sexta-feira, 14 de agosto de 2026

The Blues Right Off - Our Blues Bag (1970)

 

Nas transições das décadas de 1960 e 1970 o blues rock estava em alta em alguns grandes centros do rock n’ roll, como os Estados Unidos e a Inglaterra, por exemplo. Bandas como Cream e Led Zeppelin estavam entre as maiores e mais famosas bandas do planeta e traziam, em seu DNA sonoro, o blues mesclado ao hard rock.

Porém em alguns países não estava nas intenções das bandas essa vertente do rock e podemos colocar no rol a Itália que, sobretudo na primeira metade da década de 1970, respirava o rock progressivo. Não se pode pontuar que o blues era inexistente, é bem verdade, mas era difundido entre jovens músicos iniciantes que queriam manter certa proximidade com o público.

A tal proximidade era em virtude das apresentações das bandas que, ao término de seus repertórios, para cativar o público, faziam os famosos bises, emendando algum blues rock ou aquele blues mais antigo, primitivo mesmo.

Em 1970, o blues era a herança de poucos na Itália: apresentado principalmente em pequenos locais, limitado a um público muito pequeno e geralmente para os estrangeiros que visitavam a Itália. Era a “música para estrangeiros” do que um “produto” que poderia ser importado para a Itália.

Mas não significava que não existissem bandas e ouvintes de blues rock na Itália, claro, que em um número extremamente reduzido e uma das primeiras bandas italianas de blues rock, veio de Veneza e se chamava THE BLUES RIGHT OFF, surgida no final dos anos 1960. É difícil pontuar se esta banda foi a pioneira, mas certamente foi uma das primeiras a praticar o blues rock na Itália, seguramente.

O fundador da banda era o guitarrista Claes Cornelius que, claro, era um estrangeiro, um dinamarquês chegado à Itália na metade dos anos 1960 e que logo foi muito bem inserido na cena beat daqueles anos. Participou também da formação o que seria o futuro engenheiro de som do único álbum do The Blues Right Off, Ermanno Velludo, que também juntos criariam os estúdios de gravação “Suono”. Os demais músicos eram: Giancarlo Salvador, no baixo, Fuffi Panciera, na bateria e Paolo Zanella na flauta e guitarra, além de Velludo como engenheiro de som.

Claes Cornelius

O único álbum da banda, de nome “Our Blues Bag”, foi lançado, de forma quase que “artesanal”, em 1970.  Foi editado, privadamente, em 500 cópias e guardado em uma bolsa, com o nome da banda e do álbum, e também continha uma litografia do artista veneziano Vittorio Basaglia. A cópia original é numerada à mão, indicando um total de 500 cópias e assinada pelo artista, portanto nem todos os álbuns lançados continham tais informações. Nem mesmo a bolsa de alça provavelmente estava presente em todas cópias vendidas ou distribuídas.


Essa forma, um tanto quanto inusitada, de ter uma bolsa de alça guardando o vinil da banda, deve ser destacado por ser uma embalagem inovadora e particular, além, claro, muito raro e, embora não seja uma obra progressiva, antecipou as loucuras promocionais do prog rock nos próximos anos.

Apesar do baixo número de cópias prensadas de “Our Bag Blues”, existem três variantes diferentes da capa não gatefold: junto com a versão padrão com abertura do lado direito, há cópias que tem o disco inserido pelo lado esquerdo e outras cuja capa é feita por uma única folha dobrada ao meio e não colada. Isso se confirma o quão “artesanal” esse trabalho foi concebido. E ainda para corroborar tal condição, este único trabalho do The Blues Right Off foi gravado em cerca de dois dias e muitas das faixas em “primeiras tomadas”. É essencialmente um álbum ao vivo, gravado no ateliê de um pintor e não em um estúdio de gravação profissional!

“Our Bag Blues” é, no geral, um trabalho semiprofissional, sendo gravado para o pequeno selo Paplirnaplano em um Tandberg de 2 faixas e mixado com Binsons de dois tubos. A gravação, embora comprimida nas frequências médias, é agradável e não diminui, nem um pouco o bom nível técnico da banda.

E falando no álbum, o mesmo contém sete músicas originais escritas pela banda, todas cantadas em inglês e na melhor tradição do blues elétrico, do blues rock, baseadas em solos de guitarra, na veia hard rock e uma voz bastante aguda e potente.

O álbum é inaugurado pela faixa “One Mint Julie” que é extremamente sedutora, graças ao vocal quase cantado ao pé do ouvido, com a intenção do flerte sonoro. Uma cadência bluesy envolvente, guitarra com riffs lisérgicos e uma bateria bem marcada ditando o ritmo do blues rock.

