso dizer que há momentos mais velozes, caracterizando em uma pegada mais heavy metal, afinal, o ano de 1979 traziam os primórdios da “New Wave of British Heavy Metal”, então, para uma banda pesada como a Plebb, não seria surpreende perceber tais elementos em sua música. Excelente faixa!

"Push Box"

“Rockaria” me remete ao que o Scorpions fazia nos anos 1970 com Uli Jon Roth nas guitarras. Não se pode negligenciar o trabalho de guitarra nessa faixa, com uma destreza incrível, além do trabalho da bateria também, um misto de peso e técnica, com peso e groove. Temos momentos mais dilacerantes e leves, discretos e nessa alternância a música entrega um instrumental extremamente arrojado. Uma pegada heavy rock também é percebida.

"Rockaria"

“Tankar Om Natten” começa solar, animada, tem um viés mais comercial, diria AOR, radiofônico mesmo. Mas a potência da guitarra é o grande atrativo da faixa. Em alguns momentos percebe-se uma pegada de speed metal, com destaque, mais uma vez, para seção rítmica da banda, valorizando, ainda mais, a capacidade instrumental da banda.

"Tankar Om Natten"

“Förflutet” começa quase acústica, com delicados dedilhados de guitarra, algo um tanto quanto soturno, mas, aos poucos vai se revelando uma sonoridade viajante. Uma linda balada rock com a bateria tirando o pé do freio e um baixo tocado de forma simples, mas competente. A música vai encorpando, ficando um pouco mais pesada, mas a característica se mantém firme, intacta, como uma balada. No desfecho o solo de guitarra é lindo, a música ganha o contorno típico de hard rock que povoa o álbum.

"Forflutet"

Segue com “Psst ...” que inicia com um violão acústico, algo meio latino e assim vai seguindo, leve, discreta, quebrando a predominância do hard, blues rock do álbum, corroborando, mais uma vez, o talento instrumental de seus músicos, mas sem deixar de ser orgânicos.

"Psst..."

O álbum fecha com “Fresh Fish” e, mais uma vez o trabalho de guitarra inaugura a música, trazendo reminiscências do Scorpions dos anos 1970. Uma guitarra tocada de forma competente, passional. As passagens de blues rock dão um “tempero” especial à faixa, com um vocal falado, em alguns momentos. Hard rock, blues rock e até mesmo uma pegada meio “sulista” norte americana se percebe principalmente nos vocais.

"Fresh Fish"

Pouco tempo depois a banda mudaria de nome, passando a se chamar “Purple Haze” e, diante desse nome, não precisamos nos esforçar muito para perceber de onde veio a inspiração. O Purple Haze gravaria um álbum chamado “Det Är Så Man Undrar...”, no ano de 1981. Na formação teria Tommy Gustavsson, no baixo, Leif Bergqvist e Peter Martinsson na guitarra e na bateria teria Ulf "Mini" Svensson. O único álbum com a banda neste novo nome teria lançamento pelo selo da banda, a Plebb Records. Mas não vingou, finalizando as suas atividades logo em seguida. Depois de alguns anos a banda voltaria a se reunir.

Poucos músicos do Plebb dariam sequência as suas carreiras musicais e aquele que conseguiu ser mais produtivo e assertivo foi o guitarrista Peter Martinsson. Ele formaria, em 2011, o “Peter Martinsson Group”. Um projeto dirigido, conduzido pelo próprio Peter, claro, e pelo baterista Ulf Becker. A música da banda é predominantemente instrumental e teve seu primeiro trabalho oficial lançado em 2012 chamado “Guitar State of Mind”, lançado pelo selo norte americano Grooveyard Records e que pode ser ouvido aqui.

Em 2014 o Peter Martinsson Group lançaria seu segundo álbum, porém no formato CD, que viria a se chamar “No Grey”. Foi lançada por uma editora privada com um número de cópias bem limitada. Os álbuns da banda estão sendo relançados pelo selo Plebb Records em mídia digital com a intenção de atingir o maior número de pessoas possíveis e de uma forma mais rápida.

