Mostrando postagens com marcador 1972. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1972. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de abril de 2026

Grit - Grit (1972)

 

Hornsey, Inglaterra, segunda metade dos anos 1960. Das cinzas da banda Merlyn, nasceria a banda GRIT. O Grit trazia, em sua formação, Frank Martinez, na guitarra solo e vocais, Paul Christodoulou no baixo e vocais, Tom Kelly, na bateria e vocais e Jeff Ball, o vocalista principal.

A origem do nome “Grit” veio, como todas as ideias, de lampejos, de “surtos” criativos. Michael, um antigo membro da banda, estava, juntamente com Frank Martinez, andando pelas ruas de Londres e avistaram uma lixeira, onde é armazenada areia que é usada em estradas geladas, com neve e a partir daí veio o estalo: “Grit”! No dia 20 de outubro de 1970 foram ao cartório para registrar o nome.

As origens dos membros do Grit vieram, claro, de outras bandas. O início da carreira musical de Martinez foi com um teste para Joe Meek em seu estúdio na Holloway Road. Mais tarde ele também tocou com uma banda chamada Grand Union, que abriu para o Pink Floyd em 1968 e com membros da John Dummer Band. O baterista Tom Kelly veio de uma banda chamada “Connexion” e Paul Christodoulou tocou no Merlyn juntamente com Frank, essa trazia a espinha dorsal do Grit. Além de Paul e Frank, a formação do Merlyn trazia George Panteli, na guitarra, John Stevens, nos teclados.

A formação definitiva do Grit nasceu quando Frank e Paul convenceram Tom Kelly a se juntar a eles. Foi difícil, no início, mas ele cedeu quando assistiram a um show da banda escocesa Nazareth. O vocalista Jeff foi o último a se juntar à banda quando esta colocou um anúncio na Melody Maker.

Grit

Diferente do que muitos pensavam à época o Grit não era um “power trio”. De fato, a banda, efetivamente, estava em três músicos, pois Jeff Ball, o vocalista principal, foi o último a entrar. Mas não se podia negligenciar a importância dos irmãos Russell para o Grit. John era um ótimo apoiador da banda, embora não tocasse nenhum instrumento, sempre ajudou no que fosse possível. Porém teve de se afastar quando se casou. Jimmy, seu irmão, assumiu o lugar de John, tornando-se roadie e técnico do Grit.

Agora com essa formação o próximo passo da banda seria, como todas as outras, ensaiar, compor material próprio e gravar um álbum para divulgar e viver da sua arte, da sua música. Cabe aqui uma curiosidade acerca do guitarrista Frank Martinez, já que mencionei sobre viver de música: Martinez, apelidado de "Spider", estudou eletrônica no Southgate Technical College e trabalhou na Nolan Amps e construiu um amplificador PA de 100W (chamado de Spider PA) e duas pilhas de alto-falantes, que mais tarde se tornariam parte do equipamento do Grit.

A gravação, realizada na SWM Studios, foi feita na hora, sem ensaios, apenas configurada e pronta, afinal, a banda não tinha grana para pagar por um longo tempo no estúdio. Eles fizeram isso pouco antes do natal, na véspera de natal e o engenheiro de som, no ritmo das festas natalinas, não se aplicou bem ao trabalho e reza a lenda que estava bêbado. Resumo: além do pouco tempo que o Grit tinha, praticamente concebeu o álbum sem amparo técnico. 

Nos LP's, a banda conseguiu encaixar todas as músicas de um lado, o engenheiro reduziu o nível do baixo. As fitas estavam de acordo. As músicas foram escritas pela banda, exceto "Mineshaft" (Tom), "Child and the Drifter" (Paul), "What do you see in my Eyes" (Frank) e "I wish I was" (Paul). Outra faixa escrita por Tom foi "Surrounded by Four Grey Walls" (não gravada).

“Grit”, o álbum ou melhor um rato acetato ou EP como foi lançado à época, basicamente traz um envenenado hard rock, aquele típico, mas inconfundível, hard rock dos anos 1970, porém com reminiscências do rock psicodélico, com guitarras lisérgicas e pesadas, com uma bateria furiosa, baixo pulsante e um vocal forte e direto. Um álbum do seu tempo, mas ainda assim não deixa de entregar grandes surpresas. Um álbum pesado, forte, volumoso, cheio de vida que nasceu e não ganhou o mundo, como tantos outros que, sem nenhum suporte, perece, não vinga. A falta de estrutura, de uma produção adequada, apenas realçou a volúpia de seu som, mostrando-se cru, arrogante e pesado.

O álbum é introduzido com a matadora faixa de “Mineshaft” que, como um trovão, começa com riffs pegajosos e pesados de guitarra que me remete a um heavy metal, um proto metal poderoso, com um vocal alto, gritado, em alguns momentos e até rouco. Bateria em uma batida forte, intensa, baixo pulsante, galopante. Os solos de guitarra se mostra psicodélico, ácido, mas logo se apura, fica mais alto e límpido trazendo aos tempos do hard rock dos anos 1970. Não há como ficar parado a essa hecatombe sonora.

"Mineshaft"

Segue com “The Child and the Drifter” que inicia mais discreta, com dedilhados de guitarra, mas foi por pouco tempo, a bateria anuncia mais uma força da natureza que varre tudo que está em sua frente. Ela é pesada, marcada, mas cheia de agressividade que encorpa a música, a deixando poderosa, pesada e totalmente despretensiosa. E tudo isso é confirmado pelos riffs de guitarra. Os vocais aqui estão mais contidos, mais discretos, mais apurados. Solos de guitarra variam entre o peso do hard rock e a lisergia do psicodélico. O que dizer do final? Pesada, um doce caos!

