sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Medusa - Calling You (1977)

 

Nessa minha saga desbravando os “escombros” empoeirados do rock n’ roll, por intermédio deste reles e humilde blog que você, caríssimo leitor, tem lido e que eu eternamente agradecerei pela audiência e credibilidade, tenho feito algumas loucas, estranhas e doces descobertas.

Porque a minha atual realidade, ou melhor, a minha realidade há anos nas minhas audições é exatamente trazer algo mais arrojado e pouco usual para a minha vida “sonora”. Não é tão somente a complexidade sonora que me cativa mais, mas a loucura despretensiosa e nitidamente suja. Sabe aquelas produções “artesanais” repletas de defeitos? É isso!

E mesmo diante disso tudo, ainda consigo ouvir e apresentar, em meu blog, as sonoridades de que sempre apreciei e “degustei”, como prog rock, hard rock, psych, stoner rock, entre tantos outros. É possível “harmonizar” todas essas vertentes ao que estou desbravando? Sim, caros leitores! E consegue com um prog rock, por exemplo, tido como uma sonoridade tão sofisticada? Sim, porém com nuances mais, digamos, underground, garageira mesmo.

E hoje eu gostaria de apresentar a todos os amigos leitores algo totalmente inusitado, louco e pouco, pouquíssimo normal para a realidade pasteurizada e previsível do rock, logo raro, muito rara, afinal, como que uma sonoridade como essa pode ser encarada como algo potencialmente “consumível” para um público ortodoxo do rock, de um mercado conservador. Falo da banda alemã MEDUSA.

Essa obscura banda germânica eu descobri recentemente e que, como disse, me trouxe uma doce loucura calcada na liberdade criativa e totalmente desprendida de uma projeção mercadológica. E é mais uma “Medusa”, diante de tantas outras que surgiram na mesma condição que esta banda: obscura e que, diante desse cenário, pereceram todas precocemente. Por aqui neste blog há algumas “Medusas”, como a norte americana e mexicana que valem a pena conferir.

E como tantas outras bandas raras e obscuras, o Medusa alemão percorreu um caminho no ostracismo, na escuridão e com uma caminhada efêmera e um fim esquecido e triste, mas são essas histórias fracassadas, comercialmente falando, que entregam os melhores e mais pitorescos episódios.

E como tal poucas são as informações disponíveis sobre as suas origens e sua história, mas tentarei arduamente trazer o máximo que posso sobre o Medusa. A banda, formada na segunda metade dos anos 1970, surgiu em Nordrhein-Westfalen; Parte dos músicos vieram de Wuppertal e de outras cidades mais próximas, como Velbert.

E falando nos músicos a sua formação original trazia Peter Bolling, no baixo, Detlev Orthey, na bateria e percussão, Nobert Labgensiepen, na guitarra, Ingo Klich nos teclados e Volker Kappelmann nos vocais e guitarra.

Em janeiro de 1977 o Medusa lançaria o seu primeiro e único trabalho chamado “Calling You” em uma prensagem privada e extremamente limitada, pelo selo Schnecke Records.

“Calling You” traz uma miscelânea sonora extremamente incomum e arrojada, com influências, pasmem, de punk rock e krautrock e rock progressivo, além de elementos claros de hard rock com discretas pitadas de blues rock. Um tecido psicodélico cobre toda essa sopa sonora com guitarras lisérgicas e batidas beat e pesadas.

Talvez estejam, bons e estimados leitores, se perguntando como pode ser provável ter o rock progressivo e punk rock juntos em um mesmo álbum? Bem não negarei a loucura disso, mas não nego também que é no mínimo atraente ter ouvido “Calling You”!

Claro, o ano de lançamento, 1977, era o período emergente do punk e, como toda banda alemã que se preze, tem de ter um “tempero” prog rock e krautrock e esses caras tiveram a audácia de fundir essas vertentes sonoras e fazer desse álbum estranho, louco e incomum. O prog rock não traz aquela complexidade e sofisticação, mas o que importa? É muito bom ter descoberto e feito a audição dessa sopa bem nutrida de sons arrojados e sem nenhum tipo de carimbo ou rótulo.

Então já que trouxe um pouco do que significa o álbum do Medusa, “Calling You”, vamos trazer um pouco do que cada música oferece? Vamos a elas! E começa com a faixa “Go Kids Go” que já começa com a louca mistura entre punk ou até diria um pré-punk, proto punk com um psych, bem veloz e sujo. O peso se entrelaça com o órgão, com a gaita, com a guitarra eletrificada e vocal meio gritado. O que dizer da gaita no meio do peso, do frenesi da música, dando uma cadência...?