Em 2014 o Peter Martinsson Group lançaria seu segundo álbum, porém no formato CD, que viria a se chamar “No Grey” e depois uma série de álbuns de estúdio lançaria na segunda metade da segunda década dos anos 2000, além de algumas coletâneas. Foi lançada por uma editora privada com um número de cópias bem limitada. Os álbuns da banda estão sendo relançados pelo selo Plebb Records em mídia digital com a intenção de atingir o maior número de pessoas possíveis e de uma forma mais rápida.

"Yes It Isn't It", do Plebb seria relançado pelo famoso selo Guerssen e pela gravadora Sommor, em 2021 no formato LP. Uma oportunidade em tanto para os apreciadores e amantes do mais visceral e passional hard rock dos anos 1970. Definitivamente esse trabalho do Plebb é uma pérola do estilo no fim dos anos 1970, em um período em que a disco music e o punk rock reinavam absolutos no mercado da música. O Plebb, mesmo não tendo uma sequência em sua história, mostrou que qualidade não está intimamente ligada a sucesso comercial e mostrou um talento inacreditável em um período que o hard rock estava em baixa no mercado fonográfico.

 

A banda:

Ronnie “Balder” Nilsson na bateria

Leif Bergqvist na guitarra

Per-Martin “Pemce” Petersson na guitarra

Tommy Gustavsson no baixo

 

Faixas:

1 - Reaggie II B

2 - Push Box

3 – Rockaria

4 - Tankar Om Natten

5 – Förflutet

6 - Psst ...

7 - Fresh Fish



"Yes It Isn't It" (1979)








 



 











 





quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Flyte - Dawn Dancer (1979)

 

Breda, pequena cidade no sul da Holanda, perto da fronteira com a Bélgica, 1972. Jovens estudantes decidiram montar uma banda. Inicialmente era formada pelo baixista Rob Overdijk, o guitarrista Arnold Hoekstra, o baterista Freek Peeters, a cantora Kitty Maanders e o percussionista Hans Marynissen que também era poeta e escritor. Hans era um precoce músico! Tocava percussão desde os cinco anos de idade e participava da banda de metais conduzida pelo seu pai. E os outros membros da banda sondava Hans exatamente por conta de suas habilidades como músico, principalmente como escritor. Ele, inclusive, publicou alguns poemas e ainda escreveu uma peça para uma revista do ensino médio. Era um prodígio!

Após vários meses de ensaio a banda compôs um repertório interessante, autoral com música de Rob e letras, em inglês de Hans. Seguia com uma pegada meio country rock e isso os diferenciava da cena local cujas bandas optavam por tocar músicas de bandas famosas, cover. Eles adotaram o nome “Matrix”, sugestão de Hans e fizeram, finalmente, seu primeiro show em uma festa da escola em maio de 1973, antes de fazer uma turnê pela região com alguma repercussão.

Hans Marynissen

Em outubro de 1973, Jack van Liesdonck e seu irmão, Pim, se juntaram ao Matrix como roadies. Jack, que havia aprendido a tocar violão e recebido aulas de piano desde os 15 anos de idade, antes de começar a tocar jazz, reforçou a banda. As mudanças na formação aconteceriam pela primeira vez. E não ficou apenas com a entrada de Jack. No início de 1974 Hans Hoekstra emigrou para o Canadá, Kitty largou a música e Freek deixou a banda para se tornar baterista profissional, entrando no lugar o exímio baterista e percussionista Hans Boeye.

Hans Boeye

Complicou! Os músicos restantes procuraram substitutos e fizeram um teste com o guitarrista Ruud Wortman. O cara tinha uma reputação, por ser autodidata e ter tocado em algumas bandas locais. Claro foi recrutado ao Matrix.

Ruud Wortman

Até o nome da banda mudou! Por sugestão de Hans, novamente, a banda mudou seu nome para “Grace”. Era uma homenagem a namorada dele. Entrou também para o agora Grace o baterista Frank Berkers, outro atuante da cena local e do guitarrista e vocalista Theo van der Holst.

A banda começaria do zero, tudo de novo. Músicos novos, nome novo, tudo novo. Até mesmo a vertente musical foi modificada, talvez pela entrada de músicos mais arrojados, o country rock deu lugar para o rock progressivo, hard rock e classic rock e essas novas sonoridades permeavam nas suas novas composições, mas alternavam com algumas músicas covers, que variava de Santana, The Allman Bros., Camel, King Crimson etc. Sua primeira música autoral composta, “Brain Damage” foi composta por Ruud, Jack e Hans e, a partir daí, o Grace começou a se apresentar em Breda e Roosendaal e colocou seu novo show em prática.