"The Child and The Drifter"

“What Do You See in my Eyes/I Wish I Was” começa atípica para o que se ouviu nas duas faixas iniciais. Guitarras dedilhadas, lembrando The Doors, vocais doces e baixos. Ao ouvi-la me remete imediatamente aos tempos do “flower power” dos anos 1960, com uma pegada meio folk, inclusive. Mas não se enganem, caros leitores, porque, logo irrompe em uma explosão de hard rock, mais uma vez, com destaque para a bateria pesada. A proposta da música é trazer variâncias rítmicas, pois, logo se ouve um belíssimo solo de guitarra com uma vibe mais blues, curto, mas viajante e lindo, mostrando que a banda é sim competente. O final é vibrante, intenso, revelando, ainda mais, a competência instrumental de seus músicos. O hard rock é o protagonista no derradeiro e espetacular final dessa faixa.

"What Do I See in My Eyes / I Wish, I Was"

“1000 Miles” começa pesada, a bateria é forte, intensa e caótica. A música, quando ganha velocidade, ganha corpo, peso, se mostra, se revela um verdadeiro proto metal. As arestas da heavy metal estão nas arestas sonoras, na melodia, na dramaticidade de seus instrumentos. Vocais gritados corroboram tal condição. Em determinados momentos ela se torna arrastada, agora percebe-se o proto doom, a sujeira do som. Espetacular!

"1000 Miles"

Segue com “Across the Windowsill” que é a faixa bônus do álbum, em virtude do seu relançamento. Essa faixa foi concebida quando a banda se chamava Merlyn e traz uma pegada mais garageira, com “pitadas” evidentes de uma psicodelia ácida e pesada, com riffs grudentos, mas pesados de guitarra, que confirmam a lisergia. Na sequência do relançamento do álbum traz a já citada por aqui, “What Do You See In My Eyes/ I Wish I Was” e fecha com a pesadíssima, e também já citada faixa que inaugura o álbum original, “Mineshaft”, aqui chamada de “Down in the Mine”. Para registro histórico vale e muito a pena a audição, sobretudo da avassaladora “Mineshaft”.

"Across The Windwsill"

O Grit, munido de seus acetatos de 12", gravadas em um lado só,  visitou alguns agentes musicais e selos em Londres, para tentar lançar seu material e partir para a turnê em divulgação de sua música, mas ninguém se interessou. Contudo enquanto procurava, um gerente, eles encontraram uma empresa que lhes garantiu uma turnê pela Grécia. Era a chance que precisavam, diante de um cenário de total descaso com a sua música. Eles tinham anunciado o seu álbum na famosa “Melody Maker” e essa empresa grega viu e decidiu entrar em contato.

Era a Mantas Production, do grego Kon Mantas! A banda aceitou a oferta e seguiu viagem para a Grécia em 23 de abril de 1973. Foi uma verdadeira aventura e a chance de que o Grit precisava para deslanchar a sua música. E a aventura já se deu na viagem! Cruzaram boa parte da Europa dentro de uma van e, claro, os problemas mecânicos com o carro apareceriam. Se perderiam também no caminho, mas, enfim chegaram.



Em Atenas a banda finalmente conhece Kon Mantas. Era um cara legal, mas não tinha tanta experiência como empresário ou nenhuma experiência. Colocou a banda em um apartamento. Ficaram bem instalados, mas não demorou muito para entrar em atrito com os moradores do prédio, por conta dos ensaios, e logo foram visitados pela polícia e intimados a sair do local. Mantas decidiu, diante disso, instalá-los em um hotel.

Sem muito trabalho, Kon Mantas começou a buscar outras alternativas para trazer um mínimo de renda para si e também para manter o Grit no hotel, pagando as suas diárias. A banda, consequentemente estava com dificuldades de descolar alguns shows. Mas não deixaram de se esforçar na incessante busca de shows, de apresentações e conseguiu alguns shows com as principais bandas de psych rock da Grécia, como Sócrates e Peloma Mpoklou em grandes festivais. Tocaram em um show pop diante de três mil pessoas. Era o auge para o Grit ou melhor do "Bomba", como ficou conhecida a banda em terras gregas. Tocaram também em um show, ao ar livre, no Palais des Sports Festival, Thessalonica. Eram sete mil pessoas. Estava indo bem, apesar de que, neste último show, o promotor não tenha feito o pagamento do cachê à banda. Mas pelo menos conseguiram se apresentar e mostrar a banda a uma multidão.

Apareceram na TV desta vez, no “Top of the Pops”. Um programa famoso e que muitas bandas emergentes tocaram. Os diretores pediram ao Grit para se posicionarem devidamente no palco, era um programa em que as bandas faziam “playback”, mas o Grit não obedeceu e pularam por todo o lugar. Tiveram alguma publicidade na revista “Fantasia”. Apareceram em outro programa de TV chamado “Golden Shot”, onde também tocaram “playback”. Foram quatro aparições na TV do Grit, no total.

