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terça-feira, 19 de agosto de 2025

Reaction - Reaction (1972)

 

A razão da existência desse blog, além de trazer histórias de bandas de rock e seus mirabolantes álbuns, é basicamente subverter certas “conveniências” do rock e o glamour, muitas vezes inatingível e pouco palpável. É trazer fatos e casos que fogem daquele formato óbvio das cenas e das suas músicas e culturas comportamentais das épocas.

O custo com isso sempre é o afugentamento daqueles que não entendem essas subversões, a rejeição ao obscuro, ao sombrio vilipendiado, aos marginalizados do rock, aos fracassados. Fracassados? Sim, mas criativos! Ousados!

E na Alemanha, apesar da difusão do experimentalismo e do minimalismo do krautrock, tínhamos, sem dúvida, algumas bandas que subverteram (olha a palavra de novo!) ao que se fazia na segunda metade dos anos 1960 e início dos anos 1970. Podemos elencar um bom número delas, mas preciso destacar uma banda, pouco conhecida, mas que se esquivou do krautrock típico daquela longínqua época: falo da banda REACTION.

Definitivamente o Reaction estava totalmente na contramão do que os seus contemporâneos estavam fazendo e que, dentro do underground, estava ganhando alguma notoriedade, sobretudo em terras inglesas. Talvez por isso seu único álbum, lançado em 1972, homônimo, não tenha conquistado o interesse da crítica especializada, inclusive do público.

E com esse cenário de total ostracismo, a consequência seria o fim precoce e iminente e foi o que aconteceu. Mas esperem, caros e estimados leitores, não o farei agora, embora eu não tenha conseguido encontrar muito material de referência para construir esse texto, afinal, pouco se sabe sobre o Reaction, mas tentarei trazer o máximo que pude encontrar sobre essa seminal banda.

Uma seminal banda que, com seu álbum, apesar de cru, poderoso, envolto em hard blues potente e agressivo, não trazia nada de novo à época, embora tenha se deslocado do que as bandas alemãs estavam fazendo, mas se assemelhava e muito com o que bandas inglesas como o Cream e a americana radicada na Inglaterra, o Jimi Hendrix Experience, estavam tocando.

O blues eletrificado e calcado no hard rock era o cerne sonoro do alemão Reaction. Mas não trazia a psicodelia que ainda estava arraigado em Hendrix e na banda do “Deus” Clapton. Era um som cru, sujo, pouco sofisticado, mas solar e pesado, um som potente, vívido, altivo e intenso. Ah e para se assemelhar, ainda mais, às clássicas bandas pesadas aqui mencionados, o Reaction também era marcado por um “power trio”. Eram eles: Peter Braun, na guitarra e vocal, Luigi de Luca, no baixo e Holger Tempel na bateria.

Era assim: formação simples, básica do rock n’ roll para uma música suja, despretensiosa e pesada, sem sofisticação. Para muitos é incompetência sonora, mas para este que vos fala é puro ouro, é o rock n’ roll na sua essência. Esse era o Reaction.

O Reaction foi formado na cidade de Hamburgo, cidade proeminente do rock n’ roll alemão nos anos 1960 e 1970 e na primavera de 1972 nasceria seu primeiro e único álbum, “Reaction” com uma capa muito curiosa e inusitada: um rato em cima de um cacto azul. Licenças poéticas à parte o nome da banda, Reaction, é personificado na capa: a reação de um rato em cima de um espinhento cacto. A produção ficou a cargo de Gerd Müller, com músicas do Reaction e letras de Peter Braun. O álbum foi lançado pelo selo Polydor.

O álbum é inaugurado com a faixa “Mistreated” e o blues rock pesado e primitivo já se revela nos primeiros acordes, mas os riffs de guitarra denunciam também a pegada hard rock. É pegajoso, é pesado e intenso. A bateria tem uma vibe meio jazzy, bem dançante. No final da música o hard rock toma forma e toma conta das ações instrumentais e fecha pesada e agressiva, com solos de guitarra de tirar o folego. 

"Mistreated"

Na sequência temos “What's Going On Around?” que já inicia com o pé na porta sem dó nem piedade! O hard rock puro e genuíno se revela. Os riffs de guitarra são altos e envolventes. Um peso fora do normal que cativa e nos faz “bater a cabeça” alucinadamente. O proto metal tem contornos evidentes, inclusive. Vocais intensos e emotivos, quase dramáticos são ouvidos e entram em total sintonia com o “humor” da faixa. Espetacular!