"Go Kids Go"

Mas tudo muda um pouco, ou diria muito, com a faixa seguinte: “The Change”. A música mais longa do álbum, que conta com pouco mais de onze minutos de duração, traz um rock psicodélico, com discretas passagens de krautrock e que mostra algo mais bem elaborado, musicalmente falando, com uma introdução, embora breve, bem linda de guitarra com um solo bem viajante, mas que logo fica pesado com uma bateria marcada e agressiva com um órgão enérgico. Mas logo fica tudo mais introspectivo, trazendo também as variâncias rítmicas do rock progressivo. Há um toque épico nessa música e faz dela o destaque do álbum. É lírico, é vibrante, é viajante.

"The Change"

A sequência traz a faixa “Hey Rock 'n Roll”, já traz, até o fim do álbum, em um total de três músicas, uma pegada mais voltada para o hard rock e blues rock, além do inusitado punk rock também. E nessa música começa com o órgão dando uma camada mais sombria que logo fica mais sinfônico e depois surgem os riffs de guitarra e a bateria pesada e marcada e tudo se funde em uma psicodelia lisérgica e pesada, um hard psych cheio de voluptuosidade. E quando surge o vocal, este traz uma pegada mais proto punk. É espetacular essa faixa, porque mostra arrojo e a vocação dessa banda contra o estereótipo!

"Hey Rock and Roll"

“Medusa´s Calling You” começa com dedilhados de guitarra que me remete a uma balada de heavy metal, algo sombrio, soturno, mas, no decorrer da música, vai ganhando corpo e assumindo seu “lado hard rock”, com a bateria mais agressiva, o órgão mais energético, o baixo mais pulsante...Aqui o hard rock é mais heavy e punk, mas também progressivo, é também repleto de variâncias rítmicas, mostrando um Medusa mais encorpado, mais contundente, musicalmente falando. Mesmo com um álbum despretensioso e por vezes inocente em sua sonoridade, revelou-se complexo e arrojado. As teclas, de uma energia cativante, vão mostrando seu lado mais kraut, com alguma introspecção. O que dizer dessa faixa? Louca e vibrante!

"Medusa's Calling You"

E fecha com “QQ 10” que traz a introdução, cheia de ruídos, ao estilo hawkwind, meio psicodélico, meio space rock, que logo se mistura ao peso lisérgico, com bateria marcada e pesada, com riffs de guitarra mais sujos e viscerais e um baixo mais rasgados e potentes. Mas o peso dá lugar também a viagem progressiva do teclado mais pastoral e contemplativo, mas logo retorna ao peso que alia hard, punk e lisergia. Loucura sonora!

"QQ 10"

O Medusa, ainda em 1977, mais precisamente falando na segunda metade daquele ano lançaria um single, em maio, no Horst Burghardt – Tonstudio - Engelsmann & Burghardt em Castrop-Rauxel, com as faixas “Ocean Dream” e “Freedom”, pelo selo Life Records, da Alemanha, mas muito difícil de achar para audição.


E com essa nova gravação a banda traria também uma nova formação, trazendo a vocalista Njoschi Weber, o baterista Gerd Elsner, o guitarrista base e vocalista Peter Eckert, o baixista Pi Klein e o único membro da formação original Volker Kappelmann. A intenção era trazer novos tempos para o Medusa e gravar um novo álbum, mas não conseguiram seguir e pereceram de forma precoce.

Não se sabe se tiveram relançamentos, pouco consegui apurar a respeito dessa obscura banda, mas é informação de que a prensagem original de 1977 é disputado a tapas pelos colecionadores de vinis raros e que reza a lenda de que alguns foram colocados à venda na bagatela dos 600 euros, pasmem! O fato é que a sua sonoridade é arrojada, inusitada e louca, um doce e original loucura que é digna de audição.




A banda:

Peter Bölling no baixo

Detlev Orthey na bateria e percussão e sinos tubulares

Norbert Langensiepen na guitarra

Ingo Klich nos teclados

Volker Kappelmann na guitarra solo, vocais e gaita

 

Faixas:

1 - Go Kids Go

2 - The Change

3 - Hey Rock 'n Roll

4 – Medusa’ s Calling You

5 - QQ 10 



"Calling You" (1977)














 











sábado, 24 de janeiro de 2026

Grupo Um - Marcha Sobre a Cidade (1979)

 

A segunda metade dos anos 1970 a música instrumental estava passando por uma série de mudanças mercadológicas e estéticas, principalmente diante de um cenário em que o punk, a música “disco” e a new wave começava a ganhar tendência entre os jovens e que logo se revelaria em uma onda modista que ganharia o cerne das atenções.