"One Mint Julie

“Rushing Wish” começa com uma levada espetacular no jazz rock e uma flauta doce e o vocal que também protagoniza. Aqui eu arriscaria dizer que traz uma versão jazz prog com pitadas sutis do blues, cerne sonoro do álbum. Ousado, animado, solar e dançante e, por vezes, mais pesado, graças aos riffs de guitarra.

"Rushing Wish"

“Black Angel” traz de volta o blues rock! O baixo é pulsante, a bateria segue marcando o groove. Um balanço com caráter de balada blues e o “choro” da guitarra endossa o blues tendendo para algo mais pesado, mas contido. E assim segue, uma balada blues, com mudanças de andamento para o hard com guitarras limpas e lisérgicas.

"Black Angel"

“Love’s Gonna Show Up Someday” já começa avassaladora, arrebatadora para os apreciadores do bom e velho blues rock com um pé no primitivo do blues. Um solo de guitarra limpo, eloquente, espetacular e vocal, agudo, traz o contraste bem interessante e pouco ortodoxo. A sessão rítmica entrega a textura bluesy e faz da faixa uma das mais enraizadas no blues.

"Love's Gonna Show Up Someday"

“Leaving My Hometown” segue a mesma proposta e traz a nítida impressão de que é, ou pelo menos poderia ser, uma continuação da música anterior. O baixo pulsa, a bateria, marcada, bate forte, a guitarra impulsiona o blues rock com uma pegada, embora cadenciada, do hard rock. E não tem como não bailar nessa faixa!

"Leaving my Hometown"

“Born On The Highway” retorna à pegada meio jazzística. A sedução e a qualidade com que essa música foi concebida é espetacular! Vocal límpido, quase doce aos ouvidos, a guitarra entrega solos mais diretos, porém competentes, a bateria insinua idas ao jazz e blues, simultaneamente. Mas quando a música se encaminha para o final o solo de guitarra é envolvente e de tirar o fôlego. E finalmente fecha com “Miss D” que introduz meio enigmática, com distantes sons de flauta e, em curto espaço de tempo, finaliza em poucos segundos de duração.

"Born on the Highway

“Our Bag Blues”, um álbum autoproduzido, graças aos pedidos de um pequeno, mas sólido público que a banda conquistou tocando ao vivo vendeu suas cópias nas ruas de Veneza e em shows e o rótulo que ostenta de “raríssimo” é mais do que apropriado, já que sequer não foi distribuído em lojas. Hoje se tornou cult e pode ser encontrado valendo cifras estratosféricas.

Logo que esse álbum foi concebido, a banda se dissolveu! Cornelius continuou como músico de estúdio, vivendo nos Estados Unidos, por um ano e depois, de volta a Veneza contribuindo para o álbum da banda “Venetian Power”, chamado “The Arid Land”. Depois, ele se estabeleceu na Dinamarca em 1974 e permanece na indústria musicam desde então, tanto como produtor quanto como músico.

Existem algumas lendas urbanas que giram em torno do The Blues Right Off e que merecem aqui destaque. Foi, por um fã, que inclusive escreve em um blog especializado em rock progressivo italiano, de nome “John’s Classic Rock” que aqui coloco a informação na íntegra, de que fora encontrado um vinil do The Blues Right Off que teria sido adulterado.

Este teria sido riscado, ocultando algumas informações, e inseridas, de forma tosca, escrito a caneta, o nome “Blues Society” com o ano de 1972. Todas as referências do The Blues Right Off foram excluídas, como o nome da banda, o de Cornelius, que escreveu todas as músicas do álbum e de Ermanno Veludo, que era o engenheiro de som.

Ainda segundo o editor deste blog que adquiriu esse vinil adulterado o baixista do The Blues Right Off, Giancarlo Salvador, havia entrado para a banda “Blues Society”, de Guido Toffoletti, um “bluesman” já ativo na cena veneziana desde os tempos do beat.

Este traz a possibilidade, nada, evidente, confirmação, apenas uma especulação, de que Salvador poderia ter usado a cópia ou as cópias do raro “Our Bag Blues” como demos pela Blues Society, em 1972. Se isso de fato se confirmar um dia, poderia explicar o motivo pelo qual todas as referências a “Our Blues Bag” terem sido deletadas, porque todos os créditos relacionados ao álbum e à banda foram desaparecidos. Quanto exemplares teriam sido adulterados dessa forma?          

O fato é que o Blues Right Off deixou, mesmo que usado indevidamente, um legado para o rock italiano dos anos 1970, navegando contra a maré que inundava aquele país do rock progressivo que estava ganhando certa notoriedade quando este “Our Bag Blues” foi concebido em 1970. O blues rock, em evidência nos principais polos do rck n’ roll, também tinha um obscuro, mas significativo representante na Itália.