"What's Going On Around"

“Time” continua na linha a linha hard rock e com muito, muito peso! Riffs poderosos de guitarra se alinham a bateria em uma batida seca, dura e impiedosa, mas vai ganhando camadas mais cadenciadas e em uma variância rítmica, vai se revelando, não somente pesada e despretensioso, mas espirituosa. Mas não vai pensando, caro leitor, que o peso deixa de protagonizar. O solo de guitarra em um “duelo” com a cozinha rítmica faz do aparato instrumental uma hecatombe sonora. “The Mask” é praticamente uma sequência da faixa anterior, mas cheia de groove, solar, dançante. O vocal aqui é mais gritado e por vezes melancólico e dramático e o final e de tirar o fôlego.

"The Mask"

“Funeral March of a Marionette” começa com um balanço envolvente, trazendo uma “cozinha” rítmica repleta de talento e totalmente entrosada: bateria marcada e cheia de ginga, com um baixo pulsante e vibrante. O hard rock não perde a sua majestade e se revela vivo e sedutor.

"Funeral March of a Marionette"

“My Father's Son” remete a um pouco da lisergia, da psicodelia pesada, com destaque para a guitarra ácida e pesada, com solos envolventes e intensos. É pesada, traz o psych rock, mas traz também algo meio comercial e acessível, mas sem soar ruim, claro.

"My Father's Son"

“Live is a Wheel” traz de volta o hard rock, traz de volta o heavy rock. A base é a bateria marcada e de batida agressiva, os riffs de guitarra igualmente pesada e tocada no mais alto decibel possível. Os vocais acompanham, sendo cantados em alto alcance e por vezes gritados, corroborando o peso da faixa. O heavy rock, o proto metal ganha corpo!

"Life is a Wheel"

“Keep On Trying” começa igualmente caótico. Solos e riffs de guitarra se entrelaçam com a bateria pesada, com viradas excelentes, além de um baixo pulsante e repleto de groove e peso. As mudanças de ritmo dão as caras e o peso e a cadência revezam. E fecha com “On The Highway” que traz de volta a veia blueseira dos caras do Reaction. Um baixo, além de pulsante, é cheio de groove e balanço, sedutor. Mas aqui o hard rock também protagoniza e deixa o seu tempero pesado principalmente nos riffs de guitarra.

"Keep on Trying"

“Reaction” teve alguns relançamentos ao longo dos anos, não foram muitos, é bem verdade, e ficou limitado entre selos alemães. Além do lançamento original da Polydor, a gravadora Little Wing Of Refugees lançaria, em 1990, no formato LP, o álbum do Reaction. Em 2013, agora no formato CD, seria lançado pelo selo Zeitgeist e pelo selo Living in the Past, igualmente no formato CD.

As poucas e limitadas cópias faz deste álbum raro e difícil de encontrar e quando se encontra para a venda, os valores são exorbitantes! O total ostracismo e desinteresse que a banda sofreu com seu único lançamento, em 1972, se tornaria cult atualmente. São as voltas que o mercado fonográfico dá. Reaction pode não ter produzido um álbum original, mas sem dúvida destoou dos seus contemporâneos alemães dos anos 1970 com um álbum cru, primitivo, agressivo e pesado.





A banda:

Peter Braun na guitarra, vocal

Luigi de Luca no baixo

Holger Tempel na bateria

 

Faixas:

1 - Mistreated

2 - What's Going on Around

3 - Time

4 - The Mask

5 - Funeral March of a Marionette

6 - My Father's Son

7 - Life Is a Wheel

8 - Keep on Trying

9 - On the Highway



"Reaction" (1972)





 























 



sábado, 1 de março de 2025

Uno - Uno (1974)

 

As dissoluções de bandas podem ser duras para os seus integrantes e fãs, mas convenhamos que o fim de uma trajetória pode significar o começo de novos e arrojados trabalhos. As vezes para construir é preciso destruir! Construções edificantes e fortes que podem ficar na história ou simplesmente ter curtas histórias, mas que podem marcar a vida de músicos e apreciadores do bom e velho rock n’ roll.