Mas tudo tem um fim! O guitarrista e vocalista Frank Martinez recebeu a notícia, de sua mãe, que o seu pai estava gravemente doente. Ele precisava deixar a Grécia para voltar para Londres, mas a banda precisava conversar sobre isso e como no momento não estavam fazendo shows e consequentemente estavam sem dinheiro para se manter na Grécia. Então decidiu retornar à Inglaterra e os demais da banda retornariam duas semanas depois. A aventura durou de maio a julho de 1973. E no final de julho daquele mesmo ano o Grit optou por se separar. Esse era o fim da banda!

Frank Martinez

Martinez deixaria a música em 1974. Mudou-se para a Espanha e decidiu dedicar-se à eletrônica, no que estudou no passado, como autônomo, e com essa profissão aposentou-se. Ao se aposentar voltou a tocar novamente. O baterista Tom Kelly e o baixista Paul Cristodoulou, que tocaram juntos no Merlyn, formaram a banda “Kelly” e depois fizeram uma pausa e, nos anos 1980, Tom se juntaria à banda de heavy metal “Mean Machine”.

Tom se mudaria para Bournemouth e se concentrou na pintura. Ele ainda tem uma bateria em seu estúdio e toca praticamente todos os dias. Paul está atualmente no Chipre tocando com a banda “Reggae Rockers”. O vocalista Jeff continua sua carreira em Benidorm em uma banda de tributo aos Bee Gees.

As gravações e fitas do único álbum do Grit, de 1972, estavam prontas para serem descartadas pela família de Frank Martinez. Ninguém realmente queria aquelas coisas antigas ocupando espaço. Mas antes que isso acontecesse Frank mostrou seu LP, em 2019, para um amigo, fanático por rock e vinis, e ele recomendou que publicasse uma foto e as gravações no Facebook e na internet. O fez de forma totalmente despretensiosa, gostou de compartilhá-lo nas redes sociais, ferramenta esta que não era tão próximo.

E para a sua surpresa veio o primeiro contato da Alemanha comentando que havia comprado um dos acetatos do Grit em um mercado de pulgas e perguntou se poderia usar o material. Martinez não hesitou e autorizou que os usasse. Algum tempo depois um representante da gravadora Guerssen entrou em contato interessado em relançar o álbum. Dessa vez de forma oficial, depois de quase cinquenta anos de sua gravação. Que sorte Martinez não ter descartado as gravações! Então esta foi cedida para o selo que o relançou em 2020. A outra cópia do acetato original, pode ser encontrada em “7001 Record Collector Dreams”, de Hans Pokora, com um ponto máximo dado por raridade. Afinal havia apenas duas cópias pressionadas! Convém lembrar também que tal trabalho foi relançado por selo brasileiro Hellion Records em 2023.

Uma história cheia de aventuras, repleta de obstáculos e muito amor à música, digna de cinema e que mostra uma música forte, intensa, pesada. Uma joia escondida do rock n’ roll que depois de quase meio século na mais pura e genuína obscuridade ganha luz para deleite daqueles que desbravam o lado underground da música de que tanto amamos.





A banda:

Frank Martinez na guitarra e vocal

Paul Christodoulou no baixo e vocal

Tom Kelly na bateria e vocal

Jeff Ball no vocal

 

Faixas:

1 – Mineshaft

2 – The Child and The Drifter

3 – What Do You See In My Eyes / I Wish I Was

4 – 1000 Miles

5 – Across The Windowsill (Merlyn) – Bonus Track

6 - What Do You See In My Eyes / I Wish I Was – Bonus Track

7 – Down In The Mine (Mineshaft) – Bonus Track




"The Grit" (1972)





 




































terça-feira, 18 de novembro de 2025

Warpig - Warpig (1972)

 

Muitas histórias desfilaram e certamente desfilarão neste reles e humilde blog. Eu confesso em dizer que aprecio as histórias que permeiam no rock n’ roll, pois penso que estas personificam, desenham as linhas sonoras dos álbuns aqui dissecados. São exemplos de luta, de persistência e principalmente de músicos promissores que, por diversos motivos, fracassam sob o aspecto comercial, perecendo, caindo no mais profundo ostracismo.

Mas o fracasso não obscurece o talento e o talento, ainda que com muita dificuldade, em algum momento, vem à luz por intermédio de abnegados fãs de rock obscuro, de selos alternativos que, graças às redes sociais e outras ferramentas de comunicação, fazem que essas bandas ganhem vida de novo por conta de seus álbuns.

E eu, em minhas incursões e garimpos pela grande rede, descobri uma banda canadense, da região de Ontário, que trazia um nome que muitos conhecem pela música, clássica, do Black Sabbath: WARPIG. Pois é, caros leitores, o Canadá não vive apenas do grande Rush. Há uma infinidade de bandas que compõe o lado esquecido de uma cena rock aquecida e forte.

E o Warpig é uma daquelas inúmeras bandas promissoras que trafegaram, silenciosamente, pelos anos 1960 e que, apesar de produzirem pouco, deixou um trabalho de muito talento e que, de alguma forma, inaugurou, mesmo que na mais profunda obscuridade, um estilo, uma sonoridade que viria a florescer nos anos 1970: o hard rock.

Mas apesar das dificuldades na sua gênese o Warpig ganhou certa repercussão graças as suas inúmeras apresentações ao vivo, como muitas bandas que não tiveram apoio da mídia, das rádios, das gravadoras. Muitos shows, o tempo inteiro na estrada.