Mas no Brasil estava começando uma abertura por intermédio de lançamentos independentes. Na Europa existia um movimento em torno da gravadora ECM Records, que lançava álbuns de jazz com uma estética própria. Nos Estados Unidos existiam várias tendências, desde o radicalismo tradicionalista até o experimentalismo eletrônico que se desdobrava em vários novos “formatos” sonoros. E nesse contexto que, apesar do sucesso comercial do punk, da “disco” e da “new wave”, que a música instrumental estava ganhando novas roupagens.

E a banda brasileira chamada GRUPO UM surgiria exatamente nessa efervescência. A banda nasceria, embrionariamente, em 1976, período em que Zé Eduardo Nazário, bateria e percussão, Lelo Nazário, pianos e teclados e Zeca Assumpção formava a banda “Cozinha Paulista”, de Hermeto Pascoal. Durante os períodos em que Hermeto se ausentava para algum trabalho fora do Brasil ou quando não tinha shows agendados, o trio se reunia na casa de Zé Nazário, na Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, para ensaiar, para tocar.

Grupo Um com Hermeto Pascoal no MAM (1976)

Em julho de 1976, ao lado de Luiz Roberto Oliveira, dos irmãos Nazário (Zé e Lelo), o Grupo Um realizou o seu primeiro show e com um sintetizador eletrônico, um ARP 2600), um dos primeiros que se tinha notícia no Brasil à época. A instrumentação contava com piano acústico e elétrico, fita pré-gravada (lançada a partir de um gravador), bateria e percussão, o que incluía, entre outras coisas, objetos diversos que eram quebrados dentro de uma enorme bacia, constatando uma incrível capacidade de improvisação, experimentalismo e minimalismo musical. No show teve até a pausa para o café!

Grupo Um

Nesse período o grupo Um gravou trilhas sonoras para filmes (longas-metragens e científicos) e até mesmo música para balé, como o “Transformations”, do coreógrafo japonês Takao Kusuno. Em 1977, quando a banda deixou efetivamente de seguir com os shows com Hermeto Pascoal, o Grupo Um fez a sua primeira sessão de estúdio, no “Vice-Versa B”, que pertencia ao maestro Rogério Duprat, já contando com a participação de Roberto Sion, no sax soprano e Carlinhos Gonçalves, na percussão.

A gravação era feita em poucas tomadas, com todos tocando juntos e em um espaço bastante limitado, simultaneamente, sem “play back”, como manda a tradição. A banda gostou muito do resultado e o próximo passo era levar o material gravado para às gravadoras. Os músicos perderam meses, recebendo sempre respostas negativas. Mas seguiram com seus ensaios e realizando algumas apresentações.

O trabalho com Egberto Gismonti, que se iniciou em 1977, obrigou o Zé Eduardo Nazário a abandonar o projeto do Grupo Um por algum tempo, muito em função das viagens, ensaios e gravações. Ao retornar da turnê “Tropical Jazz Rock”, em maio de 1979, se desligou finalmente do “Academia de Danças” e voltou a trabalhar com Lelo e Zeca no Grupo Um, organizando nova sessão de gravação no mesmo estúdio “Vice-Versa B”, pequeno e sem a estrutura adequada, afinal era tudo que o dinheiro dos músicos podia pagar.

Gismonti com Grupo Um 

Mauro Senise, saxofonista, foi convidado, Carlinhos Gonçalves, percussionista, foi mantido e dessa sessão, entre 26 e 27 de setembro de 1979, registrada quase que efetivamente “ao vivo”. Assim surgia o primeiro álbum, lançado oficialmente, naquele mesmo ano “Marcha Sobre a Cidade”, conhecido como o primeiro trabalho de música instrumental independente no Brasil que se tenha notícia, em uma tiragem de 1.000 cópias. Vale como registro histórico que o lado “A” inteiro foi gravado em uma única tomada, afinal, não tinha estrutura e dinheiro para longas e longas sessões.

Mauro, Zeca, Felix, Lelo e Zé

A estreia do novo trabalho foi no Teatro Lira Paulistana, a “meca” das bandas independentes, fazendo história no Brasil durante os anos 1980. “Marcha Sobre a Cidade” recebeu ótimas críticas, vide os recortes de jornais e revistas que foram publicadas à época e foi apresentado ao público em várias regiões brasileiras, nas suas principais capitais.

