Como falar de uma banda que
não tem um rastro de história? Pode parecer difícil quando se tem, como
essência, neste reles e humilde blog, a história como mote, como mola
propulsora. Mas temos de admitir que a matéria-prima desse site são as bandas
obscuras, raras. E quando falamos desses tipos de bandas, a tendência é de que
não tenha tanta referência, na web, para se construir um texto de cunho
histórico e informativo.
Entre fazer valer a essência e
o propósito do blog e a ausência de informação para se montar um texto, claro,
eu optarei sempre por apresentar a vocês, dedicados e estimados leitores, por
trazer para todos as bandas obscuras e esquecidas por tudo e todos, que estão à
margem, nos escombros do rock n’ roll.
E essa banda faz jus a este
blog que, de forma hercúlea e desafiadora, porém prazerosa, ao tema
“obscuridade” e “raridade”. O nome dela? TEMPEST. Talvez você tenha lembrado da
seminal banda do icônico baterista Jon Hiseman, que se notabilizou tocando bateria
no Colosseum, que se chamava “Tempest” ou ainda, aos aficionados pelo heavy
metal / speed metal que lembrou do Tempest alemão, da segunda metade dos anos
1980. Não, não é!
O TEMPEST que falarei hoje por
aqui veio de Houston, no Texas. Ah, queridos leitores, o que dizer da cena hard
rock obscura, underground, dos Estados Unidos da América? Eu sou um enamorado
por essa cena! Nem só de Aerosmith e Van Halen vive o hard rock estadunidense.
Há muito a se desbravar essa
cena, é interminável. A cada descoberta parece que as suas
possibilidades se expandem, tamanha é a quantidade de bandas que surgem diante
de nossos olhos, onde a grande maioria, não passou de um álbum e que sequer
saiu de sua cidade de origem, ou seja, bandas predominantemente regionais.
O nosso Tempest texano não
foge à regra. A banda é rara, o lançamento de seu único álbum, homônimo, de
1976, também é raro e teve pouquíssimos relançamentos o que reforça a sua
condição. E já que falei em relançamentos e lançamento de álbum, cabe aqui uma informação
importante e uma das poucas que pude identificar, com o escasso quantitativo de
informações que achei na internet sobre o Tempest.
Este álbum teve apenas duas edições ou diria um relançamento deste álbum: a original, claro, em Houston, no Texas, em 1976 e a mais conhecida, pelo menos me pareceu isso, uma da Alemanha, pelo selo Earth Records, de 1979. Por que digo que essa é a mais conhecida: Porque a segunda edição alemã, para muitos, parece ser a única. Inclusive há a confusão de que o Tempest seja uma banda alemã e que seu único trabalho tenha sido concebido, originalmente, no ano de 1979 e não em 1976 nos Estados Unidos.
Independente disso, convém
aqui trazer os músicos que compuseram o Tempest, umas das poucas informações
que há na web. São eles: Pat McClain / Scott Davis, no baixo, Nick Harris no
baixo e vocais, Fred Drake na bateria e percussão, na guitarra solo, violão
acústico e piano trazia Jeff Wells, nos vocais principais trazia Barbara
Pennington e nos teclados e sintetizadores tinha Mark Richardson. A produção,
sem sombra de dúvida, pela audição, caseira e caráter artesanal ficou a cargo
da própria banda.
E, como disse, pelas
características da produção mostra uma banda, com a permissão da “licença
poética”, sem recursos e sequer apoio para a construção desse álbum em estúdio,
fazendo tudo por conta própria. Isso pode não personificar ou potencializar a
capacidade da banda, de sua técnica, mas por outro lado traz o charme de um
trabalho despretensioso e livre de quaisquer amarras tendenciosas e modistas,
rendendo-se apenas à criatividade e ao que acreditam como a sua genuína música.
E falando no único álbum do
Tempest, nele predomina o hard rock volumoso, voluptuoso, pesado, agressivo,
com nuances e temperos de blues rock e recheados de faixas, em um total de doze
músicas, curtas, em sua maioria, corroborando a sua condição de
despretensiosidade, de peso e agressividade. Então sem mais delongas, vamos às
descrições de cada uma delas, para não perder o costume.
O álbum é inaugurado pela
faixa “Toll” que começa sombria, com ruídos estranhos, mas isso é curto, porque
entra a faixa seguinte, a “Can't Be Too Strong When You're Losing”, que se
revela totalmente distinta da anterior, que é mais uma introdução do que
qualquer coisa. A segunda é um hard rock forte, vibrante, com alguma cadência e
é regida por riffs pesados e grudentos de guitarra e uma sessão rítmica bem
dançante. Mas não se engane apenas com os riffs, há também solos, embora
curtos, é extremamente pesado.
“Nothing To Lose Blues”, como
o nome sugere e inspira, traz um blues rock com nuances evidentes de hard rock
e ganha uma característica bem interessante com o vocal feminino predominando
dessa vez, diferente da faixa anterior que revezava com um vocal masculino. É
uma faixa animada, solos de guitarras mais competentes, bem elaborados, como
pede um bom e velho blues rock.