Trazendo à tona a história do Warpig, teve a sua formação construída da mesma forma que tantas outras bandas de Ontário, mais precisamente da região de Woodstock, em meados dos anos 1960. O Warpig evoluiu do “Mass Destruction”, uma banda de garagem, também de Woodstock, com o vocalista e guitarrista Rick Donmoyer e o baixista Terry Brett.

Donmoyer tocou antes em várias bandas, como “The Turbines” e “The Kingbees”, também conhecido como “The Wot”. No final de 1966 Donmoyer se viu procurando um novo projeto e se juntou ao “Mass Destruction” que trazia o já mencionado baixista Terry Brett, Dana Snitch, tecladista e guitarrista e o baterista Terry Hook, todos, como disse também, nativos de Woodstock. Isso foi em 1968.

O Mass Destruction começou a ensaiar no porão da casa de Hook, como o início de tantas outras jovens bandas de outros tantos jovens músicos, e logo a banda mudaria o nome para “Warpig”. E do ensaio a nova banda começou a se apresentar ao vivo e conseguiu construir alguma reputação por suas avassaladoras performances e carismáticas, trazendo consigo um número considerável de seguidores, conseguindo chamar a atenção também de alguns executivos de gravadoras e críticos de rock n’ roll.

Enquanto o Warpig se apresentava ao vivo, gravava seu material autoral, fugindo um pouco dos covers de bandas que a inspiraram a construir a sua sonoridade e, graças a essa virada em sua história e também graças às suas apresentações, acabou por chamar a atenção do dono da gravadora Fonthill Records que assistia ao show e imediatamente assinou com o Warpig no final de 1968.

Isso estimulou, ainda mais, os jovens músicos a continuar compor músicas autorais e, enquanto escreviam seu próprio material, deixando de lado sua dependência dos covers, a trajetória do Warpig mudaria completamente em 1969, quando o Led Zeppelin se envolveu em sua turnê massiva que conquistaria o Canadá. Esse frenesi do Zeppelin em terras canadenses infundiria bandas emergente, como o próprio Warpig, com uma sensação de novo impulso energético e vitalidade.

O hard rock estaria na moda e isso traria a audiência de fãs jovens ávidos por novidades, mas infelizmente, não deixaria de trazer à tona as dificuldades dessas bandas, incluindo o próprio Warpig, a financiar suas próprias despesas de gravação. E continuou a revezar o seu trabalho de estúdio com as suas apresentações ao vivo, ganhando espaço também na cena independente de Toronto.

A banda, já que falei de processo de gravação, entrou em estúdio em 1970, juntamente com os produtores Robbie Irving e Jim Croteau, e entregou uma mistura única de sons que levou em consideração todos os sons contemporâneos da época, em uma sopa sonora inacreditavelmente inusitada. Com uma variedade de sons que misturavam tudo, do proto metal ao blues rock, juntamente com o surf rock, sons psicodélicos, prog rock. O Warpig, com seu álbum, provou criar uma diversidade de sons que fizeram outras bandas locais empalidecer em comparação.

O álbum da banda, simplesmente chamado de “Warpig”, teve o término da gravação na primavera de 1970, mas teria que esperar alguns anos para ser lançado devido ao fato de que a gravadora Fonthill havia sido adquirida pela London Records, em 1971, que acabou por renegociar o contrato e, para variar, atrasou o lançamento real do álbum até 1972!

Isso foi realmente ruim para a banda, porque o Warpig entregou um álbum de hard rock por excelência em 1970, na época em que o rock psicodélico dos anos 1960 estava se metamorfoseando no hard dos anos 1970 e no prog rock também dos anos 1970. O Warpig ainda tinha a capacidade de criar composições progressivas mais complexas, capturando, como disse, várias sonoridades que estavam embrionárias nos anos 1970. Então, por conta de questões contratuais, o Warpig poderia assumir um protagonismo histórico e rivalizar com a tríade fantástica da música pesada da Inglaterra: Deep Purple, Led Zeppelin e Black Sabbath, pois, digo, sem medo de errar, que o Warpig trafegou nos estilos sonoros praticados por essas famosas bandas.

Adicione isso a acidez lisérgica de influências do Cream e Jimi Hendrix, a uma fúria juvenil marcada por experimentalismos, com uma eficácia habilidosa e comovente, sendo estes os ingredientes certos para uma banda de rock atingir o ápice do sucesso comercial e mundial, mas o desfecho provaria o contrário. Alia-se a isso negligência de divulgação da gravadora, músicas não tocadas nas rádios, falta de gerenciamento adequado, negligência total, que é capaz de causar uma perda de todo o ímpeto de jovens músicos ávidos por ganhar o mundo. Mas antes de trazer o fim, falemos de suas músicas.

O álbum é inaugurado com a faixa “Flaggit” que já entrega, de imediato, o lado blues rock e hard rock do álbum. É pesada e direta, rápida, que nos remete, juntamente com riffs grudentos de guitarra, uma porção proto metal. Solos mais diretos de guitarra corroboram a sua condição de um hard rock com pitadas blueseiras de excelente qualidade. Não podemos negligenciar também a bateria pesada, marcada, com um baixo pulsante e vivo.

"Warpig"

“Tough Nuts” começa com aquele teclado psicodélico, que remete ao The Doors, repleto de lisergia, mas depois irrompe em uma explosão hard, cheia de peso, que lembra um doom metal sujo e arrastado e nisso fica uma inusitada “rivalidade” entre a pegada pesada e lisérgica. O destaque também fica para a bateria pesada, destruindo tudo, arrasando com tímpanos suaves e delicados. É pesada, é psicodélica, é intensa!

