Aos saudosistas que acham que
o rock italiano se limita ao progressivo, está totalmente equivocado ou não
quer aceitar que aquele país está trafegando em outras vertentes do rock n’
roll. E não se enganem também de que se tratam de bandas “retrô” que emulam
fielmente sonoridades dos anos 1970 e 1980. São bandas que trazem o frescor de
um rock mais arrojado e pouco ortodoxo.
Claro que ouvimos referências
de cenas de outrora, mas que entregam mesclas totalmente inusitadas para os
ouvidos demasiadamente conservadores e que traz um tempero totalmente novo e
sedutor aos ouvintes sedentos por sons novos. Preciso falar do MESSA.
A banda, oriunda de Veneza,
foi fundada em 2014, banda extremamente nova e que, com seus quatro álbuns de
estúdio lançados, em um curto período de nove ou dez anos, trouxeram uma
sonoridade calcada no heavy metal, doom metal mais épico e cheio de camadas que
vai do new wave ao black metal, carregados de uma atmosfera sombria e marcada
pelo experimentalismo e post metal. Loucura, não é? Talvez sim, pelo fato de
trazer esses rótulos sonoros, mas na prática, a magia acontece.
Acontece de uma forma nem um
pouco datada, deixando a criatividade falar mais alto, sem amarras, sem
constrangimento algum de sentir medo da rejeição, muito pelo contrário, haja
vista que, diante de tantas vertentes percebidas, a chance de absorver fãs dos
mais diversos sons que floresce no rock, é grande, muito grande.
Evidente que a banda ainda
navega pelas águas do underground, mas o faz com maestria, ganhando olhares
interessados e arrebatadores. É uma sonoridade consistente, cheia de alma, de
sua verdade na mais pura e genuína concepção. Apesar de absorver várias vertentes
é nítido e cristalino que existe uma sonoridade bem definida, bem delineada e
que edifica a banda a um status que, a médio e longo prazo, de inovadora. Não
sei se estou em um estado tamanho de catarse que me impede de ser mais
racional. O fato é que a banda, em uma curta trajetória discográfica, está
dizendo a que veio.
E falando em discografia
preciso, mesmo que de forma bem resumida e rápida, falar sobre seus petardos
sonoros, a começar pelo seu debut, “Belfry”, de 2016, com um desenho mais
voltado para o doom metal, com aquela atmosfera de occult rock densa e pesada.
Depois surgiu para o mundo o segundo trabalho da banda, chamado de “Feast for
Water”, de 2018. Aqui ele traz também a pegada doom, mas com uma dose louca e
inusitada de blues e post metal, com nuances sutis de progressivo, um metal
progressivo volumoso e potente.
O terceiro, lançado somente em 2022, chamado de “Close”, já traz algumas mudanças, diria, significativas, importantes na sonoridade do Messa. Há algo hipnótico e imediatamente nostálgico, mas com o pé da vanguarda fincado no chão. O rock progressivo está mais vívido nas suas composições, fazendo deste álbum o passo mais significativo para a evolução de seus músicos e de sua música.
E esse momento culmina com seu
mais recente lançamento, de 2025, chamado de “The Spin”. Aqui o Messa atinge, a
meu ver, o nirvana sonoro, aqui a banda se aventura em mais vertentes do rock,
aliando tudo que, até então, tinham produzido nos seus três primeiros álbuns, e
mostrando para o seu público, para o mundo uma sonoridade calcada no heavy
metal, no black metal, no doom metal, no post metal, no metal progressivo, com
a new wave.
“The Spin” é um álbum sedutor,
deliciosamente atraente, nostálgico, mas com a criatividade dando o norte para
o um futuro promissor do rock, sem amarras, sem estereótipos, sendo
simplesmente a música pela música. E será nessa viagem louca e necessária que
tentarei falar sobre o mais recente trabalha da banda veneziana.
Eu confesso, estimados
leitores, que esteja “contaminado” pela euforia de ter feito, desde que esse
trabalho do Messa foi lançado, inúmeras audições de “The Spin” e que esteja
movido pela passionalidade sendo, consequentemente, incapaz de traduzir em
texto, uma crítica construtiva e sem emoções deste álbum. Mas que se dane!
Afinal música traz uma dose de emoção e passionalidade e aqui, pelo menos nesse
momento, é o que virá à tona.
Mas como não permitir vir à
tona quando se, além das vertentes mencionadas, você ainda perceber jazz,
blues, o peso seco e direto do stoner, tendo a aura melancólica do doom em sua
dança mais épica e menos suja, como típico de sua gênese. E por mais que se
revele sombria, oculta, mostra também, por outro lado, suas emoções mais
ousadas e declarativas. É incrível o quanto esse mais recente trabalho do Messa
é complexo, dramático, melancólico, pesado e contemplativo.
A formação do Messa, para “The
Spin”, cuja gravadora é a Metal Blade Records, traz: Sara Bianchin, nos vocais,
Mark Sade no baixo e guitarra. Alberto Piccolo, na guitarra e Rocco na bateria,
além de Michele Tedesco, no trompete e Andrea Mantione nos sintetizadores, que
também foram determinantes para a construção sonora deste álbum. Essa formação,
a propósito, é a única desde o início da trajetória discográfica da banda,
claro, exceto aos músicos contratados. Digo de Sara, Mark, Alberto e Rocco.
