sábado, 16 de maio de 2026

Laser - Vita Sul Pianeta (1973)

 

Certos temas e assuntos, com o passar do tempo, vão se tornando clichês, se estereotipam, até. Mas é preciso ser mencionado, pela urgência do tema e/ou se especializa em dizer certos assuntos ou melhor, se decide desbravar por certos temas. A razão de ser, por exemplo, deste reles e humilde bolg é falar de bandas obscuras, que trafegam ou trafegaram no underground e que, por algum motivo, que geralmente são inúmeros, dada a sua complexidade, sucumbiram.

A ideia central é trazer à tona as suas histórias, aqui neste site o fracasso compensa enaltecer. E não se enganem, nobres leitores, em associar fracasso a incapacidade musical, como, por exemplo, a trabalhos ruins ou coisas que o valham. Não! Há e muito a se aproveitar, com o digno garimpo, nas obscuridades, no underground!

E, quando me pus a refletir sobre isso, procurei buscar uma banda e um álbum que personificasse esses temas, essas questões e trazer aqui, porque, como disse, a ideia central é contar e disseminar histórias e álbuns que possa arrebatar ouvidos e corações sedentos por algo que fuja do usual, mas, sempre trazendo a qualidade como mote.

Claro que a questão da qualidade pode ser relativa, afinal, as percepções e gostos podem ser diametralmente diferentes uns dos outros. Isso não é nenhuma novidade, evidentemente. Mas acalmem-se, estimados leitores, tentarei dizer onde quero chegar dizendo com isso.

Quando eu ouvi o único álbum dessa banda pela primeira vez eu vi, ou melhor, li algumas poucas críticas acerca deste trabalho e digo que todas ou quase todas foram negativas. A rejeição foi grande, diria. Alguns atribuíram a incapacidade dos músicos, a produção aquém etc. Ouvi algumas vezes mais para tentar “achar” tais deficiências e algumas, de fato, foram notadas por mim, como a produção. Contudo, mesmo diante de alguns reveses, eu adorei esse álbum. Sim! Adorei! São percepções, são opiniões distintas e isso é salutar para a vida!

Então esse texto seria uma espécie de me posicionar contrário ao que a maioria disse a respeito dessa banda e álbum. Mas não é tão somente isso! É um texto para expor o meu apreço por este álbum e banda, afinal, neste blog irá figurar apenas o que este reles dono gostar. Sem mais delongas falarei do LASER.

As poucas referências, sobretudo da Itália, país de origem da banda, dão conta e isso me parece óbvio, é de que a mesma é considerada como obscura. Mas confesso que, ao ler isso, me encheu de alegria, pois se até em seu país é tida como obscura, merece figurar nesse blog.

Os protagonistas do Laser, um quinteto, eram nascidos entre Roma, Formello e Campagnano e eram: Riccardo Paolucci (vocais, guitarra), Valentino D'Agostino (vocais, teclados), Loris Cardinali (guitarra), Adalberto Sbardella (baixo) e Antonello Musso (bateria). O único álbum lançado pela banda foi “Vita Sul Pianeta”, de 1973.

A banda em 1973

Os primórdios do Laser, à época de sua formação, no final dos anos 1960, o nome era bem mais longo, sendo chamado de "Il Laser, di Elvezio Sbardella". Este foi, por um certo período cantor e letrista da banda. Nessa primeira formação havia um tecladista de nome Gino.

Fizeram as primeiras 45 RPM no ano de 1972, para uma pequena gravadora, de nome Mantra, que ficava em Bolonha. Os singles se chamavam "Dove Andremo" e "Lacrime di Ragazzo", sendo, claro, muito raro e feito com uma distribuição local, lançado apenas com uma capa branca genérica.

Single

No ano seguinte, 1973, após a formação ser definida, com a saída do tecladista Gino e o nome da banda abreviado para “Laser”, os cinco músicos foram contratados pelo selo Car Juke Box, de Carlo Alberto Rossi, que tinha, em seu cast, bandas icônicas como Le Orme, decidiu investir em novas bandas, em novos talentos em boa companhia com I Nuovi Corvi e o excelente músico de jazz Paolo Tomelleri. Tudo isso sob a égide tanto do Maestro Mario Bertolazzi (maestro da Rai) quanto de Renato Pareti, dos Nuovi Angeli.

"Vita Sul Pianeta" ou, em inglês, “Life on the Planet” (“Vida no Planeta”) era uma obra conceitual sobre a evolução da vida, do homem, no planeta. Uma parábola existencial do homem na Terra em forma narrada, com finais dramáticos e mensagens fortes e de grande urgência. A sonoridade da banda era principalmente a mescla do hard rock, com predominância, protagonismo dos seus guitarristas, com o rock progressivo, com interessantes mudanças de andamento.

Mas não para por aí. Neste único trabalho do Laser é perceptível o blues rock, pitadas de psych e até mesmo, muito em virtude dos primórdios do rock italiano, do beat, do pop macarrônico do país da bota. Embora traga nuances de progressivo, as faixas são curtas e em alguns momentos, mais básicas, porém viciantes e que cativa a todos os gostos que variam, claro, do hard ao prog. Acredito que o fato de ter, acerca desse álbum, certa rejeição, pelo fato de fugir um pouco do que se ouvia, à época, auge do progressivo italiano, mais voltado para o sinfônico e coisas mais complexas de bandas mais consagradas.

Mas é inegável observar que tais músicas trazem melodias cativantes, animadas, solares e muito daquele espírito do rock italiano, que absorveu o seu ápice e os seus primórdios, sem dúvida. Esse, posso dizer, sem quaisquer constrangimentos e medo, álbum do Laser traz, em sua essência sonora, a cultura underground, marginalizando-se do que se praticava na primeira metade dos anos 1970. E o interessante que até mesmo nas letras dessas músicas, dada a sua questão conceitual, também entrega elementos mais underground, diria até mais hippie.