O álbum foi relançado, pela primeira vez, em 2009, no formato CD, pela AMS, sendo, muito provavelmente a primeira chance de muitas pessoas em ouvi-lo e de colecionadores ter em seu acervo. Essa reedição, feita com a ajuda de Claes Cornelius e Ermanno Velludo, vem em uma edição numerada à mão de 500 cópias, guardada em uma capa de mini-LP e inclui um livreto com notas em italiano e inglês. Em 2012, a primeira reedição em vinil já feita para este álbum foi lançada na Inglaterra, produzida pelo selo português Pavilion Records, também em 500 cópias com capa gatefold.


A banda:

Claes Cornelius no vocal e guitarra

Giancarlo Salvador no baixo

Fuffi Panciera na bateria

Paolo Zanella na flauta e guitarra

 

Faixas:

1 - One Mint Julie

2 - Rushing Wish

3 - Black Angel

4 - Love's Gonna Show Up Someday

5 - Leaving My Hometown

6 - Born On The Highway

7 - Miss D




"Our Blues Bag" (1970)





 






















sábado, 6 de junho de 2026

P₂O₅ - Vivat Progressio - Pereat Mundus (1978)

 

Muito se fala em bandas “cult”, atribuindo tal termo, principalmente às bandas que tiveram um impacto significativo na história de seu gênero, de seu estilo, de sua sonoridade, de sua cena. Geralmente decretam bandas cult aquelas mais famosas, que atingiram uma faraônica credibilidade no rock n’ roll.

Não quero, prezados e estimados leitores, com isso demonizar tais bandas que trafegam no mainstream, pois merecem sua condição de cultuadas, a sua importância para catapultar tais cenas e tudo mais, porém gostaria de trazer à tona a importância também de algumas bandas que foram ou se colocaram em uma condição de marginalização da cena e discutir se podem ou não serem consideradas “cult”.

O que acham, nobres leitores? É possível atribuir-lhes tal título, mesmo que que tenham sido relegadas ao ostracismo? É difícil ou inconsistente coloca-las, por exemplo, em uma condição de pioneirismo dentro de seu estilo? O que realmente isso, efetivamente, importa para tais bandas?

Talvez seja um assunto deveras desnecessário, mas tendo em vista a razão de ser deste reles e humilde blog que visa, majoritariamente, difundir as bandas raras e obscuras, uma faísca desse assunto pode ganhar uma explosão de linhas, evidenciando um surto passional deste que vos fala ou melhor, escreve.

Em alguns textos meus, caso vocês, leitores, acompanhem, sempre venho com esse assunto e geralmente, dada, provavelmente as suas variáveis tão complexas, não consigo chegar a uma conclusão, mas tento efetivá-las trazendo o que sempre faço neste blog: histórias de bandas e seus álbuns. Creio que as suas histórias dizem mais do que mil argumentos e hipóteses acerca do tema espinhoso da representatividade dessas bandas no universo das cenas rock.

Então para não perder o costume vou trazer mais um aporte, ou pelo menos tentar, às minhas difusões da importância de trazer essas bandas a um patamar de importância para as cenas rock: E quando digo que vou tentar é porque, mais uma vez e, por razões óbvias, essa banda que falarei hoje, não goza de tantas informações para encorpar tais hipóteses e fundamentações. Que se dane, ao falar dela, já será um ponto preponderante para disseminar a sua história. Falo do P2O5.

Essa banda, de curioso e inusitado nome, alemã foi fundada em 1970, em Wendelstein, perto de Nuremberg e trazia, na sua base sonora, o que muitas bandas traziam naquela época, principalmente de transição entre as décadas de 1960 e 1970: rock progressivo, hard rock e também um belo e poderoso rock n’ roll. E muitos desses estilos, convém ressaltar, ainda eram embrionários, ainda estavam crescendo, ganhando contornos, o que pode se atribuir em importância, sobretudo na Alemanha, para o P2O5, apesar de ter uma profusão de bandas, naquele país, que tocavam tais vertentes. Era o tempo do auge do krautrock germânico.

Os membros da banda, que a fundou e traziam Wolfgang Burkhard nos teclados, Rainer Häuser na guitarra, Helmut Hiebel, no baixo e vocais e Edwin Lotter, na bateria, foram colegas de escola lá por Wendelstein e Nuremberg e foi nos bancos escolares que a inspiração, para o nome da banda, surgiu: “P2O5”, mais precisamente nas aulas de Química.

P2O5

Para aqueles que fugiram das aulas de Química no passado, “P2O5” é a nomenclatura do pentaóxido de difsforo ou óxido de fósforo ou ainda como se dizia, em tempos mais remotos, anidrido fosfórico, que vem a ser um componente fundamental na fotossíntese vegetal. Rezava a lenda, a boca miúda, de que tal fórmula era para explosivo, o que não confere. Acalmem-se, estimados leitores, não darei aula de Química, até porque, se o fizesse, seria um completo desastre. Vamos à música que já está de bom tamanho!