"Tough Nuts"

Segue com “Melody with Balls” que traz uma introdução arrasadora de um riff pesado e sujo que remete ao Sabbath e a fase mais dura do Zeppelin e que logo fica meio cadenciada, dançante, mas não menos pesada, porque a bateria, com uma batida pesada, e os solos de guitarra, faziam questão de deixá-la mais voltada para o hard rock. Mas não fica apenas no peso, mas depois assume um lado mais experimental, viajante, remetendo ao psicodelismo, porém por pouco tempo, porque os riffs de guitarra voltariam para mantê-la pesada.

"Melody with Balls"

“Advance Am” (Advance in A Minor) inaugura o lado progressivo do álbum. A sua introdução tem nos teclados o destaque, trazendo uma sonoridade calcada no beat, no psicodélico também, me remetendo às bandas como Iron Butterfly, por exemplo. Uma sonoridade viajante, contemplativa, sombria, estranha, em alguns momentos. Mas o peso vai ganhando corpo, graças a bateria que bate forte, uma batida seca, porém intensa, um baixo forte e pulsante, a seção rítmica ganha destaque nesse momento da faixa de sete minutos e meio de duração. E assim ela vai tendo mudanças de andamento bem interessante, mostrando um Warpig bem complexo e até mesmo sofisticado.

"Advance Am (Advance in a Minor)"

“Rock Star” traz de volta o hard rock veloz e pesado, mas um pouco mais dançante e com uma pegada inicial meio jazzístico, a bateria ajuda muito para essa percepção. Um “fusion hard” cheio de energia e peso e muito solar. É animada e corrobora com solos bem dedilhados de guitarra. O vocal ganha destaque nessa faixa também, variando da limpidez a momentos mais gritados e potentes.

"Rock Star"

“Sunflight” começa meio familiar, com uma guitarra ao estilo Yes, mas só por alguns instantes em sua fase inaugural, porque logo irrompe para uma explosão de peso sonoro, capitaneados por riffs e solos de guitarra pesados e bateria marcada. Mas esse peso e contrabalanceado por um vocal límpido, transparente, quase cristalino que traz leveza à música. Os solos vão se intensificando, cada vez mais altos, mesclados aos riffs grudentos e pesados. 

"Sunflight"

“U.X.I.B.” começa pagã, sonoridades folk, lisérgicas, psicodélica, torna a faixa introspectiva, sombria, estranha. Mas esse momento mais introspectivo dá lugar a solos lindos de guitarra, de tirar o fôlego, com a bateria arrogantemente pesada, baixo galopante e cheio de groove, isso tudo com um tecido de guitarra que cobria todo esse aparato instrumental. Sem dúvida mais uma faixa hard progressiva, repleta de mudanças rítmicas de tirar o fôlego.

"U.X.I.B"

E finalmente fecha com “The Moth” que lembra, mais uma vez, The Doors, com um duplo destaque, com bateria cheia de groove e teclados dançantes e animados. Depois ganha uma camada meio jazzística em um fusion nervoso e envenenado, com solos de bateria, de teclados. Aqui a banda foge um pouco do hard rock que se mostrou predominante em todo o álbum e constrói uma música com uma pegada mais comercial, mas sem soar ruim ou vazia.

"The Moth"

A compra da Fonthill Records pela London Records, em 1971, além de ter adiado o lançamento oficial do álbum homônimo do Warpig e complicado um pouco a vida dos seus músicos, que fez com que revissem o contrato, lançando o trabalho em 1972, veio junto com um abandono de divulgação da banda pela London Records.

Faltou apoio e difusão do trabalho da banda, porém, ainda assim, em 1973, o álbum foi relançado e reeditado pela London, com uma nova capa e duas faixas regravadas no Toronto Sound com Terry Brown, produtor icônico das grandes bandas do rock canadense, são elas: "Flaggit" e " Rock Star". Inclusive a versão regravada do single “Rock Star” chegaria às paradas, finalmente, e ficou por sete semanas.

Essa nova capa, relançada pelo selo London Records, traz uma foto de uma vela acesa ao lado de um ankh, o símbolo egípcio da chave da vida em jogo americano carmesim. A contracapa mostra uma imagem com a vela apagada. A capa interna tem uma foto vermelha da banda em um bosque profunda e há uma nota final nos créditos do álbum que diz: “Para melhor resposta, este disco deve ser tocado alto!”

O Warpig continuou se apresentando ao vivo, fazendo shows e revezando, gravando material novo no estúdio quando tinha um tempo vago. Mas o que deveria ser o segundo álbum da banda foi arquivado quando eles não conseguiram encontrar um distribuidor. Se viram obrigados a interromper o projeto praticamente pela metade.

Snitch deixou a banda por diferenças musicais e um tanto quanto irritado com a gestão da banda, bem como o caminho sem luz no fim do túnel que o Warpig estava seguindo. Não demorou muito que os demais integrantes da banda também debandarem. A separação completa da banda ocorreu pouco tempo depois, no final de 1973. Todos passaram a fazer projetos externos e suas próprias coisas, Donmoyer continuou na música por mais alguns anos, principalmente fazendo turnê com a banda Ash Mountain, sediada em Toronto.