Outro ponto de muita crítica acerca de “Vita Sul Pianeta” está nos vocais e na produção muito abaixo que, para muitos, colaborou negativamente para o resultado final deste álbum. Há uma rotação nos vocais entre três músicos: nos dois guitarristas e tecladista. De fato, as vozes podem não ser convincentes, estupendas vozes, mas compensa pelos alcances altos, em alguns momentos mais altos e gritados, o que traz algo pouco ortodoxo para a realidade dos trabalhos progressivos. Nos momentos pesados das faixas é extremamente atraente!

O álbum é inaugurado com a faixa título, “Vita Sul Pianeta” que começa com uma narração, mas logo traz uma atmosfera sombria, soturna, com os teclados psicodélicos e sinfônicos que é entrelaçado por riffs de guitarra e solos lisérgicos curtos. A bateria é marcada e pesada, baixo pulsante, o ritmo, cadenciado, tende para o hard rock e pitadas progressivas. Vocais altos e agudos entregam uma música mais pesada e me remetem, por um instante, o norte-americano Vanilla Fudgie. O final já revela aquele progressivo mais sinfônico tipicamente italiano. Música de muitos recursos!

“Non Vede La Gente” já começa cativante com uma pegada meio beat, meio psicodélica, com o hard rock dando o “tempero”. É inegável que aqui percebe-se o hard prog em sua mais fiel essência. O peso dos riffs de guitarra e as mudanças de andamento, faz da música interessante e atraente.

Non Vede La Gente

“Sconosciuto Amico” traz o vocal, praticamente à capela, apenas com um piano e teclado ao fundo, mostra a voz mais apurada, melódica e tipicamente dramática do rock italiano. Uma balada prog bem legal vai se revelando aos poucos. Uma sonoridade contemplativa e viajante que mescla o progressivo e o rock psicodélico. Backings vocals femininos me remetem a um clássico floydiano dos anos 1970. Mas quando se encaminha para o final, algo meio King Crimson se percebe com saxofone e uma pegada experimental.

“Dove Andremo” segue basicamente a mesma pegada da faixa anterior: vocal mais soturno, urgente, introspectivo e uma bateria, meio percussiva ao fundo. Mas conforme o vocal ganha alcance, a sonoridade vai ganhando mais corpo e irrompe em uma explosão de riffs e teclados enérgicos em um hard rock potente e volumoso. Mas logo retorna ao som mais sombrio do início. As mudanças de andamento, mais uma vez, se mostram evidentes, trazendo a veia progressiva que permeia todo esse trabalho.

"Dove Andremo"

“L'ultimo Canto Del Killer” introduz com a “cozinha” dando o recado: solo de bateria, baixo cheio de groove, pesado, e depois vem o peso da guitarra, de riffs mais sujos e pegajosos, entregando, de imediato, um hard rock cadenciado com o vocal gritado e rouco. Aqui se percebe também uma pegada mais bluesy, um bom blues rock com recheio progressivo, um pouco mais sutil aqui, é bem verdade. Talvez uma das mais pesadas do álbum!

"L'Ultimo Canto Del Killer

“Corri Uomo” vem trazendo o carro-chefe do álbum: o hard prog! Aqui há uma belíssima “rivalidade” entre os teclados, enérgicos, com a guitarra, em riffs pesados e solos curtos igualmente pesados. O final é de tirar o fôlego com solos de guitarra estrondosos e teclados ainda mais pesados. Pesado! “Eri Importante” já começa dançante: instrumentos de sopro animados, teclados lisérgicos, um beat solar. Vocais mais gritados e, por vezes, melódicos. A pegada pop está mais latente. O beat italiano é mais vivo nessa faixa.

E fecha com “Alla Fine Del Viaggio” já começa com o pé na porta, com uma explosão de guitarra, em um solo bem competente. O hard rock aparece aqui com veemência. A camada de teclados traz uma textura progressiva. O “duelo” entre guitarra e teclado é um espetáculo à parte e nítida sensação de um hard prog vem tocando aos ouvidos deliciosamente. Grande e derradeira faixa!

"Alla Fine Del Viaggio"

Poucas foram as cópias impressas para esse álbum, em 1973. É evidente que a produção, fruto do baixo envolvimento e investimento da gravadora para com o Laser, esteve aquém, mas não se pode atribuir a responsabilidade à banda que, mesmo contra tais adversidades, mostrou competência no que se propôs a produzir. Sim! Um som áspero, mais pesado, incomum no auge do rock progressivo italiano no início dos anos 1970 que prezava pela qualidade técnica, mas um álbum muito bom diante da sua proposta de um hard prog.

Os reveses, diante desse cenário, seriam evidentes para a trajetória do Laser. A sua trajetória foi curta, precoce e a banda, lamentavelmente, se desfez logo após o lançamento de “Vita Sul Pianeta”, em 1973. Culminou, também, com a saída do tecladista Valentino D'Agostino que foi obrigado a prestar o serviço militar. A banda se reúne, décadas depois, em 2019.

"L'Ultimo Canto Del Killer (Live, 2019)

“Vita Sul Pianeta” teve alguns relançamentos ao longo dos anos. Em 2000 o selo Akarma o relança, no formato LP. Em 2012 foi a vez do selo AMS/BTF relançar, também no formato LP. Já no formato CD o primeiro relançamento foi em 1992 pelo icônico selo Mellow. Akarma também relançou em 2000, bem como a gravadora AMS/BTF.

Capa de relançamento

Um clássico incompreendido! Um clássico obscuro marginalizado, que caiu no mais profundo ostracismo que o tempo, quem sabe, se encarregará de trazer justiça pela forma arrojada como foi concebido. Produção pobre? Inocência sonora? As percepções são variadas, mas uma coisa é fato: é único por ser simplesmente diferente.