Divergências sonoras, guerras judiciais por dinheiro, ódio, egos, tantos sentimentos motivados por diversas situações que podem parecer desagradáveis e tristes para os fãs que só se preocupam com a música, podem suscitar novos grandes momentos.

E diante de tantos e tantos casos similares que presenciamos no universo do rock eu citarei um que aconteceu na Itália com uma das seminais bandas daquele país que é um verdadeiro celeiro do hard e prog nos anos 1970: o Osanna.

Osanna

O ano era 1973 e a cena era a prolífica napolitana. O Osanna lançaria talvez o seu mais famoso e representativo álbum de sua arrojada discografia, o “Palepoli”. Esse álbum personificaria o ápice da criatividade sonora do Osanna, porém esse momento épico da banda renderia a sua dissolução, o seu fim. As relações entre os seus integrantes eram delicadas, tempestuosas e já estava em curso esse triste fim.

"Palepoli" (1973)

Mesmo com um trabalho incrível o Osanna estava abalado, na corda bamba com a iminência do fim. Parece, caros leitores, que o sucesso é muito tênue nas vidas das bandas, onde, cada vez que a banda sobre, cresce e está no topo do mundo ou da sua criatividade, o ego fica cada vez mais inflado.

Eles ainda teriam tempo para lançar o vindouro álbum “Landscape of Life”, em 1974, decretando oficialmente o fim do Osanna. Esse último trabalho marcaria uma mudança na banda, onde gravariam músicas em inglês com a clara intenção de ganhar outros mercados internacionais e alçar o Osanna para mundo, o que foi inútil.

Reza a lenda que os integrantes, nas gravações de “Landscape of Life”, estavam com tantas divergências quanto a música do Osanna no futuro que o nascimento da banda que falarei nesta resenha seria a ideia que parte da banda queria para o Osanna e por isso que o UNO poderia ser uma sequência do velho Osanna.

O Uno surgiu, como disse, das cinzas do Osanna e teve na figura emblemática do guitarrista Danilo Rustici e no flautista e saxofonista Ellio D'Anna a sua espinha dorsal. Se juntaria a esses músicos, originalmente o baterista, hoje famoso e exímio, Toni Esposito.

 

O Uno surgiu, como disse, das cinzas do Osanna e teve na figura emblemática do guitarrista Danilo Rustici e no flautista e saxofonista Ellio D'Anna a sua espinha dorsal. Se juntaria a esses músicos, originalmente o baterista, hoje famoso e exímio, Toni Esposito.

No final de 1973 a banda foi apresentada pelas revistas de música italianas e as matérias eram sobre um LP que seria lançado em breve pela recém gravadora Trident. Convém lembrar que Massimo Guarino e Lino Vairetti, a outra parte do Osanna, ficaria pela Itália para colaborar com a banda napolitana Città Frontale, que daria a esta um sopro de vida, lançando o álbum “El Tor”, em 1975, cujo álbum por ser ouvido aqui.

Cittá Frontale - "El Tor" (1975)

Mas antes de qualquer lançamento a primeira baixa. Esposito sairia da banda antes de gravar qualquer material com o Uno e foi para o projeto de outra seminal banda de Nápoles chamada Cervello, gravando o excepcional “Mellos”, ainda em 1973. Para o lugar de Toni Esposito entraria o baterista Enzo Vallicelli, que tocou com o Hellza Poppin e o Osage Tribe e com Claudio Rocchi. Pronto! Nova banda formada e com o desejo de um novo álbum prometido na imprensa especializada da música italiana.

Cervello - "Mellos" (1973)

A expectativa dos executivos da gravadora Fonit Cetra era tão grande que decidiram investir e muito no Uno, tanto que encaminharam a banda para Londres e gravarem no Trident Studios o seu tão aguardado debut. E lá o álbum foi concebido, gravando para o selo Fonit Cetra o seu primeiro e único álbum de estúdio chamado simplesmente “Uno”, em 1974.

“Uno” teve algumas participações relevantes, diria famosas. Por ter sido gravado no mesmo estúdio de “Dark Side of the Moon”, icônico álbum do Pink Floyd, em 1973, o primeiro álbum do Uno teve a ajuda do letrista Nick Sedwick e a cantora Liza Strike, que colaborou com o álbum famoso do Floyd, também tocou em uma faixa de Uno.