A faixa de abertura é “Void
Meridian” que dedica um momento a desenvolver um estilo sério, girando seus
motores movidos a sintetizadores até que a força da música tenha uma progressão
digna de um doom metal que remete ao Trouble, como desfecho. Um começo meio
rocker, com zumbidos etéreos, antes do bálsamo mais pesado e rasgado do seu
fim. Aqui a banda mostra a sua incrível conexão emocional com a alma de um
blues rock pesado, com um doom mais melancólico e sombrio.
Segue com “At Races” que se
mostra cativante, embora se apresente um occult rock e até mesmo algo como um
hard psych, bem lisérgico, arriscaria dizer. Ela me traz a sensação latente de
um tom embriagante, empolgante, que forja um fio convincente e sombrio ou pelo
menos reverente. Tem refrão potente, tempos viciantes e vocais arrebatadores e
extremamente delirantes.
“Fire on the Roof” se mostra
igualmente cativante, o vocal de Sara é admirável, sendo forte, alto, mas
cristalino e muito competente. Aqui se percebe, além do peso do doom metal
arrastado, porém épico, um synth-rock que te remente imediatamente aos anos
1980, onde o Messa evoca influências que vai do Sisters of Mercy ao Mercyful
Fate. O peso do doom e do heavy metal mesclado ao gótico com tempero da new
wave dos anos 1980. É simplesmente incrível essa faixa e que nos faz querer
ouvir e ouvir novamente.
“Immolation” já chega mudando
um pouco a dinâmica do álbum. Trata-se de uma balada, linda, contemplativa,
sombria. E embora não seja exatamente inédito em termos de instrumentalização,
principalmente visto em seu álbum anterior, “Close”, tudo, nessa faixa, é
reduzido às estruturas tradicionais de um hard rock que vai evoluindo,
encorpando, tendo, consequentemente uma abrupta transformação. Fica o destaque
para o slide guitar de Alberto!
Eis que surge talvez a faixa
destaque do álbum, “The Dress”! A começar com as harmonias vocais de Sara que
entrega um nível de ressonância incrível, isso tudo alinhado a experimentação
destemida de toda a banda. Aqui a ousadia instrumental beira a complexidade com
um solo de trompete assombroso de Michele Tedesco, fundindo a intensidade lenta
do doom, com a fluidez estranha do jazz, criando algo único e intenso aos
ouvidos e a alma.
“Reveal” surge hasteando a
bandeira do heavy metal! É impossível não passar incólume nessa faixa, sendo
extremamente animada, pesada, com um groove totalmente diferente do que se ouve
no álbum. Timbre rítmico envolvente, uma guitarra elástica, com movimento acelerado,
que lembrou, penso, algo como death e black metal.
E fecha com “Thicker Blood” que traz a combinação mais do que completa do rock gótico dos anos 1980 em sintonia com o doom metal mais tradicional, arrastado e sujo. Na realidade aqui nesta faixa percebemos a versão mais evidente do Messa nos seus primeiros álbuns, com uma música mais pesada e direta, trazendo elementos-base de sua música, calcada no heavy metal e no doom metal.
A arte da capa de “The Spin” é
assinada por Nico Vascellari e, à primeira vista, se revela discreta, mas
curiosa com um olhar mais profundo. Trata-se de um “ouroboros” metálico
emergindo das sombras. Embora eu não possa dizer que entendo o simbolismo
diretamente, ele combina com a mentalidade clássica do rock gótico que está bem
presente na estrutura sonora deste álbum.
Penso que as escolhas da banda
para a arte do álbum parecem ser motivadas por emoção, talvez por um senso de
lugar ou movimento que funciona com cada lançamento e suas particularidades.
Mas agora o simbolismo parece, ao mesmo tempo, contemplativo e até conflituoso.
“The Spin”, com esse
pensamento, se mostra extremo, um exorcismo do “underground extremo” até as
raízes rock não tão terrosas assim. O Messa quis mostrar, com seu mais novo
recente trabalho, uma profundidade maior ao “esculpir” tais ideias às músicas,
mostrando uma nítida mudança de paradigma sonoro, sobretudo nas suas melodias,
entregando para os seus ouvintes uma audição dignamente memorável, mas também
mostrando ao mundo a que veio.
As fusões das vertentes
sonoras, as emoções mais variadas, a sonoridade orgânica e rebuscada faz de
“The Spin” um álbum surpreendente, inventivo, transcendendo o metal e
mergulhando o ouvinte em um mundo de beleza assombrosa e emoção extremamente
carregada e cheia de nuances imprevisíveis. Para apreciadores de algum tempo da
banda, “The Spin” trará uma revelação e para os novatos poderá ser uma
introdução arrebatadora.
A banda:
Sara Bianchin nos vocais
Mark Sade no baixo e guitarra
Alberto Piccolo na guitarra
Rocco na bateria
Com:
Michele Tedesco no trompete
Andrea Mantione nos teclados,
pianos e sintetizadores
Faixas:
1 - Void Meridian
2 - At Races
3 - Fire on the Roof
4 - Immolation
5 - The Dress
6 - Reveal
7 - Thicker Blood




