A banda:

Riccardo Paolucci nos vocais e guitarra

Valentino D'Agostino nos vocais e teclados

Loris Cardinali na guitarra

Adalberto Sbardella no baixo

Antonello Musso na bateria

 

Faixas:

1 - Vita Sul Pianeta

2 - Não Vede La Gente

3 - Sconosciuto Amico

4 - Dove Andremo

5 - L'ultimo Canto del Killer

6 - Corri Uomo

7 - Eri Importante

8 - Alla Fine Del Viaggio 



"Vita Sul Pianeta" (1973)






 

















sábado, 9 de maio de 2026

Climax - Gusano Mecánico (1974)

 

O rock latino não goza muito de popularidade em outros continentes tidos como referência do rock n’ roll, como a Europa e a América do Norte, principalmente a terra do Tio Sam, por exemplo. E viajando por alguns países, em especial, da América Latina, o cenário, no que tange a visibilidade, fica ainda pior.

Tirando alguns países como a Argentina e o Brasil, além do México, muito citado quando lembramos dos latinos americanos, apesar de ser da América Central, os demais países sempre caem no ostracismo, sendo, claro, pouquíssimos comentados.

Embora países, como por exemplo, a Bolívia, não seja fértil para o rock n’ roll, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, não se enganem, estimados leitores, que não exista nada de bom nesse país e nos demais também. Querem saber o motivo de ter mencionado a Bolívia? Porque de lá surgiu a banda que eu falarei hoje: CLIMAX.

O Climax não é uma banda tão rara, até traz alguns fãs e adoradores do rock underground, talvez não pudesse até figurar em minhas linhas, mas, em se tratar de um país, como disse, tão pouco difundido para a nossa tão amada e famigerada música, vale e muito a pena falar sobre ela e lá em terras bolivianas o Climax é gigante, um verdadeiro desbravador da música pesada.

E falando em música pesada, não é tão somente pelo fator do país de origem ser pouco conhecido, vale contar a história do Climax pelo único álbum que produziu que é simplesmente sensacional. Válido principalmente para quem aprecia hard rock com nuances blueseiras. Mas acalmem-se, bons amigos leitores, não falarei agora sobre o álbum, mas de sua história e do contexto político e social a qual a banda estava inserida.

Com apenas 16 anos de idade, o baixista Javier Saldias e o guitarrista José A. Eguino formariam, em 1968, a banda “Black Birds”, que mais tarde se tornariam “The Tourtles”. Quando conheceram o prodigioso baterista Álvaro Córdova encontraram o elemento essencial necessário para dar o grande salto para um novo tipo de som e maturidade musical. Um ano depois, começaram a ouvir as novas correntes sonoras pesadas, com viés do blues, que estavam em evidência, como Cream, Steppenwolf e Jimi Hendrix.

Climax

Seria a ruptura com o beat, a psicodelia, para uma veia mais pesada e bluseira. O psicodélico “flower power” estava entediante e demasiadamente pop na transição das décadas de 1960 e 1970 e as influências mencionadas era a porta para uma sonoridade nova e mais arrojada.

A banda ficou tão envolvida nesse som poderoso que estava florescendo que decidiu ir para os Estados Unidos para conhece-lo. Quem sabe seria a chance de tingir com novidades a sonoridade da banda que haviam recentemente formado. Infelizmente na Bolívia não teria como pôr em prática tal audacioso projeto sonoro.

Eles entraram em contato com a prima de primeiro grau de Javier Saldias, que morava em Denver, no Colorado, e ela, gentilmente, ofereceu um lugar para ficarem. Assim, os três, antes de atingirem a maioridade, partiram para os Estados Unidos com a coragem de querer mudar a sua música e trilhar uma nova trajetória. Eles iriam estar dentro do movimento musical, vivendo aquilo tudo!

Denver não era o lugar ideal para respirar a cena psicodélica norte-americana, então foram para São Francisco, na Califórnia e lá puderam assistir aos shows do Jimi Hendrix Experience, The Doors e Steppenwolf e assim puderam participar, ainda como fãs, dos grandes momentos do rock na segunda metade dos anos 1960, marcado por bandas mais pesadas e viscerais. Suas visões musicais mudaram! Foi um arrebatamento sonoro!

Com essa experiência vivida adquirida nos Estados Unidos, a banda, agora com o nome de Climax, faria uma temporada na Argentina e voltaria para a Bolívia se consolidando em torno, claro, de José A. Eguino, na guitarra, teclados e vocais, Álvaro Córdova, na bateria e Javier Saldías no baixo. Os fãs ardorosos de rock n’ roll da Bolívia ficaria impressionados com a sonoridade poderosa do power trio nas suas apresentações ao vivo, onde puderam entregar a potência da guitarra, a sonoridade poderosa do baixo e a energia dinâmica da bateria como nunca antes ouvida na Bolívia.

O público reagiu muito bem, mesmo dentro de um contexto elitista foi totalmente aceito, e a fama de CLIMAX cresceu por todo o país. Já desde suas origens. Nesse sentido, o grupo tinha um estilo poderoso e muito polido, no qual cada membro soava como dois ou três músicos ao mesmo tempo, esse era o segredo do CLIMAX.

O Climax tinha tudo em suas mãos. De uma linguagem sonora muito estridente, muito mais agressiva, onde cada membro tentando impor suas habilidades musicais pessoais, perceberam que juntos eram explosivos se aprendessem os “truques” necessários para trabalharem em equipe.

E com isso logo as ofertas chegaram. A gravadora de La Paz, “Discolandia”, os contratou para a gravação de seu primeiro EP, que foi concebido em apenas três dias e lançado em 31 de março de 1969. Essa primeira obra continha versões de grupos clássicos como Steppenwolf ("Born To Be Wild"), Cream ("Sunshine Of Your Love" / "Tales Of Brave Ulyses)" e uma música tributo ao seu admirado Jimi Hendrix ("Fire").