 

Liza Strike

As conexões com o Pink Floyd não parariam por aí. A versão das músicas do primeiro álbum do Uno cantada em inglês, teve sua capa projetada pelo influente Hipgnosis, que fez uma capa extremamente surreal e instigante. Esse álbum cantado integralmente em inglês teve a nítida intenção de projetar o Uno para o mercado exterior, fazendo com que a banda ganhasse fama, mas não aconteceu. As tentativas foram inúteis. Mas antes de contar o desfecho triste de Uno, falemos de seu único álbum.

“Uno” não está muito longe do estilo tardio do até então último álbum lançado do Osanna, “Landscape of Life”, com quatro faixas cantadas em inglês e três músicas cantadas em italiano. E para muitos essa semelhança com o álbum do Osanna tenha sido a derrocada do Uno, talvez sendo o “fantasma do passado” assombrando os remanescentes da banda, poderiam assombrar o Uno ou talvez seriam as intenções ou, diria, as tentativas impostas em “Landscape of Life” que queriam implantar em “Uno”.

“Uno” traz um viés mais comercial, mas nada frívolo ou trivial, superficial demais, pois traz uma diversidade sonora que, convenhamos, o Osanna sempre teve, afinal, dois terços do Uno eram do Osanna, o que poderia ser natural. Blues rock, hard rock, prog rock, um rock orquestral capitaneado pelo sax, flauta e moog são as tônicas desse álbum. É um álbum frenético, cheio de energia e caótico, a natureza selvagem típica do Osanna estava em Uno, mas com uma roupagem mais acessível.

O álbum é inaugurado pela faixa “Right Place” que, para o início de um álbum, torna-se muito interessante! Inicia suave, lenta e pastoral com flauta viajante e linda, tocada de uma forma muito particular e emocionante. A guitarra acústica traz essa atmosfera agradável capitaneada pela flauta. A música, cantada em inglês, te remete ao prog britânico. A ideia da banda de internacionalizar o som foi construída nessa música. Mas quem se preocupa com isso? O que importa é a qualidade da música que está bem destacada nela. Bateria marcada, lenta, o conceito de balada se faz presente do início ao fim e o sax traz o “tempero” necessário para a viagem da música. Rápidos solos de guitarra animam. Belo início!

"Right Place"

“Popular Girl” muda um pouco o caminho. Tem uma pegada de blues rock que te remete aos blueseiros norte-americanos dos anos 1960 ou até mesmo dos blues rock do início dos anos 1970, pois tem uma pegada mais pesada e solar. Esqueça o prog rock nessa faixa e, apesar de um tanto quanto deslocada, mostra a capacidade de diversificar a sonoridade de seus belos músicos. E, falando nisso, o destaque fica para os solos de guitarra de Danilo Rustici. Enzo Vallicelli não fica atrás nas baquetas: potente e pesado. As flautas envenenadas. Nesse momento em que os instrumentos ganham destaque, o blues rock é esquecido e o hard rock ganha evidência. As mudanças rítmicas podem ser encaradas como uma música progressiva? Fica a critério de quem ouve chegar a essa conclusão.

"Popular Girl"

A primeira faixa cantada em italiano, “I Cani e La Volpe” e com isso traz a “pegada” italiana, soando mais italiana. É uma melodia cativante, linda, complexa. O uso de teclados e do saxofone faz da música cheia de recursos. E o que dizer dos vocais, uma performance magnífica cantada a plenos pulmões que, em determinados momentos, é gritado. Em alguns momentos soa caótico, lembrando os primórdios do King Crimson. Espetacular!

"I Cani e La Volpe"

“Stay With Me” retorna a língua não nativa de seus músicos e traz consigo novamente a leveza de uma balada progressiva, como na faixa inaugural. A dupla espetacular do violão e da flauta traz a tônica da música e toda a sua proposta. Violão acústico, dedilhado, com a flauta viajante, se encontram em uma simbiose sonora incrível. Mas vai encorpando a música e a bateria se encarrega desse momento. Os vocais agora dão lugar a uma pegada mais emocional. O sax, mais uma vez, é destaque, e nos faz querer bailar, dançar. Fantástico! "Uomo Come Gli Altri" é o tema mais curto aqui, um momento caloroso e relaxante em que podemos desfrutar de seus vocais, é o preâmbulo para a faixa mais longa.