E por falar em explosivos, o que se pode afirmar era que seus shows eram explosivos e chamativos, apelando para algo cênico, teatral, caraterizados por apresentações pirotécnicas, além de figurinos e rostos pintados, tochas acesas, cruz de mármore entre outros apetrechos. E contar que começaram a ensaiar em vestiários, quartos, porão e alguns pontos dentro das escolas onde estudavam.

Os primeiros shows foram realizados em 1971, a maioria, localmente, em Wendelstein e, claro, também em Nuremberg. E, graças as suas performances, a fama da banda cresceu, a ponto de tocarem, naquele mesmo ano, em um concerto para a UNICEF. E com isso ofertas de shows maiores vieram em Tischenreuth, Amberg, Schweinfurt, Aschaffenburg e repetidas vezes em Wendelstein. Um dos destaques foi participar de uma competição, entre bandas, ao vivo do SWR (Südwestfunk) uma conhecida rádio alemã, em Baden-Baden, onde a banda conquistou um incrível segundo lugar.

O nível de popularidade, claro, cresceu, a banda ganhou evidência e em 1978 o primeiro álbum do P2O5 ganhou vida, pelo selo Brutkasten, o “Vivat Progressio - Pereat Mundus”. O álbum foi gravado em novembro, com uma tiragem muito pequena, pasmem, de 300 cópias! Mesmo com a banda em evidência, com relativo sucesso, ainda não teve o apoio necessário na produção e disseminação e divulgação de seu álbum.

Convém, antes de falar do álbum e suas faixas, de forma dissecada, como de costume, que a banda, entre a sua formação e lançamento de seu álbum, entre 1970 e 1978, teve algumas mudanças de formações, a começar por Rainer Häuse, guitarrista, em 1972, voltando, paraum curto período, em 1975, sendo substituído por Konny Hempel que participou da gravação do álbum.

Entrou também, para a banda, o vocalista Werner Weiss, em 1977. Então o line up que participou da gravação de “Vivat Progressio - Pereat Mundus”, de 1978, foi: Helmut Hiebel, no baixo e vocal, Eddy Lotter, na bateria, Konny Hempel na guitarra, Wolfgang Burkhard, nos teclados e no vocais principais Werner Weiss.

“Vivat Progressio - Pereat Mundus” nos entrega de bandeja faixas puras de heavy psych com aquela tipicidade crua alemã, com o típico hard rock e viagens progressivas realizadas com muita qualidade sonora. Ouso dizer que suas faixas, suas músicas, podem adentrar, com relativa facilidade, em qualquer álbum de banda de heavy metal dos anos 1980 que a torna, sem dúvida, uma referência em um estilo que, lá pelo fim da década de 1970, estava ganhando relevância com a sua “New Wave of British Heavy Metal” lá na Inglaterra. E ouso dizer ainda, graças a também fama do punk rock, que o P2O5 também absorveu um pouco da simplicidade e crueza do estilo. Ou seja, um banquete sonoro para todos os gostos!

O que há de melhor neste álbum fica para a parte instrumental, mas o destaque centraliza-se no impecável trabalho de guitarra de Hempel com seus riffs pesados mesclados aos trabalhos progressivos mais viajantes que remete ao Pink Floyd e o trabalho do tecladista Burkhard que realmente é digno de aplausos. Um sopro sonoro que vai do sombrio ao solar em um estalar de dedos, mostrando o quão complexo e orgânico o P2O5 foi com este álbum.

O álbum é inaugurado com a faixa “Comin' Over Again” que, logo de início, com seus grudentos riffs de guitarra sugerem uma pega punk rock, mas as veias do hard rock estão lá, com vocais meio roucos e ásperos, bateria pesada em uma batida frenética, um baixo pulsante e enérgico, mostrando uma “cozinha rítmica” poderosa e solar. Traz uma sútil, mas interessante camada de teclados, trazendo lembranças de um progressivo mesclado ao hard rock. O solo de guitarra é tirar o fôlego e, nesse momento, o teclado não deixa de ser tão sútil, mostrando uma atmosfera sombria. A faixa é espetacular e fecha em uma velocidade nos remetendo a um heavy rock volumoso!

"Comin' Over Again"

“Morning of the Ants” foge, em sua introdução, da volúpia sonora da faixa inaugural, trazendo certa calmaria, uma balada que começa ao dedilhar de guitarra, mas que, ao longo do tempo, vai ganhando corpo, a música fica encorpada, devendo a isso a batida da bateria, marcada e pesada, mas logo retorna a balada rock. Um hard rock mais cadenciado e que me remeteu, em alguns momentos, a algo como new wave, um pouco antes da explosão da cena nos anos 1980 e isso, a meu ver, se revela perceptível, com o solo de guitarra e até mesmo no seu dedilhar nos momentos mais calmos.