Em 2003 o Warpig reaparece quando algumas cópias de seu álbum de estreia, piratas, começaram a atrair preços altos no Ebay, no mercado negro. A banda, aproveitando esse momento, foi reformulada, trazendo a sua formação original. Eles se reuniram para ver o que aconteceria e, desde então, concentraram suas energias nos ensaios em tempo praticamente integral.

"Warpig atualmente"

Finalmente seu álbum autointitulado foi oficialmente relançado em 2006, agora pela Relapse Records, embora muitas versões piratas em CD e vinil continuassem a aparecer e serem comercializadas.

O álbum foi remasterizado digitalmente por Peter Moore (Cowboy Junkies) e contou com um novo layout de arte criado pelo artista Orion Landau. A versão em CD de “Warpig” foi lançada pela Relapse em outubro de 2006.


A banda:

Rick Donmoyer nos vocais e guitarra

Terry Hook na bateria

Dana Snith nos teclados e vocais

Terry Brett no baixo

 

Faixas:

1 - Flaggit

2 - Tough Nuts

3 - Melody with Balls

4 - Advance Am

5 - Rock Star

6 - Sunflight

7 - U.X.I.B.

8 - The Moth




"Warpig" (1970)




 


 










 













 








sábado, 8 de novembro de 2025

Tapiman - Tapiman (1972)

 

Costumo associar ou comparar algumas bandas, principalmente aquelas de vida efêmera, com uma estrela cadente, como são conhecidos, popularmente, como meteoros. São fugazes, são manifestações naturais, que, quando surgem, são fugazes e, dependendo de sua magnitude, destroem tudo o que veem pela frente.

Não há comparação melhor com as bandas obscuras e que surgem na escuridão, na obscuridade, vivem uma vida curta, desaparecem sem deixar rastros, mas, ainda assim, conseguem servir de referência para suas vertentes sonoras, mas não gozando de sucesso e popularidade.

E como estrelas fugazes podem ser apreciados por poucos, afinal tem de estar com os seus telescópios, seus olhares voltados para o lugar certo e no momento certo. E repararam quando presenciamos tais fenômenos nos sentimos privilegiados? Pois é, caros leitores, isso se aplica também às bandas que surgem, vivem e perecem obscuramente.

Por isso que costumo dizer que nasci no “tempo errado”. O tempo é relativo, porque temos a sorte de termos gravadoras undergrounds abnegadas e dispostas em trazer à tona bandas e álbuns esquecidos e jogados no fundo do baú empoeirado do rock n’ roll e que podemos ouvir e perceber, definitivamente que, os anos 1970, foram os mais prolíficos para o rock.

Então falemos de uma excepcional banda catalã, surgida, claro, em Barcelona, que abalou com as estruturas sônicas daquela proeminente cena rock trazendo um hard rock potente calcado ainda no blues rock e no que convencionaríamos, no futuro, de heavy metal. A banda? TAPIMAN.

Tapiman

As origens do Tapiman vêm do exímio baterista Josep María Vilaseca "Tapi", que era uma lenda do rock espanhol, tido, inclusive como o melhor baterista de seu tempo. Reza a lenda de quem o conheceu, de que ele era um menino e mais a frente um jovem a frente de seu tempo, que gostava de beber e se divertir. Tapi era uma maravilha com as baquetas na mão. Parecia levitar com seu instrumento, quando se apresentava.

E a sua trajetória no rock se fez com a banda Vértice e em 1969 ingressaria no Maquina!, uma referência do rock catalão na transição das décadas de 1960 para a de 1970. Com a dissolução do Maquina!, Tapi decidiu alçar novos voos e contou com o excelente guitarrista Miguel Ángel Núñez para formar o Tapiman, lá pelo ano de 1970. A origem do nome “Tapiman” vem do nome “Tapi” de Josep e a contração do nome do guitarrista Miguel (MAN). Se juntaria, logo após, à banda o baixista Pepe Fernández, que tocou também no Vértice com Tapi. Vale dizer também que “Tapi” era o nome artístico de Josep, porque ele morava rua Tapioles (Tapi / oles), na Chinatown de Barcelona.

O “power trio” estava formado. E eles de fato trouxeram algo novo, arrojado ao rock n’ roll espanhol. E com um punhado de músicas no braço os jovens músicos foram em busca de algum produtor, empresário ou gravadora para materializar seu sonho de gravar um álbum e as suas músicas, até que o selo Edigsa decidiu gravar, em 1971, o primeiro single do Tapiman, com duas músicas, "Hey, You!" e "Sugar Stone", duas grandes canções que seriam o prelúdio do que viria mais tarde com seu primeiro álbum.

E o destaque fica para “Sugar Stone” que apresenta um hard rock puro, potente, vigoroso, tido, por muitos, como uma das músicas pioneiras da música pesada na Espanha e que tinha alusões claras, em sua letra, a temas psicodélicos, fruto ainda de uma fase no rock onde a lisergia reinava ou pelo menos, lá pelos idos de 1971, terminava seu reinado.

Fica o destaque também em dizer que o Tapiman foi o primeiro “power trio” da história do rock espanhol e nitidamente mostrava influências de bandas como Black Sabbath que à época estava iniciando a sua trajetória com a sua trinca pesada de álbuns seminais e pesados, além de Jimi Hendrix e, claro, Cream, o primeiro “power trio” da história do rock. Outra novidade para o rock espanhol era o baterista como vocalista também, mesmo que Tapi tivesse certa barreira com o idioma inglês, compensava com potência e por vezes um vocal rasgado que harmonizava perfeitamente com a sonoridade do Tapiman.