"Stay With Me"

“Uno Nel Tutto”, no auge dos seus dez minutos, é simplesmente épica! Sem sombra de dúvidas é uma das melhores faixas de “Uno”. E ela se torna especial por soas diferente do que estava se ouvindo até então no álbum. É uma música cheia de sentimento, forte e repleta de personalidade. Ela soa experimental e o duelo entre o vocal, mais agressivo e o sax igualmente envenenado, remete ao hard prog, algo mais pesado e underground! E como uma música progressiva, vai mostrando mudanças rítmicas e depois dos quatro minutos de duração, ela fica com uma atmosfera mais eletrônica, me fez lembrar um krautrock germânico. É incrível o quanto esses caras se permitem ousar e deixar a criatividade falar mais alto. Solos de sax são instigantes e mesmerizantes. Não há como não se deixar render e sair dançando loucamente. E já se encaminhando para o final a bateria bate pesado, mas para quem achava que iria ser um desfecho mais hard, enganou-se, porque o piano entra e a balada ganha destaque. Música cheia de recursos e, mais uma vez, revela a capacidade de seus instrumentistas.

"Uno Nel Tutto"

E fecha com a faixa “Goodbye Friend” que traz a pegada das faixas anteriores, a balada dominada pelos violões acústicos. Os dedilhados remetem a algo mais pastoral. Mas logo entra o sax e os vocais que, mais uma vez, se revelam bons “parceiros”. É bem floydiana, não pelo fato do vocal de Liza Strike, sempre emocional e dramático, que participou em “Dark Side of the Moon”, mas que traz aquela mescla de prog com psicodélico e um viés mais radiofônico. É possível? Sim! 

"Goodbye Friend"

O texto, caro e estimado leitor, por ser meu, torna-se inevitável a minha visão acerca do álbum, nada mais natural do que isso e eu faço questão de expô-las. E “Uno” é um álbum fantástico! Quando levantei referências para construir esse texto, sobretudo na sua parte histórica, li críticas muito pesadas, visões negativas deste trabalho único da banda Uno. Merecem todas as análises muito respeito, afinal, as opiniões são pessoais, mas muitos criaram uma expectativa de ouvir em Uno o Osanna, banda mais querida pelos ouvintes de progressivo e hard rock. E é aí que a frustração nasce, pois muitos ouviram Uno como Osanna.

Evidente que os laços que os unem são fortes, afinal, grande parte do Uno veio do Osanna, mas esses ousados e grandes musicistas encararam seu até então novo projeto como algo audacioso, diferente da vertente sonora que o Osanna produzira até então. E eles fizeram! Eles conseguiram, mesmo que, em alguns momentos, eles emularam o som do Osanna em Uno, principalmente pelo que fizeram em “Landscape of Life”, mas não esperem do Uno o Osanna.

E acredito que a rejeição se deu também pelo fracasso comercial e os problemas que o Uno teve em reproduzir as faixas de seu álbum no palco, ao vivo. A turnê promocional foi problemática, devido a complexidade dos arranjos executados no estúdio, sendo difícil tocar ao vivo. Por essa razão um quarto músico foi adicionado para os shows finais da turnê: o irmão de Danilo Rustici, Corrado, que estava tocando no Cervello, na guitarra e baixo. A título de curiosidade a abertura dos shows do Uno foram feitas por Tito Schipa Jr. que tinha acabado de lançar “Lo Ed Io Solo”.

Mesmo com a reação fria e monótona da imprensa especializada e do público, foi lançada uma versão, em inglês, de “Uno”, com uma bela capa surreal projetada pela Hipgnosis, mas também não atraiu nenhum interesse. Ele foi lançado na França, pela Motors e na Alemanha pela Pan, ambos com a capa desenhada pela Hipgnosis. Há um lançamento em CD japonês, em Strange days, com capa de Mini LP. As reedições originais do CD cantado em italiano, excluídas de catálogo há muito tempo, foram finalmente substituídas por um lançamento com capa gatefold e livreto ilustrado bem caprichado.

Capa alternativa de "Uno"

A rejeição da imprensa e o desdém pelo seu álbum, lamentavelmente decretou o precoce fim do Uno! O mercado da música sempre falou mais alto e infelizmente, em virtude desse triste cenário, sempre aliaram o fracasso comercial à qualidade dos trabalhos realizados. A banda se separou e um novo projeto nasceria com os irmãos Rustici e D’Anna que se chamaria “Nova”, apostando em um viés mais fusion. O primeiro álbum se chamaria “Blink”, lançado em 1975. A resenha desta banda e álbum, caro amigo leitor, pode ser lida aqui. Enzo Vallicelli tocaria, por muitos anos, com vários artistas italianos populares e hoje assinando como “Vince Vallicelli”, é um grande baterista de blues.

