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sábado, 26 de abril de 2025

Minotaurus - Fly Away (1978)

 

Você costuma se incomodar com aquelas bandas que não costumam classificar? E diante desse cenário costuma rejeitá-las categoricamente? Me parece que essas perguntas, embora sejam desafiadoras estruturar uma resposta, creio ser relevante para entender, mesmo que de forma parcial, a indústria fonográfica e a sua política antiga e conservadora que, sem dúvida, reflete o comportamento do mercado.

Parece ser cômodo e seguro da nossa parte ter uma espécie de compreensão profunda da vertente sonora de determinadas bandas para, a partir daí, criar um vínculo, uma identificação partindo da premissa de suas predileções. Muitas bandas pereceram, ao longo dos anos, por deixar apenas a sua criatividade ser a sua força motriz, o principal condutor de suas músicas.

Os anos 1970 nos “brindou” com uma infinidade de bandas que fracassaram por não ter sequência em sua história na cena musical rock, porque nunca se permitiu estereotipar, se rotular, mesmo lutando contra um mercado consumidor conservador e uma indústria com uma política tão ortodoxa quanto.

Na Alemanha, por exemplo, não faltaram bandas que precocemente saíram de cena, pagando um preço alto por deixar que a criatividade seja a dona de seus caminhos sonoros e, sob o aspecto comercial, fracassaram. Muitas sofreram por serem adicionadas no “saco” do krautrock para atender às demandas mercadológicas e facilitarem os negócios das gravadoras e muitas delas não praticaram o estilo em suas músicas.

E isso acabou construindo uma ideia equivocada de que a Alemanha, sobretudo nos anos 1970, reduziu-se a apenas o experimentalismo do kraut das transições da década de 1960 para os anos 1970 e isso, convenhamos, não é verdade! A Alemanha muito ofereceu, em termos de diversidade de som, nos anos 1970, principalmente.

E eu gostaria de apresentar uma banda que lamentavelmente não teve muita chance de apresentar a sua música e, como tantas outras, mesmo com persistência, não vingaram e pairaram no mais soturno e sombrio campo do esquecimento do rock, tendo ainda a desconfiança e a rejeição de tantos questionando as suas qualidades pelo simples fato de terem seus propósitos fracassados. Mas como neste blog as bandas fracassadas e esquecidas ganham protagonismo, essa é digna de apresentações: MINOTAURUS.

Minotaurus

A banda foi formada na cidade de Oberhausen, na área do Ruhr Ocidental, na Alemanha, começando sua trajetória em meados dos anos de 1970. Como muitas bandas, a banda foi concebida por seis jovens, quando decidiram se juntar para fazer música juntos. Era a Alemanha que proliferava em bandas de rock nos mais diversos estilos e vertentes, então os impetuosos jovens da época tinham como desejo ganhar fama e sucesso fazendo shows e tocando sua música. Eles tinham dois guitarristas, Michael Helsberg (nascido em 07/02/1957 em Oberhausen) e Ludger "Lucky" Hofstetter, este último treinado em violão clássico e violoncelo. Ulli Poetschulat tocou bateria, Dietmar Barzen os teclados. Também havia Bernd Maciej no baixo e Peter Scheu nos vocais.

A maioria desses jovens músicos foram autodidatas, não tinham grana para contratar professores de música ou coisa que o valha e a base de muitos ensaios e persistência, conseguiram fazer os seus primeiros shows. Nos primórdios o Minotaurus, começaram a construir seu nome fornecendo acompanhamento ao vivo para o filme do famoso diretor de cinema, Stanley Kubrick, em seu filme chamado “7117” no Festival de Curtas-Metragens de Oberhausen (Filmothek).

E com isso os caras do Minotaurus estavam, de forma gradual, ganhando fama local e, com isso escrevendo, compondo cada vez mais músicas autorais. Material eles já tinham agora faltava um contrato assinado para oficializar um lançamento de suas músicas e mais uma etapa havia sido superada, pois entrou no circuito Hans-Werner "Roller" Suedbrack, Uwe "Jacke" Ziemert e o falecido Wolfgang "Jagger" Jäger, se tornando responsáveis pelo sistema de PA.

Bem agora o lançamento de um álbum estava mais maduro, um novo trabalho estava por nascer e isso excitou os jovens e promissores músicos. E em 1977 eles decidiram lançar esse álbum! A gravação de seu primeiro trabalho ocorreu de 13 a 15 de janeiro de 1978, no estúdio Langendreer Sound, de propriedade de Günter Henne, da banda Epidaurus, e sob a direção do baterista da banda, Manfred Struck. O tecladista Dietmar Barzen foi autorizado para usar o mellotron dos amigos do Epidaurus, porque os meninos do Minotaurus não tinham dinheiro para ter um instrumento minimamente bom para gravar as suas músicas. Os primeiros anos foram difíceis apesar de gozarem de alguma fama.