 

Grupo Um em ação no Lira Paulistana (1981)

O reconhecimento foi considerável a ponto de ganhar terras europeias e em 1983 o álbum foi lançado na França, pelo selo Syracuse, com uma capa bem diferente do original. O Grupo Um realizou uma turnê naquele país e visitando também a Suíça, tendo participado do Festival de Jazz de Grenoble e nas cidades de Toulose, Montpellier e Pari, onde gravou um show no “Studio 106”, da Raio France e se apresentou na conhecida casa de jazz “New Morning”, além de ter gravado com o cantor e compositor francês Frederic Pagés o álbum “Chansons Mètisses”, finalizando a turnê em Genebra. A banda estava no seu auge!

“Marcha Sobre a Cidade” é calcado primordialmente no jazz, no jazz fusion, com experimentações e improvisações rítmicas e melódicas incríveis, estimulantes e até mesmo intrigantes, com construções que trazem referências do rock n’ roll, a música brasileira e música africana, graças ao seu trabalho ousado na percussão. O debut do Grupo Um definitivamente é para quem aprecia um som ousado e pouco usual, que entrega um minimalismo ao extremo, que lembra o krautrock germânico, com texturas experimentais e variações e desafios sonoros.

O primeiro álbum do Grupo Um estava longe de ser maçante, por conta das inúmeras improvisações e experimentalismos. Ele dispunha de uma estimulante pulsação, porque trazia o conceito regional muito acentuado, texturas tipicamente brasileiras e africanas, um genuíno “beat” brasileiro, um legítimo e solar free jazz brasileiro.

O álbum é inaugurado com a faixa “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]” que já começa com o excelente trabalho de percussão ao estilo música brasileira, a brasilidade mesclada a jazz rock, com um trabalho, igualmente excelente, do sax, melódico e dançante. Assim é a faixa: dançante, cheia de energia, animada. Entre solos rápidos de bateria e de sax, a música vai ficando mais encorpada, um jazz fusion com a cara do Brasil, o balanço do baixo, o frenesi dos teclados. Uma música incendiária para abrir o álbum.

 “[B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]”

Segue com “Sangue De Negro” que traz um caráter, uma textura mais experimental, com solos de bateria, trazendo um jazz mais “root”, mas por outro lado percebe-se algo mais minimalista, que me remete a um krautrock, com pitadas psicodélicas. Porém, ao longo da música, vai ganhando mais corpo com a bateria mais pesada, um fusion novamente, mas logo retoma o experimentalismo kraut.

"Sangue de Negro"

A faixa título, “Marcha Sobre A Cidade”, se revela mais a cara do álbum, um jazz contemporâneo, com a pegada fusion, a pitada mais pesada. Por vezes contemplativa e viajante, graças a linda execução do sax. É progressiva, cheia de viradas rítmicas, é psicodélica, é lisérgica, é experimental, é viva, é latente. Se mostra complexa, versátil. Aqui a banda está em nível criativo e de improvisação únicos. Sem dúvida uma das melhores faixas do álbum.

"Marcha Sobre a Cidade" - Ao vivo (1980)

“A Porta do ”Sem Nexo” mescla o free jazz, com a sonoridade experimental bem evidente, trazendo uma versão mais kraut, experimental, com ruídos, sons mais introspectivos, diria algo soturno, sombrio. Flautas, percussão, teclados, tudo trazendo texturas minimalistas e ousadas para a sua época. Definitivamente “Marcha Sobre a Cidade” é um álbum à frente do seu tempo.

"A Porta do Sem Nexo" - Ao vivo (1980)

“54754-P(4)-D(3)-0” segue com um jazz fusion mais puro e genuíno. Aqui é a música mais nervosa, um sax mais frenético e cheio de energia e até mesmo desconcertante, poderoso. A bateria segue batendo forte também, em um “duelo” mais do salutar com o sax. As teclas não ficam atrás, cheio de energia!

“54754-P(4)-D(3)-0”

E fecha com “Dala” que linda, viajante e contemplativa, segue, reinando absoluta durante toda a música, com um piano ao fundo que, em uma textura acústica, estica o tapete vermelho para o protagonismo do sax.