Nova - "Blink" (1975)

O sucesso comercial não veio, mas aqui neste blog o fracasso ganha destaque, a obscuridade ganha luz e o Uno, com seu único álbum, homônimo, é, sem sombra de dúvidas um clássico do prog rock obscuro. Um trabalho ousado, digno, forte, de alto teor emocional e caráter dramático. Está nos anais da história do rock marginal. Altamente recomendado!



A banda:

Danilo Rustici nos vocais, na guitarra elétrica e acústica, bass pedal, strings pedal, moog e piano.

Elio D'Anna no tenor e barítono e alto e soprano saxofone, flauta e strings pedal.

Enzo Vallicelli na bateria.

 

Com:

Liza Strike no backing vocal

 

E:

Corrado Bacchelli na produção

 

Faixas:

1 - Right Place

2 - Popular Girl

3 - I Cani E La Volpe

4 - Stay With Me

5 - Uomo Come Gli Altri

6 - Uno Nel Tutto

7 - Goodbye Friend



"Uno" (1974) - Ouça aqui!








 






























terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Parchment Farm - Parchment Farm (1971 - 2024)

 

Desde que esse blog foi concebido, nos idos de 2020, eu venho desenvolvendo uma predileção que, creio, para alguns ser um tanto estranha. A audição e o desbravar de bandas mais “garageiras”, ou seja, aquelas bandas com uma sonoridade mais despretensiosa, mais suja, sem grandes traquejos instrumentais por parte dos músicos.

Aos que apreciam sons ligados ao rock progressivo e até mesmo um hard rock mais sofisticado, como bandas do naipe do Led Zeppelin e Deep Purple, por exemplo, pode ter os ouvidos “feridos”, mas o fato é que são bandas que vem me cativando a cada dia, a cada descoberta.

Algumas lendas cercam essas bandas. São “garageiras” porque seguem essa proposta bem definida ou é a produção desses trabalhos que deixam a desejar? Ou seria os dois? Tenho a nítida sensação de que são bandas que gozam de uma linha muito peculiar e inusitada de sonoridade, um som puro, cru, genuíno, sem amarras com tanta sofisticação.

Parece ser um “discurso” punk de meados dos anos 1970, o famoso “faça você mesmo”, mas não, caros e estimados leitores. Parece que o punk surgiu antes do punk e não ganhou notoriedade como o punk que conhecemos no final daquela década. Seria prudente chamar de “proto punk”?

Nomenclaturas à parte até mesmo a “romantização” do estilo, vilipendiado, com relação ao pouquíssimo apoio, cai perfeitamente com a sua sonoridade, ou seja, a péssima produção parece “validar” e trazer todo o charme ao som duro e áspero dessas bandas. É lindo!

E mais uma vez, com todo o prazer, e com um sentimento quase que cívico, trago mais uma banda, da cena obscura norte americana que merece, com todas as nossas forças, ser difundida aos quatro ventos desse mundo injusto que privilegia a música “bem-feita”. A banda se chama PARCHMENT FARM.

Creio que você, estimado leitor, deve estar se perguntando: mas isso é nome de música. Confesso que, em minhas incursões no empoeirado e esquecido universo do rock obscuro, quando a descobri pensei que se tratava da música conhecida do cantor de blues Bukka White, mas não era. Quando me coloquei para ouvir, pois havia desconfiado da sua capa, senti como se fosse um trovão nos ouvidos e que ressoou no coração, me cativando de imediato.

O Parchment Farm foi formado no leste do Missouri no final do ano de 1968, ápice da psicodelia, do “flower power” e do rock paz e amor. A banda, claro, subvertendo essa máxima que imperava na indústria no fim dos anos 1960, destilava um som cru, pesado, intenso e tenso e agitou muitos clubes e festivais da área com as suas músicas autorais e outras covers.