E assim foi lançado, em 1978, “Fly Away”, lançado de forma independente, com uma prensagem pequena, com cerca de apenas 1.000 cópias, fabicadas em Pallas, em Diepholz, originalmente sem tampa. Os caras do Minotaurus optaram por distribuírem muitas cópias entre amigos, antes de conceberem uma capa, uma arte da capa. Quando o projeto da capa foi concluído, eles pensaram que encomendar 600 cópias seria o suficiente para divulgar a música da banda seria o suficiente, mas ainda assim, um número muito incipiente.

A capa escolhida mostrava um Minotauro, o lendário se com cabeça de touro da antiga Creta Minóica. Essas 600 cópias foram todas vendidas e a banda descobriu que ainda tinha cerca de 200 LP’s sem capas guardadas! Era a chance de aproveitar as boas vendas de “Fly Away” e vender essas cópias restantes. Então Ulli Poetschulat mandou imprimir mais 200 capas, desta vez com uma nova obra de arte mostrando um avião desenhado por Heike Zywitzki.

Já que eu comecei esse texto falando de diversidade sonora e bandas e álbuns que pouco se permitiram rotular, nada mais prudente do que fazer uma breve descrição da multiplicidade sonora de “Fly Away”, o debut do Minotaurus. Este álbum traz na sua base sonora um progressivo sinfônico calcado no peso do hard rock, pois entrega uma sonoridade solar, vívida e cheia de energia, revelando ainda texturas de space rock, algum experimentalismo, reminiscências do krautrock dos anos 1960, com uma pegada, em alguns momentos de blues e até jazz fusion.

A banda, que lançou um álbum um tanto quanto descolado do seu tempo, em 1978, com o punk em evidência e a música “disco”, bebeu das fontes sonoras do início dos anos 1970 quando o progressivo e o hard rock fora prolífico. A variedade de tons sonoros faz com que “Fly Away” se torne um álbum agradável, fazendo dele um álbum imprevisível e extremamente versátil, mostrando que aqueles jovens músicos autodidatas fizeram um bom trabalho graças a sua dedicação nos ensaios e nos trabalhos composicionais.

Um álbum forte nos instrumentais, com guitarras ricas em notas, teclados, órgãos e mellotrons solares e enérgicos e vocais teatrais fez desse álbum, a meu ver, especial e que muita gente considera como uma influência evidente do medalhão Genesis. Bem se é eu não poderia dizer com tamanha propriedade, mas o fato é que um álbum desse naipe sendo lançado em pleno 1978 é, no mínimo arrojado pelos audaciosos músicos do Minotaurus.

O álbum é inaugurado pela faixa “7117” que, como disse foi composta para acompanhar a exibição do filme de Stanley Kubrick com o mesmo nome, por volta de 1976, se mostra muito dinâmica e ao mesmo tempo apresenta algumas passagens bonitas e melódicas, destaque para os solos de guitarra e de mellotron. Tudo isso envoltos em uma entrega vocal ao estilo psicodélico espacial. Essas passagens mais explosivas são compensadas com passagens mais pastorais e acústicas. Um trabalho inaugural excelente!

"7117"

Segue com “Your Dream” que também é muito bem executada, com passagens suaves e até líricas, com destaques das guitarras, com solos e riffs maravilhosos, teclados enérgicos, tudo isso sobre uma cama de mellotron, embora a característica principal seja do teclado e de linhas de guitarras mais bem trabalhadas.

"Your Dream"

“Lonely Seas” começa de maneira sútil, percussão tilitante, violão levemente dedilhado, tocado de forma acústica e vocais sombrios e quase frágeis ou melancólicos, que faz da faixa mais dramática. Mas logo isso dá lugar a teclados triturantes e enérgicos e guitarra cortante e distorcida que cria certa tensão que a impressão que nos passa é de que vai explodir. E quando isso acontece tem solos mais melódicos e notas complexas.

"Lonely Seas"

“Highway” surge com uma pegada mais psicodélica, lembrando e muito um psych rock norte americano, algo como se fosse lançado nos anos 1960, trazendo uma lisergia principalmente nos riffs de guitarra fazendo da música até algo mais dançante. Mas a épica estava por vir, a excelente faixa título, “Fly Away”, no auge dos seus quase treze minutos de duração, trazendo um excelente progressivo sinfônico, com uma excepcional seção rítmica que entrega muitas mudanças de andamento, mostrando os músicos muita destreza em seus instrumentos. Não podemos negligenciar um mellotron enérgico que proporciona um clima nostálgico e solar. A guitarra e gigante e poderosa.