Jack van Liesdonck

Em maio de 1975 descobriram que existia uma banda inglesa que se chamava Grace também e foram obrigados a mudar novamente seu nome. Eles optaram por “Flight”, mas o soletraram FLYTE para destacar em material de divulgação. Uma grafia diferente poderia gerar um impacto no seu início. E será essa banda que falarei na resenha de hoje. Duas semanas após a mudança do nome o Flyte abriria o show para uma banda conhecida da Holanda chamada Alquin em Nieuwendijk, mas, uma nova baixa: Theo van der Holst deixaria banda, logo em seguida.

Em julho de 1975 uma banda chamada “Space”, que tocava músicas dos Rolling Stones, Led Zeppelin e Bad Company, além de blues rock diversos, fez um show de despedida em Stabroek, no lado belga da fronteira.

Space

O vocalista Ludo Cools e o tecladista Leo Cornelissens, que eram do Space, foram abordados pelos caras do Flyte que fizeram um convite para Ludo e Leo entrarem na banda. Convite aceitos pelos dois! Foi fácil a negociação afinal compartilhava das mesmas predileções musicais. Ludo era um belo vocalista, tinha um vocal forte capaz de flertar entre tons graves e agudos e Leo trouxe à banda muitas composições originais. A participação deles foi determinante para a postura da banda nos palcos, no estúdio, fazendo com que a banda amadurece.

Ludo Cools

No verão de 1975 a nova formação do Flyte, com Ludo e Leo, abriu o festival ao ar livre de Essen, na Bélgica e tocou ao lado da banda holandesa Earth and Fire, um pouco mais famosa. Com um microônibus Mercedes personalizado com o novo logotipo da banda, feito por Hans, o Flyte embarcou em uma pequena turnê pelas cidades que faziam fronteira com a Holanda e a Bélgica, são elas: Antuérpia, Roosendaal, Dorst e Essen.

Durante essa série de shows, a banda apresentou suas novas músicas escritas por Leo, enriquecendo seu repertório. Eles tiveram até uma ideia de uma ópera rock chamada “Into the Mounth of the Night”. Com isso, com essa temática conceitual, seus shows costumavam durar cerca de duas horas e meia com vários efeitos de luz e fumaça. O aspecto teatral da banda também estava no ritual com Ludo se adornando com fantasias.

Flyte

As novas músicas provocaram um forte trabalho da banda com enfoque intensivo de ensaios, com novas ideias testadas, com uma estrutura razoável para boa onde se gravavam até os shows para servir como apoio para novas ideias. Músicas como “I Am Beautiful”, “Slower Than Clouds and Bigger” e o instrumental “Ceremonies” foram inteiramente concebidos a partir dessas improvisações e ideias.

O Flyte estava ganhando projeção e abriu o festival de Breda, aparecendo no mesmo projeto que Focus, Kaz Lux e The Flying Burrito Bros. Em janeiro de 1977 as revistas holandesas “Music Maker” e belga “Joepie” destacavam espaço em suas edições a artigos sobre a banda. Mais mudanças aconteceram! Gijs havia saído a essa altura e Vic Storm, um baterista voltado para o jazz, o substituiu, Rob Overdijk voltaria à banda, depois que a banda triunfou no Festival de Tilburg, aparecendo com Herman Brood e Sweet D’Buster, abrindo ainda para Alquin em Roermond. Eles adicionaram ao som da banda um mellotron e um clavinete para enfatizar um aspecto mais sinfônico a sua música.

Novas fitas demos foram gravadas na Bélgica com um amigo do Flyte, Roel Röring que ainda participando com vocais de apoio. Kees van Gool substituiu Maurice Fraeymann como operador de PA. Como Toon havia emigrado para Portugal, Arnold van Walsum se tornou o novo empresário da banda. Um novo design do logotipo da banda foi impresso em pôsteres, adesivos e camisetas. Nos shows a banda começou a ensaiar material para o seu álbum de estreia, finalmente e que provisoriamente foi intitulado “Cast of the Stars”.