"Morning of the Ants"

“I Didn't Care” também começa discreta, uma balada mais viajante, contemplativa, um solo de guitarra típica de bandas progressivas, com uma camada, ao estilo space rock, de teclados, dando textura mais intimista. Aqui a estrutura sonora é sombria e psicodélica, com temperos progressivos. Mais uma vez a bateria entrega o lado mais pesado, mais hard rock desta faixa. O vocal colabora para o “humor” da música, trazendo introspecção. O que dizer do solo de teclados? Mais uma faixa espetacular que mostra, até então, uma banda extremamente versátil em sua sonoridade.

"I Didn't Care"

“Undumufu (All Right)” começa pesada, riffs de guitarra pesados e grudentos, vocais raivosos e, mais uma vez, a bateria ditando o ritmo desse hard rock com uma pegada punk. A sonoridade é descompromissada, despretensiosa, indo meio que contra maré da versatilidade das faixas anteriores. Aqui se percebe também a pegada new wave com sintetizadores bem animados e dançantes. Baixo pulsante, cheio de groove, entra em um salutar duelo com solos de guitarra. E segue assim, até o fim, com essa pegada pesada, meio new wave.

"Undumufu (All Right)"

“Smash” traz, logo de cara, o som denso do hard rock, com um riff inaugural de guitarra, denso, pesado, lembrando os primeiros trabalhos do Black Sabbath. Ouso dizer que nesta faixa temos algo arrastado, sujo que lembra o doom metal. Mas curiosamente o vocal aqui é límpido, transparente e de belíssimo alcance. Não podemos aqui negligenciar a “cozinha” rítmica dessa faixa: bateria marcada, igualmente cadenciada e, claro, pesada e um baixo pulsante e poderoso.

"Smash"

“Hangman” começa com aquela camada de teclados trazendo reminiscências de uma psicodelia perdida e esquecida na transição dos anos 1960 e 1970, mas que logo irrompe em uma hecatombe pesada, do hard rock, do hard psych típico do início dos anos 1970 que ainda sofria influências do movimento psicodélico. É deliciosamente pesado nos momentos mais “hard” e lisérgico nos momentos “psicodélicos”. Essas mudanças rítmicas, essa gangorra sonora é excelente para os amantes de psicodelia e hard rock dos anos 1970. Solos de guitarra competente, técnicos, orgânicos, contrastam com a estranheza dos teclados, que mostram o lado mais soturno da faixa.

"Hangman"

“Step On My Face” traz de volta o lado mais heavy rock com riffs de guitarra mais pesado, mais arrastado, em alguns momentos. Mas logo traz uma pegada de hard rock mais radiofônico, até mesmo comercial, uma sonoridade mais acessível. Teclados são ouvidos de uma forma mais animada e solar, corroborando uma sonoridade mais acessível, como disse. O encerramento da faixa é de tirar o fôlego com solos de guitarra técnicos, porém orgânicos e a bateria em uma pegada mais arrojada.

"Step On My Face"

E fecha com “Memories” e não poderia fechar melhor: animada, pesada, estrondosa! Aqui o hard rock se revela na sua essência, pesada, solar, riffs de guitarra pesados, bateria que levita de tão latente e altiva, baixo pulsante, vivo, intenso! A faixa é veloz, lembrando o heavy metal que estava engatinhando para o mundo. O vocal é alto, quase gritado, corroborando a sua condição sonora. E o fim é um transborde instrumental, teclados que lembra new prog, guitarras potentes, bateria e baixo em uma sintonia rítmica incrível. Que música!

"Memories"

Mesmo com as suas apresentações ao vivo explosivas e arrojadas, que lhe conferiu certa visibilidade e que culminou também com a gravação de seu único rebento, o P2O5 continuou a fazer suas apresentações ao vivo, mas, foi, aos poucos se desintegrando, enquanto banda.

Diante do entra e sai de tantos músicos pós lançamento de álbum, o que causou um grande impacto à banda foi definitivamente do tecladista Wolfgang Burkhard que deixou o P2O5 em 1980. O baque foi grande, mas a banda ainda conseguiu sobreviver por dois anos mais, decretando seu derradeiro fim em 1982.

É notório que o P2O5, com seu único álbum “Vivat Progressio - Pereat Mundus”, esteve muito à frente do seu tempo, sobretudo quando levamos em conta o que estava em evidência na música à época, comercialmente falando, com o punk, a disco music e até mesmo um prelúdio da new wave que, de alguma forma, engatinhava.

Sem contar com as suas apresentações teatrais, com seus cenários cheios de fantasia, com uma cruz de mármore gigante, tochas acesas, figurinos e um som místico, sem dúvida deixaria uma marca importante, uma pavimentação importante para as bandas de heavy metal fazerem sucesso nos anos 1980.