"Fly Away"

"The Day The Earth Will Die" fecha o álbum de uma forma muito cativante e dinâmica, estando mais próximas de um blues rock típico dos meados dos anos 1960 com uma textura mais psicodélica, com explosões de guitarras abrasadoras e distorcidas que se alternam com vocais mais potentes e virtuosos fazendo dessa faixa solar e otimista. São os anos 1960 mesclados ao som mais pesado e direto dos anos 1970. A faixa fecha com um número mais experimental trazendo um pouco à tona o kraut sessentista.

"The Day The Earth Will Die"

A faixa bônus é "Sunflower", que é uma música cintilante, robusta e de uma veia funky que foge um pouco a proposta do álbum, mas ele é diverso, então está tudo dentro da normalidade. Goza de uma guitarra jazzy blues solando belamente, tudo capitaneado por uma batida funky.

"Sunflower"

No mesmo ano do lançamento de “Fly Away” já surgiu um problema para o Minotaurus. O guitarrista Micky Helsberg foi o primeiro a deixar a banda e no ano seguinte, em 1979, de forma precoce, o Minotaurus finalizaria as suas atividades com cerca de 100 shows em seu currículo. De fato, um final lamentável e melancólico. Reza a lenda também que um dos motivos para o fim da banda foram as questões de negócios mau geridos.

No passar dos anos as pessoas perceberam o quão bom “Fly Away” era, até porque as suas poucas prensagens foram todas vendidas, fazendo deste trabalho muito requisitado, tanto que são pagos cerca de três dígitos pelo vinil original. Então teve uma reedição, no formato CD, em 1992, por um selo de nome Lost Pipedreams.

A realidade era que Jürgen Reinke havia vendido a essa gravadora os direitos dessas músicas sem realmente possuí-los e sem consultar os músicos do Minotaurus e como as faixas usadas para gravar esse álbum não eram oriundas das fitas master a qualidade da gravação estava aquém do que se esperava de um álbum tão grandioso.

Mas em 2002 o valoroso selo alemão Garden of Delights conseguiu localizar o baterista Ulli Poetschulat, que colocou suas fitas master à disposição do selo para que estes fizessem o lançamento. Este CD contou também com uma faixa bônus de nome “Sunflowers” que fora gravada em estúdio e que, na versão original, não entrou no vinil.

Há a informação de que o baterista do Minotaurus estaria de posse de algumas fitas para um segundo lançamento, com músicas inéditas, porém até os dias de hoje esse novo segundo álbum não foi lançado oficialmente. O que nos resta é aguardar que esse trabalho ganhe a luz do dia.

Em 1997 Micky Helsberg e sua banda M.I.D. (Manner in Dosen) onde lançaram um CD, também produzido e lançado de forma independente, chamado "Kopfschmerzen" ("Dor de cabeça"). Ele ainda mora em Oberhausen, assim como Hans-Werner Suedbrack. Ulli Poetschulat mudou-se para a antiga Alemanha Oriental e por lá trabalhou, por muito tempo, como organizador de shows, já os demais integrantes do Minotaurus nunca foram localizados e pouco se sabe dos seus paradeiros.

“Fly Away” trouxe, no final dos anos 1970, todas as marcas registradas de toda uma década, com as bases fundadas no rock progressivo sinfônico com o viés mais pesado, do hard rock. Guitarras pesadas, distorcidas, lisérgicas, melódicas e intricadas, com linhas de moog e sintetizadores de tirar o fôlego. Assim foi o único trabalho do Minotaurus que, lançados de forma praticamente artesanal, merecia um futuro mais justo, do tamanho da qualidade de seu excelente álbum. Um clássico obscuro!




A banda:

Peter Scheu nos vocais

Dietmar Barzen no órgão, mellotron, sintetizadores e clavinete

Ludger "Lucky" Hofstetter nas guitarras

Michael "Micky" Helsberg nas guitarras

Bernd Maciej no baixo

Ulli Poetschulat na bateria

 

Com:

Uwe "Jacke" Ziemert

Hans-Werner "Roller" Suedbrack

Wolfgang "Jagger" Jager

 

Faixas:

1 - 7117 (Musik Zum Gleichnamigen Film)

2 - Your Dream

3 - Lonely Seas

4 - Highway

5 - Fly Away

6 - The Day The Earth Will Die

Bonus:

7 - Sunflowers 





"Fly Away" (1978)










 

















terça-feira, 29 de outubro de 2024

Eneide - Uomini Umili Popoli Liberi (1972 - 1990)


Será que podemos considerar as bandas que lançam apenas um álbum, que são muitas espalhadas por esse mundo, de ruins? O que ocasiona a precocidade desses momentos? Quais são os fatores? É predominantemente incompetência das bandas de gerir a sua música e carreira? Ou apenas um azar comercial que impede de a banda seguir com a sua trajetória musical?