Eles selecionaram suas músicas favoritas para esse momento, incluindo composições mais antigas como “Dawn Dancer” e “Woman”. Seus shows estavam se tornando cada vez mais espetacular, profissional mesmo. O público estava adorando todo o aspecto sonoro e de produção de palco.

Em outubro de 1977 o Flyte tocou alguns sets em uma escola secundária de Antuérpia, sendo transmitido, ao vivo, pela rádio belga chamada BRT. Nessa ocasião eles deram uma exibição a algumas seções da ópera projetada, integrando-as habilmente em novas músicas como “You’re Free” e “I Guess”. Eles tocariam músicas mais recentes como “The Doors Inside”, Millions of Mornings” e “How she Dances”.

Em janeiro de 1978, Hans Boeye, um renomado baterista belga, substituiu Vic Storm. Filho de um respeitado músico flamengo, ele estudou música desde cedo e teve uma bateria profissional aos 15 anos. Depois de uma curta temporada com uma banda do ensino médio, ele se juntou ao Llamb, uma banda com o violinista americano Michael Zydowsky que tocou com Flock.

Em março de 1978 demos das faixas do álbum foram gravadas nos estúdios Just-Born, em Hekelgem. Esses estúdios eram de propriedade de Luc Ardyns, empresário da lendária banda belga Isopoda. Nesse ponto, nova baixa na banda! Rob deixaria definitivamente o Flyte, sendo substituído pelo vocalista e baterista Peter Dekeersmaeker.

Peter Dekeersmaeker

Em maio de 1978 o Flyte tocou trechos de seu repertório para Fritz Valcke, dono do estúdio Kritz, em Kuurne, na Bélgica. Valcke e seu engenheiro de som, Michel Barez, foram conquistados pela qualidade da música do Flyte e decidiram produzir o primeiro álbum da banda.

Os caras entraram em estúdio em julho de 1978. Eles conseguiram gravar todos os padrões rítmicos de suas músicas ao vivo em uma tomada! Gravações adicionais foram feitas sob a direção de Michel Barez e as sessões foram distribuídas por vários meses, dependendo da disponibilidade do estúdio. Hans Marinyssen saiu em outubro, mas continuou como letrista da banda. Ludo assumiu as funções de percussão no palco e no estúdio.

A banda assinou um acordo de distribuição com uma empresa holandês chamada Oldway e publicou as músicas pela Oldmill, que era dona do pequeno selo Don Quixote. A Oldmill impôs seu produtor interno, Geoff Hardisty, à banda, mas ironicamente sua parte no processo de gravação provou ser insignificante. Eqnaunto isso, Fritz Valcke passou a ser o novo empresário do Flyte.

Novas músicas foram gravadas e mixadas durante novembro e dezembro de 1978. No dia seguinte ao Natal, Flyte tocou em um festival em Breda ao lado de Jan Akkerman, Solution e Fruit, uma banda composta por seu ex-baterista Frank Berkers e o cantor Roel Roring. Até fevereiro de 1979, a banda trabalhou na produção de seu álbum, que apresentou sua primeira composição, "Brain Damage". Peter também havia criado esboços para uma nova música intitulada "Aim at the Head".

A banda decidiu chamar seu álbum de "Dawn Dancer", mas renomeou a faixa "Dawn Dancer" para "Your Breath Enjoyer", para evitar confusão. Ludo escolheu ser creditado na capa sob o nome de sua mãe, Rousseau. Um grupo de apoio feminino, o Emily Delen Singers foi convidado por Leo para cantar em "Heavy Like a Child", enquanto Roel Röring cuidou de todo o resto dos vocais de apoio. A capa foi desenhada por um amigo de Geoff Hardisty, representando o personagem "Dawn Dancer", enquanto o logotipo da banda também foi retrabalhado de forma estilizada.

“Dawn Dancer” foi finalmente lançado em março de 1979, mas a banda ficou insatisfeita com a prensagem considerando um número insuficiente. No entanto o álbum teve muita repercussão nas rádios holandesas e as críticas à imprensa foram altamente elogiosas.

