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segunda-feira, 9 de maio de 2022

Alphataurus - Dietro L' Uragano (1992)

 

Atualmente ou diria desde sempre muitos materiais esquecidos de algumas bandas, que, por algum motivo, caíram no ostracismo, estão ganhando a luz, sendo lançados. Músicas inacabadas, demos tapes, momentos de descontração dos músicos que foram captados etc, são lançados com aquela promessa de algo inesquecível, com aquele discurso de pérola esquecida.

Não se sabem os motivos pelas quais essas músicas são lançadas: caça-níquel? Talvez! O dinheiro ganhando relevância na indústria da música em detrimento da música. Para amenizar a “dor” dos fãs, carentes, viúvos de materiais inéditos de suas bandas preferidas? Bem possível! Alguns álbuns são lançados com aquele título de “edição de colecionador”, pois sabem que, avidamente consumirão esses materiais.

Agora será que a qualidade sonora é ou pelo menos deve ser colocada como possibilidade, haja vista que sobras de estúdio, ensaios e momentos de descontração deve se pontuar com momentos de criação, de criatividade? Quem sabe!

O fato é que não custa conferir tais materiais e tirar as suas próprias conclusões, pois as percepções de música são particulares, afinal o que pode ser ruim para alguns, pode ser muito bom e proveitoso para outros. Mas será que somos influenciáveis? O que quero dizer com isso? Será que, quando amamos uma banda e, claro, sua sonoridade, quaisquer comentários e análises podem vir carregadas de fanatismo, pela cegueira desmedida de “fã”.

Mas não quero aqui levantar, o tempo todo, conjecturas, e deixar o meu depoimento textual de álbum que ouvi, há algum tempo, que fez com que eu revisse os meus conceitos em relação a esses álbuns.

Falo do segundo álbum da banda italiana ALPHATAURUS chamado “Dietro L’Uragano”, lançado há trinta anos atrás, em 1992. Conheci, como outras pessoas, o Alphataurus pelo seu estupendo debut, de nome “Alphataurus’, de 1973 que, apesar de não ter tido aquela visibilidade à época, atualmente está em um status de grande importância para a cena progressiva italiana e que serve, sem dúvida de referência para muitas bandas novas que surgem fortemente na Itália, sobretudo nos últimos 20 anos.

“Dietro L’Uragano” foram esboços, alguns diriam “sobras” deste álbum de 1973 e que seriam usados para o novo trabalho da banda que seria lançado naquela época, ou ainda composições que estavam sendo empreendidas mas que, por algum motivo deixou de ser, essa última é a história mais difundida na história obscura dessa grande banda que merecia, à época, mais credibilidade pelo que produziu.

Esse que vos fala, ou melhor, escreve, é um amante do Alphataurus e que, quando conheci seu debut foi como que uma nova janela de perspectivas sonoras se abrindo diante dos meus olhos, abrandando o meu coração e deleitando os meus ouvidos. E quando ouvi “Dietro L’Uragano, afinal, nada mais natural, quando conhece uma banda e aprecia, você busca mais materiais desta para se aventurar em sua sonoridade, foi igualmente arrebatador.

Mas antes de mergulhar fundo em “Dietro L’Uragano” falemos um pouco da história da banda. O Alphataurus Surgiu na cidade de Milão, em 1970, e foi tida como uma das bandas obscuras que povoa a cena progressiva italiana nos anos 1970.

Apesar de atingir essa condição de banda desconhecida conseguiu um contrato com uma nova gravadora chamada “Magma” e lançou seu primeiro grande álbum, “Alphataurus”, em 1973. Provavelmente o conseguiu tal contrato por não ser conhecida e, como o selo era novo, estava investindo em bandas novas e desconhecidas.

"Alphataurus", de 1973

O fato é que “Alphataurus” não conseguiu atingir o êxito comercial esperado apesar de apresentar todas as características típicas do rock progressivo italiano: camadas fantásticas de teclado, vocais dramáticos e bem elaborados, cantados em italiano, claro, uma mistura excepcional de seções leves e pesadas, com viradas instrumentais de tirar o fôlego, até levadas blueseiras e jazzísticas.

A formação da banda neste álbum tinha Michele Bavaro, nos vocais, Guido Wasserman na guitarra, Pietro Pellegrini no piano, hammond, vibrafone, moog, Alfonso Oliva no baixo e Giorgio Santandrea na bateria.