Cada banda traz uma realidade diferente e cabe a este reles e humilde blog trazer o máximo possível dessas histórias que definitivamente são ricas e que são verdadeiros exemplos de amor à sua música, de reverência a sua verdade sonora, mesmo que o fracasso comercial venha à tona, muitas vezes, de forma visceral.

E, para variar, vou trazer uma história de uma banda italiana que gravou apenas um álbum e ainda com um agravante: não foi lançado no ano de sua gravação e, por anos, hibernou esquecida nos porões do rock n’ roll assumindo a condição de obscuridades. Falo da banda ENEIDE.

Os primórdios da banda se deu na cidade de Pádua, no início dos anos 1970 e tinha o nome de “Sensazioni” e os integrantes dessa embrionária banda eram muito jovens, adolescentes, diria, e estavam na faixa dos 14 anos de idade! Tinha na formação o baixista e líder do projeto Romeo Pegoraro, o baterista Diego Moreno e o cantor e guitarrista Gianluigi Cavaliere.

Adriano Pegoraro, que era guitarrista, flautista e saxofonista, era amigo de Romeo e fazia parte de uma banda chamada “Dragoni” (sua música foi influência da futura Eneide), foi convencido a fazer parte do Sensazioni, dispensando o guitarrista Gabriele Trevisan e efetivando um tecladista chamado Antonio Venturini.

A banda estava formada, mas o nome mudou para “Eneide Pop 70” e começou a tocar em clubes locais, lugares pequenos, acanhados e de estrutura simples, tocando covers de bandas italianas e estrangeiras, como Led Zeppelin, Vanilla Fudge, King Crimson etc. além de tocar algum material autoral que já possuíam. Os problemas com a rotatividade de integrantes começaram a dar problemas e o teclacista Antonio Venturini foi o primeiro a sair do Eneide Pop. Ele não convenceu nos teclados. Decidiram procurar por outro músico efetivaram um tecladista mais conhecido chamado Carlo Barnini, que era da banda “Stato d’Animo”.

A partir daí parecia que a sorte começava a sorrir para os meninos do Eneide Pop, quando em 1972 um empresário de nome Luciano Tosetto, encarregado de organizar turnês de grandes bandas na Itália viu o Eneide Pop tocar em um show local e os convidou para participar de alguns festivais que estavam em voga na Itália àquela época.

Os jovens músicos do Eneide chegaram a tocar, nesses festivais, com bandas do naipe do Premiata Forneria Marconi, Banco del Mutuo Soccorso, Delirium, Formula 3 e muitas outras. Nova mudança ocorreu no nome da banda, encurtando para apenas “Eneide” e, nesse momento, ocorreu o ápice desses jovens músicos, tocando ao lado dos já figurões da música progressiva mundial, os ingleses Genesis e Atomic Rooster e dando suporte ao Van der Graaf Generator em seis datas de sua turnê pela Itália. Sem dúvida um momento importante para mostrar o seu trabalho autoral que já era a intenção principal da banda, deixando de lado os covers de bandas famosas.

O Eneide, nesta época, contava com a seguinte formação: Gianluigi Cavaliere, nos vocais e guitarra, Adriano Pegoraro, na guitarra, flauta e vocal, Carlo Barnini, teclados e vocal, Romeo Pegoraro, no baixo e vocal e o baterista Moreno Diego Polato. Com essas apresentações em festivais italianos e sendo suporte para bandas como Genesis, Atomic Rooster e Van der Graaf Generator e as suas intensas apresentações na cena undergroud de Pádova e Veneza, em 1972 Maurizio salvadori e Luciano Tosetto, da agência de show milanesa, Trident, perceberam que a banda tinha potencial e os contrataram.

Eneide

A Trident era uma produtora de shows, mas queria se aventurar como gravadora e o Eneide talvez tenha sido uma das primeiras bandas a ser contratada por jovem selo de Milão. A popularidade adquirida graças a esses shows e as intensas apresentações em clubes locais fizeram com que a Trident não apenas o contratasse, mas que gravassem um álbum.

A banda já tinha música autoral o suficiente para gravar o seu debut e estavam, evidentemente, animados com a possibilidade de trazer à vida o seu primeiro trabalho, ainda muito jovens, na faixa dos 16 e 17 anos! Muito jovens e já com um currículo invejável. Então, em 1972, entre os meses de setembro e novembro entraram em estúdio para realizar seus sonhos: gravar o seu primeiro álbum.

Tudo correu bem, todos os trâmites de gravação tiveram sua sequência realizada sem maiores problemas. Mas por uma razão misteriosa, estranha mesmo, o álbum, intitulado “Uomini Umili Popoli Liberi”, não foi lançado naquele ano. Reza a lenda que a empreitada da jovem gravadora Trident não vingou, simplesmente faliu.