Capa EP

Naquela época, o CLIMAX já era uma das bandas mais populares da Bolívia e seu estilo muito pessoal de interpretar os grandes do Rock os fez criar, pouco a pouco, sua própria personalidade musical. Esse primeiro EP seria seguido por um segundo, lançado em 24 de maio de 1970, que continha uma nova versão da música "Born To Be Wild", além de suas primeiras músicas originais, "The Seeker", "El Abrigo Café de Piel de Gallina" e "El Ritmo de la Vida". Com esses dois EPs a banda conseguiu ser um dos mais reconhecidos da Bolívia e recebeu ofertas de emprego por todo o país.

Naquela época, um quarto membro entrou para a banda, um fuzileiro naval dos Estados Unidos, chamado Bob Hopkins, que eventualmente ficou responsável pelos vocais e gaita, mas apenas para a gravação do segundo EP e para alguns shows ao vivo. Aqueles que ouviam a música desse trio naquela época perceberam que, em termos qualitativos, o CLIMAX estava anos-luz à frente da concorrência. Nos três anos seguintes, mais precisamente entre 1970 e 1973, os membros do Climax, se reuniram para o que seria, finalmente a gravação do seu debut, do seu primeiro álbum e, para variar, os resultados seriam simplesmente espetaculares, trabalho esse que será esmiuçado por aqui.

"Gusano Mecánico", o álbum que gravaram em 1974, se tornaria uma das primeiras obras conceituais do rock boliviano, marcando um antes e um depois na cena musical latino-americana. Ao ouvi-la, todos os críticos e fãs da Bolívia concluíram que era uma obra-prima e um esforço que até hoje não tem sido igualado em seu país. A música pulsante, majestosa e ousada da banda fala por si só. Dessa forma, o CLIMAX deu um salto gigante em sua evolução artística e musical e se estabeleceu, definitivamente, como a melhor, mais experimental e audaciosa banda do rock boliviano.

Em “Gusano Mecánico” que, em tradução livre significa “Verme Mecânico” a banda ousou explorar os terrenos complexos do rock progressivo e a fusão de elementos da música andina (bem evidente) com o rock mais inovador, mesclando a isso tudo, claro, o hard rock e a blues rock tão em voga à época. Neste álbum a banda não apenas apresentou uma evolução musical incrível, mas também como músicos. Como curiosidade, a arte da capa traz a interpretação colorida da famosa "Relativity", de M.C. Escher, que mostrava uma escadaria labiríntica com minhocas que representavam a trajetória atual da humanidade no mundo da mecanização como uma engrenagem em uma máquina maior.


Cada membro evoluiu instrumentalmente de forma incrível e isso, junto com o fato de que todos levaram o novo desafio muito a sério, os colocou em destaque. Jose A. Eguino forneceu a estrutura inicial, a parte mais clássica, porque naquela época toda a banda estudava música muito a sério, e em um estúdio de piano, um instrumento que Jose A. Eguino estudou na época, algumas melodias do novo álbum foram acopladas. Por sua vez, Javier Saldias também contribuiu com as letras das músicas.

O álbum abre com a faixa de sete minutos “Pachacuttec (Rey de Oro)”, uma composição em duas partes. Uma verdadeira demonstração de potência, começa com uma avalanche de decibéis, riffs acrobáticos e solos jazzísticos com toques de acid house, sustentados por uma batida de bateria convulsiva com influências latinas e um baixo expressivo. A princípio, tudo parece caótico, mas é perfeitamente controlado. Gradualmente, o trio então mergulha em uma sequência psicodélica e nebulosa, oferecendo um contraste marcante antes da explosão final.

"Pachacuttec (Rey de Oro)"

“Transfusión de Luz” tem o destaque da guitarra e os vocais dão um toque psicodélico inevitável, seguindo a veia inaugurada por bandas do naipe do The Who e Jimi Hendrix Experience. Aqui, Eguini faz um solo francamente memorável e o trabalho da bateria também ganha protagonismo, sendo muito cru e pesado.

"Transfusión de Luz"

“Cuerpo Electrico - Embrión de Reencarnación” é a música que encerra o primeiro lado da versão em LP e mais remete a uma estrutura mais melódica, o que, confesso, me parece um tanto quanto incomum, levando em consideração o álbum, como um todo, que traz um hard rock mais sujo, embora bem estruturado, melodicamente falando. Mas ainda assim surpreende pelo peso, pelo arrojo e pela sua importância, tendendo não apenas para o hard típico dos anos 1970, mas para um proto metal. Nada era feito assim na Bolívia!

"Cuerpo Eléctrico - Embrión de Reencarnación"

“Gusano Mecánico”, a faixa título, abre o lado B da versão em LP e pode ser, sem dúvida, a faixa mais progressiva deles, algo como um belo hard prog. As mudanças de andamento nessa música são perceptíveis e trazem lembranças de faixas progressivas pesadas como “Tarkus”, do Emerson, Lake & Palmer. O destaque fica para a bateria de Córdova. Riffs pesados de guitarra, solos “floydianos”. É um espetáculo técnico, de complexidade, mas, por outro lado, é orgânico, traz um trabalho excelente de instrumentistas de mão cheia.

"Gusano Mecánico"

“Prana – Energía Vital”, ainda traz a qualidade da bateria: pesada, seca, dura, contando com um solo que domina toda a música, sem soar enfadonho, muito pelo contrário. O que poderia ser chato e indulgente, agregou maravilhosamente, trazendo, ou melhor, corroborando a capacidade de seu baterista. É somente a cereja do bolo para exibir o típico e direto hard rock dos anos 1970. 

"Prana - Energia Vital"

“Cristales Soñadores” fecha o álbum e aqui há a adição de teclados e talvez me remete a uma pegada progressiva. Não há informações concretas acerca do músico que tocou teclado no álbum, há quem diga ter sido Nicolás Suárez, porque a banda fez turnê com ele, mas traz, repito, um agradável tempero progressivo. Traz também algo melódico, mais uma vez, como se encerrasse uma viagem. O hard rock continua ali, vivo, latente, mostrando aos ouvintes a verdadeira e genuína vocação desse brilhante álbum.