Alphataurus

Reza a lenda que, quando eles estavam se preparando para gravar o segundo álbum, que não tinha nome, ainda em 1973, onde Iniciara os trabalhos de composição, de produção do mesmo, ocorre algum infortúnio que ninguém sabe ao certo, a banda se separa, some da cena progressiva da Itália sem deixar rastros. Os vocais não foram gravados, não foram inseridos nestas composições e tudo indica que o vocalista abandonou a banda ou não teve tempo para gravar a sua parte. Tudo que girou em torno desse “esboço” foi em uma aura de mistérios e incertezas.

O projeto ficou inacabado, não foi concluído. Foi esquecido. A banda finalizou as suas atividades, precocemente. Os músicos seguiram, cada um, as suas carreiras individualmente. O baterista Giorgio Santandrea esteve por um breve período na banda Crystals, enquanto que o tecladista Pietro Pellegrini colaborou, entre outros, com Riccardo Zappa e Premiata Forneria Marconi.

O vocalista Michele Bavaro gravou um disco solo, de viés comercial, no fim dos anos 1970, inclusive esse trabalho teve o foco de exportar a música italiana para o mercado sul americano, tendo visitado o Brasil, inclusive e cantado em algumas cidades, como Cuiabá e Belo Horizonte.

Em 1992, a gravadora Mellow descobriu esse material esquecido, perdido e o lançou, quase dez anos depois do lançamento de “Aphataurus” com o nome “Dietro L’Uragano” e digo, com toda a força de minha alma e coração, de que este álbum, embora tenha uma carga de críticas não muito boas, traz a força e a proposta sonora do Alphataurus, sobretudo impressa no seu primeiro álbum.

As faixas bem elaboradas, com uma “nitidez” absurda que expõe todas as características do rock progressivo italiano: peso, personalidade, alto teor de dramaticidade, com viés sinfônico, com ênfase nos teclados, em solos viajantes de guitarra e uma “cozinha” bem sinérgica e definida.

O álbum traz a seguinte formação: Guido Wasserman na guitarra, Pietro Pellegrini, nos teclados, Alfonso Olive no baixo e Giorgio Santandrea na bateria e vocal.

Então dissequemos, faixa a faixa, esse belo trabalho sim, do Alphataurus e se preparem para a viagem sem passagem de volta, pois sem dúvida trata-se de um trabalho excepcional da banda, mesmo que incompleto, sem vocal.

O álbum é inaugurado logo com uma pedrada, com um arrasa quarteirão: “Ripensando E...”. O trabalho do moog, das teclas emociona, é contemplativa, te tira do chão, faz flutuar. A bateria entra, marcada, seguindo o ritmo viajante, o progressivo italiano se faz presente, é a personificação timbrada nesta música. Pode ser sentida a ausência do vocal, podemos, sem sombra de dúvida, encará-la como um clássico instrumental, a beleza dos instrumentos é inquestionável.

"Ripensando E..."

A “situação” não muda com a faixa seguinte: “Valigie Di Terra”. A introdução agora fica a cargo da bateria, em um estágio meio experimental, entrando e mantendo tal atmosfera os teclados e, gradativamente, vai ganhando substância, corpo, peso, se tornando mais solar, animada, as viradas rítmicas ganhando protagonismo. Outra música digna de reverências.

"Validgie Di Terra"

Na sequência tem a curta “Idea Imcompiuta” que se destaca, em uma espécie de introdução, os teclados, com a participação da bateria dando uma textura jazzística, mostrando o Aphataurus tal perícia desde os seus primórdios.

E fecha com a excelente “Claudette” que começa lindamente com um piano que depois nos conduz a uma seção estupenda de inspirações sinfônicas avassaladoras e nesse emaranhado de fragmentos sinfônicos tem no fundo um baixo forte, pulsante e vivaz marcando plenamente essa faixa com uma riqueza instrumental invejável. É simplesmente de tirar o fôlego, tantas viradas, tantas percepções sonoras em uma única faixa. Mas na metade da faixa finalmente surge um vocal, a voz do baterista Giorgio Santandrea, discreto, sem tanta potência.

"Claudette"

De fato “Dietro L’Uragano” pode ter sido conhecido como o “projeto inacabado”, sem dúvida, mas com a sensibilidade e a competência de músicos que afloram de forma singular. Há de se deleitar com os instrumentos, a viagem instrumental é garantida e por mais que seja sentida a ausência de um vocal conduzindo todos esses soberbos instrumentos, sobretudo depois de um álbum anterior com um vocal marcante, podemos encarar esse trabalho como uma exibição, sim, instrumental e de grande inspiração.