"Dala"

“Marcha Sobre a Cidade”, mesmo sendo um dos primeiros ou o primeiro álbum de música instrumental concebido de forma independente no Brasil, atingiu, de forma inacreditável, um sucesso que parecia, diante desse cenário, inimaginável. Era como se tivesse passado pelo buraco de uma agulha, trazia luz a um caminho escuro e completamente tortuoso que era do jazz fusion, da música experimental e instrumental em um país, em um mundo onde reinava o punk, a “disco music” e a new wave.

Era a possibilidade de abrir um caminho, com a sua luz, sendo um farol para tantas outras bandas que quisessem seguir a trilha, uma nova estrada para lograr um objetivo maior. Este lugar, ainda não explorado, situava-se além da fronteira do permitido, que era fortemente guardada pelos “baluartes” e “arautos” do colonialismo provinciano, que só abriam as portas para os que chegassem do exterior, mesmo que tivessem saído daqui, voltando depois com o selo de “importado”, para que pudessem ser “legalizados” e aceitos no meio artístico e no show business, principalmente em se tratando de música instrumental.

Os anos 1980 entraram e foram frutíferos para o Grupo Um. Foram gratificantes porque os músicos mostraram suas caras com seus próprios nomes, sem a tutela de quem quer que fosse, sendo músico, empresário ou produtor. Eles estavam conseguindo mostrar a sua música “louca” para o máximo de pessoas possível, mesmo que trafegando na zona underground. Estavam ganhando visibilidade, tanto que Carlinhos Gonçalves recebeu um convite para tocar na Austrália, sendo sucesso por muitos anos. Zeca Assumpção optou por mudar-se para o rio de Janeiro, em vistas das boas propostas de trabalho que surgiram. Em seu lugar ficou seu melhor aluno, que acompanhava de perto as apresentações do Grupo Um, esse era Rodolfo Stroeter que permaneceu na banda até a sua dissolução, em 1984.

Outro que se juntaria ao Grupo Um era Felix Wagner, nascido na Alemanha e vivendo, desde adolescente no Brasil. Paralelamente ele integrou com Lelo e Rodolfo o “Symmetric Ensemble”, uma banda composta por dois pianos e um baixo!

Em 1981 o Symmetric Ensemble faria uma turnê importante para a Europa cabendo a Zé Eduardo Nazário continuar com o Grupo Um. Além de Mauro Senise, participaram o pianista Nelson Ayres e os baixistas Evaldo Guedes em algumas oportunidades e Paulinho Soveral em outras, mantendo a banda em atividade, fazendo alguns shows.

Quando o resto da banda retornou dessa viagem à Europa, decidiram se reunir para iniciar o trabalho do segundo álbum, com novas composições que que Lelo vinha desenvolvendo. Assim nasceria para o mundo “Reflexões sobre a Crise do Desejo”, lançado em 1981, nos estúdios JV, dos músicos Vicente Sálvia e Edgard Gianullo, em São Paulo, que tinha um bom equipamento e contava com um excelente técnico, Sérgio Kenji Okuda (Shao-Lin), jovem, mas com bastante experiência e atento às nossas necessidades para colher o melhor resultado possível. O álbum foi considerado pela revista Manchete um dos dez melhores de 1981, além de conquistar elogios em resenhas dos mais conceituados críticos de música da época, colocando a produção independente no mais destacado patamar até então atingido por qualquer músico ou banda instrumental no Brasil.

"Reflexões Sobre a Crise do Desejo" (1981)

Em 1982 iniciaria a fase mais “colorida” do trabalho da banda, a começar pela capa do terceiro álbum do Grupo Um, “A Flor de Plástico Incinerada”. Esse LP foi gravado em outubro, época que marcou o início de uma transição nas carreiras dos jovens e talentosos músicos, sendo a eles oferecido o custeio da gravação e da produção gráfica do novo disco pelo selo “Lira Instrumental”, criado por um acordo entre o Teatro Lira Paulistana em parceria com a gravadora Continental e artistas que vinham apresentando trabalhos com regularidade na programação do teatro localizado à Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, São Paulo.

"A Flor de Plástico Incinerada" (1983)

Isso se devia ao notável crescimento das bandas de música instrumental, que passaram a ser vistos como um “filão” comercialmente explorável. Nesse mesmo pacote foi oferecido a zé Eduardo Nazário também o custeio da gravação e produção gráfica de seu primeiro álbum solo, “Poema da Gota Serena”, que foi realizada no mesmo estúdio (J.V.) e no mesmo período em que foram feitas as gravações de “A Flor de Plástico Incinerada”. Além disso, foram oferecidas também as passagens para a turnê europeia do Grupo Um, onde seria lançada a versão francesa do LP “Marcha sobre a Cidade” pela gravadora parisiense “Syracuse”.