Porém, à época da sua fundação, sempre foi produtora de shows, quatro bandas foram contratadas para lançar seu álbum no jovem selo da Trident. Foram eles: o primeiro do Dedalus, homônimo, o “Time of Change”, do The Trip e o debut do Semiramis “Dedicato a Frazz”. Todos foram lançados oficialmente, mas não o álbum do Eneide. Simplesmente as cópias não foram impressas, apesar de as matrizes já terem sido prontas há algum tempo, o que torna a situação ainda mais estranha.

Independentemente do que aconteceu, o que teria ocasionado com o engavetamento do trabalho inaugural do Eneide, o fato foi que esse lamentável ocorrido, foi um duro golpe para promover a banda e acabou obrigando os jovens músicos a se refugiar em outro lugar. Primeiro abriu as datas do cantor Maurizio Arcieri (na época ainda em fase melódica), tocando as suas músicas e um set com o material do Eneide e depois se tornando sua banda de apoio até que, em 1974, o Eneide se dissolveu completamente, saindo de cena de forma melancólica, abrupta e triste. Muitos também atribuem esse precoce fim, não apenas em decorrência do não lançamento de seu álbum por conta da falência da Trident, em 1975, mas a incompetência da própria banda, de gerir-se. Mas quem irá saber?

Mas aqui não é o fim, afinal, precisamos falar de “Uomini Umili Popoli Liberi” e da sua qualidade sonora que é, sim, inquestionável para àquela época mágica do rock progressivo italiano, sobretudo na primeira metade dos anos 1970. Porém cabe ressaltar que o único trabalho do Eneide não continha elementos progressivos de forma majoritária. 

As faixas, com duração, em média de 4 minutos de duração, tinham estruturas básicas, que variava de uma mistura de baladas acústicas, além de pegadas psicodélicas e de blues. Os instrumentos dominantes no álbum são os teclados e a guitarra, embora a flauta também tenha destaque, sem contar com o vocalista principal que tinha um tom áspero e grave, mas cantando com sentimento e aquele toque de dramaticidade típico dos cantores italianos.

“Uomini Umili Popoli Liberi” traz jams de rock estilo “garage” com toques bem suculentos e enérgicos, com ritmos até agressivos, bastante convencionais, flertando, como disse, com o classic rock, prog rock e hard rock. Diria que, embora seja um álbum básico, traz um leque de opções sonoras o tornando um trabalho versátil e diversificado que pode atingir a todos os ouvintes com suas predileções musicais. Mas ainda tem algo a apresentar, sobretudo nos momentos mais suaves, com o uso do violoncelo e flauta realçando esse momento. 

Mas não se enganem, prezados leitores, que há essa separação de ambientes no som do único álbum do Eneide, é possível ouvir, entre as dez faixas do trabalho, riffs pesados de guitarra, melodias de teclados e intervenções preciosas de flauta. Trata-se de um álbum muito maduro, levando em consideração que os músicos eram muito jovens à época.

A faixa inaugural é “Cantico Alle Stelle-Traccia 1” que começa um tanto quanto pastoral quando os vocais se juntam, trazendo também alguns sons do violino. Trata-se de uma abertura melódica, diria sinfônica, simples. Na segunda parte da música o hammond ganha destaque levando a música a territórios mais próximo do rock progressivo.

"Cantico Alle Stelle-Tracia I"

Segue com “Il Male” que é uma faixa decididamente mais enérgica que a anterior. A bateria e os teclados são liderados por vocais agressivos e poderosos, com alto alcance, inclusive. Essa condição entrega uma faixa mais voltada para o hard rock, quando é interrompido ou melhor, suavizado pelo uso da flauta que lembra um pouco a banda Delirium. Guitarras e sintetizadores são os destaques nessa faixa, com a bateria trazendo o ritmo, conduzindo-o.

"Il Male"

“Non Voglio Catene” é a música que mais se aproxima dos estilos progressivos que eram executados à época e a única que ultrapassa os 5 minutos de duração. A composição é excelente e traz o moog e o violão em evidência, trazendo um viés mais acústico, até que, em determinado momento, o hammond se torna mais enérgico, tornando-se mais agradável.

"Non Voglio Catene"

“Canto della Rassegnazione” é uma balada curta, com vocais mais suaves, quase frágeis, diria, com sons delicados de violinos e uma flauta que termina a faixa. É seguida pela música “Oppressione e Disperazione” que traz versões mais duras e pesadas de blues rock ditadas pelo entrelaçamento do hammond e da guitarra. A bateria é o tempero que entrega a música o peso e quando mesclada ao órgão e a guitarra essa máxima é corroborada. Excelente faixa!