"Cristales Soñadores"

Um brilhante álbum! Toda essa magia, toda essa explosão criativa do Climax, infelizmente, foi quebrada, de forma triste e precoce. “Gusano Mecánico” marcaria o começo do fim da banda. Pouco depois os músicos se separariam. José Eguino e Álvaro Córdova decidiram deixar a Bolívia. Córdova foi para a Venezuela, onde permaneceu por longos dez anos. Em 1984 retornou à Bolívia, cumprimentou amigos e familiares e não demorou muito tempo, embarcando em nova viagem, desta vez para os Estados Unidos, onde permaneceu por mais uma década.

José Eguino, que praticamente cresceu nos Estados Unidos, estava sempre indo e voltando daquele país. O único que permaneceu na Bolívia foi Javier Saldías, que participou de um número ilimitado de bandas e projetos musicais em seu país, incluindo Mago, Mahadma, Luz de América, Años Luz, Comunidad, david Lamar Trio, entre outros. Saldías também é professor no “Conservatório Nacional de Música” e chegou a estrelar o longa-metragem “Nostalgias del Rock”, de produção boliviana.

Em 1990 o Climax teve uma breve reunião, mas passou despercebido de tão rápido e sem sequer uma difusão digna. Já em 1998 seria lançado o álbum, no formato CD, de nome “Climax, Complete Recordings”, uma reedição de todo o material de estúdio, incluindo os dois EPs gravados entre 1969 e 1970 e o LP “Gusano Mecánico”. O guitarrista José Eguino supervisionou pessoalmente a remasterização, mixagem e digitalização do álbum, garantindo que nenhuma essência musical dos primeiros anos da banda se perdesse.

Em 2002 a banda se reuniria novamente para lançar uma nova compilação, agora de nome “Climax de Colección”, que continha o LP “Gusano Mecánico”, juntamente com as músicas gravadas anteriormente a este trabalho, que estavam nos seus dois EPs, como algumas músicas originais como “El Abrigo Café de Piel de Gallina” e “Ritmo de la Vida”.

“Gusano Mecánico” seria relançado, em 2005, na Alemanha, pelo selo World in Sound, seria relançado também no Brasil, em 2018, pelo selo Retro Remasters Plus, no formato CD e o mais recente relançamento seria em 2025, na Espanha, pelo selo Munster Records.





A banda:

José A. Eguino na guitarra, teclados e vocais

Javier Saldias no baixo

Álvaro Córdova na bateria

 

Faixas:

1 - Pachacuttec (Rey de Oro)

2 – Transfusión de Luz

3 - Cuerpo Eléctrico - Embrión de Reencarnación

4 - Gusano Mecánico

a) Invasión

b) Dominio

c) Abandono

5 - Prana - Energia Vital

6 - Cristales Soñadores



"Gusano Mecánico" (1974)





















 





 


sábado, 25 de abril de 2026

Lyd - Lyd (1970 - 1992/2000)

 

Os álbuns concebidos e lançados, na transição das melhores décadas do rock n’ roll, décadas de 1960 e 1970, gozam de uma peculiaridade especial: você percebe o beat, o experimentalismo do rock psicodélico e as nuances pesadas embrionárias do hard rock dos anos 1970. É pitoresco as bandas que se aventuram em sonoridades novas, experimentais, deixando simplesmente a criatividade e a liberdade musical falar mais alto.

Mas pagavam, com isso, um preço alto pela “audácia” sonora, fugindo das tendências e modas construído por um mercado fonográfico que decididamente está contra a arte manifestada como ela deve ser: pura, genuína e desprendida de estereótipos.

Claro que neste reles e humilde blog, marginal e independente, essas bandas surgem e em profusão, mostrando um lado esquecido e empoeirado do rock n’ roll que até mesmo os apreciadores do estilo desconhecem e arrisco em dizer que rejeitam. Aqui essas bandas ganham vida e tem as suas histórias contadas, por mais que elas sejam escassas de informações.

E todo esse texto introdutório, do jeito que eu gosto, é para anunciar ou melhor escrever sobre mais uma banda esquecida, engavetada pelos burocratas da música que torceram o nariz para o seu pequeno, mas significativo material lançado ou diria que não foi oficialmente lançado. Falo da banda THE LYD ou LYD.

The Lyd ou Lyd (denominado assim nos relançamentos) foi formada em Los Angeles, a meca da psicodelia e contracultura norte americana e mundial, no final dos anos 1960, mais precisamente no ápice do rock psicodélico norte americano, em 1969. A banda era formada por: Jack Linerly na guitarra e vocais, Frank Tag na guitarra, piano e vocais, Rob Weisenberg no baixo e vocais e Chet Desmark na bateria, percussão e vocais.

Reza a lenda que o The Lyd ou Lyd não era necessariamente uma banda, mas um grupo de músicos que, eventualmente eram reunidos em estúdios para gravar uma música e outra e só entrava sob efeito de alguma substância, algum psicotrópico, mais precisamente um LSD, o famoso ácido lisérgico.

E por falar em estúdios, nada da banda foi lançado, de forma oficial, àquela época, mas quando entraram no estúdio de Pat Boone, em Hollywood, Califórnia, chamado Sunset Recording Studios, algumas músicas foram concebidas, algumas músicas foram gravadas, mas apenas isso. Sim! Não passou de algumas cópias de acetatos, que totalizaram apenas 21 minutos de duração, apenas um lado utilizado, sem capas, sem arte gráfica, até mesmo os nomes das músicas não foram escritos nesses acetatos, estava apenas descrito como “faixa número um”, “faixa número dois” etc. Era como se tudo estivesse ainda em estado puro, ainda por lapidar, no início do projeto, talvez.