Grupo Um no aniversário de São Paulo (1983)

A banda faria uma pausa em 1984 e que se tornaria um hiato por mais de trinta anos quando decidem retornar em 2015, gravando um registro ao vivo chamado “Uma Lenda ao Vivo”, em 2016. O show, gravado no dia 20 de agosto de 2015, no Teatro Sec Pompeia, foi diante de uma plateia atenta e afetuosa e é um registro da noite memorável que marcou a volta do Grupo Um aos palcos e que assinalaria outro fato marcante: os 40 anos da fundação da banda.

Grupo Um - SESC Instrumental Brasil (Ao Vivo)

"Uma lenda Ao Vivo" (2015)

As incursões pelo free jazz; pelo primitivismo étnico; pelo abstracionismo da música impressionista; pela fragmentação da música minimalista; pelos ruídos pelas células harmônicas e melódicas da música contemporânea; bem como pelas harmonias complexas da música brasileira; além das inúmeras experiências atonais do jazz contemporâneo, projetam o Grupo Um para além do música plástica e careta e muito próximo do experimentalismo e das improvisações livres de qualquer coisa modista e sempre “escravo” da criatividade sem arestas. “Marcha Sobre a Cidade” lançado de forma independente em 1979, com segunda edição pelo selo Lira Paulistana. Lançado na França pelo selo Syracuse em 1983. Reeditado em CD pela Editio Princeps em 2002.




A banda:

Zé Eduardo Nazario na bateria e percussão

Zeca Assumpção no baixo (Piano na Faixa 6)

Lelo Nazário no piano

Carlinhos Gonçalves na percussão

Com:

Roberto Sion no sax soprano (Faixa 8 – Bônus track)

Mauro Senise na flauta, sax alto e soprano (Faixas de 1 a 7, esta última Bônus Track)

 

Faixas:

1 - [B(2)10-0.75-K.78]-P(2)-[O(4)/8-0.75-K77]   

2 - Sangue De Negro        

3 - Marcha Sobre A Cidade         

4 - A Porta Do ''Sem Nexo''          

5 - 54754-P(4)-D(3)-0        

6 – Dala

 

Bônus Tracks:         

7 - N'daê      

8.1 - Festa Dos Pássaros 

8.2 - C(2)/9-0.74-K.76



"Marcha Sobre a Cidade" (1979) - Audição aqui!






























































sábado, 17 de janeiro de 2026

Charge - Charge (1973)

 

Alguns tesouros demoram a se revelar. As pérolas ficam escondidas sempre disponíveis para garimpo e este reles e humilde blog está aqui para fazer esse árduo, porém prazeroso trabalho, de descobrir as pepitas de ouro do rock n’ roll. E a Inglaterra, como um dos gigantes produtores de rock e, mais especificamente da música pesada, traz bandas em profusão, das mais famosas e, claro, as obscuras.

E de lá surgiu um power trio extremamente raro e underground chamado CHARGE que gravou uma demo, com apenas, pasmem, 99 cópias no início de 1973, porém não culminou em fama, fortuna e todo tipo de excesso típico das estrelas de rock. O álbum foi ignorado por várias gravadoras para quem as cópias foram enviadas. Reza a lenda que teve, não 99 cópias, mas apenas uma cópia! Isso mesmo que você, meu bom amigo leitor, leu! O que reforça, ainda mais, o conceito de raridade desta banda e seu único rebento sonoro.

Mas antes de entrar nos pormenores do álbum e suas faixas, convém falar um pouco da história da banda, que também não traz tanta informação por razões óbvias. O Charge evoluiu a partir do “Baby Bertha, uma banda de hard rock psicodélico, formada pelos idos de 1971 por membros de outra banda da Costa Sul chamada “Relative” que surgiu para o mundo em 1969 fundada por Dave Ellis. Em 1972 o Baby Bertha era formado pelo vocalista e guitarrista Dave Ellis, o guitarrista Roger “Proff” Perry, o baixista Ian McLaughlin e o baterista Des Law.

O Relative, como um nome inspirado em “Family” (que havia sido disfarçado de Relative no notório romance groupie de Jenny Fabian, foi concebido quando Ellis retornou do exterior, onde havia servido para o exército britânico, sendo membro ativo do mesmo e isso explica e muito a sonoridade, tanto do Relative quanto do Baby Bertha e futuramente do Charge, com faixas conceituais sobre guerras entre outros eventos e comportamentos ligados ao belicismo. Eram tempos de guerra e de agitação social muito grande.