A banda foi ganhando alguns seguidores, utilizando a palavra da moda, arrastando um público fiel e que gostaria de fugir do básico da época, da música psicodélica. Os jovens músicos do Parchment Farm, bem como a cena que crescia no Missouri, carregava, em sua maioria, o nome “Mike”, mas uma sonoridade extremamente original que muitos repudiavam na época. O nome da banda, Parchment Farm, não teve, como inspiração, a música de Bukka White, embora tenha vindo dela, um erro ortográfico de “Parchman Farm”, local da infame Penintenciária Estadual do Mississipi, veio do álbum de estreia do grande Blue Cheer, “Vincebus Eruptum”. Nada melhor que uma inspiração como essa!


Nos seus primórdios, lá pelos idos de 1968, o Parchment Farm, como disse, ganhou alguns fás fiéis e com isso começou a receber ofertas de casas de shows e estava construindo uma boa repercussão, abrindo shows para bandas do naipe de Sons of Champlin, em agosto e/ou novembro de 1969, no The Rainy Daze Clb, Brian Auger & Trinity, em 7 de julho de 1970, também no Rainy Daze Club e tocou com outra banda local, Burlington Route, no mesmo lugar, em janeiro de 1970.

A formação original do Parchment Farm contava com Robert “Ace” Williams, no baixo e vocal, Paul Cockrum, na guitarra e vocal e o baterista Mike Watermann, além de outros músicos que nada se sabia, inclusive do nome. Mas Watermann sairia da banda, dando lugar a Mike Dulany, no final de 1971. Eles se tornariam um trio, um senhor “power trio”! E foi com Dunaly, Paul e Robert que o Parchment Farm desenvolveu, de forma frenética, as suas músicas autorais, gravando-as, de forma “artesanal” e tocando-as em suas apresentações.

A banda apresentou as suas novas composições em agosto de 1971, abrindo para o Velvet Underground e Brownsville Station, no Fun Valley Lake, em Pacific, depois para o Ted Nugent e The Amboy Dukes, em 14 de outubro de 1971, na Mesquita Shrine, em Springfield, repetindo a dose, agora em janeiro de 1972, na Guarda de Columbia e o grande ZZ Top, em julho de 1972, no Airway Drive-In Theatre.


Se a banda não estava no ápice comercial, poderia dizer que estava com boas ofertas de shows de grandes estruturas e apresentando, para vários públicos distintos do rock n’ roll, a sua pesada e arrojada música. Estava tudo indo muito bem e a tendência era de que o Parchment Farm atingiria o sucesso.

As suas músicas, majoritariamente, trafegam no hard rock, com músicas pesadas, intensas, animadas, cheias de energia e solares, com algumas “pitadas” de psicodelia caracterizada nas guitarras lisérgicas e ácidas, mas que tinha fundamento sonoro no peso. Definitivamente era uma banda que, como o Blue Cheer, por exemplo, que lhe influenciou com o nome, estava à frente do seu tempo, fazendo músicas que fugiam do mais do mesmo que imperava na indústria musical da época.

O álbum é inaugurado com a faixa “Songs of the Dead” que irrompe em poderosos riffs de guitarra e uma “cozinha” de arrepiar e fazer renascer com qualquer corpo morto: bateria marcada e pesada e baixo pulsante. Solos animados de guitarra te faz bater a cabeça compulsivamente, enquanto a “cozinha” continua a dar a salvaguarda necessária para o peso. “Midnight Ride” segue mais cadenciada, menos pesada. Guitarras são dedilhadas ao estilo The Doors, só que mais “eletrificado”. Vocais mais limpos e melódicos são ouvidos, as vezes mais gritados, regendo momentos mais pesados.

"Songs for the Dead"

“Devil’s Film Festival” é aquela música que eu chamo de “música de banda”, onde todos os instrumentistas se destacam. Ela é pesada, o baixo parece ser tocado como uma guitarra, com agressividade, com algum “groove”, riffs sujos de guitarra são ouvidos, como alternâncias para solos mais ácidos e baterias com batidas pesadas e cheias de viradas interessantes, de tirar o fôlego. 

"Devil's Film Festival"

Na sequência tem a faixa “Medici”, mais longa, começa com uma pegada mais leve, ao estilo balada rock, com guitarras dedilhadas, que alternadamente descamba para o peso caracterizado pela bateria, como sempre mandando muito bem e baixo seguindo o ritmo. É uma música repleta de mudanças rítmicas, trazendo um atrativo em tanto para uma sonoridade dita “garageira”. Pois é, os caras sabiam tocar!