Em 2010, três dos componentes originais (Pellegrini, Wassermann, Santandrea) reformaram a banda para participar do Progvention de Mezzago, um festival conhecido na Itália. A formação, que inclui o cantor Claudio Falcone, o tecladista Andrea Guizzetti e o baixista Fabio Rigamonti, permaneceu também para alguns shows em 2011. 

E em 2012 finalmente é lançado um álbum de inéditas chamado “AttosecondO”, com a inclusão do baterista Alessandro "Pacho" Rossi e em 2022, após esse período pandêmico, a banda retorna com nova formação e fazendo shows pela Itália. Mas isso é outra história.



A banda:

Guido Wasserman na guitarra

Pietro Pellegrini nos teclados

Alfonso Oliva no baixo

Giorgio Santandrea na bateria e vocal


Faixas:

1 - Ripensando E....

2 - Valigie Di Terra

3 - Idea Imcompiuta

4 - Claudette



 














 






sábado, 27 de junho de 2020

Museo Rosenbach - Live 72 (1992)


Uma banda é o que é nos palcos. No palco a banda exerce a sua divindade, revela a sua essência, interagindo com o público e a comunicação é a música, atrelado a sentimentos de pura catarse que se torna difícil elencar, afinal são múltiplas as reações, mas que comungam da mesma intenção: a ode à música. 

Bandas como a italiana MUSEO ROSENBACH, nascida nos longínquos anos 1970, desenharam, de forma magistral, a sua história nos palcos. E tem sido de uma forma tão arrebatadora, tão visceral, que a sua concepção sonora vai além da frieza e da perfeição exacerbada dos estúdios. 

O Museo Rosenbach é uma das poucas bandas italianas que não se rendeu a zona de conforto do estereótipo, flertou com várias vertentes, tais como rock progressivo, hard rock e soube, como poucos, trilhar uma história de vanguarda na cena rock italiana que, no início dos anos 1970, se definia, se delineava, absorvendo influências que vinha da Inglaterra como, por exemplo, a nova música virtuosa e progressista, da juventude transviada, ávida por novidades e que os músicos, também jovens, compartilhavam daquele frescor dos novos tempos. 

E assim os jovens músicos do Museo Rosenbach se inspiraram para edificar a sua música. E a gênese da banda remonta no ano de 1971 e se chamava inicialmente "Inaugurazione Museo Rosenbach", a partir da fusão de duas bandas do final dos anos 1960 de Sanremo que se chamavam La Quinta Strada e Il Sistema, este última chegou a lançar um álbum pelo selo Mellow Records, entre os anos de 1991 e 1992 e o La Quinta Strada era apenas uma banda cover. 

Il Sistema - "Il Viaggio Senza Andata" (1969-1971)

A propósito, essa nova banda tocava covers de Cream, Jimi Hendrix, The Animals, Steppenwolf, entre outras bandas pesadas que estavam em voga na transição das décadas, moldando o que, em um futuro bem próximo, seria o Museo Rosenbach e que entregaria aos rockers italianos um esboço do que seria conhecido, anos depois, como metal progressivo. 

A primeira formação da banda contava com o futuro integrante da obscura banda italiana Celeste, Leonardo Lagorio no saxofone e flauta e o cantor Walter Franco. Mas foi com a formação que tinha Enzo Merogno na guitarra, Alberto Moreno no baixo, Giancarlo Golzi na bateria, Pit Corradi no melotron, órgão de hammond e piano, Stefano "Lupo" Galifi no vocal e Leonardo Lagorio no sax e flauta que seria responsável pelo primeiro registro discográfico do já Museo Rosenbach, com o nome alterado, de 1972, um show gravado no Park Hotel em Bordighera no verão daquele ano e que é a cidade natal da banda, uma cidade que fica no oeste da Ligúria. Falo do "Live 72".

Museo Rosenbach

Porém este material, obscuro e raro, só ganhou a luz, só foi lançado, vinte anos depois, no ano de 1992, quando a gravadora Mellow Records desengavetou essa pérola sonora que mostra uma banda poderosa, virtuosa, intensa, de personalidade, mostrando toda a sua força nos palcos, mostrando o quão era competente ao vivo, embora as condições em que fora captado esse show não tenha sido as melhores.