Naquele mesmo ano, 1971, o Tapiman lançaria outro single, agora com as músicas “Love Country” e “Walking All Along the Life”, porém com outro guitarrista. Seria a primeira baixa da banda, saindo o grande guitarrista fundador, Miguel Ángel, devido ao serviço militar obrigatório. Tapi não demorou muito para encontrar um novo guitarrista para compor a banda e este foi outro exímio “guitar man” chamado Max Sunyer, outra lenda viva que também havia tocado no Vértice e que já era um guitarrista profissional experiente.

Vale, como registro histórico, que, pouco antes disso, Tapi, juntamente com três dos músicos do Vértice, além de ter colaborado com os singles que a banda lançou, gravaria, em 1970, um álbum de nome “Rock n’ Roll Music”, de um rock muito poderoso e com tendências muito progressivas que incluíram versões de John Mayall e Ray Charles. Este álbum foi lançado com uma tiragem muito curta. Esse projeto é um claro avanço do que viria mais tarde a ser o Tapiman.

"I Want a Boogie"

Para alguns críticos da época e fãs também esse segundo single lançado pelo Tapiman perderia a força do anterior lançado, sendo um passo em falso considerando o que viria no ano seguinte com o seu primeiro álbum, mas para outros a adição de Sunyer foi preponderante para o crescimento sonoro da banda. Independentemente de qualquer coisa, a chama estava acesa, a força do Tapiman ainda estava lá com seu DNA explosivo calcado no blues e hard rock.

O início dos anos 1970 foram confusos para a Espanha, dada a sua instabilidade social e política. Em 1971, antes do Tapiman lançar o primeiro álbum, participaria do festival permanente do Iris Hall de Barcelona. Juntamente com o Tapiman estavam bandas como Smash, Sisa, Pan, Alcaçuz entre outras.

Dado o clima de revolta que ainda enfileirava após os chamados processos de “Burgos”, a polícia se dedicou a bater, sem dó, nos apreciadores de rock n’ roll que saída do festival, pelo fato de serem “cabeludos”. O Tapiman também participaria, em Madrid, de um festival de rock progressivo que no ano anterior não pôde ser realizado por causa de uma batalha campal entre estudantes e roqueiros. Mas, apesar dessa instabilidade política e da atmosfera de violência, também foram dias de grande emoção e diversão.

E assim surgiria para o mundo, graças ao olhar do selo Edigsa, que confiou no trabalho arrojado e louco do Tapiman, o álbum homônimo, em 1972, tendo como base no que foi lançado no primeiro single, que contava ainda com Miguel Ángel à frente da guitarra na banda. Mas claro que teve a assinatura de Max Sunyer dada a sua já experiência no universo da música. A capa, marcante, com uma caveira rosa, foi concebida por Guillem Paris, membro do Pan e Licorice, bandas que compartilharam palcos e a cena no início dos anos 1970.

“Tapiman” surgiu como uma bomba do hard rock muito à frente do seu tempo, um álbum cru, sujo e forte, totalmente despretensioso. Pepe e Tapi fazem uma seção rítmica bem entrosada, com a bateria que é uma verdadeira delícia e que deixa um bom terreno para Max implantar todas as suas habilidades na guitarra. Apesar da energia do álbum, não se destacam propriamente por serem muito pesados ou muito progressivos, têm uma personalidade muito marcada e inconfundível e um trabalho importante e realizado nas partes mais psicodélicas.

Apesar de ser um álbum similar ao que estava se fazendo na Europa e nos Estados Unidos, com o viés do peso, do hard rock e até mesmo pegada progressiva e blueseira, o que tornava, também, o debut do Tapiman especial e único é a sua veia psicodélica e principalmente uma camada proto heavy que, certamente, serviria de referência para a cena metal da Espanha e da Europa nos anos 1980 e nas gerações de músicos mais à frente.

O álbum é bem recebido à época e teve boas críticas na também escassa imprensa que atuava na área musical nos longínquos anos 1970. Mas ainda assim não foi considerado como o melhor álbum de hard rock gravado na Espanha, essa parte é plenamente discutível, pois temos, de fato, bons trabalhos lançados no início dos anos 1970, mas “Tapiman” definitivamente foi o melhor de sua época! Ah já que falamos de melhores álbuns, destaco, da mesma cena espanhola de Barcelona, um trabalho magnífico, lançado anos mais tarde, em 1979, do álbum “La Bruja”, da banda Rockcelona, cuja resenha pode ser lida aqui.

Abre com a faixa “Wrong World” que já entrega, em sua introdução, um riff que deixaria bem claro o que vamos ouvir em todo o trabalho do Tapiman: um hard rock volumoso, pesado, agressivo, potente, com uma jam enérgica e viva. A sequência traz "Gosseberry Park" que me remete a uma veia mais pop, mas que não entra em conflito com a proposta do álbum. O resultado é uma música elegante, cativante e amigável para o rádio.

"Wrong World"

Segue com “Don't Ask Why” que revela um blues progressivo portentoso que traz a sensação de que você nunca sabe como vai continuar, mas não se torna excessivo, indigesto ou ainda enfadonho, porque a guitarra soa melhor, uma sonoridade mais rebuscada e o final é apoteótico. “Practice” não foge à regra e traz um festival de riffs de guitarra pesados e agressivos com uma bateria marcada e extremamente pesada. É de tirar o fôlego!