Em 1993 o selo Ohrwaschl Records lançou um álbum do P2O5 com faixas, digamos, “perdidas” e outras que entrariam no álbum oficial da banda, gravadas entre os anos de 1975 e 1976. Tais músicas foram concebidas antes do lançamento de “Vivat Progressio – Pereat Mundus”, que foi lançado oficialmente em 1978. Este último poderia, até 1993, ser considerado como o único trabalho, lançado oficialmente até então, mas, para a alegria de todos, “P2O5” veio ao mundo recuperando faixas que certamente estavam em algum baú empoeirado, em algum local inóspito, esperando ganhar a luz.

"P2O5 (1975/1976 - 1993)"

“Vivat Progressio – Pereat Mundus” não teve tantos relançamentos. O primeiro foi pelo selo Amber Soundroom, em 2004, no formato LP. Mais tarde, em 2007, foi relançado, no formato CD, pelo valoroso selo alemão, o Garden of Delights, , com duas faixas bônus inéditas. A mais recente, em 2018, foi relançada, em LP, pelo Golden Pavilion, La Pelote Records, em Portugal.




A banda:

Helmut Hiebel nos vocais e baixo

Eddy Lotter na bateria

Konny Hempel na guitarra

Wolfgang Burkhard nos teclados

Werner Weiss no vocal principal

 

Faixas:

1 - Comin' Over Again

2 - Morning Of The Ants

3 - I Didn't Care

4 - Undumufu (All Right)

5 - Smash

6 - Hangman

7 - Step On My Face

8 - Memories



"Vivat Progressio - Pereat Mundus" (1978)









 


















 



 


sábado, 23 de maio de 2026

Shylock - Gialorgues (1976/1977)

 

A década de 1970 foi prolífica para o rock francês, sobretudo para a cena progressiva. Pode parecer óbvio e, de fato, é, haja vista que o rock progressivo em toda a Europa, teve um terreno fértil. Mas voltando à França, foi a época da explosão, de um dia para outro, muitos álbuns soberbos foram lançados, seja por grandes e famosas bandas ou pelas bandas obscuras, que trafegavam pelo underground.

E a moda estava focada nas composições complexas, trabalhos conceituais, trazendo como referência bandas como King Crimson, Gentle Giant, Van Der Graaf Generator e não aqueles ritmos binários tradicionais do rock inglês ou norte-americano, por exemplo. Não era música para intelectuais, era uma música mais reflexiva, mais contemplativa, mais complexa, mas, ainda assim, acessível.

E eu preciso falar de uma banda que, apesar de não ter gozado de sucesso comercial, foi muito importante para a cena progressiva francesa, apesar também de não ter tido uma trajetória longeva e uma discografia vasta. Falo do SHYLOCK.

A história do Shylock começou no final de junho de 1974, quando dois músicos da região de Nice, então com apenas dezoito anos, Didier Lustig e André Fisichella, decidiram deixar a banda local “Fusion”. Tal banda tocava covers dos consagrados Deep Purple e Uriah Heep. Eles achavam que era a hora e o momento de criar a sua própria música, fazer música autoral e mais: desbravar a música progressiva!

Lustig teve aulas de piano desde os oito anos de idade e no Fusion tocava órgão elétrico, que rapidamente dominou aos dezesseis anos. Fisichella aprendeu a tocar mais tarde, somente aos quatorze anos de idade. Quando entrou no Fusion sua experiência como músico era de apenas dois anos!

Eles começaram a procurar outros músicos para materializarem seu projeto de fazer música progressiva. Foi quando notaram um anúncio em uma loja de instrumentos musicais de um jovem guitarrista que procurava outros músicos para montar também uma banda de rock progressivo. Esse guitarrista era Fredéric L’Epee.

Fredéric, um músico autodidata, tocava em outra banda local chamada Highway Park que também se dedicava a tocar músicas de bandas covers inglesas e esses três jovens músicos se conheceram, finalmente, em 1º de julho de 1974 e se deram bem imediatamente, afinal tinham as mesmas aspirações, de tocar um rock n’ roll incomum e ambicioso. E não faltava, aos jovens, energia e inspiração para isso.

E foi assim que surgiu o Shylock, exatamente um dia depois desses três caras se conhecerem na casa de Fredéric, em 2 de junho de 1974. Fredéric também tinha um sintetizador Elka, no qual ele mesmo ensaiava, mas ao ouvir como Didier tocava, imediatamente confiou o instrumento a ele.

Cabe aqui uma curiosidade: “Shylock” é um personagem fictício da peça de William Shakespeare, “O Mercador de Veneza” (1600). Um judeu veneziano, Shylock é o principal antagonista da peça. Sua derrota e conversão ao cristianismo são o ápice da história. E essa história migraria do palco teatral para o campo do rock progressivo da França dando nome a uma banda que nascia.