A banda foi produto do “boom” do blues rock britânico, mesclado a uma lisergia pesada e ácida, trazendo o embrião do que viria a se convencionar de hard rock, mas também com pitadas do também embrionário rock progressivo com suas temáticas conceituais, sobretudo. As mudanças de formação, tanto no Relative quanto no Baby Bertha, foram constantes tendo na figura de Ellis, a criatividade sonora dessas bandas. Isso mudou quando chegou Ian MaLaughlin, onde os dois criaram relação pessoal e musical muito azeitada e perdurando uma amizade até os dias de hoje.

Creio firmemente, nobres leitores, que o Baby Bertha é o pai do Charge não apenas pelo fato de trazer grande parte dos seus músicos, mas também pelo aspecto sonoro da coisa. As músicas gravadas, lá no SRT Studios, sediada em Luton, para o único álbum da primeira banda, flerta e muito com os anseios da cena blues rock da Inglaterra, tão vívida e latente por bandas do naipe do Cream e Jimi Hendrix. Da versão dura e pesada de “Looking for Somebody”, do Fleetwood Mac, acompanhada por uma versão mais solar de “Blueberry Hill”, do Fats Domino, percebe-se, nas faixas compostas por Ellis, uma orientação do Baby Bertha para o blues pesado, corroborando a mesma condição para o Charge.

Baby Bertha - "Just the Beginning" (1972)

E agora o álbum! “Charge” é um álbum de hard rock com pitadas generosas de blues rock e garage prog muito bem executados, com reminiscências de psych rock com guitarras lisérgicas e um tempero experimental. A banda, com seu único álbum, não se rotula e revela uma versatilidade mostrando-se aberta às sonoridades que estavam em voga na primeira metade dos anos 1970.

É uma sonoridade tipicamente underground, porque não assume estereótipos, é cru, é latente, um som vivo é singular, seja em seus feitos ou em suas deficiências de produção e tudo mais. É um álbum artesanalmente concebido, sem arestas, é como ele é: autêntico!

O álbum é inaugurado com a faixa “Glory Boy From Whipsnade”, abreviada, em algumas reedições não autorizadas, que traz uma encapsulação perfeita do som da banda: um turbilhão de hard rock com riffs pesados de guitarra, ao estilo Hendrix, com aquela pitada generosa de blues rock ácido. Aqui é lisergia pura! Mas ainda é perceptível algo sombrio nessa música que a torna arrastada e por vezes introspectivas. Os solos de guitarra não ficam atrás, corroborando a psicodelia ainda viva e latente, mesmo que tenha sido concebida em 1973.

"Glory Boy From Wipsnade"

E falando em sombrio, espere até ouvir a próxima faixa: “To My Friends”. Um vocal grave, soturno e melancólico introduz a faixa com certa austeridade e dramaticidade. Um dedilhado de guitarra, que continua lisérgica, mas dá sustentação a esse tom sombrio e ameaçador, que, por vezes, me remete a algo contemplativo. O destaque fica também para baixo que, embora discreto, traz algo denso e a tão perceptível atmosfera sombria, com a bateria cadenciada. Aqui a “cozinha” se faz presente e com talento.

"To my Friends"

"Rock My Soul" começa com um balanço, uma pegada soul graças a guitarra, mas com uma marca ao estilo “beat”, algo dançante que gradativamente vem assumindo um tom mais pesado, com a guitarra assumindo uma levada mais psicodélica, os riffs lisérgicos vão ficando mais estridentes e pesados. Aqui a seção rítmica é mais pesada, o baixo é espetacularmente galopante remetendo ao heavy metal dos anos 1980. A bateria é pesada, marcada, intensa.

"Rock my Soul"

E fecha com a impressionante e incrível “Child of Nations” que traz um vocal mais rouco, mais dramático de Ellis, com um dedilhado ao fundo de guitarra contemplativo e que nos entrega solos curtos e viajantes. Aqui é o rock progressivo que se mostra relevante! A música vai ganhando, gradativamente, corpo, o vocal, antes abafado, vai ganhando alcance, os solos de guitarra, entre a lisergia e o contemplativo, mostra o salutar duelo entre o prog rock e o rock psicodélico. E como todo bom prog rock tem as mudanças rítmicas e se mostra, em uma segunda etapa (a música é fragmentada em subfaixas como: “Soldiers”, “Battles” e “Child Of Nations”) mais pesada e experimental, lembrando, inclusive um krautrock alemão: pesado e cheio de ruídos. Depois irrompe em um típico hard rock. Uma faixa que agrada a todos os gostos, extremamente complexa e versátil.