Não sou muito afeito a comparações, acho demasiado arriscado e suscita discussões, em dado momento, totalmente desnecessárias, mas ouvir o Flyte, com seu “Dawn Dancer”, me remeteu à cena Canterbury, principalmente ao Camel, mas não se enganem estimados leitores, não podemos traduzi-lo como plágio. Sempre foco na questão da inspiração, na influência, levando em consideração, principalmente, na influência que foi o Camel para o prog rock. Nota-se texturas evidentes de progressivo sinfônico e de classic rock, em alguns momentos.

O álbum é inaugurado com a faixa “Woman” já começa solar com solos vibrantes e diretos de guitarra. O vocal logo entra melódico e dramático, cantado de forma cristalina e competente. A música, com algumas mudanças rítmicas, vai de uma contemplativa balada a sons mais pesados capitaneados pela guitarra, tendo a textura excelente dos teclados. Na metade da faixa o solo de guitarra é mais proeminente e os teclados trazem notas sinfônicas. Excelente!

"Woman"

Segue com “Heavy Like a Child” que traz o vocal, igualmente melódico e dramático, praticamente à capela, mas logo entra a bateria altiva, marcada, cheia de viradas e baixo mais vívido. Surge um solo de guitarra e logo em seguida uma viagem meio psicodélica vocais em coro determina uma faixa mais austera e cheia de recursos sonoros, corroborados pelo teclado meio experimental e logo se traveste de um intenso prog sinfônico. Uma música bem versátil!

"Heavy Like a Child"

“Grace” começa suave, viajante e contemplativa, com dedilhados sutis de guitarra e teclas que trazem essa textura, mas entra a “cozinha” com sua boa sessão rítmica que encorpa a faixa, mas que logo volta ao ponto de partida. E assim alterna e entre essas mudanças rítmicas tem solos avassaladores de guitarra que é de tirar o fôlego. Não podemos negligenciar a pegada meio dançante entre essa “salada” sonora. Fantástica faixa!

"Grace"

“You’re Free, I Guess” começa mais simples e direta, diferente da complexidade das faixas anteriores, talvez uma introdução mais comercial. Teclados induz uma veia meio dançante, vocal ecoam na mente, melódico e por vezes meio soturnos é um destaque à parte. Talvez não seja a faixa mais inspiradora do álbum, mas, ainda assim, é válida a audição.

"You're Free, I Guess"

“Aim at the Head” vem intensa, pesada! Riffs de guitarra trazem tal textura, mas logo fica mais cadenciada, com, mais uma vez, uma pegada dançante. O vocal nessa faixa é desconstruído, um pouco mais rasgado e até sarcástico, em alguns momentos. Os solos de guitarra trazem de volta o peso inaugural. Mais uma vez as mudanças de andamento se tornam destaque nessa bela música.

"Aim at the Head"

“Your Breath Enjoyer” começa mais operística, ao estilo Genesis, mas é estranha, porque segue em uma vibe mais jazzística, dado momento. Fica mais pesada com riffs de guitarra e solos mais básicos, porém que são peso à faixa. Os teclados dão sustentáculo à música e as suas mudanças de ritmo.

"Your Breath Enjoyer"

“King of Clouds” começa quase angelical, suave, discreta, mas logo entra o teclado que, em um clima contemplativo, entrega uma balada, com o vocal suave e melódico corrobora esse clima de balada rock, com a adição de solos limpos de guitarra. E esse solo se estende e traz a sensação de leveza, de que a alma sai do corpo e viaja a dimensões jamais vistas e sentidas. Incrível!

"King of Clouds"

E fecha com “Brain Damage” que vem mais pesada, com riffs de guitarra mais agressivo, tendo nos teclados seu belo “rival” trazendo um pouco mais de leveza à faixa. O vocal determina essa leveza e a guitarra logo surge límpida e viajante. O embate entre leveza e peso está na “dosagem” certa, perfeita, diria.

"Brain Damage"

Infelizmente, a distribuição da Oldway foi ruim e, para piorar as coisas, a gravadora faliu depois que apenas 2.000 cópias do disco foram prensadas. O disco foi imediatamente excluído. No entanto, algumas outras centenas de cópias foram prensadas e vendidas alguns anos depois pela empresa que comprou o material (e que encontrou uma cópia de uma fita master do álbum de Flyte) da Oldway. Com “Dawn Dancer” fora do mercado, a banda conseguia poucos shows Contra as gravadoras que não tolerariam o lançamento de um segundo álbum, Ludo e Ruud deixaram a banda, desencantados.

