Nas transições das décadas de
1960 e 1970 o blues rock estava em alta em alguns grandes centros do rock n’
roll, como os Estados Unidos e a Inglaterra, por exemplo. Bandas como Cream e
Led Zeppelin estavam entre as maiores e mais famosas bandas do planeta e
traziam, em seu DNA sonoro, o blues mesclado ao hard rock.
Porém em alguns países não
estava nas intenções das bandas essa vertente do rock e podemos colocar no rol
a Itália que, sobretudo na primeira metade da década de 1970, respirava o rock
progressivo. Não se pode pontuar que o blues era inexistente, é bem verdade,
mas era difundido entre jovens músicos iniciantes que queriam manter certa
proximidade com o público.
A tal proximidade era em
virtude das apresentações das bandas que, ao término de seus repertórios, para
cativar o público, faziam os famosos bises, emendando algum blues rock ou
aquele blues mais antigo, primitivo mesmo.
Em 1970, o blues era a herança de poucos na Itália: apresentado principalmente em pequenos locais, limitado a um público muito pequeno e geralmente para os estrangeiros que visitavam a Itália. Era a “música para estrangeiros” do que um “produto” que poderia ser importado para a Itália.
Mas não significava que não
existissem bandas e ouvintes de blues rock na Itália, claro, que em um número
extremamente reduzido e uma das primeiras bandas italianas de blues rock, veio
de Veneza e se chamava THE BLUES RIGHT OFF, surgida no final dos anos 1960. É
difícil pontuar se esta banda foi a pioneira, mas certamente foi uma das
primeiras a praticar o blues rock na Itália, seguramente.
O fundador da banda era o guitarrista Claes Cornelius que, claro, era um estrangeiro, um dinamarquês chegado à Itália na metade dos anos 1960 e que logo foi muito bem inserido na cena beat daqueles anos. Participou também da formação o que seria o futuro engenheiro de som do único álbum do The Blues Right Off, Ermanno Velludo, que também juntos criariam os estúdios de gravação “Suono”. Os demais músicos eram: Giancarlo Salvador, no baixo, Fuffi Panciera, na bateria e Paolo Zanella na flauta e guitarra, além de Velludo como engenheiro de som.
O único álbum da banda, de nome “Our Blues Bag”, foi lançado, de forma quase que “artesanal”, em 1970. Foi editado, privadamente, em 500 cópias e guardado em uma bolsa, com o nome da banda e do álbum, e também continha uma litografia do artista veneziano Vittorio Basaglia. A cópia original é numerada à mão, indicando um total de 500 cópias e assinada pelo artista, portanto nem todos os álbuns lançados continham tais informações. Nem mesmo a bolsa de alça provavelmente estava presente em todas cópias vendidas ou distribuídas.
Essa forma, um tanto quanto
inusitada, de ter uma bolsa de alça guardando o vinil da banda, deve ser
destacado por ser uma embalagem inovadora e particular, além, claro, muito raro
e, embora não seja uma obra progressiva, antecipou as loucuras promocionais do
prog rock nos próximos anos.
Apesar do baixo número de
cópias prensadas de “Our Bag Blues”, existem três variantes diferentes da capa
não gatefold: junto com a versão padrão com abertura do lado direito, há cópias
que tem o disco inserido pelo lado esquerdo e outras cuja capa é feita por uma
única folha dobrada ao meio e não colada. Isso se confirma o quão “artesanal”
esse trabalho foi concebido. E ainda para corroborar tal condição, este único
trabalho do The Blues Right Off foi gravado em cerca de dois dias e muitas das
faixas em “primeiras tomadas”. É essencialmente um álbum ao vivo, gravado no
ateliê de um pintor e não em um estúdio de gravação profissional!
“Our Bag Blues” é, no geral,
um trabalho semiprofissional, sendo gravado para o pequeno selo Paplirnaplano
em um Tandberg de 2 faixas e mixado
com Binsons de dois tubos. A gravação, embora comprimida nas frequências
médias, é agradável e não diminui, nem um pouco o bom nível técnico da banda.
E falando no álbum, o mesmo
contém sete músicas originais escritas pela banda, todas cantadas em inglês e
na melhor tradição do blues elétrico, do blues rock, baseadas em solos de
guitarra, na veia hard rock e uma voz bastante aguda e potente.
O álbum é inaugurado pela
faixa “One Mint Julie” que é extremamente sedutora, graças ao vocal quase
cantado ao pé do ouvido, com a intenção do flerte sonoro. Uma cadência bluesy
envolvente, guitarra com riffs lisérgicos e uma bateria bem marcada ditando o
ritmo do blues rock.
“Rushing Wish” começa com uma
levada espetacular no jazz rock e uma flauta doce e o vocal que também
protagoniza. Aqui eu arriscaria dizer que traz uma versão jazz prog com pitadas
sutis do blues, cerne sonoro do álbum. Ousado, animado, solar e dançante e, por
vezes, mais pesado, graças aos riffs de guitarra.
“Black Angel” traz de volta o
blues rock! O baixo é pulsante, a bateria segue marcando o groove. Um balanço
com caráter de balada blues e o “choro” da guitarra endossa o blues tendendo
para algo mais pesado, mas contido. E assim segue, uma balada blues, com
mudanças de andamento para o hard com guitarras limpas e lisérgicas.