"Oppressione e Disperazione"

“Ecce Omo” apresenta, no início, a bateria, forte e altiva, com sintetizadores e a guitarra no início. Os teclados dominam a faixa, logo depois a flauta entra e a mesma, juntamente com a guitarra, se entrelaçam. Um bom exemplo de hard prog! "Uomini Umili Popoli Liberi" começa com melodias vocais, mas logo vocais ásperos se juntam, com a flauta se junta com peças de hard rock promovendo um contraste entre suavidade e peso, talvez um bom exemplo de hard prog também.

"Uomini Umili Popoli Liberi"

“Viaggia Cosmico” que inicialmente nos conduz a uma audição ao estilo space rock, graças aos teclados e logo depois vem uma balada lenta, onde o vocal é apoiado por violão e um violino. Bela faixa! Na mesma sintonia vem a curta “Un Mondo Nuovo”, uma balada acústica com nuances de violino e flauta, mas que não é tão incisiva e não deixa muito impacto. O álbum fecha com "Cantico Alle Stelle -Traccia II", que é realmente uma reprise da faixa de abertura.

"Un Mondo Nuovo"

A primeira edição oficial de "Uomini Umili Popoli Liberi" finalmente foi lançada em 1990 pelo selo privado LPG em uma edição limitadíssima de apenas 500 cópias e cerca da metade foi autografada pelo guitarrista Gianluigi Cavaliere, uma verdadeira raridade aos fãs da banda e de raridades como um todo. Esse exemplar veio com capa “gatefold” contendo a letra e etiqueta cinza/marrom com escrita branca, trazendo uma imagem da banda se apresentando. Enquanto uma segunda impressão, com aproximadamente o mesmo número da primeira edição, tem capa única e etiqueta azul clara, também neste caso com alguns exemplares numerados e autografados.

E esse lançamento, quase vinte anos depois, aconteceu porque Cavaliere guardou as fitas à época do não lançamento do Eneide em 1972 e também do interesse de um amigo que, após o lançamento oficial, tiveram a oportunidade de divulgar o álbum com a ajuda do selo icônico “Black Widow”, de Gênova.

Teve um relançamento, em CD, de 2011, pelo selo “AMS”, onde há duas faixas adicionais inéditas, retiradas do projeto de 1995, intitulado “Oblomov’s Dream” quando a banda tentou se reunir. Estavam nesse projeto, além do guitarrista Gianluigi Cavaliere, Romeo Pegoraro e Diego Polato e a ideia era lançar um novo álbum, mas os compromissos profissionais não possibilitaram concluir as gravações e pararam no meio do caminho. Eles ainda possuem essas fitas, quem sabe um dia podemos presenciar um novo álbum do Eneide. A mesma gravadora relançou o álbum, em vinil, com capa “gatefold”, mas sem as duas faixas extras da edição em CD.

O guitarrista Cavaliere permaneceu no cenário musical como instrumentista e produtor e ainda toca com o baixista Romei Pegoraro em uma banda chamada Chantango, que mescla diferentes estilos de música e poesia com o tango. Romeo toca baixo como concertista profissional no “Maggio Musicale Fiorentino”. O baterista Diego Polato toca em várias bandas de rock progressivo, assim como seu filho e o guitarrista Adriano Pegogaro também continua seguindo com sua carreira de músico. O único que deixou a música foi o tecladista Carlo Barnini que atualmente é veterinário.

Cavaliere conheceu, em 1994, Peter Hammill e David Jackson, ambos da formação clássica do Van der Graaf Generator e conversaram sobre a possibilidade de Jackson tocar no que seria o segundo álbum do Eneide, o “Oblomov’s Dream”, mas não foi para frente, não fazendo mais nada, porém mantém, até hoje, contato com esses dois icônicos músicos da história do prog rock.

Fracassos, precocidade na sua história, falta de uma gestão de carreira.... Muitos podem ser os fatores para uma ruptura na longevidade ou não de uma banda, o fato é que o único trabalho do Eneide, embora não traga nada de revolucionário para a história do rock progressivo italiano deixa uma marca importante naquela época de desbravamento da música, mostrando-se essencial por se tratar de um álbum que entregou uma interessante diversidade sonora.




A banda:

Carlo Barnini nos teclados, minimoog e backing vocals

Gianluigi Cavaliere nos vocais principais, gutarra elétrica e acústica

Adriano Pegoraro na guitarra, flauta e backing vocals

Romeo Pegoraro no baixo e backing vocals

Mereno Diego Polato na bateria

 

Faixas:

1 - Cantico alle Stelle - Traccia I

2 - Il Male

3 - Non Voglio Catene

4 - Canto della Rassegnazione

5 - Oppressione e Disperazione

6 - Ecce Omo

7 - Uomini Umili Popoli Liberi

8 - Viaggia Cosmico

9 - Un Mondo Nuovo

10 - Cantico alle Stelle - Traccia II 



"Uomini Umili Popoli Liberi" (1972 - 1990)










































quinta-feira, 21 de março de 2024

Andrew - Woops (1973)

 

A existência deste blog não efetiva meramente conteúdos de bandas obscuras e raras que caíram no mais puro ostracismo, não é apenas para seguir questões temáticas, mas para contar, primordialmente, histórias.