O ano era 1970! Outra lenda que circula é de que apenas uma cópia original desse acetato, com um total de seis músicas, foi concebida. Outras escassas fontes dão conta de que três ou quatro cópias desse material foram feitas. E, para não dizer que não havia capas ou uma arte gráfica minimamente feitas, o que teria sido feito ou melhor produzido naquela época, em 1970, era uma capa, em preto e branco, com a ilustração, adivinhem, de um cara fumando maconha no centro. O verso era completamente branco. No selo dizia: “Sunset Recording Studios, Inc 5539, Sunset Boulevard, Hollywood, Califórnia, The Lyd Side 1. Essa é a comprovação cabal de que era um trabalho ainda bruto, a ser lapidado e em processo de feitura e que, por algum motivo, não foi dada sequência.

Outra informação que circula, acerca do único trabalho produzido do The Lyd ou Lyd, os tais acetatos teriam saído ou roubados dos arquivos dos estúdios e ganhado o mundo, sendo pirateados e assim, dessa forma, lançados, mas falemos disso depois, porque precisamos falar dessa pepita de ouro no seu estado puro e brutal. Assim eu, de imediato, descreveria o álbum ou acetato do The Lyd, homônimo: sujo, brutal, selvagem para os parâmetros da época, o que, claro, me deixou entusiasmado quando fiz a primeira audição.

“The Lyd” trazia a estética dos anos 1960 em transição para a década de 1970: Um poderoso álbum, de 21 minutos, de hard psych, sujo, selvagem, um rock de garagem sensacional. Acredito que aquelas substâncias utilizadas possam ter tido, claro, além da criatividade e talento de seus músicos, influência sobre essa música tão pesada, lisérgica e poderosa do The Lyd. Aqui a atmosfera intensa, típica de porão úmido e escuro, com guitarras crocantes e pesadas, cheias de distorção, com longas excursões de fuzz é a tônica deste trabalho.

As músicas, como estavam descritas, nos seus acetatos originais, estavam apenas numeradas, os nomes destas podem ter sido alterados de acordo com os tais relançamentos, então vamos a elas! O trabalho é inaugurado pela faixa “The Time Of Hate And Struggle” ou “Part One” que inicia viajante, psicodélica, guitarras mais dedilhadas. Os vocais são dramáticos, de atmosfera sombria, seguindo a proposta sonora, mas não demora muito para se ouvir um riff mais pesado e denso e assim alterna, entre o peso e o sombrio. Uma faixa estranha, lisérgica e pesada, mostrando o melhor das décadas de 1960 e 1970.

"The Time of Hate and Struggle" ou "Part One"

“Need You” ou “Part Two” já começa animada, solar, com riffs pesados e grudentos de guitarra, solos simples e diretos faz da música algo sujo, despretensioso e garageiro. Os vocais assumem um belo alcance, algo mais alto e limpo, seguindo a tônica mais enérgica da música. Aqui o hard rock parece ganhar vida e ter certo protagonismo. Mas aquela pegada dançante, típica dos anos 1960, ainda está lá.

"Need You" ou "Part Two"

“Stay High / Fly Away Is Still Ok” ou “Part Three” me remeteu a algo como The Stooges, por exemplo. Aqui a sonoridade é mais suja e pesada e traz reminiscências do proto punk e do heavy metal. A bateria tem uma pegada mais dura e pesada e o baixo é evidentemente galopante. As nuances do heavy e punk estão aqui como se fosse uma maquete do que ganharia vida na segunda metade dos anos 1970 e início dos anos 1980.

"Stay High / Fly Away is Still OK" ou "Part Three"

“Double Dare” ou “Part Four” é uma faixa de tiro curto e vem com um vocal meio falado (seria os primórdios do hip hop?), mas forjado com um hard rock típico, com bateria dura, marcada e pesada e riffs e solos de guitarra de tirar o fôlego. “Think It Over Twice” ou “Part Five” começa estrondosa, com riffs poderosos de guitarra, solos grudentos e sujos e variavelmente com alternâncias de uma sonoridade, que vai do hard para uma música mais sulista, no mínimo intrigante e interessante. Mas aqui o peso e a audácia são protagonistas. Vocais gritados, solos bem elaborados de guitarra, em alguns momentos. Aqui o hard rock ganha vivacidade e não há sequer sinal da psicodelia. Nesta música o The Lyd mostra o seu lado mais arrojado e complexo.

"Think it Over Twice" ou "Part Five"

E fecha com “Trash Pad” ou “Part Six” que traz à tona novamente o lado psicodélico do álbum. Nessa faixa há a percepção do psych underground, mais com uma pegada mais dançante, porém os riffs de guitarra fazem questão de mostrar que o peso típico da banda ainda estava lá. Vocal meloso e mais limpo são os destaques da faixa.

"Trash Pad" ou Part Six"

Muitos apreciadores e colecionistas de vinis atribuem ao selo Akarma o lançamento oficial do álbum do The Lyd ou Lyd, em 2000, na Itália. Mas, de acordo com algumas escassas referências que há na web, o primeiro relançamento foi feito selo belga Fanny, também conhecida como Fanny Records, em 1992, especializada em lançamentos de álbuns raros, nem sempre oficiais, com capa diferente dos relançamentos posteriores. Entre 2000 e 2012 outros relançamentos aconteceram, a maioria na Itália, também, claro, outros relançamentos foram piratas.


“The Lyd” pode ser encarado como um trabalho original? Diria que não! Um marco na história do rock? Talvez. Mas não estou aqui a decidir isso, tão pouco estipular ou definir quaisquer coisas a esse respeito! Mas é inegável dizer que bandas como The Lyd trouxe ao rock o frescor da novidade, como tantas outras, que caíram no ostracismo, que trouxeram uma música arrojada, perigosamente underground e viva, latente aos ouvidos e ao coração daqueles que sempre buscaram e buscam algo novo para as suas audições.