Em abril de 1980, Flyte se estabeleceu em Kalmthout, Bélgica, e recrutou o vocalista Rudi Fabeck e o guitarrista Walter Meuris. Em maio, essa nova formação do Flyte fez seu primeiro show em Essen antes de embarcar em uma curta turnê com shows em Antuérpia, Hamme, Brugge, Eeklo, Breda e Gent.

Em agosto de 1980 a banda gravaria uma fita demo com suas novas músicas: "Shoreline Castle", "The Battle of Forever", "Killer Cure" e "Weld and Amazing", todas destinadas à inclusão em um segundo álbum. Este deveria ter sido chamado de "Cast of the Stars", assim como seu primeiro disco, mas nada aconteceu. Uma última tentativa de sucesso foi lançada em novembro de 1980, quando a banda retornou ao Kuurne Studio para gravar um single às suas próprias custas. Este apresentava "Killer Cure" e uma nova versão de "Aim at the Head". Foi distribuído por uma subsidiária da Don Quixotte chamada Assekrem, mas embora essas faixas tivessem uma pegada bem rock n’ roll, passaram despercebidos em uma época em que a new wave estava em ascensão. Cansados de tantas frustrações, o Flyte decidiu se separar após um show de despedida em Essen, em 13 de fevereiro de 1981.

Três anos depois, no entanto, em 1984, um show de reunião ocorreu em Essen. A banda tocou todo o seu primeiro álbum e o material que havia sido reservado para o segundo. Mais tarde, Hans Marynissen se tornou o percussionista de uma banda de metais chamada Vsop, que lançou um álbum. Ele também trabalha como empresário e engenheiro de som. Leo emigrou para a Inglaterra, onde trabalha para uma empresa agrícola.

Hans Boeye tocou com várias bandas e aparece no segundo álbum do Kitchen of Insanity, uma banda fortemente influenciada pelo The Doors. Atualmente, ele toca com Ben Crabbé e The Floorshow. Ruud se tornou um guitarrista de estúdio, indo para os EUA, onde tocou com uma banda chamada Sea Breeze antes de retornar à cena holandesa. Jack é um disc jockey, Peter se tornou advogado e Ludo um funcionário público.

As músicas dizem muito o que o Flyte se propôs a criar em seu “Dawn Dancer”: Um rock progressivo genuíno que trazem muitas inspirações dos períodos iniciais do prog rock lá pelos anos 1970, 1971 e 1972. Visões de música clássica, prog sinfônico, jazz rock são sustentações de sua música. Por mais que não possa soar como algo revolucionário, principalmente levando em consideração o seu período de lançamento, trazem estruturas bem edificadas de um genuíno rock progressivo e suas vertentes. Aos apreciadores do estilo, “Dawn Dancer” é uma pérola, uma excelente pedida.

O famoso selo underground “Musea” relançou, no formato CD, “Dawn Dancer” para a alegria de fãs aficionados pelo prog rock e que, de certa forma, ajudou, claro, a difundir essa pérola perdida do fim dos anos 1970. Tal relançamento completou 30 anos em 2024 e fica a espera e a expectativa de possíveis novos relançamentos para que o maior número de pessoas possíveis possa ter esse trabalho magnífico em mãos, ao que apreciam mídia física. E quem sabe também as novas músicas que comporia o segundo álbum possa vir à tona algum dia. Pérola mais do que recomendada!




A banda:

Lu Rousseau nos vocais e percussão

Ruud Wortman na guitarra acústica e elétrica, além dos vocais

Jacky Van Liesdonk no piano acústico e elétrico, clavinete e sintetizadores

Leo Cornelissens no órgão, Mellotron, String Ensemble e vocais

Peter Dekeersmaeker no baixo e vocal

Hans Boeye na bateria e percussão

Hans Marynissen na percussão

 

Com:

The Emily Delen Singers nos backing vocals na faixa 2

 

Faixas:

1 - Woman

2 - Heavy Like a Child

3 - Grace

4 - You:Re Free I Guess

5 - Aim at the Head

6 - Your Breath Enjoyer

7 - King of Clouds

8 - Brain Damage 



"Dawn Dancer" (1979)