Histórias que, embora tragam especificidades comuns às bandas e álbuns, mas que contam momentos em comum que são, no mínimo, pitorescos: o fracasso. Ao amigo leitor que lê deve achar que eu estou um tanto quanto louco para achar interessante o fracasso.

A questão é trazer o submundo da música, que pode trazer algo de genuíno à essas bandas, algo de verdade em sua sonoridade, pois não se curvaram aos ditames comerciais, carregados de modismos que sempre perecem, cedo ou tarde.

Não há glamour sempre, não há referências de sucesso sempre, não há cases de sucesso sempre, mas o fracasso comercial que entregam histórias fabulosas, de persistência que denota pura e simplesmente o amor à música que faz, logo a crença nela.

E isso nos revela sonoridades que deveriam revolucionar, que deveriam deixar uma história indelével para o rock n’ roll e servir de referência para tantas outras bandas novas, tantos outros músicos jovens que queiram subverter o mercado e suas músicas pasteurizadas.

A missão deste humilde e reles blog que você, estimado leitor, lê é trazer o alternativo, é trazer algo arrojado, que suscite em todos o exercício do exorcismo à temível zona de conforto que parece teimar em pairar, como nuvens negras, nas nossas cabeças. Afinal o rock traz a capacidade de subverter, em todos os aspectos da vida!

E recentemente, graças às minhas incessantes aventuras desbravando a grande rede, descobri uma banda que personifica, de forma evidente e clara, tais características por mim mencionadas até agora, bem como o cerne deste blog e que, além de ser extremamente rara, apresenta um país que não tem tradição para o rock n’ roll, a Islândia.

E o que me levou a essa banda foi uma relação com outra, de mesmo país, que já conhecia a algum tempo e de que sou imensamente fã pela sua relevância sonora, que é o Icecross que, inclusive fiz um texto e que pode ser lido aqui.

O nome da banda em questão é o ANDREW surgida na fria Islândia. Um nome louco e atípico para uma banda extremamente rara até mesmo em seu país de origem e que, corroborando essa máxima, pouco se tem de informações sobre o seu passado.

Não se tem informações, para variar, do início da banda, de quando foi formada, mas tudo indica, se me permitem a “licença poética”, se tratar de um projeto de estúdio, sem maiores pretensões, tanto que lançaram apenas um álbum, de nome “Woops”, em 1973, que foi gravado no “Incognito” e remixado no Morgan & Soundtek Studios e lançado pelo selo Najö Productions, com uma tiragem privada e limitada, em torno de 500 a 600 cópias. Atualmente não se sabe se há álbuns originais disponíveis no mercado, mas os que tem e querem vender estão oferecendo, reza a lenda, em uma bagatela de US$ 600! Pasmem!

E a relação do Andrew com o Icecross de que me referi e que propiciou para que eu conhecesse o Andrew se deu porque dois integrantes do Icecross estiveram envolvidos na banda, são eles: Omar Oskarsson, baixista e vocalista e Asgeir Oskarsson, baterista e vocalista.

Mas não se enganem que em “Woops” encontrará as mesmas características sonoras do álbum homônimo do Icecross, que é predominantemente o peso do hard rock. O que podemos encontrar no único rebento do Andrew é uma miscelânea de sons, o que, lamentavelmente justifica o desdém do público e da crítica “especializada”, que certamente não entenderam a proposta que é exatamente não ter uma proposta.

Omar Oskarsson

Acalmem-se, estimados leitores, que eu me explicarei: não há proposta definida, não há estilo determinado, mas um flerte evidente à várias vertentes do rock que estavam em evidência, variando entre hard psych, pela sofisticação do rock progressivo, pela viagem lisérgica do space rock, do funky, variando entre baladas acústicas, guitarras estranhas e divagações psicodélicas instrumentais, com jams instrumentais. Tudo em uma abordagem enigmática e underground.

Não há nada de excepcional ou vanguardista, o Andrew colocou em sua sonoridade o que se ouvia no rock n’ roll em meados dos anos 1970, mas o que faz de seu único álbum especial é exatamente o flerte com tudo o que se ouvia à época, sem soar deslocado.

“Woops” é sólido, é intenso, é um álbum vívido e solar e mostra uma banda totalmente azeitada, embora traga, pelo que parecia, apenas um projeto de estúdio. Esse é o charme deste trabalho, porque é estranho, diversificado e que não se prende a estereótipos.