A banda:

Jack Linerly na guitarra e vocal

Frank Tag na guitarra, piano e vocal

Rob Weisenberg no baixo e vocal

Chet Desmark na bateria

 

Faixas:

1 - The Time Of Hate And Struggle

2 - Need You

3 - Stay High / Fly Away Is Still Ok

4 - Double Dare

5 - Think It Over Twice

6 - Trash Pad 




"The Lyd" ou "Lyd" (1970)





























 


sábado, 18 de abril de 2026

Mount Rushmore - High On (1968)

 

São Francisco, na Califórnia, definitivamente foi o epicentro da contracultura norte americana e, arrisco dizer, mundial, na segunda metade dos anos 1960. O movimento hippie e sua proposta de paz e amor ecoava em cada canto daquelas ruas e tinha, como principal difusor, a música e as suas inúmeras bandas que ganharam o mundo com os seus hinos beat e dançantes. E aqui podemos destacar, de imediato, bandas do naipe de Big Brother and The Holding Company, Janis Joplin, The Grateful Dead, The Doors, e tantas outras.

A sonoridade lisérgica, por vezes experimental, dançante e até mesmo minimalista, era o cerne da cena que pulsava em shows e personificava em protestos anti-guerra e contra um conservadorismo imposto pelo status-quo. Mas a música lisérgica, psicodélica, com um viés criativo calcado na revolução jovem, também tinha nas drogas a possibilidade da expansão da mente e da liberdade tão ardentemente propagada.

Mas as revoluções não eram apenas ditadas no comportamento, mas se revelava também na sonoridade das músicas ouvidas àquela época, e não tão apenas naquela que a cena entregou para o mundo com as suas bandas famosas, com o beat dançante, experimental, e sim às músicas ditas “garageiras”, comumente consideradas como mais pesadas, distorcidas, eletrificadas, com um proto hard rock que destoava do que se fazia em profusão naquela terra.

E não podemos negligenciar o blues eletrificado do grande Blue Cheer, que foi o grande representante de “peso”, literalmente falando, daquela época, na terra do Tio Sam. E, ouvir o seu debut “Vincebus Eruptum”, de 1968, ápice da psicodelia paz e amor, é como ouvir uma bomba poderosa e devastadora de blues elétrico que definitivamente não se adequava ao som massivamente propagado em sua época. Não foi à toa que o Blue Cheer, com seu trabalho, não só inaugural, mas discográfico, não viu a luz do sucesso e trafegou pelo underground.

Blue Cheer - "Vincebus Eruptum" (1968)

Essa “revolução” sonora me agrada imensamente e tem me colocado em uma posição de garimpo incessante e eis que descubro uma pérola que lamentavelmente não ganhou a luz do glamour e o sucesso de pertencimento de uma cena tão proeminente como a de São Francisco nos idos dos anos 1960. Falo do MOUNT RUSHMORE.

O blues rock pesado é a espinha dorsal de sua sonoridade, claro, que a atmosfera psicodélica teria de ser inerente, afinal, inserida em um contexto sonoro tão forte e latente como esse, torna-se inevitável, mas o hard rock, ainda um tubo de ensaio no rock, estava definitivamente delineado, desenhado e vivo em sua sonoridade. Um som cru, direto, sem firulas, se via, ou melhor, ouvia no som do Mount Rushmore.

Mas acalmem-se, estimados leitores, não falemos ainda de sua música e de seu debut, de 1968, centro do texto de hoje, chamado “High On’, mas tentarei contar um pouco dos primórdios da banda que talvez possa corroborar ou ainda incrementar o status de banda cult e, diria, sem medo, revolucionária que estava totalmente dissociada de seu tempo. Dizem por aí que o tempo é relativo, o que dizer da música daquela época, capitaneada por bandas esquecidas e obscuras como o Mount Rushmore?

A banda se formou no final de 1966, na 1915 Oak Street, uma grande pensão vitoriana no distrito de Haight-Ashbury. Em junho e julho de 1967, eles apareceram em cartazes de shows, no Avalon Ballroom, com outras, incluindo o Quicksilver Messenger Service e Big Brother and The Holding Company. Não precisa dizer que a banda ganhou certa atenção devido a sua sonoridade sendo potencializada em performances ao vivo. Assim ganhou certa reputação ou no mínimo atenção entre os ouvintes e conhecida, naquela época, como uma banda ao vivo.

E no período entre a sua fundação e a gravação do seu debut, em 1968, a banda teve muita movimentação em sua formação, até se constituir nos seguintes músicos que gravariam “High On”: Mike Bolan (“Bull”) nas guitarras, Glenn Smith “Smitty” nos vocais e guitarras, Travis Fullerton na bateria e percussão e Tery Kimball no baixo.

Esse certo destaque na cena local graças ao seu som um tanto quanto deslocado que se fazia na segunda metade dos anos 1960, lhe rendeu um contrato com a Dot Records, de onde saiu o já mencionado debut, “High On”, de 1968. E esse som garageiro, tão evidente na sonoridade blues eletrificado deste álbum, traz a sensação de que o seu acabamento está mais adequado para uma demo do que para um álbum convencionalmente finalizado.

Porém, como não estou muito preocupado com sonoridades convencionais e ortodoxas, muito me fascina, ou pelo menos tem me fascinado nos últimos anos, e sim, me pautará pelos próximos mil anos (risos)! Mas creio que essa deliciosa sensação se explique pelo fato da sua produção, afinal, uma banda pouco conhecida, com uma sonoridade pouco, digamos, arrojada, não se espera que tenha um financiamento alto para a produção de seu álbum. Essa produção dá o charme ao som do Mount Rushmore, definitivamente harmoniza e catapulta o seu som metálico, com habilidades mais simples, diretas e orgânicas, com riffs de guitarras carregados e pesados, com uma “cozinha” igualmente pesada e cheia de groove.