No dia 4 de julho, eles saem de férias de verão para a pequena vila de St. Dalmas-Le-Selvajs, onde Didier passou a sua infância, para ensaiar e já desenvolver seu repertório. Eles convenceram o prefeito a deixá-los ensaiar na igreja local pelos próximos dois meses, período que duraria as suas férias. Assim a igreja foi o primeiro ponto de ensaio do Shylock em sua história.

A igreja

Assim, em um cantinho do paraíso nos Alpes, longe de todas as vaidades mundanas, os jovens músicos começaram a criar a sua própria música. A combinação de improvisações constantes, natureza exuberante e isolamento completo resultou em uma verdadeira fonte de ideias e criatividade ilimitada. As suas principais músicas surgiram de longas e frutíferas improvisações, não havia objetivos estilísticos específicos. Todos propuseram ideias para os amigos, todos trabalharam juntos, mudaram algo, adicionaram, removeram, até que a composição assumisse a forma que todos gostariam.

No fim, a banda tinha várias composições, que os próprios caras distinguiam apenas pelos números. O fato é que os músicos tocavam música instrumental, e desde as primeiras apresentações as chamavam de “Primeira”, “Segunda”, “Terceira”, entre si. Ao mesmo tempo, uma composição podia fluir suavemente para outra e poucas pessoas conseguiam separá-las com precisão.

Quando o verão acabou e os jovens retornaram para Nice, onde todos estudavam na universidade, começaram a procurar o quarto músico para a banda, um baixista. Procuraram por muito tempo, mas sem sucesso. Então decidiram que o formato de um trio tinha seu próprio estilo e entusiasmo. E assim ficou a formação do Shylock: Frédéric L'Épée na guitarra e baixo, Didier Lustig nos teclados, piano e sintetizadores e André Fisichella na bateria e percussão.

Shylock

Na mesma época a banda foi contatada pelo ex-empresário do Fusion, Christian Guttennoir, que lhes ofereceu a chance de se tornar se empresário. Ele tinha experiência e parte da banda já conhecia o trabalho dele e confiavam em Christian. Então a resposta deles era óbvia.

A terceira visita à vila ocorreu durante as férias da Páscoa, quando as composições “Quinta” e “Sexta” foram criadas. Enquanto isso Crristian já havia planejado, negociado os primeiros shows do Shyock e que aconteceriam no mesmo clube da cidade. A primeira aparição, a primeira apresentação oficial aconteceu em 7 de abril de 1975, diante de uma plateia de 300 pessoas na Maison des Jeunes de Magnan, em Nice. 

Em junho daquele mesmo ano seria na Faculdade de Letras, nos arredores de Nice e Cannes. O feedback do público foi positivo e até mesmo entusiasmado, mesmo com o lado complexo e as longas improvisações das músicas. Os soundchecks pré-show são feitos por amigos da banda. Os músicos até tinham alguma grana para custear seu próprio show de luzes, embora eles próprios preferissem se concentrar na performance.

O álbum também foi mixado várias vezes, até que a versão final deste foi editada em Lyon. Tudo terminou simplesmente com o fato de que as pessoas responsáveis pela mixagem decidiram não convidar os músicos, assim haveria menos disputas. De todo o longo repertório, apenas as composições “Quarta”, “Quinta” e “Sexta” foram preservadas, descartando as três primeiras, que foram consideradas “ingênuas” demais. E o “Quarto” ficou principalmente porque Didier fez maravilhas com o sintetizador Elka, emulando os sons do cravo e dos violinos logo no início da composição.

No entanto, os próprios músicos não gostaram do que ouviram. Eles sentiram que o espírito e o som da banda não foram transmitidos de forma convincente. Músicos perfeccionistas eram eles! Mas decidiram conviver com isso e seguir! O álbum foi chamado de “Gialorgues” e é dele que falaremos nesse texto. O nome foi em homenagem à montanha cujo pico era visível pelas janelas da igreja em St. Dalmas-Les-Selvajs, onde toda a música aparecia. E na capa colocaram a imagem da igreja onde compuseram as músicas que o amigo da banda, Jean Charles Cohen, havia desenhado para eles.

Após a gravação a banda começou a procurar uma gravadora para lançar o álbum. Enquanto isso eles autoproduziram e imprimiram 1.500 cópias. Assim o lançamento foi inteiramente independente, feito pela própria banda, em 1976. O Shylock ofereceu parte dessas cópias para as lojas na Costa e para rádios locais. A recepção foi boa e a imprensa especializada do Sul dedicou alguns artigos e matérias a eles. O álbum também foi enviado para as revistas especializadas em rock n’ rollBest, Extra, Rock & Folk”. O Shylock apareceria na TV, em Monte Carlo.