E já que falamos da banda, vamos elenca-los! Além dos ex-integrantes do Icecross, Omar Oskarsson, no baixo, Asgeir Oskarsson, na bateria, que tocou também no Pelican, apresenta ainda o tecladista Björgvin Gíslason, que tocou nas bandas Náttúra e Pelican, o guitarrista Julius Agnarsson, que também era responsável pela execução do moog, o vocalista Andri Clausen, o pianista e violinista Egill Ólafsson, que tocou nas bandas Thursaflokkurinn e Spilverk Þjóðanna.

“Woops”, que é cantado todo em inglês, é introduzido com a faixa “Rockin and Rollin” que explode em um hard rock potente e cheio de riffs de guitarra e solos desconcertantes e vocais de grande alcance. Nada melhor para abertura de álbum do que um “hardão” tipicamente setentista.

"Rockin and Rolling"

Segue com a faixa “Himalaya”, que muda consideravelmente o andamento, uma balada viajante com atmosfera sombria, com o teclado ditando todo a sua estrutura sonora. Solos de guitarra são igualmente viajantes e bem executados, apesar de simples.

"Himalaya"

“I Love You (Yes I do)” segue na linha mais balada, algo mais radiofônico que me remete aos beats dos anos 1960, com solos lindos de guitarra, límpidas, solares. Um exemplo típico de uma música um tanto quanto pop, mas bem executada.

"I Love You (Yes I do)"

A sequência traz a faixa “Look” que retoma ao hard rock com uma introdução típica com riffs pesados de guitarra, bem pegajosos, vocais despojados, solos diretos e bem cru. A famosa música de “festa”, bem animada e solar. Mas ainda me traz algo de lisérgico, de psych.

"Look"

“Dawning” inicia progressiva, o destaque do moog traz a sensação de viagem, de contemplação. O vocal é dramático e melódico, e entrega uma atmosfera lisérgica, que suscita a uma introspecção.

"Dawning"

“Sweetest Girl” rememora os anos 1960 e que remete a coisas do Animals ou coisa parecida. É dançante, a guitarra te lembra algo meio funky. O sax corrobora tal momento da música. Impossível não ficar parado com essa faixa.

"Sweetest Girl"

Segue com “Heathens” que retoma a “ala” mais pesada do álbum. Os riffs de guitarra são pesados, indulgentes, agressivos que faz jus a um heavy metal de vanguarda. Vocal rasgadão, de bom alcance. A “cozinha” rítmica se mostra entrosada, baixo pulsante, bateria marcada. Excelente!

"Heathens"

“Ballad of Herby Jenkins” é meio engraçada, algo de sarcástico se ouve na música e a brincadeira é para estereotipar a música sessentista. Piano alegre, vocal debochado.

"Ballad of Herby Jenkins"

“Purple Personality” é lisérgica, guitarras distorcidas e estranhas, meio aleatório, um típico som de rock psicodélico, mas com peso, sobretudo nos riffs de guitarra. Uma faixa que personifica o álbum: que flerta com algumas vertentes do rock.

"Purple Personality"

E finalmente fecha o álbum com “Age” talvez a mais progressiva de todas as faixas, mas que introduz com sons espaciais, um space rock curto e grosso, mas evidente e que vai e vem de uma forma mais discreta ao longo da música. Teclados ao estilo The Doors são percebidos e entrega uma vibe mais psicodélica e dançante. Solos traz uma textura mais complexa e corrobora o quão é prog rock essa faixa.

"Age"

Esquecido, obscuro, raro...Palavras que, no show bussiness da música podem sintetizar o fracasso, para muitos abnegados e apreciadores da música underground, isso pode ser o suprassumo do que há de melhor no rock n’ roll. O fracasso comercial não inviabiliza a qualidade do que está contido em um determinado álbum. O Andrew sintetiza fielmente tudo isso e nos revela um caminho oposto ao glamour e o equívoco de sempre o que faz sucesso ter a melhor música.

O Andrew e seu álbum único, “Woops”, corrobora a necessidade premente e urgente de que há e muito a se desbravar nessa selva intocável que é o rock n’ roll. Permitir-se desbravar significa render-se às músicas empoeiradas que, por um infortúnio comercial, caiu no ostracismo. Pérola mais do que recomendada!


A banda:

Asgeir Oskarsson na bateria

Julius Agnarsson na guitarra e moog

Omar Oskarsson no baixo

Andri Clausen nos vocais

Egil Olaffson no piano e vocais

Bjornvin Gislason no moog

 

Faixas:

1 - Rockin and Rollin

2 - Himalaya

3 - I Love You (Yes I Do)

4 - Look

5 - Dawning

6 - Sweetest Girl

7 - Heathens

8 - Ballad of Herby Jenkins

9 - Purple Personality

10 - Age



"Woops" (1973)