O álbum é inaugurado pela faixa “Stone Free”, clássico do Jimi Hendrix, que aqui soa mais animada, mais comercial, diria, com uma pegada mais hard e menos bluesy, mas, ainda assim, se percebe que a banda estava estabelecendo o território que queria explorar, sonoramente falando, haja vista que Hendrix, com suas músicas, também ajudou a pavimentar o blues rock pesado nos Estados Unidos e no mundo! Sim foi ousado pela parte do Mount Rushmore, mas mostrou personalidade ao “descaracterizar”, o clássico de Hendrix. Os riffs pegajosos e pesados de guitarra ornamentam o conceito fundido de hard rock, a bateria pesada e marcada, o baixo dançante e galopante. O vocal alto, por vezes é gritado. É inegável perceber que é uma versão solar e extremamente dançante.

"Stone Free"

Segue com “Without No Smog” que já traz, sem sua sonoridade, a pegada blues rock mais vívida. A guitarra “chora” em solos curtos, a seção rítmica acompanha, dando um tempero mais hard rock, à faixa. O vocal segue os dedilhados da guitarra e se revela mais melódico e dramático. Na metade da música a lisergia devolve a banda ao seu tempo, a guitarra, ácida, destila peso indulgentemente. Experimentalismo mostra uma banda mais sombria na segunda metade da música.

"Without No Smog"

“Ocean” continua na mesma pegada que a faixa anterior, mas aqui o hard rock puro e genuíno se mostra mais vivo, com requintes de detalhes no vocal rasgado, nos riffs sujos de guitarra e na bateria com batida forte e pesada. E tudo fica mais perigoso e dançante com a percussão, algo tribal invade o rock n’ roll direto da música.

"Ocean"

“I Don’t Believe in Statues” tem uma pegada mais beat, psicodélica, mas com o sabor do peso, com riffs de guitarra carregados e gordurosos, é aquela aspereza típica do álbum, sem nenhum refinamento, ainda bem. Aqui torna-se mais perceptível uma camada, embora sútil, mas bem significativo, do teclado, do órgão, dando-lhe um direcionamento para o psicodélico, para a acidez e lisergia.

"I Don't Believe in Statues"

“Looking Back” chega, no auge dos seus quase dez minutos de duração como uma louca e deliciosa epopeia calcada em um colapso de jam bruta, áspera, pautada na lisergia de riffs encarnados de guitarra, com uma bateria mais cadenciada e um baixo que, apesar do caos sonoro desorientado, se mostra fiel a batida da percussão. Momentos de experimentalismo e viagem sonora são percebidas dentro desse contexto, tornando tudo ainda mais caótico e estranho. Uma batida surge mais dançante que, loucamente, me remeteu a uma bossa nova, se não estou insano em perceber isso! Mas a música é insana e pouco rotulável ou nada estereotipada. Uma música espetacular!

"Looking Back"

“('Cause) She's So Good to Me” vem animada, com alguma velocidade, onde ouso dizer que me remete a um heavy metal, antes do heavy metal. Bateria arrogantemente pesada, os pratos parecem que vão explodir, os riffs de guitarra continuam a ser sujos, quase indecentes aos ouvidos e bom senso pretencioso dos ortodoxos do rock. Os gritos vocais abraçam ou corroboram o peso da música e anarquicamente encaram o status quo com desdém e arrogância. Espetacular!

"('Cause) She's So Good to Me"

A derradeira faixa é um “medley” das faixas “Fanny Mae” e “Dope Song” e tudo indica ter sido captada em uma dessas pequenas e fedorentas casas de shows, mas a vibração de um pequeno público pode ter sido colocada mecanicamente em estúdio, enfim...O fato é que nessas faixas o que impera é o blues rock. A essência da banda saí pelos poros dessa música. Peso cadenciado, animado, solar se faz presente em cada riff e melodia. Aqui o som me parece ser mais polido, a banda se “esforça” para ser mais técnica e prudente. Ainda assim são faixas especiais e que fecham brilhantemente esse belíssimo álbum.

"Fanny Mae / Dope Song"

Há breves notas do encarte do álbum “High On” que diz que a banda se autoproclama os “rapazes do interior” que adoram levar seu caminhão cinza e funky para a estrada, se encarando como “caipiras”, cheios de confiança e arrogância, mas com apenas habilidades mais simples. E não me parece nem um pouco arrogante essa percepção, muito pelo contrário. Assim é “High On”, assim é o Mount Rushmore. Perigoso, pesado, diferente em sua sonoridade em um universo do beat e do “flower power”.

"Mount Rushmore '69 (1969)

E essa linhagem sonora traria um custo muito adverso para o Mount Rushmore. Após o lançamento de “Mount Rushmore 69”, a banda não teve a adesão comercial de muito dos seus contemporâneos e, no mesmo ano de lançamento, do segundo álbum, 1969, a banda sucumbe e finaliza as suas atividades. É o preço que se paga por serem aventureiros, os “rapazes do interior, no ápice de sua ingênua arrogância, onde se renderam à criatividade.

Não consegui apurar, com devida precisão, se “High On” teve outros relançamentos. O que se sabe é que há um relançamento importante, talvez no formato CD, dos dois álbuns juntos pelo selo Lizard Records em tiragem bem limitada.

Pouco se sabe sobre o paradeiro dos músicos, o que lamentavelmente se torna mais do que normal, levando em consideração o que produziram com seus dois únicos álbuns, apenas se soube do “paradeiro” do baterista Travis Fullerton que alcançou um reativo sucesso posteriormente como membro do Sylvester And The Hot Band.




A banda:

Mike Bolan (“Bull”) nas guitarras

Glenn Smith “Smitty” nos vocais e guitarras

Travis Fullerton na bateria e percussão

Tery Kimball no baixo

 

Faixas:

1 - Stone Free

2 - Without No Smog

3 - Ocean

4 - I Don’t Believe In Statues

5 - Looking Back

6 - (‘Cause) - She’s So Good To Me

7 - Medley: Fanny Mae / Dope Song 




"High On" (1968)