Foi sim concebido em condições precárias, mas ainda assim o Museo Rosenbach mostrou a que veio naquele imemorial ano de 1972, antes de ter lançado seu clássico absoluto, em 1973, o emblemático "Zarathustra", mas que neste registro ao vivo algumas músicas que figurariam no primeiro de estúdio da banda seriam executadas, provavelmente pela primeira vez para um seleto e agraciado público. 

O álbum abre, com a faixa, que apareceria em “Zarathustra” chamada “Intro / Dell’eterno Ritorno” que já entrega as credenciais do grande Museo: peso, virtuosismo e uma entrega instrumental impressionante de seus músicos, com passagens rítmicas inacreditáveis, com destaque para o vocal de grande alcance de Galifi, além da “cozinha” bem afiada, mostrando uma incrível sintonia entre o baixo de Moreno e a bateria de Golzi, com o teclado de Corradi trazendo uma camada progressiva a faixa. Um típico proto metal italiano!

“Dopo” é mais cadenciada, que alterna, com maestria, os teclados e a guitarra em um salutar duelo entre os instrumentos, com solos de tirar o fôlego, além de um baixo pulsante e uma bateria marcada com queda para o jazz rock.

Na sequência vem “Season Of The Witch / It’s A Man’s Man’s Man’s World” uma exuberante suíte de quase quinze minutos que inicia com um solo de guitarra viajante e inebriante com uma levada meio bluesy, ao som doce e mesmerizante do piano contrastando com o vocal rasgado de Galifi, poderoso, sendo seguido pelo “esquadrão bélico instrumental”, mas que logo voltava para a suavidade capitaneada pelo piano e alternando com uma pegada mais dançante, diria algo até meio latinizado. E nessas alternâncias rítmicas e ousadas a música tem a sua sequência com o destaque do piano, vocal, riffs sujos de guitarra, o baixo seguindo o ritmo e a bateria investindo em vertentes que vai do blues ao hard rock. 

A apresentação fecha com outra música que apareceria no álbum “Zarathustra”, de 1973, “Della Natura” que traz a indefectível introdução de teclado “rivalizando” com solos pesados e diretos de guitarra que se silenciam para o vocal limpo e dramático assumir o protagonismo da música, mas que logo se junta ao trovão sonoro gerado pelos instrumentistas de mão cheia. Nela se percebe, ou melhor, se ouve, um hard progressivo muito vigoroso e bem executado.

No mesmo ano deste show de 1972, as faixas de “Zarathustra” já estavam prontas e o selo Ricordi ofereceu  um contrato de gravação para o Museo Rosenbach, ganhando então a luz do dia o clássico do hard prog italiano e mundial, em abril de 1973. 

"Zarathustra" (1973)

Mas após o lançamento do álbum a banda desaparece do cenário musical, talvez pelo fato de seus posicionamentos políticos e ideológicos, o que era comum na época, na década de 1970, entre as bandas de rock italianas, era uma época de belicismo político. 

O Museo Rosenbach fora acusado de ter inclinações de direita pela imagem do ditador Benito Mussolini na capa de seu debut e pelas letras inspiradas em Nietzsche, certamente isso fortaleceu para o seu precoce fim.

Mas a banda ressurge nos anos 2000 com dois dos seus músicos históricos, Alberto Moreno e Giancarlo Golzi, lançando o álbum “Exit”, em 2000 e logo depois, em 2012, o "Zarathustra Live in Studio", contando com o ilustre vocal de Galifi. 

"Exit" (2000)

Então finalmente vem ao mundo o terceiro álbum de estúdio do Museo Rosenbach, o excelente “Barbarica”, de 2013. O selo Mellow Records ainda agrupou uma série de raridades da banda nos seus primórdios chamada “Rare and Unreleased”. 

"Barbarica" (2013)

A banda está forte na ativa e brinda o seu público o seu calibre poderoso nos palcos e o “Live 72” foi o pontapé inicial da corroboração de seus feitos ao vivo. E que tenha vida longa!




A banda:

Enzo Merogno na guitarra
Alberto Moreno no baixo
Giancarlo Golzi na bateria
Pit Corradi no melotron, órgão de Hammond e piano
Stefano "Lupo" Galifi no vocal
Leonardo Lagorio no sax e flauta


Faixas:

1 - Intro / Dell’eterno Ritorno
2 - Dopo
3 - Season of the Witch / It’s A Man’s Man’s Man’s World
4 - Della Natura




Museo Rosenbach - "Live" (1972)