"Medici"

“Summer’s Comin’ Soon” começa com o “choro” da guitarra que te induz a perceber uma pegada mais blueseira e de fato o é, mas o peso ganha logo o ritmo da faixa, mas de uma forma mais cadenciada, com uma vibe mais comercial, diria. “Blind Man” começa pesada, com a “cozinha” potente, bateria pesada e marcada, baixo pulsante, cheio de groove ao estilo Grand Funk Railroad. Hard rock típico, forte!

"Summer's Comin' Soon"

Segue com “Blues Skies Comin’” que também é pesada, baixo pulsante, um groove que faz da música um pouco mais cadenciada também. A parte rítmica da banda surpreende positivamente pela qualidade. “My Lady” começa com a bateria mais jazzística mostrando versatilidade, mas logo irrompe em um trovão de hard rock pesado, com riffs e solos avassaladores de guitarra.

"My Lady"

“Friends or Lovers” segue na proposta pesada, com passagens mais suaves, uma pegada mais psicodélica, vocais limpos e melódicos, além de guitarras mais ácidas, lisérgicas que entrega o “tempero” mais heavy à música. “Mind Trip” tem o destaque do baixo, com solos mais pesados e cheios de groove. Dedilhados de guitarra dá um caráter mais psych à faixa e até sombrio, em alguns momentos.

"Mind Trip"

Segue com “Concrete Jungle” que foge totalmente a proposta do álbum, que é calcado na música pesada. Nessa faixa percebe-se, inclusive, uma pegada mais folk e psicodélica, trazendo um passado não muito distante ao lançamento deste álbum, que é são os anos 1960. E fecha com “I’m Elected, I Will Not Serve” é uma balada rock embalada por dedilhados de guitarras lisérgicas, com vocais dramáticos. O solo de guitarra nos faz viajar, algo até mesmo contemplativo e soturno.

"If I'm Elected, I Will Not Serve"

No final de 1972 um cara chamado Mike Lusher se tornou baterista do Parchment Farm, adicionando ainda um tecladista de nome Cliff King. A banda estava sofrendo algumas mudanças em sua sonoridade, haja vista que estava adicionando um tecladista. O que se confirmou quando adicionou em seu repertório músicas de bandas como Yes, The Moody Blues, Procol Harum etc.

Parchment Farm em sua nova formação

Em fevereiro de 1973 Cliff foi substituído por Mike “Scotty” Scott que era um músico que foi inspirado por Keith Emerson, possuía um moog e tocava flauta. Pronto! Essa era a confirmação da “nova” vertente sonora do Parchment Farm. A banda abriu shows para Canned Heat, The Hollies e Rare Earth, em 27 de maio de 1973, em Evansville, Indiana, além do REO Speedwagon em 18 de agosto de 1973, no Rollins Music Festival, próximo a Villa Ridge.

O Parchment Farm foi dissolvido em 1973 e claro que seu fim, com a sua mudança de rumo sonoro, foi o sepultamento da banda, bem como a falta de apoio de gravadoras. A banda nunca conseguiu, com isso lançar suas músicas autorais e com o seu fim, fatalmente essas faixas cairiam no esquecimento, no baú escuro e empoeirado do rock obscuro.

Mas eis que surge o abnegado selo Riding Easy Records que redescobre essas gravações, essas fitas e a lança, no formato LP, trazendo à tona, depois de mais de cinco décadas, o único álbum do Parchment Farm, em 2024, homônimo. Um som garageiro, áspero, poderoso, despretensioso, mas especial, diria, sem medo, singular. O álbum pode ser ouvido por intermédio do download que pode ser feito aqui. Pérola mais do que recomendada! 




A banda:

Paul Cockrum na guitarra e vocal

Robert “Ace” Williams no baixo e vocal

Mike Dulany na bateria e vocal

 

Faixas:

1 - Songs of the Dead

2 - Midnight Ride

3 - Devil's Film Festival

4 - Medici

5 - Summer's Comin' Soon

6 - Blind Man

7 - Blue Skies Comin'

8 - My Lady

9 - Friends Or Lovers

10 - Mind Trip

11 - Concrete Jungle

12 - If I'm Elected I Will Not Serve



"Parchment Farm" (1971 - 2024)