“Love’s Gonna Show Up Someday”
já começa avassaladora, arrebatadora para os apreciadores do bom e velho blues
rock com um pé no primitivo do blues. Um solo de guitarra limpo, eloquente,
espetacular e vocal, agudo, traz o contraste bem interessante e pouco ortodoxo.
A sessão rítmica entrega a textura bluesy e faz da faixa uma das mais
enraizadas no blues.
“Leaving My Hometown” segue a
mesma proposta e traz a nítida impressão de que é, ou pelo menos poderia ser,
uma continuação da música anterior. O baixo pulsa, a bateria, marcada, bate
forte, a guitarra impulsiona o blues rock com uma pegada, embora cadenciada, do
hard rock. E não tem como não bailar nessa faixa!
“Born On The Highway” retorna
à pegada meio jazzística. A sedução e a qualidade com que essa música foi
concebida é espetacular! Vocal límpido, quase doce aos ouvidos, a guitarra
entrega solos mais diretos, porém competentes, a bateria insinua idas ao jazz e
blues, simultaneamente. Mas quando a música se encaminha para o final o solo de
guitarra é envolvente e de tirar o fôlego. E finalmente fecha com “Miss D” que
introduz meio enigmática, com distantes sons de flauta e, em curto espaço de
tempo, finaliza em poucos segundos de duração.
“Our Bag Blues”, um álbum autoproduzido, graças aos pedidos de um pequeno, mas sólido público que a banda conquistou tocando ao vivo vendeu suas cópias nas ruas de Veneza e em shows e o rótulo que ostenta de “raríssimo” é mais do que apropriado, já que sequer não foi distribuído em lojas. Hoje se tornou cult e pode ser encontrado valendo cifras estratosféricas.
Logo que esse álbum foi
concebido, a banda se dissolveu! Cornelius continuou como músico de estúdio,
vivendo nos Estados Unidos, por um ano e depois, de volta a Veneza contribuindo
para o álbum da banda “Venetian Power”, chamado “The Arid Land”. Depois, ele se
estabeleceu na Dinamarca em 1974 e permanece na indústria musicam desde então,
tanto como produtor quanto como músico.
Existem algumas lendas urbanas
que giram em torno do The Blues Right Off e que merecem aqui destaque. Foi, por
um fã, que inclusive escreve em um blog especializado em rock progressivo
italiano, de nome “John’s Classic Rock” que aqui coloco a informação na
íntegra, de que fora encontrado um vinil do The Blues Right Off que teria sido
adulterado.
Este teria sido riscado,
ocultando algumas informações, e inseridas, de forma tosca, escrito a caneta, o
nome “Blues Society” com o ano de 1972. Todas as referências do The Blues Right
Off foram excluídas, como o nome da banda, o de Cornelius, que escreveu todas
as músicas do álbum e de Ermanno Veludo, que era o engenheiro de som.
Ainda segundo o editor deste
blog que adquiriu esse vinil adulterado o baixista do The Blues Right Off,
Giancarlo Salvador, havia entrado para a banda “Blues Society”, de Guido
Toffoletti, um “bluesman” já ativo na cena veneziana desde os tempos do beat.
Este traz a possibilidade,
nada, evidente, confirmação, apenas uma especulação, de que Salvador poderia
ter usado a cópia ou as cópias do raro “Our Bag Blues” como demos pela Blues
Society, em 1972. Se isso de fato se confirmar um dia, poderia explicar o
motivo pelo qual todas as referências a “Our Blues Bag” terem sido deletadas,
porque todos os créditos relacionados ao álbum e à banda foram desaparecidos.
Quanto exemplares teriam sido adulterados dessa forma?
O fato é que o Blues Right Off
deixou, mesmo que usado indevidamente, um legado para o rock italiano dos anos
1970, navegando contra a maré que inundava aquele país do rock progressivo que
estava ganhando certa notoriedade quando este “Our Bag Blues” foi concebido em
1970. O blues rock, em evidência nos principais polos do rck n’ roll, também
tinha um obscuro, mas significativo representante na Itália.
O álbum foi relançado, pela
primeira vez, em 2009, no formato CD, pela AMS, sendo, muito provavelmente a
primeira chance de muitas pessoas em ouvi-lo e de colecionadores ter em seu
acervo. Essa reedição, feita com a ajuda de Claes Cornelius e Ermanno Velludo,
vem em uma edição numerada à mão de 500 cópias, guardada em uma capa de mini-LP
e inclui um livreto com notas em italiano e inglês. Em 2012, a primeira
reedição em vinil já feita para este álbum foi lançada na Inglaterra, produzida
pelo selo português Pavilion Records, também em 500 cópias com capa gatefold.
A banda:
Claes Cornelius no vocal e
guitarra
Giancarlo Salvador no baixo
Fuffi Panciera na bateria
Paolo Zanella na flauta e
guitarra
Faixas:
1 - One Mint Julie
2 - Rushing Wish
3 - Black Angel
4 - Love's Gonna Show Up
Someday
5 - Leaving My Hometown
6 - Born On The Highway
7 - Miss D




