Segue com “We Can Flow” que
começa com um dedilhado de guitarra, meio acústica, mas que logo se engrandece,
ganha corpo, com uma pegada pesada de bateria, de baixo pulsante e riffs
agressivos de guitarra. Mas logo fica lenta e o vocal de Barbara ganha destaque
quase cantado à capela. Mostra um vocal melódico e de grande alcance. A bateria
ganha destaque também, é pesada. É um hard rock com toques de balada, uma
balada poderosa regida pelo vocal competente, riffs de guitarra que apimentam e
a bateria sempre pesada e agressiva.
“Mama” começa como um som de
“festa”, com riffs dançantes, a bateria segue a mesma linha, te faz balançar.
Me remete a um som mais comercial, mais acessível e aqui, mais uma vez, o vocal
de Barbara ganha destaque, mas a faixa não me parece ser a mais inspirada,
ainda assim salva para animar. “The Lady” começa com aquele típico riff de
guitarra de hard rock dos anos 1970: pesado, com um groove agressivo, arrastado,
até chega a ser meio sujo. A bateria, mais uma vez, vem pesada e agressiva, bem
marcada. A guitarra tem um solo rápido, simples, mas que cumpre seu papel de
peso e agressividade, potencializando a sua condição de hard rock genuíno. Para
os amigos leitores que apreciam peso, um proto metal essa é a faixa. Uma das
melhores de todo o álbum!
“This Shouldn't Happen To Me” começa
diferente: ao piano, meio sedutora, dançante e que me fez lembrar da banda
norte americana de occult rock Coven. Riffs ocasionais de guitarra,
sintetizadores trazem uma textura misteriosa à música, solos de guitarra ao
estilo psych, algo um tanto quanto lisérgico. “We Will Always Have Our Fears” também
começa diferente, um tanto quanto soturna e sombria. Os vocais de Barbara
ganham outra nuance e me traz à memória, o que definitivamente me agrada, um
típico occult rock com pitadas generosas de psicodelia. Mas aqui há de volta o
revezamento entre os vocais femininos e masculinos. Não é uma música pesada,
não é tão hard rock, mas igualmente uma faixa sedutora. Não há como se deixar
dançar e envolver por ela.
“What You Got” continua na
sequência de faixas mais dançantes e aqui o baixo ganha destaque, pulsante,
cheio de balanço, de groove, me remete até mesmo a um dance music, que estava
começando a ficar em voga na segunda metade dos anos 1970 e o vocal de Barbara corrobora
essa condição sonora. A bateria também cheia de groove e balanço faz da sessão
rítmica o grande destaque dessa faixa.
“Working Band Blues” traz uma
balada que me transportou diretamente para o “flower power” da segunda metade
dos anos 1960. Um clima de “paz e amor” tomou conta dessa faixa. É uma música
simples, psicodélica, mas traz um solo bonito de guitarra que te faz bailar ao
seu som. “Feel Fine” devolve ao álbum o seu lado hard rock! Riffs inaugurais de
peso, mas que não deixou de lado essa sequência mais dançante e psicodélica.
Mas aqui tem a lisergia, o peso e o balanço que me fez lembrar, ao som da
bateria, um pouco do rockabilly dos anos 1950. Uma faixa bem interessante!
E fecha com “Long Way From
Home” que permanece com os pés fincados no hard rock. Ela começa com o peso
habitual da bateria, bate pesadamente, com os riffs grudentos e igualmente
pesados da guitarra e o revezamento bem interessante e competente entre os
vocais femininos e masculinos. Solos de tirar o fôlego de guitarra entregam de
bandeja aos ouvintes o peso e a personificação do mais puro e genuíno hard
rock. Aqui o peso domina e fecha magistralmente o álbum.
Nada se sabe do paradeiro dos
músicos que fizeram parte do Tempest. Da mesma forma que surgiram,
desapareceram, como uma força da natureza que chega e devasta, mas logo de
dissipa e desaparece. Assim foi o Tempest. Uma sonoridade, comprovada pelo seu
único trabalho, muito arrojada e complexa, mas por outro lado orgânica,
mostrando a verdade da banda em todas as suas nuances e detalhes. Pouco se sabe
sobre eles, pouco se falou sobre eles, mas graças ao advento da disseminação da
informação e das grandes redes sociais que permeiam a nossa vida, abnegados
divulgaram esse trabalho obscuro e que também escrevem sobre ela, como esse
humilde e simples blog. O fato é que, ao ouvir esse álbum, ele se revela solar
e multifacetado. Pérola altamente recomendada.
A banda:
Pat McClain e Scott Davis no
baixo
Nick Harris no baixo e vocal
Fred Drake na bateria
Barbara Pennington no vocal
principal e percussão
Mark Richardson no piano e
sintetizador
Faixas:
1 - Toll
2 - Can't Be Too Strong When
You're Losing
3 - Nothing To Lose Blues
4 - We Can Flow
5 - Mama
6 - The Lady
7 - This Shouldn't Happen To
Me
8 - We Will Always Have Our
Fears
9 - What You Got
10 - Working Band Blues
11 - Feel Fine
12 - Long Way From Home