"Don't Ask Why"

“Paris” é um belo instrumental que soa melancólico acompanhado por um órgão Hammond, onde a guitarra de Sunyer se torna o destaque, que chora suavemente e que me remete, em parte, a um blues antigo. “No Chance” começa com a guitarra mais viajante e uma sonoridade mais calcada no psych, um psicodélico mais pesado, que traz à memória Cream e Hendrix.

"No Chance"

“Moonbeam” é outra faixa instrumental muito bem executada, mostrando a destreza dos músicos com seus respectivos instrumentos e traz à mente, em sua base rítmica, o rock andaluz da época. “No Control” traz de volta o peso sujo do álbum, uma guitarra arrastada, agressiva e densa, ao mesmo tempo, que me remeteu ao doom metal oitentista. Vocal rouco e rasgado também é o destaque.

"No Control (Álbum: "Hard Drive")

Eis que surge “Jenny”, a balada do álbum. Mas em vez de cair no brega previsível tem uma atmosfera sombria e, claro, psicodélica deslumbrante. Viajante! E fecha com a música mais complexa e longa do álbum, “Driving Shadow (Pepe’s Song”). Essa faixa alterna entre partes brutais de hard rock poderoso, psicodelia, um solo de bateria e os inevitáveis solos de guitarra, uma das marcas registradas desse álbum. Uma música brutal e complexa que raramente é feita nos dias de hoje.

"Jenny"

Embora, como eu disse, “Tapiman” tenha sido bem recebido pelos fãs e pela crítica e ter tido todos os predicados de seu pioneirismo, o álbum não foi bem sucedido nas vendas. Claro, porque, olhando para trás com perspectiva, pode-se perceber o quão estranho, arrojado e original foi este álbum. E como costuma acontecer, surgiriam os primeiros conflitos entre os integrantes do Tapiman.

Um dos primeiros problemas vieram com relação a seriedade com que os músicos não estavam levando no que diz respeito a condução da banda e isso, além de conflitos criativos, culminaram com a dissolução da banda no mesmo ano em que seu álbum foi lançado, em 1972. Max, por ser um músico mais experiente, vivia da música e exigia um nível de trabalho que Pepe e Tapi, aparentemente, não estavam dispostos a dar. Uma passagem, uma existência precoce e surgiu como um fenômeno da natureza.

Mas a história não terminaria em 1972. Em 2017, a abnegada gravadora Guerssen Records lançaria algumas gravações esquecidas de material restante e inacabado da primeira fase, diria da fase inaugural, do Tapiman, em 1971, resgatado pelo jornalista Alex Gómez Font, após localizar Miguel Ángel Nuñez, vocalista original da banda.

O álbum, intitulado “Hard Drive”, nos traz uma série de músicas com uma qualidade de gravação um tanto quanto precária, mas que só realçam, mais uma vez, a crueza e agressividade que fez do Tapiman a banda que foi: pesada e agressiva, trazendo a despretensiosidade ao seu DNA sonoro e que materializou em seu álbum lançado em 1972.

"Hard Drive" (1971 - 2017)

No final dos anos 1970 o Chapa Discos decidiu revitalizar o rock espanhol, materiais de bandas esquecidos pelo tempo, dos pioneiros do rock daquele país. Foram várias as bandas e, claro, o Tapiman não ficou de fora. Surgiria “Em Ruta”, em 1979. Um álbum ao vivo que foi reeditado e que trazia, além de Tapi, na bateria e vocal e Pepe Fernández no baixo e na guitarra, com mudança, teria Javier Moreno, ex Hot Panotxa.

Tapiman em 1979

“En Ruta” mostrou um Tapiman ainda vivo, mostrando seu habitual peso, seu hard rock potente e volumoso, mas faltou um pouco mais de atenção à banda por parte da equipe que o geria, bem como as intensas instabilidades que insistiram em rondar a vida da banda, muito graças a vida louca de Josep Tapi.

"En Ruta" (1979)

O primeiro álbum do Tapiman não é muito elaborado, porque é direto e cru, a síntese perfeita do que convencionamos de hard rock na sua gênese. O “power trio” espanhol sem dúvida foi um dos pioneiros do hard rock espanhol e serviu de referência para o rock espanhol, para a música pesada daquele país e ouso dizer de toda a Europa! Em 1994, Josep Tapi morreria deixando um legado de despretensiosidade do rock n’ roll e uma chama viva personificada no grande Tapiman.

“Tapiman” teve alguns relançamentos. Em 1993, no formato CD, na Espanha pelo selo PDI. Em 2003 foi lançado pela Guerssen Records e PDI, no formato LP. Em 2005 mais relançamentos na Espanha, novamente com a Guerssen e PDI: dois lançamentos no formato CD. E o mais recente, em 2012, no formato CD, pelo selo Picap, também na Espanha.





A banda:

Josep María Vilaseca "Tapi" na bateria e vocal

Max Sunyer na guitarra

Pepe Fernández no baixo

Com a minha menção honrosa ao fundador da banda, Miguel Ángel Nuñez, guitarrista.

 

Faixas:

1 - Wrong World

2 - Gosseberry Park

3 - Don't Ask Why

4 - Practice

5 - Paris

6 - No Chance

7 - Moonbeam

8 - No Control

9 - Jenny

10 - Driving Shadow (Pepe's Song)


 


"Tapiman" (1972)