Christian, o empresário, que havia se ausentado por conta do serviço militar, em 1976, retorna e vai à Paris apresentar o álbum para os grandes selos. A CBS decidiu lançar o álbum. A negociação com este selo, mais precisamente com o seu gerente, Eric Brücker, foi tão proveitosa que o mesmo ofereceu aos músicos um contrato para álbuns futuros. Assim a CBS relançaria “Gialorgues” no início de 1977, mantendo tanto a mixagem quanto a capa intacta. E como propaganda, lançaram um single onde colocaram alguns trechos das composições "Quarta" e "Sexta". Foram 3.000 cópias lançadas no mercado.

“Gialorgues” entrega uma música bela e complexa ao mesmo tempo, rica em melodias poderosas que se rompem para se reformar melhor, atmosférica em suas criações, encantadora, melancólica, hipnótica, repetitiva. Um progressivo sinfônico, experimental, calcado no excelente instrumental de seus músicos, mostrando uma habilidade técnica que os colocava acima da maioria dos seus contemporâneos. Um álbum soberbo, sombrio, orgânico, mas complexo, vivo, latente, intenso e dramático.

A abertura do álbum se dá com a faixa "Le Quatrième" (A “Quarta”) e faz uma viagem exuberante de música clássica, com os teclados melódicos e tilintantes que fornecem a base para a dissonância da guitarra e os exercícios técnicos da bateria, em uma levada meio jazz, em seguida. Aqui se percebem ganchos melódicos adoráveis, que me remeteu a algo leve e arejado, contrastando com a arte da capa sombria e até mesmo ameaçadora, mesmo se tratando da igreja em que a música foi concebida.

"Le Quatrième"

Na sequência tem a faixa "Le Sixième" (A “Sexta”) que, curta, é basicamente uma marcha militar de quase quatro minutos de duração. Os teclados me pareceram abafado nessa música, com uma guitarra pesada sobrevoando baixo e bateria. Para uma música curta, tem até um impacto sério à medida que a faixa acelera de andamento e, junto com as teclas atmosféricas, entra em um rock completo com solos de guitarra pesados. Exceto por um pequeno momento de “caos”, a marcha percussiva, a marcha militar, não perde o ritmo. Uma faixa enérgica, considerando que é algum tipo de intervalo.

"Le Sixième"

O apoteótico fim chega com a faixa "Le Cinquième" que se estende por quase 19 minutos e começa com uma sessão de teclado monótona e alguns movimentos percussivos. Mas, por outro lado, depende extremamente dos tons selvagens e dissonantes e traz texturas musicais que lembra o King Crimson. É uma faixa que não se poupa e revela os talentos extraordinários dos seus músicos. Nela se percebem mudanças de andamento, clímax e fundamentos melódicos de tirar o fôlego, que envolve progressivo sinfônico, experimentalismo e até mesmo o avant-prog. É técnico, complexo, porém orgânico.

"Le Cinquième"

Quando pretendem começar a gravar o segundo álbum, chega o período de serviço militar para todos os membros da banda. Os três, portanto, congelaram as atividades da banda por um tempo para, claro, cumprir com as suas obrigações para com a pátria. Quando retornaram, gravaram rapidamente o segundo trabalho, “Île de Fièvre”, em 1978. O álbum é um pouco diferente do debut, pois começa a banda a se inclinar para o jazz rock, mas mantém o ritmo minimalista durante a gravação do álbum. A banda agrega um novo baixista chamado Serge Summa.

"Ile De Fièvre" (1978)

Em 2012, André Fisichella, Frédéric L'Épée e Didier Lustig se reuniram a pedido de um festival nos Estados Unidos que infelizmente não aconteceu. Porém se apresentou, no mesmo ano, no Gouveia Art Rock Festival em Portugal e depois no Prog'Sud, no Pennes Mirabeau, perto de Marselha. Laurent James substituiria Serge Summa no baixo.

"Shylock live at Gouveia Art Rock, 2012"

Em 2014, um álbum "best of" foi gravado no Studio Arion, em Nice, foi lançado e Luca Mariotti substituiria Didier Lustig nos teclados. Tal coletânea teve as músicas escolhidas dos dois primeiros álbuns em um formato mais modernizado. E em 2016 foi lançado nova coletânea, de nome “The Sum of the Parts”, que traziam as mesmas faixas do primeiro “The Best Of” com mais duas faixas bônus, este para o mercado japonês.

Embora sejam comparados ao King Crimson há muito tempo, o Shylock é na verdade uma banda com seu próprio estilo. Claro que eles trazem uma referência muito forte da banda inglesa, mas trazer uma abordagem como a cópia do King Crimson é considerada, no mínimo, um insulto inaceitável ao Shylock. Entre 1988 e 2026, o selo Musea relançaria “Gialorgues” por quatro vezes, em 1988, 1989, 1994 e 2026.







A banda:

André Fisichella na bateria

Frédéric L'Épée – na guitarra e baixo

Didier Lustig nos teclados

 

Faixas:

1 - Le Quatrième

2 - Le Sixième

3 - Le Cinquième

 

 

 

"Gialorgues" (1976/1977)