"Child of Nations"

As 99 cópias que foram feitas do álbum foram distribuídas entre os familiares dos músicos da banda, amigos próximos e as cópias que restaram foram entregues às gravadoras que, lamentavelmente, não demonstraram interesse em distribuir e consequentemente divulgar o som do Charge mundo afora. É o preço que se paga por fazer música arrojada e que não se “encaixa” a nenhuma tendência de mercado.

A tentativa vã de um contrato de gravação, segundo a banda, pode ter sido também por conta da forma breve de seu álbum, com cerca apenas de trinta minutos de duração e também por terem sido fabricados sem nenhuma capa externa, aquele formato extremamente artesanal onde a banda não tinha nenhum recurso financeiro. Foi pensado, para enriquecer o LP regravar algumas músicas do Baby Bertha, a banda que encarnou no Charge, mas, no fim das contas, os caras não optaram por isso.

Mas apesar das dificuldades de se conseguir um contrato com gravadoras o Charge construiu, com algum êxito, uma boa reputação com as suas apresentações ao vivo e abocanhou uns bons fãs com shows bombásticos na Costa Sul nos dois ou três anos em que continuaram ativos, até serem atingidos por uma tragédia.

Em meados de 1975, o baterista Pete Gibbons, ainda com apenas 25 anos de idade à época, sofrei um terrível ataque fatal de asma, morrendo precocemente. Dave e Ian, seus amigos de banda, arrasados, sequer poderiam considerar continuar a banda sem ele e, diante da morte de Pete e da frustração de não ter conseguido um contrato de gravação para divulgar a sua grande música, decidiram pôr fim a trajetória, também de forma precoce, do Charge.

Apesar do álbum demo que gravaram na juventude, lá em 1973, já estar à venda em vinil e CD, com as reedições, os membros sobreviventes do Charge, Ian MacLaughlin e Dave Ellis, permaneceram, pasmem, completamente alheios a tudo isso. Até que, um dia, no ano de 2010, Ian decidiu, por impulso, visitar uma dessas feiras de discos pela primeira vez.

E folheando distraidamente os estandes de vinil, ele ficou surpreso ao encontrar um álbum de uma banda que compartilhava o mesmo nome de sua antiga banda. Aquilo o deixou no mínimo intrigado, não é para menos. Ele ficou ainda mais surpreso ao virar a capa e descobrir, pelos títulos das músicas, que na realidade era o álbum que ele, Dave e Pete haviam gravado lá no estúdio em Luton quase quarenta anos atrás. E mesmo isso não se comparou à surpresa que tece quando, ao contar ao dono da banca que era membro da banda que o gravou, descobrindo que custaria £15 para comprar uma prensagem pirata do próprio álbum! Uma loucura!

Mas parece que tudo acontece por um motivo, dizem que é destino, algo está escrito para acontecer, não sei dizer sobre essas questões sobrenaturais, mas o fato é que, creio eu, que essa história precisou ser contada ou melhor ter acontecido para que, mais de quarenta anos depois do lançamento do álbum único do Charge, em 1973, ter sido relançado agora de forma oficial e como bônus foi incluída as músicas que compuseram na época do Baby Bertha. Um genuíno presente para os alucinados pela música obscura e esquecida nos porões empoeirados do bom e famigerado rock n’ roll.


Dave e Ian seguiram suas trajetórias na música em várias outras bandas, mas deixaram a história do Charge por aí que, do extremo anonimato de sua curta carreira, no início dos anos 1970, ganhou luz quando Ian descobriu que estavam comercializando seus álbuns de forma não autorizada. Que bom que aconteceu, não importa a forma, para que todos nós pudéssemos ter acesso a essa pérola bruta devidamente lapidada para deleitar nossos ouvidos e corações de uma música real, criativa e atemporal. Afinal, música tão boa realmente merece alcançar o maior número possível de pessoas.


A banda:

Dave Ellis na guitarra e vocal

Ian MacLaughin no baixo e vocal

Pete Gibbons na bateria

 

Faixas:

1 - Glory Boy From Whipsnade

2 - To My Friends

3 - Rock My Soul

4 - Child of Nations

           a. Soldiers

           b. Battles

           c. Child Of Nations



"Charge" (1973)