O rock n’ roll francês nunca
teve, penso, a visibilidade que merecia, sobretudo nos anos 1970. Evidente que
há bandas importantes, que trilharam um caminho de sucesso e reconhecimento,
mas infelizmente foram poucas que ganharam a tal notoriedade, como por exemplo,
o Magma e o Angie, falando de rock progressivo e hard rock, especificamente.
Mas há aquelas que trafegam o
caminho da obscuridade, que não ostentam ou ostentaram o sucesso comercial,
mesmo que, muitas delas, tenham sido referência em suas vertentes sonoras. É
possível ser obscura e ser referência, ao mesmo tempo? Para algumas bandas,
sim!
Uma, em especial, merece
atenção, principalmente pelo seu guitarrista, um dos mais influentes do início
da década de 1970 dentro do hard rock francês: Claude Olmos. Ele, ao longo de
sua trajetória, de sua carreira, flertou com o rock e com a música pop, com
tonalidades mais comerciais, construindo uma carreira reconhecida, sobretudo na
França.
Mas a banda que falarei hoje,
dos primórdios dos anos 1970 que, sem dúvida alguma, está no panteão das
grandes desconhecidas do rock francês setentista. Falo do COEUR MAGIQUE. Não
podemos deixar de contar a história de Olmos para falar dessa banda que deixou
apenas um registro, em 1971, fonográfico, chamado "Wakan Tanka".
Olmos nasceu em maio de 1946
em Marselha e acompanhou vários artistas como Sylvie Vartan, Michel Sardou e Johnny
Halliday. Seu modelo era Jeff Beck, mas especialmente Jimi Hendrix,
canhoto como ele, mas tocando com as cordas invertidas no estilo de Albert
King, uma de suas referências também.
Sua carreira começou em meados dos anos 1960 com os 5 Gentlemen e o single folk "Dis-Nous Dylan", mas também com Roy Swart'S and His Blues Shakers, um grupo de rhythm & blues garage que tem como crédito a música chamada "Please Mister Johnson". Em 1969, conheceu o cantor Alan Jack, com que se apresentou com a banda Alan Jack Civilization. Após dois singles, uma apresentação no Festival Amougies e um álbum, a banda se desfez.
Em 1970, na cidade de Paris,
Olmos, após a sua saída do Alan Jack Civilization, se juntaria ao vocalista
Harry Seur, ao baixita Didier Batard, também conhecido como Didier Lessage e ao
baterista Laurent Marino formando o Coeur Magique ou, em tradução livre,
significa “Coração Mágico”.
Seu único álbum, lançado em
1971, chamado “Waken Tanka” é cantado todo em francês (Ao contrário de Alan
Jack Civilzation, com letras em inglês), composto por sete faixas com apenas
trinta minutos de duração. Foi gravado de 16 a 30 de março de 1971, no Studio
Michel Magne, Château d'Hérouville. Com engenharia de direção de Dominique
Blanc-Francard com assistência de Gilles Sallé. Produzido por Jean-Luc Young e
Jean Georgakarakos. Com o selo BYG Records. A arte da capa é de Claude Olmos e
a fotografia de Richard Charpagne.
“Wakan Tanka”, que significa
“Grande Espírito”, transita no hard rock, psicodelia ao estilo lisérgico bem
pesado, com explosões de fuzz ao estilo Jimi Hendrix, com interessantes e
atípicos interlúdios tribais e surtos adoráveis de jazz/funk, culminando, por
exemplo, na faixa-título que traz uma jam de longa duração bem
estruturada como uma cerimônia de vodu, retratando fielmente o que é o álbum,
como um todo.
O álbum é inaugurado pela
faixa “Pacha” que, embora seja curta, traz um instrumental furioso construído
sobre riffs de guitarra fuzz e rimos consistentes, musculosos e bastante
pesado. O hard rock na verdadeira acepção da palavra. Na sequência tem
“Mademoiselle Marie” que já entrega uma pegada mais funky, mais dançante
e solar, com um tempo médio. A linha de baixo precisa ser lembrada nesta faixa,
pois é marcante, com um groove envolvente e sedutor, além de um vocal bem
irônico.
A faixa seguinte, “Scène de
Ménage”, entrega um blues rock pesado, intenso e consistente, com um refrão
estrondoso e um solo de guitarra repleto de wah-wah, ao estilo Hendrix de ser.
“Le Cocotier (Part 1)” traz Olmos cantando e tocando marimba. Entrega uma
música exótica, imerso em ritmos tipicamente caribenhos. “Le Cocotier (Part 2)”
continua na loucura exótica com percussão tribal e conotações jazz-rock bem
atípico e interessante.
O lado B começa com a mais
ousada faixa do álbum, a faixa-título arrasa quarteirão “Wanka Tanka” que, no
auge dos seus 9 minutos, começa com tons ritualísticos, muda para um funk
pesado e cheio de groove e explode em jams ao estilo Carlos Santana. E fecha
dignamente com a faixa “Ellocia”, uma balada melancólica e dramática, envolta
em um psicodelia pesada, lisérgica, com vocais igualmente dramáticos e solos
carregados de reverberação.
O BYG Records lançou dois
singles: "Wakan Tanka" (b/w "Ellocia") e "Le Cocotier
Part 1" (b/b "Part 2"). Logo após o lançamento de “Wanka Tanka”
o Couer Magique se separaria, levando a crer se tratar de um projeto de
estúdio, sem pretensões de fazer apresentações ou lançamentos futuros.
Claude Olmos se juntaria ao
Magma, em 1973, tocando guitarra no clássico álbum, de mesmo ano, chamado “Mekanïk
Destruktïw Kommandöh”. Mais tarde, ele acompanhou ícones franceses do pop como Sylvie
Vartan e Johnny Hallyday. Batard também trabalhou na banda de apoio de
Christophe, Bahamas, e no grupo de jazz-rock Blue Rose. Laurent Marino foi para
Moleskine no meio da febre da disco. Harry Seur tentou uma carreira solo sob o
nome Harry Spencer. Didier Lessage (Didier Batard), vai se juntar a Bahamas,
Heldon e vai prestar seus serviços a Véronique Sanson, Mike Lester, Patrick
Juvet e Alain Bashung.
A banda:
Claude Olmos na Guitarra e vocais
Harry Seur nos Vocais
Didier Lessage no Baixo
Laurent Marino na Bateria
Faixas:
1 - Pacha
2 - Mademoiselle Marie
3 - Scène De Ménage
4 - Le Cocotier (Part 1)
5 - Le Cocotier (Part 2)
6 - Wakan Tanka
7 - Ellocia


























